O Caráter como forma pura da Personalidade – Astrocaracterologia

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Breve Tratado de Astrocaracterologia

Olavo de Carvalho

Introdução

Reúno entre as duas capas deste livro alguns dos textos que distribuí aos alunos do Curso de Astrocaracterologia, em São Paulo e no Rio de Janeiro, entre 1989 e 1992. O curso foi inteiramente gravado em fita e, transcrito, sobe a quase três mil páginas datilografadas.

Os textos escolhidos para a presente seleção representam os pontos de junção que articulam num todo, as várias partes desse enorme conjunto. Podem, portanto, ser lidos com proveito separadamente do resto do curso. Constituem, aliás, uma introdução preparatória ao Tratado de Astrocaracterologia, que será a transcrição integral e corrigida do curso, acompanhada dos estudos de caso, realizados pelos alunos e por mim a título menos de prova que de ilustração do método astrocaracterológico. O Tratado deverá constatar de seis volumes, assim distribuídos:

I – Astrologia Pura e Aplicada

II – Astrologia e Caracterologia

III – As Camadas da Personalidade

IV – Conhecimento de Si e do Outro

V – A Técnica da Astrocaracterologia

VI – Estudos de Casos

O Primeiro volume dará uma descrição crítica do estado presente do debate astrológico, explicando por que esbarra em enigmas sem solução, e propondo uma nova estratégia para o ataque ao problema das relações entre fenômenos celestes e terrestres; delimita as possibilidades da astrologia como ciência, separando cuidadosamente o território astrológico do que lhe é estranho ou circunvizinho e estabelecendo as relações da astrologia com outros campos do saber. Por incrível que pareça isto é aqui realizado pela primeira vez na história do debate astrológico, embora constitua como é claro, um preliminar indispensável a toda abordagem séria do problema.

O Segundo volume delimita o território da astrologia psicológica e, dentro dela, o da caracterologia astrológica, ou, como prefiro denominá-la, astrocaracterologia. Esta delimitação se faz separando, caso a caso, aquilo que, no estudo do caráter humano, pode ser captado por meios astrológicos, e aquilo que não pode. Para esse fim, comparo o diagnóstico de personalidade obtido pelo estudo do horóscopo natal com aquele que é dado pelas várias caracterologias e tipologias surgidas no século XX, como as de Klages, Szondi, Le Senne, Reich, Jung, Pfahler e outros, demonstrando, caso a caso, os pontos de interseção e de exclusão entre essas duas linhas de abordagem. A finalidade desta parte é estabelecer qual o setor, ou aspecto, da personalidade humana, que pode vantajosamente ser descrito por meios astrológicos, e quais os que escapam do território astrológico, embora os astrólogos praticantes insistam em neles exercer um domínio ilegítimo.

O Terceiro volume dá expressão teórica aos resultados do estudo realizado no volume anterior, estruturando-os sob a forma de uma teoria da personalidade na qual, graças à delimitação de um território estrito, os conceitos e instrumentos psicológicos correspondem, simetricamente, aos astrológicos, criando, pela primeira vez, as bases de uma comparação sistemática entre os dois campos, comparação que até hoje vinha sendo tentada somente de maneira aleatória e casuística, com resultados sempre decepcionantes.

O Quarto volume estatui o método e a técnica para a articulação do estudo astrológico da personalidade com o seu estudo biográfico e sociológico, ou seja: trata de juntar, no domínio do diagnóstico prático, aquilo que fora cuidadosamente separado no terreno da teoria.

O Quinto volume estabelece as correspondências entre as posições dos astros no horóscopo natal e os traços de caráter (tal como previamente delimitados em sentido astrocaracterológico estrito), criando assim o sistema das chaves interpretativas necessárias à aplicação prática do método e à sua verificação científica.

O Sexto volume divide-se em suas partes. A primeira consta de estudos de casos realizados por alunos, isto é, de interpretações astrocaracterológicas acompanhadas dos dados biográficos e caracterológicos comprobatórios. A segunda resume um estudo realizado por mim, segundo um método diverso, para o estabelecimento das relações entre os traços de caráter (no sentido especial da astrocaracterologia) e as escolha de temas ficcionais, nos horóscopos de romancista célebres. Ilustram-se, deste modo, as duas vias principais de comprovação e eventual retificação das teses astrocaracterológicas: o estudo fenomenológico do caso individual considerado em sua totalidade e a comparação estatística de vários casos tomados num determinado e exclusivo aspecto. Este volume constitui, por confrontação, uma crítica veemente a todas as supostas “verificações científicas” realizadas nas últimas décadas sobre a astrologia, todas elas marcadas pelo vício redibitório da superficialidade e do desejo de conclusões rápidas que confirmem prejulgamentos favoráveis ou desfavoráveis.

(…)

Agradeço de todo o coração a Márcia Fonseca, a Meri Angélica Harakava, a Henriette Aparecida da Fonseca e a todos os membros da Sociedade Brasileira de Astrocaracterologia (SBA), de São Paulo e do Rio de Janeiro, sem cuja colaboração este livro não teria sido escrito nem publicado.

Mas ainda é preciso acrescentar algo. Na aula inaugural, proferida em São Paulo em abril de 1990, comuniquei aos alunos que o Curso de Astrocaracterologia seria dedicado como homenagem ao Dr. Juan Alfredo Cesár Müller, o qual não se encontrava ali presente por razões de saúde. A primeira apostila, com a transcrição dessa aula, foi publicada algumas semanas depois. Enviei um exemplar ao Dr. Müller, que o leu com grande dificuldade – mal enxergando as letras miúdas – na cama do hospital onde se encontrava internado. Sues filhos contaram-me, depois, da grande alegria e satisfação com que o mestre leu até onde lhe permitiam suas forças as páginas em que se cristalizavam os frutos do seu ensinamento na gratidão e no trabalho de um discípulo. Foi sua última alegria. Juan Alfredo César Müller faleceu naquela mesma noite.

Salvador Dalì - Aries

O Debate que entrou em Órbita

Ao longo das últimas décadas, a astrologia tornou-se um sucedâneo de religião para as massas de classe média e um hobby “espiritual” para os letrados. Montada na onda do novo paradigma que alguns teóricos reclamam para a ciência no século XXI, ela ganhou mesmo ares de respeitabilidade em muitos círculos acadêmicos. Nada parece deter sua ascensão. Até as reações hostis de alguns religiosos e homens de ciência apenas aumentam sua popularidade. No mínimo, o que é objeto de debate é objeto de atenção.

No entanto, os debates, na sua quase totalidade, têm se limitado aos aspectos mais vistosos e periféricos da questão astrológica, sem fazerem avançar um passo sequer o esforço para responder às perguntas que constituem, ou deveriam constituir, o miolo do problema: existe, objetivamente, uma relação entre os movimentos dos astros no céu e o desenrolar da vida humana na Terra? Se existe, qual a sua natureza e o seu alcance? Quais as causas que a determinam? Quais as possibilidades e os meios de conhecê-la cientificamente?

Em vez de enfrentar essas perguntas, os adeptos e adversários da astrologia preferem discutir o seguinte tópico: “Astrologia funciona?” O debate toma por foco a astrologia como prática divinatória ou diagnóstica, e deixa de lado a questão das influências astrais propriamente ditas. Aparentemente, nenhum dos partidos em disputa se deu conta de que a existência ou inexistência de influências planetárias sobre a vida humana, de um lado, e de outro a eficácia ou ineficácia da ciência ou pseudociência que se gaba de conhecê-las, são questões perfeitamente distintas, e de que não se pode decidir segunda sem haver antes dado à primeira uma resposta satisfatória. Pois o que define e singulariza a astrologia não é a afirmação genérica de que “existem influência astrais” (a qual pode ser admitida até mesmo por quem odeie astrologia, como Sto. Agostinho, por exemplo), mas sim a pretensão de já possuir um conhecimento cabal de suas manifestações e variedades, ao ponto de poder descrever meticulosamente as diversificações da influência de cada planeta conforme o lugar que ocupe no céu no instante do nascimento de cada indivíduo em particular – sem exceções ou dificuldades notáveis. Bem pode ser, é claro, que esta pretensão seja descabida, maluca mesmo, sem que por isto o fenômeno das influências astrais, em si mesmo e independentemente das interpretações que os astrólogos lhe dêem, deva ser considerado inexistente.

Por óbvia que seja essa advertência, os protagonistas do debate astrológico têm preferido omiti-la, confundindo a si mesmos e ao público. Invariavelmente, no calor da polêmica, cada pequeno indício da existência de influências astrais é tomado como argumento legitimador da prática astrológica existente; de outro lado, cada sinal de ineficácia ou erro dos astrólogos é exibido como prova da irrealidade das influências astrais. Isto em lógica chama-se um non sequitur: tirar à força, de uma premissa, conclusões que dela não se seguem logicamente. Por exemplo, a pesquisa realizada por Michel Gauquelin, na França, que numa revisão de 500.000 horóscopos de nascimento encontrou uma correlação estatística altamente significativa entre grupos profissionais e tipos astrológicos (conforme a posição dos planetas na hora do nascimento), é brandida orgulhosamente pelos astrólogos como prova de que “astrologia funciona” (e não somente de que “existem influências astrais”). Inversa e complementarmente, o físico Shawn Carlson, da Universidade da Califórnia, após ter verificado, em testes estatísticos, a incapacidade de vinte astrólogos para identificarem traços de personalidade com base em horóscopos de nascimento, divulgou esse resultado (na revista Nature) como prova de que “não existem influências astrais” (e não somente de que a astrologia não funciona, pelo menos tal como praticada atualmente).

