Reflexões Astrológicas sobre a Realidade Brasileira

Dimitri Camiloto

 O autor, a partir da interpretação da Carta Astrológica traçada para o momento da independência do Brasil, discorre sobre a natureza do país e seus eventos históricos mais importantes.

Considerações Iniciais

 É sabido que a interpretação astrológica de um país envolve os desdobramentos de vários eventos que antecedem e sucedem ao seu nascimento propriamente dito e, no caso brasileiro, temos como marcos fundamentais: o Achamento, a Primeira Missa, o início e o término do Tráfico Negreiro, o Brasil como sede do Império Português, a coroação de D. Pedro I, o Tratado da Independência, a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, além de uma ou outra efeméride de menor importância. Entretanto, é praticamente uma unanimidade entre os  astrólogos locais que o Grito do Ipiranga, quando foi proclamada a Independência do Brasil, fornece as coordenadas ideais que permitem uma abordagem precisa e profunda da realidade do país.

Historiadores do passado e do presente concordam sobre a hora em que o então príncipe regente nascido em Portugal, Pedro, decidiu a sorte do Brasil: foi por volta das 16:30h. Retificando o horário para 16:28h, teríamos o Meio-do-Céu em conjunção exata à posição do Sol da Proclamação da República (proclamada entre 15 e 16 de novembro de 1889), o que parece mais indicado. Utilizaremos, neste ensaio, a data de 07.09.1822, às 16:28 h, na cidade de São Paulo.

Independência do Brasil

Curiosidade

Introdução

 De acordo com os dados apresentados, temos um país com o Sol em Virgem, Ascendente em Aquário e Lua em Gêmeos. Os regentes do mapa, Saturno e Urano, encontram-se em Touro e em Capricórnio, respectivamente, sendo que Urano está em conjunção Netuno. Mercúrio, dispositor do Sol, está domiciliado em Virgem. Outro dado importante é a conjunção entre Lua e Júpiter.

Sol em Virgem, casa VII

 Como podemos observar, o Sol está na casa VII, o que permite desde já conclusões fundamentais. Tendo sido a independência proclamada pelo príncipe herdeiro do próprio império colonial português, vê-se que a emancipação do Brasil foi feita pelo homem que representava melhor do que ninguém os laços com a antiga ordem. Afinal, Pedro foi coroado imperador e tornou-se o primeiro governante do novo país, mesmo sendo português. A este fenômeno, cujas causas remetem ao estabelecimento do Brasil como sede do império luso em 1808, catorze anos antes, convencionou-se chamar de interiorização da metrópole.

Durante as guerras napoleônicas a Corte Portuguesa optou por deixar Lisboa e estabelecer-se no Rio de Janeiro, isto é, na própria colônia*. Caso único de uma dinastia européia a cruzar o oceano e chegar à América, tendo inclusive coroado um rei no Rio de Janeiro, o fato do Brasil ter se tornado a sede do Império Luso foi decisivo para que o processo de independência brasileiro fosse completamente diferente dos demais movimentos emancipatórios envolvendo as jovens nações americanas. Arrasado pela invasão francesa, nesta época Portugal, de certa forma, torna-se “colônia” do Brasil. Alguns historiadores chegam a afirmar que foi Portugal que, em 1820, proclamou sua “independência” do Brasil. Os fatos indicam, portanto, um caso único de simbiose entre metrópole e colônia às vésperas do nascimento do novo país, simbolizado pela presença do Sol em Virgem na casa VII. Apesar de essencial, este é apenas um pedaço do quebra-cabeça.

* É necessário ressaltar que antes da transposição da sede do Império Português para o Rio de Janeiro (1808) se falava em “os brasis”. A cristalização da imagem do Brasil como uma unidade mais coesa política e territorialmente ocorre, principalmente, a partir da chegada da Corte.

O Sol em Virgem e na casa VII também está diretamente relacionado ao fato de que a vida no país girava, naquela época, em torno de um intercâmbio incessante com Portugal, Angola e Inglaterra.

Independência sem Quebra de Vínculos

De Portugal tivemos o elemento colonizador, decisivo até mesmo na independência e na dinastia que aqui continuaria a se estabelecer por mais de 65 anos. Radicados na capital do novo país – o Rio de Janeiro -, os “portugueses” eram mesmo uma força dominante e controlavam o imenso território com mão de ferro. A cidade teve um papel decisivo no processo de interiorização da metrópole e na relação com Portugal, Angola e Inglaterra, posto que o Rio de Janeiro sempre foi a “porta de entrada” do Brasil.

Durante a assinatura do tratado em que Portugal e Inglaterra reconheceram a independência do Brasil, em 1825, foi incluída uma cláusula secreta que garantia o pagamento de 2,5 milhões de libras esterlinas a Portugal. Curiosamente, este havia sido o mesmo valor que Portugal tomara da Inglaterra para financiar a guerra contra independência, anos antes. A Corte Portuguesa (ou seja, a família de D. Pedro I) ficou com 600 mil libras esterlinas e o restante, com a Inglaterra. Quando chegou a hora de realizar o pagamento e o fato tornou-se notícia, foi um escândalo. Mesmo após a independência do Brasil D. João VI, rei de Portugal, continuou a assinar documentos como “Imperador do Brasil”. A idéia inicial da dinastia portuguesa era de que houvesse uma só nação e dois reinos. Mesmo após a independência D. Pedro I continuou influindo na sucessão portuguesa, primeiro em proveito próprio, depois em favor de sua filha.

Pedro, aliás, chegou a ser rei de Portugal durante um período de sete dias, em 1826. Mesmo tendo renunciado aos seus direitos, sua relação com os assuntos internos de Portugal foi extremamente intensa, tendo contribuído inclusive para minar sua popularidade no Brasil.

De Angola tivemos o intenso vínculo (e dependência comercial) que tinha como pilar o tráfico negreiro, fator crucial no povoamento desde meados do século XVI. É conhecida a importância de diversas etnias africanas na gênese do Brasil. Naturalmente que este vínculo sempre excedeu largamente a parte puramente econômica, havendo uma completa permeabilidade osmótica entre África e Brasil desde os tempos primordiais. E a influência do Brasil, na África, teve igual dimensão. “As trocas sempre se deram nas duas direções, e dos dois lados do Atlântico ficava-se sabendo o que acontecia”. Após a independência do Brasil cogitou-se que Angola, em vez de continuar a fazer parte do Império Luso, deveria tomar parte no novo império que nascia nos trópicos. Dois reis africanos, em Benin e no Lagos, foram os primeiros a reconhecer a independência brasileira, ainda em 1822. Em 1838, 16 anos após a independência, o Rio de Janeiro tinha 37 mil escravos numa população de 97 mil habitantes.

Temos ainda, como “parceria” (casa VII) no processo de independência do Brasil a presença da Inglaterra, que praticamente tutelou o nascimento do novo país. Quando a corte portuguesa fugiu de Napoleão rumo ao Brasil e tornou o Rio de Janeiro capital de seu império, foi a Inglaterra quem garantiu a segurança da travessia marítima de cerca de quinze mil portugueses, além da família real. A contrapartida de Portugal, ainda em 1808, foi garantir a quebra de seu monopólio comercial abrindo os portos brasileiros aos produtos ingleses a módicas taxas alfandegárias, inferiores até mesmo às taxas portuguesas. As bases deste tratado comercial permaneceram após a independência do Brasil e vigoraram até o final do que havia sido estabelecido por portugueses e ingleses, a década de 1840. Esta foi outra concessão embutida no tratado de 1825. A Inglaterra foi a grande beneficiária com a independência do Brasil, eliminando definitivamente a intermediação portuguesa para livremente fazer os seus negócios.

Não há como entender o nascimento do Brasil sem levar em conta o caráter central que o comércio triangular com a África e a Europa tinha para o país, dotado de posição estratégica no Atlântico Sul. A dependência do Brasil em relação a Portugal, Inglaterra e Angola era evidente no momento em que o país começa a caminhar com os próprios pés, e dá mostras da sua importância através da casa em que o Sol se encontra.

