O Rabino Astrólogo Abraão Zacuto e o Almanach Perpetuum

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As Fronteiras Incertas e Movediças entre “Ciência” e Misticismo: O rabino astrólogo Abraão Zacuto como centro de estudo da astronomia ibérica (1478-1518).

Geraldo Barbosa Neto

Resumo

Conhecer a astronomia ibérica do período moderno exige do pesquisador um distanciamento da cultura científica que lhe é contemporânea, colocando-se, assim, no paradigma de conhecimento da época estudada. Alicerçar-se na demarcação estrita de uma dimensão de investigação objetiva para interpretar a astronomia dos modernos constitui um anacronismo, visto que ao estilo de sua época, a astronomia se misturava com outros saberes. Para esse exame, elencou-se como figura-chave o influente Abraão Zacuto. A escolha se justifica por sua biografia permitir uma aproximação com a conjuntura epistemológica de seu tempo. O entrecruzamento da obra astronômica de Zacuto (Almanach Perpetuum, 1478) com a sua literatura astrológica (Tratado breue en las influências del cielo, Dos Eclipses del Sol y la Luna escritas em 1486, e Juízo dos astrólogos), mais do que revelar enredos comuns, mostrou uma astronomia que entrelaçou medições e cálculos precisos com o misticismo da influência celeste.

(…) Não sou astrólogo, repito, mas também não sou nada severo no julgamento dos homens que até o Renascimento acreditaram no poder da astrologia.

 (Albuquerque)

De acordo com seus biógrafos, Abraão Zacuto teria nascido aproximadamente em 1452, na cidade espanhola de Salamanca. De ascendência judaica, vivenciou as perseguições da inquisição espanhola iniciada em 1478. Em 1492, após a expedição de um édito de expulsão dos judeus dos reinos espanhóis, se refugiou no reino vizinho de Portugal, servindo a coroa portuguesa como astrólogo. Entretanto, o monarca português D. Manuel, pretendendo casar-se com a filha primogênita dos reis espanhóis, assumiu em uma cláusula de seu acordo nupcial que também expulsaria os judeus de seu reino. Assim, segundo os principais biógrafos de Zacuto, em 1497 ele seguiu para o norte da África e depois foi para a Ásia, onde morreu provavelmente em 1515 para alguns, ou por volta de 1520 para outros.

Zacuto foi capaz de efetuar cálculos precisos e medições exatas dos movimentos e posições dos corpos celestes, o que credencia sua capacidade matemática e seu largo conhecimento astronômico. Essas indicações possibilitaram reconhecer Abraão Zacuto como um instruído no legado astronômico ibérico, em virtude de seus escritos apresentarem um modelo teórico e convenções de análise que se filiaram nessa tradição epistemológica.

Sua biografia permite uma aproximação com a conjuntura epistemológica de seu tempo. Deste modo, este artigo se detém especificamente na análise de sua produção escrita. Publicou em hebraico o ha-Hibbur ha-Gadol (O Grande Compêndio) conhecido posteriormente como Almanach Perpetuum. Também publicou o Tratado breue en las ynfluencias del Cielo (Tratado breve das influências do céu) e De los Eclipses del Sol y la Luna (Dos eclipses do Sol e da Lua). Já tendo deixado os reinos espanhóis, escreveu os livros Mishpetei ha ‘istagnin (Juízos do astrólogo) e Sefer Yuchasin (Livro das Genealogias). Nessas obras ele expressou um vínculo com o legado científico de seu tempo.

Uma compreensão séria do pensamento científico no passado necessita de uma reflexão prévia sobre o ofício do historiador das ciências. A maneira como o historiador das ciências pensa no presente, independente do rigor que confere a sua pesquisa, incide sobre o objeto de estudo que elenca do passado. Isso significa que a interpretação que o historiador das ciências fornece para as realizações científicas passadas que analisa, resulta em um discurso histórico permeado por uma perspectiva que mantém em seu conteúdo certo grau de subjetividade.

Para que o historiador das ciências identifique os pontos de descontinuidade e de ruptura com suas convicções científicas, precisa ter em mente que a compreensão de ciência no passado está separada dele pelo tempo. O historiador se encontra perante um sentido de ciência que não é seu. Em ultima análise, se situa em presença de uma aproximação com uma concepção de ciência preenchida por uma significação marcada por uma época diversa da sua. De modo que se constrói um passo importante para a pesquisa, considerar o entendimento de ciência de uma determinada época dentro de sua integridade histórica e desvencilhá-la de um compromisso com os princípios científicos contemporâneos ao historiador, para que se revele uma leitura da ciência de um período com historicidade. Conhecer a ciência do período moderno exige do pesquisador um distanciamento da cultura científica que lhe é contemporânea, colocando-se, assim, no paradigma de conhecimento da época estudada. Alicerçar-se na demarcação estrita de uma dimensão de investigação objetiva para interpretar a astronomia dos modernos constitui um anacronismo, visto que ao estilo de sua época, a ciência se misturava com outros saberes que não se manifestaram em um âmbito integralmente objetivo, se levar-se em consideração as formas atuais de concepção de ciência.

Astrologia, Renascimento e Historiografia

Sunset at Cabo da Roca (2)

De acordo com Lynn Thorndike, no artigo The True Place of Astrology in the History of Science, escrito em 1955, antes de serem suplantados pelas leis propostas por Isaac Newton, os princípios gerais que organizavam o universo eram astrológicos. A cosmologia milenar dos astrólogos, além de sistematizar a configuração celeste, a elegeu como causa primária dos fenômenos que ocorriam no mundo natural. Esse foi o cenário cosmológico que serviu de modelo para nomes de notoriedade na história da ciência como Isaac Newton, Thomas de Aquino, Alberto Magno, Kepler e Francis Bacon. Apoiando-se em concepções astrológicas, os pensadores modernos, em um processo que ocorreu lentamente, retiraram o caráter dogmático da astrologia, considerando apenas suas características objetivas. A astrologia ganhou, no artigo precursor de Lynn Thorndike, o sentido de uma ciência com aspectos diferentes da ciência moderna, mas que a precedeu e auxiliou fundamentalmente em sua elaboração. Ele retirou da astrologia uma aura de superstição em relação as teorias e procedimentos científicos modernos e a inseriu na base em que a ciência moderna foi construída.

