Estudos Astrológicos e Transcendentais IV

hipparchus-146

Da Astrologia Antiga

Gianriccardo Grassia Pastore

Gianriccardo Grassia Pastore é graduado em História/UFF e em Ciências Sociais/UERJ. Atualmente desenvolve mestrado em História e Filosofia das Ciências na Universidade de Lisboa. É membro do Centro Interuniversitário de História e Filosofia das Ciências e da Tecnologia (CIUHCT- Universidade de Lisboa e Universidade Nova de Lisboa).

Revista Transdisciplinar Logos e Veritas, Vol. 01, nº 02, 2014, pp. 46-58.

Resumo

Este artigo procura apresentar, de forma introdutória, o que foi a Astrologia antiga (aquela praticada até o século XVII), discorrendo do seu encontro com alguns dos pensamentos ocidentais, tais como o aristotelismo, platonismo, estoicismo, dentre outros, e de seus usos na vida cotidiana.

Ω

Baseada em uma cosmovisão geocêntrica do universo na qual o Sol e a Lua eram considerados planetas e hegemônica na Astronomia dos séculos XVI e XVII, a Astrologia tinha a percepção do céu a partir de um olhar da Terra, no qual os astros giravam em torno a este planeta e as estrelas mantinham-se fixas. Esta cosmovisão, herança grega e babilônica, dividia o céu circular em 12 setores iguais, com 30 graus cada um, chamados de zodíaco. Os 360 graus do zodíaco eram medidos a partir da constelação de Áries e as posições dos planetas eram feitas a partir da eclíptica em graus da longitude celestial. Os planetas, sempre girando em torna da Terra na mesma direção, possuíam diferentes velocidades. Mercúrio, por exemplo, necessitava de apenas oitenta e oito dias para executar sua volta, enquanto Júpiter precisava de vinte anos.

Nesta cosmovisão, então reinante, as estrelas eram consideradas “fixas”, pois sua distância em relação à Terra fazia crer que estavam sempre no mesmo local. Aliado a isto, estudos das obras cosmológicas de Aristóteles, sobretudo o De caelo, De generatione et corruptione e dos Metereologica influenciavam a cosmovisão nos séculos XVI e XVII, fazendo que fosse a de tipo aristotélico-ptolomaica a mais aceita e levavam a interpretações de uma região celeste composta por um quinto elemento, o éter, em estado de perfeição. A região supralunar, na qual se encontravam as estrelas fixas, os sete planetas (Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e a Lua) caracterizava-se, dentre outras coisas, pela sua perfeição e eternidade, na qual os sete planetas giravam em círculos concêntricos. O movimento circular representava exatamente essa eternidade e perfeição. Em contraposição, o mundo terreno (região situada entre o côncavo do orbe da Lua e o centro da Terra) era formado pelos quatro elementos de Empédocles: fogo, ar, água e terra. Os movimentos, por seu turno, eram retilíneos (ascendentes e descendentes). Caracterizava-se pela mudança, pela decomposição, pela geração, por início, meio e fim, nascimento, crescimento, e morte, ou seja, era imperfeito, corruptível.

Essa mutabilidade, verificada no mundo inferior, relacionava-se com a influência dos corpos celestes, segundo o aristotelismo. É, nesse ínterim, que aristotelismo e Astrologia encontram pontos em comum, partilhando de um mesmo dualismo cosmológico de hierarquia entre céu e Terra. Todavia, a segunda não se resumia a uma leitura estritamente física do mundo, era também uma “ciência oculta”, “magia”, “prática divinatória”, possuía uma concepção animista do universo, na qual os astros, dotados de vida e ação, influenciavam na vida terrena e na vida humana.

Apesar de Aristóteles não ter explicitado de que forma a influência celeste se dava na Terra, desde a Idade Média foi objeto de especulação daqueles que seguiam suas ideias. As principais instituições de ensino filosófico da Europa no século XVII, incluindo os famosos Colégio das Artes de Coimbra; o Colégio de Santo Antão de Lisboa1; o Colégio de São Paulo, em Braga e a Universidade de Évora, eram locais nos quais, em Portugal, fazia parte do plano de estudos.

1 É minimamente muito curioso o fato de que, no Colégio de Santo Antão, em Lisboa, durante a famosa “Aula da Esfera”, ministrada por jesuítas, fosse ensinada a astrologia judiciária, ou seja, aquela que fazia previsões e atentava contra o livre-arbítrio, tão defendido pela Cúria Romana e pelos próprios jesuítas.

É, neste ínterim, que a carta astrológica, também chamada de mapa astral, é utilizada. Ou seja, é feito um desenho do céu no momento do nascimento da pessoa ou evento do qual se quer fazer uma previsão. O que define o mapa é o ascendente, conhecido entre os gregos como Horoscopos. O ascendente é definido pelo grau do zodíaco no horizonte no momento do nascimento.

Os sete planetas, de acordo com a teoria astrológica, exerciam, cada qual, um tipo de influência, segundo as características que possuíam. A Lua, Júpiter e Vênus tinham influências positivas, benfeitoras; enquanto Marte e Saturno eram negativos ou maléficos. Já o Sol e Mercúrio possuíam as duas características mencionadas (positiva e negativa). Também eram associadas características dos deuses que lhes eram atribuídos os nomes. Contudo, a influência dos planetas era alterada por outros fatores também. Uma das quais diz respeito à natureza do signo zodiacal no qual se encontrava. Cada planeta regulamentava dois signos, ou, no caso dos astros, apenas um signo. Os estudiosos afirmavam que cada planeta possuía sua exaltação beneficente em um signo, ou em graus do zodíaco e suas depressões, que seriam maleficentes em um signo diametralmente oposto. As características de um signo combinam com as características dos diferentes planetas a fim de produzir efeitos específicos. Além dos já citados, outros fatores poderiam influenciar na ação dos planetas sobre a vida terrena, contudo isso nos tomaria demasiado tempo e, por ora, não faz parte de nosso propósito. Os astrólogos utilizavam-se do movimento dos planetas então conhecidos para fazer previsões ou explicações dos acontecimentos, sejam eles coletivos ou na vida dos indivíduos.

Como fora dito no princípio deste opúsculo, a Astrologia concordava com a Astronomia em sua visão de mundo, ou, se ainda quisermos, com os filósofos naturais, de uma maneira mais geral. Para compreendermos melhor aquilo que dizemos, um exemplo elucidativo de alguns dos pontos que lhe eram comuns seria a influência solar sobre a Terra, ou a da Lua. Sobre a Lua, especificamente, afirmava-se ter influência sobre os humanos. Médicos e filósofos naturais escreviam que as fases da Lua influenciavam as mulheres, principalmente naquilo que tange a menstruação. Aristóteles e seu contemporâneo, o médico Diocles, afirmavam que a menstruação se dava no fim do ciclo lunar. Escritos farmacológicos mostravam o uso de plantas que haviam conexão com a Lua durante a menstruação. Outras crenças davam conta da relação da Lua minguante com o medo e o frio. O próprio termo “lunático” tem sua origem na relação que aquela teria com a epilepsia ou algumas manifestações de loucura. Plutarco foi outro que escreveu sobre a influência da Lua sobre a Terra, afirmando que aquela aquecia a esta e que atraía exalações terrenas, purificando-a.

This Talavera tile map is a replica of a plate from Dutch–Greek mathematician and cosmographer Andreas Cellarius

A ideia de simpatia estava contida em escritos antigos, particularmente os concernentes à medicina, e referia-se à correspondência que animais, plantas e pedras poderiam ser simpáticas ou antipáticas, em condições particulares, aos corpos celestes. Esta teoria foi melhor desenvolvida pelos filósofos estóicos, cuja “simpatia universal” referia-se à conexão que as coisas tinham entre si. Simpatia, para esta escola, era a ação causal do destino. Seguidos por Aristóteles e Platão, os estóicos afirmavam a existência dos quatro elementos de Empédocles (ar, água, fogo e ar) como constituidores de todas as matérias. Assim, o fogo, enquanto calor inato, seria o único elemento permanente. Os quatros elementos denotam as propriedades de quente, frio, seco e úmido. Para Aristóteles, o céu ainda era formado por um quinto elemento, o éter; destacando, desta maneira, a diferença de constituição do mundo perfeito e incorruptível, do mundo sublunar. Ptolomeu trabalhava segundo o modelo aristotélico para explicar a influência astral:

Algumas pequenas considerações tornariam evidente para todos que um certo poder que emana da substância eterna etérea é dispersa e permeia toda a região em torno da Terra, aonde tudo está sujeito a mudanças, já que, dos elementos sublunares primários, o fogo e o ar estão englobados e alterados pelo movimento do éter que, por sua vez, a tudo muda: terra, água, as plantas e os animais.

Barton

Segundo Barton, é impossível saber quem teria sido o primeiro a fazer a conexão entre aristotelismo e Astrologia, porém é provável que tenha sido anterior a Ptolomeu. O autor afirma que existe uma passagem atribuída a Nechepso e Petosiris, autores de textos fundamentais sobre Astrologia na Antiguidade Helênica, na qual descrevem como a força entre os planetas é transmitida entre as esferas até a esfera sublunar.

Contudo, a Astrologia é ainda anterior a este período. No século VII a. C., os babilônicos já desenvolviam uma cosmologia assentada em uma visão de universo na qual o movimento do cosmos se relacionava com as ações humanas. Babilônicos e caldeus estabeleceram a primeira relação entre corpos celestes e os eventos da Terra. Essa correlação de fatos parece ter tido aceitação dentre os egípcios e o mundo helênico. De acordo com a mitologia clássica, Orfeu interpretou o adultério de Vênus através da Astrologia. Ptolomeu, o mais famoso dos astrólogos gregos, via a astronomia e a Astrologia enquanto complementares, ainda que visse a segunda enquanto dependente da primeira, pois necessitava das bases factuais da astronomia. Enquanto dedicou o Tetrabiblos à Astrologia, o Almagesto era dedicado à astronomia e estas são das suas obras mais fundamentais.

Alexander de Aphrodisias, pertencente à Escola Peripatética por volta do séc. III a.C. e, provavelmente, influenciado por Ptolomeu, discute a questão da influência astral em uma série de textos. Em um deles, trabalha a questão da influência planetária mais especificamente. Os planetas, movendo-se em torno ao zodíaco, aproximam as partículas do quente ou seco, enquanto produzem os outros elementos – ar (quente e úmido), água (fria e úmida) e terra (fria e seca) – a uma grande distância. Ao mudar a posição, efetua-se um processo de contínua mudança no material afetado. Corpos rarefeitos, mais perfeitos e ativos são gerados do fogo, enquanto os corpos mais imperfeitos, passivos e densos são compostos por outros elementos.