Confusões dessa ordem são a regras geral nos debates sobre astrologia, mesmo quando os debatedores são homens cultos e preparados. Numa recente mesa-redonda na UFRJ, confrontado com um sujeito que, para cúmulo, era professor de metodologia científica, não consegui, por nada deste mundo, fazê-lo compreender a inépcia de uma discussão colocada nesses termos. Com os astrólogos, excetuando uns “happy few”, não tenho logrado resultados melhores. Coisas desse tipo contribuem para fazer do debate astrológico um sinal particularmente enfático da demência contemporânea.

No entanto, a questão das influências astrais, em si, e independentemente da polêmica, é da máxima importância para a nossa civilização em seu estágio presente. Se nos lembrarmos de que a geografia se constituiu e se expandiu rapidamente como ciência a partir do momento em que uma Europa culturalmente unificada partiu para as navegações e a descoberta da Terra, é fácil perceber, por analogia, que a humanidade culturalmente unificada de hoje, ao partir para a exploração do ambiente cósmico em torno, se defronta com a necessidade urgente de uma nova colocação do problema das ralações entre o cosmos e a vida humana, não somente biológica, mas histórica e psicológica; e este é, precisamente, o tema da astrologia. Este tema sugere, inclusive, a oportunidade de uma recolocação global das relações, ainda hoje obscuras, entre ciências “naturais” e ciências “humanas”. A nulidade dos resultados que a astrologia tenha até agora alcançado na sua investigação, com os métodos peculiares e um tanto extravagantes que emprega, não justifica que seu objeto mesmo seja negligenciado. Aliás, não foi a propósito da astrologia que Kepler enunciou seu célebre aviso sobre a criança e a água do banho? Se a astrologia tal como se praticou e se prática hoje é falsa, o que temos de fazer é uma verdadeira, ao invés de proclamar, com uma autoconfiança de avestruz, a inexistência do fenômeno astral sob a alegação de falsidade do que dele se diz. Se os historiadores erram em suas interpretações da Revolução Francesa, ou se os zoólogos eventualmente se equivocam quanto à fisiologia das vacas, isto não constitui motivo suficiente para concluir que a Revolução Francesa não aconteceu e que as vacas não existem. Mesmo na hipótese de que nada se salve da astrologia, mesmo na hipótese de que tudo o que os astrólogos disseram a respeito do fenômeno astral seja rematada besteira, isto não desculpa o desinteresse pelas perguntas mesmas às quais a astrologia pretendeu oferecer resposta.

Por tudo isso, é espantoso o contraste entre o baixo nível do debate astrológico hoje em dia e as discussões que seis ou sete séculos atrás os acadêmicos faziam a respeito do mesmo tema. Quanto examinamos as páginas que Sto. Tomás de Aquino, Hugo de S. Vitor, John de Salisbury e outros intelectuais medievais consagraram ao problema astrológico, surpreendemo-nos com o rigor e a serenidade de suas colocações, que constituem um exemplo para nós.

Particularmente Sto. Tomás chegou a desenvolver uma teoria completa das influências astrais, que constitui até hoje uma das mais límpidas colocações do problema e pode servir de marco inicial para as nossas investigações.

Tendo tocado no assunto, de passagem, na Suma Teológica e nos comentários à Física de Aristóteles, ele lhe dá um tratamento sistemático em cinquenta densas páginas da Suma contra os Gentios (1258). Ele não discute a existência das influências astrais, que no seu tempo era geralmente admitida (mesmo pelos que, em nome da religião, condenavam a prática da astrologia divinatória); esforça-se apenas por definir a sua natureza e precisar o seu alcance. É verdade que sua análise se detém no nível meramente conceptual e lógico, sem entrar no campo da investigação empírica. Mas quem não sabe que sem conceitos claros e uma hipótese condutora a investigação empírica é perda de tempo?

O que Sto. Tomás sugere, em essência, é que um corpo não pode exercer nenhuma influência causal sobre o que não seja também corpo; e que, portanto, está excluída a hipótese de que os astros exerçam qualquer influência sobre a psique e o comportamento humano a não ser por intermédio de alterações fisiológicas (ou fisiopatológicas). Ele chega a sugerir que os astros afetem a formação do embrião e que, produzindo assim conformações corporais diversas, acabem por agir como causas remotas do comportamento humano. Os movimentos planetários, diz ele, não influenciam a inteligência e a vontade humanas, mas, atuando sobre os corpos, predispõem a distúrbios passionais que podem obstar a livre operação da inteligência e da vontade.

A tremenda importância dessas observações reside em que elas colocam a questão astrológica na linha de uma investigação científica possível, tirando-a da esfera dos argumentos metafísicos e teológicos sobre determinismo e livre-arbítrio. Mas, passados sete séculos, a lição do grande escolástico ainda não foi assimilada, pois tais argumentos continuam comparecendo invariavelmente em toda discussão sobre o problema astrológico, malgrado sua já demonstrada impertinência e esterilidade.

O tratamento que Sto. Tomás deu à questão mostra, ademais, que ela pode e deve ser abordada independentemente de quaisquer reivindicações polêmicas sobre a legitimidade ou ilegitimidade da astrologia enquanto prática. Esta lição também não foi assimilada.

Em resumo, no século XII estávamos mais perto de uma colocação racional do problema do que estamos hoje em dia, justamente quando ele se revela mais importante e urgente.

De outro lado, é claro que, se em vez de investigar diretamente o fenômeno astral continuarmos polemizando sobre “a” astrologia, não chegaram a nada. “A” astrologia é um amálgama enorme e confuso de códigos simbólicos, mitos e preceitos empíricos, procedentes de épocas e civilizações diversas, numa variedade que se rebela contra toda tentativa de reduzi-la a um corpo unitário de doutrina. Como pronunciarmos, de um só golpe, sobre a veracidade ou falsidade de uma massa tão heteróclita? Só a ignorância fanática ou o desejo de aparecer explicam que alguém se disponha a tomar partido num debate que se coloque nesses ternos. Mas, se os interessados no debate astrológico estão atrasados de sete séculos em assimilar a lição de Sto. Tomás, é que estão atrasados de vinte em assimilar a de Aristóteles, o qual ensinava que, de um sujeito equívoco, nada se pode predicar univocamente. “A” astrologia é muitas coisas. Talvez algumas delas sejam verdadeiras, outras falsas, umas valiosas, outras desprezíveis. Quando essa mixórdia milenar se houver transformado num corpo teórico explícito, à custa de depurações dialéticas e metodológicas como as que Sto. Tomás realizou para um aspecto em particular, então e somente então poderemos debater com proveito sobre sua veracidade ou falsidade. Até lá, tudo o que podemos fazer é declarar, humildemente, se gostamos dela ou não. Quanto a mim, é claro que gosto.

Salvador Dalì - Taurus

A Natureza da Astrologia

Manifesto de Fundação da Sociedade Brasileira de Astrocaracterologia.

1. Denominamos Astrologia todo e qualquer estudo das relações entre fenômenos astronômicos e eventos terrestres, de ordem natural ou humana.

2. Como ciência comparativa, a Astrologia não estuda um ente, uma coisa, mas uma relação: ente lógico que tem de ser construído aprioristicamente, antes de que seu equivalente fático possa ser pesquisado na realidade empírica. A pesquisa astrológica requer, como condição primeira, uma discussão gnoseológica e criteriológica que ainda não foi empreendida.

3. A comparação que a astrologia estabelece tem, como um de seus termos, a figura astronômica do céu – elemento unívoco, redutível a um conjunto de fórmulas. O outro termo da comparação é a fenomenalidade terrestre em toda a sua inesgotável extensão e variedade. A disparidade dos termos coloca problemas metodológicos peculiares, aos quais ainda não se deu a devida atenção.

4. Um desses problemas refere-se ao fato de que o conjunto de fenomenalidade terrestre e humana só pode ser abarcado pela totalidade do sistema das ciências, e não por esta ou aquela ciência em particular. A divisão e catalogação da fenomenalidade terrestre e humana coincide necessariamente com a das categorias, modos e formas e objetos do conhecimento científico.

Daí resulta: (a) que a Astrologia é, por natureza, astrologia comparada: astronomia comparada à Biologia, quando estuda fenômenos biológicos; comparada à História, quanto estuda eventos e etapas da História; e assim por diante.

O astrólogo não enfoca jamais a fenomenalidade terrestre em seu estado bruto, mas sempre já elaborada, definida e catalogada por alguma ciência existente.

Resulta ademais: (b) que a exigência metodológica em qualquer estudo astrológico é tripla. Ao estudar astrologicamente qualquer setor da fenomenalidade terrestre o astrólogo deve prestar satisfação: primeiro, às exigências da astronomia, para o correto desenho do céu; segundo, às da ciência que define e pesquisa esse campo específico (História, Biologia, etc.): finalmente, às do método astrológico propriamente dito, que não pode ser um só, totalitário e unívoco, para todos os campos estudados, mas requer uma moldagem minuciosa e altamente problemática às peculiaridades de cada campo.*

* É absurdo pretender que o método possa ser um só e o mesmo para o estudo astrológico dos terremotos e o da personalidade humana, por exemplo.

A Astrologia, portanto, não é uma ciência só, mas uma multidão de ciências, com uma pluralidade de métodos. Deve haver, é claro, uma Astrologia Geral, puramente teórica, mas só pode haver “pesquisa científica” no campo das astrologias especiais.

Salvador Dalì - Gemini

5. Cabe à Astrologia Geral, ou Pura, ou Teórica, definir, como mera hipótese teórica, e localizar coerentemente no corpo da epistemologia vigente, as relações entre fenômenos terrestres e celestes.

Cabe à Astrologias Especiais: (a) amoldar essa hipótese ao seu campo específico: (b) definir os métodos e critérios cabíveis no caso; (c) empreender as pesquisas necessárias; (d) corrigir e aperfeiçoar a hipótese especial; (e) verificar em que medida essas correções e aperfeiçoamentos afetam a teoria geral.