O artigo de Thornidike abriu o precedente para que outras pesquisas abordassem a astrologia como parte da construção de um conhecimento científico. A enorme quantidade de fontes astrológicas acumuladas nas bibliotecas, desprezadas por conter textos “supersticiosos”, começaram a ganhar espaço nos estudos históricos. Eugênio Garin, em sua obra O Zodíaco da Vida, na qual investigou a astrologia no Renascimento, escreveu que a literatura astrológica mantinha um enredo inextrincável “(…) de temas religiosos e ‘científicos’, de motivos míticos e racionais, de reflexos de acontecimentos reais e de transfigurações fantásticas”. Também registrou, em relação a astrologia dos modernos, que “(…) por detrás das fantasias mítico-religiosas das ‘influências’ e das ‘imagens’, existe uma trama racional, suscetível de ser rigorosamente calculada e definida segundo os princípios do conhecimento científico”. A astrologia comportaria ainda o dilema de suas origens: uma matriz grega que impingiu nela a racionalidade e uma raiz oriental que a marcou com mitos e superstições, situando-a “(…) entre lógica e a magia, entre matemática e mitologia, entre Atenas e Alexandria”. Atenas simboliza o pensamento grego (racional) e Alexandria congrega os saberes orientais (mitos e superstições) que moldaram um conhecimento que apresentou um “(…) inextrincável entrançado de teoria e de prática, de conceitos e sentimentos, de mitos e raciocínios”. O termo único da astrologia reuniria “(…) concepções gerais da realidade e da história que aspiram ao rigor das ciências e técnicas” e “(…) heranças complexas de antigas crenças e de cultos”.

Paolo Rossi, em A Ciência e a Filosofia dos Modernos, filiando-se nessa linha de pensamento que identificou na astrologia uma “pré-história” da revolução científica, escreveu sobre os aspectos centrais que a constituíram. A astrologia congregou “(…) a mistura dos temas religioso-emotivos e dos temas matemáticos”. Também abarcou uma “(…) dimensão operativa de uma série de técnicas utilizadas para persuadir ou para dominar as forças presentes na natureza tida como ameaçadora e hostil”. Para Rossi, a astrologia “(…) nasceu no terreno de uma mistura híbrida de religião e de ciência”, ele escreveu que “(…) nascida nos templos da Caldéia e do Egito, jamais conseguiu libertar-se, na sua longa história, nem de suas origens sacerdotais nem de suas características de crença religiosa”. A astrologia, combinando “cultos” e “técnicas”, foi definida por Rossi como:

(…) um tipo de saber que jamais consegue configurar-se como um saber rigoroso, e que, entretanto, queria ser considerado como tal. Para superar esta dificuldade, os astrólogos misturam matemática com as cerimônias e, simultaneamente, apelam para uma temática “religiosa”.

Rossi escreveu que a astrologia se apresentou no período moderno:

(…) como uma “arte” e uma “ciência” que, ao contrário do que ocorre com as outras artes e ciências, pode fazer “grandes promessas” e, portanto, estimular a “curiosidade e a cupidez humanas”, a natural veneração dos homens por tudo que é antigo. Daí vem “o ar de verossimilhança” da astrologia, a sua “loucura” que “tem na superfície um falso aspecto de sapiência” e que da sapiência “ostenta o aspecto e o hábito”, daí a sua aparência “bela e veneranda e plena de séria autoridade”.

Paolo Rossi considerou, portanto, que a astrologia configura-se “(…) como uma pseudociência”. Em O Nascimento da Ciência Moderna na Europa, Rossi registrou que na astrologia “(…) convivem cálculos sofisticados e vitalismo antropológico” como na magia e na alquimia convivem “(…) misticismo e experimentalismo”.

Outra questão acentuada por Paolo Rossi é a restrição da astrologia, da magia e da alquimia a uma condição erudita. De acordo com ele, esses saberes tinham como pressuposto que “(…) O que é precioso não é para todos, a verdade deve ser mantida secreta, pois sua difusão é perigosa”. Esse segredo sobre as coisas essenciais se fundava na “(…) distinção entre a exígua falange dos sábios (…) e a massa de incultos”. Projeta-se nesses conhecimentos a imagem de se revelarem “(…) como iniciação e como um patrimônio que somente poucos podem alcançar”. A maneira utilizada pelos sábios para conservar seu segredo foi omitir “(…) tais assuntos em seus escritos” ou “(…) ocultá-los sobre uma linguagem metafórica”. Assim, “(…) os poucos eleitos que são capazes de captar a verdade escondida debaixo da escrita e dos símbolos e que são iniciados aos sagrados mistérios”, protegem o saber essencial da “(…) multidão dos simples e dos ignorantes”. O sábio é aquele que “(…) conhece as correntes de correspondências que descem do alto e sabe construir – por meio de invocações, números, imagens, nomes, sons, acordes de sons, talismãs – uma corrente ininterrupta de elos ascendentes”. Rossi levantou questões sobre esse aspecto dos saberes astrológicos, como se o “(…) caráter sensacionalista dos feitos realizados” pelo sábio oferecesse “(…) uma prova da sua pertença ao escalão dos eleitos”. A distinção entre os escolhidos e os ignorantes implica em ideias que “(…) devem ser ocultadas a ponto de parecerem identificáveis”. A complexidade desses saberes os restringem a alguns eleitos. Em vista disso, esses sábios empregam uma linguagem:

(…) ambígua e alusiva porque não tem qualquer sentido que a ideia de uma verdade oculta ou de um segredo possa ser expressa com clareza e com palavras não alusivas e não ambíguas. Aquela linguagem é estruturalmente e não acidentalmente cheia de deslizes semânticos, de metáforas, analogias e alusões.

O natural e o místico coincidem e somente os iniciados compreendem seus segredos. Deste modo:

(…) a ciência se divide em duas partes uma das quais é manifesta e a outra é oculta. A parte oculta é profunda: as palavras que se referem à ordem do mundo são as mesmas que Adão recebeu de Deus e podem ser entendidas apenas por pouquíssimos indivíduos.

Para Rossi, essa “(…) verdade se transmite mediante o contato pessoal e pelos ‘murmúrios das tradições e os discursos orais’. A comunicação direta entre o mestre e o discípulo é o instrumento privilegiado da comunicação”.

Francis Amelia Yates, em sua obra Giordano Bruno e a Tradição Hermética, coloca a questão de “(…) como eram incertas e movediças as fronteiras entre ciência genuína e o hermetismo* na Renascença”. Para Yates, a astrologia é uma “(…) ciência matemática, baseada na crença de que o destino humano é irreversivelmente governado pelas estrelas”, definição que se entende nessa pesquisa como consistente com a astrologia do Renascimento, contudo, parcial, somando-se ao “destino humano” também o “mundo natural”. O homem moderno, no ponto de vista de Yates, cumpriu o papel “(…) de cruzar a ponte entre o teórico e o prático” e “(…) o de se dedicar totalmente à aplicação dos conhecimentos, para produzir operações”.