Em uma passagem que muito se aproxima do pensamento de Aristóteles na sua famosa obra Da geração e da corrupção, Ptolomeu observa os elementos como sendo todos fornecidos pelo Sol em quantidades diferentes. De acordo com a sua posição em relação à Terra, Barton assevera que, segundo Ptolomeu:

“Para o Sol, em conjunto com aquilo que o circunda, está sempre, de alguma forma, afetando tudo na terra, não apenas as mudanças que acompanham as estações do ano para trazer a geração dos animais, a fecundidade das plantas, o escoamento das águas e as mudanças, mas também por suas revoluções diárias que fornecem calor, umidade, secura e frio em ordem regular e em correspondência com as suas posições em relação ao zênite”.

Barton

Segundo Barton, os efeitos dos corpos celestes são explicados por Ptolomeu de acordo com as quatro qualidades. Em muitos locais, a energia do Sol ativa aparece aquecendo e secando, enquanto a da Lua umidifica. Marte queima e arde, conforme sua coloração de fogo e devido a sua aproximação ao Sol. Júpiter possui força de aquecimento da temperatura devido ao seu movimento entre o arrefecido Saturno e à Marte que queima, além de produzir umidificação e ventos fertilizantes. Vênus aquece moderadamente devido a sua proximidade em relação ao Sol, contudo, principalmente, umidifica devido a quantidade de sua luz própria e porque se apropria das exalações da atmosfera úmida em torno da Terra. Saturno é frio e seco (porque ele é removido do calor solar e das exalações úmidas da Terra).

As ideias ptolomaicas acima citadas muito provavelmente têm sua origem no pensamento dos filósofos originários Heráclito e Anaximandro, conforme observa Barton. Todavia, muito possivelmente, a referência mais direta é, mais uma vez, Aristóteles. A cosmologia aristotélica, no que concerne a atmosfera sublunar, é, basicamente, constituída por calor, secura e exalações de fumaça da terra; enquanto o frio e vapores úmidos são provenientes da água. A parte mais elevada da atmosfera consiste em exalações quentes e a sua parte inferior, da mistura entre as duas.

As ideias sobre as exalações foram, muitas vezes, ligadas à compreensão do universo baseadas no corpo humano. Cleantes de Assos, filósofo estóico do III a. C., sugeriu que os corpos celestes eram sustentados por exalações provindas dos oceanos e de outros líquidos do corpo terrestre, assim como a alma humana (vista aqui como corpórea) seria sustentada por exalações de sangue. Nesse ínterim, se dava a explicação para os solstícios: o Sol dava voltas quando atingia o ápice do oceano porque não haveria mais nada para sustentá-lo. Os corpos celestes, assim como os corpos humanos, derramavam-se como líquidos com o calor. Já no diálogo de Plutarco Na face da Lua (em tradução literal), enquanto as estrelas giravam como olhos radiantes na face do universo, o Sol desempenhava o papel do coração, transmitindo e distribuindo calor e luz como se fosse o sangue e a respiração. A Terra e o mar agem como o intestino e a bexiga. e a Lua, por sua vez, situada entre o Sol e a Terra, assume a função de um órgão como o fígado ou, talvez, o baço e direciona o calor do Sol para a Terra e as exalações da Terra para o Sol após refiná-las e purificá-las.

Em uma série de filosofias da Antiguidade, a correspondência entre o universo (macrocosmo) e os seres humanos (microcosmo) foram importantes axiomas. É nesse contexto que Cleantes desenvolve a interpretação médica de que o calor inato é o princípio da vida humana, argumentando que este fora o próprio princípio do universo. Analogamente, assim como os homens têm inteligência para suas faculdades (a principal parte da alma), então o universo também possuiria uma inteligência preeminente para suas faculdades. Essa noção associativa entre o macro e o microcosmo é também partilhada pelos pitagóricos. Epifânio de Salamina, grande defensor da ortodoxia cristã em fins do IV d. C., escritor de um compêndio de heresias que ameaçavam o cristianismo primitivo, que atribui a Pitágoras a ideia de que Deus, ou o céu, seria um corpo e seus olhos e outras funcionalidades seriam o Sol, a Lua os demais elementos do céu. Já o platonista do II d. C.,Theon de Smyrna, menciona que os pitagóricos viam o Sol como o comandante das faculdades e centro dos planetas, como uma espécie de coração do universo. Outro platonista, Porfírio, em sua Introdução ao Tetrabiblos também atribui ao Sol o coração do universo e suas competências especiais, enquanto a Lua seria o baço e Júpiter o fígado. A afirmação de que o homem seria um pequeno universo é atribuída ao filósofo originário Demócrito. Como pode-se observar, essas analogias entre os humanos e o universo se originam na Antiguidade e irão se desenvolver ao longo dos séculos seguintes e nos serão de especial importância para compreendermos o que é Astrologia em um contexto no qual o mundo perfeito (supra-lunar) influencia o mundo da corrupção e da geração (mundo sublunar).

Aquele que se tornaria um dos principais autores e pilares da Astrologia, Ptolomeu, não faz tantas analogias entre o céu e o corpo humano, como vimos os autores mencionados até o presente momento. Ptolomeu parte da constituição dos quatro elementos para explicar a relação existente entre os planetas. Para este autor, o calor e a umidade eram fatores beneficentes, sendo ativos e férteis; enquanto o seco e o frio seriam destrutivos e passivos, forças de separação e destruição. De acordo com a combinação dos elementos, os planetas seriam classificados como masculinos ou femininos. Para elucidar melhor o que acabamos de afirmar, peguemos como exemplos Vênus e a Lua que, por possuírem umidade, eram considerados femininos; enquanto o Sol, Marte e Júpiter seriam masculinos. Mercúrio, por seu turno, seco e úmido, era considerado hermafrodita. De acordo com Ptolomeu, os quatro elementos seriam produzidos acima do Sol. Além desses fatores, era preciso também considerar a alteração do gênero dos planetas de acordo com o aspecto do Sol e o quadrante em que estes estivessem. A Lua, em fase de crescimento até o seu primeiro quartel, produz mais umidade; já da passagem do seu primeiro quartel até se tornar cheia, produz calor; da passagem da lua cheia para o último quartel produz mais aridez; e, por fim, do seu último quartel até a chamada lua nova, produz mais frio.

Quanto aos signos, Ptolomeu classifica-os em gêneros alternadamente, iniciando em Áries como masculino, pois este gênero conduz, é ativo e superior. Ptolomeu tem explicações para cada elemento da Astrologia. A casa dos planetas é contada por suas naturezas e posições. Dessa forma, Leão e Câncer pertencem ao Sol e a Lua respectivamente porque são signos localizados mais ao norte que os demais, e sendo mais próximos do zênite, produzem calor, e Leão é masculino como o Sol e Câncer feminino como a Lua.

A explicação naturalística de Ptolomeu são, muitas vezes, racionalizações de teorias que tinham origem em mitos sobre as estrelas, como atesta Barton. Ptolomeu esforça-se para excluir os elementos de personificação com os quais os astrólogos estavam acostumados a trabalharem nas suas explicações sobre os céus.

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Platão, associa a alma às estrelas. Em seu famoso diálogo Timeu, as almas são produzidas pelo Demiurgo no mesmo número de estrelas. As estrelas, para Platão, têm um papel secundário na criação: enquanto o Demiurgo cria a parte racional da alma humana, as estrelas formam os corpos humanos. Alguns neoplatonistas, nos fins da Antiguidade, deram ênfase a este lado “místico” de Platão, em uma espécie de “física religiosa”. Macróbio, em seu comentário ao Sonho de Cipião, de Cícero, atribui à rotação do Universo a uma espécie de “mundo-alma”, que estaria intimamente relacionada com a alma humana individualmente. Pitagóricos e platonistas davam origem astral às almas.

A crença na relação das estrelas com a vida (ou alma) humana estendia-se a outros autores da Antiguidade. Plínio, o Velho, por exemplo, afirmava que cada ser possuía sua própria estrela, que surge com este no seu nascimento e desaparece na sua morte. Durante a vida, o brilho da estrela variaria de acordo com o estado da pessoa a qual pertencesse. No já citado Sonho de Cipião, de Cícero, a personagem que dá nome à obra sonha que sua alma deixa seu corpo, indo parar nas estrelas. No comentário de Porfírio ao Tetrabiblos, é exposto que o corpo astral da alma vem das esferas planetárias e voltam a estas após a morte. Alguns neoplatonistas desenvolveram também a idéia de que as estrelas purificavam a alma ou de que a alma ascendia apóas a morte, outros ainda afirmavam a contribuição estelar para alma humana. Servius, comentador de Virgílio do IV século, lembrava que, de acordo com os filósofos naturais, as pessoas recebiam a pneuma do Sol; o corpo, da Lua; o sangue, de Marte; a inventividade, de Mercúrio; o desejo de honra, de Júpiter; paixões, de Vênus; e as lágrimas, de Saturno. Os vícios também eram atribuídos a estes: a preguiça era atribuída a Saturno; a raiva, a Marte; a luxúria, a Vênus; apego ao dinheiro, a Mercúrio; e desejo de governar, a Júpiter. Muito provavelmente, como afirma Barton, as características míticas dos deuses são graças à Astrologia.

Na Antiga Mesopotâmia, as estrelas eram vistas como deuses. Historiadores, inclusive, afirmam que pertenceria a esta sociedade o mais antigo horóscopo encontrado e dataria do V a. C. Já os astrônomos helenísticos designavam as estrelas com nomes que pudessem representar a sua aparência, tais como a “estrela cintilante” (Mercúrio), a “brilhante” (Júpiter), ou referindo-se a elas como pertencentes aos deuses gregos. Dessa forma, Saturno seria a “estrela de Kronos”; Júpiter, a “estrela de Zeus”; e assim por diante. Foi durante a ascensão da República Romana que os planetas passaram a ser conhecidos pelo nome dos deuses.

É, nesse contexto, que podemos explicar que diferentes sociedades antigas recorriam à Astrologia para os seus mitos e, apesar de se desenvolverem de formas diferentes, possuíam esse ponto em comum. Na Grécia, o Sol, Helios, tinha um papel menor e, por isso, o deus olímpico Apolo tomou o Sol como uma de suas várias províncias. Astrólogos como Vettius Valens, baseando-se na mitologia egípcia, associou as luminárias à Ísis e Osíris. Na cosmologia babilônica. a Lua vem de Anu, Enlil e Ea e era da onde provinha o seu poder ao longo das suas fases. Nesta cosmologia, a Lua presidia o destino e a realeza com sua filha Ishtar (Vênus). Na mitologia grega Artemis era a deusa associada a Lua, assim como Diana o era na mitologia romana.