6. Denominamos Astrocaracterologia o setor da Astrologia que estuda, especificamente e com métodos específicos, as relações entre a figura celeste no instante do nascimento de um indivíduo humano e o caráter desse indivíduo.

7. Denominamos caráter a parte fixa e estrutural da personalidade; o esquema de base por trás de todas as mutações determinadas por fatores exógenos; o esqueleto da personalidade, e não o seu corpo total e vivente.

8. São tarefas primordiais da Astrocaracterologia:

a) Fazer uma revisão crítica de todas as principais teorias caracterológicas, como as de Klages, Le Senne, Berger, Bühler, e assim por diante.

b) Estabelecer o quadro mínimo dos fatores e elementos estruturais do caráter – abstraindo-se de toda especulação sobre as causas que os determinam.

c) Estabelecer, por simples analogia estrutural, as correspondências entre esses fatores e elementos e os componentes do mapa astrológico – planetas, casas, aspectos, etc. – tomados isoladamente. Isto constituirá o primeiro esboço da hipótese astrocaracterológica.

d) Estabelecer a possibilidade de uma particularização dessa hipótese; isto é, verificar se a analogia entre a estrutura do caráter em geral e o sistema planetário pode ser transposta ao plano de uma correspondência entre a figura do céu num instante determinado e o caráter de um indivíduo determinado. Esta transposição, ao contrário de que parece imaginar a maioria dos astrólogos, é altamente problemática.

e) Desenvolver, por método dedutivo, a diferenciação dos fatores planetários segundo casas e signos. Isto constituiria o corpo total da hipótese astrocaracterológica: o esboço da “técnica da interpretação” possível.

f) Destacar, do conjunto dessa hipótese, os aspectos mais passíveis de comprovação ou refutação clínica (por observação de casos).

g) Proceder às pesquisas, após o estabelecimento de métodos apropriados.

h) Desenvolver métodos de observação experimental.

9. O objetivo fundamental da Sociedade Brasileira de Astrocaracterologia é (a) transmitir a profissionais e estudantes a parte já realizada desse programa; (b) formar pesquisadores para realizarem a parte restante.*

* A formulação metodológica prévia dos requisitos da Astrologia Geral ou Teórica já foi apresentada em nosso curso Astrologia: Ciência e Ilusão; as linhas mestras da metodologia astrocaracterológica, em nosso curso Astrologia e Caracterologia. Ambos estes cursos foram repetidos em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Salvador. Suas transcrições foram colocadas à disposição dos membros da Sociedade, preparando-os para o Curso de Astrocaracterologia Fundamental.

10. A Astrocaracterologia pretende ser uma contribuição para a elevação geral do debate astrológico, que de tem deixar de ser um confronto de preconceitos e equívocos, uma impossível peleja entre ocultismos.

Nesta entrada do século XXI, quando o estreitamento do horizonte terrestre e a abertura do espaço cósmico às explorações científicas colocam, com máxima urgência, a questão das relações entre o ambiente cósmico e a fenomenalidade terrestre e humana, é absolutamente necessário um esforço para colocar essa questão de maneira responsável, ao nível de um saber crítico e não dogmático.

Se não o fizermos, outros o farão. Assim como se disse que a guerra é assunto demasiado sério para ficar nas mão dos generais, poderá dizer-se um dia que as relações entre astros e homens são coisa demasiado grave e grande para ficar entregue à responsabilidade de astrólogos.

Salvador Dalì - Cancer

Astrologia e Ciência

Conferência proferida no auditório do Palácio Tiradentes (Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) por ocasião dos festejos do 10º aniversário da Escola Astroscientia, em 22 de outubro de 1994.

A pergunta “A astrologia é uma ciência?” tem obtido as seguintes respostas:

É uma ciência. Assim respondem os adeptos da chamada “astrologia científica”, como Paul Couderc e Adolfo Weiss. Esta escola caracteriza-se por julgar que, para a astrologia ter direito ao estatuto de ciência, tudo o que é preciso é tomar as afirmações correntes dos manuais de astrologia e submetê-las a uma verificação estatística, que as confirmará em toda a linha.

É uma pseudociência. É o que dizem alguns dos mais encarniçados adversários da astrologia, recrutados, sobretudo, entre os astrônomos de profissão. Dentre eles destacam-se, como típicos, o falecido diretor do Observatório de Paris, Paul Couderc, e, no Brasil, o diretor do Observatório do Valongo, Ronaldo Rogério de Freitas Mourão. As razões que fundamentam esta resposta são muitas – algumas perfeitamente impertinentes, como por exemplo, a de que é impossível calcular horóscopos de pessoas nascidas no Polo Norte ou a de que os signos não coincidem com as constelações; mas algumas pertinentes e razoáveis, como aquelas que se alegam o princípio de falseabilidade de Popper ou os resultados negativos obtidos em testes estatísticos. É importante notar que esta corrente entende como critério de cientificidade da astrologia o mesmo, no fundo, que adotavam Choisnard e Weiss, apenas com a ressalva de que sua aplicação dará resultados negativos.

É um saber revelado, superior à ciência – e como tal, furta-se a todo exame científico na medida em que não pode ser apreendida pelas categorias racionais. Esta resposta é defendida ou presumida, em geral, pelos que abordam a astrologia pelo lado da psicologia junguiana, da mitologia e dos estudos de simbolismo e que ao mesmo tempo têm uma atitude crítica face à ciência contemporânea. O famoso astrólogo Charles E. O. Carter é um deles. É um teosofista. Mas igual atitude encontra-se em René Guénon, temível adversário do teosofismo.

É uma linguagem simbólica e, como todas as linguagens, escapa das categorias do verdadeiro e do falso, podendo ser julgada apenas por sua adequação e expressividade. É a atitude daqueles que abordam a astrologia também pelo lado do simbolismo, da mitologia, da psicologia – mas também da antropologia, da sociologia – tomam, no entanto, como universalmente válidos os critérios da ciência moderna. É o caso de um Gaston Bachelard, de um Claude Lévi-Strauss e, em geral, da comunidade acadêmica. Alguns encaram a astrologia como um “corpo de crenças” que não cabe à ciência julgar, mas descrever e compreender em suas estruturas, relacionando-as com as da sociedade humana.

Malgrado suas enormes diferenças e malgrado o fato de que parecem abranger totalmente a gama das alternativas possíveis, todas essas respostas são falsas ou, pelo menos, inadequadas.

Salvador Dalì - Leo

A primeira delas – a tese da “astrologia científica” – é falsa pelas seguintes razões:

1. Uma técnica não se torna científica pelo simples fato de empregar, mesmo com sucesso, métodos cientificamente válidos para testar os resultados de sua aplicação. É preciso que ela mesma, no seu conteúdo, nas teorias em que se embasa, tenha caráter científico. Não é o caso da astrologia, que se fundamenta em pressupostos simbólicos que escapam a todo critério de verificabilidade.

2. Uma ciência não se limita a registrar correlações estatisticamente, mas busca uma explicação teórica para os fatos. A ideia de que montanhas de fatos estatisticamente comprovados fazem uma ciência é de um primarismo grosseiro.

3. Mesmo assim, os testes estatísticos relativos à eficácia dos diagnósticos astrológicos têm chegado uniformemente a resultados negativos. Todas as tentativas de correlacionar estatisticamente posições planetárias e traços de personalidade falharam.

4. Não há ciência sem contínua revisão dos pressupostos à luz dos resultados experimentais, e a astrologia tem pressupostos imutáveis e dogmáticos.

Mas aqueles que negam todo estatuto científico à astrologia também estão errados, porque:

1. É impossível saber se um conjunto de teorias é científico ou não sem primeiro reduzir esse conjunto a um sistema, a uma teoria unificada. Nunca se fez isto.

2. Os critérios pelos quais se condena a astrologia dariam resultados negativos também se aplicados a uma multidão de ciências atualmente admitidas como tais, como, por exemplo, a sociologia, a psicologia, etc.

3. Embora seja um fato que a astrologia não atende ao princípio de falseabilidade de Karl Popper, considerado universalmente um critério válido, também é um fato que, com base no mesmíssimo princípio de Popper, não tem cabimento rejeitar como falso aquilo que escapa ao critério de falseabilidade; e os críticos da astrologia aqui referidos não pretendem apenas que ela seja uma nãociência, e sim que ela seja falsa. Confundem assim ciência e verdade. Um conhecimento essencialmente verdadeiro e não científico pode transformar-se em científico mediante simples adaptações lógicas e metodológicas.

A hipótese que subtrai a astrologia ao julgamento científico alegando que ela é um saber revelado também é falsa, porque:

1. Saber revelado e saber científico se distinguem somente por sua origem diversa, mas o critério de validade é o mesmo para ambos, e este critério é científico. Alegar origem revelada é eludir a questão.

2. O saber é revelado divinamente só ao primeiro que o recebe. Este o transmite aos demais por meios humanos, que subentendem o uso da linguagem, da razão, etc.

3. Deus nunca enviou uma revelação sem milagres que a acompanhassem ao longo do tempo, para legitimá-la aos olhos dos crentes. Se os astrólogos são profetas, não devem limitar-se a prever o futuro como vulgares vaticinadores, mas deter o movimento do Sol, separar as águas do Mar Vermelho e curar os leprosos.

4. Um saber revelado não se furta ao teste da verdade por meios científicos. Ao contrário: Todas as grandes religiões sempre submeteram as partes testáveis de sua fé à verificação.