* Os magos renascentistas acreditavam em um conhecimento que advinha de uma fonte sagrada, de uma versão gnóstica da filosofia grega presente nas reminiscências pagãs do cristianismo primitivo. Recuperando os textos remanescentes da Antiguidade e empregando suas ideias, muitos filósofos modernos viram o conhecimento como uma forma de ascensão espiritual e de intervenção nas forças do universo. Em linhas gerais, a isso denominamos como hermetismo.

Antonio Beltrán cita de Koiré que o pensamento científico moderno se ligava a idéias “(…) transcientíficas, filosóficas, metafísicas y religiosas”. Esse autor escreveu que:

(…) Como historiadores debemos actuar más o menos a la manera de Wanda Landowska a la hora de interpretar a Bach. Se cuenta que tras oír tocar um pianista le decía: “tú interpretas a Bach a tu manera, yo lo interpreto a la suya”. Com los científicos del s. XVI ó XVII, el historiador debe tratar de escribir la história de su ciencia. Sólo así es posible escribir la historia de la R.C. (Revolução Científica)”.

Beltrán ressaltou que o aporte científico do Renascimento se engendrou “(…) de la recuperación de los textos científicos griegos”. Desse modo, o pensamento científico do Renascimento se caracterizou por se apresentar:

(…) sin ontología, sin poder decidir qué es posible y qué no lo és. Por lo que la caracterización más adecuada de la mentalidade renascentista se formularia deciendo que ‘todo es posible’, que su credulidad no tiene limites, que es ‘una de las épocas menos dotadas de espírito crítico que haya conocido el mundo.

O sábio renascentista “(…) casi podríamos decir que sabe todo” e que “(…) la ignorancia fingida, como producto dela duda sistemática” não era considerado como “(…) fuente del conocimiento”.

Para Beltrán, “(…) debemos aceptar que, en el s. XVI, la ‘ciencia ‘normal’ era la que Boas llama ‘mística’, más aun que la ‘ciencia mistica’ no simplesmente dominaba, sino que era la ciencia sin más”.

Para Keith Thomas “A despeito de alguns requintes nos detalhes (…)”, a astrologia conhecida no século XVI “(…) era visivelmente a mesma exposta pelo egípcio Ptolomeu em seu Tetrabiblos, no segundo século de nossa era”. Se a astronomia “(…) é o estudo dos movimentos dos corpos celestes, a astrologia é o estudo dos efeitos desses movimentos”. Quanto a esses efeitos dos movimentos “Não havia nada de esotérico nessas suposições gerais. No início do século XVI a astrologia fazia parte da imagem que o homem culto tinha do universo e do seu funcionamento”. A astrologia era “(…) uma imagem do mundo aceita por todos”. As mais variadas áreas do conhecimento “(…) pressupunham uma boa quantidade de dogmas astrológicos”:

“Durante a Renascença (…) a astrologia permeava todos os aspectos do pensamento científico. Não se tratava de uma doutrina de um círculo fechado, mas um aspecto essencial da estrutura intelectual em que os homens eram educados”.

O Almanach Perpetuum: Um Compêndio para Sábios

Abraão Zacuto

Em 1478, o Almanach Perpetuum originalmente foi editado na cidade espanhola de Salamanca. Escrito em língua hebraica, recebeu de seu autor Abraão Zacuto o título ha-Hibbur ha-Gaddol (O Grande Compêndio). Em 1481, veio a lume uma versão castelhana do Hibbur de Zacuto. Essa versão foi produzida com a ajuda de Zacuto, por Juan de Salaya, com quem lecionou astronomia na Universidade de Salamanca. O Almanach Perpetuum foi traduzido do hebraico para o latim por José Vezinho. Ele foi editado na cidade portuguesa de Leiria, em 1496. Nessa obra, Zacuto atribuiu contornos aritméticos aos movimentos e posições dos corpos celestes, apoiando-se em uma racionalidade matemática. Essa obra principia com uma epistola de dedicação dirigida à um bispo de Salamanca. De seu primeiro capítulo, até o décimo segundo, aborda como identificar nas tabelas o ascendente e as doze casas zodiacais, o lugar do Sol, a entrada do Sol nos signos do zodíaco, o lugar da Lua, as conjunções e oposições dos corpos celestes, os eclipses, os lugares de Saturno, Júpiter, Marte, Vênus e Mercúrio.

Nesta obra, Abraão Zacuto ocultou sob o idioma hebraico o conhecimento presente no Hibbur a uma maioria de não judeus. O autor tornou o conteúdo de sua obra restrito a poucos. Esse Hibbur conteve originalmente uma astronomia que não foi concebida com a intencionalidade de estar ao alcance de todos.

O teor do Hibbur esteve circunscrito mesmo no seio da comunidade judaica. A complexidade do assunto abordado nessa obra, com um emaranhado de cálculos e medições substancialmente aprofundadas o resguardaram a um círculo minguado de doutos judeus.

A elaboração original do Hibbur se opôs a uma ideia de que o seu conhecimento seria aberto. A utilização de uma linguagem que não era clara para um público amplo, situou o Hibbur em uma noção de conhecimento inacessível para uma grande maioria. Os refinamentos e detalhes dos prolixos cálculos e medições que preencheram as páginas desse livro se destinaram aos sábios e letrados de um grau elevado de conhecimento. O conteúdo desse livro apresentou uma característica de alta cultura, de uma forma de saber restrito.

O Almanach Perpetuum e a Doutrina das Natividades

De animodar ptholomei. Tabula more infantis in utero matris

De animodar ptholomei. Tabula more infantis in utero matris.

A aritmética que preencheu as páginas do Almanach Perpetuum manteve apenas uma aparência de “ciência” matemático-astronômica. Desdobrados em cálculos, medições, tabulações e datações, os números apresentados no Almanach Perpetuum fundamentaram tópicos como a Tabula more infantis in utero matris (Tabua de duração da criança no útero materno). Encontrou-se subjacente nos algarismos que compuseram esta Tabula a doutrina das natividades. A Tabula foi alicerçada sobre o preceito de que a influência celeste presidia as características fisiológicas, fisionômicas e psicológicas que se encontrariam no homem, de acordo com a configuração celeste que situaria seu nascimento. No Tratado Breve en las Ynfluencias del Cielo, Zacuto estabeleceu uma relação entre a obesidade e a posição de um planeta no zodíaco: “(…) si esta planeta sobre dicha tiene ladeza de zodiaco significa ser gordo”. A fisionomia humana foi vinculada por Zacuto aos planetas Jupiter e Vênus: “(…) se ade notar que los signos humanos significã hermosura: y Jupiter y venus siginificã hermosura”. O nascimento no ano em que a Lua e Mercúrio oferecessem danos poderia ser acometido pela loucura: “(…) si en la Revolucion del año del mundo la luna y mercurio estouieren dañados el que nasciere em aquel año terna alguna significacion de locura”.

