A História da Astrologia

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História da Astrologia no Ocidente

Bárbara Abramo

Introdução

Alguns estudiosos i imaginam que a história da astrologia tenha se desenvolvido em 3 estágios ou fases, sendo a primeira resultante das anotações dos presságios, ainda sem zodíaco; na segunda fase introduz-se o zodíaco com signos de 30 graus sem que haja nenhum horóscopo individual, mas muita atenção aos trânsitos de Júpiter pelos signos – do qual parece derivar a prática das profecções anuais que mais tarde vai se desenvolver na astrologia – sem casas astrológicas. Waerden assinala este período de 630 a 450 a.C.; o zodíaco é sideral e seus “ayanamsha” ii muito próximos aos de Fagan iii.

i Waerden – Science Awakening – Vol II, Oxford University Press, citado por Hand, R.: “The History of Astrology – another view”.
ii Termo sânscrito: “grau anual”, indica a diferença em arco entre os pontos de início dos zodíacos tropical e sideral.
iii Hand, R. – op. cit.

A terceira fase consiste da astrologia horoscópica. As fontes antigas mencionam os “caldeus” que faziam mapas para pessoas e, segundo até Aristóteles, houve um “caldeu” que previu a morte de Sócrates e que o pai de Eurípides, o famoso dramaturgo grego, encomendou a leitura do mapa de seu filho. Nestes mapas de nascimento, as posições correspondem muito mais a um zodíaco sideral que utilizava um ayanamsha como o Fagan/Bradley do que com um zodíaco tropical.

Origens na Mesopotâmia

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Tablet with impressed signs

Para quem trabalha com astrologia no ocidente, a história segue um rumo definido, que começa na Mesopotâmia – há registros de cerca de 15 mil anos a.C., em que as fases da Lua já eram anotadas em pedaços de osso e estas parecem ser as mais antigas observações astronômicas que se conhece. A palavra Mesopotâmia é grega e refere-se ao fato de ser uma terra entre dois rios, o Eufrates e o Tigre (‘mesos” significa meio e ‘pótamos’ significa rios).

Os registros mesopotâmicos atestam o que se chama hoje de presságios, como origem da astrologia ocidental. Tal como ocorreu com outras culturas, tratava-se de examinar os céus para ver o que poderia afetar os reinos. A maior parte destes presságios misturavam previsões de tempo e astronomia, mas o que diferenciou os mesopotâmicos de outros povos do Ocidente foi que naquela época eles começaram a gravar de forma sistemática os fenômenos celestes e tentar correlacioná-los com eventos terrestres. Um exemplo do tipo de anotação de presságios do período acádio, veja o seguinte trecho:

“Se Vênus aparecer a Oeste no mês de Airu e os Grandes e Pequenos Gêmeos circundarem-na, todos os quatro, e ela estiver escura, então o rei de Elam cairá doente e não permanecerá vivo”.

O mais extenso documento contendo os presságios babilônios está no épico chamado Enuma Anu Enlil, condensados por volta do segundo milênio a.C.

A civilização mesopotâmica nasceu há cerca de 4 mil anos a.C. – com o povo ubaida, depois vieram os sumérios, que inventaram a escrita cuneiforme, uma das mais antigas formas de registro escrito, que consiste na confecção de formas de baixo-relevo com cunhas no barro, que depois era cozido.

O traço histórico marcante, que, segundo estudiosos, terá muito impacto na própria constituição da astrologia, como também de outros conhecimentos, é a forte instabilidade política da região, durante milênios. Os acádios conquistaram os sumérios (2330 a.C.). Em 1350 a.C. tem início o Império Assírio, que mais tarde irá estender seu controle político e cultural por toda a região da Mesopotâmia, parte da antiga Pérsia, Síria, Palestina e Egito (730 e 650 a.C.). O segundo império babilônico (612 a.C.) dura até a tomada da região pelos persas, quando também o Egito fica unificado sob a dominação política persa.

Com a perspectiva sempre presente da perda do poder por parte de lutas regionais, os reis e imperadores mantinham um séquito de observadores do Céu, que informavam em “memorandum” os fenômenos que viam, como sinais de eventos que ocorreriam aos poderosos.

Não havia o “mapa astrológico” tal como o conhecemos hoje em dia. Cosmologia e cosmogonia astral entremeavam-se nos longos épicos da criação, como as Tábuas de Vênus do rei Amizaduga e o Enuma Anu Enlil, cuja forma acabada será conhecida apenas nos últimos séculos anteriores à queda da Babilônia. Os registros falavam de estrelas fixas também e não há relatos sobre casas astrológicas ou aspectos tais como os conhecemos hoje.

Os sumérios inventaram o sistema sexagesimal, que facilitou operações matemáticas muito complicadas com relação à astronomia e este seu sistema numérico foi exportado para toda a antigüidade. Os egípcios adotaram este sistema para fazer ainda melhor suas correlações arquitetônicas e celestiais. Quando o Egito ficou unificado juntamente com a Babilônia, a troca de conhecimentos foi facilitada; durante a dominação persa também, sendo este povo muito devotado à astrologia, o que facilitou o intercâmbio entre Egito e Mesopotâmia. Sabemos que os egípcios construíam obras arquitetônicas alinhadas às estrelas fixas, com precisão de minutos de arco, talvez querendo a simpatia do Céu para com suas propostas de poder e religião, mas não pareciam ter nenhuma teoria planetária envolvida nesta função, nem técnicas matemáticas apropriadas.

Por todos os séculos que se sucederam, os povos que viviam entre o Tigre e o Eufrates continuaram cuidadosamente a registrar suas observações, até que após verificar a recorrência de ciclos planetários, chegaram a calcular com grande grau de acerto as posições dos planetas para o resto do tempo futuro. Registros de eclipses que começavam em 727 a.C. e que cobriam até o período após as conquistas de Alexandre mostraram-se corretos, segundo todos concordam. Naquele período babilônico, o que se fazia era marcar o Céu de acordo com estrelas, e não através de marcas fixas de um zodíaco de 30 graus; os babilônios usavam estrelas individuais para marcar a posição dos planetas.

A Dominação Persa

Em setembro de 539 a.C., o rei Nabonidus encontra as tropas do rei Ciro II, da Pérsia, perto da atual Bagdá. O império da Babilônia encontra seu fim. Com Ciro, a região encontra uma certa estabilidade. O período de enorme atividade e descoberta, dos astrólogos assírios e babilônios, havia chegado a um limite, também. Após centenas de anos registrando, nos “Diários Astronômicos”, os fenômenos celestes para informação dos reis, os persas, no contato com os astrólogos da Mesopotâmia, introduziriam a matemática no cálculo astronômico e astrológico.

A astrologia e astronomia conhecem um grande avanço, com a regularização dos calendários como conseqüência de um entendimento maior dos ciclos celestes. O período sinódico dos planetas é descoberto, assim como o período sideral. A descoberta destes dois períodos possibilitou a formulação de períodos planetários bem mais amplos no tempo. Os planetas ficam estabilizados em signos zodiacais ao invés de em constelações, como vinha se fazendo até então. Os cálculos matemáticos se provaram eficientes na sofisticação do sistema astrológico. O contato com os Mazdeísmo, religião persa, impulsiona a relação entre o simbolismo solar e astrologia, carregando para dentro do corpus astrológico o conceito de monoteísmo, que contradizia frontalmente o politeísmo assírio-babilônico.

A primeira carta astrológica conhecida da Babilônia data de provavelmente 29 de abril de 410 a.C. O registro indica signos zodiacais, mas sem graus. Conta o nascimento de uma pessoa em determinada data e elenca os signos em que a Lua e outros planetas estavam posicionados. Apesar de aparentemente terminar com uma predição, esta parte da tabuleta foi perdida.

A Era Alexandrina

Quando Alexandre, o Grande conquista o Egito, todo o período alexandrino vai destacar-se na história da astrologia ocidental. Até a chegada de Alexandre, o Grande, a região floresceu em cultura e conhecimentos, acumulados de todos os povos anteriores. A partir de Alexandre (331 a.C), toda a área fica sob dominação do império e o grego será a língua dominante. Tanto no Egito quanto na Mesopotâmia, dois generais alexandrinos ficarão responsáveis pelas dinastias subsequentes em cada uma das regiões. Na Mesopotâmia, o general Seleucos instaura a dinastia Seleucida e no Egito o general Ptolomeu I começa a dinastia dos Ptolomeus.

O período alexandrino foi rico na produção intelectual. Todos os povos sob a regra alexandrina tiveram a oportunidade de trocarem conhecimentos e ampliarem sua relação cultural com outras ciências nascentes. (Há muito que os gregos travavam contato com os babilônios; Pitágoras, Platão são alguns dos exemplos). O confronto cultural entre o pensamento helênico, que queria saber o por quê das coisas, e a tradição intelectual assíria, que se importava mais no como as coisas são feitas, alavancou a criação de uma explicação filosófica e matemática sobre o universo, o mundo natural. A filosofia estóica de Zeno, somada à teoria dos 4 elementos de Empédocles e mais tarde à teoria dos Humores de Hipócrates forneceu as bases da astrologia alexandrina. Enquanto os gregos teorizavam e procuravam melhorar a presteza matemática no cálculo de posições planetárias, os estudiosos caldeus calculavam alguns eventos dos ciclos: ascensão e ocaso, movimentos retrógrados, estacionários e oposições.

As cartas astrológicas do período de dominação helênico podem ter como exemplo a mais antiga, encontrada perto da região de Uruk, datando de 4 de abril de 263 a.C. Os graus de signo já eram mencionados:

“Ano 48 da Era Seleucida, mês de Adar, a criança nasceu. Neste dia o Sol estava em 13.30o Áries, a lua em 10o Aquário, Júpiter no início de Leão, Vênus com o Sol, Mercúrio com o Sol, Saturno em Câncer, Marte no fim de Câncer…” (…) “Ele terá falta de saúde… Seu alimento não será suficiente para sua fome. A riqueza que terá na juventude não permanecerá. No seu 36o ano terá riqueza. Seus dias serão longos em número…”

As outras três tabuletas abarcam de 258 a.C. a 235 a.C. – uma é carta de concepção e a outra de nascimento, mostrando graus zodiacais para o Sol e todos os planetas, sendo que a Lua está sem nenhuma datação matemática. A última das tabuletas, também de Uruk, registra várias predições:

“Júpiter… em 18o Sagitário. O lugar de Júpiter significa: Sua vida será regular, boa; ele se tornará rico, alcançará a velhice, seus dias serão numerosos. Vênus em 4o Touro. O lugar de Vênus significa: Onde quer que ele vá, será favorável para ele; ele terá filhos e filhas. Mercúrio em Gêmeos, com o Sol. O lugar de Mercúrio significa: Este bravo será o primeiro nas paradas, será mais importante do que seus irmãos”.

Uma das efemérides mais antigas data de 307 a.C., da era Seleucida – e até 42 d.C. elas foram produzidas. É desta época, também, o único texto com ilustrações de constelações e figuras zodiacais; as sete estrelas das Plêiades, que aparecem juntas da Lua crescente e o touro do Touro. Há também imagens do signo de Virgem com a estrela Spica, ao lado de Mercúrio e no reverso uma imagem de Júpiter com a estrela de oito pontas, ao lado da Hidra e do Leão. Com estas ilustrações, doze divisões, uma para cada signo do zodíaco; cada um destes signos está dividido em um micro-zodíaco, produzindo uma divisão de dois graus e meio ou dois dias e meio; cada signo zodiacal traz um comentário a respeito de sua significação astrológica.

