Estudos Astrológicos e Transcendentais I

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The observatory of Alexandria

O que os Jessênios Ensinam sobre Astrologia?

Ibny Joshai

Observemos o seguinte extrato do livro Aurora Nascente de Jacob Boehme:

Prefácio – item 1: Benevolente leitor, eu comparo toda a Filosofia, a Astrologia, a Teologia, juntamente com a fonte de onde elas derivam, a uma bela árvore que cresce num soberbo jardim de delícias.

Prefácio – item 9: Ora, a natureza tem em si, (e nessa árvore), duas qualidades, e isto até o julgamento de Deus; uma é amável, inteiramente celeste e santa; a outra áspera, infernal e devoradora.

Prefácio – item 10: A qualidade boa opera e trabalha continuamente com grande atividade, para (fazer a árvore) dar bons frutos, nos quais o Espírito Santo domina, e ela dá para isso sua seiva e vida. A qualidade má compele e se empenha também com todo o seu poder para dar sempre maus frutos, e o domínio lhe fornece para isso sua seiva e sua chama infernal.

Prefácio – item 11: Estas duas coisas (ou espécies de qualidades) estão agora na árvore da natureza; e os homens são formados desta árvore, e vivem no meio de uma ou de outra qualidade neste mundo, nesse jardim, em grande perigo, exposto ora ao ardor do sol, ora à chuva, ao vento, à neve.

Prefácio – item 17: Mas, como o homem tem tendência para ambas as qualidades, (ou seja, tende tanto à natureza má quanto boa), ele pode ligar-se à que lhe apraz; porque ele vive entre uma e outra neste mundo; e as duas qualidades, boa e má, estão nele. Naquela em que se move, dela será imediatamente revestido, ou da força santa, ou da força infernal.

Prefácio – item 84: Eu dei a este livro o nome: A Raiz, ou a Mãe da Filosofia, da Astrologia e da Teologia. Para saber do que ele trata, observai o seguinte: 1º) Pela Filosofia, considera-se o poder divino; o que é Deus; como a natureza, as estrelas e os elementos são criados da essência de Deus, de que toda coisa tirou sua origem; como são criados os céus, a terra, e o inferno, assim como os anjos, o homem e o demônio, e tudo o que existe como criatura; além disso considera-se também o que são as duas qualidades, (a boa e a má), da natureza: tudo segundo um fundamento real no conhecimento do espírito, segundo o impulso e o movimento de Deus.

Prefácio – item 85: Pela Astrologia, consideram-se as Virtudes da natureza, das estrelas e dos elementos; como que desta fonte provieram todas as criaturas; como que estas mesmas virtudes (passam das estrelas para o mundo), e estimulam, governam e operam em todas as coisas, fazendo, assim, com que o bem e o mal se achem nesse mundo e nele dominem; e como os reinos do céu e do inferno nele subsistem.

Eis acima, nas palavras de Boehme, o que nós, jessênios, entendemos por Astrologia. Como ele mesmo afirma no item 86 daquele prefácio, “o nosso objetivo não é expor o curso, o lugar e o nome de todos os astros; nem o de fazer com eles horóscopo; nem tampouco mostrar como eles fazem anualmente sua conjunção, sua oposição, ou sua quadratura, e outras coisas semelhantes, que a astrologia comum tem por costume fazer e expor, dizendo como fluem e operam cada ano e em cada lua.” Absolutamente não é esse o objeto da astrologia jessênia, tanto que, para evitarmos confusão com a arte astrológica comum, aquela que propicia os horóscopos de jornais e revistas, e que vaticina sobre o destino dos homens segundo observações físicas através de lunetas e de mapas astrais, demos à nossa ciência o nome de Astrosofia. Esse termo, muito desconhecido do esoterismo geral, presta-se, portanto, para nomear a nossa ciência de observação de como o Poder Divino do Espírito da Luz, sob a forma de qualidade boa, luta no coração dos astros com a qualidade má, para fazer afluir para esse nosso planeta das sombras (esse é o nome que o profeta Isáias lhe dá no seu livro, capítulo, 9) essa natureza boa; e como que a natureza má também age no seio dos planetas e astros, formando o fluxo da natureza infernal ou o Fatum (destino horoscópico), como o denomina Hermes Trismegistos no seu livro Poimandres.

Numa grande e profunda exposição, em seu livro De Signatura Rerum(A Assinatura das Coisas), capítulo XI, Boehme leva seu leitor a uma aproximação sem igual dos segredos da Astrosofia. De tudo quanto lá se encontra escrito, escolhemos a seguinte parte:

De Signatura Rerum – XI, item 65: Também o filósofo pode ter o seu corpo neste vale de lágrimas e libertá-lo da doença, até a constelação mais alta de Saturno.

Boehme está falando da operação alquímica, ou do processo espiritual, pelo qual o discípulo ou filósofo pode, estando debaixo do domínio das estrelas em suas qualidades astrais más, livra o seu corpo material da doença da Queda, ou seja, da enfermidade do erro e da vida calcada nas atitudes ímpias e pela natureza má (Fatum), e colocá-lo naquele estado que ele, no em Aurora Nascente, denomina de árvore de natureza e qualidades boas, fazendo-o dar bons frutos.

Evidentemente que se deve, nesse caso, entender bem que esse corpo material, mesmo após ser limpo das doenças e dos efeitos da Queda, não presta para ser levado para o mundo futuro e espiritual, para o Reino de Deus, pois, ainda que puros, carne e sangue não entram no Reino do Espírito. Boehme quer, nesse item do De Signatura Rerum, dizer apenas que esse corpo pode, por um processo alquímico, ser limpo das influências infernais que borbulham no coração dos astros e estrelas, e, vazio dessas forças, adquirir a condição de livrar-se das doenças e sustentar a alma em sua busca da Verdade e da libertação final. Nessa libertação final, a alma, revestida de outro corpo, luminoso e imperecível, abandona esse de matéria terrestre e mortal, para entrar nos domínios da Luz de Deus.

Esse processo ou operação alquímica, Boehme, inspirado na Cabala, chama de Redenção, e na alquimia, de Transmutação. Referindo-se a essa arte transmutatória ou processo espiritual de Redenção, Boehme profere as seguintes palavras no livro, A Vida Supra-sensívelDiálogos entre um Discípulo e seu Mestre: Cap. II – 16.

Discípulo: Agora entendo que a principal causa da cegueira espiritual, de quem quer que seja, é permitir que a sua vontade entre em algo exterior ou em sua própria obra, de natureza boa ou má, e estabeleça seu coração e seus afetos sobre a obra de suas próprias mãos ou de sua própria mente. Compreendo que, quando o corpo terrestre perece, a alma fica aprisionada nesse afeto a que se permitiu entrar. Então, na morte, quando já não habita na luz deste mundo, se a Luz de Deus não estiver no interior da alma, ela só poderá estar numa prisão escura.

Quanto a isto os jessênios têm ensinado muito que nesta Era de Aquário o maior erro do homem que quer buscar a Verdade será ficar envolvido com grandes obras, quer sejam construções para o bem ou para o mal, e aí deixar se perder o seu coração, e aí se colocar em distração e força, e entregar-se em seu afeto, e com esse afeto desenvolver o apego aos seus projetos pessoais, e às suas grandes realizações.

Sem dúvida, muitos estão obrando maravilhosamente no momento e construindo belas obras na matéria, buscando como causa de todo esse construir e realizar, motivos espirituais, nobres, e razões infinitas para que seus projetos sejam aceitos como conseqüência de um coração que se inspira nos ideais filosóficos elevados; mas, perante a Verdade, seu coração está inteiramente perdido nisto, e sua vontade e intenção voltada para a vaidade pessoal e para a vanglória, o que os arruína inteiramente para o processo espiritual da Redenção.