Para uma interpretação da vida de uma criança, o método principal indicado pelos astrólogos foi fixar o signo ascendente na hora exata do nascimento da criança. No Tratado Breve en las Ynfluencias del Cielo, Zacuto elencou a definição do grau do ascendente como um dos principais métodos para conferir uma significação ao nascimento. A Tabula more infantis in utero matris introduzida no Almanach Perpetuum foi ajustada com as De animodar ptholomei, tabelas de cálculos elaboradas por Ptolomeu que permitiam fixar os signos ascendentes.

A presença da Tabula more infantis in utero matris e da De animodar ptholomei no Almanach Perpetuum evidenciou a mistura da matemática na crença do destino humano governado pelos astros. Cálculos sofisticados se entrelaçaram com o princípio de que pela leitura dos astros no instante inicial da vida de uma criança se definiria todo o devir de sua existência.

As equações matemáticas da Tabula more infantis in utero matris se constituíram em uma dimensão parcial da significação astrológica do nascimento. A apresentação desses cálculos no Almanach Perpetuum evidenciou que seu conteúdo se caracterizava como transcientífico.

O Almanach Perpetuum e a Medicina Astrológica

«Tábua lune 19», in Almanach Perpetuum, de Abraão Zacuto, edição de Luís de Albuquerque

Zacuto abriu espaço no Almanach Perpetuum para o artifício dos físicos de fornecer uma medicação para que o doente expelisse os viciosos humores, atividade definida “dar las purgas”. Entre os físicos, médicos que exerciam a astrologia conjugada com seu ofício, alguns estados de humor foram considerados enfermidades e eram recorrentemente diagnosticados e tratados pela via da influência celeste.

O Almanach Perpetuum seria o elemento teórico que inspirava uma dimensão operativa. Nele se fundamentariam uma série de técnicas e interpretações que colocariam o homem na condição de mediador entre o mundo natural e as influências celestes. No Tratado Breve en las Ynfluencias del Cielo, esteve presente em seu autor Abraão Zacuto a intenção do aproveitamento da influência celeste para atuar sobre a salubridade do homem, de modo que o médico pudesse usar a astrologia para interferir de forma positiva na saúde de seus pacientes:

(…) Como sea de la perfeción del astrólogo saber en todas las cosas naturales y en el arte de la medicina que con esto se podra ayudar para la ynfluencia de los cielos y para desponer los pasivos para que rrescibã la buena ynfluencia de los ajentes o para desviar la mala ynfluenci”.

Foi nesse sentido que Zacuto empregou em seu texto a frase que atribuiu à Hipócrates: “(…) ciego es el medico que nõ sabe astrologia”.

O Almanach Perpetuum e o Conjuncionismo

No Almanach Perpetuum, Zacuto estabeleceu as datas de seis eclipses solares e de dezesseis eclipses lunares para o período entre 1493 e 1523. A indicação dos eclipses se deu nos exatos dias, meses e anos de suas ocorrências. Zacuto se mostrou ainda mais minucioso ao fixar o momento inicial e final de cada eclipse.

Confrontada com o tratado De los Eclipses del Sol y la Luna, escrito por Zacuto em 1486, e com a obra Mishpetei ha ‘istagnin (Juízos do astrólogo), a aritmética que auxiliou na antecipação desses eventos celestes, foi transfigurada em base de apoio para a construção de previsões amparadas na ideia de que os astros influenciavam países, cidades e distritos.

O ajustamento do evento natural da Lua se posicionando entre a Terra e o Sol (eclipse solar) e da Terra ocupando um lugar entre o Sol e a Lua (eclipse lunar) em um esquema de datações, cálculos e medições, compunha apenas o cenário para a encenação dos “(…) secretos y cosas escondidas para bien” ou “(…) ascondimento de mjedos o de celadas de guerras”. Zacuto em seu tratado De los Eclipses del Sol y la Luna, escrito em 1486, registrou que o fenômeno dos eclipses poderia ocultar destruições, enfermidades, fome, pestilências, batalhas e mortes. Enquanto os cronistas de seu tempo tomavam da pena para registrar com belas letras os feitos passados de seus monarcas, Zacuto através de números e interpretações transcendentais preenchia o futuro com a história de acontecimentos anunciados pelos astros.

Em um dos registros de Zacuto, massacres, lutas, doenças, divórcio, mentiras, miséria e guerras, figuraram sob a influência do eclipse lunar de 1519. O prenúncio se deteve sobre as terras do Islã:

(…) Year, the night of 14 Kislev (Nov. 6/7, 1519), the Moon will be eclipsed; it indicates massacres in the east; people will fight each other; diseases for good (people); divorcing of wives; deceits and lies, and each man will lie to his fellow; woes in the lands of Islam; and wars and woes will continue until the passing of year (1521-1522) when the survivor will be able to say, “on this day I was (re)-born”; and Israel must repent completely and pray to God that He save them from woes and wars, for all who call upon God will be rescued. These are the pangs of the Messiah, and at that time 927 years, 6 months and 2 days will be completed according to the reconing of the Muslims which are lunar years and they are equivalent to 900 solar years”.

Em conclusão, a astronomia de Zacuto, se situada em contornos místicos, seria analisada apenas em parte, o que apenas permitiria uma compreensão vaga e uma interpretação anacrônica desse saber. Por outro lado, se colocada em padrões “científicos” de conhecimento, somente poderia ser investigada de forma parcial e também suscitaria uma compreensão arbitrária. A análise de sua astronomia concentra-se no exame do lugar comum onde o “científico” e o “mítico-religioso” se entrelaçam e se completam. É nesse interstício que se localiza o entendimento de um conhecimento de localização incerta e movediça, sem fronteiras fixas e distinções nítidas, de modo que não se identifica nele precisamente onde se inicia o supranatural e termina o “científico”, e vice-versa.

flor de lis

Referências Bibliográficas

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ZACUTO, Abraão. Almanach Perpetuum. Leiria: Abraão da Ortas, 1496. Disponível.

Sunset at Cabo da Roca

As Ciências que os Astros Assinalaram: uma abordagem histórico-filosófica do universo de conhecimento de Abraham Zacuto (1478-1496)

Geraldo Barbosa Neto

Mestrado em História

“Vai-se falar de astrologia (…), e falar de astrologia comporta seus riscos, ou pelo menos o risco de quem nos ouve poder pensar, sem que lhe possa negar tal direito, que a escolha do tema denuncia quem a fez como astrólogo (…). E é por isso que desejo declarar desde já formalmente a todos vós que não sou astrólogo!