Finalmente, não tem cabimento eludir a questão da veracidade mediante a alegação de que a astrologia é uma linguagem simbólica:

1. Uma linguagem é apenas um sistema de signos e símbolos com os quais se podem expressar muitas ideias. A linguagem em si não pode ser verdadeira ou falsa. O que é verdadeiro ou falso é o conteúdo das ideias que o homem expressa com a ajuda delas, as quais, por sua vez, não constituem um sistema de signos, mas afirmações sobre a realidade, com referência extralinguística. Se a astrologia é uma linguagem, está fora do domínio do verdadeiro e do falso e nada pode predicar sobre o real. Ora, a prática astrológica universal consiste precisamente em fazer afirmativas sobre a realidade – sobre o caráter e o destino das pessoas, por exemplo.

2. Das regras de uma linguagem é impossível deduzir o conteúdo do que nela se vai dizer. Se a astrologia é uma linguagem, não é um conhecimento, exceto de si mesma. No entanto, a pretensão de constituir um conhecimento é inerente à prática astrológica, antiga ou moderna, Ocidental ou Oriental.

Essas quatro categorias de respostas resumem o essencial do que foi, no século XX, o debate da questão astrológica. Por elas, fica patente que esse debate não levou a nenhum resultado apreciável, e que, portanto, é necessário recolocar a questão desde suas bases, para tentar chegar a um quinto grupo de respostas, na esperança de que sejam mais consistentes.

Começo por rever o sentido dos termos. Que é propriamente uma ciência? Todo estudioso do assunto sabe que as ciências reais (historicamente existentes) não servem, por si, como fundamento para uma resposta. Por indução, os traços que obteríamos seriam demasiado amplos e frouxos para poder abranger a História, a Antropologia, a Matemática, a Biologia, a Física Teórica, etc.

Salvador Dalì - Virgo

Resta a alternativa husserliana de conceber a ciência como um modelo ideal de conhecimento, do qual se podem deduzir, como diferentes possibilidades de realização, mais perfeitas ou imperfeitas, as ciências que se manifestaram historicamente e ainda outras ciências possíveis.

Esse modelo impõe certas exigências para que um conhecimento possa aproximar-se do ideal científico:

1. Todas as ciências historicamente existentes procuram realizar, por variados meios, um ideal de saber fundamentado, firme, oposto à mera opinião. A definição ideal de ciência implica como condições essenciais:

1. Evidência. O termo “evidência” aqui não significa “o dado” ou “o imediatamente apreendido pelos sentidos”. Significa apenas aquilo que é certo e inegável por si mesmo, não requerendo prova. Mesmo as correntes de pensamento que não aceitam nenhum tipo de intuição do dado fundam-se em alguns princípios tomados como evidentes ou ao menos convencionalmente colocados fora de toda discussão. Esses pontos de partida são indispensáveis em toda ciência, e é inconcebível uma ciência que presuma poder prosseguir indefinidamente suas investigações sem referi-las a um ponto de partida.

2. Prova.

3. Nexo evidência-prova.

4. Caráter evidente (e não provado) do nexo mesmo.

2. Como condições existenciais, a ciência requer:

1. Repetibilidade do ato intuitivo referido à “mesma” essência.

2. Repetibilidade do fenômeno cuja essência é intuída.

3. Registro.

4. Transmissibilidade.

3. Esse ideal foi realizado, historicamente, segundo modalidades variadas, calcadas nas ciências que casualmente obtivessem maior sucesso no momento.

1. Geometria (séc. IV a. C.)

2. Biologia (classificação) (séc. VI em diante: influência aristotélica tardia).

3. Dialética e Lógica (séc. XII em diante).

4. Matemáticas (séc. XV em diante).

5. Física mecanicista (séc. XVII em diante).

6. Biologia e medicina experimental (séc. XIX). – ao mesmo tempo: História.

7. Física matemática, lógica matemática, linguística, informática e neurobiologia (séc. XX).

4. A astrologia pode tentar em vão copiar o modelo de alguma delas ou, ao contrário, procurar constituir-se como ciência desde o ideal mesmo que define a ideia de ciência.

5. Só este último caminho é válido, porque o objeto da ciência astrológica é radicalmente diverso do de todas as demais ciências. Que objeto é esse?

1. O estudo das influências astrais? Não.

2. O estudo da personalidade à luz dos astros? Não.

3. É o estudo das relações entre fenômenos celestes e terrestres de qualquer natureza.

6. Pode a astrologia ser uma ciência?

1. Logo, a astrologia, se houver uma, é uma ciência:

1. Comparativa.

2. De objeto lógico e não fático.

3. Múltipla. A variedade de objetos requer variedade de métodos.

4. Interdisciplinar.

2. Eis a razão pela qual a astrologia perdeu, no Renascimento, seu estatuto de ciência. A astrologia até então existente bastava para dar conta da fenomenalidade terrestre tal como descrita pela física de Aristóteles, mas o súbito avanço das demais ciências as fragmentou de tal modo que uma ciência comparativa, sintética e interdisciplinar como a astrologia se tornou impossível.

3. Hoje, graças ao sistema internacional de intercâmbio de informações científicas, a ciência astrológica se torna novamente possível.

7. Como realizá-la?

1. Enfrentando logo as questões preliminares de delimitação, de métodos investigativos e de critérios de validação.

2. Enfrentando logo o problema da unificação da teoria astrológica, o que implica a reinterpretação de todo o legado da astrologia antiga – trabalho para muitas gerações.

3. Distinguindo para sempre as duas questões que o debate atual confunde:

1. O fenômeno astral em si.

2. A validade das técnicas astrológicas.

4. A resposta sobre a validade ou não da astrologia não pode preceder a resposta sobre a existência ou inexistência do fenômeno astral (chamemos assim as relações entre fenômenos celestes e terrestres).

1. A resposta sobre o fenômeno astral já nos foi dada por Gauquelin.

2. A comprovação da existência do fenômeno não basta para validar a astrologia, mas basta para justificar a necessidade de uma ciência astrológica: resta fazê-la, em vez de proclamar que está feita e cultuar uma imagem de sonho.

Salvador Dalì - Libra

Que é a Astrocaracterologia?

1. Astrocaracterologia é a ciência que investiga as relações entre os fenômenos celestes e o caráter humano

2. Seu objetivo é averiguar se tais relações existem e, caso existam, precisar sua natureza, seu alcance e suas modalidades.

3. A Astrocaracterologia parte de uma hipótese alegada pelos astrólogos – a de que existem tais relações – e procura precisá-la, reduzindo a uma formulação única e essencial a variedade de versões e interpretações que lhe dão os astrólogos, para em seguida poder averiguá-la cientificamente.

4. Dessa maneira, a astrocaracterologia pode ser compreendida quer como uma parte especial da astrologia – de vez que estuda somente um campo delimitado dentro da variedade de termas de que se ocupam os astrólogos -, quer como uma anti-astrologia – na medida em que trata como mera hipótese o que para os astrólogos é uma certeza prévia e na medida em que dá ao tema um tratamento diverso daquele que recebe da astrologia -, quer como uma astrologia reformada. Ela é de fato essas três coisas, conforme o ângulo por onde se veja.

5. A parte mais importante do trabalho desta ciência consiste, durante esta fase inicial, na formulação apriorística da hipótese astrocaracterológica. Esta se constitui de três grupos de proposições:

a) proposições concernentes à existência, natureza e limites das mencionadas relações;

b) proposições concernentes à diversificação dessas relações em modalidades e níveis distintos;

c) proposições concernentes à sua diversificação segundo os caracteres individuais humanos.

Estes três grupos de proposições deverão ser obtidos mediante redução fenomenológica da variedade de formulações e versões que o tema recebe da astrologia clássica e contemporânea; e, em seguida hierarquizada sistematicamente segundo seus nexos lógicos.

Desta feita, estará formado, pela primeira vez na história, um corpo integral e coerente da teoria astrológica (na parte concernente em especial ao caráter humano).

6. A astrocarcterologia parte da constatação de que a astrologia clássica e moderna não é nem clara nem coerente na formulação de suas alegações, as quais, no entanto, são em grande número. E, desta constatação, conclui serem prematuras e estéreis todas as discussões sobre a validade (ou não) de tais alegações, de vez que, como já ensinava Aristóteles, nada se pode predicar univocamente de um objeto equivoco.

Para o astrocaracterólogo, a admitir, como hipótese também, que por trás da variedade por vezes alucinante do que alegam os astrólogos, pode haver uma unidade de intenção que haja escapado aos próprios astrólogos. Caso não existia de fato (o que somente o exame fenomenológico das semelhanças e diferenças pode revelar), ainda assim essa unidade poderá ser construída artificialmente pelo astrocaracterólogo, a título de unidade ideal.

Dito de outro modo, pode ser que os astrólogos de várias épocas, com seu discurso arrevesado, frouxo, confuso e por vezes contraditório, estejam tentando expressar algum tipo de intuição vaga e fantasmática de um corpo de fenômeno que seja, não obstante, perfeitamente real em si mesmo.

Assim, como o policial que utiliza o melhor de suas faculdades interpretativas para reduzir a termos sensatos o depoimento de uma testemunha atordoada, perplexa e gaguejante ante os fatos que observou, o astrocaracterólogo, nesta primeira fase de sua investigação, se pões a ouvir compreensivamente o discurso astrológico, sem prejudicá-lo, e procurando reduzi-lo a um corpo racional de hipóteses. Uma verdade confusa não tem como ser desmascarada. Esclarecer as pretensões dos astrólogos é a primeira tarefa da astrocaracterologia. Se tais pretensões, colhidas dos textos astrológicos, não se revelarem por si capazes de se articular num corpo coerente, o astrocaracterólogo preenche por dedução as partes faltantes, constituindo destarte a unidade ideal da teoria astrológica. Aí e somente aí se poderá, com razoável probabilidade de sucesso, conceber um método científico para a averiguação dessas pretensões e, colocando em marcha um batalhão de pesquisas concebidas segundo esse método, finalmente julgar a astrologia.