A Dinâmica da Organização do Trabalho, da Hierarquia e da Vocação Agrícola

 Contudo, mais importante ainda que o vínculo com Portugal, Angola e Inglaterra (casa VII) é o modo arraigado como o sistema escravocrata de produção controlava a sociedade e a economia do Brasil, permanecendo a dirigir a vida do país por mais de 65 anos após a independência. Como é ponto de consenso que Virgem rege o trabalho, vislumbramos a característica mais marcante do passado brasileiro: o fato ter sido a maior nação escravista da era moderna e a última a pôr fim a este sistema de produção econômica, posto que sua força de trabalho vinha de fora, da África, e toda a lógica de geração e exploração de riquezas era dirigida por este sistema, com conseqüências inevitáveis para a sociedade, especialmente do ponto de vista hierárquico.

Na mentalidade de uma sociedade escravocrata o trabalho era algo a ser repudiado, coisa de inferiores, de outros enfim. E esta aversão, esta alteridade em relação ao trabalho, não apenas se resume às classes de senhores e de escravos, mas a toda a sociedade “branca”, ou melhor, “livre”. Mesmo os negros libertos tinham seus escravos e seguiam a orientação tradicional (Virgem). A oposição entre senhores e escravos estendia-se a toda a sociedade, independente de parâmetros étnicos, e envolvia também variáveis econômicas e nobiliárquicas. A nação brasileira veio ao mundo fundada nestes princípios, que ainda hoje reverberam na vida do país.

De modo que outro ponto relacionado ao Sol em Virgem brasileiro é o fato de sua sociedade ter tido desde o seu início uma forte organização hierárquica distribuída em três castas fundamentais: o clero, os senhores e os escravos. Assim, “com cada coisa no seu devido lugar”, o Brasil dava os seus primeiros passos. Mantínhamos o sistema monárquico com a permanência da dinastia de Bragança, o tráfico de escravos persistia e se ampliava e éramos extremamente dependentes da Europa e da África.

O Sol em Virgem caracteriza ainda a forte produção agrícola voltada para o mercado externo através das monoculturas do açúcar, do tabaco e do café; os dois primeiros presentes inclusive na bandeira criada após a independência. Considerado um dos “celeiros do mundo” desde o início dos tempos de colônia, as privilegiadas condições naturais e climáticas, além de sua biodiversidade, caracterizam uma grande fonte de integração com as demais nações, através do comércio (casa VII e trígono para Saturno na casa III).

Ascendente em Aquário

 Num sentido amplo, o Ascendente Aquário deve ser pensado como a natureza excêntrica e moderna inerente ao Brasil. Como vimos, parte da excentricidade teve origem 14 anos antes da independência, em 1808. Com a transposição da capital do reino português para o Rio de Janeiro e a coroação de um monarca europeu em plena colônia*, as condições que antecederam a criação do país foram totalmente diversas das demais colônias do continente americano. É consenso que o processo de independência teve início com a instalação do governo português no Brasil, o que tem íntimas correlações com as complexas ambigüidades que envolveram a vida nacional logo em seguida ao processo de emancipação.

* Em realidade, nesta época (1818) o Brasil já tinha sido elevado à categoria de Reino Unido, junto com Portugal e o Algarve.

O Brasil terminou optando pelo regime monárquico diferenciando-se radicalmente das demais nações americanas, cujo destino parecia mais afeito ao sistema republicano, de acordo com a “lógica histórica”. Afora tentativas efêmeras no México e em uma ou outra nação, a monarquia brasileira, com quase 70 anos de duração, foi um caso único. A manutenção da ordem escravista também está relacionada a este caráter “excêntrico”, ainda que Aquário seja idealizado como um signo vinculado à idéia de igualdade social.

Outro dos fatores que caracterizam a excentricidade do Brasil enquanto nação americana é a língua portuguesa. Em se tratando da América do Sul, esta diferença é ainda mais marcante, o que não pode ser desprezado do ponto de vista da alteridade, criando uma dinâmica específica de intercâmbio, ou mesmo contribuindo para que a compreensão mútua fosse por vezes rarefeita ou coberta de curiosidade e estranheza.

Finalmente, o país conseguiu manter a sua integridade territorial, o que não ocorreu com as demais capitanias-gerais e vice-reinados da América Espanhola. Muitos desses países, mesmo depois de independentes, vieram a se desmembrar ou perderam territórios. Como a independência brasileira é tardia se comparada com a maioria de seus vizinhos, o fantasma do desmembramento foi decisivo para tornar exponencial a ânsia de manter a integridade territorial a qualquer custo.

Ainda em relação ao Ascendente em Aquário, temos o caráter moderno da sociedade brasileira e este é mais um dos fatores que evidenciam uma de suas principais contradições. O fato de o Brasil ter sido um imenso canteiro de miscigenação e de intercâmbio cultural entre índios, europeus, africanos e outros povos, somado às demais peculiaridades do processo histórico brasileiro, teve como resultado um verdadeiro laboratório onde o hibridismo deu origem a um corpo cultural altamente singular e ajudou a criar o mito/falácia da “democracia racial”.

O sincretismo religioso é um dos aspectos mais evidentes da poderosa miscigenação que gerou o Brasil, característica que discutiremos mais à frente. Já a expansiva sociabilidade dos brasileiros é outra faceta relacionada ao Ascendente em Aquário. O Brasil é o país onde, por exemplo, os internautas gastam mais tempo conectados em virtude da disponibilidade de ferramentas de interação online e das redes de socialização virtual, que exercem imensa atração sobre as possibilidades de interação e de novas amizades para a população.

Finalmente, e apesar do caráter hierárquico e conservador de sua sociedade, uma das máximas da vida brasileira é que “não existe pecado do lado de baixo do Equador” e o país é de fato visto (Ascendente) como um povo “informal” e “transgressor” em diversos aspectos, como no caso do mito da sexualidade brasileira, por exemplo, ele mesmo altamente contraditório, pois o Brasil é um país altamente machista.

Em suma, o Ascendente em Aquário aponta para uma característica essencial da sociedade brasileira e a forma como ela é vista pelos demais povos: sua modernidade excêntrica, misturando originalidade, contradição, estranhamento e transgressão.

Lua-Júpiter em Gêmeos

 Como tradicionalmente a Lua simboliza aspectos cruciais sobre a população de um país e Júpiter está em conjunção exata a ela, constatamos novamente a importância do fator imigratório para compreender as peculiaridades do povo brasileiro. Temos, outra vez em primeiro plano, a presença marcante de portugueses e africanos, seguidos em menor peso de italianos, espanhóis, árabes, japoneses e demais nacionalidades. Por outro lado, na época da independência, os índios já se encontravam distantes da Corte e, de certa forma, dos principais núcleos de povoamento da sociedade nacional.

Concentremo-nos, pois, nas principais matrizes da população brasileira, a indígena, a ibérica e a africana. Desconfia-se que haja pistas longínquas, mas não se sabe realmente de uma grande civilização pré-colombiana no Brasil. Nos séculos que se seguiram ao achamento, o confronto entre a Coroa Portuguesa e os jesuítas estancou um processo missionário que poderia ter tido a magnitude da experiência paraguaia. Os índios no Brasil estavam relativamente dispersos e em número não muito grande quando os portugueses lá chegaram. Na maioria das vezes o que houve foi o extermínio puro e simples como, aliás, em toda a América.

Os índios que se integraram à sociedade trazida pelo homem branco rapidamente se misturaram aos portugueses e os negros e, num grau maior ou menor, foram perdendo gradualmente a identidade “original” em prol das vantagens indispensáveis em barganharem uma identidade “brasileira”, posto o complexo sistema hierárquico a que tinham de se submeter. Por outro lado, os grupos indígenas que buscaram o isolamento penetraram cada vez mais os sertões e, em especial, a região Norte.