Não sou astrólogo, repito, mas também não sou nada severo no julgamento dos homens que até o Renascimento acreditaram no poder da astrologia (…)”.

Luís de Albuquerque, Estudos de História, Volume I

Resumo

Esta pesquisa objetiva elucidar Abraham Zacuto (1452-1515) através de seus tratados astrológicos, refletindo criticamente sobre a imagem de astrônomo e matemático que a historiografia lhe atribuiu por via das tábuas astronômicas de seu Almanach Perpetuum, buscando situá-lo na época em que a nova ciência experimental do renascimento ainda convivia com os estudos da astrologia. Entre os estudos realizados sobre Zacuto, predominou a teoria na qual ele integrava uma junta de matemáticos que, sob o mecenato dos monarcas portugueses, procurava soluções para a navegação no Atlântico Sul. Ela se sustentava no Almanach Perpetuum, destacando seus cálculos e suas tabulações do movimento solar. O grande número de fólios desse tratado que não confirmavam essa teoria e as demais obras de Zacuto não despertaram o interesse dos pesquisadores. Esta pesquisa preenche essa lacuna. O repertório intelectual de Abraham Zacuto é examinado sob a premissa de que no conjunto de seus tratados ganharia expressão um conhecimento diferente da ciência náutica portuguesa. O conteúdo de sua sciencia de la astronomia abrangia uma filosofia natural milenar, uma prática médica misturada à astrologia, uma cosmologia corroborada pela literatura cabalística e prognósticos astrológicos. As obras de Abraham Zacuto se comunicavam. Suas tábuas astronômicas sustentavam uma interpretação dos fenômenos terrenos pelos astros. Uma imagem do universo antiga, adornada por proposições cabalísticas as estruturava.

1. Do Bico da Pena de Abraham Zacuto às Matrizes da Imprensa Moderna

1.4 O Almanach Perpetuum: a tradução do ha-Hibbur ha-Gaddol em Portugal

Conforme o derradeiro fólio do Almanach Perpetuum, essa obra veio à lume em 1496, quando o Sol estava 15 graus, 33 minutos e 35 segundos no signo de Peixes, sob o céu da cidade portuguesa de Leiria. Seu título completo é Almanach perpetuum celestium motuum astronomi zacuti. Cium radix est 1473. Trata-se da primeira publicação de gênero astronômico em Portugal.

Foi também a primeira tradução latina do ha-Hibbur ha-Gaddol. Suas tábuas astronômicas foram traduzidas “(…) alinga ebrayca in latinum (…). Essa tradução foi realizada por José Vizinho, “(…) magistrum Joseph Vizinum discipulum actores opera (…)”, como se designou esse discípulo de Abraham Zacuto. Através dele, o conhecimento astronômico de seu mestre foi comunicado na língua latina, predileção nos círculos eruditos europeus. A preservação de parte do ha-Hibbur ha-Gaddol nesse léxico foi uma tarefa possível de se realizar por meio de um sujeito hábil em estabelecer sua equivalência em latim, de modo que conservasse o conhecimento dessa obra em sua transmissão para esse idioma. Vizinho foi um dos poucos que tiveram acesso ao ha-Hibbur ha-Gaddol.

Dessa tradução, José Vizinho realizou também uma castelhana:

(…) Aqui se acaba la reçela de las tablas tresladadas de abrayco en latin e de latin en noestro vulgar romançe por mestre jusepe vezino desçipolo del actor delas tablas. deo gracias (…)

_capa do almanach perpetuum

Descreve-se o Almanach Perpetuum de Abraham Zacuto. O fólio de abertura traz abaixo do título Almanach perpetuum celestium motuum astronomi zacuti. Cium radix est 1473, uma pequena tabela que exibe no seu cabeçalho characteres signos zodiaci (caracteres do signo do zodíaco). Ela apresenta três linhas e três colunas. Na primeira coluna constam os símbolos áries, touro, gêmeos, câncer, leão, virgem e suas respectivas designações Aries, Taurum, Gemini, Cancer, leo e Virgo. Na terceira coluna estão os símbolos libra, escorpião, sagitário, capricórnio, aquário, peixes e suas referentes denominações libra, Scorpium, sagitarium, Capricornium, Aquarium e pisces. Segue-se nos próximos dois fólios uma dedicatória, a Epistola actoris ad episcupum salamantine. Após essa epistola consta o índice da obra. Lista-se de ascendente et duodecim domibus (o ascendente e as doze casas, Canon primus), de vero loco solis habendo (o lugar do Sol, Canon secundus), de introitu solis in quolibet signorum (a entrada do Sol em qualquer dos signos, Canon tertium), de vero loco lunis habendo (o lugar da Lua, Canon quartus), de coniuntinibus et opositionibus luminarium (a conjunção e a oposição do Sol e da Lua, Canon quintus), de eclipsibus luminarium et primo de sole (os eclipses e dos primeiros do Sol, Canon sextus), de vero loco saturni (o lugar de Saturno, Canon septimus), de vero loco Jovis per has tabulas habendo (o lugar Jupiter para cada dia, Canon sextus), de vero loco martis habendo (o lugar de Marte, Canon nonus), de vero loco veneris habendo (o lugar de Vênus, Canon decimus), de vero loco mercurii per has tabulas invenire (para saber o lugar de Mercúrio, Canon undecimus) e de animodar (de animodar, Canon ultimus). A partir desse fólio segue uma longa lista de tábuas astronômicas correspondentes a cada um dos capítulos anteriores. No derradeiro fólio, lê-se que se trata de uma obra de Abraham Zacuto, astrônomo de D. Manuel. Consta que foi traduzida do hebraico para o latim por seu discípulo José Vizinho, em 1496, na cidade de Leiria, e que foi impressa na oficina do judeu Abraão D’Ortas.

Apenas com essa tradução latina do ha-Hibbur ha-Gaddol em Portugal, primeira publicação de Abraham Zacuto fora dos reinos espanhóis, o conhecimento desse douto foi retirado de sua condição recôndita. Ele passou a ser objeto de troca de pesquisas entre os intelectuais, por ser transmitido na língua partilhada pelos círculos cultos europeus. Em versão impressa, o saber de Zacuto, originalmente enclausurado em um manuscrito, deu passagem à circulação ampla de suas ideias. Em 1498, essa obra foi impressa em Veneza com o título Ephemerides sive Almanach Perpetuum. Fato que se repetiu em 1502, porém, com o título Almanach perpetuum exactissime nuper emendatum ominium celi motuum cum additionibus in feo factis tenes complementum, por Petrus Liechetenstein. Em 1518, Valentim Fernandez reproduziu em sua obra Repertório dos Tempos, parte dos estudos de Zacuto:

(…) Seguese o regimeto da declinaçam do sol pera per ella saber o mareãte em qual parte esta.s.aquem ou dalem da línea equinocial.a qual declinaçam he tirada puntualmete del zacuto pello honrrado Gaspar nicolas mestre sufficiente nesta arte.