É claro que, mesmo com todos esses cuidados preliminares, as conclusões da astrocaracterologia só serão válidas no tocante à parte das alegações astrológicas que se refere às relações entre fenômenos celestes e o caráter humano, estando excluído deste julgamento tudo quanto à relação dos fenômenos celestes com outros aspectos da vida terrestre.

Salvador Dalì - Scorpio

7. Se a um primeiro exame, reconhecemos como “astrologia” tudo quanto se apresenta com esse nome, o campo de investigação preliminar não terá mais fim. Denominamos, portanto, “astrológico” somente aquilo que os profissionais do ramo, por intermédio de suas entidades de classe, reconhecem como tal.

Isto, por um lado, exclui do nosso campo toda a infinidade de conhecimento ou pseudoconhecimentos aparentados ou afins à astrologia, como a numerologia, a geomancia, etc., muitas vezes frequentados pelos astrólogos mesmos.

Por outro lado, inclui não só os livros e artigos escritos por astrólogos sobre astrologia, mas também obras que, escritas por outros e sobre outros assuntos, contém elementos importantes de teoria astrológica, reconhecidos como tais pela comunidade astrológica. Assim, por exemplo, são astrológicos no nosso sentido os textos de Jung concernentes à sincronicidade, os capítulos que Sto. Tomás de Aquino dedica ao tema na Suma contra os Gentios e na Suma Teológica, os pareceres de René Guénon, de Raymond Abellio, de Gaston Bachelard, de Lévi-Strauss, de Michel Foucault e de uma infinidade de outros autores, habitualmente aceitos pela comunidade astrológica como contribuições importantes para a formulação do problema astrológico ou da teoria astrológica.

O campo inicial já é, assim, vastíssimo. Mesmo no que diz respeito somente aos astrólogos profissionais, a variedade de enfoques, de conceitos, de níveis de abordagem, etc., já é tal, que a tentativa de reduzi-la a uma unidade parece utópica. Astrólogo é, por exemplo, Morin de Villefranche, que crê numa determinação implacável dos atos e caracteres humanos pelos astros, ao ponto de eles fazerem de um homem um asceta ou um homicida. Mas também é astrólogo Dane Rudhyar, segundo o qual os astros, sem nada determinarem positivamente, são apenas sinais colocados no céu, por uma inteligência cósmica ou divina, para neles o homem ir lendo os sinais sugestivos que lhe indicam a via do aperfeiçoamento. É astrólogo ainda Tomás de Aquino, que não crê numa coisa nem outra, mas nunca influência puramente física e pré-humana dos astros sobre a nossa fisiologia, sem alcance determinante nem qualquer significação espiritual direta. Também é astrólogo Jacques Halbronn, que não acredita em nada disso, mas na ação da humanidade histórica, que, projetando significações num céu neutro e praticamente inerte, e submetendo-se em seguida aos ritmos e ciclos do céu assim carregado de intenções, acaba por sofrer a retroação da máquina simbólica por ela mesma criada, a qual, ao longo do tempo, vem a adquirir força eficiente pela condensação dos ritmos e ritos no código genético.

A unidade parece impossível, já mesmo ao nível da simples formulação inicial da natureza do fenômeno astral.

No entanto, essa dificuldade é apenas aparente, pois a diversidade mesma acaba por limitar, pelo contraste e negação recíproca, o campo das teorias que poderiam ser subscritas, como um só corpo unitário de hipóteses, por todos os astrólogos. Pois aqui não se trata de abarcar tudo o que os astrólogos dizem, mas de excluir tudo aquilo que, negado por um ou por muitos astrólogos significativos, arrisque desfazer a unanimidade.

Assim, por exemplo, a sentença “A astrologia o estudo das influências astrais sobre o homem “já estaria excluída da teoria unitária, porque alguns astrólogos importantes dizem que os astros não exercem influência nenhuma (sendo apenas sinais) e porque outros astrólogos se interessam pela influência que os astros possam exercer sobre criaturas não humanas, como os metais e as plantas.

8. Procedendo assim por distinções, comparações e exclusões, a astrocaracterologia, na primeira fase de suas investigações, chegou a formula as bases da teoria astrológica unitária (em parte real ou histórica, em parte puramente lógica ou ideal). Esta teoria abrange os seguintes capítulos, ou grupos de proposições:

1 – Teoria astrológica pura: definição da astrologia e delimitação do seu objeto.

2 – Teoria do método astrológico: exigências metodológicas mínimas para que uma astrologia possa vir a ser possível.

3 – Teoria astropsicológica: delimitação dos setores da vida psicológica humana onde um estudo astrológico pode tornar-se possível, e exclusão dos impossíveis. Dentre os campos possíveis, destaca-se o estudo do caráter, definição que receber nas várias caracterologias criadas pela psicologia do século XX (Le Senne, Szondi, Jung, etc.).

4 – Teoria astrocaracterológia especial: delimitação dos aspectos do caráter humano que podem ser submetidos a uma comparação com os fenômenos celestes (e que compõem o que denominamos astrocaráter) e exclusão dos que não podem.

5 – Teoria astrocaracterológica da diversificação do astrocaráter: a) segundo as partes ou aspectos que compõem sua estrutura, b) segundo as individualidades humanas, diferenciadas pelas combinações dessas partes ou aspectos.

A segunda fase da astrocaracterologia começa quando, formulado e hierarquizado logicamente esse corpo de hipóteses, se propõem métodos, técnicas e estratégicas para sua averiguação científica. Mas ainda preciso esclarecer alguma coisa quanto à primeira fase.

A teoria astrológica pura propõe as seguintes teses essenciais:

1.  A astrologia é o estudo das relações entre fenômenos astronômicos e fenômenos terrestres de qualquer natureza.

A astrocaracterologia demonstra que essa definição é a única suficientemente ampla para abranger todo o campo estudado pelos astrólogos e nada deixa fora dele que seja do interesse dos astrólogos; e revoga todas as outras definições diferentes, demonstrando caso sua inviabilidade. Delimita, assim, o objeto material da astrologia.

2. Excluindo a astronomia e as ciências puramente filosóficas (metafísica, lógica), todas as outras ciências dizem respeito aos fenômenos terrestres (quando a física, por exemplo, estuda fenômenos celestes, o faz como auxiliar da astronomia). De outro lado, a astrologia, ao estudar a relação entre fenômenos celeste e terrestres, não os apanha em estado bruto, mas sim desde o ponto em que se encontram então elaborados, de um lado pela astronomia, de outro pela ciência referente ai fenômeno terrestre em questão (por exemplo, um ciclo histórico, a vida de uma planta ou molusco, o comportamento de um homem, objetos, respectivamente, da História, da Biologia e da Psicologia). Assim, todo estudo astrológico compara algum conhecimento astronômico a algum outro conhecimento científico. E então chegamos à definição mais profunda e essencial da astrologia, que consiste na seguinte tese:

Astrologia é astronomia comparada.

A astrocaracterologia demonstra que é assim em todos os casos e em todas as variedades de astrologia.

3. O objeto da astrologia não é um lado, mas um constructor lógico.

4. Para cada zona de fenômenos terrestres considerada, é preciso especificar esse objeto num novo constructo, que, partindo da consistência ontológica zona considerada, de limite, nela, o que é passível de comparação com fenômenos celestes, e o não é. Constituem-se assim, os campos das várias astrologias, ou, dito de outro modo, os vários objetos formais da astrologia em suas diferentes especialidades.

Salvador Dalì - Sagittarius

6 – Teoria do método astrológico específica: para cada um desses campos, as respectivas exigências metodológicas, sempre diferentes.

Mas uma exigência metodológica geral pode desde o início ser estabelecida, e que é a seguinte: como todos os fenômenos astronômicos pelos quais se interessa a astrologia ou são cíclicos ou são instantâneos (a figura estática do céu num determinado instante), qualquer fenômeno terrestre só pode ser estudado astrologicamente se for uma destas coisas: ou um ciclo repetível, ou uma estrutura fixa, ou uma relação entre ciclo e estrutura fixa. Tudo o mais está, rigorosamente, excluído do campo da astrologia.

Quando, portanto, um astrólogo propõe que a astrologia se diferencia das ciências de indução e generalização, por abordar primordialmente o indivíduo e o irrepetível, o que acontece é que essa proposta cai fora de teoria unitária e não deve ser considerada essencial ou significativa da astrologia, porque contraria os princípios subentendidos em todo empreendimento astrológico, inclusive o desse mesmo astrólogo em sua prática real, de vez que ciclo é repetição e de vez que toda estrutura fixa se define por claves diferenciais que são comuns a todas as demais estruturas do mesmo gênero; sendo, pois, a astrologia essencialmente uma ciência generalizante e classificatória, mesmo na prática real daqueles que expressamente o negam.

É bom esclarecer neste ponto que a unanimidade essencial da teoria unitária não tem de ser uma unanimidade histórica e positiva. Ela não tem de ser subscrita por todos os astrólogos, nem pela maioria deles. Ela expressa apenas aquilo com que todos os astrólogos deveriam concordar, e em tirar as conclusões lógicas dos princípios subjacentes a toda prática astrológicas, inclusive a sua própria. Se algumas de suas ideias – por sua vez as mais queridas – acabam por desmentir esses princípios, esse não é senão um caso particular de uma inconsistência lógica que parece tão frequente entre os profissionais da área. E, é claro, a teoria unitária, além de captar a unanimidade essencial das ideias astrológicas, também tem de ser lógica – excluindo como inessencial ou como mera idiossincrasia pessoal de um astrólogo concepções que não caibam na sua unidade lógica ideal.