Na Babilônia, Saturno assumia a figura sacerdotal. Já para os gregos, este papel foi Cronos, o deus de uma era brutal, anterior às regras olímpicas nos céus. Por ser visto como velho, considerado o pai dos planetas, seu nome foi inevitavelmente associado ao tempo. Por sua história de crueldade, de castrador do próprio pai por ter engolido seus filhos, era associado à maleficências. Júpiter era Zeus, rei do Olimpo e o planeta mais dinâmico, associado à fecundidade, talvez reflexo da quantidade de filhos que possuía. Marte, na Babilônia, era designado como deus da guerra ou de mortes violentas, baseado na sua coloração avermelhada.

Na mitologia suméria, Vênus, ou Ishtar, filha da deusa Lua, uniu-se ao deus Céu e tornou-se mãe do universo. Na mitologia grega, era Afrodite, deusa do amor. Já para os egípcios, tinha a reputação de pureza e graça. Mercúrio era Hermes, o astuto mensageiro dos deuses. Talvez tenha sido a sua velocidade de seu movimento a responsável pela sua identificação enquanto mensageiro. Na Astrologia, estava associado também a pessoas que tivessem facilidade em Matemática, Filosofia Natural e o uso das palavras.

A relação entre os planetas também era utilizada para explicar suas personalidades. Assim sendo, à Vênus, que teve uma relação de adultério com Marte, era associada essa prática. Contudo, possuíam características opostas, tais como o frio e o calor, eram o planeta beneficente e maleficente, respectivamente, e todo astrólogo estava ciente de que o primeiro venceu o segundo, considerando-se, assim, que o amor era mais forte que a raiva. Este princípio foi motivador para que Marsílio Ficino escrevesse a este respeito em seu comentário do diálogo de Platão Simpósio.

Como se pode observar até o presente momento, os planetas recebiam características antropomórficas e estas, muitas vezes, eram comuns àquelas adotadas pela Astrologia. Como vimos, cada planeta recebia uma atribuição que lhe era própria, assim como as estrelas. Cada corpo celeste contribuía à sua maneira para a vida terrena. O astrólogo, combinando técnicas mesopotâmicas e gregas, fazia previsões de acordo com o movimento planetário. Instrumentos astronômicos, tais como o astrolábio e as tábuas astronômicas, permitiram fixar mais acuradamente nascimentos e outras ocorrências. Utilizando-se desses instrumentos e de suas técnicas, os astrólogos poderiam designar o signo do Zodíaco e os planetas de maior significância que ascendiam no horizonte à data do nascimento ou de algum evento qualquer. Poderiam, da mesma maneira, identificar o ascendente, dividir o Zodíaco, localizar os quatro pontos cardeais e delimitar os doze segmentos, chamados casas, que definiam os efeitos da influência planetária.

De acordo com as interpretações perpetradas pelos astrólogos, poder-se-ia predizer quantos anos o cliente viveria, os talentos que possuía, o quanto poderia prosperar. Na Idade Moderna, ainda, segundo afirma Grafton, era comum a um astrólogo determinar a influência que um planeta exerceria em um evento importante da vida do cliente, ou ajudá-lo em alguma escolha. Também eram comuns predições sobre casamentos, investimentos, previsões sobre assuntos políticos, dentre muitos outros. Os utilizadores da Astrologia com maiores ambições intelectuais ainda utilizavam-se desta para investigar a História mundial. O simples fato de Saturno e Júpiter alianharem-se a cada vinte anos, por exemplo, poderia significar reveses para a história mundial. Astrólogos persas, judeus, árabes e europeus utilizavam-se disto para fixar pontos de viradas na história mundial, tais como o nascimento de novas religiões e para predizer o fim de eras. Contudo, a mais importante e desafiadora tarefa de um astrólogo qualificado era sempre a mesma: elaborar a geração ou origem de eventos através da carta celestial. Isso explica como a influência dos céus formaria o caráter individual das pessoas, cidades, países, dentre outros.

É, nesse ínterim, que cabe aqui explicar uma subdivisão dentro do seio da Astrologia e que será de capital importância para compreendermos alguns dos mais fundamentais problemas durante a Idade Moderna e engendrados entre a Inquisição romana e a Astrologia. A primeira das mais famosas distinções entre a Astrologia natural e judiciária foi desenvolvida por São Tomás de Aquino na obra Summa theologica. Esta divisão, que será seguida nos séculos seguintes, justamente por, muitas vezes, não estabelecer fronteiras muito nítidas entre as duas será fonte de muitos desdobramentos nos séculos XVI e XVII, período de grande convulsão no seio da Igreja Católica, devido às Reformas Protestantes. Aceitar a Astrologia judiciária, era aceitar a predestinação do homem. É, nesse contexto, que o papa Sisto V lança a bula Coeli et Terrae (1586), proibindo esta prática divinatória, todavia permitindo a astrologia natural, o que contraria a ideia de uma Igreja que se opunha às ciências. Importante notar que esta bula fora traduzida do latim para a língua vulgar, o que não ocorria. Talvez para que conseguisse atingir o maior número possível de pessoas, ainda que boa parte da população fosse de analfabetos. Contudo, na própria bula, consta que esta deveria ser afixada na porta das igrejas, dentre outros lugares para que se fizesse saber o maior número de pessoas possível.

Segundo Ugo Baldini, desde seus primórdios, o cristianismo sempre estabeleceu relações com artes divinatórias e, mais especificamente, com a própria Astrologia, considerada a mais “científica” de todas elas. Essas técnicas, conforme atesta o autor, estão contidas em passagens do Antigo e do Novo Testamentos e não apenas enquanto algo a ser desacreditado. Todavia, a situação começa a tornar-se mais complexa nos períodos apologéticos e patrísticos  devido às pressuposições de que essas técnicas (crenças sobre a realidade natural e suas ligações com entidades sobrenaturais ou forças) não foram imediatamente expurgadas pela nova religião. Dessa forma, essas crenças eram mediatamente catalogadas enquanto demoníacas e admitidas enquanto reais. Esse tipo de pensamento, sustenta o autor, não encontrou terreno fértil apenas no mundo cristão. Essas ideias, originadas ainda no mundo pré-clássico, relacionavam-se com a criação, com a divina onipotência, dentre outras e era uma questão com contornos problemáticos.

Essa “teologização” das crenças mágico-divinatórias suscitaram debates na construção de uma ortodoxia cristã. De várias formas e em graus variados, a aceitação dessas entidades, forças ou processos envolviam várias formas de “heresias”. Contudo, como desenvolveremos mais adiante, no início da Idade Moderna, será um tipo de Astrologia – a judiciária – que enfrentará as proibições da Igreja romana.

Por Astrologia judiciária entende-se aquela que faz previsões sobre a vida de alguém, sobre alguma guerra, eventos políticos, dentre outros e esbarrava em um princípio muito caro ao catolicismo: o livre-arbítrio. A partir do momento em que um indivíduo não pudesse mais se responsabilizar pelos seus atos perante Deus (visto que a predeterminação era incoerente com isso), a Igreja Católica colocava-se contra esta posição. Contudo, a Astrologia de tipo “natural”, ou seja, a que dizia respeito a questões agrícolas, médicas (pois, para o médico, em um mundo marcado pela cosmovisão aristotélico-ptolomaica, o ser humano era formado pelos quatro elementos e estes, por sua vez, eram influenciados pelo mundo perfeito, supralunar), esta sim era aceita pela Inquisição. Conforme afirma Ana Avalos, de Hipócrates, até o século XVII, o conhecimento de Astrologia fazia parte do aprendizado do médico ou físico.

Segundo afirma Ana Avalos, a Astrologia medieval seria ainda rudimentar até a influência vinda da ciência muçulmana. É muito provável que a Europa não tivesse conhecimento das grandes obras da Antiguidade. Nem Firmicius Maternus e nem tampouco Manilius eram conhecidos antes do século IX e o próprio Tetrabiblos viera na esteira do conhecimento islâmico. Durante a Baixa Idade Média, o conhecimento cosmológico provinha apenas das principais obras de Aristóteles (De Caelo, Metaphysica, Metereologica, De Generatione et Corruptione) através de seus comentadores gregos e, especialmente, árabes, tais como Averrois e Albumasar.

Em fins da Idade Média, as utilizações da Astrologia variavam da mais prática a mais teórica. No que tange à prática, a Astrologia fazia parte, fundamentalmente, das necessidades dos físicos e ainda oferecia informações sobre o tempo e matérias pessoais. Nas cortes medievais, a Astrologia obteve destaque principalmente em França, Itália e Inglaterra. Os horóscopos influenciavam ainda decisões políticas e militares. As estrelas costumavam ser “questionadas” a cada novo rumo a ser tomado pelo Estado, desde viagens de um príncipe, até a entrada em uma guerra. Já na parte teórica, foi em fins da Idade Média que os grandes intelectuais do período, notadamente Robert Grosseste, Alberto Magno, Roger Bacon e Tomás de Aquino deram as bases da filosofia natural aristotélica. Nas universidades, a Astrologia transformara-se em um honorável membro do quadrivium, muito apreciada pelos estudiosos, ainda que enfrentasse resistência por parte dos teólogos.

“In Medieval universities students learned the “quadrivium” of arithmetic, music, geometry, and astronomy.”

“In Medieval universities  students learned the “trivium” of grammar, rhetoric and logic and the “quadrivium” of arithmetic, music, geometry, and astronomy.”

No período do Renascimento, a Astrologia recebeu particular atenção dos estudiosos sob as mais diferenças perspectivas, como atesta Avalos. Segundo a autora, isso se deve ao fato de que é nesse momento que a arte, a religião e a filosofia convergem ou divergem em debates a respeito da Astrologia.

Avalos ainda continua afirmando que os estudiosos têm dado papel de destaque a Marsilio Ficino, devido as suas sofisticadas teorias astrológicas no período em questão. O terceiro livro da obra, De triplici vita (De vita coelitus comparanda), é provavelmente um dos mais complexos, elaborados e detalhados trabalhos sobre magia e Astrologia. De acordo com Ficino, nas palavras de Avalos, os céus influenciam todo o estado físico e mental do homem. Todo homem foi subjugado aos poderes de um planeta no momento de seu nascimento. Contudo, observa Ficino, o homem sofre influências, inclinações das estrelas, mas estas não determinam sua vida. Na tentativa de distinção entre a “inclinação” e a “determinação” dos astros, Ficino quis conciliar suas ideias sobre Astrologia com a sua fé cristã. Esta tentativa de conciliação foi tema de longos debates durante a Idade Moderna.