A astrologia horoscópica conhecida por nós vai florescer, como já disse, na era alexandrina, com relação a aspectos mais elaborados. Os estudiosos que se debruçam sobre os textos gregos estão encontrando cada vez maiores evidencias disso. Uma das mais completas fontes dos registros gregos de astrologia foi compilada no final do século passado por uma equipe de estudiosos, e chama-se “catálogo grego dos registros astrológicos” iv.

iv Em 1898, Franz Cumont conduziu explorações arqueológicas na Ásia Menor e Síria; o resultado está em Studia Pontica (1906) e em outra obra, de 191. Em colaboração com outros, Cummont produziu o Catalogus Codicum Astrologorum Graecorum (28 volumes), com descrições e fragmentos de códices gregos.

Um sistema astrológico completo estava pronto por volta do século I de nossa Era, e escrito em grego, como se pode observar nos escritos de Doroteu de Sidon. Os registros gregos da era helenista estão cheios de referencias a um conhecimento ainda mais anterior da astrologia – em outras palavras, os para nós antigos gregos já escreviam sobre a astrologia referindo-se a ela como sendo muito antiga e contendo citações e/ou referencias a astrólogos ainda mais antigos é o do astrólogo Vettius Valens, que em sua obra se refere a velhos professores que encontrou em suas andanças pelo Egito, o que propiciou a este escritor que registrasse ensinamentos que somente são encontrados nas suas próprias obras.

Hiparco foi o primeiro grego a refletir sobre a precessão como sendo um fenômeno ordenado; compilou um catálogo de 100 estrelas (190-120 a.C.). O último mapa de nascimento escrito em caracteres cuneiformes que sobreviveu até nós data de 68 a.C. e Antioco I de Comagena, um dos últimos regentes helênicos, colocou seu mapa de nascimento em sua tumba (62 a.C.).

Persas, Gregos e Indianos – A Questão da Astrologia Indiana

O avanço das tropas de Alexandre fez com que o grego se espalhasse como língua cultural, como instrumento da helenização de toda a região da Ásia Menor, que incluía a Magna Grécia – por muitos séculos, a língua grega desempenhou o papel que hoje a língua inglesa ocupa em nossa vida cultural.

Assim, os métodos babilônicos anexados na astrologia egípcia – bem como os próprios métodos egípcios puderam viajar em grego até a Índia, espalhando o conhecimento. A maior parte dos termos técnicos encontrados na astrologia indiana “cuja origem pode ser encontrada em outra língua são gregos, não babilônios, nem coptas nem mesmo em antigo egípcio”1 e também é digno de nota que poucas palavras técnicas da astrologia grega tenham sua origem em qualquer outra língua. Entre as palavras semelhantes encontradas entre a língua grega e o sânscrito, encontram-se as referentes a casas e aspectos, o que talvez explique o impacto que a astrologia helenista teve na Índia neste item. Apesar de haver muita controvérsia a respeito do tema da origem e desenvolvimento da astrologia hindu, as referências encontradas nos textos indianos às figuras dos Yavanas – pessoas que falavam grego, ainda que de variada origem étnica – não deixa dúvidas sobre a troca de conhecimentos.

1 Hand, R. – op. cit.

A Era Romana

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Embora sob dominação romana, a cultura ainda era helenista. Apenas dois autores romanos destacam-se na astrologia: Marcus Manilius, autor de Astronômica (10 d.C.), um poema didático longo em latim; como ele não faz referências a autores da sua época, muitos duvidam de sua autoria, atribuindo o texto ao Renascimento e não à Antigüidade Clássica. Além deste, temos Julius Firmicus Maternus, que compilou muito do conhecimento da época e escreveu no seu Mathesis o livro 8, que trata de astrologia e suas técnicas, em latim; seu texto ficou conhecido por toda a Idade Média.

Data do primeiro século depois de Cristo o mais longo tratado astrológico de uma linhagem que nasce diretamente no movimento filosófico dos estóicos2. O trabalho não chegou até nossos dias inteiro, mas há diversas referências dele entre diversos autores até da Era Medieval européia. O autor é Doroteu de Sidon e o nome do trabalho é o Pentateuco, um longo poema astrológico em 5 livros. Doroteu é a mais velha fonte conhecida do sistema de triplicidade trina. Uma versão deste Pentateuco é conhecida como Carmen Astrologicum, a Canção da Astrologia, mas que nos chega através de uma versão comentada em árabe, possivelmente com acréscimos posteriores. Este trabalho mostra o uso das triplicidades, eclipses e uma série de pontos como ASC, graus, em torno do mapa.

2 Zeno, cerca de 300 a.C., ensinava em Atenas perto do Stoa Poikile (coluna pintada) da ágora (praça), daí o nome Stoikos, que originou estóicos. Zeno pregava que o universo era racional e governado pelo destino; o ser humano deviam encontrar seu lugar na sociedade, ajudando a melhora-la e cumprindo suas obrigações, e aprendendo que a melhor maneira de se haver com o destino era não fugir dele, mantendo a cabeça forte e tranquila.  O estoicismo tem 3 fases, a ultima delas abarca o período em questão. Mesmo Sêneca sendo estóico, não aceitava a astrologia, embora no corpus doutrinário da filosofia houvesse lugar para uma cosmologia complexa que abarcava a teoria política e ética, além da física. Até em Descartes, muitas centenas de anos depois, vamos encontrar uma forte tendência estóica. Este foi o movimento mais forte de todo o Império Romano.

Parece que algumas fontes consideram Teucer, da Babilônia como sendo o primeiro a delinear os decanatos astrológicos, que também é do primeiro século, mas não se tem certeza. Da mesma época, no cenário romano destacam-se o astrólogo Balbilus – que era parente do astrólogo de Augusto e Tibério, Trasilo, tornou-se conselheiro de Caligula, Tibério, Cláudio, Nero e permaneceu ainda no reinado de Domiciano.

Entre 117 a 18 d.C. reina o imperador Adriano, que foi um patrono da astrologia; seu mapa natal sobreviveu até nossos dias. A Roma imperial e republicana não nos deixa muitos registros da utilização de astrologia, mas a confluência de xamanismo, rituais mágicos e encantamentos de variada origem era grande o bastante para atestar que a astrologia viceja forte não apenas na periferia do império mas também na população da baixa Itália3. A tradição intelectual romana era bastante crítica com relação ao Zoroastrismo, Mitraísmo e demais práticas do Sol Invencível que adentrou a região conforme a fronteira política do estado Romano aumentava. Dentre os filósofos (estóicos) destacam-se Sêneca e Cícero; todos eles céticos com relação ao conhecimento astrológico. Mas a tradição continuava não apenas nas franjas do sistema, como foi aos poucos sendo levada e transformada em contato com as populações do norte da Europa e da Ásia Menor.

3 Para a discussão do tema, v. Betz, H.D. – The Greek Magical Papyri – UCP, 1992.

De todo modo, é desta época o conhecido Cláudio Ptolomeu (100?-170 d.C.?), egípcio de nascimento e provavelmente cidadão romano, embora tenha escrito em grego. Ptolomeu foi um grande sistematizador de uma certa corrente representativa do conhecimento astrológico, descrevendo no Almagesto e no Tetrabiblos tudo o que se conhecia a respeito na área e que se coadunava com as premissas filosóficas de Aristóteles. Portanto, Ptolomeu não pode nem deve ser considerado “a última palavra” na nossa raiz filosófica. Vários conceitos ele deixou de usar e até hoje, embora tenha se descoberto alguma evidência, por exemplo, de que ele jamais escreveu que havia apenas uma maneira de se calcular a Roda da Fortuna, ele utilizava um sistema de triplicidades bastante diferente de outros autores contemporâneos seus. Além do mais, Ptolomeu não era um astrólogo praticante; sistematizou em um conjunto inteligível tudo o que lhe pareceu suficientemente congruente com a tradição filosófica que professava. Contemporâneo de Galeno (120-199? d.C.) – que incorporou não apenas Hipócrates e seu Paradigma dos Humores mas estabeleceu a conexão entre estes e os elementos na astrologia – Ptolomeu incorpora as categorias da medicina aplicada ao simbolismo astrológico. O Almagesto é talvez escrito em 127 d.C., mas o impacto tanto desta obra quanto de seus trabalhos na geografia – ele era cartógrafo e matemático, além de astrônomo – foram de grande impacto durante 1400 anos. Ptolomeu catalogou 1022 estrelas (antes se conheciam 850). Foi Ptolomeu quem expôs de forma organizada a teoria geocêntrica, em que a Terra está no centro do universo, em torno da qual giram os outros corpos celestes; seguindo a tradição de outros gregos anteriores, Ptolomeu reconhece a esfericidade da terra – fato que seria “esquecido” durante um certo período da Idade Média no Ocidente. A teoria geocêntrica só será abalada com a teoria heliocêntrica, no século XIV, proposta e defendida por Nicolau Copérnico. A idéia de que a terra gira em torno do Sol, como os demais corpos celestes, só foi publicada após a morte de Copérnico, enquanto que a Igreja demorou muito tempo para aceitar esta nova teoria4. Cláudio Ptolomeu escreveu um pequeno tratado sobre as estrelas fixas, além de um tratado sobre geografia. Outra tradição surge com um astrólogo praticante, que foi, para a vertente da astrologia estóica, o que William Lilly será para a astrologia horária do século 17. O que nos restou do que Vettius Valens (C150-185 d.C.) compilou na sua Antologia, é uma massa de material nascido da experimentação e da prática. Valens utilizava o sistema de profecções, sua filiação filosófica era estóica, utilizava os Lotes (erroneamente chamadas Partes Árabes), calculados diferentemente para nascimentos diurnos ou noturnos, o sistema de casas era semelhante ao de Ptolomeu – casas iguais que começavam 5 graus antes da cúspide, entre outros quesitos de sua análise. Sua obra mostra vigorosa aplicação do conceito de katarqué (o estudo dos inícios) como já a raiz de um dos ramos da astrologia que teria grande desenvolvimento posterior: a astrologia eletiva e horária. Só no final do século II d.C. teremos Antioquio de Atenas, que compila grande coleção de trechos e excertos de astrólogos anteriores; uma das partes é o Thesaurus, repleto de termos astrológicos técnicos.

 4 V. Compton’s Interactive Encyclopedia, 1994, 1995 Compton’s NewMedia, Inc.

Este período da história da filosofia ocidental é marcado pelo florescimento vigoroso do platonismo e temos em Clemente de Alexandria (150-215 a.C.) um dos maiores platonistas cristãos. A escola neoplatônica está forte e Plotino (205-270), considerado um dos mais importantes representantes, escreveu as Enéadas, que tenta dar conta de muitos dos problemas levantados pelos astrólogos de seu tempo. Jâmblico (C250-330 d.C.), um neoplatônico sírio, tentou criar uma religião neoplatônica combinada com as praticas mágicas de natureza tantrica. Em De Misteriis Jamblico lida diretamente com o problema das energias planetárias “maléficas” e suas relações com a alma.

Por volta do sec II os godos apareceram na Rússia, vindo aos poucos da Escandinávia. Bateram os germanos que moravam no norte do Império Romano e chegaram ao Mar Negro por volta do início do século 3. Ali, começaram a atacar as províncias romanas da Ásia Menor. Em pouco mais de cem anos seriam divididos em dois grandes grupos, visogodos e ostrogodos.