Voltemos ao ponto em questão, a Lua junto a Júpiter em Gêmeos e na casa IV. Temos aqui uma importante fonte de interpretações simbólicas sobre as origens e o passado. Naquele Brasil de 1822 a predominância da etnia nativa já era coisa do passado e, para a sociedade nacional, uma população muito distante; verdadeiros estrangeiros nos confins do país. É interessante observar que após a independência houve um processo de idealização do mito indígena pelo Romantismo oficial, que visava forjar uma identidade comum e promover a diferenciação em relação aos portugueses, muito em função da precária coesão social de uma sociedade profundamente hierárquica e cindida. Mas, nos sertões, as aldeias que entravam em contato com a expansão migratória da sociedade nacional ficavam na penúria.

Temos em seguida os portugueses que, mesmo após a independência, simplesmente não viam sentido em se afirmarem brasileiros. E, quando o faziam, buscavam como modelo a Europa e demonstravam um etnocentrismo radical em relação aos negros e aos mulatos. Ser português era ser, essencialmente, “branco” e, numa sociedade que perpetuava a relação entre senhor e escravo tendo como orientação hierocrática o catolicismo romano isto era o fator predominante na distinção.

Os negros, que chegaram já no século XVI e em número cada vez maior, fecham o grupo das etnias básicas que compõem as origens primordiais do povo brasileiro. Como se sabe, representam desde o início uma poderosíssima fonte de práticas e valores culturais, seja na religião, nos costumes, na música, na alimentação, nos artefatos, enfim, em quase todos os aspectos da vida brasileira.

O mais curioso é que apesar de todo o caráter hierárquico da sociedade essas três etnias se fundiram de modo espantoso, como em poucos lugares do mundo. E, a elas, se juntaram os grupos que vieram depois. O contato (Gêmeos) inter-étnico (Lua, Júpiter) foi capaz de criar, ao longo tempo, uma forte identidade brasileira* (Lua, Júpiter), ainda que, em realidade, ela seja plural (Gêmeos).

* Observe que a Lua é o dispositor da casa V, um setor fundamental para a “identidade”.

Ademais, desde os primórdios convivemos com regionalismos marcantes: baianos, fluminenses, pernambucanos, paulistas, gaúchos, mineiros e uma série de outras denominações localistas que, mantidas sobre o mesmo país, revelam as dimensões continentais do Brasil, afinal, a casa IV também diz respeito à base territorial.

Percebe-se, então, o caráter sincrético e multidimensional inerente à população brasileira; este é um dos fatores cruciais para se compreender sua “identidade”. Todavia, no plano hierárquico tinha-se de fato uma sociedade de castas. Esta é uma das principais contradições relativas ao nascimento do Brasil e tem como referência imediata a quadratura entre o Sol em Virgem na casa VII e Lua-Júpiter em Gêmeos na casa IV.

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De modo que existe, neste significativo encontro de povos, uma generosidade inata, a enorme curiosidade pelo outro, a preguiça paradisíaca e uma inocência näif; num país erigido sobre a cobiça, o egoísmo, a exploração, a rigidez e o preconceito. Ambigüidades que se tornam mais claras através da percepção do alcance simbólico da quadratura Sol X Lua-Júpiter.

Como a Lua e Júpiter encontram-se na casa IV, notamos a importância da questão fundiária e, novamente, a força da agricultura. O Brasil teve importante papel no imaginário quimérico sobre o Novo Mundo, muito em razão de suas excepcionais condições naturais. Por sua vez, a unidade básica de ocupação das terras sempre foi o latifúndio, onde o verdadeiro lavrador não era dono nem da terra e em grande parte das vezes nem de si mesmo. A concentração das terras nas mãos de “portugueses” permaneceu após a independência (Sol na casa VII em quadratura a Lua-Júpiter na casa IV). Todavia, a produção agrícola brasileira sempre foi das maiores do mundo, primeiramente através de monoculturas como a do açúcar, do tabaco e do café, posteriormente com uma enorme variedade de outros produtos da terra. Dentro do universo dos produtores tropicais, o Brasil sempre teve uma posição de forte destaque.

Do ponto de vista da ocupação do território sul-americano, a migração da população brasileira teve uma expansão formidável que, por fim, ultrapassou em larga escala as linhas limítrofes do velho Tratado de Tordesilhas. A diversidade de brasileiros, que ultrapassa inclusive a miscigenação original, criou diversos tipos que se espraiaram pelo vasto território se adaptando a condições naturais específicas e gerando culturas locais de uma riqueza impressionante. No início do Brasil independente, a única forma de manter o território e esses diversos tipos regionais sob o controle do governo central, sediado no centro-sul, foi o uso da força (Sol quadratura Lua-Júpiter). Outro detalhe determinante: os brasileiros têm necessariamente parte importante de sua identidade forjada na diferença lingüística em relação aos demais países da América do Sul.

Saturno, Urano e Mercúrio

 Por possuir Ascendente em Aquário, o Brasil tem como regentes do Mapa da independência Saturno e Urano. Mercúrio é o dispositor do Sol, da Lua e de Júpiter.

Saturno, regente do Ascendente, em Touro e na casa III

 Saturno está em Touro, na casa III, assinalando a tradicional imagem de país vinculado ao comércio de gêneros agrícolas e minérios, dentro do qual, desde os primórdios da era moderna, teve destaque. Vê-se aqui ainda a rigidez com que suas diversas regiões mantiveram-se unidas, e a dificuldade em integrá-las através dos mecanismos de transporte, além das graves deficiências em educação.

Marte, dispositor da casa III, está em oposição a Saturno e, da casa IX, indica as tensões relativas ao movimento de ocupação do território. A vocação “bandeirante”, entretanto, fica explícita pela casa e pela condição de domiciliado (Escorpião), além da conjunção entre Lua e Júpiter. Vê-se a natureza expansionista da sociedade nacional, a despeito das dificuldades de interligação regional. Por outro lado os brasileiros mantiveram, após a independência, o frenético tráfico no Atlântico Sul, dominando por um bom tempo o comércio local, e até mesmo chegando ao sudoeste da África. Marte, que também é co-regente do MC, representa a principal atividade econômica e fonte de poder naqueles tempos, o tráfico negreiro, que envolvia o transporte de pólvora, aguardente e tabaco para a África e o fornecimento de escravos para o Brasil. Seguindo este encadeamento simbólico, constata-se que a oposição Marte-Saturno também reflete o profundo medo que se tinha do fim da escravidão, por motivos que vão desde os temores de quebra econômica até o verdadeiro pavor de que o Brasil seguisse o caminho haitiano. A oposição, portanto, representa o verdadeiro engessamento social e freio no desenvolvimento que a perpetuação da escravidão produziu.

Além de ser um dos regentes do Ascendente Saturno governa a casa XII, espaço de análises cruciais, como veremos mais à frente. Por ora, fica insinuada novamente a questão da escravidão e, de maneira geral, dos bastidores da vida brasileira.

A casa em que Saturno se encontra (III) diz respeito ainda aos vizinhos imediatos, sendo que no momento de seu nascimento, o país imaginava que por fato e direito suas fronteiras deveriam se situar “entre os dois grandes rios” (Prata e Amazonas).

Naturalmente que as coisas não eram tão simples assim e, nos anos imediatamente posteriores à independência o Brasil envolveu-se num confronto com a Argentina, em virtude da Banda Oriental. Por outro lado, Marte na casa IX indica tanto as ambições territoriais brasileiras como a presença de uma potência estrangeira na contenda, a Inglaterra, intervindo em favor da criação do Uruguai, criando um empate na disputa com a Argentina e fazendo justiça ao caráter historicamente singular do porto de Montevidéu. Há que se frisar, aqui, o caráter exponencial da presença do Barão de Mauá na vida financeira do novo vizinho, decisiva nos primeiros anos de sua formação.