As bases na qual irão se assentar as explicações ficinianas é a teoria da alma platônica. Após o século II d. C., a hipótese da formação do cosmos são inspiradas na teoria da formação anímica antes do próprio nascimento do ser e determinava seu destino. Esta tese combinava-se ainda com a ideia da ascensão e do decesso d’alma. Neste percurso do céu até a Terra, a alma assimilaria a influência dos planetas. Os sete planetas reforçam nos corpos humanos e nas almas as sete virtudes originais concedidas por Deus. Contemplação é dada por Saturno; poder, por Júpiter; o valor da alma, por Marte; a clareza dos sentidos, pelo Sol; o amor, por Vênus; a capacidade de interpretação e expressão, por Mercúrio; e a geração, pela Lua. As almas descendem para seus corpos através da constelação de Câncer e ascendem através de Capricórnio, cobertas por um véu celestial chamado pneuma. As ideias neo-platônicas de Ficino foram dissipadas ainda no início da Idade Moderna, muito provavelmente devido ao que muitos autores afirmam ser o “declínio” da Astrologia no século XVII.

Mais do que simplesmente meras previsões, conforme asseguraria o senso comum e, muito longe daquilo que se vê publicado em jornais e revistas de nossos dias, a Astrologia foi e, para muitos, ainda é, fonte inesgotável de saber. Mais do que isso: fez – e em muitas universidades ao redor do mundo ainda faz – parte dos curricula. Desde o seu surgimento até o seu “encontro” com as filosofias dos antigos gregos, passando por toda a chamada Idade Média, até a Idade Moderna, foi fruto de incessantes contendas, das mais variadas espécies. Se, por um lado, era vista como perturbadora da ordem, era igualmente utilizada nas cortes; se, por um lado era atacada pela Igreja Católica, defensora do livre-arbítrio, era ensinada na Aula da Esfera do Colégio de Santo Antão, por jesuítas. Conforme podemos observar, a partir da leitura deste pequeno texto introdutório, que a Astrologia assentava-se nas mais importantes filosofias, era possuidora de todo um corpus teórico, dotada de racionalidade e era praticada por nomes que seriam caros àquilo que ficou conhecido como “Revolução Científica”, tais como Galileu, Kepler, Newton. Além disso, estava muito longe de ser obscurantista.

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Leonora Carrington - Quería ser pájaro - 1960

Astrologia & Narrativas do Céu

Ana Cristina Vidal de Castro

Mestranda no Programa de Pós-Graduação da Faculdade Cásper Líbero

Resumo

O presente artigo faz parte de um estudo maior sobre a relação existente entre Comunicação e Astrologia. Neste artigo a Astrologia é apresentada como narrativa, com a ajuda de autores como Gaston Bachelard, Bernadete Brady, Stephen Arroyo e outros. Além disso, é feita uma pequena introdução sobre a presença da Astrologia na mídia, seja como narrativa resumida (horóscopos) ou como conteúdos que ajudam na construção de narrativas presentes no cinema, nos jornais e outros. Alguns autores utilizados são Malena Contrera, Edgar MorinRegina Machado, Vladimir Propp, entre outros.

O Saber Astrológico

A sociedade humana sempre buscou inscrever-se no cosmo e inscrever o cosmo em si mesma.

Edgar Morin

Astrologia é um saber complexo, que inclui outros saberes, como Astronomia, Medicina, Filosofia, Psicologia, Matemática, entre outros. Ela é composta de técnicas e teorias complexas, que incluem cálculos e diversas interpretações. São infinitos os elementos pertencentes à Astrologia. Ao contrário da aparente simplicidade e superficialidade percebida na leitura de um horóscopo de jornal, que considera apenas os doze signos astrológicos, em poucos caracteres, para as previsões genéricas de bilhões de pessoas do mundo, interpretar uma pessoa, evento, ciclo ou situação a partir da Astrologia leva em consideração muito mais do que isso. São diversos fatores combinados entre si, em uma dinâmica cíclica que jamais se repete.

A Astrologia contém um alfabeto próprio, composto de diversos símbolos que representam os planetas, signos e outros pontos. A linguagem astrológica precisa ser interpretada por quem conheça seus símbolos e sinais. A Astrologia também é a narrativa dos ciclos da natureza e do homem. Conta a história dos ciclos celestes e sua relação com os acontecimentos terrestres, o que inclui a experiência humana. Olhando para o céu, podemos contar várias histórias através dos ciclos que, apesar de sempre se repetirem, nunca se combinam da mesma forma.

A Narrativa Através dos Ciclos

Desde tempos antigos o homem olha para o céu. Ao fazer isso, os antigos viam a relação entre os movimentos celestes e os acontecimentos terrestres. A partir dessa constante observação do céu, nossos antepassados descobriram relações profundas do céu com o que acontece na Terra.

Como conta Edgar Morin: “Desde a Antiguidade, as sociedades humanas elaboraram concepções a respeito de um universo no qual cada uma delas se inscrevia. Essas sociedades modelaram sua organização de acordo com a ordem cósmica: seus calendários foram estabelecidos com base nos ciclos solares e lunares”.

Por sinal, “toda a nossa compreensão mental do mundo depende dos ciclos – se os eventos não se repetissem, não haveria um universo apreensível e estruturado”.

Townley

As civilizações antigas conheciam e interpretavam o céu, traçando paralelos com os acontecimentos terrestres. Edgar Morin conta que mesmo antes do nascimento da Astrologia, “os astros desempenhavam um papel central na maior parte das civilizações”. De acordo com ele, “A organização social estava decalcada sobre a organização cósmica e os ritos religiosos asseguravam a harmonia entre o homem e o mundo”. Morin ainda complementa: “A ordem cósmica era ao mesmo tempo modelo e garantia da ordem social”.

A Narrativa do Sol pelo Zodíaco

Venus and the Chromosphere

O zodíaco é “uma faixa aparente, em forma de circunferência, portanto de 360º, que ‘envolve’ o nosso sistema solar de acordo com o referencial de um observador na Terra como centro. Esta circunferência é subdividida igualmente em 12 signos, ocupando 30º cada um”.

O francês André Barbault define o zodíaco como “o antigo relógio do céu”.

Durante um ano, o Sol aparentemente dá uma volta em torno da Terra, percorrendo a eclíptica e o zodíaco, marcando claramente as estações do ano, que mantém uma relação íntima como os doze signos astrológicos. É como uma história cíclica que o Sol nos conta ao longo de um ano, todos os anos. John Townley nos lembra que: “toda a vida sobre a terra depende da repetição anual do ciclo solar, determinado pela revolução da Terra em torno do Sol e pela inclinação do nosso planeta em relação ao seu plano orbital. As mudanças de estação assim criadas determinam as condições meteorológicas, as reservas de alimento e as regiões habitáveis, que tornam possível nossa existência”.

O ciclo do Sol pelo zodíaco tem profunda relação com a vida humana. Para André Barbault (…) todas as funções biológicas evoluem igualmente ao longo do ano, que fevereiro é o campeão da mortalidade (exílio do Sol), que nosso sono é mais profundo no inverno, estação das marmotas e do voltar-se para si mesmo; e que nosso coração bate mais rápido no verão, estação da agitação e do vai-e-vem; enquanto a primavera faz eclodir a atividade sexual (…).

Este ciclo que se repete anualmente está diretamente ligado às estações do ano e aos signos do zodíaco.

Para Ptolomeu, “o zodíaco é o ano e as suas quatro estações”. O astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão lembra que inicialmente a Astrologia visava prever as estações do ano para fins agrícolas.

Dos Quatro Elementos aos Doze Signos

mondkreis

A sequência zodiacal também tem relação com os quatro elementos presentes na natureza, fogo, terra, ar e água, que são a essência dos doze signos. Como cada elemento pode se manifestar de três maneiras diferentes, cardinal, fixa e mutável, temos doze signos, ou seja, três manifestações de cada um dos quatro elementos.

Os Quatro Elementos

Por que você me pergunta? Perguntas não vão lhe mostrar, que eu sou feito da terra, do fogo da água e do ar.

Raul Seixas

Fogo

O fogo é o elemento da energia e da vida. “O elemento fogo se refere a uma energia universal irradiante, uma energia que é excitável e entusiástica e que, através da sua luz, dá colorido ao mundo”.

Arroyo

Bachelard diz que o fogo “Vive em nosso coração. Vive no céu”. O fogo contém a energia do Sol que, astrologicamente, rege o signo de Leão, signo de fogo, e o coração.

O fogo é o elemento do ser. E o ser vem do coração, do impulso da vida. “Porque, no fundo, o homem é o que é o seu coração. É nele que a humanidade do ser humano reside e se revela. O coração é o sol do microcosmo”.1

1 Meditações sobre os 22 arcanos maiores do tarô. Autor anônimo, 2005, p. 235.

Terra

A terra é o elemento que dá forma às coisas. É o elemento da estrutura, do que pode ser visto com nossos olhos e tocado por nossas mãos. É o mais concreto de todos, do mundo da realidade e daquilo que é uma certeza, pois todos conseguem enxergar e tocar.

Não à toa Gaston Bachelard dividiu seus estudos sobre o elemento terra em dois livros, A Terra e os Devaneios da Vontade e A Terra e os Devaneios do Repouso. A terra é justamente o elemento do trabalho, do esforço, da realização, de tudo aquilo que é de fato concretizado no “mundo real”.

Para o astrólogo Stephen Arroyo “uma afinação com este elemento indica que o indivíduo está em contato com os sentidos físicos e com a realidade do aqui-e-agora do mundo material”.

Ar

O ar é o elemento do pensamento e como disse Descartes “Penso, logo existo”. Existimos como ser humanos porque além de respirar pensamos e esse pensamento – e a nossa inteligência – nos diferencia dos outros animais e formas de vida.

Os signos de ar são considerados os signos dos relacionamentos. É através do ar que, astrologicamente, as pessoas interagem. Por ser o elemento do pensamento, do intelecto e da razão, é justamente o ar o que permite a comunicação entre as pessoas.

Especialmente quando falamos em comunicação social, em vida social, o elemento ar sempre se faz presente. “Bate-papos sobre os mais variados assuntos, conversas interessantes, discussões objetivas e inteligentes, mostrando verdadeira tolerância com relação ao ponto de vista dos outros” são mesmo características do elemento ar.

