O Nome do Fogo: Relações entre a Ekpyrosis, Astrologia e Milenarismo no Mundo Helenístico Romano II

Rodrigo Carvalho Silva

Departamento de História Universidade de Brasília

2.2. Queda e Ascensão pelo Fogo: O Fogo Divino como Destruidor dos Ímpios e Redentor dos Justos na Tradição Judaica e Cristã

A crença de que o mundo será destruído pelo fogo, recheada de juízos de valor, atravessou os séculos em diversas manifestações de fé. O tema da κπύρωσις – para usar o termo caro aos estóicos – é significativamente um marco no desenvolvimento da concepção de história como processo pelos antigos. Ele baliza – tal como o Dilúvio universal – as míticas idades do mundo, nas várias versões em que elas se apresentam. Esse mito também traduz o entendimento de que na Antigüidade o fogo era, assim como a água, o grande agente transformador e purgador universal. O Apocalipse de João é rico em referências à destruição pelo fogo:

 O primeiro anjo tocou a trombeta, e houve saraivada de fogo de mistura com sangue, e foram atirados à terra. Foi, então, queimada a terça parte da terra, e das árvores, e também toda erva verde.

 Essa é a punição para um mundo ímpio, o ordálio universal pelo fogo, poderoso agente da transformação de um mundo mergulhado em iniqüidade. Nesse sentido, quando analisamos o texto do Visionário de Patmos, encontramos outras tantas referências quanto ao fim que há de mergulhar os ímpios numa poderosa punição pelo fogo. Temos a seqüência das trombetas, onde, nas três primeiras, a idéia do fogo vindo do Céu é uma imagem constante, por vezes acompanhada de outras pragas – rios de sangue, destruição das florestas e animais marinhos, envenenamento das águas. A mesma idéia é sugerida na seqüência de pragas anterior:

 E, havendo aberto o sexto selo, olhei, e eis que houve um grande tremor de terra; e o sol tornou-se negro como saco de cilício, e a lua tornou-se como sangue; E as estrelas do céu caíram sobre a terra, como quando a figueira lança de si os seus figos verdes, abalada por um vento forte.

 Cataclismos celestes são uma tônica no discurso sobre a ἐκπύρωσις. A idéia da queda de estrelas, presentes em outros textos apócrifos, como os Oráculos Sibilinos (OrSib) e o Livro Etiópico de Enoch (LEn) reflete essa crença compartilhada por judeus e cristãos primitivos ainda no primeiro século e o quanto isso era – e é fundamental – na literatura apocalíptica. Reflete também a universalidade do fogo que neste caso, desce dos céus com estrelas caídas incendiando os ímpios.

 E o primeiro anjo tocou a sua trombeta, e houve saraiva e fogo misturado com sangue, e foram lançados na terra, que foi queimada na sua terça parte; queimou-se a terça parte das árvores, e toda a erva verde foi queimada. E o segundo anjo tocou a trombeta; e foi lançada no mar uma coisa como um grande monte ardendo em fogo, e tornou-se em sangue a terça parte do mar. E morreu a terça parte das criaturas que tinham vida no mar; e perdeu-se a terça parte das naus. E o terceiro anjo tocou a sua trombeta, e caiu do céu uma grande estrela ardendo como uma tocha, e caiu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas.

 Comparando a passagem do selo da primeira seqüência de pragas com a seqüência seguinte, que é a seqüência das trombetas percebemos uma continuidade temática na qual o tema da destruição pelo fogo aumenta de significado na medida em que o texto é apresentado pelo visionário.

 Em outras passagens do Apocalipse de João, na seqüência das pragas das trombetas temos a sexta trombeta:

 E tocou o sexto anjo a sua trombeta, e ouvi uma voz que vinha das quatro pontas do altar de ouro, que estava diante de Deus, a qual dizia ao sexto anjo, que tinha a trombeta: Solta os quatro anjos, que estão presos junto ao grande rio Eufrates. E foram soltos os quatro anjos, que estavam preparados para a hora, e dia, e mês, e ano, a fim de matarem a terça parte dos homens. E o número dos exércitos dos cavaleiros era de duzentos milhões; e ouvi o número deles. E assim vi os cavalos nesta visão; e os que sobre eles cavalgavam tinham couraças de fogo, e de jacinto, e de enxofre; e as cabeças dos cavalos eram como cabeças de leões; e de suas bocas saía fogo e fumaça e enxofre. Por estes três foi morta a terça parte dos homens, isto é pelo fogo, pela fumaça, e pelo enxofre, que saíam das suas bocas. Porque o poder dos cavalos está na sua boca e nas suas caudas. Porquanto as suas caudas são semelhantes a serpentes, e têm cabeças, e com elas danificam. E os outros homens, que não foram mortos por estas pragas, não se arrependeram das obras de suas mãos, para não adorarem os demônios, e os ídolos de ouro, e de prata, e de bronze, e de pedra, e de madeira, que nem podem ver, nem ouvir, nem andar. E não se arrependeram dos seus homicídios, nem das suas feitiçarias, nem da sua prostituição, nem dos seus furtos.

 A seqüência das trombetas é muito significativa: ela opera num conjunto no qual cada praga sucede-se a outra numa crescente ação divina. Como já disse antes, essa seqüência se insere em outra maior, iniciada com a abertura dos Sete Selos prosseguindo com as Trombetas e finalizada pela punição das com as taças. Em todas elas o fogo aparece como elemento da ira divina e ator da punição de Deus.

Outro exemplo, este retirado do final da seqüência das taças:

 subiram sobre a largura da terra, e cercaram o arraial dos santos e a cidade amada; e de Deus desceu fogo, do céu, e os devorou. E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde está a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre. E vi um grande trono branco, e o que estava assentado sobre ele, de cuja presença fugiu a terra e o céu; e não se achou lugar para eles. E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus, e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida. E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras. E deu o mar os mortos que nele havia; e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia; e foram julgados cada um segundo as suas obras. E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte. E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo.

Essa passagem é fundamental para a nossa comparação. A imagem de um lago flamejante não é como pode parecer à primeira vista, exclusivamente judaica ou cristã. Reflexo da cultura do período no qual o visionário insere uma imagem reconhecidamente grave e aterradora e que é compartilhada culturalmente em seu tempo por pagãos, judeus e cristãos.

 Para o nosso estudo, sugiro afastarmos mais no tempo e tomarmos uma passagem da tradição zoroástrica. Segundo Cohn, o fogo é para eles (entre outras coisas), divindade ordenadora do mundo, objeto de culto, fonte suprema da vitalidade e purificação para os indo-iranianos. No zoroastrismo do período aquemênida, esse “fogo supremo” ganha representação nos altares dos templos (ao invés da imagem de uma divindade), e ele é mantido permanentemente aceso por seus sacerdotes. Mesmo hoje, os Parsi mantêm seu culto em preces domesticas regulares ao fogo – a mais pura das criações – ou ainda, sacerdotes dirigem preces a um fogo ritual, ou ainda a prece individual aos grandes fogos, o Sol e a Lua.

 Nos textos sagrados do Zoroastrismo temos passagens igualmente aterradoras sobre o fim pelo fogo. No Yasna 51.9 temos o seguinte:

 Essa é a recompensa que Tu irás dar a ambas as partes (o justo e o perverso), por meio de teu fogo brilhante, através de metal derretido, é um sinal para todas as almas – que leva a ruína do perverso e a benção do justo.