A teoria astropsicológica delimita e enumera, no imenso rol dos temas da psicologia contemporânea, aqueles que correspondem à noção de estrutura fixa ou noção de ciclo. Tudo o mais não é de interesse da astrologia, por mais que teimem os astrólogos em realizar comparações inviáveis e descabidas.

Só para dar um exemplo, nesta parte demonstramos que a noção de “tendência” – tão utilizada pelos astrólogos para dar à sua prática um ar de legitimidade probabilística e subtraí-la retoricamente da acusação de determinismo (aliás, igualmente retórica) – é totalmente descabida em qualquer estudo astrológico. Isto porque nem estruturas fixas nem ciclos podem compor-se de tendências. Claro que uma estrutura pode ser origem ou causa de tendências, mas o que interessa à astrologia é unicamente o traço fixo por trás da tendência, e não esta em si mesma. Por exemplo, se, por seu caráter, um homem tem “tendência” a tornar-se romancista ou repórter, é porque, por trás dessa tendência, existe como característica fixa a inteligência narrativa. A dita tendência é apenas a manifestação externa e meramente probabilística desse traço fixo, e é este o que interessa unicamente à astrologia.

Do mesmo modo, se numa determinada fase de um ciclo um homem “tem tendência” a fazer isto ou aquilo, a abandonar seu emprego, por exemplo, é porque essa fase do ciclo produziu nele efetivamente certas mudanças internas, que se expressariam nessa tendência ou noutra qualquer. O que interessa é ver, num ciclo, as mudanças efetivas, em cada fase, e não as “tendências” que delas decorram como mero floreio decorativo. Os traços fixos da estrutura caracterológica e as mudanças efetivas assinaladas nos ciclos constituem o único objeto da astropsicologia, de pleno direito; tudo o mais, sendo contingente, único, singular ou irrepetível, está fora do interesse dessa ciência, por menos que o percebem certos astrólogos, ou mesmo a maioria deles. A unidade da teoria unitária é, repito, uma unidade lógica, não uma opinião majoritária positiva.

A teoria astrocaracterológica investiga o que pode haver de fixo e imutável na personalidade humana, desde o nascimento. Identifica, na personalidade humana, doze camadas diferentes (doze por constatação empírica, a partir de uma fenomenologia da personalidade, e não por qualquer intuito de simetria numerológica com o Zodíaco), das quais uma e somente uma, que denominamos astrocaráter, pode ser dita fixa e imutável e pode, portanto, ser objeto de comparação com o céu de nascimento, ou horóscopo. As outras onze camadas são: as disposições hereditárias (tendência); os hábitos linguísticos e padrões de referência adquirido do meio social; o caráter no sentido de Le Senne (isto é, o conjunto de tendências consolidado e estabilizado no indivíduo adulto); a personalidade intelectual transcendental ou autoconsciência global; o ego histórico, ou consciência do próprio lugar no conjunto da existência humana; o ego espiritual, ou consciência do próprio lugar no quadro do cosmo ou de uma escatologia (absolvição ou condenação no Juízo Final, por exemplo).

Para uma melhor compreensão desta camadas sugiro análise do estudo: As doze camadas da personalidade humana.

César Augusto – Astrólogo

Todas estas onze caem fora do campo astrocaracterológico. Traços presentes nessas onze camadas só podem se estudados astrologicamente após e mediante a investigação de suas remotas raízes no astrocaráter. Este estudo se faz por redução das causas prováveis que determinaram o surgimento desse traço em particular; e só quanto este surgimento não pode ser explicado por causas imanentes à camada em questão é que recorremos à hipótese de estarmos em presença de um traço astrocaracterológico. A investigação biográfica, para a consecução de tal fim, tem de ser extremamente minuciosa, o que causa sérias dificuldades de ordem prática para a pesquisa, limitando o número de seus objetos, e requerendo o concurso de muitos pesquisadores; com o fim de forma tais pesquisadores foi instituído um primeiro Curso de Astrocaracterologia, cujos alunos são portanto colocados, desde o início, na posição de colaboradores na investigação, com todas as responsabilidades inerentes a esta condição.

Até o momento, os resultados preliminares permitem suspeitar que a maior parte dos erros dos astrólogos na descrição de personalidades consiste em que procuram encontrar, no horóscopo, traços pertencentes às onze camadas mencionadas, diretamente e sem intermediação. De outro lado, notamos que muitas afirmações escandalosamente errôneas dos astrólogos, na interpretação de horóscopos individuais, se revelam surpreendentemente verdadeiras quando as tomamos como meramente simbólicas (na camada em que se apresentam) e procuramos, como seu “significado” ou sua “intenção profunda”, o traço astrocaracterológico que lhe correspondia, fazendo as devidas transposições de camada a camada. Este é caso de uma verdade obscuramente dita que passa por mentira (às vezes aos olhos do próprio astrólogo, que nutre uma inconfessada suspeita de estar enganado em tudo quanto diz, o que torna a profissão particularmente neurotizante).

O conceito de astrocaráter visa, em última análise, a fixar, na constelação total da personalidade humana, qual o nível próprio da comparação com o horóscopo ou, se quiserem: qual o nível em que pode intervir uma causalidade astral.

O astrocaráter compõe-se apenas e exclusivamente de um padrão atencional e cognitivo, que permanece fixo por toda a vida, que atravessa imune todas as mudanças evolutivas ou involutivas do indivíduo, sendo compatível com todas.

De outro lado, ele é um tipo e uma individualidade; e não tem, por isto, nada a ver com uma suposta essência pessoal misteriosa, cuja cristalização simbólica muitos astrólogos procuram enxergar num horóscopo. A astrocaracterologia estabelece uma distinção muito rígida entre astrocaráter e personalidade, frisando que, desde um mesmo astrocaráter, podem-se desenvolver muitas personalidades diferentes, conforme a interferência de outros fatores, endógenos (como as tendências hereditárias) ou exógenos (valores morais aprendidos, por exemplos). Para o estudo de cada caso é necessário isolar cuidadosamente os fatores pessoais dos fatores astrocaracterológicos.

O astrocaráter é descrito segundo uma diferenciação da potência cognitiva em seis faculdades (no sentido escolástico do termo) em doze direções da atenção ou doze categorias sob as quais a experiência vivida pode ser enfocada. Tal como ocorre nas categorias lógicas, onde um mesmo objeto existe efetivamente sob várias categorias, na medida em que é algo (substância), mede, pesa ou conta-se (quantidade), está dentro, fora, acima de outro (relação), etc., do mesmo modo as doze direções cada uma pode, ou olhar a cena desde sua própria posição, ou imaginá-la tal como vista por outra pessoa, ou concebê-la como vista desde cima por um olhar abrangente, ou articular num jogo complexo de perspectivas as visões subjetivas das várias pessoas envolvidas, etc.

As doze direções da atenção relacionam-se entre si por uma dialética de implicação e complementaridade, tal como aquela que Benedetto Croce, em sua Logica come Scienza del Concetto Puro, propõe existir entre os conceitos universais.

As seis faculdades cognitivas correspondem a seis planetas do setenário tradicional (Mercúrio excluído, por jamais se afastar muito do Sol, e colocar dificuldades, portanto, para a diferenciação individual), e as doze direções às doze casas da astrologia tradicional. Apenas, para a colocação efetiva dos planetas nas casas, levamos em conta o deslocamento constatado por Michel Gauquelin, no sentido de que um planeta angular nascente (decisivo para a interpretação do tema) pode estar colocado não na casa I astronômica, e sim quase no meio da Casa XII, ou mais adiante ainda. Esse deslocamento levado em conta, um planeta colocado na “zona Gauquelin” da Casa XII estará, astrocaracterologicamente, no horizonte e, portanto, na Casa I. Há um critério matemático para essa correção, que é dado no Curso e fundado num raciocínio probabilístico. A astrocaracterologia admiti ainda que há posição indecisas, e estes casos são afastados.

Salvador Dalì - Capricorn

As faculdades cognitivas e suas correspondências planetárias são as seguintes:

1. Sol = Intuição ou apreensão imediata da forma dos dados sensíveis internos e externos.

2. Lua = Sentimento ou variação do tônus interno por variação da energia externa ou interna.

3. Vênus = Fantasia ou capacidade plástica geradora de imagens independentemente da presença atual dos objetos respectivos. Como diziam os escolásticos, pode ser memorativa ou imaginativa.

4. Marte = Antecipação, conjetura ou ainda Vontade Reativa: cognição instintiva do potencial de ação e transformação iminentes de uma dada situação (corresponde ao que os escolásticos chamavam estimativa).

5. Júpiter = Vontade Pura ou Sinergia: conhecimento de si como fator causal e criativo; sinergia de todos os níveis da personalidade na consecução; de um ato ou na tomada de decisão livremente assumida; conhecimento da própria de decisão livremente assumida; conhecimento da própria liberdade de agir, ou de si mesmo como causa.

6. Saturno = Razão: síntese representativa da totalidade essencial da experiência num quadro coerente (ou tomado como tal); resíduo final das generalizações obtidas por experiência.

Essas seis funções aproximam-se umas das outras por um parentesco espontâneo, agrupando-se em pares:

Inteligência: intuitiva e racional: Sol e Saturno.

Vontade: Pura e Reativa: Júpiter e Marte.

Afetividade: Sentimento e Fantasia: Vênus e Lua.

Há outras relações entre duplas, mas não interessam no momento.

As doze direções da atenção são as seguintes:

I – Auto-imagem corporal direta.

II – Mundo sensível.

III – Linguagem, significação, analogia.

IV – Desejo e frustração.

V – Capacidade e forças atuais.

VI – Esquema de distribuição habitual de energias.