E por que esse é o maior erro do homem moderno em sua busca da Verdade? Os motivos são Astrosóficos. Aquário irá destruir tudo o que foi construído com o coração em vanglória e envolvido pela vaidade, pela ostentação e luxúria. E obras faustosas serão o principal tropeço daqueles que não quererão buscar na simplicidade e na humildade o caminho espiritual.

O caminho espiritual aquariano, dinamizado pela poderosa força de Urano, tem a marca de ser simples, prático, muito humilde e muito pouco dispendioso. Quanto a isto, a vida, os projetos, e as realizações de Jacob Boehme e sua pobreza social, contrários à sua grande riqueza espiritual e sua vastíssima iluminação profética, são uma marca inequívoca de que esse grande Instrutor da Verdade viveu sob o dinamismo da força de Urano.

Esse espírito uraniano profético que transpira em Boehme e em suas obras faz o legado dele ser um precioso tesouro espiritual para essa Era Aquariana. Eis porque, nós jessênios, nos miramos e nos inspiramos inteiramente no seu legado.

Astrologia e Personalidade

Paulo Roberto Grangeiro Rodrigues

Tese apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo

 Esta tese é interessante, mas novamente faço uma observação: deve-se considerar o fato de que o autor não é especialista em astrologia e por isso a confusão entre o signo zodiacal e o signo das constelações. Para um entendimento mais exato sugiro este link: La reforma del mapa astrológico.

César Augusto – Astrólogo

Astrologia e sua Importância na Cultura Ocidental

Onde quer que tenha nascido uma civilização havia uma forma de astrologia, como um conhecimento da ligação entre as coisas do Céu e da Terra. Era uma forma de se compreender e se prever “acontecimentos”, dado que se entendia que tudo que acontecia na Terra era resultado de uma influência do Céu. Para isto, antes mesmo de surgir a escrita, surgiram os primeiros observatórios astronômicos, sendo os mais antigos feitos com marcos de pedra, que eram templos ao mesmo tempo.

Estudos com monumentos megalíticos têm mostrado que sua função religiosa era antes de tudo relacionada com marcar os movimentos do sol, da lua e das estrelas, prevendo então eventos astronômicos importantes, como máximos e mínimos de afastamentos, e eclipses. Um pesquisador da história das idéias, o inglês Peter Marshall, estudou as principais tradições “astrológicas” em diversos centros de civilização do mundo: China, Índia, Mesopotâmia, Egito, Oriente Médio e Europa. Conclui que, por detrás das diferenças das imagens, há a mesma busca da compreensão das relações entre os seres humanos, o tempo e o cosmos.1

1 “At the centre of astrology lies the unfathomable mystery of the correspondence between heaven and earth, of the relationship between ourselses, time and the cosmos” (Marshall, 2004, p.377)

Foi no Oriente Médio que se originou a astrologia que conhecemos hoje no mundo ocidental. Seus primeiros civilizadores construíram observatórios na forma de pirâmides com andares – os zigurates– que permitiam medir e prever os movimentos do sol, da lua e dos planetas, dando-se sempre sobre o mesmo fundo de estrelas, com o que foi possível a criação da faixa circular celeste chamada Zodíaco, por volta de 700 a.C., e dividi-lo em 12 partes – os signos – por volta de 600 a.C.

O Zodíaco atualmente usado no ocidente preserva muito de sua história, suas imagens expressam a necessidade fundamental de determinar as atividades agrícolas e, portanto, as estações do ano, para aqueles povos que ali se fixaram.

Desde 3.000 a.C. havia uma divisão – na Pérsia – do céu em quatro partes, pelas quatro estrelas Reais: Aldebaran, ligada posteriormente à constelação Taurus, Regulus, ligada a Leo, Antares, ligada a Scorpius, e Fomalhaut, ligada ao Piscis Austrinus, logo abaixo de Aquarius. Estas indicavam o início das estações do ano, quando o sol as alcançava.

As primeiras constelações zodiacais, antes da divisão em doze, foram: Taurus, Gemini, Leo, Virgo, Scorpius, Sagittarius e Pisces; estabelecidas pelos caldeus na Mesopotâmia, com seus nomes depois latinizados por Claudius Ptolomeu em 140 d.C.

Gemini representava a germinação das plantas na primavera. Virgo simbolizava a deusa Istar, filha do céu e rainha das estrelas, coincidindo com a época de colheitas ao fim do verão. Sagittarius representava na Babilônia o deus arqueiro da guerra Nergal. No Egito é representado como um centauro alado, pronto a flechar o escorpião. Entre os gregos é considerado Quíron, o imortal.

Taurus iniciava o Zodíaco e o ano, há aproximadamente 4.000 anos, entre os babilônios. Com a “precessão dos equinócios”, resultado do movimento do eixo terrestre, o equinócio da Primavera desloca-se para trás nas constelações e então Ariesou Carneiro passou a ser a constelação inicial – criada pelos babilônios – por volta de 2.500 a.C. Foram criadas então outras imagens nas constelações para os inícios das estações: Cancer, o caranguejo, foi criado para representar o fato de que no Solstício de Junho o Sol anda como aquele animal, de lado – ou seja, de Norte para Sul. Libra, a Balança, foi criada a partir das antigas garras do escorpião, para representar a igualdade do dia e da noite no equinócio do Outono, e também o início da segunda metade do ano que vai equilibrar a primeira. Capricornus, o Capricórnio, criado por caldeus, talvez represente o fato de que as cabras descem as montanhas com a chegada do inverno, e talvez seu rabo de peixe represente esta necessidade de descer para alcançar os vales e rios, ou seja, o Sol que ia cada vez mais longe, com dias cada vez mais curtos no Hemisfério Norte, é representado por um bode que sobe as montanhas, mas seu rabo de peixe é uma “garantia” de que vai voltar ao vale, como o Sol passa a retornar a partir do Solstício de Inverno.

Aquarius, o Aguadeiro, representa as chuvas do mês de Fevereiro, e em antigos monumentos da Babilônia é representado por um homem que entorna água sobre o Peixe Austral.

E as imagens do Zodíaco que conhecemos hoje são um fruto final de uma interpretação do ciclo anual naquelas culturas do Mediterrâneo. Os signos expressam, antes de tudo, uma síntese do ciclo das estações do ano conforme simbolizadas em suas etapas, com contribuições das culturas da Babilônia, do Egito e da Grécia, unificadas sob Roma.

Podemos entender claramente que foram os signos que deram nome às constelações zodiacais e não o contrário, ainda que algumas delas, como Geminie principalmente Scorpius, possam ter sugerido uma imagem.

Porém a atitude religiosa em relação às estrelas fez com que fossem consideradas portadoras do poder de modulação da força ou influência dos planetas que passavam pelas 12 constelações.

A astrologia também passou a ser uma maneira de conhecer as “intenções dos deuses”. Desde os seus primórdios a astrologia era ligada à religião, e segundo o movimento dos astros errantes poderia haver sofrimentos ou benefícios, o que orientava rituais propiciatórios. Com o tempo, as astrologias ao redor do mundo foram sendo levadas de uma aplicação para o uso religioso de uma civilização para a previsão de destinos individuais, e não apenas dos governantes2.

2 “In the majors traditions of astrology – in China, India, Mesopotamia, Egypt, the Middle East and Europe – there was an early move from predicting the fate of nations to divining the course of individual lives.” (Marshall, 2004)

Desde a época das religiões politeístas dominando o Oriente Médio, a astrologia era praticada dentro de uma atividade ritualizada no decorrer do ano. Já no fim do Império Babilônico, os caldeus chamavam os planetas de “intérpretes”, porque manifestavam aos homens os propósitos dos deuses, segundo Franz Cumont, arqueólogo e historiador na área das religiões clássicas.

Cumont investigou a astrologia sob o aspecto religioso. Fez uma série de Conferências em 1912 que foram publicadas com o título de Astrologia e Religião Entre os Gregos e Romanos 3 onde se baseia em textos e monumentos antigos para retirar dali suas aplicações naquelas civilizações, e suas idéias básicas.