Em 1525, Lucas Antonius Iuntas, publicou em Veneza a edição Almanach Perpetuum sive tacuinus. Ephemerides et diarum Abraami zacuti hebrei. Thoremata aut. Joannis Michaelis germani buduren. Cum L. Gaurici doctoris egrejij castigationibus et plerisque tabellis nuper adiectis. Assim, a tradução latina do ha-Hibbur ha-Gaddol e sua impressão na oficina do judeu Abraão D’Ortas, empreendidos por José Vizinho, inseriram o repertório intelectual de Abraham Zacuto na era de Gutenberg. Sabe-se, porém, que após o De los eclipses del sol y la luna, Zacuto escreveu um opúsculo hebraico, o Mishpetei ha ‘istagnin (Juízos do astrólogo).

1.5 O Mishpetei ha ‘istagnin (Juízos do astrólogo)

Sem data e local determinado, o manuscrito hebraico Mishpetei ha ‘istagnin (Juízos do astrólogo) retoma os contundentes eventos históricos escritos em prognósticos astrológicos, apresentados no De los eclipses del sol y la luna. O Mishpetei ha ‘istagnin é um registro da aplicação das premissas delineadas no De los eclipses del sol y la luna. Essa prática ganhou um exemplo notório em uma passagem desse escrito, na qual a posição dos astros no ano de 1524 marcou acontecimentos catastróficos para os cristãos e assinalou a redenção para os israelitas:

(…) In year (1524) there (will be) a conjuntion of the planets unlike any that came before it. It indicates that there will be very great woes in Christian countries (lit. the lands of Edom) to the west, and that the sea will rise and some of their lands will be flooded. Happy is he who waits and reaches that year in repetence, upright in heart, and good deeds. And in that year will be redemption and salvation for Israel, even though there will be convulsions and wars until year (1528-1529).

At that time [Feb. 1524] the conjuntion will be between Aquarius and Pisces, as took place when (Israel) entered the land in the days of Joshua and Ezra. Then there will be two eclipses, and Mars will Saturn and Jupiter in the same conjunction; it indicates great wars like the wars of Gog and Magog, and the Messiah son of Joseph will be killed; and since Venus is close to them, there will blossom forth salvation for Israel and coming of the Messiah son of David, may God be blessed for the sake of His name, may He help us and support us and maintain us with His righteous right hand, and may He inscribe us for a good life with all that is written for life, to look upon the goodness of God in the land of life. Amen, may it be His will”.

Nesse corpus de Abraham Zacuto, elenca-se as referências textuais de um ofício que reivindicava o poder de ler o que o céu assinalava e intervir em suas consequências. O astrólogo submetia à sua interpretação os benefícios e obstáculos anunciados pelas influências celestes.

2. A Astrologia, O Almanaque e o Domínio do Mundo Natural

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“(…) a astrologia, que impregnava de seus conceitos o costume e a vida inteira, era não tanto uma técnica de previsão, mas uma concepção geral de realidade e da história, em todo o lado presente e decisiva. Dos hábitos cotidianos à prática médica, das figurações artísticas às orações solenes, da concepção dos ciclos históricos às temáticas religiosas, a crença do destino estelar operava em qualquer lugar”.

(Eugenio Garin, O Zodíaco da Vida)

2.1 O Astrólogo e o Semeador

“(…) dize ptolomeu el anima sabia puede ayudar a la ynfluencia del cielo como se ayuda el senbrador con la… de la tierra”. Zacuto citou essa frase do Centiloquium, um tratado com cem aforismos astrológicos. Esse escrito antigo era atribuído a Ptolomeu. Assim como o semeador preparava a terra para a agricultura, conhecendo as estações do ano nas quais o céu era favorável para as plantações, o astrólogo criava circunstâncias para intervir nos fenômenos terrenos, dominando as influências celestes. Através da autoridade de Ptolomeu se transmitiu uma imagem milenar de astrólogo, a de um sábio capaz de mediar o elo entre as influências celestes e os fenômenos terrenos. É a exposição de uma das principais premissas que presidiam o ofício do astrólogo.

Está escrito no quinto aforismo do Centiloquium:

Una persona habilidosa, familiarizada con la naturaleza de las estrellas, está capacitada para evitar muchos de sus efectos, y preparar-se a sí misma para aquellos efectos antes de que éstos lleguen.

Zacuto escreveu em seu Tratado breue de las ynfluencias del cielo:

Como sea de la perfeción del astrologo saber en todas las cosas naturales y en la arte de la medicina que con esto podra ayudar para la ynfluencia de los cielos y para disponer los pasivos para que rrescibã la buena ynfluencia de los ajentes o para desviar la mala ynfluencia. Segun dixo ptholomeu en la dicion quinta.

No “saber en todas las cosas naturales” de Zacuto, o astrólogo foi apresentado como um sábio que conhecia as correspondências entre o Céu e a Terra. Ele traduziu nessa passagem uma arte de la medicina conjugada com a arte de interpretar os céus. Contanto que dominasse a “natureza das estrelas”, o astrólogo tinha o poder de intervir nas decorrências que ela assinalava. No “desviar la mala ynfluencia”, Zacuto reivindicava ao astrólogo o poder de construir meios de criar obstáculos para as influências celestes, caso se interpretasse que os astros as assinalavam como danosas. Em conformidade com o que os corpos celestes indicavam, no “disponer los pasivos” de Zacuto, o astrólogo diligenciava para que os desdobramentos terrenos das influências celestes fossem minimizados ou potencializados. Presumia-se que o astrólogo tinha o poder de ler as estrelas, de interpretar que tipo de influência ela indicava e que procedimentos poderia realizar para uma interferência: “Ya podra el astrólogo desujar muchas influencias de estrelas sabiendo primeramente lo que señalarõ…si sabia que avia de venir enfermidad ca puede remediarse con bever…y manjares que resfrian (…)”.