 Essa é uma das muitas passagens de caráter apocalíptico dentro da tradição zoroástrica. De fato, até onde sabemos é justamente nesta tradição religiosa que surge a idéia de um ordálio universal pelo fogo. Cohn especula que é provável que isso derive de alguma prática tribal de punição contra os criminosos.

 Entre outras fontes temos o Oráculo de Histaspes um apocalipse zoroástrico. Segundo a pesquisa de Flusser, há controvérsias sobre a real natureza deste oráculo. Desde Windisch supõe-se que este texto, que chegou até nós apenas em fragmentos, seja um oráculo zoroástrico escrito em grego. Flusser propõe, entretanto, “que eram na realidade um livro judaico em língua grega, baseado em algum material ou livro zoroastriano”. Qualquer que seja o caso, ambos os autores postulam que esse texto teve influencia sobre a apocalíptica judaica e cristã. Em outra passagem dentro da tradição zoroástrica temos:

 Através de ti produzirás a renovação do Universo, no qual homens honrados tal como está escrito onde eles vivem, cinqüenta homens e cinqüenta donzelas virão no auxílio de Soshyant. As Gochihr cairão a partir da esfera celestial através dos raios lunares na terra, e o desastre na terra será como a ovelha que cai (nas garras) do lobo. Depois disso, o fogo e o anjo do fogo derreterão os vales e as montanhas, e tornará a terra como um rio de metal derretido. Então todos os homens passarão pelo metal derretido e se tornarão puros; quando ele for justo (o metal) parecerá a ele apenas como leite morno. Mas se ele for mau, a ele parecerá desta maneira como ainda que no mundo, e ele andará continuamente me metal derretido.

 É notável a semelhança com Ap. 20 no qual os maus são lançados ao lago de fogo e os justos – inscritos no Livro da Vida são recompensados por Deus. E por outro lado aqui nessa passagem do Bundahishn, vemos a recompensa aos justos e a punição aos maus pelas mãos de Ahura Mazda, o Deus Supremo do zoroastrismo. Essa passagem encontra eco, não somente entre os cristãos como no Apocalipse de João, mas também em inúmeras outras passagens do AT como já foi dito. O que torna a passagem mais ainda fascinante é a permanência em tradições culturais que são aparentemente diversas, mas que foram geradas no mesmo mundo helenístico-romano em condições de grande semelhança. Vale lembrar também que essas passagens em ambas as tradições religiosas apontam para uma raiz zoroástrica na crença judaico-cristã sobre o fim do mundo, e em especial sobre o que é dito acerca da ἐκπύρωσις. Enquanto origem dessas crenças, o Zoroastrismo faz nascer uma idéia que encontrara seu desenvolvimento mais significativo e relevante para o ocidente na tradição cristã.

 O fogo, por outro lado, não é apenas o destruidor de mundos, mas também fonte de purificação e redenção. Como assinalado, por exemplo, na nota anterior, “todos os homens passarão pelo metal derretido e se tornarão puros; quando ele for justo parecerá a ele apenas como leite morno”. Este tema é recorrente na tradição zoroástrica tanto quanto o tema da destruição.

 Mas seu desenvolvimento entre os judeus e os cristãos produzirá frutos igualmente interessantes.

 Num artigo de 2005, Magness (citando Goodenough) fala sobre a figura de Hélios e o zodíaco presente em sinagogas judaicas do período helenístico. Ele trata especificamente de seis sinagogas: Hammath Tiberias, Beth Alpha, Na’aran, Khirbet Susiya, Husifa e Sepphoris. Segundo ele, nessas sinagogas há figuras zodiacais que podem sugerir três movimentos distintos, mas interligados: 1) a ascensão do cristianismo; 2) a ascensão das classes sacerdotais na Judéia e por fim – e o que nos interessa mais imediatamente – 3) a relação entre Hélios e a figura de Metatron através da literatura hekhalot.

 Não irei me aprofundar na discussão que se segue. Entretanto, o paralelo com Metatron/Hélios é o que nos importa nesta passagem, pois que isso nos oferece mais um índice para com a literatura apocalíptica por um lado e com a noção de renovação pelo fogo.

 O anjo Metatron é o patriarca Enoch, homem tornado anjo por Deus. Mesmo que o documento que nos relate isso seja tardio – o Terceiro Livro de Enoch -, devemos lembrar que a popularidade da figura de Enoch remete a uma popularidade das crenças em torno dele, assim como a popularidade das crenças sobre o fogo.

 No 3En temos a seguinte passagem:

 Rabi Ismael disse: Eu disse a Metatron: “Por que são vocês chamados pelo nome de seu criador, com setenta nomes? Vocês são maiores que todos os príncipes, mais exaltados que todos os anjos, mais amados que todos os ministros, mais honrados que todas as hostes, e elevados sobre todas as potestades em soberania, grandeza e glória; por que, então, eles te chamam de Jovem nas alturas celestes?” Ele respondeu: “Porque eu sou Enoch, filho de Jared”.

 A transformação de um mortal – mesmo que considerado um mortal excepcional – em anjo, ou melhor, príncipe de todos os anjos, esta associada a um complexo mítico associado ao fogo transformador. Enoch/Metatron é um paradigma simbólico desta transformação. É aquele que é representado tal como o Deus Hélios dos gregos, como assinala Magness. É o condutor da carruagem divina, o trono de Deus. O desenvolvimento desta idéia aponta para a literatura merkavah, tema que se distancia deste trabalho e que neste momento não me interessa. O meu interesse na figura de Enoch – se ainda não ficou claro – encontra-se nesta passagem, em 3En, como se segue:

 Quando o Santo Deus, abençoado seja ele, pegou-me para servi ao trono da glória, as rodas da carruagem, e todas as necessidades da Shekinah, imediatamente minha carne tornou-se em chamas, meus tendões em labaredas de fogo, meus ossos em junipeiro carbonizado, meus cílios em raios brilhantes, meus olhos em tochas flamejantes, os cabelos de minha cabeça em chamas quentes, todos os meus membros em asas de fogo brilhante, e a substância de meu corpo em fogo fulgurante.

 Isto é, a carne tornada fogo – purificada pelo fogo – para servir ao Deus altíssimo. Neste sentido, o fogo é (se ainda não está claro) o elemento essencial da divindade. O Primeiro Livro de Enoch (1En) é recheado de exemplos sobre a forma e natureza dos anjos – sempre figuras ígneas.

 O mesmo vale para a tradição judaica não-apócrifa. Em Ex 3:2 temos a famosa passagem:

 E apareceu-lhe o anjo do Senhor em uma chama de fogo do meio duma sarça; e olhou, e eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia.

 Ainda em Ex temos:

 E o Senhor ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem para guiá-los pelo caminho, e de noite numa coluna de fogo para iluminá-los, para que caminhassem de dia e de noite. Nunca tirou de diante do povo a coluna de nuvem, de dia, nem a coluna de fogo, de noite.

jerusalem

Ambas as passagens deixam claro que os temas apresentados em Enoch sobre os anjos e o fogo são coisas divinas, que estão interligadas, e que não são apenas uma idéia presente em apócrifos obscuros. Antes disso, sugerem uma tradição cultural anterior, indicando duas coisas: que todas as coisas divinas são ígneas por excelência e que em Enoch (especialmente em 1En e 3En ao meu ver) temos a forma mais desenvolvida deste ideário religioso no mundo judaico.