3 CUMONT, Franz (1912): Astrology and religion among the greeks and romans (1989).

Afirmou ali que: “depois de haver reinado soberana na Babilônia, a astrologia conseguiu fazer sombra aos cultos da Síria e do Egito, e sob o Império – referindo-se ao ocidente – chegou a transformar inclusive o antigo paganismo da Grécia e de Roma.” “Deste modo, o nome dos planetas que empregamos hoje em dia são uma tradução de uma tradução latina, de uma tradução grega, de uma nomenclatura babilônica”

(Cumont)

Logo de início percebe-se também a busca de uma vinculação da alma humana com os astros:

“Os caldeus admitiam, ao que parece, que o princípio da vida, que dá calor e anima o corpo humano, era da mesma essência que a dos fogos do Céu. Destes, a alma ao nascer recebe suas qualidades, e neste momento as estrelas determinam seu destino na Terra.”

(Cumont)

Na época em que Alexandre Magno conquistou a Mesopotâmia (331-330 a.C.), encontrou lá “sobre um profundo substrato de mitologia, uma teologia esotérica, baseada em pacientes observações astronômicas, que professavam revelar a natureza do mundo – considerado divino, os segredos do futuro e o destino do homem.”

(Cumont)

Da Babilônia a astrologia foi levada à Grécia, por filósofos que lá estudaram, e que acrescentaram sofisticações segundo sua abordagem racional:

“Para muitos dos filósofos gregos, não porém certamente para todos, o movimento regular dos céus não é apenas o padrão e a medida do tempo (quando não é identificado com o próprio tempo); serve, também de argumento provando a boa ordem do cosmos, da qual é uma manifestação.”

“Sempre é verdade que o sentimento do nexo existente entre a ordem temporal e a ordem moral continua sendo um dos principais temas da concepção grega do tempo e do mundo.”

(Lloyd,1982)

Platão e Aristóteles afirmam a divindade das estrelas (estrelas são para eles tanto os planetas quanto as estrelas fixas), sendo que Platão chama explicitamente os planetas de deuses visíveis que estariam abaixo do supremo Ser eterno e perfeito, o qual os anima com sua própria vida. Assim como Pitágoras vê os corpos celestes como “movidos pela alma etérea que anima o universo e que é semelhante à própria alma humana.”

(Cumont)

“Estas doutrinas, que deste modo propagaram-se gradualmente sobre a Grécia clássica, seriam tomadas e transformadas pelos Estóicos. Para os discípulos de Zenon a alma do homem é uma porção do fogo divino em que seu naturalismo panteísta via a força produtiva e a inteligência do mundo. A razão humana, partícula da razão universal, era concebida como alento, como emanação ardente. As estrelas são a mais brilhante manifestação do fogo cósmico. A filosofia do Pórtico favorecia a crença de que a alma era unida com os corpos celestes mediante uma relação especial, e deste modo o Estoicismo conseguiu ser prontamente reconciliado com a astrologia.”

(Cumont)

Tanto os sacerdotes quanto os sábios da época abraçavam as mesmas doutrinas:

“É notável que no séc. II antes da nossa era, esta doutrina foi defendida especialmente por Hiparco, que não era apenas um dos astrônomos mais célebres, mas um adepto convicto das teorias astrológicas. Foi aplaudido calorosamente por Plínio por ter demonstrado melhor que qualquer um que o homem está relacionado com as estrelas e que nossas almas são parte do céu”.

(Cumont)

Daí surge a astrologia individual, chamada de Natal ou Genetlíaca. O Mapa astrológico individual mais antigo que se preservou foi feito em 410 a.C., entre os babilônios, e consiste numa lista da posição no zodíaco da lua e dos cinco planetas para um nascimento. Há indicações de que se dava importância maior ao “signo lunar” do que ao solar, e isto é esperado, dado que é fácil localizar em qual constelação a lua está passando no período do nascimento de uma pessoa, enquanto a posição solar só pode ser inferida, devido ao próprio brilho do sol. A tradição do signo da pessoa ser o lunar foi mantida entre os gregos, ao absorverem o conhecimento astrológico da Babilônia, e foi levada à cultura romana: O Imperador Augustus mandou cunhar moedas de prata com o Capricornus, seu signo lunar conforme o horóscopo que também publicou.

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Podemos perceber a astrologia daquela época como relacionada a uma astronomia que ficava a serviço da religião, e ainda que Claudius Ptolomeu no seu Tetrabiblos descrevesse a influência física dos planetas como causa de seus efeitos baseando-se na física aristotélica, havia uma religiosidade que via os planetas como deuses em si, e era esta a cosmovisão popular.

“Assim, pois, todas estas doutrinas, apesar de suas diferenças em detalhes, pregavam que as almas, descendentes da luz das alturas, reascendiam à região das estrelas, onde moravam para sempre com estas divindades radiantes.”

(Cumont)

A astrologia em Roma ganha uma forma final – através dos escritos de Ptolomeu e da religiosidade popular – que se preserva através da Idade Média na Europa, apesar do monoteísmo difundido pela Igreja Católica.

“A imortalidade sideral é provavelmente a doutrina mais elevada concebida pela Antiguidade. Foi nesta fórmula definitiva onde se deteve o paganismo. Esta crença não pereceria para sempre com ele; e inclusive depois de que as estrelas foram despojadas de sua divindade, chegou a sobreviver em certa medida à teologia que a havia originado.”

(Cumont)

Também Ptolomeu conservou os deuses planetários, apenas que ficavam subordinados ao Pai celestial Criador. Isto foi expresso por Marcus Manilius, poeta romano, no século I de nossa era:

“Pode-se conceber uma máquina mais perfeita em suas atividades, mais uniforme em seus efeitos? Em minha opinião, não penso que seja possível demonstrar com maior evidência que o mundo é governado por um poder divino, que ele próprio é Deus”.4

4 in “Os astrológicos”, citado em Vilhena, 1990.

Ptolomeu situava Deus além do Primum Mobile – o primeiro móvel – para que pudesse ter dado o impulso inicial nas Esferas (ocas e cristalinas) das Estrelas Fixas e dos Planetas abaixo desta, centradas no centro imóvel da Terra. Depois, preservou-se naquele lugar externo um Céu, morada do Altíssimo dentro da Teologia cristã. Mas Ptolomeu também coloca o sol como o mais importante dos planetas, o coração do mundo, e talvez tenha sido quem iniciou a tradição de se considerar como o signo da pessoa o solar, ou seja, aquele onde o sol estava em seu nascimento:

“O Sol se transformará no condutor da harmonia cósmica, no mestre dos quatro elementos e das quatro estações. Plínio já o reconhecia como a divindade soberana que governava a natureza. Ele será visto por teólogos pagãos como a razão que controla o mundo, mens mundi et temperatio.”

(Cumont)

Sob a influência de teólogos cristãos, no entanto, a astrologia na Europa foi cada vez mais se tornada um conhecimento herético; conservando-se, porém, como uma atividade secreta, e praticamente solitária, tanto quanto a alquimia. Havia no mundo católico uma tentativa de subjugação dos deuses astrológicos a um grande Deus que estava até mesmo além de Zeus – Júpiter, e que se colocava além da última esfera do mundo. No máximo, tolerava-se a idéia da utilidade da astrologia explicar acontecimentos no mundo físico. Mas então, segundo certas filosofias não referendadas pela doutrina católica, apenas se reconhecia o universo físico observável como efetivo, e se Deus existisse além das Estrelas Fixas era um “deus ocioso”, que deixara a Criação pronta e se retirara. Houve muitas controvérsias entre a religião e a astrologia na Idade Média.

São Tomás de Aquino, no séc. XIII a aceitava somente enquanto aplicada a “fenômenos naturais”, já então considerando a alma como metafísica: os “corpos celestes” podiam influenciar apenas indiretamente a condição do entendimento.