Houve ainda outra guerra contra a Argentina, mais especificamente com a província de Buenos Aires, logo no início da década de 1850 e vencida pelo Brasil em apenas um confronto, tendo como aliados o Uruguai (principal interessado) e ainda as províncias rebeldes de Entre Rios e Corrientes. Durante a contenda, o Brasil reconheceu a independência do vizinho Paraguai.

Contudo, o grande conflito regional viria a ser justamente a chamada Guerra do Paraguai, em que formou a Tríplice Aliança (com Argentina e Uruguai) contra o país sem saída direta para o oceano. De modo que a oposição entre Marte em Escorpião na casa IX e Saturno em Touro na casa III pode ser entendida como a tensão inerente ao movimento expansionista brasileiro e a resistência vizinha a essa expansão.

Urano, co-regente do Ascendente em Aquário, em Capricórnio e na casa XI

Urano, o outro regente do Mapa, é um caso a parte. Pontuando o início do primeiro ciclo Urano-Netuno em Capricórnio, o país ganha sua independência no clímax do encontro de ambos (conjunção exata). Por ter o Ascendente nos últimos graus de Aquário a casa I brasileira é em grande parte focada no signo de Peixes, o que cria uma instigante simbiose. O eixo nodal traz o Nodo Norte na casa XII, em Aquário. Júpiter, o outro regente de Peixes, está conjunto a Lua.

Temos, desta maneira, uma combinação de elementos uranianos e netunianos (e, naturalmente, aquarianos e piscianos). De fato, Urano e Netuno formam um dos principais canais de expressão da excentricidade e do caráter moderno da sociedade brasileira. Este canal está inerentemente ligado ao processo de miscigenação formado nos trópicos, colocando em ebulição a inventividade, a negação da ordem tradicional (Urano), a inspiração e o caos (Netuno). O estado astrológico que esta conjunção em Capricórnio possui na Carta aponta detalhes importantes do caminho muito particular pelo qual o Brasil seguiu enquanto o mundo vivia a assimilação da ordem capitalista e da industrialização, no início do século XIX. Revela, sobretudo, boa parte das soluções encontradas e dos desvios tomados desde então. Urano-Netuno em Capricórnio representa, para o Brasil, a permanente utopia em ser o “país do futuro”.

Os trígonos que Saturno aplica para Urano-Netuno são de especial importância devido ao fato dos regentes do Ascendente estarem envolvidos. As casas são a III e a XI, dando ênfase à inserção diplomática no mundo e de seu papel na busca do entendimento global. O país é o primeiro orador nas assembléias gerais da ONU e teve participação importante na criação do órgão. O próprio edifício da entidade é criação de um brasileiro, Oscar Niemeyer, considerado uma das principais referências da Arquitetura Moderna. Um papel que cabe ao Brasil é o de tomar parte na liderança junto aos países subdesenvolvidos e, de fato, trata-se de um país amadurecido do ponto de vista de suas relações internacionais. Em se tratando de três planetas lentos e de destaque crucial na Carta em questão, convém observar que a configuração está ligada a processos de longo prazo, na temporalidade específica que concerne às nações de modo geral.

Como o regente do Ascendente é em grande parte responsável pela imagem que se tem de um ente qualquer, temos no Carnaval, considerado um dos maiores “espetáculos” e “festas” que existem, um elemento de caracterização do que venha a ser a natureza brasileira pelos estrangeiros. A originalidade da música brasileira é outro fator e correntemente mencionado, assim como os mitos da liberdade sexual e da tolerância racial. A conjunção com Netuno e o trígono com Saturno, amplificam certas perspectivas vistas de fora.

A imagem do Carnaval é relativamente recente e chega ao resto do mundo na década de 1940 com “Aquarela do Brasil”, de Ari Barroso. Nas últimas décadas a alegria, o luxo, as mulheres, o samba, as inovações técnicas dos carros alegóricos e dos efeitos especiais e, principalmente a organização do desfile das Escolas de Samba no “sambódromo” do Rio de Janeiro, faz com que os cariocas se gabem de terem criado o “maior espetáculo da Terra”. O país tem intimidade com os grandes eventos e concebeu o histórico Rock in Rio na década de 1980.

Mas o carnaval brasileiro não é apenas o desfile das escolas, e quem visita qualquer cidade local percebe uma diversidade impressionante, onde os regionalismos enriquecem um mosaico de manifestações de alegria e música. A Bahia, por sua vez, mantém uma ponte cultural permanente com a África e a Europa, num triângulo que, de certa forma, nunca deixou de existir (e aqui, mais uma vez, vislumbramos o Sol na casa VII).

O país mundialmente conhecido por sua música não respira apenas Samba, e criou no século passado um dos mais importantes movimentos musicais, a Bossa Nova. Independente de sua projeção externa, o Brasil possui uma forte indústria cultural e, neste caso, a conjunção Urano-Netuno em Capricórnio simboliza a importância da televisão brasileira, em especial da Rede Globo. O país é pioneiro em sufrágios digitais e em programas de combate a Aids. Para os brasileiros, Santos Dumont é o verdadeiro pai da aviação.

Outro tema que é a cara do Brasil é o Futebol, um esporte que se massifica no país na passagem da década de 1910 para 1920. O esporte de ricos rapidamente caiu nos pés do povo, que o adotou como se o tivesse criado. A grande festa da Copa do Mundo de 1950 contava com o maior estádio do planeta e, comemorando o título desde a véspera, só faltou combinar com o Uruguai para que o campeonato viesse no dia seguinte. Aliás, o país das festas é também o país das grandes decepções: a conjunção entre Urano e Netuno (além da conjunção entre Lua e Júpiter) indica um país volátil emocionalmente, com muitos altos e baixos.

Mas, como dizia o dramaturgo Nélson Rodrigues, poderíamos dizer que, em relação ao futebol, o Brasil superou o “complexo de vira-latas”, exorcizando o fantasma de 1950 e se tornando o principal vencedor, além de ser o único país a vencer em continentes que não o seu. Em casa, entretanto, ainda permanece a lacuna. O futebol é um esporte coletivo (Aquário) jogado com os pés (Júpiter, Netuno).

Ademais, o trígono entre os regentes do Ascendente, Saturno e Urano, também diz muito sobre o país que possui a 5ª maior extensão territorial, e fronteiras com uma dezena de vizinhos (casas III e XI). Esta configuração ressalta novamente a capacidade agrícola, a riqueza em minérios, o potencial energético e industrial e o considerável tamanho de seu mercado interno. No século XIX o Barão de Mauá foi, sem dúvida, um dos maiores banqueiros e empreendedores fora do eixo Europa-EUA, chegando a associar-se ao Barão Lionel de Rothschild.

A conjunção Urano-Netuno reflete outras características, como a força de sua burocracia cartorial (Capricórnio, e também Virgem), que opera com um alto índice de funcionários públicos e de deliberações oficiais de um lado, e de numerosos membros de uma economia informal inserida numa sociedade marginal de outro (Urano, Netuno).

Mas talvez o exemplo mais evidente que a conjunção Urano-Netuno em Capricórnio e o trígono de ambos com Saturno indiquem seja a pluralidade das manifestações culturais e espirituais do Brasil, gerada através de um sincretismo sólido advindo da mestiçagem e que deu origem a uma forte identidade nacional, ou melhor, “brasileira”, a despeito de seus eventuais conflitos regionais mais sérios, que praticamente cessaram na metade do século XIX.

Do ponto de vista mais netuniano, englobando a espiritualidade e a religião, há que se ressaltar o profundo sincretismo do país com o maior número de católicos que existe, gerando um diálogo permanente (ora bom, ora ruim) com as fortes tradições africanas oriundas do Candomblé e misturado a elementos de natureza indígena. Ademais, o país deu origem à Umbanda, uma religião surgida na passagem entre os séculos XIX e XX, de caráter extremamente moderno, e que contém elementos do Candomblé africano, do Kardecismo francês, da Teosofia e do Ocultismo, das religiões monoteístas e orientais e de mitos indígenas. Assim como o país faz uso de um rico e extenso manancial de conceitos para definir o grande mosaico racial que o constitui, as diversas confissões religiosas individuais sempre apresentam uma posição variável dentro do complexo gradiente cujos pólos são, essencialmente, as tradições cristãs e africanas. Note que a conjunção entre Lua e Júpiter também configura um terreno fecundo para o entendimento da dimensão espiritual na vida dos brasileiros*.