Eu poderia citar inúmeros outros exemplos. Escolhi estes apenas por comodidade. O leitor atento poderá procurar as seguintes passagens: Gn 19:24; Ex 8:24; 14:24; 24:15-18; Lv 10:2; Nm 9:15; 11:1; 14:14; 16:32-35; 26:10 e 61; Dt 1:33; 4:11-36; 5:1-33 (os Dez Mandamentos); 9:10-15; 10:4; 33:2; Jz 6:21; 1Rs 18:24-25 e 38; 2Rs1:10-14; 2:11; 6:17; 1Cr 21:26; 2Cr 7:1-3; Ne 9:12-19; Jó 1:16; 41:1 e ss; Sl 11:6; 18:8-12; 21:9; 29:7; 39:3; 78:14; 97:3; 104:4; 105:32-39; 106:18; Pr 6:27; 26:20; 30:16; Ct 8:6; Is 4:5; 29:6; 30:14 e 27-33; 43:2; 66:15-16; Ez 1:4 e ss (a visão da carruagem celeste, tema crucial em Enoch); 20:47; Dn 3:6-20; 7:9; 10:5-6; cabe mencionar ainda Lv, onde o fogo do altar tem papel preponderante sobre a prática do ritual de sacrifício. Além disso, muitas dessas passagens bíblicas apontam para a fuga dos Hebreus do Egito como evento fundador dessa tradição no mundo judaico, na medida em que elas remetem a Deus como a “Coluna de Fogo” que os guiou para fora do Egito, como consta em Ex 13:21-22.

 Pois bem, este fogo divino, que ora pune, ora guia e protege transporta-se para a tradição cristã, na figura de Deus, como costume, e também nas pessoas da Trindade. Deus, como aquele que lança o fogo dos Céus é lembrado deste modo em 2Pe. Lá, temos a seguinte passagem:

 Mas os céus e a terra que agora existem pela mesma palavra se reservam como tesouro, e se guardam para o fogo, até o dia do juízo, e da perdição dos homens ímpios. (…) Mas o dia do Senhor virá como o ladrão de noite; no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra, e as obras que nela há, se queimarão. Havendo, pois, de perecer todas estas coisas, que pessoas vos convém ser em santo trato, e piedade, Aguardando, e apressando-vos para a vinda do dia de Deus, em que os céus, em fogo se desfarão, e os elementos, ardendo, se fundirão? Mas nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça.

 A passagem sublinhada tem em grego seguinte forma: πάρειμι. Ela pode ser melhor traduzida por “dia do Advento de Deus”, condição crucial da vida de todos os cristãos, a parousia.

 Como está assinalado em Atos dos Apóstolos, um dos elementos essenciais da parousia é a descida do Espírito Santo de Deus no dia do Advento, como se apresenta na passagem abaixo:

 E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, Que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; E os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, Os vossos jovens terão visões, E os vossos velhos terão sonhos; E também do meu Espírito derramarei sobre os meus servos e as minhas servas naqueles dias, e profetizarão; E farei aparecer prodígios em cima, no céu; E sinais em baixo na terra, Sangue, fogo e vapor de fumo. O sol se converterá em trevas, E a lua em sangue, Antes de chegar o grande e glorioso dia do Senhor;

 Cabe lembrar que a passagem acima é uma citação ao profeta Joel, encontrada nos Atos dos Apóstolos. Ela ocorre durante a descida do Espírito Santo e reafirma o papel escatológico do Espírito Santo de Deus.

 Podemos interpretar as passagens como uma ampliação da noção da qual implica a πάρειμι: enquanto punição para os ímpios, o fogo destrói; enquanto manifestação de Deus, o fogo alimenta e transforma. A novidade levada a cabo pelo cristianismo é que durante a parousia, a descida do Espírito Santo leva a uma dimensão pessoal a manifestação do fogo, distinta de uma manifestação coletiva, tal como ocorre no AT ou no zoroastrismo. A punição ou a salvação aqui é de natureza pessoal; entre os judeus e pagãos, coletiva. Em todo caso, o que importa nestas passagens é a morfologia da idéia sobre o fogo: assim, assumimos que o fogo como elemento primordial desce a partir dos céus para purificar o que está corrompido e também para restabelecer a ordem original, cuja natureza primitiva é ígnea. A descida do fogo é na verdade o seu retorno, em analogia com o nascer do Sol ou o inicio da primavera. O retorno do Fogo/Sol representa o retorno de todas as coisas belas e puras.

 Além disso, podemos perceber neste modelo, a seguinte estrutura:

2.3. Conclusão

 Temos, portanto, esses dois modelos: o primeiro, um modelo helenístico. O segundo modelo, gestado no mundo judaico. Como assinala Campion, ambos os modelos sobre o tempo, representam de um lado, o modelo cíclico sobre o tempo e de outro o modelo linear sobre o tempo.

 No sistema helenístico, temos um arquétipo sobre o tempo, onde a sucessiva perda de umidade está associada à velhice e a perda do vigor. Para cada ser humano, envelhecer é perder umidade assim como para cada ciclo cósmico, “envelhecer” é perder os valores morais (exceto no sistema estóico, como veremos a seguir). Como estrutura, o “Grande Ano” organiza-se em pares, onde cada estação (Ouro-Primavera; Prata-Verão; Bronze ou Cobre-Outono; e Ferro-Inverno) possui seu correlato por oposição e seu par complementar.

 No sistema judaico, não há o tema do ciclo cósmico – aqui, o tempo linear pressupõe o eschaton. Entretanto, ele compartilha com o sistema anterior da noção de processo onde a sucessão do tempo implica também na perda de qualidade de algum tipo. Como arquétipo, o binômio Fogo-Deus remete a uma figura típica do si-mesmo, tal como apresentei anteriormente. Como estrutura, o Fogo cósmico – manifestação de Deus, ou o próprio Deus – apresenta-se em pares opostos seguindo o padrão de Redenção-Punição.

 Se admitirmos como verdadeiro os pressupostos da teoria junguiana, este arquétipo sobre o tempo possui no fogo – no símbolo sobre o fogo – o elemento divino que começa e finaliza o “Grande Ano”. O fogo que forja o ferro da existência e que purifica de todo o mal.

Como veremos a seguir, o tema do Fogo Cósmico, tão caro ao pensamento zoroástrico e judaico também não passaram despercebidos aos gregos, tendo sido incorporado pela filosofia estóica, encontrado desde Heráclito. Assim, cabe a pergunta: o modelo estóico era semelhante ao modelo judaico?

Capítulo 3

 Ekpyrosis, Astologia e Estoicismo

 Este capítulo pretende investigar o modo como fogo é percebido no período helenístico-romano, através de fontes diversas. Segundo o meu entendimento, o fogo como elemento universal é o elemento purificador por excelência, e essa imagem surgida possivelmente dentro do zoroastrismo tornou-se comum ao mediterrâneo.

 Se no capitulo anterior vimos como essa influência se construiu no zoroastrismo e por sua vez, tomou forma no judaísmo e posteriormente no cristianismo, veremos neste capitulo como o mundo helenístico assumiu através da doutrina estóica essas mesmas noções, com suas próprias particularidades. Procurarei mostrar quais são elas e de que modo isso se deu.