No entanto, não era vivido assim entre os alquimistas e os astrólogos5: havia um propósito espiritual em suas atividades. Se de um lado a astrologia tratava da encarnação do espírito, passando pelas forças dos céus planetários até entrar num corpo, a alquimia tratava da espiritualização da matéria ou do corpo, libertando o espírito, através da relação adequada com os metais planetários.

(Jung)

5 Cujas publicações foram analisadas por Mircea Eliade e Carl Gustav Jung.

Com o Renascimento a astrologia também é retomada como toda cultura dita Clássica. Ela era uma das formações oferecidas nas primeiras Universidades européias e assim permaneceu durante todo o período do Renascimento. Foi uma cadeira universitária, por exemplo, desde 1125 em Bolonha, e desde 1250 em Cambridge.

Com a criação da imprensa, a astrologia passou a ser popularizada através de Almanaques, cujos calendários orientavam quanto às épocas de atividades agrícolas, mas, além disso, recomendavam sobre as épocas mais indicadas para atividades sociais.

Há um renascimento também de seu aspecto religioso, mais além de sua expressão como estudo da astronomia e suas conseqüências na natureza. Filósofos como Marsilio Ficino deram novamente vida à astrologia no séc. XV na Itália, e praticavam com esta um politeísmo da imaginação, como denota esta sua passagem em O Livro da Vida: “Não há Saturno mais insensível do que aquele para os homens que só fingem levar uma vida contemplativa, sem na verdade vivê-la. Pois Saturno não os reconhece como seus (…) Certifique-se de não negligenciar o poder de Saturno.”6

6 “The book of life” , Dallas, Texas: Spring Publications, 1980, pp.165-6 . Citado por SULLIVAN, 1992.

Com o acúmulo do conhecimento científico na Europa, diversas descobertas fizeram a astrologia ser gradualmente considerada não científica e acabar por ser banida das Universidades. O geocentrismo de Copérnico em 1543; o surgimento de uma “nova estrela” em 1572 que motivou Johannes Kepler a escrever um livro sobre ela; a invenção do telescópio em 1610 e seu uso sistemático por Galileu Galilei; a descoberta de novas estrelas e finalmente de um cosmos infinito, ou ao menos não restrito à Esfera das Estrelas Fixas.

(Koyré)

Tycho Brahe e seu sucessor Johannes Kepler foram ao mesmo tempo astrônomos e astrólogos, nesta época de transição, na qual um novo “paradigma científico” ainda convivia com o antigo, Kepler chegou a escrever que a astrologia era: “…filha tola e infame da astronomia, sem a qual a velha e sábia mãe morreria à míngua.”

Münster Cathedral

Ainda houve tentativas de se fazer uma astrologia científica, e o autor mais conhecido deste período é Jean-Baptiste Morin, astrólogo da corte francesa e autor de uma enorme obra intitulada Astrologia Gallica. Morin tentou fazer da astrologia uma ciência exata, estabelecendo regras para a interpretação dos Mapas Astrológicos individuais através das quais seriam previstos acontecimentos concretos. Parece que estas tentativas propiciaram ainda mais sua rejeição pelos astrônomos.

A partir de 1666, na França, a astrologia passou a ser banida das Universidades. Foi por mão dos cientistas que a astrologia acabou sendo descartada das Universidades, não devido ao politeísmo implícito, mas por adotar o geocentrismo derrubado por Nicolau Copérnico e Johannes Kepler. Quando a Astronomia superou o geocentrismo, houve uma grande oposição à astrologia, pois esta só poderia continuar adotando a Terra como centro para as medidas astronômicas, pois o que é o centro ali é o indivíduo nascente, ou o lugar para onde se quer enfocar as influências astrais.

Somente mais de dois séculos depois ressurgiu valorizada no Ocidente, principalmente por mão dos Teosofistas, que mesclando conceitos religiosos orientais com os ocidentais, buscavam uma unidade da qual a astrologia fazia parte, pois, por exemplo, na Índia nunca fora banida dos centros cultos, como no Ocidente. Resgataram principalmente seus aspectos esotéricos, relacionando suas influências principalmente com o plano astral onde habitaríamos com nosso corpo astral. Assim desde esta época a astrologia está relacionada ao esoterismo e suas diversas correntes no Ocidente. Houve uma certa revivescência da astrologia nos anos 60 e 70 do século XX, muito em função da Contracultura, que fomentou tanto os esoterismos quanto as doutrinas e religiões orientais.

Com o desenvolvimento da Psicologia há no século XX um relacionamento entre astrólogos e psicólogos que denota rejeições e influências mútuas. Temos por exemplo um filósofo e astrólogo franco-americano, Dane Rudhyar, que iniciou sua obra teorizando sobre astrologia dentro da visão teosófica e acaba por relacioná-la com a psicologia da personalidade. Temos André Barbault, astrólogo francês, que relaciona a teoria astrológica do caráter com a Psicanálise. E Carl Gustav Jung, psiquiatra e teórico da psicologia do inconsciente, que vê na astrologia “a somatória do todo o conhecimento psicológico da antiguidade” e em seu simbolismo uma maneira de expressar o que conceituou como o Inconsciente Coletivo. Conforme resumiu:

“Como é sabido, a ciência começou com os astros, nos quais a humanidade descobriu seus dominantes do inconsciente, ou seja, as chamadas divindades, do mesmo modo as singulares qualidades psicológicas do Zodíaco constituem toda uma teoria projetada de caracteres”.

Jung foi um dos pioneiros na pesquisa psicológica da astrologia, avaliando estatisticamente as relações entre os Mapas astrológicos de 483 casais na década de 1950, com resultados favoráveis à astrologia, porém inconclusivos.

A maioria dos astrólogos ocidentais contemporâneos pratica uma astrologia psicológica, iniciada por astrólogos como André Barbault, Dane Rudhyar e Stephen Arroyo, que considera o mapa astrológico do nascimento como um símbolo da psique, com sua divisão entre consciente e inconsciente. Foram influenciados principalmente por Jung. Consideram que há uma “sincronicidade” entre os eventos celestes e os estados psíquicos, assim o simbolismo astrológico pode ser usado para interpretar e ordenar a experiência cotidiana.7

7 “The modern psychological approach to astrology sees the correlations in a birthchart between the planets and personality traits as being mainly symbolic”. “From this perspective, astrology offers a rich symbolic language which can be used to interpret human experience and to order and understand our feelings”. (Marshall)

Temos até hoje no mundo ocidental a astrologia sendo ensinada em cursos livres, em geral ligados a associações astrológicas. Os astrólogos ocupam espaço na mídia e temos uma vasta publicação – livros e softwares – não só divulgando a astrologia como ensinando suas técnicas básicas de cálculo e interpretação de Mapas Astrológicos. Uma pesquisa do Instituto Gallup, feita com adolescentes norte-americanos entre 13 e 18 anos em 1983, mostrou que 55% deles acreditam que a astrologia funciona. Não há razões para crermos que isto tenha mudado muito neste início do terceiro milênio.

Houve também uma intensificação das pesquisas das correlações com Psicologia que vem até nossos dias. Um pesquisador que fez história foi Michel Gauquelin, psicólogo e estatístico francês que desde os anos de 1950 fez amplos levantamentos (dados de mais de 100.000 pessoas) e estudos de correlação.

Vamos nos deter um tanto em suas pesquisas, porque algumas confirmações que obteve deram alento à consideração contemporaneamente dada à astrologia por parte da comunidade científica, e nos incluímos nesta linha de investigação. Suas pesquisas demonstram, na maior parte dos casos, que a astrologia conforme praticada pelos astrólogos contemporâneos não funciona. No entanto Gauquelin ficou conhecido pelo chamado Efeito Marte, ao demonstrar que a eminência nos esportes se relacionava a Marte colocado em posições específicas, ou logo após levantar no leste ou logo após culminar, quando do nascimento dos futuros campeões esportivos. Isto independentemente do Zodíaco, o qual rejeitou como sendo ficção. Do mesmo modo demonstrou estas relações para outros planetas com profissões astrologicamente relacionadas: Marte também com militares (marciais), Júpiter com atores e políticos (pessoas extrovertidas), Saturno com cientistas (pessoas reflexivas), e também da Lua com escritores (imaginativos), numa amostra total de 46.485 casos.