Água

Aproximadamente setenta por centro do planeta Terra é composto de água. Coincidência ou não, setenta por cento do corpo humano é composto por água.

Astrologicamente, água é o elemento associado às emoções e aos sentimentos. Ou como bem define Amanda Costa, “o elemento água simboliza os sentimentos e os estados inconscientes e anímicos”.

A imaginação é um dos dons mais fortes do elemento água. Para Liz Greene “pessoas de água têm uma imaginação maravilhosa. Elas são também sensíveis, receptivas e profundas”. Mas a água é “um tipo particular de imaginação”. Mais do que isso:

“A água é também um tipo de destino, não mais apenas o vão destino das imagens fugazes, o vão destino de um sonho que não se acaba, mas o destino essencial que metamorfoseia incessantemente a substância do ser”.

Bachelard

Os Doze Signos: Expressões dos Elementos

Os signos astrológicos nascem dos quatro elementos da natureza: fogo, terra, ar e água. Como cada um deles pode ser expressado de três diferentes formas, temos doze signos. Os quatro elementos podem se manifestar através de um dos seguintes ritmos:

Ritmo cardeal ou cardinal: tem a ver com iniciativa e ação. É o impulso primeiro, a capacidade de agir e começar.

Ritmo fixo: tem a ver com a manutenção. É o movimento do não movimento. A preservação e a contenção. É aquilo que se mantém, que permanece estável e seguro.

Ritmo mutável: tem a ver com movimento, adaptação, flexibilidade e mudança. É o que conecta uma à outra coisa, um ao outro ritmo. É o que sempre muda.

“A combinação dos quatro elementos com as três modalidades resulta nos doze padrões primários de energia, denominados signos do zodíaco”.

Arroyo

Assim, o fogo pode se expressar das seguintes maneiras. Fogo cardinal, Áries, o fogo em movimento. A chama. O impulso da vontade. Fogo fixo, Leão, o fogo do Sol. O fogo mais quente. O impulso vital. Fogo mutável, Sagitário, o fogo em movimento. O impulso aventureiro.

A terra, por sua vez, pode se manifestar das seguintes formas: Terra fixa, Touro, a manutenção das coisas. A vontade de permanecer. Terra mutável, Virgem, a terra em movimento. A vontade eficiente. Terra cardinal, Capricórnio, a terra realizadora. A vontade de conquistar.

O elemento ar também se expressa das três formas: Ar mutável, Gêmeos, o ar em movimento. O pensamento em mutação. Ar cardinal, Libra, a troca intelectual. O impulso compartilhador. Ar fixo, Aquário, o ar comprimido. O impulso intelectual criativo.

Por fim, o elemento água também pode se manifestar de três formas: Água cardinal, Câncer, a água do rio. A fonte que gera a vida. Emoção em ação. Água fixa, Escorpião, a água do vulcão ou da lagoa. Emoções profundas. Água mutável, Peixes, a água do mar. Emoções infinitas em mutação.

Vale ressaltar que, no zodíaco, cada elemento aparece primeiramente no ritmo, ou forma, mais afinado à sua essência. O universo astrológico é coerente como um conto da natureza, que conta a história da vida e a cosmologia do ser humano.

A Personalidade Astrológica

Eu sou a luz das estrelas, eu sou a cor do luar, eu sou as coisas da vida…

Raul Seixas

O universo que cerca a Terra também está dentro do homem. Os elementos e ciclos da natureza formam os doze signos que estão também em nós. Estão em nosso corpo e em nossa personalidade. Somos uma combinação de fatores e carregamos o cosmo dentro de nós. Essa combinação está presente no mapa astral de uma pessoa, sempre único e composto de diversos aspectos, que vão muito além do signo solar.

Astrologia e Narrativa

The moon and Venus as seen by the Clementine probe in 1994.

A Astrologia é uma narrativa que envolve interpretação. Um astrólogo “lê” o céu e traduz os ciclos celestes. Como diz a astróloga Bernardete Brady, “o céu não é uma simples linha, mas também contém mitologias, histórias e narrativas”.

Qualquer astrólogo que analise um mapa astrológico, ou seja, a história celeste de alguém, verá os mesmos sinais e símbolos, os mesmos fatos, qualidades de tempo e acontecimentos. No entanto, cada um irá traduzir de acordo com sua própria história e bagagem pessoal e conforme seu próprio mapa astrológico. Como uma narrativa que vai sendo contada, um mapa astrológico desdobra-se no tempo e conta uma história real, a história da vida de alguém. Essa história pode ser contada do passado para o presente, do presente para o passado e do presente para o futuro.

Pode-se pensar o mapa como um labirinto ou, em outras palavras, como algo que possui essa estrutura labiríntica. Conforme nos apresenta Lúcia Leão “os labirintos são signos de complexidade” e assim como labirintos são complexos, um mapa astrológico também é. Aliás, a própria Lúcia Leão associa os mapas aos labirintos. Ela diz que “no estudo dos labirintos, um tópico bastante importante diz respeito ao conceito de mapa”.

No caso de um mapa astrológico, este mapeia um labirinto cósmico, que ao mesmo tempo registra um labirinto já percorrido e projeta um labirinto a ser percorrido. Isso acontece justamente porque o mapa astrológico contém ao mesmo tempo o passado, o presente e o futuro.

Conforme Vladimir Propp “A narrativa assegura funções antropológicas indispensáveis à sociedade humana: funções cosmogônicas, institucionais e criativas”. E se a Astrologia é uma narrativa, ela também contém essas funções por ele apontadas. Possui especialmente a função cosmogônica que, para ele, está ligada “à maneira como uma civilização concebe a origem do universo e a sua própria localização no espaço e no tempo”. Ora, a Astrologia trabalha justamente com tempo e espaço, localizando o indivíduo de acordo com ambos os fatores e, além disso, analisa a qualidade do tempo, sem para isso deixar de considerar o espaço.

Propp analisa especialmente a narrativa presente nos contos míticos, mas traça uma relação entre a história e a narrativa. Segundo ele, há uma mútua implicação entre ambas. Para ele a narrativa não apenas dá sentido à história como produz historicidade. Por isso, ainda de acordo com o conceito de Propp, a narrativa é predominantemente metonímica, pois seleciona e articula os paradigmas culturais que fazem o cotidiano.

O mapa astral de uma pessoa é seu DNA astrológico. O DNA contém informações e instruções genéticas que coordenam o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos. Da mesma forma, um mapa astrológico contém instruções e informações sobre a vida de determinado ser vivo. Portanto, é algo que conta a história real da vida de alguém. No entanto, à Astrologia pode ser aplicada a linguagem mitológica, apesar desta linguagem não contemplar totalmente esse saber. A mitologia pode, na verdade, ajudar a explicar o funcionamento astrológico e fazer uma espécie de ponte ou interface entre sua linguagem simbólica e o entendimento humano. Assim, dentre as narrativas possíveis a partir de um mapa astrológico, a mitologia com toda sua estrutura é uma das formas possíveis.

Voltando à teoria de Propp, podemos pensar que a narrativa astrológica ajuda a dar sentido à vida humana, pois permite uma explicação sobre eventos, reações e situações individuais e coletivas que conecta o homem à natureza e aponta coerência e significado à existência.

Um mapa astral e os ciclos astrológicos ajudam, portanto, a contar a história de uma pessoa e, além disso, a atribuir significado a esta história e vida humana, dando um sentido ao que acontece e atribuindo qualidade ao tempo vivido.

Cristina Balieiro e Beatriz Del Picchia ainda consideram que “A jornada para o mais profundo e autêntico de si mesmo é expressa na narrativa de uma vida”. Essa é justamente uma das funções do mapa astrológico: narrar a vida. E como elas complementam: “Assim como cada pessoa é única, cada história é única e, de certa forma, mostra como a vida moldou aquela identidade e ao mesmo tempo foi moldada por ela”.

A escritora e astróloga Amanda Costa lembra que “a Astrologia, como um sistema simbólico fundado em estruturas arquetípicas” é uma “nova leitura do real” proposta pelo também astrólogo, escritor e jornalista Caio Fernando Abreu. Tanto que a Astrologia foi fundamental em boa parte do processo de escrita de Caio. Por sinal, encontramos muita Astrologia em toda obra a do escritor.

Também é interessante pensar quando Roland Barthes diz que “a narrativa, ao mesmo tempo, é (tient) e pretende ser (aspire)”. Isso reflete a estrutura de um mapa astrológico que ao mesmo é, porque mostra uma pessoa e sua vida e ao mesmo tempo pretende ser porque também contém tendências, aspectos e possibilidades que nem sempre chegam a ser ou acontecer.

Mapa Astrológico: História de Uma Vida

zodiak

O mapa astral conta a nossa história e nós contamos a história do nosso mapa. Pode ser sentido como “um símbolo vivo do universo inteiro, visto de um determinado lugar, num determinado instante”.

Os ciclos astrológicos falam dos eventos coletivos e através das observações astrológicas podemos fazer um retrospectiva na história e contar o passado, podemos analisar o presente e podemos prever o futuro.

Como conta o astrólogo Maurício Bernis, existem correlações entre as posições dos astros e os eventos humanos, já que todos os mecanismos de funcionamento do universo obedecem a cíclicas naturais. Assim, os ciclos celestes contam a história da vida terrestre.

Cada mapa astrológico é, como o próprio nome diz, um mapa que nos apresenta o caminho de vida. O mapa astrológico é também um roteiro, a partir do qual desenvolvemos nossa vida.

Quando consideramos o mapa natal, cada um tem o seu, porque como existem infinitas combinações possíveis no cosmo, o mesmo céu jamais se repete. Assim, a cada instante, temos uma configuração celeste distinta.

Regina Machado compara as diferentes visões possíveis em um determinado assunto a janelas das quais se vêem diferentes paisagens, de ângulos particulares. A Astrologia é uma dessas janelas, uma forma de olhar o mundo e de contar sua história, uma das muitas maneiras possíveis de contar e compreender a história da humanidade e a história de cada um de nós.

Astrologia e Mídia

“Vemos, então, vários pontos de encontro – que vão dos temas aos procedimentos usados – entre os Mitos astrológicos e a Mídia”.

Malena Segura Contrera

A Astrologia está cada vez mais presente na mídia. Está nas revistas e jornais, na internet, na televisão e no rádio. Os principais portais, jornais e revistas do Brasil possuem um espaço dedicado à Astrologia. Porém, está na mídia principalmente de forma reducionista, generalista e estereotipada, por meio de narrativas resumidas, que são os horóscopos. Aliás, eles sempre estiveram presentes nos principais jornais, revistas e, mais recentemente, nos grandes portais.