 Assim, parto de uma passagem de Sêneca em Questões Naturais, na qual ele cita Berossos e procuro investigar a relação entre astrologia, e estoicismo. Para ele, a grande conflagração ocorreria num grande alinhamento planetário no signo de Câncer e que o dilúvio universal ocorreu num alinhamento semelhante no signo de Capricórnio, signo diametralmente oposto a Câncer. Dado isso e admitindo como pressuposto que o conhecimento sobre a astrologia era essencial para os estóicos, quais eram os motivos que implicaram na escolha desta data hipotética e como se dá a apropriação da crença da destruição do mundo pelo fogo em algumas passagens na literatura estóica.

 Prossigo minha reflexão neste capitulo, sugerindo explicações sobre os sentidos e significados do Fogo como elemento primordial, quer seja num passado remoto onde estes mitos foram gestados, quer seja dentro da doutrina estóica. O tema do Fogo como era entendido na doutrina estóica sugere um grau de elaboração racional deste sistema de crenças tão complexo quanto àquele encontrado em outras formas desse sistema de crenças.

3.1. Berossos como Divulgador de uma Tradição sobre o Fim dos Tempos

 Sêneca em Questões Naturais citando Berossos nos fala que o mundo seria destruído pelo fogo numa grande conjunção no signo de Câncer entre todos os sete planetas visíveis a olho nu, e que tal fato – reflexo do entendimento estóico que tudo provem da Natureza – marcaria o fim de uma grande era. A crença da “conflagração final” é comum aos estóicos, segundo Diógenes Laércio, e Sêneca não fugia ao padrão. E qual é a natureza do relato de Berossos? Sêneca nos informa o seguinte:

 (…) essas catástrofes ocorrem com o movimento dos planetas. Com efeito, ele (Berossos) está tão certo disso que assinalou a data para Conflagração e o Dilúvio. Para que as coisas terrenas venham se queimar, ele defende que, quando todos os planetas que agora mantêm uma órbita diferente vierem se encontrar no signo de Câncer, e todos tão organizados num mesmo caminho numa linha reta que passe através das esferas de todos eles. O Dilúvio ocorrerá quando o mesmo grupo de planetas se encontrar em Capricórnio. O Solstício é causado por Câncer, o inverno por Capricórnio; eles são signos de grande poder e a partir deles estão os pontos de mudança do ano.

 Portanto para Sêneca é, se me permitem a ironia, apenas uma questão natural. Como diz Sêneca nesta passagem, não necessariamente uma a ἐκπύρωσις deve acontecer depois do Dilúvio, podendo inclusive um ou mais “dilúvios” ocorrerem antes da conflagração final e também várias destruições pelo fogo surgirem em conseqüência de um aspecto determinado astrológico. Como fenômeno, ambos devem ocorrer assim como o Sol nasce e se põe a cada dia, implicando sempre numa renovação final.

 A associação com os solstícios é nesta passagem algo singular e nos fornece um índice de entendimento do problema. O Solstício de verão – que no hemisfério norte começa por volta do dia 22 de junho – é o dia mais longo e a noite mais curta do ano e que marca o início da estação do verão. A partir dessa data, os dias começam a ficar cada vez mais curtos e as noites progressivamente mais longas até o Solstício de inverno (cuja data é por volta do dia 22 de dezembro), quando o ciclo se inverte, ou seja, a partir da noite mais longa e do dia mais curto do ano as noites começam a se tornar mais curtas e os dias mais longos.

 A associação do inverno e verão com respectivamente o Dilúvio e a Conflagração, necessita de explicação. Minha hipótese é de que no verão, os dias são mais quentes e no dia mais longo do ano costuma ser especialmente quente. Como o verão é marcado pela entrada do Sol em Câncer é natural que Berossos pensasse que, se o Sol em Câncer traz um dia quente. Assim, o que aconteceria – segundo a perspectiva de um astrólogo babilônico do século III a.C – se estivessem todos os outros seis planetas visíveis a olho nu no mesmo lugar em que o Sol deve estar no dia do Solstício? Semelhante idéia remete ao Dilúvio, mas o mesmo ocorrendo num signo oposto à Câncer, – Capricórnio.

 Assim, Sêneca preocupado com a causa dos desastres naturais, oferece uma explicação para o fenômeno das enchentes em Questões Naturais 3 – De aquis terrestribus e, por conseguinte, a questão do Dilúvio surge entre suas preocupações. A explicação de Berossos se move nesta direção, e contempla o problema da ἐκπύρωσις. Este relato, portanto, tem valor na medida em que por um lado a astrologia gozava de um status semelhante ao de ciência, e, portanto era fundamento para as preocupações de filosofia natural de Sêneca, e por outro faz pensar na relação da com o “Dilúvio Universal” sugerindo que estes eventos são como que “balizas” no tema do mito das idades do mundo, do mesmo modo que para Berossos e Ptolomeu, os Solstícios eram duas das grandes passagens do ano.

3.2. O Nome do Fogo

 Dado isto, podemos retomar a seguinte idéia: qual a natureza do fogo e suas respectivas representações para o estoicismo? Para responder essa pergunta, decidi que descrever o modo como o fogo é representado entre os estóicos como um modo possível de encontrar a resposta e ao mesmo tempo relatar outras possíveis fontes para esta idéia no mundo grego.

 O fogo transforma, reordena, torna novo aquilo que estava em desordem. Como o fogo de uma forja que molda o metal em espada ou arado. Os modelos e mitos associados à destruição pelo fogo sugerem que a destruição pelo fogo está associada ao desenvolvimento da forja do ferro, o que explicaria a relação do fim do mundo pelo fogo com a última idade, também sempre associada ao ferro.

 Segundo Propp, a figura do dragão mítico está relacionada ao desenvolvimento de determinados aspectos das relações em sociedade. Para ele, a figura do dragão celeste, associado ao fogo e ao sol, está conectada com o desenvolvimento da agricultura e o surgimento das cidades, assim como o domínio das técnicas de forja sobre o ferro. Ele também afirma que os povos que conhecem o dragão solar são sempre mais cultos que aqueles que não os conhecem. A partir daí ele, o Dragão, ganha novas características, como: a) ele se torna o engolidor do Sol; b) ele deixa de ser o guardião das águas terrestres para se tornar o guardião das águas celestes, isto é, as nuvens e as chuvas; c) o dragão torna-se o guardião do país dos mortos quando este se situa no céu ou relacionado ao Sol; e por fim, d) tudo que cerca o dragão torna-se torna se fogo, relacionado ao fogo, e, portanto o rio, o lago, etc. De qualquer modo, ele situa a figura do Dragão relacionando-o ao desenvolvimento das sociedades e ao desenvolvimento civilizatório.

 De qualquer modo, as referências ao fogo divino e ao mesmo tempo destruidor são encontradas entre judeus, pagãos e cristãos, apesar de possuir alguns significados distintos em cada sistema de crenças. Nos Oráculos Sibilinos, por exemplo – uma fonte de difícil interpretação devido à sua autoria compósita – isso está presente e sua condição única, com sincretismos cristãos, pagãos e judaicos levando a supor a difusão destes elementos ígneos na mentalidade do período.

 Prosseguindo, a relação entre o mundo mesopotâmico e o mundo grego é bastante conhecida. Segundo Charles Penglase, podemos falar de uma intima conexão entre os mitos gregos e mesopotâmicos. Ele postula que essa difusão se deu por volta do período arcaico (sec. VII-V a.C.) e aponta diversos paralelos entre os mitos gregos e mesopotâmicos.