Em 313 d.C., o Cristianismo vira a religião oficial do Estado, mas o paganismo ainda é tolerado; em 325 d.C. há o Concilio de Nicéia, que irá alterar para sempre a relação entre astrólogos, cristãos e estrutura social no ocidente. Depois que o Imperador Constantino lançou seu édito de tolerância para todas as religiões, em 313 d.C., o cristianismo emergiu como a religião mais poderosa, enquanto movimento, dentro do Império Ocidental. A maior parte dos imperadores se tornaram cristãos na tentativa de ganhar mais poder por aumentar sua intimidade com a sociedade cristã organizada. Os desacordos internos na Igreja eram entendidos como ameaças que poderiam abalar a uniformidade e a unidade do império. Para contornar estas divisões, os imperadores conclamavam os encontros ecumênicos (do grego oikoumenos, ajuntar na casa – no caso – de Deus). O Concilio de Nicéia foi o primeiro de uma série e o ponto de discussão foi rejeitar o arianismo, que propunha ser Jesus Cristo um ser criado e não igual a Deus. Obviamente, o arianismo foi uma corrente religiosa que somava várias tradições mágico-religiosas das regiões dominadas pelo Império Romano e o ataque e anatematização do arianismo abriu a porta para a negação e perseguição de toda e qualquer forma de crença mágico-religiosa que não fosse alinhada com a linha programática da Igreja, ou melhor, de certa linha dentro da Igreja que estava para tomar a direção política e religiosa daquele período histórico5.

5 Arius (250-336) – foi um sacerdote cristão de Alexandria.

No final do século 4, o Império Romano já estava repleto de contradições internas insolúveis; a vigilância necessária para a manutenção do poder na periferia do sistema, há mais de 100 anos, havia se afrouxado. A cizânia se estabelecera nas três Gálias; os hunos se fortaleciam sob as ordens de Átila, conhecido por não deixar pedra sobre pedra onde passava, salgando o chão e destruindo as casas, símbolos, segundo ele, da dominação romana. Da periferia oriental do Império o então jovem guerreiro Alarico liderou as hostes visigodas em um levante onde tomam grandes áreas da porção oriental romana, logo após a morte do imperador Teodósio, em 395.

Data desta época a formação do Império Bizantino. Um dos filhos de Teodósio ficou no comando da parte oriental do Império, enquanto o outro filho seria o administrador da parte ocidental, comandando a partir de Milão. Esta era uma divisão que, apesar de temporária, tornou-se permanente e determinou em muito as enormes diferenças culturais e filosóficas que inclusive são patentes na tradição astrológica.

Vai ser na porção oriental do império que a tradição filosófica e religiosa, além do debate teórico, será mais rico e produtivo. No ocidente, sobrariam poucas condições de troca de informações. A história teria outro rumo nas terras que seriam tomadas pelos vândalos.

Muitas eram as tentativas de manutenção de uma paz precária entre a parte oriental e ocidental do antigo império romano, tendo de se haver com hordas hunas, no oriente, vândalas no ocidente, entre outras, de par com as inúmeras cisões religiosas que espocavam de todos os lugares do antigo império romano. Mas, em menos de cem anos, todo o império ruiria.

Roma caiu em uma manhã de 410, a despeito do aviso incessante dos gansos romanos, que protegiam a cidade sagrada das sete colinas; liderados por Alarico, chegaram os visigodos.

Cinco anos depois da queda de Roma, Hefaistio de Tebas escreve a Apotelesmatica, onde reconcilia a visão de Ptolomeu e Doroteu de Sidon; considerado um dos mais antigos interpretes de Ptolomeu e fonte primária dos fragmentos de Doroteu. Agostinho (354-430) escreve contra a astrologia individual, mas não nega a relação entre planetas e história. Paulus Alexandrinus (C378 d.C.) escreve as Matérias Introdutórias, que sobrevive intacta quase, dando um rico panorama da astrologia alexandrina e romana. Um tratado anônimo de 379 prescreve a utilização de 30 estrelas fixas na análise do mapa astrológico natal; são idênticas as que Ptolomeu utilizou no seu tratado chamado Fases.

Em 476 o Império Romano do Ocidente chegava ao fim, quando, curiosamente, reinava em Roma Romulo Augustulo, com o mesmo nome do primeiro dos chefes urbanos de Roma. Odoacro, um chefe bárbaro, o depôs. Antes dele, Diocleciano havia dividido o império em duas partes.

Período Bizantino

A primeira fase do Império Bizantino abarca de 324 a 640. Este longo período afastou e separou as duas metades do Império, tendo conseqüências importantes para manutenção e o desenvolvimento e de várias correntes que compõem nossa tradição astrológica. Uma das razões de não interrupção da prática e tradição astrológica na região bizantina é que ali o grego ficou sendo a língua falada em primeiro lugar e na parte ocidental, ficou sendo o latim. Ora, a maior parte das obras era escrita em grego e aos poucos foram desaparecendo aqueles que poderiam entender antigos escritos.

Bizâncio era uma colônia grega pequena, fundada no século 7 a.C. Ali foi que o imperador Constantino, em 330 d.C. resolveu criar, no dia 11 de maio, a cidade de Constantinopla. Dizem que ele escolheu certas estrelas fixas para estarem elevadas neste dia, a fim de construir uma cidade que durasse em poder e glória muitas centenas de anos.

O imperador Justiniano sobe ao trono em 527. Justiniano recuperou muitas áreas que haviam sido tomadas pelos povos que invadiram o império romano e o fragmentaram.

Dentre os bizantinos que seguiram a tradição helenista antes do advento da era islâmica, temos Olimpiodoro, cerca de 564 d.C., que deu aulas de astrologia mesmo sob a hostilidade crescente de Justiniano e Retório, no início do sec. VII d.C., que fez uma coletânea de textos de antigos escritos astrológicos.

Retório tinha à sua disposição os escritos de Ptolomeu e outros astrólogos. Elenca inclusive mais detalhes de interpretação. Utiliza as triplicidades e inclui elementos, 18 Lotes diurnos e 17 noturnos, discorre sobre o thema mundi cujo ASC seria em Câncer e conta como certos astrólogos acham que todos os ascendentes de todos os mapas devam estar neste signo, embora escreva que outros preferem que seja em Leo, o signo do Sol, mas ele mesmo prefere no final usar o equinócio da primavera e seu signo, Áries. Para Retório, a Lua adquire maior importância do que para Ptolomeu; a exaltação ou exílio dela é o mais importante; lista as casas da mesma maneira que Ptolomeu, mas as separa em masculinas e femininas, assim como os planetas e signos:

“Se Mercúrio está em boa casa, especialmente a casa de Saturno, e bem aspectado por Júpiter, Saturno e Marte, ele produzirá astrólogos, profetas e sacerdotes; se Saturno está no ascendente na casa de Mercúrio ou Mercúrio está no ascendente, produzirá matemáticos portentosos”6

6 Tester, Jim – A History of Western Astrology – UK, Boydell Press, 1996 – pag 95.

Mas os dias gloriosos da astrologia haviam terminado, pelo menos oficialmente. Pressionada pelo estado e pela Igreja, o caminho da sua proscrição começara em 357, quando Constancio chamou os mathematiciera este o nome dos astrólogos durante centenas de anos de indesejáveis, colocando no mesmo saco os magos, os adivinhos de sonhos, e os intérpretes de auspícios. Em 409 Honório e Teodósio mandaram os astrólogos queimar seus livros na presença de bispos e voltar à antiga fé católica sob pena de exílio. Em 425 Teodósio e Valentiniano chegaram a banir vários heréticos, inclusive os mathematici. Obviamente, nem tudo foi assim tão fácil e nem todos os astrólogos foram inteiramente banidos de Bizâncio. Um certo persa chamado Estefânio, o filósofo, gabava-se, no século 8, de haver reintroduzido a astrologia na região. Ele insistia que as estrelas não eram deuses e que só expressavam o desejo de Deus, que não agiam através de um poder que lhes era próprio, mas através do poder de Deus e, portanto, era um pecado que o ser humano não usasse este conhecimento7. E já que falamos em persas, é importante lembrar a enorme e decisiva importância que esta cultura terá para a constituição da astrologia, seja no aspecto da importância do mito solar, ligado ao zoroastrismo, seja na maneira de criar divisões do mês baseadas nas fases da lua, para darmos apenas dois pequenos exemplos! Foram os persas que ensinaram aos povos autóctones da região perto de Harran muito da tradição espiritual e mágico-ritualística que criariam uma poderosa corrente esotérica que se manteria intacta durante centenas de anos. Na cidade de Harran, no atual Iraque, levas e levas de grupos filosóficos e esotéricos de origem árabe, persa, grega – neoplatônicos e platônicos – mantiveram-se, como em um enclave de resistência, até o tempo das Cruzadas. É desta cidade – que agora começa novamente a ser escavada – que saiu a forma acabada das mansões lunares – tal como é conhecida no ocidente – e os símbolos sabeus.

7 Tester, Jim – op.cit – pag 95.

Os Árabes

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Próximo do ano de 227, a região do atual Irã foi tomada dos partas pelos exércitos sassânidas do persa Adachir I. Coroado, transformou o Zoroastrismo a religião do estado; fazia parte da cultura persa o amor à astrologia e durante o império de 4 séculos dos sassânidas, a arte floresceu bastante. Os imperadores persas abrigavam todos os filósofos que os cristãos baniam. Várias artes e práticas cresceram bastante. No entanto, tendo de brigar com hunos, romanos, bizantinos, de acordo com cada século, foram perdendo muito de seu território. Depois da ascensão do Império Sassânida, quando há este florescimento da astrologia e o Zoroastrismo é restaurado, alguns pesquisadores consideram que a astrologia árabe foi uma extensão da tradição astrológica grega e que recebeu influencias da astrologia hindu. Depois, no século 7, quando os árabes islâmicos dominam as áreas semitas da Mesopotâmia e da Pérsia, além do Egito, a troca de conhecimentos astrológicos cresce como resultado da própria dominação política daquelas regiões, que impõe maior contato cultural.

Após a dominação árabe, a maior parte dos textos de astrologia persa foram destruídos, mas os registros que chegaram até nós indicam que os maiores astrólogos da era árabe eram persas.

Praticantes de uma astrologia um pouco diferente da grega ou hindu, os árabes introduziram conceitos tais como orbe de aspectos, e muitos outros que ainda foram utilizados pela astrologia horária dos séculos mais recentes, tais como frustração e translação de luz e outros. Embora a astrologia árabe deva muito à astrologia helenista, os árabes introduziram modificações novas que podem ter sua origem na astrologia persa.

Na sua forma mais acabada, a astrologia árabe – que seria a terceira fase da história da astrologia – é a origem mais imediata do que hoje se pratica no ocidente.

Período Clássico da Idade Média

Data deste período a maior divisão entre dois braços da astrologia: a grega e a hindu, sendo que também continua a linhagem da astrologia originada das fontes persas, como uma terceira via, que mais tarde vai desembocar na composição do corpus astrológico árabe.

Era Árabe

Data desta época o grande florescimento da astrologia, com a contribuição de sírios, gregos, egípcios, persas e hebreus.

Teófilo de Edessa (final do sec. VIII) representa uma ponte entre a astrologia grega e árabe; cerca de 770 d.C., alguns trabalhos astronômicos da Índia – a astrologia hindu se parece muito com a persa no estilo e nos métodos, mas os dados astronômicos são de origem indiana, que por sua vez tem origem em textos ainda mais antigos do Oriente Próximo. Desta fase destacam-se Masha’ allah (770 – c 815), Messala em latim, autor de muitas obras astrológicas. Também surge Omar de Tibérias (815) possivelmente tradutor de Doroteu do persa para o árabe, tendo um estilo helenista nos seus escritos astrológicos. No começo do século 9 d.C., surge Abu Bakr e, entre 822 a 850, surge Kahel, um dos astrólogos de linha claramente helenista dentro da corrente árabe da astrologia.

