Astrologia Mundial e os Grandes Ciclos

Fernando Fernandes

Curso de Formação em Astrologia – Astroletiva

Eras, Ciclos e Periodização da História

Tanto a História quanto a Astrologia buscam reconhecer, no fluxo contínuo dos acontecimentos mundanos, alguma forma de padrão, elementos referenciais que permitam estabelecer periodizações válidas e minimamente homogêneas. Do ponto de vista histórico, valorizam-se especialmente as mudanças de grande porte no modo de produção e na superestrutura política-ideológica que lhe corresponde. Já do ponto de vista astrológico, os recursos mais apropriados para estabelecer um padrão compreensivo de vastas extensões de tempo são os conceitos de era, decorrente do movimento de precessão dos equinócios, e de ciclos de planetas exteriores – Urano, Netuno e Plutão, entendendo-se por ciclo o intervalo de tempo entre duas conjunções sucessivas formadas pelos mesmos planetas. Teríamos, assim, três ciclos a considerar, Urano-Netuno, Urano-Plutão e Netuno-Plutão, sendo que a inter-relação dos três, confrontada com as subdivisões internas de cada era, formaria uma grade complexa, com amplas possibilidades interpretativas.

Naturalmente, os ciclos mais longos correspondem a processos históricos de dimensões macroscópicas e de maior alcance. Tais processos não precisam necessariamente ser anunciados por acontecimentos bombásticos, nem correspondem a uma ruptura radical com o estado de coisas anterior. Suas características só são percebidas a partir da visão de conjunto proporcionada pelo distanciamento – como ocorre, aliás, com todas as grandes mudanças históricas. Da mesma forma como os planetas exteriores são invisíveis a olho nu, alguns acontecimentos de enormes conseqüências futuras passam despercebidos aos contemporâneos, e somente o transcurso do tempo irá lançar luz sobre sua verdadeira dimensão.

Vejamos agora o critério de periodização que abarca períodos mais extensos e é indicador de processos de maior amplitude: o conceito de eras astrológicas.

O que é uma Era Astrológica

Ao mesmo tempo em que realiza o movimento de rotação em torno do próprio eixo, que gera a sucessão dos dias e das noites, e o movimento de translação em torno do Sol, que cria a sucessão das estações do ano, a Terra realiza também um terceiro movimento que pode ser comparado ao bamboleio de um pião, cujo eixo pende ora para um lado, ora para outro, antes de parar completamente. Assim, o pólo celeste (que é uma extensão imaginária do pólo terrestre) descreve no céu um lento movimento circular no sentido leste-oeste, que se completa no período aproximado de 25.794 anos. Ao longo deste vasto ciclo, o pólo volta-se sucessivamente para diferentes regiões do céu. Por esta razão, a estrela polar (aquela para a qual o pólo norte aponta) também varia: já foi Thuban, a Alpha Draconis, por volta de 3000 a.C.; hoje é Polaris, a Alfa da Ursa Menor; dentro de 12 mil anos será a estrela Vega, da constelação de Lira.

Eclíptica é o plano da órbita da Terra em torno do Sol (ou o caminho aparente do Sol em torno da Terra). Zodíaco é o grupo de constelações que se situa na região da eclíptica. Sabemos que, por causa da inclinação do eixo da Terra, o plano do equador também não coincide com o plano da eclíptica, apresentando um ângulo de inclinação de aproximadamente 23 graus e 27 minutos. Por isso, em seu movimento aparente, o Sol está seis meses ao norte e seis meses ao sul do equador celeste. Em apenas dois momentos do ano o Sol corta o equador celeste, e estes momentos marcam uma igual distribuição de luz pelos dois hemisférios, assim como igual duração do dia e da noite. São os equinócios de primavera e de outono.

Na medida em que o pólo vai descrevendo seu lento movimento de bamboleio no céu, vai-se alterando também a constelação zodiacal que serve de pano de fundo à passagem do Sol nos equinócios. A constelação que marcava o equinócio de primavera no hemisfério norte na época de Sócrates e de Platão era a de Áries; era a de Peixes quando Colombo descobriu a América; e, dentro de pouco tempo, será Aquário. O ponto de interseção da eclíptica com o equador celeste, no equinócio de primavera do hemisfério norte, é chamado de ponto vernal e marca o início do signo de Áries, no zodíaco tropical utilizado pela Astrologia do Ocidente. Quando o início da primavera no hemisfério norte – o signo de Áries – coincidia com a passagem do ponto vernal pela constelação do mesmo nome, estávamos na Era de Áries. A passagem do ponto vernal para a constelação de Peixes marcou o início da era de Peixes. Este movimento se dá no sentido contrário ao dos signos do zodíaco, sendo chamado, por esta razão, de movimento precessional, que gera a correspondente precessão dos equinócios.