 Como ele diz,

 O roubo do fogo por Prometeu, sua segunda trapaça, esta conectada com a oferta do sacrifício e do alimento, como o “par (sacrifício e alimento) era com poucas exceções inseparável para os gregos”; fogo é a base do sacrifício animal, o qual é a base da primeira trapaça de Prometeu. Em Ésquilo, o fogo é também visto como a ferramenta básica da civilização, e Prometeu, pelo sentido do presente do fogo, ensinou a humanidade todas as artes e ofícios da civilização. Esse elemento também convoca o épico de Atrahasis, no qual a civilização é similarmente um dom de Enki. Após o dilúvio, Enki, o Deus dos ofícios, junto com Mami, estabeleceu e organizou a nova civilização.

 Não vou me estender nos exemplos; basta o trabalho de Penglase. Entretanto, o que desejo com essa passagem é sustentar que a relação entre o mundo grego e mesopotâmico é bastante conhecida e que é nisso que se apóia a transmissão dos mitos sobre o fogo, em momentos distintos – mas como já afirmei – bastante conhecidos.

 Nas suas múltiplas formas, derivações e transmissões, os mitos sobre o fogo são antes de tudo, mitos civilizatórios. Civilizar, portanto, significa controlar o fogo. São sinônimos. Quer seja na análise de Vladimir Propp sobre a figura do dragão, quer seja no mito de Prometeu, ou mesmo entre os hebreus na sua fuga do Egito, o fogo sempre representa o desenvolvimento do povo, da nação, ou mesmo da humanidade.

 Concluindo, sugiro como hipótese a ser analisada a idéia de que estes mitos surgem de uma imagem arquetípica onde o fogo esteve presente desde os primórdios de nossa espécie, como centro físico de cada fogueira de caçada ou como fogo sagrado onde cada xamã realizava seus ritos propiciatórios. Se esta hipótese estiver correta, reunir-se em torno do fogo é causa fundamental do surgimento da idéia de comunidade. Portanto, não é preciso muito esforço intelectual para entender que esse processo derivou em ultima instância naquilo que chamamos por comodidade de civilização.

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3.3. Fogo e Estoicismo

Posto isso, a noção de uma conflagração final, que os estóicos chamam de ἐκπύρωσις era uma representação comum que tinha um fundamento religioso e uma implicação moral, mas que para os estóicos – ou mais precisamente para Sêneca – era um fenômeno como a chuva ou um dia de Sol sendo propiciado pelo movimento dos planetas no céu, e que bastaria que o aspecto planetário se configurasse (seja em Câncer ou em Capricórnio) para que o universo fosse reestruturado ou restaurado através de um Dilúvio ou ἐκπύρωσις. Todavia é necessário uma pequena ressalva: para Posidônio a explicação para a influência dos fenômenos celestes deriva do fato que a origem da alma é o céu e estando presa a carne, a centelha divina volta-se para o céu a fim de buscar sua origem perdida.

 De qualquer modo, Diógenes Laércio nos fala o seguinte sobre a doutrina de Heráclito:

 (7) De um modo geral, os pontos fundamentais da sua doutrina são os seguintes. Tudo se forma do fogo e volta à ele. Tudo acontece por força da necessidade, e as coisas existentes são postas em harmonia por meio de correntes antagônicas. Tudo está cheio de almas e “daemons”. (…).

 (8) Seguem-se agora alguns tópicos de sua doutrina. O fogo é o elemento e todas as outras coisas são mutações do fogo e passam a existir por rarefação e condensação. Mas Heráclito não explica claramente esse assunto. O vir a ser de todas as coisas é determinado pelo conflito dos opostos e tudo flui como se fosse um rio; o todo é infinito e constitui um cosmos único. O cosmos gera-se do fogo e periodicamente resolve-se do novo em fogo; esse processo que se repete sempre com uma alternância constante no curso perene do tempo, acontece por força da necessidade. Os opostos, aquele que leva a gênese se chama Guerra e Discórdia, e outro, que leva a conflagração, chama-se Concórdia e Paz, e a mutação é o caminho ascendente e descendente, ao qual se deve a formação dos cosmos.

 (9) Contraindo-se, o fogo se transforma em umidade e esta, condensando-se, transforma-se em água; a água por seu turno, consolidando-se, transforma-se em terra. Este é o caminho descendente. Esse sentido contrário, a terra volta a ser fluida e assim dela forma-se a água, e da água forma-se todas as coisas restantes, que para Heráclito resultam quase todas as evaporações do mar. Esta é a via ascendente. As evaporações ocorrem tanto da terra como do mar. As do mar são luminosas e puras, as da terra são escuras. O fogo é alimentado pelas evaporações luminosas e a umidade pelas outras. Heráclito, entretanto, não explica a natureza do elemento que circunda o todo. Diz, porem, que existe nesse elemento grandes bacias cuja parte côncava está voltada para nós, nas quais as evaporações luminosas reunindo-se, produzem chamas. São os astros.

 (10) A chama do Sol é a mais luminosa e a mais quente; todos os outro astros estão mais distantes da Terra, e por essa razão, sua luz e seu calor são mais fracos; a Lua, mais próxima da Terra, move-se numa região impura. O Sol, que está a uma distância bem proporcionada em relação a nós, move-se numa região límpida e estão voltadas para ao Alto, as mutações mensais na forma da Lua verificam-se todas as vezes que a bacia gira gradualmente sobre si mesma. O dia, a noite, os meses, as estações, e os anos, as chuvas, os ventos, e fenômenos semelhantes decorrem da densidade das evaporações.

 (11) Com efeito, a evaporação luminosa, inflamando-se na órbita do Sol produz o dia, a evaporação contrária, depois de obter o predomínio, produz a noite; o crescimento do calor devido à luz produz o verão enquanto a umidade alimentada pelas trevas produz o inverno. As explicações das causas dos demais fenômenos harmonizam-se com estas. Heráclito nada diz a respeito da natureza da terra e das bacias.

 Dessas passagens podemos retirar os seguintes dados:

 a)    A filosofia de Heráclito deriva do contraponto de opostos complementares;

 Isso nos lembra que tanto a Conflagração quanto o Dilúvio são opostos complementares dentro da doutrina de Sêneca. Quer isso seja um desenvolvimento posterior dessa idéia de oposição, quer seja originalmente proposto por outros Estóicos, temos neste par Diluvio/ἐκπύρωσις um dos múltiplos exemplos deste aspecto dessa Doutrina. Portanto, apesar de não estar no escopo desse trabalho, compreender o tema do Dilúvio pode oferecer índices de entendimento para o problema da ἐκπύρωσις.

 b)    O fogo é o elemento de todas as coisas. Reafirmando o sentido do fogo como origem de todas as coisas, Heráclito postula a existência de um criador original.

 c)     O universo nasce do fogo e ao fogo retorna a partir da necessidade e do conflito de opostos; este trecho concorda com a reflexão de Clemente de Alexandria quando cita Heráclito em seu Stromata. Como diz o apologista:

 Certamente Heráclito, o Efésio, é dessa mesma opinião, pois julga haver um cosmo eterno, um efêmero, mas sabe, por sua ordenação, que um não se mantém diverso do outro. Que considerou, contudo, o cosmo como feito propriamente a partir de uma mesma substância torna evidente quando assim diz:o cosmo, o mesmo para todos, não o fez nenhum dos Deuses nem nenhum dos homens mas sempre foi, é e será, fogo sempre vivo (sempre vivente), acendendo-se segundo medidas e segundo medidas apagando-se.