Por volta de 854 surge Abu ‘Ali al – Khayyat, aluno de Masha’allah e autor do Julgamento das Natividades, um trabalho que mostra grande importância das idéias de Doroteus.

Alguns anos mais tarde, surge o astrólogo Al – Farghani (Alfarganus em latim) e já no final do século 9 (870) surge Al-Kindi, cujos trabalhos tiveram grande impacto na metafísica neoplatônica, mais do que na própria astrologia – influenciou Robert Grosseteste e John Dee; escreveu Sobre os Raios Estelares. Em 886 surge Abu Mashar (Albumassar em latim), representante da corrente persa na astrologia; um dos mais importantes autores da era árabe era um persa que escreveu em árabe e persa. Escreveu As Grandes Conjunções, A Grande Introdução a Astrologia, A abreviação da Introdução a Astrologia e De Revolutionibus, além de Flores Astrologiae, sobre astrologia mundial. Entre 834 e 901, vive o astrólogo Thabit ibn Qurra – hermético, neoplatônico; entre 820 e 912, Qusja ben Luqa, ou Costa bem Luca; em 865 – 932, Ar-Razi, em latim Rhazes. Em 967, aparece Al-Qabisi, em latim Alcabitius, que empresta seu nome a um sistema de divisão de casas, embora não tenha sido seu autor, pois é um sistema que nasceu ainda na era clássica. Um dos trabalhos de Alcabitius, Introdução a Astrologia, traduzido para o latim, foi muito popularizado. Depois de 1040 o astrólogo Ali ibn abi r-Rijal, em latim Haly Abenragel, foi um dos mais influentes astrólogos da Era árabe no período latino tardio; escreveu um grande tratado sobre astrologia.

Entre 973-1049 viveu o astrólogo Al-biruni, que escreveu o Livro da Instrução nos Elementos da Arte da Astrologia, um dos mais cultos e preparados astrônomos da era árabe e conhecedor de astrologia.

Entre 1092-1167 Avraham ben Meir Ibn Ezra, Ibn Ezra, professor judeu que escreveu obras de grande importância, como O Inicio da Sabedoria e o Livro das razões, entre outros. Ibn Ezra foi muito influente no ocidente latino.

 Período Latino-Medieval

Cobre o período da era latina do ocidente, que derivou quase que totalmente da astrologia árabe, sem maiores contribuições criativas. No panorama ocidental, uma das empreitadas mais importantes foi a constituição de um grupo de astrólogos tradutores das obras em persa, árabe e grego na corte de Espanha, pelo rei Alfonso de Castela e Leão (1226-1284), que também promoveu a elaboração das Tábuas Alfonsinas, de tanto uso na navegação em épocas posteriores. As Tábuas Alfonsinas, são tábuas planetárias usadas durante a Idade Média por astrônomos e astrólogos. Entre os astrólogos traduzidos para o castelhano medieval estavam as obras de Ali Aben Ragel (1254).

As figuras mais importantes são: Isidoro de Sevilha (560-636), João Escoto Erígena (815-877), Pedro Abelardo (1079-1142); Hugo de Santilla (1119-1151) traduz obras do árabe, compilações de métodos árabes não encontrados em outras fontes. Em 1125, temos a figura de Adelardo de Bath, inglês que aprendeu cultura árabe e traduziu as obras de Abu Mashar para o inglês. Em 1138, surge a tradução do Tetrabiblos de Ptolomeu, do árabe para o latim, feita por Platão de Tivoli; foi a primeira tradução. João de Sevilha (c 1150) traduziu do árabe e escreveu um tratado de astrologia – considerado um dos escritores mais antigos dos trabalhos originais em Latim durante a Idade Média. Também há Robert Grosseteste (1175-1253), bispo inglês envolvido nas teorias metafísicas da linhagem de Al-Kindi a John Dee, que foi conselheiro de reis e rainhas na corte da Grã-Bretanha.

Alberto Magno (1193-1280), professor de Tomás de Aquino, responsável pela introdução do aristotelismo na sua vertente árabe no pensamento ocidental, era um estudioso de Alquimia e Astrologia, e escreveu, ao que parece, uma obra intitulada Speculum Astronomiae, uma bibliografia critica que examinava as obras astrológicas que estavam ou não em harmonia com o Cristianismo.

A figura de Guido Bonatti (C1210-1290) desponta como um dos mais importantes compiladores e práticos latinos, escreveu o Liber Astronomiae, uma enciclopédia que sumariza o conhecimento da tradição árabe; Bonatti experimentou e testou os conhecimentos que aprendeu, tendo sido conselheiro do conde de Montefeltro, inclusive para assuntos militares, onde exercia sua arte astrológica no comando de operações de guerra. Recebeu de Dante Alighieri um lugarzinho no Inferno da sua Divina Comédia. Por volta de 1210 nasce Campanus de Novara, um dos supostos autores da divisão de casas conhecida como Campanus, mas sabe-se que este sistema era usado entre os árabes.

No final do século XIII, surge Pedro de Abano, astrólogo e mago que escreveu uma longa obra, Conciliador, sobre astrologia e medicina astrológica, dentro de uma visão escolástica; traduziu Ibn Ezra do francês para o latim; no começo do sec. XIV, há registros dos trabalhos de um astrólogo chamado Andalo di Negro. Também neste século surge o primeiro astrólogo inglês importante, John de Ashenden, que praticava astrologia política e mundial, muito influenciado por Abu’Mashar, e por volta de 1400, Antonio de Montulmo, que escreveu sobre astrologia mágica, além de um livro chamado Sobre o Julgamento das Natividades.

Renascimento

A corrente arabe-latina da astrologia continua forte, mas surgem os pensadores que acreditam que Ptolomeu seria a única fonte verdadeira, e o conhecimento árabe é pouco a pouco criticado. Surgem criações e pesquisas e uma “reforma” da astrologia que segue a linha das obras de Kepler. Os trabalhos de Morin de Villefranche (Morinus) são aristotélicos, e inovam em certos aspectos da prática e da análise.

Laurentius Bonincontrius (1410-1502) escreve o Tratado sobre as Eleições; Marcilio Ficino (1433-1499) traduz todas as obras do Corpus Hermeticum, muitas obras de Plotino e Platão, para o latim e conclui uma das obras mais importantes para o panorama cultural renascentista: o Liber Vitae, o Livro da Vida, em que recupera a tradição mágico-ritualística há muito esquecida, e propõe as mudanças de hábito de acordo com cada temperamento. Regiomontanus (1436-1473) escreve sobre o Almagesto de Ptolomeu e ajuda o florescimento da astronomia entre os povos germânicos – apesar de ser atribuído a ele o sistema de casas que leva seu nome, este sistema era conhecido antigamente pelos árabes, sendo que ele próprio chamava este sistema de “racional”. Lucas Gauricus (1475-1558), astrólogo que trabalhou para setores da Igreja, escreveu muitos livros. Nicolau Copérnico (1473-1543) cria um sistema de astronomia heliocêntrica; escreve De Revolutionibus. Johannes Schoener (1477-1547) foi um astrólogo e astrônomo muito importante que disseminou as obras de Regiomontanus e compilou efemérides anuais; escreveu Opusculum Astrologicum e Três Livros sobre o Julgamento das Natividades.

Em 1492 a América é Descoberta

No final deste século, Melanchton, amigo de Lutero e grande patrono da astrologia, faz a primeira tradução do Tetrabiblos do grego original e era amigo de Schoener; seu pensamento estava um pouco à esquerda de outros luteranos e por isso foi considerado herético; influenciou o pensamento de intelectuais como Jacob Boheme.

No começo do século XVI, Girolammo Cardano, matemático, astrólogo, mago, escreve algumas obras importantes. Em 1503 nasce Nostradamus, que ficou famoso pelas suas Centurias. Junctinus (1523-1590) foi outro astrólogo que escreveu obra enciclopédica chamada Speculum; da mesma época são os trabalhos de John Dee, astrólogo e alquimista, que circulava nas rodas poderosas da Inglaterra. Outros astrólogos foram: Johannes Garcaeus (1530-1575), que escreveu uma compilação de mapas de nascimento; Claude Dariot (1530-1594), que influenciou outros astrólogos europeus, como William Lilly, e escreveu algumas obras. Durante aquele século, Tycho Brahe fez a compilação do mais completo catálogo de estrelas, além de outros registros planetários que foram a base das observações de Kepler.

Galileu Galilei vive entre 1564-1642. Um seu contemporâneo foi Morin de Villefranche, astrólogo que escreveu 28 volumes entre os quais a Astrologia Gallica, tentou reformar a astrologia; era conselheiro do ministro Colbert, da corte francesa.

O Declínio

O começo do declínio da astrologia na Europa é antecedido por um grande florescimento da astrologia na Inglaterra, com as figuras de William Lilly (1602-1681), que desenvolveu a astrologia horária e se apoiava nas técnicas medievais, tornou-se a fonte da revitalização contemporânea da astrologia na Inglaterra. Outro astrólogo importante foi Plácido de Tito (1603-1668), que alterou algumas formulas dos sistemas de Maginus e dos árabes e criou o que conhecemos por sistema de casas Placidus; tentou criar uma astrologia cientifica baseada em Ptolomeu e Aristóteles, mas a revolução da idéias já não permitiria espaço para a astrologia. Nicholas Culpeper (1616-1654), médico inglês e astrólogo, escreve muitas obras que disseminam conhecimentos astrológicos. Outros nomes da astrologia na Inglaterra são Gadbury (inimigo de Lilly), Coley, Partridge.

O abalo da revolução copernicana nos setores científicos europeus detonaria o que muitos autores chamam de “a segunda morte da astrologia”. Após a profusão de almanaques publicados na Inglaterra, França e Itália, em que a popularização da astrologia de pouca reflexão se espalhou, os poucos teóricos e estudiosos realmente sérios já não conseguiam espaço político junto às academias científicas. A idade do racionalismo, com o seu universo dessacralizado, estava para se tornar hegemônica na produção cultural do ocidente.

Quando, ao final do ano letivo de 1770, o último curso acadêmico de astrologia é fechado na Universidade de Salamanca, a intelligentsia européia já não tinha mais porque reclamar; algumas dezenas de anos antes, a astrologia havia sido banida da formação regular da Sorbonne, na França.

Durante o século 18 e 19, a idéia da previsibilidade dos ciclos históricos, deslocada da tradição até então relacionada à arte astrológica, desloca-se para as ciências e disciplinas “novas”, como a sociologia – que nasce como um subproduto para melhor dominar os povos coloniais – baseada no positivismo de Augusto Comte e seus critérios de anomia e ordem social. Na análise mais profunda, são os mesmos temas milenaristas de controle do ciclo do tempo e da relação entre grupo social e ciclos de perpetuação do controle político do estado que vem desde o tempo da Mesopotâmia e que podem ser encontrados até mesmo na produção teórica marxista.8

8 Para a discussão do tema verificar Campion, N – The Great Year – UK, Penguin Arakana, 1994.

Durante mais de um século, o conhecimento astrológico ficou reduzido a pequeno grupo de pessoas na Europa. Somente em meados do século XIX é que se começa a registrar maior movimentação na área. A astrologia européia, assim como sua vertente norte-americana, só se recuperaria em todo o seu vigor no “boom” astrológico da segunda metade do século 20, salvo as raras exceções nas décadas anteriores, que ilustram quadros infelizes da relação entre astrólogos e nazistas – ou a sua contraparte britânica, cujo serviço secreto chegou a chamar astrólogos para tentar descobrir quais seriam as próximas manobras de Hitler.