Neste ínterim foi publicado em 1977 o livro Recent advances in natal astrology: a critical review 1900-1976, de Geoffrey Dean e Arthur Mather, com mais 52 colaboradores.

Lá se comentaram, analisaram e replicaram amplamente também esta e outras pesquisas de Gauquelin. Em 1981, Dean e Mather, entre outros cientistas, lançaram a revista Correlation Journal of Research into Astrology, tendo Michel Gauquelin e Hans Eysenck – entre seus colaboradores.

Foi nesta mesma revista que todo o trabalho de Gauquelin foi revisto, com um forte questionamento através de explicações alternativas para seus achados. O “Efeito Marte” passou a ser visto como resultado possível de uma profecia auto-realizadora associada a uma construção social da eminência, já que Gauquelin baseou sua medida de eminência nas citações biográficas.

No entanto há algo demonstrado por Michel e Françoise Gauquelin, sua esposa e colaboradora, que não foi refutado, ainda que não tenha sido totalmente explicado: A chamada “hereditariedade planetária”, que já havia sido apontada por Kepler, ao publicar que “Há um argumento perfeitamente claro além de toda exceção em favor da autenticidade da astrologia. É a conexão horoscópica comum entre pais e filhos.”8

8 “There is one perfectly clear argument beyond all exception in favour of the authenticity of astrology. This is the common horoscopic connection between parents and children.” In EYSENCK, NIAS, 1982, p. 191.

Gauquelin demonstrou com 35.907 pares de pais e filhos que os filhos tendem a nascer naturalmente em horários que permitam repetir dos pais as posições “angulares” dos planetas Lua, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno, ou seja, próximos aos eixos horizontal e vertical, mais fortemente logo após ter passado por eles.

Gauquelin conclui pela “diferença de sensibilidade biológica” aos planetas, cada pessoa teria diferentes sensibilidades às influências dos planetas, e isto passaria geneticamente de pais para filhos. Gauquelin reinterpreta então a relação planetaseminência não como uma causalidade planetárias – profissões, mas como uma influência planetária – traços de personalidade relevantes, os quais por sua vez levariam a escolhas profissionais afins com estes. Deste modo fica compreensível a relação com a possível eminência, aí sim um caso de um tipo de profecia auto-realizadora que cresceria num campo fértil de uma predisposição biológica. Porém isto só ocorreria nos partos naturais, demonstrando não haver uma relação direta de causalidade, mas sim uma espécie de sincronia entre ritmos biológicos e movimentos planetários do ponto de vista geocêntrico. Esta assunção é crucial, pois esta correlação poderia ser um resultado evolucionário da espécie em função da forma de funcionamento emocional e das crenças dos antepassados humanos. É claro que estas proposições já não se relacionam com as da astrologia conforme é divulgada e praticada hoje. Ainda hoje no ocidente a astrologia com base em Ptolomeu é amplamente divulgada e consumida dentro da cultura de massa, a despeito de que até agora a avaliação científica de suas proposições tradicionais tenha demonstrado amplamente que não têm validade.

Torna-se então um fenômeno a ser estudado sob a ótica de sua utilidade social e psicológica, ou seja, saber o porquê grande parte das pessoas acredita na astrologia e a utiliza.

A Metafísica da Luz em Marsilio Ficino

Leila Maria de Jesus da Silva

Resumo

 O objetivo da presente dissertação constitui analisar como a luz assume o sentido de vínculo universal na cosmovisão de Marsilio Ficino, especialmente a partir de suas obras Quid sit lumen, De Sole, De Amore e De Vita. A influência de Marsilio Ficino (1433-1499) na história do pensamento ocidental é impressionante. Além de ter traduzido para o latim textos importantes da tradição neoplatônica, Ficino presidiu a Academia de Careggi, reunindo importantes humanistas no auge do Renascimento. Os seus tratados sobre amor, beleza, luz, magia e imortalidade da alma influenciaram marcantemente a produção de outros pensadores. O tema da luz é de importância fundamental em sua obra, pois está profundamente relacionado com todos os outros aspectos de sua filosofia. Para ele, a luz é emanação espiritual que a tudo perpassa, sem se macular. Originada da bondade divina, a luz explode em beleza na multiplicidade, incendiando de amor a alma que verdadeiramente a contempla e que com ela se identifica. O ponto de partida dessa relação amorosa entre homem e divindade é, portanto, o mundo físico, que oculta em si a luz metafísica.

Introdução

A Luz como Indagação Filosófica

Lembro-me que um dia meu pai apontou para o forro branco, decorado com um friso de vultos de dançarinas, e me explicou que Deus estava lá em cima, olhando para mim. Imediatamente, me convenci que as dançarinas eram Deus e, daí por diante, a elas é que dirigia as preces. 1

1 Arthur KOESTLER. Os sonâmbulos: história das concepções do homem sobre o universo. Tradução de Alberto Denis. São Paulo: IBRASA, 1961, p.3.

A explicação do universo pelas antigas civilizações encontrava-se muito próxima da contemplação da Natureza. O pasmo infantil diante do desconhecido estimulava a formulação das mais diversas teorias para a formação dos astros e demais fenômenos naturais.

A humanidade que, em muitos momentos, se imaginava modelada pelos deuses, também invertia essa situação, na medida em que criava, através da imaginação e da tradição em que se inseria, os seres em que acreditava: criador e criatura em correlação inventiva.

Diante da sua grandiosidade, não é difícil imaginar o lugar destacado que o Sol sempre ocupou na apreciação humana. Fonte explícita de luz visível, propiciadora de vida e calor, a luz solar foi facilmente associada à fonte original do Universo. A analogia entre Sol e Deus garante à luz um dualismo que a considera, simultaneamente, física e metafísica.

O conceito de luz aparece em diversos dicionários, sejam eles filosóficos ou não, oscilando sua significação entre: a própria divindade; o elo entre os mundos corpóreo e incorpóreo; a forma geral das coisas corpóreas ou, ainda, o critério que direciona a conduta humana. Subjaz, no entanto, nos variados conceitos uma questão que os mantém unidos e que revela o caráter ontológico da luz: de que maneira o inteligível atua no sensível?

Escolhemos a luz como foco de estudo porque sentimos nela, como nos afirmam também seus estudiosos, o próprio tecido do universo. Interessa-nos analisar, mais propriamente, a dimensão que o tema da luz ocupa na obra de um dos mais importantes filósofos do Renascimento: Marsilio Ficino.

Amor, magia, medicina, música, além de outros temas que surjam na leitura do corpus ficiniano, são apenas ramificações do tronco que os sustenta: a luz, com todas as suas implicações.

Ao abordar tal tema, Ficino consegue imprimir a ele um novo olhar, reunindo os trabalhos que vinham sendo paulatinamente realizados por pensadores que o antecederam.

O método de estudo caleidoscópico de Ficino consegue realizar a varredura entre várias teorias que mantém entre si, ainda que não explicitamente, laços que as unem.

Platonismo, cristianismo e filosofias consideradas pagãs mesclam-se em vários momentos e Marsilio consegue perceber e retratar isso de maneira singular. Marsilio Ficino representa esse olhar plural, significativo, que vê igualdade nas diferenças e riqueza no jogo dos opostos.

E este olhar, simultaneamente abarcante e unificador, une-se a um estilo entusiástico e pleno de alegorias. Dirigindo-se ao leitor do De Sole2, Ficino solicita a indulgência do leitor para o uso que fará da licença poética. Percebemos que a linguagem figurada, de fato, é um recurso muito utilizado por ele, objetivando aproximar a expressão humana daquilo que escapa a qualquer predicação.