* Neste caso, Lua e Júpiter estão em Gêmeos, signo dado ao “diálogo”.

Por todos os elementos expostos acima, a conjunção Urano-Netuno reflete um poderoso canal de afirmação da identidade brasileira.

Mercúrio, dispositor do Sol em Virgem, na casa VIII

Mercúrio é outro planeta de destaque na Carta brasileira, especialmente porque é o dispositor do Sol, da Lua e de Júpiter e está dignificado no signo de Virgem. Temos, assim, uma importante coordenada astrológica que toca em aspectos essenciais para a compreensão do país.

Como procurei demonstrar, Sol em Virgem na casa VII assinala a importância das relações com Portugal e a África (notadamente Angola) e, ainda, com a Inglaterra, quando o Brasil se torna independente. Mercúrio, na casa VIII, indica toda uma herança que o novo país incorpora através do antigo intercâmbio europeu e africano, e que permanece após o Grito do Ipiranga.

Se de Portugal o Brasil herdou a dinastia de Bragança (e, naturalmente, a própria Monarquia), com a África o país manteve as intensas relações comerciais estabelecidas pelos portugueses e que tinham como núcleo o tráfico negreiro. Assim, as “relações carnais” entre Portugal, Angola e o Brasil deram a este último a sua forte vocação agrícola (Virgem) e escravista (casa VIII) através de uma rede comercial de grande vulto (Mercúrio domiciliado).

Os recursos naturais do Brasil sempre foram abundantes e a lógica da exploração portuguesa foi uma consumação das riquezas ancorada no desmatamento florestal realizado por escravos. A terra, muito fértil, e o clima, favorável para a produção de gêneros tropicais que a Europa absorvia com voluptuosidade, tiveram nos engenhos portugueses com mão-de-obra das regiões da Guiné, Angola e Moçambique a combinação que colocou o Brasil no centro da distribuição de Açúcar, Tabaco e Café. A explosão do ciclo do ouro entre os séculos XVII e XVIII seguiu essa mesma lógica, intensificando a importação de africanos e a remessa de lucros para Portugal e, de lá, chegando a seu verdadeiro destino, a Inglaterra.

Mas, terminado o ciclo do ouro, o tráfico de escravos passou a exercer uma centralidade cada vez mais marcante na vida econômica do Brasil, já que eram os navios negreiros quem tinham o monopólio da alocação da força de trabalho nas transações com tribos e reinos africanos, onde trocavam pólvora, fumo e cachaça por “peças d’África”. Para conseguir os escravos junto aos traficantes, os latifundiários empenhavam a produção seguinte, dando aos comerciantes de escravos o controle do crédito na sociedade brasileira. Portanto, o traficante ficava no topo da vida financeira do país. Ademais, desde a vinda da Corte Portuguesa em 1808, em troca do providencial auxílio para os falidos cofres reais, sua ascendência social passou a ser cada vez maior.

Quando observamos a oposição entre Mercúrio na casa VIII e Plutão na casa II, percebemos a dimensão do que analisamos nos parágrafos anteriores. Como acusou Darcy Ribeiro, o Brasil é ainda um verdadeiro “moinho de gastar gente” e essa foi uma das bases de sua fundação. O mesmo pode-se dizer de suas riquezas –naturais ou não- e não à toa o país é o campeão do desperdício.

Depois de 13 anos como sede do Império Português (1808-21), o Brasil viu o rei D. João VI raspar os cofres e voltar para Lisboa. O retorno da Corte Portuguesa tendo Portugal novamente no centro da vida política do Império começou a fazer com que as pessoas se orgulhassem de chamarem-se de “brasileiras”. Percebendo o que estava por vir D. João disse ao filho de pouco mais de 20 anos, que ficava no Brasil como príncipe regente: “Pedro, se o Brasil se separar, antes seja para ti, que me hás de respeitar, do que para algum desses aventureiros”.

Sem mexer na ordem hierárquica e econômica, a independência do Brasil é proclamada no ano seguinte praticamente sem derramamento de sangue. A cláusula secreta no tratado de 1825, em que Portugal e Inglaterra reconheciam a independência do Brasil, estabelecia o pagamento de 2,5 milhões de libras esterlinas pelos brasileiros (dinheiro que Portugal tomou da Inglaterra para custear focos de resistência no Nordeste, em especial na Bahia), o que fez a nação adquirir uma grande dívida, que desde então atrela o país aos bancos internacionais (dispositor do Sol está na casa VIII, em oposição a Plutão na casa II).

Por outro lado, constatei que quando o trânsito de Plutão aplica aspectos para esta oposição temos importantes eventos ligados à ocupação da Amazônia. A oposição Mercúrio-Plutão indica a riqueza econômica do Brasil e o modo voraz como a exploração dessas riquezas vem sendo efetuada desde os primórdios da nação.

 Vênus, em Leão e na casa VI, em conjunção com o Nodo Sul

 Vênus é um planeta importante na Astrologia Mundial porque, entre uma série de atributos, caracteriza boa parte do modo como o convívio social ocorre dentro de um país. O signo, a casa e os aspectos que realiza indicam os valores, os padrões e o modo como as interações tendem a ocorrer dentro de uma comunidade específica.

Em primeiro lugar, há que se considerar a implementação (ou melhor, a continuidade) do sistema monárquico, donde o processo de “interiorização da metrópole” teve lugar. Vênus está em uma conjunção relativamente estreita com o Nodo Sul, e aqui também podemos buscar pela “herança” dos tempos de colonização.

Como alavanca para esta interiorização tenho buscado enfatizar neste ensaio o período imediatamente anterior à independência, quando o Rio de Janeiro foi sede do Império Português. Assim, o Brasil, no momento de sua -ambígua, é verdade- separação política de Portugal, mantém os princípios e as práticas da hereditariedade como hierarquias de status, raça, cultura e valores que predominavam no regime colonial.

Em seguida à independência o Brasil implantou um sistema nobiliárquico (Leão) de barões, duques, condes e demais distinções de natureza hierárquica que continuou a perpetuar um sistema de castas (casa VI). Basicamente voltada para a agro-exportação, essa nobreza latifundiária que não abria mão de manter a lógica colonial de produção (Vênus-Nodo Sul em Leão na casa VI) recebia títulos com nomes inspirados no Romantismo idealista que cultuava referências indígenas. Marqueses de Quixeramobim, viscondes de Maranguape e barões de Itaquatiá ostentavam cada qual a sua heráldica, com uma titulação maquiada de patriotismo em que as elites tentavam, a seu modo, consolidar uma identidade nacional (Vênus, regente do FC, numa Quadratura T com o Ascendente e o MC, e em oposição ao Nodo Norte).

Todos se orientavam por estes padrões hierárquicos, que mantinham a ordem estabelecida numa sociedade francamente patriarcal e patrimonialista, tão bem descrita por Gilberto Freyre em “Casa Grande & Senzala”. No livro, o antropólogo analisa as contradições e a dinâmica de um país fundado na dicotomia das relações entre Senhor e Escravo, esta profundamente permeada por um paternalismo autoritário. Como conseqüência e fruto desta perpetuação, o Brasil apresenta hoje uma das maiores taxas de desigualdade social no mundo. A justiça brasileira serve aos privilegiados que permanecem distanciados da massa dos excluídos. Uma burocracia cartorial de origem portuguesa ainda hoje persiste no país e, voltada para o benefício de poucos, contribui para engessar a dinâmica da sociedade brasileira em inúmeros aspectos.