A corrente de transmissão do conhecimento astrológico só seria plenamente refeita nos anos 90, quando um movimento informal de alcance internacional e liderado por astrólogos ingleses, norte-americanos, espanhóis e russos se dedicaria à recuperação das fontes primárias da arte astrológica, não para brigar pela “verdade” astrológica – que inexiste – mas pelo direito ao conhecimento do passado, para melhor produção no presente.

A América

Aqui o genocídio cultural já havia sido perpetrado por ocasião da invasão das terras pelos portugueses e espanhóis. Ingleses no Norte da América destruíram povos e tradições espirituais, e o processo de retomada e descoberta, assim como de recuperação deste conhecimento – de astronomia física e cultural – ainda que esteja sendo feito, pode estar comprometido se não houver a necessária troca de informações entre vários conhecimentos do céu.

Na América Espanhola e Portuguesa o quadro é igual, mas as conseqüências são mais trágicas. No genocídio do povo maia perdeu-se quase que totalmente a prática de utilização da astrologia deste povo, conhecido depois pela sofisticada matemática e precisão astronômica a que chegaram. Astecas, toltecas, quíchuas, povos nativos do Peru, cuja tradição xamânica e mágico-ritualistica muitas vezes remete a estações do ano e períodos do dia, também quase que se transformaram em motivo de teses de doutoramento esparsas ou suspeitos movimentos milenaristas, com raras e honrosas exceções.

Pouca gente conhece o que existe, o pouco que sobrou do genocídio – e, quem conhece, não tem olhos nem interesse pelos estudos da culturalização do Céu ou do simbolismo das estações. Também, pouca gente sabe que durante a Inquisição no Brasil alguns brasileiros e portugueses foram presos ou torturados por denúncias de prática de feitiçaria e ou astrologia, também chamada de outros epítetos, embora a história oficial fale de uma Inquisição branda na colônia portuguesa do Brasil e uma, muito mais feroz, nas colônias espanholas nossas vizinhas. Para uma história da astrologia no Brasil moderno, consultar a obra de Antonio Carlos Harres.

Pouca gente sabe também que os Tupinambá do interior da Bahia, no Brasil, produziram até marcos geográficos semelhantes aos de Stonehenge na Inglaterra – mas a diferença de valor cultural faz com que esta descoberta, que motivou exposição no Rio de Janeiro em 1997, não consiga nem ao menos romper as fronteiras lingüisticas. Afora o trabalho paciente e difícil de pessoas como Kaká Werá Jacupé, guarani criado por txucarramães, poucos se lembram que os povos da floresta brasileira tinham sim, antes do genocídio, um céu cheio de símbolos e uma vida com significado e propósito, que é, afinal de contas, tudo o que um astrólogo quer saber ver nos mapas do céu de alguém ou de um país.

Estrelas Fixas, Parte I

Estrelas Fixas, Parte II

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© Barbara Abramo, primavera de 1998

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Celisa Beranger

O termo Astrologia deriva das palavras gregas astron, astro, e logos, palavra, razão e cômputo. Suas origens e desenvolvimento no passado distante não são conhecidas. Ela se confunde com as origens da civilização. Mas seguramente foram as necessidades de ordem prática como a de marcar o tempo e reconhecer a ordem geral dos movimentos celestes para poder prevê-los, que fez com que em todos os povos da antiguidade possamos encontrar estes conhecimentos. É preciso observar que todos os sistemas primitivos do Universo eram ao mesmo tempo astrológicos e astronômicos. A observação do Céu tinha como objetivo a interpretação.

A Astrologia floresceu na Mesopotâmia, (entre os rios Tigre e Eufrates) onde habitavam os sumérios, acádios e caldeus e é fato insofismável que para estes povos o Sol, a Lua e os planetas eram deuses que tinham influência sobre a vida na terra. As provas mais antigas da existência da Astrologia são os fragmentos de um relicário de um templo egípcio de 4000 a.C, descoberto pela expedição do arqueólogo francês Frank Goddio em 1999 e as tabuas de argila descobertas no séc XIX nas escavações nas cidades de Ninive (25.000) e Nippur (50.000) que já mostram a Astrologia bastante desenvolvida. O conhecimento, dos movimentos do Sol e da Lua levou a confecção dos primeiros calendários, ao planejamento de plantios e colheitas e à previsão do tempo.

No Egito a primeira cronologia de 3000 a.C, estabeleceu o ano de 360 dias determinado pelo retorno do nascer helíaco de Sothis (Sirius) observada em Heliopolis. Os meses de 30 dias eram divididos em três períodos de dez dias (os decanatos, que mais tarde foram incorporados na Astrologia grega).

No Egito faraônico, a crença era no destino inelutável. Contava-se que ao lado de Maât e de Isis, haviam as Hathor, sete sacerdotisas que na presença de um deus escriba, anunciavam ao recém nascido seu destino, mas este anúncio só era feito para os privilegiados, reis ou sacerdotes. O conhecimento astrológico era ensinado apenas nos templos. Os sacerdotes especialistas, inicialmente encarregados de medir o tempo, tornaram-se depois astrólogos do Estado.

Entretanto foi a escrita cuneiforme dos povos da Mesopotâmia e a conservação dos documentos mais diversos de fatos de todos os tipos, inclusive os que se relacionavam ao céu, que possibilitou a comprovação do desenvolvimento da extraordinária tradição de observação desses povos. Registravam mês a mês, ano a ano e século a século tudo o que observavam e sabiam. As fases da Lua e a evolução do Sol através das constelações, também identificaram o movimento dos cinco planetas visíveis a olho nu – Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno através do zodíaco e determinaram seus períodos de revolução com exatidão. Até os eclipses foram observados em sua regularidade de 18 anos e 10 ou 11 dias (o ciclo de Saros ).

Na Babilônia já aparecem os simbolismos utilizados pela Astrologia até hoje. O deus lunar Sin reinava sobre a vegetação, os meses, os anos, os dias e o destino dos homens. O deus solar Shamash era o senhor da vida e da justiça; Ishtar deusa do amor, correspondia a Vênus. Júpiter era o criador Marduk, deus protetor da Babilônia. Seu filho e companheiro Nabu foi identificado como Mercúrio: o que segura o estilete das tabuinhas do destino, o deus das ciências. Marte era Nergal, deus dos infernos e das armas, arauto de infelicidade, com seu inquietante brilho vermelho. Saturno, cuja evolução lenta foi notada, era assimilado a um velho Sol fatigador, Ninib, o estável, astro da justiça e da ordem.

Na Babilônia não se acreditava em um destino inelutável. Através do Sol, da Lua, dos eclipses e cometas, eram feitas as predições mais variadas. Uma coleção de tabuinhas encontrada, abrangia acontecimentos em larga escala tais como a morte do rei, epidemias, fome, qualidade das colheitas, invasão de territórios, chuvas, etc. Nas 4.000 tabuinhas da coleção do Rei Assurbanipal (669-626 a.C.) os presságios eram estudados sem que se possa compreender quais eram os métodos utilizados. Os perigos podiam ser afastados com sacrifícios ou ritos.

Os primeiros calendários mesopotâmicos foram estabelecidos conciliando os dias, as lunações e os anos. O ano tinha 12 meses e começava na primavera. O dia foi dividido em doze partes iguais de uma hora dupla, dividida em sessenta minutos duplos, segundo o cálculo sexagesimal adotado pela primeira vez aqui e que se imporia por toda a parte .

O circulo graduado dividia-se em 12 partes iguais e o primeiro zodíaco (do grego zodion = figura) descoberto, data de 419 a.C. (tabuinha de Cambises) e seu ponto de partida era a estrela Sirius e não o ponto equinocial vernal (vernal = da primavera) de nossos dias.

Aparecimento da Astrologia Individual

Há séculos consagrada aos acontecimentos gerais e públicos, o desenvolvimento da Astrologia em direção ao indivíduo situou-se ainda na Mesopotâmia. O “horóscopo” (do grego horoskopos = marca da hora) mais antigo é da Babilônia, 410 a.C. Nesta ocasião parte integrante do império arquimênida, a Babilônia não deixou mais de ser dominada por estrangeiros, Pérsia, Grécia, Partia e Roma se sucederam. Parece que foi sob o domínio dos persas que a religião se modificou na Babilônia e, menos baseada na repetição de ciclos naturais impessoais, tendeu a enfatizar o caráter único da existência de cada um e com ele a influência preponderante da configuração do céu na hora do nascimento. Uma série de “horóscopos” em tabuas de argila precedeu os primeiros horóscopos gregos, em papiro, encontrados no Egito em 10 a.C.

Nesses textos estão descritas as posições dos planetas no zodíaco e no horizonte, (que corresponde ao que é designado Ascendente) que já desempenhava papel importante, pois o astro que nascia aparece em relevo. As predições são precisas e surgem os primeiros esboços de uma tipologia mesclada às predições fundamentais: “os acontecimentos lhe serão favoráveis, ele será forte”. Então os babilônios já estabeleciam métodos de análise de nascimentos individuais antes dos gregos. Os mapas da astrologia ocidental já aparecem, embora sob forma ainda rudimentar, mas já reconhecível.

Com o declínio da Babilônia (a última tabuinha data de 70 a.C) ocorreu a difusão da Astrologia no mundo Mediterrâneo.

Na Grécia

O inegável desenvolvimento das ciências na Grécia antiga proporcionou um renascimento da tradição secular da Astrologia da Mesopotâmia e Egito.

Tradicionalmente, a introdução da Astrologia na Grécia, ocorreu após a conquista da Mesopotâmia por Alexandre o Grande (331 a.C.). Berose, sacerdote caldeu, astrólogo e historiador, foi enviado à Grécia (330 a.C.) e fundou em Cós uma escola de Astrologia. Entretanto o desenvolvimento da Astrologia na Grécia ocorreu porque o terreno já estava preparado.

Dentre a maioria dos filósofos gregos era firme a crença na influencia dos astros e seus movimentos sobre o destino dos homens, começando por Pitágoras (582 a.C.), Empédocles, Aristóteles, Hipócrates e Platão. Filipe de Oponte, discípulo de Platão, foi quem atribuiu os nomes dos deuses do Olimpo aos planetas, afirmando que eles pertenciam às divindades.

O dogma fundamental da Astrologia grega é um principio presente até hoje: A interação constante entre o Céu e a Terra.

Os gregos dedicaram-se a fazer horóscopos para todos os homens, promovendo a disseminação da Astrologia individual.

Com a morte de Alexandre (323 a.C.) seus generais dividiram o império entre si e propagaram o helenismo que evoluiu em contato com Macedônia, Egito e Siria promovendo o nascimento de uma civilização greco-oriental helenística. Nesta civilização o principal centro intelectual foi Alexandria, onde o horóscopo fundamentou-se em bases matemáticas. No século II a.C. a estrela fixa tomada como ponto de partida do zodíaco foi substituída pelo ponto vernal e assim se mantém até os dias de hoje.

No século II a.C. a semana em que cada dia é regido por um deus planetário já estava em vigor.

Nesta época os signos do zodíaco foram classificados em cardinas, fixos e mutáveis. As regências dos signos foram definidas e instauradas as casas, dividindo o movimento diurno do Sol em doze etapas à imagem do movimento anual no doze signos.

O conjunto dos conhecimentos astrológicos na Grécia foi sintetizado por Cláudio Ptolomeu, em 140 a.C. no Tetrabiblos a “Bíblia”da Astrologia Ocidental, expondo toda a prática conhecida. Ptolomeu afirmou quanto à possibilidade de “julgar os humores e temperamentos dos homens por meio da qualidade do Céu”. Justificou também a previsão astrológica porque “fortalece o espírito de modo que a espera das coisas futuras se passa como se estas já estivessem presentes, preparação que nos permite recebê-las com serenidade”.