2 Marsilio FICINO. De Sole, De raptu Pauli. E. Garin (org.) In: Prosatori latini del Quattrocento VII, Turin: Einaudi, 1977. cap. I. Também disponível em: (O Livro do Sol – De Sole, tradução de Geoffrey Cornelius, Darby Costello, Graeme Tobyn, Angela Voss & Vernon Jorram. Londres) Acesso em: 05/03/2005.

Em vista disso, Ficino declara, então, que avançará do manifesto para o oculto não tanto por argumentos racionais, mas principalmente através das correspondências que lhe for possível estabelecer entre coisas humanas e divinas. As musas, ele justifica no mesmo texto, não argumentam com Apolo, mas simplesmente cantam; e até mesmo Hermes, artesão do argumento, quando se trata de referir-se a Apolo sobre coisas divinas, não argumenta, mas joga.

O mundo é tratado na obra de Ficino a partir da sua visão estética e, assim como em Ovídio, o homem é o animal que possui semblante elevado, capaz de contemplar o céu, para Ficino, é também atribuída a este ser singular a função estética de ornar o mundo.

Selecionamos do corpus ficiniano, para a análise que nos propomos fazer, as obras em que o tema da luz adquire maior relevância: os opúsculos Quid sit lumen3 e De Sole4, além do De Amore5 e do De Vita6. Primeira versão do De lumine7 (1492), o Quid sit lumen8 (1476) é o último dos cinco opúsculos teológicos que antecedem a Teologia Platônica9 (1482). Como o próprio título revela, nele Ficino discorre sobre a questão da natureza da luz, trabalhando a relação entre sua origem e sua propagação.

3 Marsilio FICINO. Quid sit lumen(O que é a luz). Tradução de Bertrand Schefer. Paris: Allia, 1998.

4 Id. De Sole. ed. cit.

5 Id. De Amore: comentarioa « El Banquete » de Platón. Madrid : Tecnos, 2001.

6 Id. De Vita. Tradução de Albano Biondi e Giuliano Pisani. Pordenone: Biblioteca dell.Imagine, 1991.

7 Id. De Lumine. Tradução de S. Matton. In: Lumière et Cosmos, Paris, Albin Michel, .Cahiers de l.Hermétisme., 1981, pp. 55-75.

8 Id. Quid sit lumen. ed. cit.

9 Id. Théologie platonicienne. R. Marcel (org.). Paris: Belles Lettres, 3 vol., 1964-1970.

Nos onze pequenos capítulos, precedidos por uma dedicatória, abordam-se as seguintes considerações sobre a luz: o papel dos sentidos na recepção da luz, com destaque para a visão; a descrição da luz visível ou racional; a definição da luz inteligível ou divina; a diferença entre luz e calor; o dinamismo dos corpos celestes, como expressão da alegria divina; a luz em Deus, no Anjo, na Razão, no Espírito e no Corpo; a identidade entre luz e Deus e o papel do amor em todo esse processo.

Por sua vez, nos treze capítulos do De Sole (1494), podemos encontrar um trabalho mais exaustivo na similaridade entre a luz do sol e o próprio Deus, incluindo o detalhamento dos tipos de luz e o papel da astrologia e dos anjos na relação especular entre o divino e o humano.

No De Amore (1469) sobressai a relação entre a luz e o amor, num movimento circular platônico do Bem ao Bem. A tríade Beleza-Amor-Prazer corresponde ao processo Criar-Atrair-Aperfeiçoar. O amor, então, despertado pela beleza, busca o prazer e tem como textura de seu movimento a luz.

No De Vita (1489), por fim, a referência à luz transparece à medida que o filósofo recomenda aos seus leitores a aproximação das coisas solares e jupiterianas, espelhando na conquista da alegria terrena o movimento harmônico dos corpos celestes.

O estudo que se segue está organizado em quatro momentos. Inicialmente, situamos Ficino na cultura do Renascimento. A seguir, analisamos a relação entre sombra e luz na estética ficiniana; além dos papéis desempenhados pelo amor e pela imaginação no espelhamento entre a luz original e a luz manifesta.

Bondade e Beleza, Amor e Conhecimento, Homem e Deus, temas que são aqui teoricamente separados apenas para evidenciar o quanto na verdade encontram-se entrelaçados. O ideal platônico, que destina ao homem a condução circular do Bem ao Bem, reflete-se na obra ficiniana com intensa força poética.

Que luz é essa que, ainda quando fechamos os olhos, nos proporciona rememorar as imagens observadas anteriormente, revelando uma espécie de visão interior? Luz que, no entanto, apesar de nos ajudar a perceber o mundo, não se revela a si mesma. Enigmas que, à proporção que representam dificuldades, revelam também a grandeza e a beleza de tal investigação.

Dissertação Completa

O “Repertório dos Tempos” de André do Avelar e a Astrologia em Portugal no Séulo XVI

Adalgisa Botelho da Costa

A Astrologia e a Situação Cultural em Portugal e na Europa, no Século XVI

A Astrologia Européia Medieval

 A astrologia não parece ter desempenhado um papel importante na Europa medieval, até a época das cruzadas. Somente a partir dessa época o intercâmbio cultural com árabes e judeus levou à reintrodução das práticas astrológicas na Europa. No final do século X já estavam sendo traduzidas obras astrológicas do árabe para o latim.

A astrologia havia estado em voga na Espanha e em Portugal desde a Idade Média. No século XIII, o rei Alfonso X, o sábio, encomendou a tradução de muitas obras astronômicas e astrológicas.

O rei Pedro III de Aragão, que reinou entre 1336 e 1386, ordenou a elaboração de tabelas astronômicas e a redação de um tratado de astrologia. Em 1390, João I de Aragão mandou elaborar um almanaque, válido por três anos, com as posições dos astros a cada dia, para fins astrológicos.

No início do século XIV o astrólogo da corte já era uma figura oficial na Itália. Pouco depois, o mesmo fenômeno se repetiu na França e em outros países. Os reis tinham astrólogos em suas cortes, e não tomavam decisões importantes sem consultá-los. Na França, Carlos V ordenou a tradução de tratados astrológicos e acumulou em sua biblioteca 180 volumes sobre o assunto.

Nesse mesmo século, a astrologia médica tornou-se extremamente influente.

Desde o século XIV, apesar de uma certa resistência oficial da Igreja, alguns astrólogos foram consultores dos papas. Alguns deles eram médicos, como Arnaldo de Vilanova, Guy de Chauliac e Raymond Chalmel de Viviers.

Apesar da tolerância, certos abusos não eram admitidos. Cecco d’Ascoli, astrólogo da corte de Florença, que havia lecionado sobre astronomia e astrologia em Bolonha, foi queimado como herege no dia 16 de setembro de 1327. Aparentemente o maior erro de Ascoli foi aplicar a astrologia ao estudo do nascimento e morte de Cristo, bem como à vinda do Anticristo e ao fim do mundo. Ascoli teria divulgado um horóscopo de Cristo, no qual dizia ser possível prever seu nascimento em um estábulo, sua sabedoria e sua morte na cruz.

Embora estivesse em voga, a astrologia foi criticada – por exemplo, em uma obra publicada em 1389 por Philippe de Mézières. Em 1398, a Sorbonne condenou a opinião segundo a qual “nossos pensamentos e desejos internos são causados diretamente pelos céus e podem ser conhecidos por uma arte mágica, e que é lícito a partir dela formular juízos certeiros”.

Segundo George Minois, “No século seguinte (século XV) os astrólogos passaram a ocupar uma posição quase oficial na corte pontifícia”, e papas como Sixto IV, Júlio II, Leão X e Paulo III não tomavam decisões importantes sem consultar seu matemático. Este último papa teria chegado a nomear como bispo o astrólogo Luc Gauric. Reis como Louis XI da França e Henry VII da Inglaterra possuíam à sua volta muitos matemáticos, que consultam constantemente.