 Quando começa a Era de Aquário?

No caso das eras astrológicas, não há sequer um consenso sobre seus verdadeiros limites. A transição da era de Peixes para a de Aquário é tema de controvérsias que se arrastam há décadas, conforme podemos deduzir deste trecho de David Williams1:

1 WILLIAMS, David. Simplified Astronomy for Astrologers. Tempe – Arizona, AFA, 1980.

A dificuldade para determinar quando a chamada Era de Aquário começa deve-se aos diferentes sistemas zodiacais utilizados em diversos períodos. Pesquisadores modernos contribuíram para a confusão ao considerar vários pontos de partida para suas constelações zodiacais. (…) Astrônomos tornam a confusão ainda pior ao chamarem o ponto vernal, que é móvel, de zero de Áries, e por usarem um sistema de determinação do tamanho das constelações inteiramente diferente. O quadro seguinte mostra a variedade de datas determinadas por várias autoridades astrológicas:

Observa-se, portanto, que não há unanimidade nem quanto à data de início da era de Aquário nem quanto à própria duração do período precessional. De acordo com a fórmula do prof. Simon Newcomb, baseada em valores tabulados para o período de 1600 a 2100, a Terra completa um inteiro ciclo precessional (o chamado Grande Ano de Platão) em 25.794 anos. Já outros pesquisadores trabalham com durações ligeiramente diferentes.

Se não temos limites precisos, podemos pelo menos tentar compreender o sentido geral das três eras historicamente conhecidas, que são as de Touro, Áries e Peixes. Mas como fazê-lo? O astrólogo francês André Barbault, em A Crise Mundial, indica o caminho da analogia entre o simbolismo de cada era e das civilizações que nela se desenvolveram ao afirmar:

É um fato, que esse relógio das eras parece corresponder-se, em linhas gerais, com as diversas civilizações e religiões antigas. Assim, quando o Sol de primavera se elevava na Era de Touro, dominava o mitraísmo na Ásia Menor, cujo animal sagrado era o boi Ápis (analogia com o símbolo de Touro: o touro); o culto do Minotauro, que evoca a lenda do bezerro de ouro semita, estava associado às religiões da Suméria, da Síria, do Egito. Depois, quando o mesmo Sol atravessava a Era de Áries (cujo símbolo é o carneiro), a mesma raça estava sob a supremacia espiritual de Amon-Rá, o deus solar egípcio, com cabeça de cordeiro; havia o culto do velocino de ouro, do cordeiro pascal. Enfim, após dois milênios, estamos no que se chama a Era de Peixes, que é a era do Cristianismo; pois os primeiros cristãos tomaram os peixes como emblema e sinal para reuniões secretas, gravando-os nos muros das catacumbas e sobre suas primeiras sepulturas, sendo o peixe sempre o animal de sacrifício na religião cristã. Além disso, o espírito do cristianismo está conforme a psicologia do último signo zodiacal: abnegação, caridade, humanidade2.

2 Citado em: CRISTOFF, Boris. La gran catastrofe de 1983. Buenos Aires, Ed. Martinez Roca, 1979.

A Era de Touro

A Era de Touro é aquela que se estende (muito aproximadamente) entre 4000 a.C e 2000 a.C. Ao longo desses dois milênios, comunidades nômades de caçadores e coletores começam a sedentarizar-se primeiro em torno da atividade pastoril e, logo depois, da agricultura. A fixação à terra e às riquezas dela decorrentes é a marca registrada da Era de Touro.

Uma era não expressa apenas os valores de um signo, mas também os do signo oposto e complementar e, em menor escala, dos signos com que forma quadraturas. É como se o signo dominante da era representasse o Ascendente simbólico do mundo, ponto de partida de uma cruz cósmica que pode envolver todos os signos cardinais, fixos ou mutáveis. Assim, a era de Touro é também a de Escorpião no Descendente, de Aquário no Meio-Céu e de Leão no Fundo do Céu.

O eixo Touro–Escorpião explica adequadamente o processo de formação do antigo império egípcio e das civilizações mesopotâmicas estabelecidas nos vales do Tigre e do Eufrates. O desafio principal para a fixação do homem ao solo era o controle das águas dos rios, de forma a permitir a formação de reservatórios que regulassem as cheias e vazantes anuais e abastecessem canais de irrigação. A construção de diques e represas aperfeiçoa-se aos poucos, levando à extensão progressiva das áreas cultiváveis e à geração de um excedente de produção capaz de alimentar classes de trabalhadores especializados a serviço do Estado. O caso do Egito é típico deste processo, e foi o controle do Nilo que permitiu a acumulação dos recursos capazes de sustentar um enorme corpo de funcionários – sacerdotes, escribas e militares – não envolvidos diretamente com a produção agropastoril.