 Isso nos coloca para pensar sobre como o fogo era entendido. Heráclito propõe com muita clareza que o fogo é a origem de todas as coisas e o distingue em duas naturezas, tal como veremos a seguir. Tomando uma passagem de um autor contemporâneo temos:

 Transformação pelo principio divino será mais completo em Divino, fogo criativo, e menos no ordinário, fogo destrutivo. Isso explica como o fogo criativo é, num certo sentido idêntico com o principio ativo; isto é mais no sentido de que o fogo é a mais perfeita manifestação da natureza do principio, e este no principio ativo é transformado em principio passivo tão completamente que ele não pode ser distinguido.

 Concordando com a reflexão de Sharples, e entendendo o fogo a partir desta concepção helenística como um elemento purificador primário, e não somente como um fogo destruidor; a destruição pelo fogo é na verdade a renovação pelo fogo. De fato, nas fontes consultadas até o momento, o temor da destruição sempre acompanha a idéia de pureza do fogo e do Sol.

 Prosseguindo na analise, temos ainda em Diógenes Laércio:

 d)    Contraindo-se, o fogo se transforma em umidade.

 Aqui ele fala do caminho descendente da formação de todas as coisas: do fogo-contração que leva a umidade; o ar que é úmido, condensando-se torna-se água. A água solidificando-se torna-se terra.

 e)    Que pelas evaporações do mar todas as coisas retornam da terra ao fogo, sendo esta a via ascendente;

 Isso também concorda com outra passagem em Clemente de Alexandria, onde ele diz:

 Mas é também da opinião de que o mundo é nato e corruptível como indica a continuação: “transformações (ou faces) do fogo: primeiro, mar; do mar, metade terra, metade ardência. Diz, pois, potencialmente que o fogo, pela ação daquele que tudo governa, Logos ou Deus, transforma-se, através do ar, em umidade – o embrião da formação dos cosmo a que ele chama mar; a partir desse embrião surge o céu, a terra e o que contem.

 Temos nesta passagem novamente a doutrina das evaporações, na qual toda matéria se dissolve e se constitui ao seu turno de acordo com o movimento da natureza. Considerando as fontes até aqui é possível propor que a doutrina das evaporações é a base metafísica para a doutrina da ἐκπύρωσις. Podemos admitir que o acumulo dessas evaporações levariam a Grande Conflagração dentro das concepções escatológicas presentes na doutrina estóica.

 Prosseguindo, Micheal White argumenta a partir de uma passagem em Diógenes Laércio, que a física estóica se divide em sete tópicos: corpos, princípios, elementos, deuses, limites, lugares e vácuo. Apesar da distinção entre princípios e elementos, freqüentemente os termos são usados como sinônimos. Todavia, Diógenes Laércio deixa claro que enquanto os princípios são indestrutíveis, os elementos perecem e perecerão pela Conflagração.

 Ao mesmo tempo, ao reduzir o divino a apenas um principio material, seus críticos argumentam que os estóicos comprometem a natureza de Deus. Entretanto, nada é mais estóico do que a idéia de que tudo que é real é também corpóreo. Esta idéia divide-se em duas concepções:

 i) Tudo que é real inclui coisas como os corpos, coisas incorpóreas, ou coisas que subsistem, como o vácuo, os lugares, o tempo e coisas nomeáveis (que possuem sentido).

 ii) A segunda concepção diz que a essa noção de corporeidade assume que o universo é corpóreo e também é uma criatura viva.

 Continuando com as passagens em Diógenes Laércio, temos:

 f)      Que a partir das assim chamadas “evaporações luminosas” conjuga-se o fogo em grandes bacias, das quais se formam os planetas, aqui possivelmente entendidos no sentido que os astrólogos darão aos planetas;

 g)     Que as “evaporações escuras” formam os outros elementos;

 h)    A alternância regular entre as evaporações produz o dia e a noite, assim como as estações e todos os outros fenômenos meteorológicos.

 Podemos assumir nas passagens até aqui que na metafísica estóica todos os fenômenos naturais ocorrem por alternância de opostos, num ciclo eterno de mudança e conflito. Este processo segue até a Conflagração Final, marcada pelo alinhamento de todos os planetas no signo de Câncer.

 Ora, como já foi afirmado, os estóicos tinham por crença que as evaporações luminosas alimentavam os Planetas e suas chamas distantes. O alinhamento perfeito destes fogos produziria a descida do fogo destes sobre a terra, vinda diretamente das bacias que os alimentavam. A mesma conclusão pode ser admitida em relação ao dilúvio, em relação à bacia oposta, aquela que recebe as evaporações escuras.

 Do mesmo modo, devemos lembrar que é durante o solstício de verão que temos o dia mais longo e que a κπύρωσις está marcada para este dia, tal como o dilúvio veio ocorrer durante o solstício de inverno – a noite mais longa.

 Por fim,

 i)      que a chama do Sol é a mais luminosa e a mais pura.

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 Essa ultima passagem pode ser comparada com outra em Platão na qual o filósofo relaciona a origem de todas as coisas boas com a existência da luz no qual o Sol é a fonte primeira da mesma. Como já apresentamos antes:

 -Podes, portanto, dizer que é o Sol, que eu considero filho do bem, que o bem gerou à sua semelhança, o qual o bem é, no mundo inteligível, em relação à inteligência e ao inteligível, o mesmo Sol que no mundo visível em relação à vista e ao mundo visível.

 -Como? Explica-me melhor.

 -Sabes que os olhos – prossegui eu – quando se voltam para objetos cujas cores já não já não são mantidas pela luz do dia, mas por clarões noturnos, vêem mal e parecem quase cegos, como se não tivessem uma visão clara.

 -Exatamente.

 -Mas, quando se voltam para os que são iluminados pelo Sol, acho que vêem nitidamente e torna-se evidente que esses mesmos olhos têm uma visão clara. (…) Fica sabendo que o que transmite a verdade aos objetos cognoscíveis e dá ao sujeito que conhece esse poder, é a idéia de bem. Entende que é ela a causa do saber e da verdade, na medida em que esta é conhecida, mas, sendo ambos assim belos, o saber e a verdade, terás razão em pensar que há algo mais belo ainda do que eles. E, tal, como se pode pensar.

 Ora, temos nesta concepção helenística sobre o fogo, o inicio e o fim de todas as coisas e na figura do Sol, fonte suprema de luz e calor, e por isso fonte de todo bem. Essas duas passagens estão relacionadas na medida em que nas fontes consultadas, o Sol é também a origem de todo o calor e, portanto, fonte do fogo e da luz. Ainda sobre a relação entre o fogo cósmico e o Sol temos essa passagem em Aristóteles, citando Heráclito:

 A chama surge de uma continua comutação entre umidade e secura; não é (portanto) uma coisa de que se possa dizer que se sustente e subsista sendo a mesma ao longo do tempo. Mas isso não sucede com o Sol, pois se ele se comportasse da mesma maneira, conforme afirmam, certamente que o Sol não seria apenas “novo a cada dia” (sempre novo, continuamente) como diz Heráclito, mas sempre novo, continuamente.