Por trazer sempre uma novidade, um conselho, algo diferente, os horóscopos muitas vezes servem como um atrativo a mais em busca de audiência, já que costuma ser grande o número de pessoas que lê horóscopos diariamente.

No entanto, Astrologia é muito mais que isso e contém inúmeras narrativas possíveis. A Astrologia, aliás, está presente na mídia não apenas de forma tão clara, mas também aparece como “motivos míticos arcaicos” presentes nos “conteúdos comunicativos da Mídia”. Para Malena Contrera, portanto, é forte a “presença de conteúdos arcaicos – míticos astrológicos – nos textos da mídia contemporânea”. Neste sentido, a Astrologia participa na construção de narrativas presentes na televisão, no cinema, em livros, entre outros.

Mesmo assim, existe muito preconceito no que diz respeito à Astrologia, em geral associada a algo místico e superficial e isso também pode ter a ver com a relação existente entre ela e a mídia. Especialmente porque, além dos horóscopos, a maior parte dos textos sobre o tema falam sobre compatibilidade amorosa entre signos, previsões para celebridades ou outros temas igualmente estereotipados e generalistas, que reduzem toda complexidade da Astrologia e de suas narrativas.

Com o surgimento da internet, especialmente com os sites pessoais dos astrólogos e da presença destes nas redes sociais, este conteúdo mais profundo e complexo relacionado à Astrologia está mais presente hoje na mídia. Mas, ainda assim, ainda há muito trabalho a ser feito neste sentido.

Algumas Considerações

Apresentar as diversas narrativas existentes na complexidade astrológica é apenas o começo da construção de novas formas comunicativas para a Astrologia. Entre estas formas, estão as mídias digitais, especialmente as redes sociais, que têm se mostrado importantes canais de comunicação desta área do conhecimento, capazes de mudar sua imagem e relação com o público.

Está claro que a Astrologia interessa à Comunicação, seja pela sua participação velada na construção das diversas narrativas presentes na mídia, seja pelas possibilidade de atrair leitores por meio dos horóscopos, que nada mais são do que narrativas resumidas. Por outro lado, a Comunicação interessa à Astrologia, pois pode ser o principal catalizador de uma mudança significativa na relação existente entre ela e seu público. Neste casamento, é possível que haja um crescimento mútuo, já que a Astrologia pode oferecer narrativas ainda mais significativas à Comunicação que, por sua vez, pode ser de grande valia na construção de uma nova imagem para a Astrologia, mais verdadeira e profunda.

Magnum Opus Hermetic Sourceworks Series

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Depiction of Comet Donati (1858), published 1888. Arcturus to be seen at the comet's head - Credit E. Weiss

Vieira e a majestosa linguagem dos cometas

Pedro Bonfim Leal

Doutorando

No principio falava Deus aos homens por si mesmo, como a Adam, Caim, Noé e outros patriarcas. Depois que se introduziram no mundo os reis, falava Deus aos mesmos reis por visões e figuras, ou em sonhos, ou acordados como o Faraó, Nabucodonosor e Balthazar. Mais adiante falava pelos profetas, que duraram alguns séculos; e por meio de seus oráculos mandava anunciar as calamidades impendentes com que os havia de castigar ou de palavra aos reis e reino de Israel, ou por escrito aos de Tiro, Babilônia, Egito e outros. Finalmente, depois que os profetas cessaram, começou Deus a falar pelos cometas, que é a linguagem universal de maior majestade e horror.

Vieira

Teriam existido, segundo o relato de Vieira, diferentes maneiras como Deus comunicou aos homens suas intervenções na história humana – desde sua aparição direta, seguida da comunicação a reis por sonhos ou visões, de sua voz aos profetas em oráculos, para, finalmente, se utilizar de cometas. É interessante – e relevante para o tema aqui proposto – o gradual encobrimento assumido pela figura divina na elocução de sua fala, cuja presença se retira pouco a pouco: a pessoa inteiramente presente se “dilui” numa apresentação vaga por miragens e sonhos, desaparece por completo, mostrando-se num sussurro no ouvido de profetas, para, enfim emudecer, trocando sua voz pelo texto impresso nos céus.

Segundo Vieira, à aparição de fenômenos celestes, a humanidade se veria defrontada com acontecimentos essenciais, redefinidores dos rumos de sua história. No entanto, é importante ressaltar, o sermonista não atribui aos cometas a causa de tais ocorrências, mas o meio pelo qual as decisões divinas são anunciadas.

Esta hermenêutica celeste poderia, a princípio, ser entendida como atribuição arbitrária, ou filiação a uma ciência oculta, tal a astrologia. No entanto, surpreende em Vieira seu erudito domínio da literatura científica e filosófica sobre o tema. Nomes como Galileu, Kepler e Descartes se aliam à sua voz, ao passo que a astrologia aparece constantemente reprovada.

Tal como um exame atento evidencia, a posição de Vieira é derivada de bases científicas e filosóficas, apoiadas no pensamento de Aristóteles. Para este filósofo, os cometas seriam fenômenos meteorológicos, fisicamente explicados pelo modo como seu sistema concebia o céu. Ao aparecimento de cometas corresponderia um fenômeno terrestre, tal como secas, enchentes, etc.

Encontramos assim um minucioso trabalho de correspondência feito por Vieira em que, no decorrer da história, a aparição de cometas predisseram catástrofes naturais. São inúmeros os exemplos apontados pelo padre, os primeiros antes de Cristo, mas também alguns decorrentes de observações pessoais, com dados precisos sobre dia, local, e o fenômeno anunciado pela aparição.

Este pressuposto físico e naturalista dos cometas se reveste ainda de um sentido metafísico e teológico, pois, para Vieira, a natureza não possuiria, espontaneamente, capacidade de ordenar os elementos de modo a condensar uma massa de fogo na esfera celeste. Seria necessário, a intervenção de Deus, operador desta correspondência.

Esta consideração teológica possibilita a expansão do âmbito de significação da linguagem celeste. Vemos, assim, além de catástrofes naturais, os cometas anunciando também importantes acontecimentos políticos. Segundo Vieira, três seriam as possíveis significações dos anúncios de cometas: guerras, mudanças de império e morte de príncipes ou reis.

Nesta configuração, Vieira encontra na alma humana um equivalente invisível àquilo que, na natureza, causaria os cometas:

Não é erro falso, senão terror verdadeiro, que causa este cometa do céu; porque os vapores com que ele arde, e de que o seu fogo se sustenta, são os pecados que lá sobem da terra; e todo o pecado é cometa. O salitre com que no inferno arde o fogo, e no céu se acendem os cometas, são os pecados: no inferno os dos mortos, no céu os dos vivos; e este mineral não se cria nos cerros e desertos inocentes do sertão, mas nasce e cresce até o céu, nos vícios e escândalos das cidades, tanto mais, quanto mais populosas.

Vieira

É aqui que ao trabalho científico-aristotélico presente desde a idade média, se junta a uma teologia tão rigorosa e minuciosa quanto o que seria hoje o trabalho de um físico atômico. Aprendemos com Foucault em As palavras e as Coisas, aliás, como, até o Renascimento, mas ainda persistente na teologia barroca, todo o conhecimento segue uma dupla diretriz, da ciência herdada de Aristóteles e uma interpretação teológica do mundo.

Os hermeneutas cristãos são minuciosos observadores da natureza, sendo o motor desta investigação a busca das marcas de um texto escrito por Deus no mundo, sem haver mesmo distinção entre a linguagem humana e as coisas. Enquanto criaturas de Deus, as coisas do mundo carregariam em si uma sinalização ao criador e, deste modo, seriam signo de um sentido transcendente, tal como as palavras. Como um eco da linguagem primeira, aquela de Adão, em que palavras e coisas se correspondiam perfeitamente, as palavras eram assim entendidas como misturadas às coisas. Isto porque a linguagem não era uma propriedade humana, mas como o restante do mundo, criação divina.

Segundo João Hansen:

Fundamentando metafisicamente a interpretação, (os padres da igreja) operam com a ideia referida dos “dois livros” escritos por Deus. Um é o do universo visível, a Natureza; o outro, quando Ele se dedica às línguas e escreve em hebraico, grego e latim, é o livro das Escrituras. Cada um deles tem um dentro e um fora, havendo um sentido literal manifesto e um sentido espiritual cifrado, tanto nas coisas quanto nas palavras.

Não é à toa, relembrando as palavras de Vieira na abertura deste artigo, que o último momento de comunicação de Deus aos homens seria o de “maior majestade”. A época de Vieira é a da teologia como interpretação do texto do mundo. Não existe, portanto, ressentimento por Deus não se apresentar em pessoa, ou sua voz não ser mais ouvida. Sua linguagem, agora encoberta e dispersa pelo mundo, ainda fala a um leitor capaz de interpretá-la.

Referências

FOUCAULT, Michel. Les mots et les choses – une archéologie des sciences humaines. Editora Gallimard, Paris, 1966.

HANSEN, João Adolfo, Alegoria. Editora Unicamp, Campinas, 2006.

VIEIRA, Antônio, Obras várias do Padre Antônio Vieira. Editora Seabra, Lisboa, 1896.

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O Que a Genética e a Astrologia têm em Comum?

Ademir Xavier

Jornal de Estudos Espíritas

Resumo

Fazemos aqui uma comparação entre as consequências e extrapolações não científicas da genética e da antiga astrologia e analisamos as semelhanças segundo a visão espírita, apontando as causas subjacentes. Interessantemente, ainda que estejam distantes no tempo, essas duas doutrinas compartilham a propriedade comum de limitar ou restringir o livre arbítrio, de forma que estão em profundo desacordo com a visão espiritualista para a qual o livre arbítrio é uma propriedade inerente do ser.

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 I – Introdução

É muito comum encontrarmos hoje em dia discussões sobre as questões da consciência, sobre como a mente se estabelece e opera. Esse renovado debate (encontradas em respeitadas revistas de divulgação científica) reflete o grau crescente de interesse de alguns ramos do conhecimento científico com relação às questões do espírito. O ponto de vista subjacente que orienta as discussões ainda é materialista, apoiado principalmente por um grande contingente de biologistas (evolucionistas, fisiologistas, zoólogos, geneticistas etc.). A crença geral desses grupos sustenta que a mente humana – e, como consequência, toda individualidade humana – é o resultado de interações e conexões de entidades moleculares componentes da parte material, visível ou mensurável pelas técnicas de diagnóstico moderno, o cérebro. Não discutiremos aqui as difíceis propostas de modificação dessa concepção materialista, que têm sido levantadas mesmo dentro de círculos acadêmicos. Tomemos apenas a ideia materialista descrita acima e analisemos suas consequências para o homem, dentro do âmbito de algumas especulações a partir de partes da biologia, em particular a que trata dos mecanismos de perpetuação das espécies.