Roma

A Astrologia fazia parte dos círculos de eruditos, abordada por Cícero (106 -43 a.C.), Virgílio, Ovídio e Horácio.

A Astrologia estava na moda como provam moedas, jóias e decorações murais evocando os signos individuais, e certos imperadores, como foi o caso dos Césares, tinham seus astrólogos.

Entretanto foi em Roma que a Astrologia encontrou seus primeiros adversários declarados. No reinado de Tibério começou em Roma uma longa historia de expulsões e regresso dos “caldeus”, nome dado aos astrólogos, devido à inclusão de charlatães, que utilizavam a credulidade geral em função da popularidade e além do mais o fatalismo astral, em moda, atraiu muitos adversários, esquecendo a influência dos astros sobre as características dos indivíduos.

Durante o reinado de Augusto, Manilius compôs seu “Astronomicon”, dedicado ao imperador, retomando o essencial das técnicas helenísticas. No reinado de Calígula viveu um dos astrólogos mais celebres de Roma: Doroteu de Sidon, que escreveu um tratado bastante citado, mas que se perdeu.

O Início da Era Cristã

O povo judeu se opunha ao culto dos imperadores romanos e também resistia à Astrologia, porque o fatalismo astral da época contradizia os dogmas de redenção e onipotência divinas. Entretanto, um dos manuscritos do Mar Morto, (4Q 186) é claramente astrológico, mostrando a determinação do destino de um homem pela posição dos astros no dia de seu nascimento. E os Reis Magos em textos antigos eram designados como Astrólogos do Oriente.

Pela primeira vez em 381 d.C., o concílio de Laodicéia proibiu aos eclesiásticos o interesse pela Astrologia e esta interdição foi reiterada em dois concílios posteriores, o que mostra a dificuldade de eliminar a Astrologia dos costumes dos cristãos.

A partir de 395 d.C., ocasião da divisão do Império Romano em Oriental e Ocidental, medidas duras tomadas contra os astrólogos, levaram-nos a se refugiarem na Pérsia, onde novos centros culturais mantiveram o espírito grego e promoveram contato com outros povos dentre os quais os árabes.

Na América Pré-Colombiana

Os Maias e os Astecas cultivavam a Astrologia. No apogeu da civilização Maia, por volta de 500 d.C., Copán era uma cidade de sacerdotes, onde o monumento do caracol era utilizado para observações do Céu.

O culto ao milho, que simbolizava a renovação periódica das forças vitais, associado à adoração do Sol, era semelhante aos rituais que envolviam a cultura do trigo no Egito, na Caldéia e na Grécia.

Os conquistadores espanhóis no desejo de eliminar, de uma vez para sempre, o “paganismo” dos povos conquistados, destruíram objetos e manuscritos preciosos.

O Mundo Árabe

A astrologia se difundiu amplamente entre os persas, sírios, árabes e turcos, integrando-se à cultura muçulmana. O período mais importante, a partir do século VII d.C. cobriu oito séculos, e a Astrologia tomou a designação de Julgamento das Estrelas.

Albumasar (805-885) com seu tratado “Introductorium in Astronomian”, traduzido depois na Europa, contribuiu para alicerçar o reflorescimento da Astrologia no Ocidente.

No campo da matemática, os árabes forneceram contribuições importantes à técnica astrológica (determinando com exatidão as casas intermediárias) e efetuaram o cálculo da data dos acontecimentos celestes, graças ao arco equatorial percorrido segundo o movimento diurno e desenvolveram o sistema das “partes” que em Ptolomeu tinha apenas uma única fórmula.

Idade Média

Depois da queda definitiva do Império Romano do Ocidente (455), a Astrologia se manteve nas entrelinhas e a partir do século XI começou seu reflorescimento.

Entretanto foi o século XII, marcado por uma nova sede de saber, que propiciou a redescoberta de textos e autores gregos e proporcionou respeitabilidade à Astrologia, refletindo-se em sua inclusão dentre as sete Artes Liberais do Trivium e Quadrivium das novas universidades européias (Paris 1205, Pádua 1221, Oxford 1249, Lisboa 1290 etc.). Na época, a ciência dos astros formava uma unidade: scientia motus, a ciência dos movimentos = astronomia, e scientia judiciorum, a ciência dos julgamentos= astrologia, retomando a união antiga.

Santo Alberto Magno (1193-1280, dominicano de Colônia na Alemanha) considerava a Astrologia compatível com o Cristianismo porque admitia que os acontecimentos terrestres eram provocados pelo movimento dos corpos celestes, mas não o destino individual dos homens.

Também a medicina da época considerava a contribuição da Astrologia importante. Tratados como o “Temporal” do matemático Regiomontanus (1436-1476) e outro de Vila (David Ibn Bilia) continham instruções sobre os instantes mais favoráveis para tomar pílulas ou purgantes, fazer uma sangria, etc. Um médico que não soubesse Astrologia era considerado incompleto e as pessoas eram desaconselhadas à entregarem-se aos seus cuidados.

Entre 1450 e 1650 o saber astrológico conferia prestígio. Os nobres e soberanos possuíam astrólogos, todos médicos, que às vezes também serviam como embaixadores e conselheiros Carlos V. Carlos VI, Luis IX, o imperador Frederico III,etc. Até Papas como Inocêncio VIII e Paulo II abriram-se à técnica astrológica.

Neste período numerosas técnicas de detalhe foram aperfeiçoadas e a precisão aumentada.

O aparecimento da imprensa em 1453 e sua difusão beneficiou a Astrologia com a publicação da Ephemerides e das Tábuas de Casas.

A Astrologia teve grande importância na descoberta dos novos continentes. As tabelas elaboradas para o cálculo do movimento dos astros com fins astrológicos foram aquelas utilizadas para as navegações. Os astrólogos judeus da península ibérica ( séculos XII a XV) foram os principais responsáveis pela elaboração desta obras. A mais importante é o “Almanach Perpetuum” de Abraham Zacuto, que serviu aos reis Dom João II, e mais tarde Dom Manuel I ( rei em 1496) . Zacuto foi estimulado pelo Bispo de Salamanca. A obra de Zacuto contém os elementos necessários ao cálculo das latitudes.

Regiomontanus, Copérnico, Tycho Brahe, Galileu e Kepler, astrônomos conhecidos também eram astrólogos e Kepler, praticava a Astrologia com convicção, como comprovam os vários mapas desenhados por ele. Kepler afirmou que a nova concepção de Copérnico não afetava a Astrologia, em sua tese 40 (Tertius Interveniens) precisou que “se quisermos estudar a influência do meio cósmico sobre nós na Terra devemos considerar a configuração do Sistema Solar de acordo com nossa perspectiva. Este é o Céu que vivenciamos. Se estivéssemos em Saturno seria o Céu de Saturno”.

No começo do século XVII J.B. Morin (1583-1650) médico, matemático e astrólogo do Duque de Luxemburgo, contemporâneo de Descartes, abraçou a era cartesiana de método e análise. Escreveu a volumosa obra “Astrologia Gallica”, publicada em 1661 em latim, onde fez um balanço completo da Astrologia da época, e também revisou toda a técnica astrológica, mas sua maior importância está na elaboração de um método e de uma verdadeira técnica para a interpretação astrológica.

A partir do Discurso do Método de Descartes, 1637, a Astrologia começou a perder crédito nos meios científicos e em 1666 Colbert a proibiu na França, embora tenha permanecido em algumas universidades européias até o final do século XVIII.

Em 1710 a suspensão da impressão das Ephemerides e Tábuas de Casas contribuiu para o declínio da Astrologia, embora almanaques dirigidos ao grande público tenham continuado a ser editados na Inglaterra.

No final do século XIX (1889), o encontro do astrólogo Alan Leo (pseudônimo de W. F. Allen) com a sociedade Teosófica de Mme. Blavatsky promoveu o renascimento da Astrologia. Alan Leo fundou a primeira empresa astrológica e em 3 anos forneceu 20.000 mapas. Sua técnica fez escola difundindo-se, na Inglaterra e Estados Unidos.

Em 1900 despontou na França Paul Choisnard (1867-1930) engenheiro, que procurou relacionar a Astrologia tradicional, com as exigências de sua formação cientifica racional, elaborando pesquisas cientificas, pelo cálculo das probabilidades, e publicou mais de 20 obras. Entretanto a grande estatística astrológica foi desenvolvida a partir de 1949 pelo francês Michel Gauquelin, psicólogo e estatístico que dedicou 40 anos à pesquisa da correlação entre as posições da Lua, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno em relação ao horizonte e ao meridiano, com os nascimentos de certos grupos de pessoas que, se tornaram célebres. Gauquelin também pesquisou esta correlação quanto à hereditariedade. Tendo levantado cerca de 100.000 datas de nascimento publicou o resultado de suas pesquisas, que contaram com a colaboração de Françoise Gauquelin, em 27 monografias pelo “Laboratório de Estudos das Relações entre os Ritmos Cósmicos e Psicológicos”, criado pelos autores. Seu resultado é inegável, embora poucos cientistas o tenham aceito e como não eram astrólogos só nos últimos anos suas pesquisas foram incorporadas pelos profissionais de Astrologia.

Na década de 70 o advento dos computadores, possibilitou os estudos do americano Jim Lewis, que desenvolveu a astrolocalização criando o programa de Astrocartografia. Foi possível assim localizar os lugares da terra, nos quais os planetas em mapas de evento ou de nascimento estarão mais enfatizados.

Na década de 90 os italianos Ciro Discepolo e Luigi Mieli promoveram uma nova estatística, elaborada pelo “Departamento de Estatística da Universidade de Nápoles”, primeiro com 8000 datas e posteriormente atingindo 75.000, comprovando a forte tendência dos filhos nascerem com o Ascendente no mesmo signo onde o pai ou a mãe tem o Sol.

Bibliografia:

A Astrologia – Suzel Fuzeau-Braesch

A Astronomia na Época dos Descobrimentos – Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

Da Psicanálise à Astrologia – André Barbault

Historia da Astrologia – Serge Hutin

Em Defesa da Astrologia – Jonh Anthony West

Trivium & Quadrivium – Editora Íbis – Vários Autores

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Descobrindo a Astrologia

Podemos afirmar que a descoberta da Astrologia se dá no momento em que o homem primitivo, ao levantar os olhos para o céu, ficou intrigado, enfeitiçado pela magia do brilho das estrelas. A partir daquele momento e com o passar dos séculos e com a evolução dos povos, ela foi sendo aprimorada.

Existem indicações arqueológicas que demonstram que a Astrologia surgiu antes da escrita, e ao que tudo parece, os primeiros zodíacos são de 26 mil anos antes de Cristo.

Inicialmente, o homem começou a associar os astros aos ciclos terrestres e percebeu que eram os astros que causavam as modificações no local em que vivia. Naquela época os astros eram associados a deuses e venerados como tal, e os acontecimentos terrestres estavam firmemente associados com essa conotação divina, e os bons acontecimentos dependiam da boa vontade dos deuses celestes. Esse pensamento perdurou por séculos e séculos, pois o homem ainda não detinha o conhecimento e nem a capacidade para discernir os eventos terrestres.

A primeira obra astrológica que temos notícia data de aproximadamente 5.000 anos antes de Cristo. Trata-se dos tabletes de barro cozido, que foram encontrados nas ruínas de Nínive (Capital da Assíria). Na verdade os astrólogos caldeus interpretavam suas observações astrais de acordo com os conhecimentos tradicionais. Mas como a região da Mesopotâmia sofreu inúmeras guerras e nelas, freqüentemente, se destruíam os registros do conhecimento do passado, estes não chegaram até nós.