VII – Auto-imagem reflexa (o que só posso saber de mim pela reação alheia).

VIII – Ação e reação iminentes.

IX – Crenças formalmente admitidas.

X – Lugar na hierarquia social.

XI – Lugar no tempo histórico; plano de vida.

XII – Tudo o que escapa ao meu horizonte, e que não obstante sei que existe fora do meu “espaço vital” (no sentido de Kurt Levin).

Cada faculdade tem seu correlato objetivo, ou objeto próprio. Por exemplo:

a) A intuição capta presença real e singularidade. Tudo o que estiver na direção assinalada pelo Sol é apreendido pelo indivíduo como dado imediato, real, inquestionável. A intuição é, pois, o princípio de seleção dos dados. Por exemplo, para o indivíduo com Sol na Casa III as analogias e significações que de um objeto remetem a outro são tão “reais”e imediatas como, para o que tem Sol na II, o são as formas, cores, pesos sabores dos objetos materiais em torno, ou, para indivíduo com Sol na VIII, é “real”, como um dado, a iminência do que está para acontecer. Todos os indivíduos, é claro, acabam por tornar conhecimento do que se passa nas doze direções, porém, não intuitivamente, e sim por dedução, indução, analogia, etc. A intuição, como captação de um dado enquanto realidade imediata, só opera numa direção. Nas outras, tem de ser complementadas pela intervenção das demais faculdades.

b) A razão capta a importância hierárquica dos dados num quadro de referência preexistente. É, portanto, o princípio da generalização (seleção e generalização no sentido de Piaget). Portanto, é na direção indicada por Saturno que o indivíduo capta os dados que, a longo prazo, lhe parecerão mais importantes e de mais longas consequências. Um evento captado na direção do Sol é apenas um dado, intensamente real no momento, mas que pode passar sem consequências; na direção de Saturno, é fixado como matriz de generalizações. Eventos ocorridos nessa direção são encarados sempre do mesmo modo e como confirmações de crenças anteriormente estabelecidas. Nesta casa ocorrem os “eventos primários”, na terminologia de Arthur Janov (ou antes: não é bem ali que ocorrem objetivamente, mas é ali que o indivíduo sedimenta suas conclusões e, no caso de um evento traumático, é ali que se consolida a reação ao trauma).

Como se faz a transposição desde o nível (errôneo em geral) das interpretações correntes em astrologia, ao nível astrocaracterológico que as repõe na devida perspectiva?

Suponhamos um horóscopo com Saturno na Casa X, um astrólogo dirá: trata-se de um indivíduo com sede de poder. Outro: Ele teme as responsabilidades. Outro: Ele tem conflitos com a autoridade. Outro: Ele se preocupa com a História e a Política.

Astrocaracterologicamnete, a sede de poder está ligada à Camada 5 (capacidades e forças atualmente conhecidas pelo indivíduo); o temor à responsabilidade, á Camada 4 (desejo e, por reverso, temor); os conflitos com a autoridade, à Camada 7 (valores do meio); a preocupação com a Histórica, à Camada 9 (personalidade intelectual). Nada disto pode ser objeto de estudo astrológico direto. Assim, todas essas interpretações podem ser indiferentemente verdadeiras ou falsas, pois o horóscopo, em si, nada tem a ver com camada da personalidade na qual um traço de caráter há de ressoar; a camada é decidida por fatores extra-astrológicos, pessoais ou mesmo acidentais.

Hitler, Marcel Proust, Albert Camus e Woodrow Wilson tinham, todos, Saturno na X. O primeiro teve sede de poder; o segundo, temor das responsabilidades; o terceiro, conflitos com a autoridade; o quarto, um interesse profundo nos estudos históricos.

Porém Proust não tinha sede de poder, nem Hitler temia as responsabilidades, nem Wilson teve conflitos com a autoridade, nem Camus foi um grande historiador.

Haverá entre todas interpretações um fundo comum, que restitua algo de veracidade a todas essas meias-verdades que são meias mentiras?

A interpretações astrocaracterológica de Saturno na Casa X, que se refere exclusivamente ao traço cognitivo que lhe corresponde (e não ás consequências emocionais, biográficas, etc. em que tanto se comprazem os astrólogos) é a seguinte:

Saturno na X – Inteligência racional de tipo sociológico. As experiências pessoais que fundaram, para este indivíduo, a base das generalizações mais importantes e duradouras, deram-se na direção da casa X, isto é, referiram-se (para ele, e na sua validação subjetiva do momento) à hierarquia do poder social e às sua relações pessoais com esse poder. Sua imagem do mundo e do seu próprio destino deriva diretamente de experiências ante o poderio social, das quais ele tira conclusões que se estendem depois a todo o orbe da sua experiência pessoal.

Isto é válido para Hitler, Proust, Camus e Wilson igualmente. Em cada um deles a visão geral do mundo deriva diretamente de experiências que lhes revelaram, desde cedo, a polis com sua complexidade de classe e hierarquias, normas, leis, regulamentos e conflitos.

Do mesmo modo, com Saturno na II, as experiências de base se referiam ao mundo físico, na II à gratificação e à frustração dos desejos, e assim por diante. Como cada uma das casas representa uma categoria magna da experiência humana, facilmente experiências vividas numa delas podem servir de base a generalizações que se estendem a todo um mundo, e que determinam a visão que o indivíduo terá, em seguida, das outras direções ou casas. Por essa mesma razão, nenhuma posição planetária representa, em si mesma, uma limitação cognitiva, a longo prazo, embora o represente temporariamente. Partindo de uma experiência estreita, e de generalizações mal embasadas, um indivíduo poderá depois, quer pela constante autocorreção do pensamento racional, quer pelo apoio das demais faculdades, corrigir essas generalizações e, artificialmente, ir ampliando sua visão do mundo. Mas os dados iniciais que fundaram as primeiras generalizações estarão sempre presentes, como origem – superada, mas não revogada – de uma imagem do mundo.

A astrocaracterologia desenvolveu uma série de estratégias de verificação, mas, sobretudo, utiliza um método comparativo e biográfico (acompanhado de análise estilística quando o sujeito estudado tem obras escritas).

Ao encerrar o presente resumo, é preciso deixar claro que o intuito da astrocaracterologia é preparar uma verificação e um julgamento conclusivos das pretensões da astrologia clássica e contemporânea; que essa preparação é de índole, sobretudo, fenomenológica, redutiva e descritiva, e não explicativa. A explicação causal do fenômeno astral é de interesse da astrologia pura ou teoria astrológica pura, e não da astrocaracterologia em especial. Os procedimentos da astrocaracterologia são independentes de qual seja a causa do fenômeno astral e, portanto, a astrocaracterologia não entra nesse terreno, no qual se debatem hoje as grandes teorias explicativas de Percy Seymour, Daniel Verney, Jacques Halbronn e tantos outros notáveis investigadores. A astrocaracterologia adota como sua a divisa de Ortega y Gasset: Que otros hagan su más, que yo hago mi menos.

Bibliografia Olavo de Carvalho

Vídeos de Olavo de Carvalho

Salvador Dalì - Aquarius

Entrevista com Olavo de Carvalho

 A Amnésia Moderna

Um acerto de contas com a Astrologia

Roberta Tótora – Editora Porto do Céu

Não há como ficar inerte e não parar para pensar diante de um texto de Olavo de Carvalho. Autor de livros polêmicos como “O Imbecil Coletivo”, o filósofo tem sacudido os meios universitários e culturais do país, com sua análise crua e profunda da intelectualidade nacional. Mais do que criticar personalidades em grandes veículos de comunicação e criar inimizades, Olavo diz lutar contra uma postura “imbecilizante” do pensamento, buscando retomar os valores da verdadeira Filosofia, esquecida por uma modernidade arrogante e sem memória. Poucas pessoas sabem que o filósofo é também astrólogo e que considera a Astrologia um estudo obrigatório para aqueles que procuram saber sobre Filosofia e Cultura, não só como uma mera curiosidade histórica, mas como um sistema de pensamento sobre o qual nossa sociedade está estruturada até hoje. Olavo de Carvalho falou com exclusividade à Porto do Céu sobre a importância do estudo astrológico e os problemas da sua utilização nos dias de hoje.

Porto do Céu – Como a Astrologia contribuiu para a sua formação?

Olavo de Carvalho – Muito. Não existe possibilidade alguma de entendimento de qualquer civilização antiga sem o conhecimento da Astrologia. O modelo de visão do mundo baseado nos ciclos planetários e nas esferas esteve em vigor durante milênios e isto continua a estar, de certo modo, no “inconsciente” das pessoas. Apesar de algumas deficiências no modelo astrológico, foi ele quem estruturou a humanidade pelo menos a partir do império egípcio-babilônico, o que significa, no mínimo, cinco mil anos de história. A Astrologia é um elemento obrigatório, por isto quem não a estudou, não estudou nada, é um analfabeto, um estúpido. O trabalho mais vigoroso nas ciências humanas do século XX, por exemplo, só aconteceu depois da existência do Instituto Warburg, fundado em Londres por um milionário judeu fugido da Alemanha, que juntou, durante 20 anos, as melhores cabeças do século em torno de uma coleção de manuscritos astrológicos e alquímicos. Sem este estudo, a comunidade acadêmica nunca teria qualquer possibilidade de compreensão real das civilizações antigas.

Porto do Céu – Quais as consequências da perda deste conhecimento em nosso tempo?

Olavo de Carvalho – A consequência é simplesmente não entender mais o passado. Se alguém não entende as civilizações antigas, não sabe mais onde está. É uma amnésia.

Porto do Céu – Como foi que o Senhor entrou em contato com a Astrologia?