Esse posicionamento adquire grande interesse popular diante das aventadas extrapolações e implicações da genética. Através de seus princípios, a genética teve grande importância no esclarecimento dos mecanismos de aparecimento e desenvolvimento das espécies, fatos que não estavam tão claros na obra revolucionária de Charles Darwin de 1859, “Sobre a origem das espécies por meio da evolução natural”. Na verdade a comunidade científica da época dobrou-se às evidências práticas fornecidas por Darwin a favor da seleção natural que ele conseguiu junto à paleontologia e a biogeografia. Em contrapartida, o desenvolvimento posterior da teoria de Darwin, dinamizada pela genética, deu origem a diversas especulações em torno da natureza do homem (e das espécies humanas), de seu mecanismo de desenvolvimento e até mesmo de suas consequências éticas. Nasceu a ideia de que os genes (entidades no limite entre o muito pequeno e o atômico) seriam responsáveis não só pelos caracteres morfológicos de um ser vivo – que é princípio na genética – mas também de toda sua bagagem comportamental. Aplicada ao homem, essa forma radical de interpretação genética adquiriu enorme força na formada “sociobiologia” ou “darwinismo social”. Foram lançados então os fundamentos para o desenvolvimento de uma doutrina dentro das disciplinas consideradas científicas, que seria capaz de explicar completamente o indivíduo. A base de tal proposta seria a lei de perpetuação de um determinado gene como determinante de uma certa característica – seja morfológica ou comportamental, mas, principalmente, essa última quando trouxesse vantagens claramente desejáveis a toda espécie. A perpetuação do gene favoreceria diretamente a perpetuação da própria espécie. Como corolário desse princípio (que é válido para os caracteres morfológicos), seria possível alterar o comportamento dos indivíduos pela manipulação genética. Em seus fundamentos, a sociobiologia admite explicitamente que os genes contêm todo o código que descreve o indivíduo, mesmo em sua mais íntima psicologia, a saber: sobre como ele se posiciona diante de determinadas circunstâncias, de suas tendências inatas (inteligência, afetividade, relacionamento social), de seus gostos pessoais etc. É bastante óbvio ao leitor que tal doutrina está em franco desacordo com o Espiritismo. Reduzido a sua última expressão, para os sociobiólogos, o homem seria apenas um repositório para a sobrevivência dos genes que carregariam para a eternidade nossos sentimentos e modos de ser.

A sociobiologia está envolvida em uma ampla gama de debates recentes em torno das questões éticas relacionadas à genética. Tomemos também como exemplo, o ápice de algumas extrapolações que estão na raiz da sociobiologia, tal como a doutrina da eugenia fundada por Francis Galton. Segundo ela, seria possível ao Estado gerar uma elite genética pelo controle rigoroso da reprodução humana, favorecendo a perpetuação dos indivíduos desejáveis (na verdade caracteres de comportamento desejáveis) e eliminando os indesejáveis. Sabemos que alguns Estados totalitários do século XX chegaram a flertar com a eugenia como programa de desenvolvimento social com trágicas consequências.

Nosso objetivo aqui é chamar a atenção para os fundamentos que diferenciam a posição espírita das especulações advindas principalmente da genética. O principal fundamento que colide diretamente com essas recentes propostas é a noção de livre-arbítrio, facilmente reconhecida mesmo entre outras doutrinas espiritualistas. Não será difícil ao leitor nesse ponto reconhecer de imediato que as duas disciplinas enunciadas no título deste texto depõem contra essa noção. Além disso, esses fundamentos se somam a observações mais acuradas a partir de pesquisas biológicas recentes que atingem seriamente o darwinismo social como uma ciência. Para conhecimento dessas críticas, o leitor deve consultar “Os herdeiros de Darwin” por Marcel Blanc.

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II – Um Paralelo

Chamamos mais uma vez a atenção ao fato de que não estamos a criticar a genética como ciência bem estabelecida, mas sim muitas interpretações nascidas de extrapolações de estudos genéticos. Assim, a “genética” do título deste texto refere-se propriamente a tais interpretações que, como vimos, tomaram a forma seja da sociobiologia ou da eugenia. Para motivar nosso estudo, vamos construir um paralelo que se apresenta à mente moderna diante das propostas de descrição da personalidade humana pelos estudos genéticos. Tal paralelo é bastante motivador dentro do contexto da história e filosofia da ciência, pois revela aspectos correlatos entre diferentes doutrinas científicas aparentemente distantes entre si no tempo.

O que, de fato, pode haver em comum entre tais propostas e as velhas proposições astrológicas? No passado, o estudo da posição e movimento dos corpos celestes, a seu turno, desempenhou um papel fundamental na predisposição e destino de tudo o que ocorria na Terra. Em seus estudos, os astrólogos descobriram fenômenos celestes de grande importância. Aprenderam como antecipar em anos os eclipses solares a lunares e contribuíram para o desenvolvimento dos calendários, aumentando assim a riqueza de suas sociedades pela introdução de um rigoroso controle de tempo na agricultura. Não se tem dúvida de que a astronomia (considerada uma das mães da filosofia natural e, portanto, de toda ciência moderna) nasceu a partir de antigos estudos de natureza astrológica.

Vejamos agora o caso da genética, que se inicia com os estudos de Mendel no século XIX. Constituindo um dos campos mais avançados de pesquisa na atualidade (no que diz respeito à aplicação de técnicas de pesquisa empírica e a julgar pelas enormes fortunas que os governos têm gasto em seu desenvolvimento), a genética tem sido responsável por uma enorme variedade de contribuições práticas em biologia, medicina, veterinária, agricultura etc. Em seus estudos, os geneticistas têm desvendado o mecanismo oculto dos genes, tornando possível a cura de muitas doenças e a produção de substâncias que melhoram consideravelmente o desempenho fisiológico de muitos seres vivos. Ao mesmo tempo, a genética projeta sistemas biológicos nunca imaginados anteriormente. Digamos que, de uma perspectiva histórica, as modernas descobertas práticas da genética não devem em nada àquelas derivadas da astrologia.

Entretanto, a astrologia não foi praticada apenas de olho em possíveis aplicações práticas. Seu objetivo primordial era a revelação de fatos desconhecidos, o futuro das pessoas. Seu princípio básico era o de que uma pessoa nasce sob o signo de uma determinada “estrela”. Especificamente, o futuro de um indivíduo estaria, de certa forma, ligado à posição dos planetas no zodíaco. Essa ideia assume de uma forma explícita que a individualidade do ser humano (suas tendências, sentimentos etc.) está fixada pelos planetas no momento de seu nascimento. Implicitamente isso representa uma limitação ao livre-arbítrio do homem, já que este não está tão livre no momento da tomada de decisões, ou seja, alguma coisa além de si próprio intervém, tornando possível uma escolha em detrimento de outra. Ainda que se possa dizer, no contexto moderno, que os astros não influenciam diretamente uma determinada decisão particular, eles certamente fazem parte da imagem final do ser humano por terem moldado suas predisposições. Fundamentalmente, isso contrasta abertamente com a tese espiritualista do ser que tem todo seu comportamento resultante de propriedades de sua essência última, o seu Espírito.

Substituamos agora “posição dos planetas” por “arranjos especiais dos genes” e teremos quase que a mesma coisa nas modernas interpretações do papel dos genes no comportamento humano. A predisposição celeste foi apenas substituída pela molecular, possivelmente quanto mecânica em natureza, ainda que por meio de obscuras inter-relações. Assim, tanto de acordo com a velha astrologia como por algumas interpretações da natureza humana nos estudos da moderna genética, no que diz respeito à individualidade humana e quanto ela pode ser fixada em seu destino, fomos inexoravelmente pré-programados desde a hora de nosso nascimento. A comparação se estende até no momento de se evitar este ou aquele comportamento: enquanto a astrologia pode sugerir a programação baseada na hora do nascimento – segundo a posição dos planetas no céu – na impossibilidade de se alterar essa posição, as extrapolações baseadas na genética sugerem a modificação no conteúdo hereditário das células mães em um esforço para alterar o comportamento. Ambas doutrinas também conferem ao ambiente um papel modelador importante, podendo alterar consideravelmente o script pré-programado.

Em um referencial histórico mais amplo, as semelhanças são igualmente compreensíveis. No passado, a astrologia inseria-se no contexto de doutrinas religiosas politeístas. Tendo a ciência tomado o lugar da religião na sociedade moderna, é natural que as perspectivas genéticas modernas do ser humano tomassem o lugar das velhas doutrinas astrológicas que tinham igualmente algo a dizer sobre o destino e a razão de agir dos indivíduos. Não se pode, porém, deixar de atentar para uma diferença: a de que, enquanto a astrologia tinha como objetivo fundamental prever o futuro – tanto no que dizia respeito a acontecimentos terrenos e seus principais atores, os seres humanos, a sociobiologia que discutimos aqui é uma extrapolação de conclusões específicas e restritas de um ramo da biologia, a genética, cujo principal objetivo é compreender melhor os mecanismos temporais de geração, perpetuação e morfologia dos seres vivos. Um quadro geral comparando essas duas visões pode ser visto abaixo.

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III – Visão Espírita

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Não é consolador e belo poder dizer: sou uma inteligência e uma vontade livre; a mim mesmo me fiz, inconscientemente, através das idades; edifiquei lentamente minha individualidade e liberdade, e agora conheço a grandeza e a força que há em mim.

Leon Denis

Algumas ideias expostas acima como parte integrante do Darwinismo social aplicada à natureza humana parecem fortemente limitar uma das mais misteriosas propriedades do ser humano: o livre-arbítrio. Podemos descrever o livre-arbítrio como a capacidade do ser decidir entre duas alternativas ou entre um conjunto de opções por uma introspecção interna. O livre-arbítrio prende-se logicamente a razão de ser da personalidade humana, diz-se que a criatura humana age de acordo com suas pendências pessoais, e toma a decisão segundo seus interesses e inclinações quando o livre-arbítrio tem papel preponderante. Para nós, Espíritos encarnados, estamos absolutamente convencidos de que nada externo a nós influencia tal escolha, não estamos “pré-programados” ou somos controlados “remotamente” para decidir entre isso e aquilo.