Existem informações nos dias de hoje, que nos chegaram pelas escavações arqueológicas, que são difíceis de ser entendidas. Por exemplo: a lentidão com que os planetas mais distantes do Sol se movem faz com que seus efeitos só possam ser observados e analisados após milênios de observação contínua. Mas essas informações já eram do conhecimento dos povos antigos. Os sumerianos, não se sabe de que maneira, pois seus instrumentos deviam ser rudimentares, conseguiam efetuar complicados cálculos para prever eclipses e retrogradação de planetas. Estas posições estão registradas nas tabuinhas de Nínive. Por estes e outros motivos certos estudiosos contestam a origem sumeriana da Astrologia. Segundo eles o conhecimento astrológico dá mais a impressão de ser uma ciência residual, acumulada aos poucos, que fora herdada de alguma outra civilização já extinta. Alguns autores chegam a sugerir uma origem extraterrena para a ciência dos astros. A primeira marca que temos de observações celestes são as marcas em ossos de rena e em garras de mamute. Essas marcas representam as fases da Lua e nos vêm de cerca de 26.000 anos antes de Cristo.

O que parece certo é que, a partir dos sumerianos, e posteriormente dos caldeus, babilônios e assírios, a Astrologia seguia o caminho de todas as ciências, e teria se espalhado em todas as direções, por intermédio dos povos nômades e dos comerciantes, que faziam as rotas das caravanas.

Assim, ela teria chegado à Índia, China, Egito, Judéia, Arábia, Pérsia e se propagado por todos os países do Mediterrâneo.

Todas as cidades da Caldéia tinham os seus observatórios que eram torres chamadas de zigurats, palavra que significa montanha cósmica. Os sacerdotes, que eram intermediários entre os céus e o rei, observavam os fenômenos celestes para compreender a vontade dos deuses. Sua astronomia estava baseada em observações metódicas, feitas unicamente com a finalidade de fornecer previsões.

Na verdade, estas predições no início eram feitas unicamente para o rei, que representava o Estado. Posteriormente é que se começaram a levantar temas individuais para o povo.

Egito

Nós herdamos dos egípcios cartas estelares de cerca de 500 anos antes de Cristo. No Egito vamos encontrar os primeiros indícios de horóscopos pessoais, enquanto na Mesopotâmia, indícios concretos só apareceram em 250 antes de Cristo.

Na antiguidade, a astronomia estava incorporada à Astrologia, e neste setor os egípcios foram muito precisos. Até hoje usamos o calendário de 12 meses, 365 dias e 24 horas, que eles conceberam.

Foram eles que instituíram o sistema de decanatos, dividindo cada signo zodiacal em três setores de 10 graus cada, que tem um significado diverso e uma regência particular, dentro de um mesmo signo.

Os Hebreus

Estes provavelmente absorveram conhecimentos astrológicos dos assírios e babilônios, e o antigo testamento contém inúmeras referências a um simbolismo ligado ao da Astrologia. As doze tribos de Israel podem ser facilmente identificadas com os doze signos do zodíaco; os ciclos do Sol e da Lua eram conhecidos e o próprio Templo de Jerusalém foi construído de forma que os raios do Sol nascente atingissem o seu centro, na ocasião dos equinócios.

Mas, apesar do simbolismo astrológico implícito na Bíblia, num certo período, passou-se a considerar a Astrologia como a arte do demônio, e os profetas foram contra ela. Apenas os cabalistas bíblicos, muito ligados ao simbolismo bíblico, continuaram a praticá-la.

Índia

Supõe-se que a Astrologia indiana derivou da babilônica, mas que tenham recebido também uma grande influência daquela que se praticava na China. As obras de que se tem notícia são relativamente recentes, e nem mesmo nas escrituras brâmanes nem nos Vedas se encontram referências a uma astrologia individual.

Na Índia, ainda hoje predomina uma mentalidade completamente fatalista, ligada à idéia de um destino, que é representada pelas posições celestes.

China

Há dúvidas quanto à antiguidade das origens da astrologia na China, e os estudiosos não têm uma opinião unânime. Alguns julgam-na muito antiga, enquanto outros crêem que seja posterior à da Caldéia. Mas é certo que bem antes do cristianismo a Astrologia chinesa já estava bem desenvolvida, indo num crescente até a Idade Média. Ela deu origem à interpretação dos céus feita na Coréia, Japão e Ásia Central. Segundo Marco Pólo, a grande capital mongol, Kambalu, tinha cerca de 5.000 astrólogos.

A Astrologia que se praticava na China era diferente da utilizada no Ocidente, e o simbolismo animal era outro. Mas, por outro lado, é interessante notar que tinha muitas semelhanças com a Astrologia dos maias e dos astecas. O imperador era considerado Filho do Céu, e o único que tinha o poder de assegurar a ordem e regular a vida humana.

O culto ao céu era a estrutura básica da sociedade chinesa do Antigo Império, que coletiva e individualmente aspirava à ordem celeste.

Os Maias e Astecas

Infelizmente, os conquistadores espanhóis destruíram os manuscritos maias e astecas, e assim perdeu-se todo o seu conteúdo, mas sabe-se que existia um sistema astrológico muito rico, graças aos fragmentos que nos chegaram nos dias de hoje.

Como na Caldeia, os astrólogos eram sacerdotes, escolhidos entre os nobres que demonstrassem talento para as ciências. Os edifícios tinham forma de pirâmides, e na sua rosa-dos-ventos, os quatro pontos cardeais eram assinalados com as mesmas cores que no antigo Egito, o que fortalece a idéia de uma origem básica comum.

Os calendários maia e asteca eram incrivelmente complexos, pois levavam em conta os ciclos da Lua, do Sol e de Vênus. Além disso, os planetas Júpiter e Saturno também eram considerados, segundo se percebe analisando seus grandes ciclos, pois pressupunham um destino coletivo, comum a todas as pessoas. Para eles a coletividade estava sob a influência de períodos de crescimento e períodos de destruição que se alternavam.

Grécia

Segundo a tradição, a Astrologia teria chegado aos gregos através de Beroso, sábio e sacerdote caldeu, que no ano 280 a.C., fundou uma escola na ilha grega de Cós.

Mas na verdade, antes disso a Astrologia já tinha feito adeptos entre os filósofos gregos. Pitágoras, Heráclito, Platão e Aristóteles acreditavam numa simpatia entre os astros e o destino humano.

Na Grécia, a observação dos astros e a interpretação de suas posições tomou uma forma mais científica, perdendo seu aspecto supersticioso, mágico e obscuro.

Os gregos fizeram uma fusão entre os seus deuses e as divindades dos caldeus, mas sua maior contribuição foi terem tornado os cálculos astrológicos mais exatos. Seu conhecimento foi difundido por Ptolomeu, que no ano 140 d.C., publicou o Tetrabiblos, que contém as bases da Astrologia Grega. A Astrologia que até hoje praticamos no ocidente é praticamente a mesma que foi utilizada e adaptada pelos gregos.

Entre os gregos a Astrologia estava intimamente ligada ao uso de remédios. Havia o conceito de certos períodos críticos, chamados climatéricos, previstos pelo horóscopo individual, em que deveriam ser tomados certos remédios para prevenir doenças e proteger a saúde.

Roma

A Astrologia romana deriva da grega, e seus deuses foram substituídos pelas divindades latinas equivalentes (Zeus passou a ser Júpiter, Afrodite virou Vênus, e assim por diante).

Em Roma, os astrólogos eram chamados de matemáticos, devido ao grande número de cálculos que a Astrologia exige.

Sob as cortes do Império, os astrólogos se fortaleceram cada vez mais e alcançaram posições de destaque. César Augusto mandou cunhar uma moeda de prata, com o símbolo de seu signo, Capricórnio.

Nessa época de crise e decadência, a Astrologia havia perdido o seu caráter sacerdotal, para cair freqüentemente na mão de charlatões. Os adivinhos do Oriente faziam sucesso incomum e eram procurados de forma desenfreada.

O Cristianismo

Apesar de ser considerada uma crença pagã, no início do Cristianismo, a ciência dos astros não foi abertamente condenada. Ao contrário, parte do simbolismo cristão estava calcado nas tradições astrológicas. O cristianismo deu início à Era de Peixes, e os cristãos dos primeiros tempos costumavam desenhar o símbolo de Peixes no interior das Catacumbas.

Mas Santo Agostinho (254-430), que acreditava nos astros em sua juventude, renegou a Astrologia depois de sua conversão, dizendo que os demônios faziam as predições se tornar realidade apenas para tentar os homens. Sua luta contra a Astrologia foi vitoriosa no Ocidente, mais por motivos políticos do que propriamente religiosos, e esta ciência antiqüíssima entrou num período de recessão, que perdurou até a Idade Média.

Os Árabes

O desenvolvimento do estudo dos astros na Idade Média deveu-se especialmente aos árabes, que preservaram e valorizaram esta ciência, que chegara até eles diretamente da Babilônia.

Entre os árabes, conhecidos como excelentes matemáticos, a Astrologia foi aperfeiçoada, buscando cada vez mais a exatidão dos cálculos. No apogeu do poder dos califas, os astrólogos astrônomos de Bagdá eram famosos em toda a Europa, onde suas obras eram muito difundidas e traduzidas. Nesta época, a Astrologia esteve intimamente ligada ao mundo árabe, e penetrava na Europa através da Espanha, onde se traduzia para o espanhol e para o latim as obras árabes.

É evidente que resquícios e fragmentos de uma Astrologia ocidental foram secretamente preservados em países europeus, mas isto em nada diminui o mérito dos árabes no renascimento da Astrologia no Ocidente, que voltou ao esplendor graças ao entusiasmo de seus estudiosos.

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Astronomia e Matemática

André Bueno

Durante o período védico, que durou aproximadamente do século XV a.C. até o século XI d.C., fez-se alguma observação do céu, e o universo foi dividido em três regiões distintas (a Terra, o firmamento estrelado e o céu), cada qual submetida, por sua vez, a três subdivisões. A trajetória do Sol foi descrita, provavelmente, como fizeram os chineses, observando-se as estrelas que estavam ao sul à meia-noite e, portanto, em oposição ao Sol, ao passo que também se observava a Lua e se elaboravam calendários com base nos movimentos desses dois astros.

Parece ter havido duas formas de calcular o mês: uma contando de lua nova a lua nova, a outra, de lua cheia a lua cheia. Então, por volta de 1000 a.C., passou-se a usar um ano de 360 dias, dividido em 12 meses de 27 ou 28 dias: isso levando-se em consideração que devem ter observado essa trajetória da Lua contra o fundo formado pelas estrelas (27, 32 dias). Na verdade, 12 x 27 dá um total que é 36 dias menor que o ano de 360 dias, mas se o cálculo é feito entre duas luas cheias (ou novas), seria mais apropriado um mês de 30 dias, correspondendo ao período de 360 dias. Os hinos védicos dão os dois valores (27 e 28), mas parece que o período foi sendo alterado com o passar dos anos, pois em 100 a.C. um texto védico “a respeito das luminárias” refere-se também ao mês “teórico” de 30 dias. Mesmo assim, isso daria um calendário 5,25 dias mais curto que o ano solar, e os hindus vedas tinham dois métodos para lidar com ele: ou adicionar um mês extra a intervalos regulares ou somar cinco ou seis dias a um ou mais meses. Tentaram ambos, e por fim adotaram a primeira alternativa.