“(…) no drama do ‘você sabe com quem está falando?’ somos punidos pela tentativa de fazer cumprir a lei ou pela nossa idéia de que vivemos num universo realmente igualitário. Pois a identidade que surge do conflito é que vai permitir hierarquizar. (…) A moral da história aqui é a seguinte: confie sempre em pessoas e em relações (como nos contos de fadas), nunca em regras gerais ou em leis universais. Sendo assim, tememos (e com justa razão) esbarrar a todo momento com o filho do rei, senão com o próprio rei”. *

 * DAMATTA, Roberto. Carnavais, Malandros e Heróis, Zahar, 1981, pp. 167.

 De modo que no Brasil as relações sociais se pautam especialmente através da inclusão ou da exclusão de cada um em um sistema que põe em primeiro plano a dimensão “pessoal” e uma poderosa rede de compadrios e favorecimentos mútuos em detrimento do “abstrato” e do “legal”, cristalizando, pois, uma hierarquia social que visa manter privilégios e o caráter distintivo das elites frente às noções universalistas de democracia, justiça e igualdade. No Brasil, valoriza-se a pessoa, e não o indivíduo.

Vênus indica aspectos importantes da vida econômica (até porque está na casa VI) e podemos enxergar aqui a manutenção dos latifúndios após a independência (Vênus rege o FC) e a importância da terra e do tráfico de almas para a ascensão social e a vida econômica em geral.

Todavia, temos aqui novamente uma coordenada que assinala a riqueza natural e cultural do Brasil, cuja magnitude é inegável. Reconhecidamente um dos países mais musicais que existem, vislumbramos aqui parte da explicação para a qualidade de seus compositores e instrumentistas, o luxo das escolas de samba e a riqueza dos elementos regionais. As festas (Leão) que norteiam o calendário oficial (casa VI) são abundantes, e geralmente evocam, até hoje, elementos da “realeza” que insistem em permanecer no imaginário local. Os africanos, que vinham de terras onde já estavam habituados a conviver com reis e rainhas, rapidamente tomaram parte na lógica da nobreza, misturando tradições africanas com valores da realeza e ritos cristãos nos festejos, e ratificando instintivamente o sistema hierárquico na composição do caldeirão cultural brasileiro.

Vê-se ainda, nesta coordenada específica, a magnitude territorial frente aos vizinhos (Vênus-Leão-Casa VI) e parte do caráter individualizante em relação a eles, principalmente por uma de suas maiores heranças portuguesas, a língua.

Marte em Escorpião, na casa IX e Plutão em Áries, na casa II

Marte e Plutão regem o MC da Carta brasileira e reverberam uma série de evidências sobre as características do governo, a governabilidade em si, aspectos da percepção externa e o modo como o Brasil caminha para o futuro.

Marte também é o dispositor da casa III e, domiciliado, forma uma oposição com Saturno (co-regente do Ascendente), conforme vimos anteriormente. Esta oposição denota a ansiedade em não apenas manter, mas em expandir a base territorial que, frente aos vizinhos hispânicos, foi vista como uma ameaça (Marte na casa IX). Marte também remete ao domínio do comércio no Atlântico Sul e a oposição com Saturno, por sua vez, a pressão inglesa pela supressão do tráfico, nas três décadas que antecederam o seu fim.

Outro ponto que foi mencionado anteriormente e diz respeito a esta oposição foi a dificuldade natural de integração em um território tão vasto. Até hoje o país, que incrivelmente teve a sua malha ferroviária diminuída de forma considerável nas últimas décadas por privilegiar o transporte rodoviário, tem péssimas estradas. O Brasil é o país com o maior índice de mortes no trânsito que existe.

Num eixo evidentemente caro à questão educacional, desde a alfabetização até o ensino superior e suas especializações, percebemos a oposição entre Marte e Saturno representando o nó da metrópole portuguesa, que intencionalmente vedava o desenvolvimento de universidades e relegava o ensino fundamental às últimas das prioridades. A despeito de uma ou outra faculdade necessariamente criada após o estabelecimento do Brasil como sede do Império Português em 1808, os brasileiros, mesmo após a independência, esmeravam-se em conseguir seus diplomas em Coimbra e nas demais cidades européias como Montpellier e Edimburgo, para ascenderem dentro da estreita rede de poder do Estado. Apesar da conhecida dedicação do segundo imperador do Brasil pelo seu Colégio Pedro II, o fato é que os ensinos fundamental e médio (salvo aquela exceção) não receberam prioridade alguma, num país que desde suas origens sempre teve um elevadíssimo índice de não-letrados e ainda hoje tem um enorme número de analfabetos funcionais.

Para se ter uma idéia, a primeira instituição universitária só vai surgir na segunda década do século XX, com a Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. De qualquer modo é nítida, até hoje, a canalização da maior parte dos recursos federais para o ensino superior, gratuito, que termina por beneficiar indivíduos oriundos das camadas média e alta da população, que têm acesso ao ensino básico de qualidade, público ou privado (dispositor da casa III na casa IX). Assim, o sistema educacional no Brasil termina por colaborar para a manutenção da desigualdade social e afunilar as chances de ascensão para a grande maioria cidadãos brasileiros. Para se ter uma idéia, o país está hoje em 76º lugar no ranking de ensino fundamental da Unesco, mas é o 15º na publicação de artigos científicos.

Marte está em sextilha exata com o também regente Urano e em outra sextilha muito estreita com Netuno, reiterando a consolidação da extensão territorial, o desejo de ter cada vez mais destaque no cenário internacional, a força de sua diplomacia e a engenhosidade criativa dos brasileiros. Vimos que a conjunção Urano-Netuno tem relação com o Carnaval e o Futebol e a posição de Marte acentua o alcance, a originalidade e a plasticidade destas manifestações da cultura brasileira, além de sua expansiva sociabilidade.

A hegemonia da seleção brasileira de futebol nos campeonatos mundiais é uma das principais fontes de orgulho e “sensação de poderio” do povo brasileiro, num país carente de “vitórias”, cujos fracassos sociais e a secular sensação de “desgovernabilidade” podem ser simbolizadas pela frustrante percepção dos próprios limites imposta pela oposição com Saturno. No entanto, as sextilhas de Marte com a casa XI indicam a aptidão constatada nos esportes coletivos, em especial o futebol e o vôlei. Estes esportes são sempre lembrados como “o Brasil que dá certo”. No caso do futebol, a superioridade de títulos em relação à Argentina e a animosidade que Maradona nutre por Pelé enche os brasileiros de orgulho.

Marte, na casa IX, tem implicações diretas com os poderes Legislativo e Judiciário no Brasil. A atual Constituição do país, de 1988, é simplesmente uma das mais modernas do mundo, com leis e dispositivos sintonizados com o que há de mais avançado em matéria de legislação (sextilhas com Urano e Netuno). Entretanto, grande parte das leis não vinga posta e extrema morosidade e os entraves na Justiça do país (oposição com Saturno). Em se falando estritamente da governabilidade do país, a oposição entre Saturno e o regente do MC caracteriza os altos e baixos e os freqüentes entraves no caminho do país que busca realizar o seu futuro.

O outro regente do MC é Plutão em Áries, na casa II. As marcantes quadraturas de orbes estreitas aplicadas a Urano-Netuno em Capricórnio representam o grande estorvo que mina e por vezes destrói o dinamismo e a vocação para a construção do próprio futuro simbolizada pelos trígonos que Saturno aplica para Urano e Netuno.

Como analisamos mais acima, Plutão está particularmente envolvido com a permanência do tráfico e da escravidão após a independência e a devastadora engrenagem do “moinho do gastar gente”. Plutão, na casa II, representa de fato a plutocracia corrupta que trabalha contra a promessa de uma sociedade universalista e plural (quadratura com Urano-Netuno na casa XI)*. O Brasil vem ao mundo com um rombo nos cofres públicos que, desde então, só fez crescer. Por outro lado, as ambições desmedidas dessa plutocracia atacam em cheio a própria vocação de sociedade sincrética.