2.2 O Almanaque e a Arte de Interpretar os Céus

Devido às reconfigurações dos aspectos celestes proporcionadas pelos movimentos dos astros, o que a naturaleza de las estrellas indicava em um momento, poderia não se adequar ao período seguinte. A arte de interpretar os céus não se realizava por uma observação comum, mas por uma compreensão geométrica e matemática das revoluções celestes. O resultado do estudo matemático do movimento dos astros era organizado em um calendário e registrado em um livro:

(…) os almanaques mais elaborados incluíam efemérides, tabelas que mostravam a posição diária dos corpos celestes ao longo de todo o ano. Com a ajuda delas, o leitor podia prever o movimento dos planetas através dos signos do zodíaco (…).

(Thomas)

Reminiscência da longa ocupação árabe na Península Ibérica, o termo Almanach foi emprestado da língua arábica. Na etimologia árabe, al-manakh designava a parada de uma viagem. Esse termo se originou do verbo árabe antigo anakh, que se traduzia na ação de ajoelhar o camelo. Tal como as caravanas árabes que após percorrerem longas distâncias, escolhiam um local para acampar e “ajoelhavam seus camelos”, formulou-se uma hipótese cosmológica na qual os planetas cumpriam um trajeto pelo espaço celeste fazendo estada passageira nos signos do zodíaco.

Zacuto escreveu que: “(…) la planeta retrograda es flaca. y retrograda es quando la planeta en que aquel dia esta ciertos grados y minutos del signo en que esta y el dia de adelante esta en menos de aquel y esto se hallara en el almanaque”. Exemplifica-se, nessa passagem, que pelo almanaque se conhecia um movimento retrógrado de um planeta, isto é, se um planeta realizava um movimento aparente que, ao invés de seguir na direção do signo seguinte, se observasse seu retorno na direção do signo anterior. Esse movimento assinalava que quando um planeta estivesse nessa circunstância sua influência seria fraca. Esse dado indicaria que operação o astrólogo deveria efetuar nessa situação.

Em outro trecho, Zacuto escreveu:

(…) ansy mjsmo se hade notar por el almanaque los aspectos de las planetas quando fueren en conjunciõ o quartil o opsicion del sol a la luna y asi mjismo Jupiter con el sol haze las mas vezes vientos muy fuertes en quartil o en oposicion. y ansi mesmo ãde notar las estrellas fixas que escrjuimos en la parte primeira que si se juntaren con ellas el sol o la luna o alguna planeta o se acataren de quartil o oposicion significa mutacion en el ayre segund la calidad de aquela estrella. mas es de notar que los aspectos de las planetas pueden turvar sue feto y tardar por algunos dias antes y despues segun la tardança o uelocidade de aquellas planetas fasta que se aparte.

Esse truncado trecho se resume em observar pelo almanaque a posição dos corpos celestes, e se nela se inscreveria uma determinada configuração que apontava a “mutacion en el ayre”, a saber, a mudança no clima. Zacuto se instruiu em Avicena no princípio de que “(…) las mutaciones del ayre aprovo que por cosas celestes auer mutacion en las enfermedades”. Nos Libri de Vita, por exemplo, também um tratado médico-astrológico, Marcílio Ficino, contemporâneo de Zacuto e um dos eruditos mais proeminentes da Europa em sua época, escreveu que Avicena confirmou (Avicenna confirmant) o fato dos compostos realizados pela medicina em conjunto com a astronomia (artem tum medicam, tum astronomicam) resultarem em uma medicina em harmonia com as estrelas. Os prognósticos e o tratamento de doenças estariam articulados com as circunstâncias climáticas e, estas, ocorreriam segundo o movimento celeste.

Na segunda parte do Tratado breve en las ynfluencias del cielo, Zacuto escreveu: “(…) para el que touiere almanaque diremos lo que escriujeron en esto los de patauia y de bolonja y de rroma y otros grandes sabios y es mucho uniuersal para qualquier lugar (…)”. Um dos temas centrais abordado nela foi os quatro tienpos, as quatro estações do ano:

Lo primero que es de saber los quatro tienpos del año que la primauera que es desde que entra el sol en aries hasta la cabeça de cancer es caliente e humjda y en este tienpo se mueue la sangre. y e el estio que es decancer hasta libra es caliente y seco y tiene la colora. el otoño que es de libra hasta capricornjo. es frio y seco y tiene la melancolia. y es inuerno que es de capricornjo hasta el fin de picis es frio y humjdo.

A contagem e a caracterização das estações do ano se organizavam pelos signos do zodíaco. As estações eram descritas através do lugar do Sol nas figuras zodiacais e pelo almanaque se conhecia essas estações.

Lê-se no Tratado breve en las ynfluencias del cielo um conhecimento dos astros situado no passado daquilo que entendemos por astronomia: “(…) la sciencia de la astronomia adquire e estudia de que parte uiene esta mu[ta]cion en el mundo de los elementos de las ynf[lu]encias celestes (…)”. Quando o percebemos como contíguo é porque conservamos no nosso estatuto epistêmico alguns de seus aspectos nos quais depositamos um valor de verdade. Quando o percebemos com distância é porque abolimos dele algumas características, apagando de nosso saber aquilo que julgamos ser uma impostura. Esse Tratado nos ensina algo acerca do mundo epistêmico fixado além da fronteira que encerramos o nosso.

Zacuto reservou um de seus tópicos para abordar a teoria de que o movimento dos planetas ocorria pelos signos. Escreveu que: “(…) los signos son doze assy repartirõ los astrologos (…)” e que “(…) las siete planetas non corren saluo debaxo de los doze signos y dellos rresciben la ynfluencia para este mundo baxo”. Por isso, Zacuto definiu seu Tratado breve en las ynfluencias del cielo como um “(…) Regimjento de los físicos que fueren astrologos y aunque no sepan mucho sy almanaque tovieren (…)”. Zacuto atribuiu ao almanaque a função de instrumento do astrólogo.

Foi no saber que ganhou expressão nesse tratado que auferiu sentido a tradução do manuscrito hebraico ha-Hibbur ha-Gaddol (O Grande Compêndio) de Zacuto para o latim.

2.3 O Almanach Perpetuum e as Influências Celestes

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Recordemos que no Tratado breue en las ynfluencias del cielo, Abraham Zacuto situou o almanaque na medicina conjugada com a astrologia. A tradução do ha-Hibbur ha-Gaddol realizada por José Vizinho em Portugal, seguiu na perspectiva em que Zacuto nos instruiu nesse Tratado.