Ao que tudo indica, os planetas não exerciam muita atração sobre os hindus, mas há algo intrigante a respeito deles. Cinco planetas brilhantes são visíveis a olho nu, mas os hindus imaginavam que havia ainda dois outros “corpos”, Rahu e Ketu, que introduziram como responsáveis pelos eclipses solares. Uma vez que tais eclipses só ocorrem quando o Sol está em um ponto em que sua órbita aparente (a eclíptica) cruza a órbita da Lua, considerava-se que Rahu e Ketu se localizavam, presumivelmente, nesses pontos, embora o significado preciso dos termos seja difícil de determinar, de vez que a palavra “Ketu” também é utilizada para se referir a fenômenos incomuns como cometas e meteoros.

As estrelas igualmente não encantavam os astrônomos da Índia antiga, eles não preparavam catálogos de estrelas, como fizeram gregos e chineses, e parecem ter encarado as estrelas apenas como um guia para os movimentos do Sol e da Lua, dos quais precisavam, naturalmente, para a confecção do calendário. Assim, as estrelas que despertavam seu interesse eram as que se localizavam ao longo da eclíptica, e estas eles dividiram em 28 naksatras, cada qual com o comprimento de cerca de 13 graus. Entretanto, apesar dessa concepção utilitária, reconheciam alguns grupos de estrelas e batizaram algumas das estrelas mais brilhantes – por exemplo, as Plêiades, Castor e Pólux, Antares, Vega e Espiga.

Os pontos de vista mencionados até agora foram modificados pelos jainistas. Eram os seguidores do jainismo, religião fundada no século VI a.C. por Vardamana Maavira, como protesto contra o antigo ritual ortodoxo védico. Tinha por finalidade o aperfeiçoamento da natureza humana, principalmente por meio de uma vida monástica e ascética, rejeitava a idéia de um deus criador e pregava que não se deveria ferir qualquer criatura viva. Religião dualista, via a realidade constituída de duas entidades e, na astronomia, seus seguidores pensavam em dois sóis, duas luas e dois conjuntos de naksatras; segundo essa crença, nosso planeta era visto como uma série de anéis concêntricos constituídos de terra, separados por anéis concêntricos de oceanos. O círculo mais interior, ou Jambudvipa, era dividido em quatro quartos, tendo ao centro a sagrada montanha Mero; a Índia era o quarto mais ao sul, e considerava-se que o Sol, a Lua e as estrelas seguiam trajetos circulares em torno da montanha Mero, como ponto pivô, e moviam-se paralelamente à Terra. Teoricamente, o Sol devia prover a luz do dia a cada quarto, sucessivamente, mas, uma vez que o dia durava 12 horas, ele só podia cobrir dois dos quartos a cada 24 horas. Por essa razão, eram necessários dois sóis, duas luas e dois conjuntos de estrelas.

Para que não se imagine que toda a astronomia indiana antiga tenha sido, de certo modo, vaga e imprecisa, e que o cálculo do calendário era tudo o que interessava aos seus astrônomos, deve-se enfatizar que eles manifestaram interesse em aplicar medidas e métodos numéricos ao céu. No fim do século V a.C., quando a dinastia persa dos Aquemênidas controlava o noroeste da Índia, a astronomia e a literatura mesopotâmicas fluíram para o país. No século II d.C., houve um influxo da astrologia grega e, mais tarde, chegaram outros materiais astronômicos gregos (alexandrinos) , isso fornecendo tabelas de posições planetárias para serem desenhadas e uma teoria planetária grega para ser trabalhada, enquanto se faziam tentativas de medir os tamanhos e as distâncias tanto do Sol quanto da Lua. Essa concepção mais matemática desenvolveu-se fortemente do século VI em diante, e sua personagem mais importante parece ter sido Ariabata I, que nasceu em 476 e trabalhou na região de Parma. (É conhecido como Ariabata I para que possamos distingui-lo de outro astrônomo, Ariabata II, que viveu no fim do século X e princípio do século XI.) As tentativas de Ariabata I de fazer suas medidas parecem ter sido baseadas nos métodos de Hiparco e eram, presumivelmente, derivadas do Almagesto. Os valores que ele obteve não eram muito diferentes, sendo um pouco grandes para a Lua, mas muito menores para o Sol – na verdade bastante pequenos, na ordem de quase 28 vezes -, e até algumas medidas feitas mais tarde por Bascara II, que nasceu cerca de seiscentos anos depois de Ariabata, ainda apresentavam erros; de fato, não eram tão exatos quanto os de Ariabata em relação à Lua, embora seus erros com respeito ao Sol tenham sido apenas dezenove vezes menores. Novamente, o esquema de Ptolomeu para o movimento planetário foi adotado durante os primeiros séculos depois que o Almagesto foi escrito, embora Ariabata I tenha lançado a idéia de uma Terra em rotação.

Os instrumentos de observação usados pelos astrônomos hindus eram aqueles utilizados em toda a Antiguidade: o gnômon, os círculos e meios círculos para se achar as distâncias dos corpos celestes acima do horizonte e ao longo da eclíptica, a esfera armilar e os relógios de água – embora eles tenham adotado o astrolábio e os instrumentos gigantes, construídos em alvenaria, que herdaram, mais tarde, dos astrônomos muçulmanos. Nas técnicas de observação, por- tanto, não apresentaram grandes inovações; na verdade, os belos e famosos observatórios equipados com instrumentos de alvenaria construídos em Deli e Jaipur, sob a orientação de Jai Singh, no século XVIII, eram, até certo ponto, anacrônicos. Eles seguiram uma tradição com mais de três séculos de existência e não acompanharam as medições celestes européias que usavam telescópios, as quais ofereciam maior precisão do que as obtidas com instrumentos de alvenaria, por maiores que fossem.

Outro aspecto da astronomia hindu que merece pelo menos breve menção foi sua preocupação com os ciclos de longa duração. Um deles era o mahayuga, um período de 4.320.000 anos; é quatro vezes 1.080.000, o menor número de anos que contém um número inteiro de dias civis, supondo-se que o ano tenha a duração de 365,25874 dias. (Isso se aproxima do número moderno de 365,25964 dias para o ano medido do ponto da órbita terrestre mais próximo do Sol e retomando ao mesmo ponto). Mais tarde, Ariabata I usou o valor de 1.728.000 para o que é conhecido como a Idade de Ouro, 1.296.000 anos para a Idade de Prata, enquanto a metade e um quarto da Idade de Ouro dava como resultado outros ciclos. Considerava-se que o último desses períodos, 4.32.000 anos – a Idade de Ferro -, teria começado a 17 ou 18 de fevereiro de 3.102 a.C., quando os planetas estavam todos em conjunção (juntos no céu); esse período era visto como um ciclo ao fim do qual os planetas estariam novamente em conjunção.

Os budistas também usavam ciclos longos de tempo, indicando períodos para a destruição e o renascimento cíclicos do universo. Concebiam também uma pluralidade de universos, cada qual construído no padrão do babilônico: a Terra circundada por um oceano além do qual havia uma cadeia de montanhas que suportavam o céu. Mas, quer os ciclos fossem budistas ou hindus, envolviam números muito grandes, e sua escrita e manuseio eram um dos requisitos que o astrônomo indiano exigia da matemática.

A matemática indiana era, em grande medida, numérica e algébrica, tal como a chinesa, embora se tenha feito algum trabalho em geometria, principalmente sobre os volumes de vários sólidos. No princípio, a matemática indiana era puramente prática; pesos e medidas eram regularizados em Mohenjo-Daro, e presumivelmente todas as cidades da cultura de Harappa tinham semelhante – se não a mesma – padronização. Os primeiros numerais escritos que usaram foram traços verticais reunidos em grupos, mas essas “varetas de contagem” não pareciam apresentar uma mudança sistemática nas dezenas, embora a contagem em dezenas tenha sido certamente adotada pelos hindus védicos. Eles tinham palavras específicas para números muito grandes – até 1.012 ou 1 milhão de milhões -, dando aos múltiplos maiores do que isso mais de uma palavra, tal como acabamos de fazer ao descrever 1012. Entretanto, jainistas e budistas usavam números ainda maiores, e termos especiais eram encontrados para 1029 e 1053, pois estes números estavam ligados ao renascimento cíclico do universo.

Mais uma vez como os chineses, os hindus pareciam não ter dificuldades com números irracionais, e calculavam as raízes quadradas de 2 e 3 com certo número de casas decimais; estavam, naturalmente, bem cientes de que seus valores não eram exatos. Os matemáticos hindus também conheciam a relação entre a diagonal do quadrado e seus lados; em outras palavras, estavam familiarizados com a relação pitagórica entre os lados do triângulo retângulo. Afirma-se também que conheciam os binômios e os coeficientes que surgiam e eram capazes de escrevê-los, usando sílabas curtas e longas, desde o século III a.C. Diz-se também que desde essa época conheciam o triângulo de Pascal, mas não parece haver qualquer texto que mostre isso diagramaticamente, e assim o pioneirismo em relação ao triângulo – se não também no reconhecimento do padrão dos coeficientes – ainda pertence aos chineses.

Da mesma forma que a astronomia hindu, sua matemática também conheceu grande progresso nos séculos VI e subsequentes. Como dissemos no capítulo anterior, por volta dessa época os hindus tinham um sinal para o zero, embora provavelmente não o tenham inventado, realmente. Foi introduzida a notação do valor decimal, e os números sânscritos tomaram uma forma muito conveniente, próxima do nosso modo atual de escrever números. Os numerais hindus foram adotados na matemática muçulmana por Al-Khwarizmi, no século IX d.C., e trezentos anos depois penetraram na Europa, quando Adelardo de Bath começou a traduzir trabalhos árabes para o latim; foi por essa razão que se tornaram conhecidos como numerais arábicos, embora sua origem tenha sido, realmente, hindu. Uma série de notáveis matemáticos trabalhou durante esse tempo, especialmente Ariabata I e Bramagupta, que viveu um século depois dele. Ariabata calculou o valor de 7T até a quarta casa decimal e preparou tabelas de cordas e arcos do círculo para linhas inclinadas sobre outras de diferentes graus. Elas eram úteis particularmente nos cálculos astronômicos, embora, com o posterior desenvolvimento da trigonometria pelos árabes, viessem a ser substituídas por valores mais convenientes, como senos, co-senos e tangentes, empregadas ainda hoje. Ariabata e seus sucessores também se ocuparam das relações entre triângulos traçados em uma esfera, mais do que em uma superfície plana, e chegaram perto da trigonometria esférica.

Bramagupta produziu uma quantidade considerável de trabalhos matemáticos, e talvez seja o mais conhecido de todos os matemáticos hindus. Seus principais estudos são as regras para encontrar o volume do prisma, para calcular figuras de quatro lados inscritas e circunscritas em círculos e, acima de tudo, sua soma de séries. Em relação à última, preparou regras para achar os totais das somas de números quadrados e cúbicos e a soma de qualquer número de termos de uma progressão aritmética simples em que o primeiro termo seja 1 (por exemplo, uma progressão como 1,2,3,4,5). Assim, não importa o número de termos, Bramagupta elaborou a fórmula para se calcular o valor caso se conheçam o primeiro e o último termos, e a diferença entre um termo e o seguinte.

Os matemáticos hindus tinham uma inclinação pelos números, mais que pelas formas, pela aritmética e pela álgebra, mais que pela geometria, e a astronomia hindu preocupava-se principalmente com os resultados práticos do trabalho teórico de seus astrônomos. Necessitava-se de tabelas para determinar o calendário e para a astrologia. Com tal objetivo, não seria, talvez, motivo de surpresa que não se tenha feito qualquer descoberta deslumbrante. O que se fez foi compilar e modificar o conhecimento astronômico recebido de outras civilizações e, no momento oportuno, passá-lo para o islamismo, onde lhe foi dado um uso significativo.

vol 1

História Ilustrada da Ciência

Colin A. Ronan