* Nem sempre trabalha contra, aliás. O desfile das Escolas de Samba, no Carnaval, é financiado pelos banqueiros do “jogo-do-bicho” e da contravenção, um fato notório. O que só amplifica a idéia de contradição entre as dimensões legal e ilegal.

Outro ponto importante relacionado às quadraturas entre Plutão e Urano-Netuno é o fato do Brasil possuir a sexta maior carga tributária do mundo; no país trabalha-se cinco meses do ano apenas para pagar impostos.

As quadraturas entre Plutão, Urano e Netuno expõem a nu uma nação extremamente violenta, onde as armas de fogo matam mais do que na guerra do Iraque a cada ano e estão presentes no dia-a-dia das grandes cidades ou no campo. Temos então um país de incontáveis riquezas (Plutão na casa II) cujos fundamentos sociais excludentes (quadratura com a casa XI) ressoam de modo brutal no convívio social e no cotidiano, ameaçando a própria governabilidade (Plutão, regente do MC), como nos casos do Rio de Janeiro e de São Paulo, ou no campo, vide os pistoleiros da Amazônia.

A quadratura indica também a violenta repressão e aniquilamento dos movimentos insurrecionais ocorridos especialmente no Nordeste e no Rio Grande do Sul entre os anos que antecederam a independência e a década de 1840, para garantir o comando e a integridade territorial frente aos movimentos de emancipação regional, através do uso da força e de um centralismo político sediado na antiga capital (Rio de Janeiro) e respaldado pelo Centro-Sul, que sufocava as aspirações de maior autonomia provincial. O trígono entre Plutão (co-regente do MC) e o MC atesta a capacidade dos governos brasileiros em manter o território unido, assim como em superar as crises que eles mesmos provocam (quadraturas com Urano-Netuno).

Plutão e Marte sugerem ainda a imagem do próprio proclamador da independência, Pedro, cujo turbulento reinado oscilou de forma esquizofrênica entre medidas obsessivas de austeridade financeira e gastança despudorada, e entre a defesa do regime constitucional e o apego monárquico ao absolutismo.

O choque entre D. Pedro I e a Assembléia Constituinte, em virtude de seu desejo em instituir o Poder Moderador idealizado por Benjamin Constant e a tendência dos constituintes em aprovarem uma Carta na qual os poderes Legislativo e Judiciário estariam acima do imperador, leva Pedro a destituir a Assembléia. A primeira constituição do Brasil é imposta pelo Imperador em 1824, que queria poder dissolver a Câmara quando quisesse. Em contrapartida, vários estados do Nordeste se rebelaram contra a Constituição. O simbolismo deste embate pode ser representado pela quadratura entre Plutão (co-regente do MC) e Urano-Netuno na casa XI (Assembléia Constituinte). Nos dias atuais, o excesso de medidas provisórias do Poder Executivo está associado a este aspecto.

Pedro embarcou na ilusão de conquistar definitivamente a Província Cisplatina, declarando guerra à Argentina na derrota que resultou no nascimento do Uruguai. Boêmio, bom músico e com um voraz apetite sexual desde a adolescência, D. Pedro I teve 18 filhos conhecidos. Após a independência, aumentou drasticamente os limites de sua fazenda, com o caso indo parar na justiça. Casou-se por encomenda com Leopoldina da Áustria, tornada imperatriz do Brasil. Diz-se que ao vê-lo pela primeira vez, Leopoldina enamorou-se de imediato. Paralelamente ao casamento, Pedro teve uma relação apaixonada com Domitila de Castro, a quem nomeou dama-de-companhia da imperatriz e titulou Marquesa de Santos. Aos poucos a imperatriz Leopoldina foi caindo em depressão, tendo que conviver com a amante do marido no palácio.

Num episódio sinistro e criminoso, D. Pedro I teria dado pontapés na esposa quando esta estava grávida de três meses, com a imperatriz vindo a morrer menos de um mês depois. Sua morte chocou e revoltou o país contra o imperador, que afirmava ter visto em seguida o fantasma de Leopoldina no Palácio Imperial, passando a se sentir como que amaldiçoado.

O reinado de D. Pedro I (1822-31) é caracterizado pelo total descontrole das finanças públicas e o endividamento, além de uma governança caótica por subjugar o pragmatismo político com seu ego, buscando imitar toscamente o ídolo Napoleão, o mesmo que forçara seu pai a transferir a Corte Portuguesa para o Brasil, em 1808. Pedro criou uma situação tão insustentável (Marte, co-regente do MC em oposição a Saturno) que, mesmo com o apoio maciço do povo e das elites à monarquia, teve de renunciar ao trono de Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil em favor do filho e partiu para defender a ascensão de sua filha ao trono do Portugal, tornando explícito o fato de que mesmo com a independência a dinastia de Bragança não abria mão de controlar os dois países (Sol na casa VII). Três anos depois de abdicar do trono brasileiro D. Pedro morre de tuberculose, em Portugal, com a idade de 36 anos.

Como vimos, a conjunção Urano-Netuno está diretamente ligada à imagem do país (Urano, regente do Ascendente) e a quadratura com Plutão é o canal que caracteriza boa parte de uma visão externa muito negativa que se tem do Brasil, pelos padrões que expus nos parágrafos acima. A quadratura assinala ainda as constantes ameaças à normalidade democrática, ao desenvolvimento perene das instituições brasileiras, às esperanças de igualdade social, à riqueza de seu sincretismo e à originalidade de suas soluções para o mundo, fragilizando a confiança externa e contribuindo consideravelmente para a “má-fama”. Assim, se o envolvimento de Saturno com Urano-Netuno sugere riqueza, regionalidades que se costuram e catalisam a identidade nacional, a promessa da democracia racial e uma inserção positiva no cenário internacional; a quadratura com Plutão acusa a violência, o desperdício, a corrupção política que assola os 3 poderes e o enraizamento do poder oligárquico que despreza o objetivo maior do bem estar e da prosperidade coletiva.

No encontro dos ciclos Urano-Netuno, Urano-Plutão e Plutão-Netuno, a quadratura entre Urano-Netuno em Capricórnio e Plutão em Áries sintetiza as contradições entre o caráter moderno da sociedade brasileira e o arcaísmo de sua própria ambição destrutiva.

Nodo Sul em Leão e na casa VI, Nodo Norte em Aquário e na casa XII

O eixo formado pelos Nodos Norte e Sul é um importante foco de interpretação do “papel” que cabe a um país frente aos recursos e desafios que o constituem.

O Brasil possui o Nodo Sul em Leão, na casa VI, e em conjunção com Vênus. Como vimos acima, esta é uma configuração que sintetiza os padrões herdados na interiorização da metrópole portuguesa e o arcaísmo que ela consolidou. Todavia, a conjunção Nodo Sul-Vênus revela a manutenção da integridade territorial (Leão, casa VI) e também as enormes riquezas que o novo país possuía ao nascer, especialmente do ponto de vista de seus recursos naturais e da vocação agrícola (Vênus na casa VI). A combinação destes fatores resultou na permanência, desde os tempos de colônia, do grande latifúndio alicerçado na economia de plantation e mantido pela mão-de-obra escrava, gerando uma nação onde as valiosas riquezas estão concentradas nas mãos de uns poucos eleitos.

O Nodo Norte, em Aquário e na casa XII, é o outro pólo do eixo nodal. Como mencionei anteriormente, ele faz parte de um corolário de referências aquarianas e piscianas, como o Ascendente Aquário e a predominância de Peixes na casa I, as conjunções Urano-Netuno e Lua-Júpiter e o fato de um dos regentes do Ascendente, Saturno, reger a casa XII. Referências que se contrapõem diretamente ao destaque que os signos de Leão e Virgem, além da casa VI, possuem no Mapa do Brasil.

Saturno (co-regente do Mapa) está em trígono com o Sol e em quadratura para o eixo nodal. Como também governa a casa XII, indica como as negociatas e demais práticas suspeitas norteiam os caminhos do Estado, tendo sua origem na incorporação sistemática da corrupção inerente ao reino português.