Com referência em Ptolomeu, esse tratado explica que a fixação da posição dos astros na hora exata do nascimento da criança se alicerçava sobre o preceito de que as influências celestes presidiam as características fisiológicas, fisionômicas e psicológicas que se encontravam no homem, de acordo com a configuração celeste que situava seu nascimento. Zacuto, por exemplo, estabeleceu uma relação entre a obesidade e a posição de um planeta no zodíaco: “(…) si esta planeta sobre dicha tiene ladeza de zodiaco significa ser gordo”. A fisionomia humana foi vinculada aos planetas Jupiter e Vênus: “(…) se ade notar que los signos humanos significã hermosura: y Jupiter y venus siginificã hermosura”. O nascimento no ano em que a Lua e Mercúrio oferecessem danos poderia ocasionar que a pessoa fosse acometida pela loucura: “(…) si en la Revolucion del año del mundo la luna y mercurio estouieren dañados el que nasciere en aquel año terna alguna significacion de locura”. Por isso, a definição do grau dos astros nos signos era importante para o médico-astrólogo na elucidação de características físicas e psicológicas de seus pacientes.

“(…) As estrelas, os céus, definem num momento – o instante inicial, a hora fatal – o decorrer inteiro de uma existência: o destino é indicado duma vez por todas, concentrado num ponto decisivo – o ponto em que as posições astrais descarregam sobre o novo ser emergente a somo de suas próprias radiações (…)”.

(Garin)

Abraham Zacuto, de quem José Vizinho se denominou discipulum, ensinara no Tratado breve en las ynfluencias del cielo a doutrina dos cinco lugares principais para que os astrólogos investigassem o nascimento:

“Los cinco lugares principales del nascimjento que significan la uida y se nonbran. ylex. son estos. el grado del ascendente. y el grado del sol. y el grado de la luna. y el grado de parte fortuna. y el grado de la conjuncion o oposicion precedente (…).

O segundo tópico enumerado por Zacuto na doutrina dos cinco lugares principales del nascimjento foi el grado del sol (o grau do Sol). Vizinho traduziu no Almanach Perpetuum um intervalo de tábuas astronômicas que cobria esse tema. A tradução da Tabula prima solis cuium radix e anno 1473, o Residuum tabule prime Solis, a Tabula secunda Solis, o Residuum tabule Solis secunde, a Tabula tertia solis, o Residuum tabule tertie Solis, a Tabula quarta solis e o Residuum tabule quarte Solis, atendiam a doutrina de Zacuto. A Tabula declinationis planetas y solis ab eqnotiali junto a Tabula eqtionis solis, tábua que possibilitava determinar e recalcular a posição do Sol para períodos posteriores, também respondia a essa doutrina. Essas tábuas do grau do Sol e as tábuas que permitiam refazer seus cálculos, foram também as tábuas astronômicas que fundamentaram a construção dos regimentos náuticos dos portugueses, durante as três primeiras décadas do século XVI. Vizinho também considerou em sua tradução as Tabula introitum solis in quolibet signorum (Tábua da entrada do Sol em qualquer dos signos), como um dos cinco lugares principales del nascimjento.

Zacuto também elencou em sua doutrina dos cinco lugares principales del nascimjento o grau do ascendente (el grado del ascendente). No Almanach Perpetuum, se inscreve a seguinte regra para definir o grau do signo ascendente na hora do nascimento:

Dixit ptohlomeum in suo centiloquio verbo 51 locum lune in nativitate est ipso gradum ascendens in circulo hora casum spermatis in matricem. In locum lune hora casum spermatis est gradum ascendens hora nativitates.

Articulado a essa doutrina, José Vizinho traduziu no Almanach Perpetuum a Tabula more infantis in utero matris (Tábua da duração da criança no útero materno), que, ajustada com a De animodar ptholomei, tábua retirada da obra Almagesto de Ptolomeu, possibilitava fixar os signos ascendentes.

O manuscrito Tratado breue de las ynfluencias del cielo, conservado na biblioteca de Fernando Colombo (1488-1539), onde foi catalogado como Abrahe zacuti tractatus Astronomie manu et hispanico sermone scriptus, era acompanhado de um fragmento da Tabula more infantis in utero matris: “Postea sequitur quoddam fragmentum de more infantis in utero matris”. Além dessa Tabula, traduziu-se no Almanach Perpetuum, a Tabula acendentes et duodecim domorum (…)” (Tábua dos ascendentes e das doze casas), destinada à mesma matéria.

O terceiro tópico indicado por Zacuto na doutrina dos cinco lugares principales del nascimjento foi el grado de la luna (o grau da Lua). Vizinho traduziu a Tabula prima lune cuyus radix e 1473, seguida de uma volumosa sequencia de tábuas cujo cabeçalho estampava o título Tabula lune.

O último tópico dessa doutrina foi el grado de la conjuncion o oposicion precedente (o grau da conjunção ou da oposição precedente). Vizinho traduziu um grande volume de tábuas astronômicas que estampavam em seu cabeçalho o título Tabula coniuntionibum et oppositionum.

Logo, o Almanach Perpetuum de Abraham Zacuto foi traduzido em Portugal nos quadros do mesmo ambiente intelectual que o originou. Na historiografia portuguesa, essa obra foi tratada como se contivesse na sua tradução e impressão a explicação para a origem da ciência astronômica da náutica portuguesa, ignorando que, tal como em Portugal, foram publicadas traduções latinas dessa obra em Veneza. Nessa cidade, em 1498, portanto, dois anos após a publicação do Almanach Perpetuum em Portugal, foi impresso por Johannes Lucilius Santritter, a obra Ephemerides sive Almanach Perpetuum. Em 1502, também em Veneza, foi publicado o Almanach perpetuum exactissime nuper emendatum ominium celi motuum cum additionibus in feo factis tenes complementum, por Petrus Liechetenstein. Entretanto, não se registrou na história do período que os venezianos tenham empreendido uma “ciência náutica veneziana” com base nos conhecimentos do Almanach Perpetuum. Conquanto que tenha cumprido um papel importante, não se esgota na tradução e impressão dessa obra a elucidação do desenvolvimento da náutica que impulsionou a expansão marítima dos portugueses. Sob as novas exigências encontradas em Portugal, essa obra se desdobrou em resultados que não se enunciavam originalmente em seu autor, descrevendo uma repercussão que Abraham Zacuto não almejava alcançar quando a redigiu em hebraico, e seu discípulo Vizinho não intentava atingir quando a traduziu no reino de Portugal para o latim e a imprimiu na oficina do judeu Abraão D’Ortas. Zacuto não encerrou suas tábuas astronômicas em uma matemática genuína. Sob uma aparência de objetividade ostentada pela aritmética e pela geometria dos astros, estava imersa uma cosmologia milenar proposta, de longa data, pelos filósofos naturais e os prognósticos de acontecimentos futuros datados através de seus cálculos.

Almada Negreiros

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