 Ainda em Diógenes Laércio (citando Posidônio) temos:

 Dos astros, as estrelas giram juntamente com todo o céu, enquanto os planetas têm seu movimento especial. O Sol perfaz uma trajetória obliqua através do zodíaco, e analogamente a lua se move num itinerário espiralado. O Sol é um fogo absolutamente puro, segundo a afirmação de Posidônio no VII livro de sua obra Dos fenômenos Celestes, e é maior que a terra, como diz o mesmo autor no VII livro de sua Física. À semelhança dos cosmos ele é esférico, de acordo com a afirmação do mesmo autor e de seus seguidores. É fogo porque traduz todos os efeitos do fogo, e é maior que a terra porque não somente a terra toda é iluminada por ele, mas também o céu. O fato de o Sol ser maior que a terra me indicado ainda pela circunstância de a terra produzir um sombra de forma cônica; e por sua grandeza ele é visível de todas as partes da terra.

 Essa passagem de Zenão, citado por Posidônio, demonstra que a filosofia estóica defendia a idéia de que o Sol era origem deste fogo primordial. As passagens seguintes, no mesmo trecho, declaram a relação entre a divindade e o fogo, assim como explicam a ordenação do universo e sua composição. Na passagem 147, o paralelo entre Luz-Dia-Zeus, sugerem novamente essa concepção.

 Se analisarmos com mais clareza as seguintes passagens em Diógenes Laércio, “A chama do Sol é a mais luminosa e a mais quente”; “O Sol, que está a uma distância bem proporcionada em relação a nós, move-se numa região límpida” e “Com efeito, a evaporação luminosa, inflamando-se na órbita do Sol produz o dia” temos que no estoicismo a compreensão de que o Sol era a chama mais pura e bela, tal como aparece em Platão, como assinalei anteriormente, sugerindo uma filiação ou como prefiro acreditar, uma origem comum a ambas as idéias. Essas passagens mostram com clareza que o Sol estava associado já no século III a uma noção verdade, pureza e bem e que isso não é distinto do estoicismo na medida em que sua filosofia moral estóica dependia da ἐκπύρωσις, tal como afirma White. Segundo ele:

 Em particular os temas estóicos sobre a unidade e coesão do cosmos e uma toda compassiva razão divina controlando o cosmos são de fundamental importância para física estóica.

 Assim se constrói entre os estóicos a idéia de que o fogo é a fonte primeira de todas as coisas. Por outro lado, ao contrário do que ocorre dentro de outras concepções sobre a conflagração, a estóica não sugere um fim tenebroso ou malquisto. Ela é a resolução final do ideal estóico sobre a unidade com a natureza. Na medida em que o fogo pode ser identificado com a figura do Sol, este como já dissemos era simbolizado como fonte de pureza, verdade e do bem, negar a unidade final com o fogo é o mesmo que negar dentro deste sistema de moralidade a unidade com o bem. Isso pode explicar porque Clemente de Alexandria – crítico da doutrina estóica em Heráclito – parece dispor de modo tão precioso de alguns argumentos do filósofo para justificar a unidade com o Logos-Deus. Assim, não podemos deixar de supor que essa noção de uma conflagração final tenha influenciado concepções mais tardias. Clemente de Alexandria, não parece negar a conflagração. Sua crítica dirige-se especificamente as heresias que sugerem uma influência heraclitiana. Sua crítica não é portanto a imagem de um lago de fogo como local de danação dos ímpios (como explicado no capitulo anterior), imagem que já fazia parte do cânone cristão.

 Todavia, não era isso que postulavam os estóicos. Sua noção aproximava-se de uma perspectiva de unidade com o divino na qual a conflagração era o ponto culminante desta crença. Para Heráclito e Zenão, o fogo primordial e o fogo divino eram por identidade uma única coisa.

 Assim, a idéia da ἐκπύρωσις é compartilhada por pagãos, judeus e cristãos durante o período helenístico-romano. Mas a identidade dessa crença não implicava numa identidade de valores quanto a crença. Para judeus e cristãos (e alguns pagãos), a conflagração seria uma punição divina quanto às mazelas e pecados do mundo e que é contrário ao modelo estóico, que pressupunha que a conflagração era um fenômeno natural tal como a chuva ou os ventos, estes outros grupos tinham na ἐκπύρωσις um elemento basilar para suas crenças no fim do mundo e que a mesma seria uma das muitas punições e provações divinas para justos e ímpios.

Fiat et Lux

Conclusão Final

 Eu termino esta dissertação levantando a seguinte pergunta: O que me levou à astrologia? Creio que sua importância no mundo helenístico-romano justificaria esse trabalho. Mesmo o seu maior crítico, ou ao menos o mais importante durante o século I a.C, parecia conhecê-la bem. Como ele mesmo nos relata no seu VI livro de sua res publica “O sonho de Cipião”:

 Como eu continuava a olhar fixamente, Africanus falou: “Por quanto tempo tua mente se manterá presa na Terra? Não vês em que Templo glorioso que tu vieste? Fica sabendo agora que o Universo consiste em nove círculos, ou Esferas, unidas, sendo que uma delas é celestial e que a mais distante, envolvendo todo o resto, é a suprema divindade que preserva e governa as outras. Nessa esfera estão traçadas as revoluções eternas das Estrelas que giram para trás com movimento contrário àquele da Esfera Celestial. A primeira Esfera (entre essas Sete) é ocupada pela Estrela que na Terra é chamada de Saturno. Depois vem a esfera daquela Estrela esplêndida, salutar e afortunada para a raça humana, chamada Júpiter. Depois vem a Esfera Vermelha, terrível para a Terra, que chamamos de Marte. Logo abaixo dessa esfera, quase na região central, está localizado o Sol – O Líder, Chefe e Governador das outras Luzes; a mente do Mundo e o princípio organizador – de magnitude tão maravilhosa que ilumina e impregna cada parte do Universo com a sua Luz. As Esferas de Vênus e Mercúrio em seus respectivos cursos seguem o Sol como companheiras. Na Esfera mais baixa, a Lua gira iluminada pelos raios do Sol. Abaixo disso, não existe nada que não esteja sujeito à morte e decadência, com exceção das Almas que, por dádiva dos Deuses, são concedidas à raça humana. Acima da Lua, todas as coisas são eternas, mas a Esfera da Terra, que ocupa um lugar ao meio e vem em nono lugar, não se move: é a mais baixa e para ela todos os corpos pesados nascem pela própria gravidade”.

 A passagem segue relacionando luz e som e as escalas musicais, sugerindo a relação tão comentada neste trabalho sobre o Bem e a Luz. Por outro lado, mesmo que fosse apenas um relato de um sonho e mesmo que pudéssemos argumentar que Cícero não tinha a arte dos Caldeus em boa conta, vemos que para desenvolver suas críticas, o famoso orador e filósofo dominava os conceitos básicos desta arte estrangeira, neste caso especificamente, aquilo que chamamos de ordem dos caldeus, isto, é, a ordem na qual os planetas eram percebidos a partir da Terra. Não eram argumentos alienígenas a ele. Que melhor argumento em favor da importância da astrologia, do que aquele que podemos concluir pelo relato de seu maior crítico? O relato também possui os mesmos elementos que já assinalamos sobre a benevolência do Sol.

 Isso sugere que já no séc.I a.C, esses conceitos já estavam cristalizados na alta cultura romana e que as fontes demonstraram que vinham sendo desenvolvidas desde o séc.VII. Mesmo que por hipótese improvável ele desconhecesse a origem deste conceito, isso já seria um indicador dessa cristalização da percepção sobre o céu.

 Por outro lado, temos a relação profunda da astrologia com o Estoicismo. Considerando a especificidade do meu tema, preferi me concentrar no recorte especifico da passagem de Sêneca em Questões Naturais. Assim, em função disso surge a pergunta: teria os estóicos ou mesmo outros astrólogos do período desenvolvido uma noção relativa ao mito das idades que remetesse ao pensamento estóico sobre o fim?