Olavo de Carvalho – Foi uma casualidade. O Dr. Müller contratou-me na época em que eu trabalhava no Jornal da Tarde para redigir um curso de psicologia baseado em astrologia, já que era argentino e não dominava muito bem o português. Depois destas aulas, um mundo sem limites se abriu para mim.

Porto do Céu – Qual é a sua relação com a Astrologia hoje?

Olavo de Carvalho – O meu acerto de contas com a astrologia foi o curso “Astrocaracterologia”, uma espécie de conclusão que tirei dos meus vinte anos de estudo e que fechou a minha contribuição para o assunto. Eu equacionei a Astrocaracterologia de tal modo que, para avançar de onde parei, só mesmo a pesquisa experimental. Para se formar uma ciência, é preciso levantar uma série de conceitos; destes conceitos, tirar hipóteses; das hipóteses, um método e dos métodos, as pesquisas. A parte teórica eu pude concluir, mas daí para frente, a Astrocaracterologia deixou de ser problema teórico para ser de investigação científica. Eu não tenho condições de dar continuidade a estas pesquisas porque precisaria de tempo, gente e dinheiro. Voltar a mexer neste assunto só me deixaria desesperado, porque eu não poderia realizar as investigações necessárias para responder as questões que levantei.

Porto do Céu – É possível resgatar a Astrologia tradicional nos dias de hoje?

Olavo de Carvalho – Não sei. Isto é um tremendo abacaxi. Primeiro: não existe uma só astrologia tradicional, mas milhares. Quando falamos “tradicional”, estamos nos reportando a certas épocas, onde esta Astrologia estava integrada completamente nas civilizações. Se a pergunta é “nas condições da nossa sociedade, é possível produzir uma astrologia tradicional?”, a resposta é “não”. Precisamos retomar o estudo astrológico de um outro plano, para estruturar uma ciência. Só que não fizemos nem uma coisa nem a outra. Os astrólogos não fizeram porque têm preguiça e os outros, porque têm preconceito. Só quem se interessou realmente pela Astrologia foram historiadores e filólogos, cuja função não é desenvolver a Astrologia, mas estudar o que ela foi e qual o lugar dela nas civilizações antigas. Estes fizeram a sua parte e levaram a coisa a sério.

Porto do Céu – O trabalho dos astrólogos, então, seria pesquisar junto aos textos antigos e desenvolver a astrologia enquanto ciência, já que é impossível o resgate da astrologia tradicional?

Olavo de Carvalho – Eu não diria que esta é a única possibilidade. Você não imagina como esta sua pergunta é difícil. A resposta é: não sei (risos). Não sei.

Porto do Céu – O Senhor afirma no seu livro “Astros e Símbolos” que não é possível a compreensão da Astrologia sem a prática de um esoterismo vivente, só alcançado através de um compromisso com um exoterismo ortodoxo. É neste sentido que é impossível a compreensão desta e de outras ciências tradicionais em nosso tempo?

Olavo de Carvalho – A própria descrição de esoterismo e exoterismo, que levei a sério por muito tempo, eu não aceito mais. Ela não é suficiente, é muito pobre, apesar de poder ser válida. Esoterismo e exoterismo são conceitos que só se aplicam tal e qual no conceito islâmico, onde existe uma fronteira, uma lei exotérica clara que funciona para todo mundo, e organizações esotéricas, que são para os que estão interessados. Esta fronteira, tão clara no mundo islâmico, não existe no mundo cristão e em outras tradições. Como é que podemos falar em esoterismo e exoterismo no contexto budista, por exemplo? Na obra de René Guenon, ele aplica este conceito a todas as tradições, mas isto é uma espécie de “islamização” das religiões e o próprio Guenon estava consciente disso.

Salvador Dalì - Pisces

Porto do Céu – A Astrologia, então, pode ser resgatada num contexto cultural, mas não a astrologia tradicional?

Olavo de Carvalho – A Astrologia esteve integrada de algum modo às tradições, mas hoje em dia não temos mais tradição espiritual nenhuma. Temos, sim, uma devastação. Como é que podemos recuperar somente a Astrologia, se ela é apenas um pedaço do equipamento? Só podemos no sentido de estudo histórico, de compreensão do passado ou então sob uma forma de ciência, do modo como as ciências hoje são compreendidas.

Porto do Céu – Esta visão que o Senhor tem hoje é diferente da apresentada nos seus livros sobre Astrologia.

Olavo de Carvalho – Os três livros que escrevi sobre Astrologia foram redigidos para um grupo de pessoas que estavam metidas até a goela no esoterismo islâmico. Para entender-se o que está escrito, é preciso saber para quem foi escrito. Nada do que está ali pode ser transposto para um público geral sem que sejam feitas as devidas conversões. Se eu fosse reeditar estes livros, no lugar de uma página, teria que escrever trinta. Com estas perguntas, você não tem ideia da complicação que me arrumou (risos). A maior parte das coisas que está me perguntando, eu terei que responder “não sei”. São talvez as questões mais espinhosas da nossa civilização e, no entanto, tem gente que dá palpites sobre elas a torto e a direito.

Porto do Céu – Esta perda das tradições espirituais tem alguma coisa a ver com a era de Aquário?

Olavo de Carvalho – A era de Aquário é exatamente isto, a era da farsa, e já estamos nela. O Anticristo já está aí. Hoje, através dos meios de comunicação, é possível que dez pessoas mintam simultaneamente para bilhões e a farsa fica estabelecida.

Porto do CéuExiste alguma espécie de compensação para os homens que estão vivendo na nossa época?

Olavo de Carvalho – Sim. As pessoas são julgadas com menos severidade. Deus, nesta época, suporta coisas que em outros tempos não suportaria. Nós estamos conversando sobre coisas aqui que, no passado, demoraríamos uns vinte anos para compreender, só depois de rezar muito. Hoje não precisamos passar por diversas práticas ou rituais de iniciação para compreendermos uma série de coisas. Esta é uma espécie de compensação natural ou sobrenatural, da mesma forma que o julgamento de Deus sobre as almas torna-se muito mais brando. Se você está no meio da confusão geral e ainda está tentando descobrir o que é o certo, no meio de pessoas que não sabem mais distinguir o bem do mal, então você já fez muito.

Porto do Céu – O Senhor não utiliza os planetas Urano, Netuno e Plutão em suas análises astrológicas. Acha impossível estabelecer um simbolismo correto para estes planetas?

Olavo de Carvalho – Não sei. Deixei este assunto de lado, porque achei que ele era mais um abacaxi. Se há alguém que não pode opinar sobre o assunto, este alguém sou eu. Não atendo para leitura de mapas há uns vinte anos, mas foi exatamente depois que deixei de trabalhar profissionalmente que comecei a estudar mesmo a astrologia. Se você está em dúvida a respeito de tudo e mexendo nos pilares de uma ciência, não tem como trabalhar com ela no campo da prática diária. Não dá para desmontar um carro e andar nele ao mesmo tempo. O questionamento teórico da Astrologia é muito profundo. Não utilizei Urano, Netuno e Plutão porque percebi que isto me colocava perguntas muito mais complicadas do que aquelas com que eu estava lidando, utilizando apenas os sete planetinhas.

Porto do Céu – O que o Senhor pensa das interpretações atribuídas a estes planetas descobertos nos últimos séculos?

Olavo de Carvalho – Urano, por exemplo, recebe uma interpretação já muito ligada ao próprio espírito moderno. Certas organizações esotéricas agem, ritualmente, no sentido da interpretação que elas próprias atribuíram ao planeta. Os ciclos destes astros começam a trabalhar mais neste sentido, porque são reforçados pela ação humana. Eu não acredito, realmente, que um planeta possa trazer a ideologia da revolução francesa. Agora, quando se quer realizar uma grande mudança no mundo, saber da existência de um novo planeta pode ser maravilhoso, já que possibilita a realização de toda uma reinterpretação da história, com base nos significados que você mesmo quis atribuir a ele. Acontece a mesma coisa com Netuno e Plutão, mas isto não quer dizer que estas interpretações não funcionem, porque parcialmente estes efeitos podem corresponder ao dos planetas, embora sejam apenas uma parte destacada do significado total daquele astro. Até o sétimo planeta, os astrólogos contavam com uma interpretação estável entre várias civilizações e não dá para justificar estas interpretações apenas como produto ideológico de tais civilizações. Mas nestes últimos, você tem interpretações específicas da astrologia ocidental, feita quase que totalmente por sociedades secretas. Essas interpretações não tem universalidade, apesar de poderem ser parcialmente válidas. Acho que somente lá perto do século XXV que será possível entender este problema. A gente pode perguntar tudo, mas não ter todas as respostas de uma vez.

Porto do Céu – A astrologia está, então, numa encruzilhada?

Olavo de Carvalho – Sim, ela está em uma confusão miserável. Nunca um século foi tão difícil de ser entendido contemporaneamente como este. Nós estamos vivendo numa era verdadeiramente terrível. O número de coisas que dá para saber e utilizar como orientação é muito pequeno. A humanidade sempre soube mais ou menos o que estava acontecendo, as decisões de reis e príncipes não eram mistérios inimagináveis. Hoje são. As pessoas poderosas estão distantes, cercadas por muros e muros de segredos e mentiras. Os instrumentos de ocultação são monstruosos. Mais do que na era da informação, estamos na da ocultação.

Porto do Céu – Diante de todas estas confusões incorporadas à Astrologia nos dias de hoje, ainda vale a pena falar sobre o assunto?

Olavo de Carvalho – Se é para as pessoas entenderem o que está acontecendo, é claro que vale a pena. As discussões públicas sobre isto são muito problemáticas, e é preciso ter paciência para explicar tudo, o que numa entrevista é impossível. Vale mais é ensinar para aqueles que estão dispostos a estudar ao longo dos anos.

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