Do ponto de vista espírita, assim, as semelhanças entre as extrapolações genéticas e a astrologia também têm sua razão de ser. Elas provêm de uma compreensão parcial da natureza humana. Os Espíritos foram bastante claros quanto à inexistência de scripts pré-programados determinando a personalidade humana. Na Parte 2 do Capítulo 1 de “O Livro dos Espíritos”, Kardec dirige-se aos Espíritos nos termos:

121. Por que é que alguns Espíritos seguiram o caminho do bem e outros do mal?

“Não têm eles o livre-arbítrio? Deus não os criou maus; criou-os simples e ignorantes, isto é, tendo tanta aptidão para o bem quanto para o mal. Os que são maus, assim se tornam por vontade própria.”

A resposta dada contém em si um princípio. Os Espíritos são dotados de uma capacidade própria (como no caso da inteligência), o de julgarem as coisas livremente. Compreende-se que, se não fosse assim, Deus certamente seria o responsável pela escolha “errada” e, portanto, por todo o mal que parece se originar dessa escolha. Em outras palavras, sem o livre-arbítrio, os Espíritos não passariam de meros autômatas previamente programados. A resposta, como de costume, parece não ter sido suficiente a Kardec. Ele volta ao ponto da escolha entre as duas opções possíveis com a questão 122.

122. Como podem os Espíritos, em sua origem, quando ainda não têm consciência de si mesmos, gozar da liberdade de escolha entre o bem e o mal? Há neles algum princípio, qualquer tendência que os encaminhe para uma senda de preferência a outra?

“O livre-arbítrio se desenvolve à medida que o Espírito adquire a consciência de si mesmo. Já não haveria liberdade, desde que a escolha fosse determinada por uma causa independente da vontade do Espírito. A causa não está nele, está fora dele, nas influências a que cede em virtude de sua livre vontade. É o que contém a grande figura emblemática da queda do homem e do pecado original; uns cederam à tentação, outros resistiram.”

“As influências a que cede em virtude de sua livre vontade” constituem todas as influências externas ao Espírito que atuam durante sua vida espiritual e que lhe são impostas, a fim de que consiga progredir. A decisão de qual caminho tomar diante de tais influências pertence somente ao Espírito, durante sua jornada evolutiva. Por tais fatores externos compreendemos não somente os inumeráveis fatos que o Espírito encontra na encarnação (prazeres fictícios, pessoas as quais ele tem afeto ou não, circunstâncias felizes ou de desgraça), mas também todas as condições especiais criadas pelo corpo físico no período da reencarnação. Assim, o papel da hereditariedade não é definir o comportamento humano (com exclusão do livre-arbítrio que seria função dessa programação), mas sim libertar ou limitar as capacidades já adquiridas pelo Espírito por meio de arranjos especiais ou vínculos físicos no corpo material, entendido como uma ferramenta de trabalho desse Espírito.

Considerações mais específicas ao assunto que aqui tratamos são tecidas nas questões 845 e 846. Destacamos a primeira:

845. Não constituem obstáculos ao exercício do livre-arbítrio as predisposições instintivas que o homem já traz consigo ao nascer?

“As predisposições instintivas são as do Espírito antes de reencarnar. Conforme seja este mais ou menos adiantado, elas podem arrastá-lo à prática de atos repreensíveis, no que será secundado pelos Espíritos que simpatizam com essas disposições. Não há, porém, arrastamento irresistível, uma vez que se tenha a vontade de resistir. Lembrai-vos de que querer é poder. (361)”.

No final da resposta, há uma referência direta à questão 361, onde os Espíritos reafirmam que as qualidades morais que caracterizam a índole do ser humano têm origem em seu Espírito. Poder-se-ia argumentar que as predisposições instintivas fossem determinadas geneticamente ou, no caso da astrologia, pela posição dos astros no firmamento. A Doutrina Espírita afirma que as predisposições instintivas são patrimônio do Espírito, a bagagem ou herança espiritual criada e carregada por ele mesmo através dos séculos. Isso porque a lei moral que regula a distribuição equitativa da justiça só é um conceito válido se o Espírito for o único responsável por seu sucesso ou fracasso. Tal é o conteúdo de perfectibilidade da lei, assentado sobre um princípio que se liga diretamente à origem do Espírito e a sua mais íntima natureza. Essa conclusão magistralmente integrada ao conteúdo de princípios da Doutrina Espírita é a única capaz de explicar o ser humano, ou de ao menos trazer a sensação consoladora de que não somos joguetes da sorte. Para os abusos de interpretação oriundos da genética ou da astrologia, o ser humano é uma criatura incompleta, inconsistente em si mesmo porque, para vir a ser, necessita do jogo aleatório, seja das disposições genéticas ou da posição dos astros.

Entretanto, já comentamos sobre a influência da matéria. Esta é naturalmente função do grau de adiantamento do Espírito, tanto intelectual como moral. Essa influência foi inúmeras vezes reafirmada pelos Espíritos, e pode ser encontrada em diversas respostas do “Livro dos Espíritos”. Nos estágios iniciais de evolução, é natural que os Espíritos estejam fortemente sujeitos aos ditames da matéria. A matéria não determina a decisão do Espírito, mas atua vigorosamente como vínculos que o incitam a uma ou outra direção. À medida que o Espírito evolui, os laços materiais tornam-se mais fracos, liberando-o cada vez mais para decisões independentes ou para a manifestação de capacidades em desacordo com os arranjos materiais ou leis naturais. Alguns exemplos práticos dessa liberdade relativa da matéria podem ser encontradas mesmo em nossa sociedade:

I – A liberdade de escolha de seres humanos em ter ou não filhos. Como se sabe, a reprodução é uma lei natural através da qual os genes são transmitidos a futuras gerações de uma certa espécie, por meio de um processo que é o próprio núcleo da evolução natural. Se não há reprodução dentro da espécie, esta inexoravelmente morre, tanto fisicamente como para a Natureza como um todo, já que seu conteúdo hereditário deixa de existir. Os seres humanos, que são Espíritos encarnados, podem surpreendentemente “refutar” essa lei biológica e decidir por não se reproduzir. Se admitirmos que os animais e os humanos guardam origem e natureza comuns (são seres encarnados em diferentes graus da escala evolutiva), tal escolha bizarra só pode ser compreendida dentro da relativa liberdade de decisão adquirida pelo Espírito com essa evolução. Naturalmente, devemos diferenciar aqui a decisão de não se reproduzir tomada como uma opção de vida, onde o sexo ainda é ingrediente, corrente daquela inerente ao próprio Espírito na abstinência sexual a que se dedica, as vezes durante toda a vida, por ter atingido uma relativa independência das necessidades sexuais. No caso desses seres, cujo número nossa sociedade guarda muito poucos, existe uma clara libertação de uma lei que é muito forte para o imenso contingente de encarnados.

II – Os inumeráveis e não ortodoxos comportamentos sexuais humanos. Entendemos que homossexualismo, bissexualismo e transsexualismo são fenômenos que surgem naturalmente, no sentido exposto acima, da liberdade adquirida pelo Espírito dos laços e leis materiais ou da força de seus instintos internos – originados em sua própria natureza espiritual – que refutam a escolha biológica herdada. Muitas teorias têm sido desenvolvidas para explicar tais comportamentos, partindo-se de diferentes hipóteses. Algumas delas tendem a enfatizar a “bagagem hereditária”, enquanto que outras o ambiente. Nenhuma explicação adequada e convergente tem sido encontrada. O ponto crucial parece ser a falta de uma imagem coerente do ser humano, que pode ser plenamente encontrada através da aplicação dos princípios espíritas. De fato, a reencarnação é o ponto de partida para se compreender muitos desses fenômenos, sendo o transsexualismo apenas um dos exemplos notáveis.

As aparentes similaridades entre a astrologia e a genética (tanto quanto podemos inferir do conhecimento comum dessas disciplinas) estão conclusivamente estabelecidas sobre uma visão parcial da natureza humana. Embora sejam consideradas muito diferentemente pela sociedade moderna, tanto uma como a outra limitam, de certa forma, o livre-arbítrio humano, que sofre a interferência de fatores externos no momento do nascimento. Os Espíritos, entretanto, deixaram claro que não existe uma programação de comportamento, antes, o Espírito é livre para tomar as decisões que julgar conveniente. Para isso, o Espírito utiliza os recursos materiais colocados a sua disposição, sendo ele o responsável pela escolha correta ou errada, se caiu sob esse ou aquele arrastamento. À medida que o Espírito progride, torna-se menos vulnerável à influência material, porque já demonstrou em si mesmo que está livre dela.

Há ainda a questão da escolha dos fatores materiais, que são mais ou menos estabelecidos no momento da reencarnação. Para a Doutrina Espírita, mesmo nesse instante, não existe propriamente uma “imposição externa”, mormente se o Espírito já desfruta de um certo nível evolutivo. No início de sua jornada, é razoável admitir que o Plano Maior se responsabilize pelo estabelecimento dos recursos materiais apropriados ao ser ainda em estágio embrionário, nascido “simples e ignorante”. Assim sendo, podemos dizer que a origem de todas as disposições externas durante a existência material do Espírito está fundamentalmente estabelecida nele mesmo.

Acrescentamos além disso que, mesmo se houver espaço para o livre-arbítrio dentro de certas teses (como é o caso da astrologia e do darwinismo social ou sociobiologia) esse sofre injustamente com a ação de fatores externos que não têm nenhuma relação, ainda que indiretamente, com o próprio Espírito. De certa forma, isso responde a possíveis questionamentos da astrologia e da genética aplicada ao comportamento quanto a minhas colocações anteriores sobre o livre-arbítrio nos seres e sua não determinação absoluta (determinismo comportamental fraco) pelos mecanismos externos propostos por essas teses. Em resumo, para o Espiritismo, o Espírito é o artífice do seu destino – através da simbiose entre ação e reação ligadas aos seus atos – enquanto que, para outras teses não espíritas, o destino é alterado por mecanismos alheios à vontade do ser. Para completar, lembramos que, no caso das religiões cristãs mais antigas, – seja o Catolicismo ou Protestantismo – a alma é criada por Deus no instante do nascimento. Como ela não existe anteriormente a esse evento, todas as suas predisposições naturais só podem ter origem naquele que as criou. Assim, Deus é o grande responsável por seu destino. Nesse caso extremado de determinismo comportamental, que valor pode ter o livre-arbítrio?

Referências

Marcel Blanc. Os herdeiros de Darwin. 1a Ed. pela Editora Página Aberta (1994).

Leon Denis. O problema do ser, do destino e da dor. Editora FEB, 16a Ed., Rio de Janeiro (1991).

Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 71a Ed., Rio de Janeiro (1991).

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