Em Portugal, igualmente, os acontecimentos importantes eram acompanhados por previsões dos astrólogos. O sucesso de Nuno Álvares e a morte da rainha Filipa de Lencastre teriam sido previstos. Quando Dom Duarte ia ser coroado, em 1433, o astrólogo real, chamado Guedelha, alertou que o momento escolhido não era propício e pediu que o evento fosse adiado. Dom Duarte e seu pai não acreditavam na astrologia. O pedido do astrólogo não foi atendido, e o reinado de Dom Duarte foi curto e infeliz. Em 1438, após a morte do rei, o regente Dom Pedro pediu ao mesmo astrólogo que escolhesse a data da coroação do novo rei Afonso V, para evitar desgraças.

Há informações de que o próprio Infante Dom Henrique teria escrito um livro denominado Secreto de los secretos de la astrologia.

Nas universidades, a astronomia e a astrologia eram ensinadas lado a lado. Antes de ser ensinada na universidade portuguesa, a astronomia já era ensinada há muito tempo em Toledo e, posteriormente, em Salamanca. O seu estudo servia de base à astrologia judiciária e à astrologia médica, que tinham grande importância desde a Idade Média. Hipócrates já havia associado as enfermidades a influências celestes e relacionado o aparecimento de certas constelações a momentos críticos, que decidiam a morte ou cura dos pacientes. Galeno, vários séculos depois, relacionou os dias críticos à Lua.

O Renascimento, a Imprensa e a Astrologia

Durante o Renascimento, os intelectuais se voltaram para os autores da Antigüidade, procurando ultrapassar o pensamento medieval. Sob o ponto científico, esse período foi caracterizado pela redescoberta dos clássicos, incluindo Galeno, Ptolomeu e outros autores.

O século XV foi, na Europa, um período de redescoberta de fontes científicas antigas. A astrologia havia penetrado no mundo culto europeu, durante a Idade Média, através da tradução de textos árabes. Em 1414, Poggio Bracciolini (1380-1459) descobriu em um mosteiro de Konstanz um manuscrito da obra astrológica de Marcus Manilius, do qual fez uma cópia. Essa obra foi publicada ou 1471 ou 1472, depois da morte de Poggio, por Regiomontanus – ou seja, Johann Muller, de Königsberg (1436-1476). Esta talvez tenha sido a primeira obra relativa à astronomia a ser impressa – trinta anos após a invenção da imprensa de tipos móveis por Guttenberg. Poucos anos depois apareceram outras edições e comentários dessa obra, que antes era desconhecida. Houve, paralelamente, uma busca de outros textos gregos e romanos antigos, e sua publicação no final do século XV e início do século XVI.

Ao mesmo tempo, a Europa redescobriu textos místicos antigos, como as obras atribuídas a Hermes Trismegisto, que foram estudadas por Ficino. O Corpus Hermeticumteve enorme influência no final do século XV e início do século XVI, levando a uma veneração pela alquimia, pela astrologia e pela magia natural. A visão de uma correspondência entre o macrocosmo e o microcosmo, que foi uma das bases da astrologia, foi reforçada pelos textos herméticos.

A redescoberta dos clássicos trouxe aos homens cultos da época o conhecimento das obras astrológicas de Ptolomeu, Manilius e Firmicus Maternus. Em contrapartida, Cícero havia criticado as artes adivinhatórias no De divinatione. No entanto, os defensores da astrologia diziam que Cícero apenas negava um tipo especial de astrologia – a dos Caldeus – e não os outros tipos. Diversos autores romanos, como Virgílio, Ovídio e Plínio pareciam defensores da astrologia. E o próprio Timeude Platão foi considerado como fornecendo uma base para a astrologia, pela relação estabelecida entre a alma do universo e a alma humana. A redescoberta da mitologia clássica também contribuiu a favor da astrologia, já que existia uma forte relação entre o simbolismo mitológico e a astrologia.

Examinando-se a Bibliographie astronomiquede Jerôme de Lalande, nota-se que durante as últimas décadas do século XV houve a publicação de dezenas de livros astrológicos – um número superior ao das obras astronômicas “puras” do período.

Em 1482 foi publicado pela primeira vez o Poeticon astronomiconde Hyginus, e em 1484 foi impressa uma tradução latina do Tetrabiblos (Liber quadripartiti) de Ptolomeu. Em 1485 foi também publicada uma obra sobre astrologia médica atribuída a Hipócrates – De medicorum astronomia. O Centilóquio, outra obra astrológica atribuída a Ptolomeu, foi publicado em 1493. Em 1497 saiu a primeira edição do De nativitatibusde Julius Firmicus. Seguiram-se as publicações de diversas edições, traduções e comentários dessas obras.

Além de textos astrológicos gregos e latinos, foram também publicadas traduções de diversos tratados árabes (Alcabitis, Albohazen, Abenragel, Albumasar e outros), a partir do final do século XV. Aparecem também obras de crítica e defesa da astrologia, como o Disputationes adversus astrologosde Pico della Mirandola (1498), a resposta publicada no mesmo ano por Lucio Bellanti, Liber de astrologica veritate, e o Invectiva contra astrologos (1499) do frade Thomas Murner, professor de Paris. A obra de Pierre d’Ailly, Concordantia astronomiae cum theologia, escrita em 1414, foi publicada duas vezes durante o século XV: em 1490 e 1494.

Além de edições de obras antigas, apareceram produções novas. Em 1474 Regiomontanus (ou seja, Johannes Müller) publicou suas Ephemerides astronomicae, que são as mais antigas tabelas astronômicas conhecidas, contendo as posições dos astros para o período 1475 a 1506. Dois anos depois, publicou uma tabela do movimento da Lua, com previsões de eclipses e desenhos dos mesmos. Os calendários e efemérides de Regiomontanus continuaram a ser publicados por vários anos.

Regiomontanus Kalendarium 1489

Toscanelli with Regiomontanus

Astrolabe Regiomontanus

Costuma-se descrever Regiomontanus como um astrônomo. Na verdade, ele era um astrônomo-astrólogo, que praticou especialmente a astrologia médica e que, graças a isso, teria salvado a vida do rei Mathias Corvinus. Ele escreveu uma obra, o Temporal, com instruções sobre o momento mais adequado para as sangrias, para purgas, para o casamento, para cortar o cabelo, para se banhar ou tomar remédios, levando em conta a posição dos astros. Logo em seguida começaram a aparecer calendários e prognósticos com previsões astrológicas para um ou mais anos, como o Prognosticatio anni praesentis LXXVII de Jean de Laet, para 1477.

Johannes Regiomontanus – digitised works

As Efemérides calculadas por Regiomontanus foram reeditadas várias vezes. Em 1499, foram publicadas com um tipo de complemento, por Johann Stöffler e Iacob Pflaum, com o título: Almanach nova plurimis annis venturis inseruientia per Ioannem Stoefflerinum Iustingensem et Iacobum Pflaumen Vlmensem accuratissime supputata: et toti fere Europe dextro sydere impartita. Além de tabelas astronômicas, esta obra se constituía em uma pequena enciclopédia de conhecimentos astronômicos, com informações sobre o calendário e festas religiosas, sobre marés, sobre as fases da Lua, sobre meteorologia e outros temas associados aos céus.

Esse Almanach, que foi reeditado muitas vezes, é considerado por Joaquim de Carvalho como o ponto de partida para a criação de muitas obras populares de astrologia do século seguinte, como os Repertórios ou Reportórios dos tempos. No entanto, cabe mencionar que o espanhol Andrés de Li já havia publicado antes disso, em 1495, o seu Repertorio de los tiempos, que parece ser a fonte original das obras espanholas (e, depois, portuguesas) desse gênero de literatura.

· Li, Andrés de. Repertorio de los tiempos. Zaragoza: Pablo Hurus, 1495.