Do ponto de vista antropológico vemos que o fato de ser a maior nação escravista da era moderna fez nascer no Brasil uma poderosa miscigenação, gerando o sincretismo cultural que se expressa de modo original através de esferas como a religião, a música e o esporte. Os trígonos que Lua e Júpiter aplicam para o Nodo reforçam a vocação “plural” de sua população.

Sob a ótica formal, percebe-se que no Brasil a dicotomia entre as dinâmicas da legalidade e da ilegalidade assume proporções abissais que, no entanto, se interpenetram de forma surpreendente. O formalismo arcaico de sua burocracia cartorial convive naturalmente com o caráter informal e excêntrico da enorme sociedade que fica à margem da ordem constituída. Temos aqui uma das práticas locais mais exacerbadas, a do “jeitinho brasileiro”, conjugando o drible às formas legais (muitas das vezes, opressoras) que orienta as ações individuais como modo de escapar às sempre precárias condições em que se encontra o povo. A este “jeitinho” corresponde a criatividade marginal que, por sua vez, cristaliza as transações obscuras, o não-cumprimento das leis, a criminalidade, a corrupção e o desvio. Contudo, esta criatividade também resulta em novas soluções frente às condições extremamente adversas, fazendo com que os administradores internacionais de empresas considerem o trabalhador brasileiro como um dos empreendedores mais originais que existem.

Conclui-se, assim, que o eixo nodal brasileiro, entre os signos de Leão e Aquário nas casas VI e XII, acentua a condição de nação situada na encruzilhada entre o arcaico e o moderno, entre a hierarquia e a tolerância cultural e entre a usura e o sublime. É neste eixo que encontramos uma poderosa expressão de síntese que conjuga todos os aspectos apresentados anteriormente. Esta encruzilhada fica sublinhada pelos quincúncios entre o Sol em Virgem e o Nodo Norte em Aquário e entre Mercúrio (dispositor do Sol) e o Ascendente, enfatizando o potencial inato e a dimensão trágica da realidade brasileira.

Comentário

O Quincúncio é um aspecto de 150º graus e não é uma unanimidade entre os astrólogos. Na tradição ptolomaica usam-se os aspectos de 0º, 60º, 90º, 120º e 180º graus. Aspectos derivados, 30º, 45º, 75º dentre outros, não se enquadram no ordem dos sólidos platônicos que  expressam o conceito aristotélico dos orbes planetários no qual Ptolomeu se baseou para fundamentar a teoria astrológica dos aspectos planetários. Kepler também demonstrou  que a harmonia das esferas é baseada nos aspectos ptolomaicos, ou seja, estes aspectos menores são funções matemáticas que servem para um geômetra, mas para a astrologia estes aspectos não são denotadores de influências relevantes e tampouco acrescentam algum traço significativo na análise de uma carta natal que se sobreponham aos aspectos maiores de razões harmônicas definidas pelo próprio mecanismo do estudo da astrologia.

César Augusto – Astrólogo

O Brasil e os Grandes Ciclos Planetários

 A título de conclusão deste ensaio e para melhor orientar aquele que se interessa em desvendar astrologicamente os caminhos do Brasil, convém atribuir destaque aos ciclos configurados pelas conjunções entre Urano, Netuno e Plutão.

Urano-Plutão

Em primeiro lugar temos o ciclo Urano-Plutão, que vêm ocorrendo nos signos de Touro e Virgem e, portanto, em sintonia com a marcante presença do Elemento Terra na Carta brasileira. A conjunção entre ambos no signo de Touro* (casa III), no início da década de 1850, formou trígonos com Urano-Netuno em Capricórnio e oposições com Marte na casa IX, pontuando o fim do tráfico negreiro e do tratado comercial dos tempos de colônia que beneficiava a Inglaterra.

* Na verdade tratou-se de uma conjunção Saturno-Urano-Plutão em Touro e, desta forma, o Brasil passava por seu primeiro Retorno de Saturno.

O enorme volume de capital obrigado a voltar-se para outras atividades econômicas com o fim do tráfico (1850) revolucionou a economia brasileira, provocando seu primeiro surto -tímido, é verdade- industrial. As novas taxações aos produtos ingleses encheram os cofres do Tesouro com os impostos sobre importação, iniciando um longo período de prosperidade e afrouxamento das severas condições de insolvência, oriundos do Tratado de Independência, em 1825.

É instalado o cabo submarino para a utilização do telégrafo e criada a primeira ferrovia, fatos de suma importância tendo em vista as dificuldades para o Brasil integrar suas diversas regiões. Cessam as insurreições separatistas e os historiadores afirmam que é somente neste momento que surge uma verdadeira identidade nacional.

A segunda conjunção entre Urano e Plutão ocorreu no signo de Virgem, em meados da década de 1960, sobre o Sol do Brasil. Ela está relacionada à fratura entre esquerda e direita no ambiente político da Guerra Fria e deu origem ao golpe militar de 1964, que impôs um regime de exceção por mais de 20 anos. Em 1964, enquanto Urano-Plutão estava sobre o Sol do país na casa VII, Saturno cruzava o Ascendente e ingressava na casa I. Na mesma época a população do Brasil torna-se majoritariamente urbana*.

* Também com uma conjunção Urano-Plutão (década de 1850), a Inglaterra passou a ter a maior parte de sua população em núcleos urbanos.

Netuno-Plutão

O ciclo Netuno-Plutão vem tendo as suas conjunções no signo de Gêmeos desde o Renascimento. A última conjunção ocorreu na passagem entre as décadas de 1880-90, sobre Lua-Júpiter do Mapa brasileiro (casa IV). Ela marca a Abolição da Escravatura (1888) e a Proclamação da República (1889), dando aos negros o status definitivo de “brasileiros”,

promovem -ainda que de modo muito incipiente- a igualdade formal entre os seus habitantes e rompe com muitas duas heranças do passado colonial: a escravidão e a monarquia. Esta época pontua ainda o auge da imigração européia não-portuguesa, especialmente italiana. Os ítalo-brasileiros são considerados a maior população de oriundi fora da Itália, assim como ocorre com os japoneses e o Japão.

Durante a passagem de Netuno e Plutão pela casa IV, o Brasil obteve um aumento considerável de seu território por meio de tratados internacionais. Entre 1895-03 foram definitivamente incorporados o Amapá, o Acre e parte do Amazonas e de Santa Catarina.

Urano-Netuno

 O ciclo Urano-Netuno em Capricórnio revolucionou-se novamente na década de 1990, formando trígonos para o Sol brasileiro, logo após a primeira eleição direta para presidente em quase 30 anos, cujo desfecho foi o melancólico impeachment do presidente Fernando Collor. A conjunção também está relacionada ao Plano Real, que trocou a moeda e deu início a um período de austeridade financeira dentro do qual o país ainda se encontra, e que vem demonstrando ter criado um ambiente mais sólido frente às crises externas. Naquela época, Plutão passava pelo MC do Brasil.

Nos dias atuais, com a proximidade da conjunção entre Plutão e Urano-Netuno da independência, o país se vê diante da possibilidade de viver uma profunda revolução na política, na sociedade e na economia, sendo que neste último campo esta transformação parece dar sinais mais concretos, pegando carona nos derradeiros anos de ciclo de crescimento da economia mundial, relacionados ao trígono entre Saturno e Plutão (Leão/Virgem e Sagitário/Capricórnio nas casas VI-VII e X-XI).

De modo que a Quadratura T entre Saturno em Libra, Urano em Áries e Plutão em Capricórnio no início da próxima década, envolvendo diretamente a conjunção Urano-Netuno em Capricórnio e Plutão em Áries da Carta brasileira, certamente trará um tempo de novas possibilidades e enormes desafios para a nação brasileira. Como Urano é um dos regentes do Ascendente e receberá conjunção de Plutão, conclui-se que o país está em fase de franca mutação.