 As fontes dizem que sim. A surpresa deste trabalho é perceber que existem indícios mais complexos do que simplesmente aquele que Sêneca propõe.

 Podemos ver isso quando percebemos em Ptolomeu uma forma do mito das Idades do Mundo semelhante aquela encontrada tanto no Mahabarata quanto em Hesíodo. Também podemos ver as correlações deste mitema na origem da própria astrologia enquanto forma de saber indiciário. Estações/clima/signos. Essa correlação pode ser a origem de todo o sistema. Segundo meu entendimento é no desenvolvimento dessa percepção sobre a natureza que reside a origem deste mito.

 Outro índice que leva a essa relação é ao tema do corpo cósmico, quer seja o corpo de Bhraman, quer seja o tema encontrado em Ptolomeu. Séculos e culturas separam esta noção, mas a semelhança é gritante. Mesmo no sonho de Daniel, o tema se repete sugerindo algum tipo de conexão.

 Essa correlação pode ter sua resposta no intercâmbio de informações entre o mundo grego e o oriente especialmente durante o séc.VII, quando provavelmente o mito tomou forma entre os helenos.

 Uma possibilidade, mostrada pelas fontes, é que origem deste mito na sua forma astrológica pode ter uma filiação com a astrologia babilônica, ou ainda uma origem comum para ambos os sistemas, isto é, para a astrologia e para o mito. Ou seja, mito das idades do mundo nas suas múltiplas formas aparece com o tema das quatro idades e o tema das sete idades no período helenístico-romano. Ambas as formas são encontradas em períodos e povos anteriores.

 Para o mito das quatro idades, temos como já dito acima, a forma astrológica onde o tema da Conflagração é o índice de entendimento do problema. Isso sem mencionar Hesíodo e formas posteriores encontradas, por exemplo, em Santo Agostinho. Por outro lado, o tema das sete idades pode ser de origem mesopotâmica. A forma mais conhecida dele no ocidente é o sonho de Daniel, tal como citei no capítulo 2. Este é o pano de fundo no qual se apóia o tema da κπύρωσις.

 Portanto, como se dá o desenvolvimento do tema? Assumo que o tema é fundamentalmente arquetípico e que por isso ele se apresenta recorrentemente em povos tão distintos. Se a explicação de Joseph Campbell estiver correta, o tema do Grande Ano ou como preferimos chamar, o Mito das Idades do Mundo tem sua origem na experiência sistemática do homem primitivo com os ciclos da natureza, especificamente o ciclo das estações. Por sua vez, assumindo a perspectiva de Propp, o fenômeno natural se fez rito e o rito tornou-se mito. E como foi adequadamente analisado por Eliade é através do rito que o homo religiosus reafirma sua conexão com a natureza e num desenvolvimento posterior, com o divino. No caso analisado, temos uma particularidade, se não única, ao menos crucial na região do oriente médio: o céu é aquele que oferece mais regularidade dentre os fenômenos naturais. Ora, na medida em que se desenvolvem sociedades complexas nesta região do mundo, mais importante se torna essa relação com o céu. É através do céu que se dá a relação entre o Estado na figura dos Reis e sacerdotes, e os deuses.

 Por outro lado, o mundo mesopotâmico nos oferece também algo único: a figura de deuses devotados exclusivamente ao mal. Nergal e Pazuzu dentre outros são exemplos nítidos desse sentimento religioso e que dentro do Zoroastrismo fará da figura de Ahriman cerne dessa crença. Assim temos no Zoroastrismo a contribuição de uma purificação deste mal através do fogo. A noção do fim do mundo pelo fogo, onde o fogo sagrado purificará os justos de todo o mal e eliminará os ímpios, implica no fim desse mal tangível e nomeado.

 Quando os hebreus foram levados para a Babilônia, constituiu-se aí uma das vias de transmissão deste sistema de crenças. Não custa lembrar, mas Nabucodonozor levou 10 mil judeus para a babilônia:

 Nabucodonosor levou para o exílio os habitantes de Jerusalém, todos os príncipes reais e todos os homens importantes da cidade, num total de dez mil. Levou também entre os exilados os artífices e ferreiros, deixando apenas os habitantes mais pobres. Nabucodonosor levou ainda para a Babilônia o rei Jeconias, juntamente com a sua mãe, as suas mulheres, os funcionários do seu palácio e os chefes importantes de Judá. Levou para a Babilônia todos os homens importantes, em número de sete mil, e ainda mil artífices e ferreiros, todos eles aptos para o serviço militar.

 Por outro lado, a crença no fim do mundo pelo fogo chegou ao mundo grego pela transmissão dos saberes astrológicos. Isso sugere três coisas:

 a) que a forma religiosa dessa crença não sofreu entre os gregos todo o desenvolvimento que o oriente produziu, sendo apenas depositária deste desenvolvimento.

b) A astrologia já no período arcaico grego já não era somente uma religião astral; era um sistema de conhecimento baseado na capacidade de cálculo do movimento dos planetas, e que essa capacidade era base deste sistema de previsão. Essa poderosa racionalidade apeteceu o espírito grego, que produzirá mais conhecimento sobre o céu, como reflexo de uma teoria sobre a ἐκπύρωσις.

 c) Assim se essa idéia não produziu ou desenvolveu – ao menos num primeiro momento – uma concepção religiosa, por outro lado, encontrou na filosofia, em especial entre os estóicos, o foco necessário para o seu desenvolvimento. Sabemos que os gregos já conheciam a astrologia no século VII, mas que era um sistema de conhecimento alienígena para eles. Todavia, as fontes são claras em afirmar que pelo menos no século V os gregos já possuíam algum conhecimento sobre a astrologia e tentavam desenvolver algumas concepções sobre a mecânica celeste. Assim, temos que a idéia de ἐκπύρωσις chegou ao mundo helênico por volta do séc.V, no mínimo, sendo que me parece mais acertado que isso tenha ocorrido antes, isto é, por volta do séc.VII.

 Sabemos que essas são as duas vias de transmissão da noção de κπύρωσις (isso se não admitirmos que ainda houvesse uma possível “via pérsica” após as conquistas de Pompeu, já no período romano, não investigado por esse trabalho): por um lado, pelo mundo judaico, e mais tarde através do cristianismo e por outro lado, através da filosofia estóica.

 Portanto, concluo este trabalho admitindo que: 1) a astrologia parece ter mais importância aos períodos anteriores ao helenístico-romano do que supõe a historiografia sobre o tema; 2) que o tema da  ἐκπύρωσις é anterior a formulação do termo pelos estóicos e que apesar das diferenças – na especificidade da racionalidade/sentimento religioso – o tema entre judeus e estóicos remetem a uma mesma origem mesopotâmica onde o tema da verdade, do bem, da luz e do fogo são comuns a ambos os sistemas; 3) que, tal como sugeri na introdução, para compreender determinados temas durante o período helenístico-romano, conhecer a astrologia do período pode ser uma ferramenta de grande utilidade; 4) e que por fim, a religião astral, onde a astrologia se apóia em sua origem, pode ter na fonte de suas práticas um arquétipo relacionado àquilo que os junguianos chamam de self ou Si-mesmo. Um arquétipo sobre o tempo, onde o desenvolvimento da humanidade pode ser compreendido através da relação do ser humano com o tempo natural.

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