Atitudes em Relação à Astrologia no Século XV

Dentre os autores italianos importantes do final do século XV que escreveram sobre astrologia, devem ser destacados: Marsilio Ficino (1433-1499), Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494) e Giovanni Pontano (c. 1420-1503).

Marsilio Ficino

O movimento filosófico dos pensadores italianos do Renascimento era um retorno a Platão, ao Neo-Platonismo, ao Neo-Pitagorismo, ao Estoicismo, aos Pais da Igreja, a Agostinho e a muitos outros autores clássicos. Marsilio Ficino (1433-1499), com o patrocínio de Cosimo de Medici, foi o responsável por importantes traduções diretas do Timeude Platão, de textos neoplatônicos (como os de Plotinus) e do Corpus hermeticum. A atitude de Ficino era ambivalente e mudou durante sua vida, mas de um modo geral pode-se dizer que ele era contrário à astrologia judiciária e tinha grande interesse pela astrologia médica.

Marsilio Ficino tinha uma postura ambígua em relação à astrologia. Como médico e filho de médico, ele tinha um bom conhecimento sobre a astrologia médica. Em seus escritos, muitas vezes ele se inclinava para o pensamento astrológico, mas alguns conceitos básicos dessa doutrina entravam em conflito com o pensamento neo-platônico adotado por Ficino, que ensinava a autonomia do espírito em relação ao mundo material.

No seu livro Theologia Platonica, Ficino admitiu que existem no céu doze naturezas diferentes, associadas às constelações, que podem influir sobre o mundo inferior. O corpo pode estar subordinado a esses poderes e ao destino, mas a alma está acima de tudo isso. O corpo pode influenciar a alma, mas esta é livre.

Cameron Allen descreve o De vita de Ficino como um manual escrito por um médico para outros médicos, em que são expostas idéias astrológicas úteis à profissão. Não há indicações de que ele aceitasse a astrologia judicial, ou que imaginasse que os astros podem influenciar a alma. No entanto, Allen notou nas cartas de Ficino a presença de inúmeras indicações de que suas crenças iam mais longe. Ele se preocupava muito com seu próprio horóscopo, e via uma influência das estrelas em seus próprios estudos, em seus escritos, em suas amizades, em suas falhas. Antes de escrever o De vitaele consultou as estrelas para ver se a época era auspiciosa. Por outro lado, Ficino iniciou na década de 1470 a redação de um livro em que criticaria a astrologia judiciária. Isso bem mostra sua ambivalência.

Giovanni Pico della Mirandola

 Pico della Mirandola, contemporâneo de Ficino, adotou idéias mágicas trazidas da cabala hebraica, introduzindo a importância de talismãs e transcrições de letras com números que se podiam empregar para controlar o fluxo dos acontecimentos; e ainda tinha uma atitude contundente quanto à questão do livre arbítrio do homem. Esse pensador entendia que as estrelas forneciam luz e calor que produziam as variedades na natureza. Depois de repreendido por teses consideradas heréticas, Pico della Mirandola* se tornou um adversário ortodoxo dos processos de adivinhação do futuro. Ele escreveu o livro Disputationes

adversus astrologiam divinatricem, que é considerado o primeiro estudo contra a astrologia em tempos modernos, tornando-se modelo para muitos outros ataques semelhantes impressos durante o século XVI.

* Ele apresentou uma interpretação cabalística do universo e a relação do ser humano nele, na obra Oratio de hominis dignitate. Para Pico della Mirandola, Adão estava no centro do universo, não era terrestre, celestial, mortal ou imortal, ele tinha livre-arbítrio para escolher a esfera de sua existência.

Durante séculos houve críticos da astrologia, mas os doze livros das Disputationes adversus astrologiam divinatricempublicados em 1494 constituíram o ataque mais sistemático contra ela. A base filosófica da obra é neoplatônica, e o autor contestou que o mundo material – com os céus e os astros – possa determinar o caminho do mundo espiritual. Pico alinhou muitos tipos de argumentos: os astrólogos são charlatães cujo único interesse é a riqueza; eles não concordam uns com os outros; suas previsões estão sempre erradas; possuem conhecimentos científicos medíocres; as relações mais espetaculares entre acontecimentos celestes e terrestres são estabelecidas apenas depois que os fatos acontecem; não há acordo sobre se os astrólogos devem fazer suas previsões baseados no momento do nascimento ou da concepção de uma criança; e muitos outros pontos.

Alguns argumentos eram religiosos. Esse autor lançou mão das Escrituras, pois entendia que Deus havia dito a Adão que não limitara os seus poderes: ele dispunha dos outros objetos da criação para tomar suas próprias decisões por meio do livre-arbítrio que Deus lhe concedeu.

De acordo com Don C. Allen, estudioso da cultura do Renascimento inglês, a obra Disputationesnão é bem ordenada e não possui uma idéia central, e isso pode ter ocorrido por ser uma publicação póstuma. Mas esclareceu ainda que Pico della Mirandola conseguiu formar uma enciclopédia sobre astrologia, pois procurou abordar todos os tipos de assuntos em que ela estava envolvida.

De acordo com George Minoir, a obra de Pico foi como “um golpe de espada na água”. Os argumentos não eram novos, os astrólogos ficaram indiferentes e o público preferiu continuar acreditando na astrologia.

Giovanni Pontano

 Considera-se que o primeiro a realizar uma obra para defender a astrologia foi Lucio Bellanti. Sua obra, De astrologica veritate. Et in disputationes Joannis Pici adversus astrólogos responsionesfoi publicada em Veneza, no ano de 1502. Esse autor foi complacente na sua defesa, com relação a Pico della Mirandola, pois criticou e insinuou que Girolamo Savoranola, um pastor que acolheu Pico Mirandola, o havia influenciado, não acreditando que aquele pensador teria publicado essa polêmica em vida.

Giovanni Pontano é um autor de atitude moderada que defendeu a astrologia e aceitou as influências das estrelas na matéria do ser humano. Ele acreditava na necessidade do horóscopo individual com a finalidade de saber quais serão as configurações planetárias e descobrir antecipadamente as boas disposições e as fraquezas. Em sua obra De fortunerelacionou a astrologia com a doutrina das virtudes.

As críticas contra a astrologia

A astrologia judicial, que procurava prever a vida de um indivíduo a partir do horóscopo de seu nascimento, era um ponto que gerava objeções entre os oponentes desse corpo de conhecimentos.*

* Não se confundia a astrologia com a astronomia. A maioria dos escritores entendia que a astronomia era o estudo das órbitas dos planetas e o situsdas estrelas fixas e a astrologia era uma arte que se dedicava a determinar o futuro vindo das estrelas.

Sabe-se que as acusações iam das motivações mais sinceras às que apenas atendiam interesses pessoais. Algumas das críticas referiam-se à conotação considerada nacionalista: os diferentes povos como caldeus, árabes, judeus, gregos e romanos tinham teorias diferentes. Uma outra era o fato de os astrólogos insistirem na universalização de suas teorias. Constata-se que as críticas tornavam-se cansativas e repetiam-se indefinidamente.

Adotavam-se três métodos para defender a astrologia. No primeiro selecionava-se um inimigo e seus argumentos para refutação. No segundo apresentava-se um ensaio geral a favor e seguia-se um manual astrológico. No terceiro o objetivo era comprovar as predições, o que era realizado por meio da exposição de horóscopos históricos.

Percebe-se que as argumentações tanto dos que são defensores quanto dos que são oponentes da Astrologia não atingem uma expressão de criatividade muito além do que já havia proposto Pico della Mirandola. A contribuição quanto aos novos acontecimentos na astronomia, da época, dão a impressão de passar longe dessas discussões.

Don Allen afirma que após o contato com obras de defesa e ataque à astrologia constata-se que os escritos mais inteligentes são dos astrólogos e esclarece que o motivo disso deve-se ao fato de que para exercer a profissão de astrólogo no século XVI necessitava-se saber astronomia e matemática.

Estudos Astrológicos e Transcendentais II

Oculus

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