Escorpião simboliza a força concentrada das águas, enquanto Touro rege as construções. O represamento das águas através de enormes obras de engenharia e o aproveitamento prático dos recursos hídricos são processos típicos do eixo Touro–Escorpião. É o controle das águas (Escorpião) para manter a agropecuária (Touro) e gerar excedentes suficientes para a manutenção do Estado. Aquário no Meio-Céu responde bem à idéia de uma estrutura de poder que, pela primeira vez na história, sustenta-se não apenas pela força bruta, mas também pela capacidade de criar e administrar um sistema de circulação de riquezas baseado no controle da produção e na eficiente arrecadação de tributos.

Egito e Suméria são casos pioneiros de estados burocráticos, em que o escriba que registra o montante dos tributos é tão importante na sustentação do poder do monarca quanto as tropas do exército.

A Era de Áries

A passagem da Era de Touro para a Era de Áries é marcada por uma onda de invasões de povos bárbaros que, vindos das terras mais frias do norte, invadem as regiões férteis do Mediterrâneo, do Oriente Médio, do Egito, da Índia e da China. A chegada desses invasores desestabiliza os grandes impérios agrários, como o do Egito, e instaura momentaneamente o caos e a desordem. A superioridade dos invasores é de ordem militar: utilizam carros de combate puxados a cavalo (uma novidade) e armamentos de ferro e de bronze. O domínio do ferro, metal regido por Áries, é uma das marcas que identificam os povos surgidos nesta era.

A reorganização da vida social, política e econômica dá-se, a seguir, em novas bases, em que a agressividade bélica a serviço do expansionismo territorial desempenhará um papel preponderante. O Egito da época de Amenófis III e de Ramsés II, já na Era de Áries, é uma potência militar voltada para a disputa com os hititas pelo domínio dos corredores comerciais do Oriente Médio, em contraste com o Egito isolado e voltado para os valores da terra da Era de Touro, na fase do Antigo e do Médio Império.

As invasões da Era de Áries começam a trazer para o mundo civilizado os povos indo-europeus que constituirão a base étnica dos futuros estados da Europa. Gregos, latinos, persas e os conquistadores arianos que se estabeleceram na Índia são alguns dos povos que “entram na História” neste período. Suas religiões cultuam valores masculinos, solares, em contraste com o culto da terra e do princípio lunar e feminino, na era anterior.

Como Libra é o signo oposto e complementar a Áries, a marca libriana está presente em diversas formulações religiosas, filosóficas e institucionais da última parte deste período, como o budismo (uma religião abstrata, que valoriza o “caminho do meio”), o confucionismo (um código ético voltado para a regulação das relações sociais) e o próprio direito romano, cujos pilares são estabelecidos. Na Grécia, novas experimentações políticas e institucionais levam à democracia ateniense, ainda restrita a uma pequena elite (os escravos e estrangeiros, que somavam juntos 90% da população, não são considerados cidadãos), mas já incorporando mecanismos de debate e de livre escolha entre posições conflitantes.

De qualquer forma, os dois milênios anteriores ao nascimento de Cristo caracterizam-se pelo predomínio das monarquias despóticas e teocráticas. Com Áries no Ascendente Simbólico da era, o Meio-Céu estava ocupado por Capricórnio, indicando a vigência de um modelo de poder baseado na hierarquia, na tradição e na rígida estratificação social. Com Touro na Casa 2, a riqueza estava associada à agricultura e às atividades pastoris. Nestes dois milênios, sucedem-se como grandes potências no Oriente Médio os impérios teocráticos do Egito, da Caldéia, da Assíria e da Pérsia.

Na medida em que a era se aproxima de seu término, começa a verificar-se um lento deslocamento do eixo de poder do Oriente para o Ocidente, especialmente após a formação do império helenístico de Alexandre, o Grande. A Macedônia, cujo trono Alexandre herdou, era um reino vizinho à Grécia e sob sua esfera de influência cultural. O próprio Alexandre foi educado por professores gregos. Ao unificar toda a região entre o Egito e o vale do Indo, nela introduziu os valores da cultura grega que, em contato com as culturas locais, geraram a base da civilização helenística. Alexandre, ao derrubar fronteiras políticas, econômicas, étnicas e lingüísticas, concorreu para a dissolução (um sentido de Peixes) das estruturas da Era de Áries e abriu caminho para um novo ciclo de civilização. Pela primeira vez, porções consideráveis de território asiático encontravam-se sob a hegemonia de uma potência européia. Este fato, por suas profundas implicações futuras, pode ser considerado o início do processo de transição da Era de Áries para a Era de Peixes.

A Era de Peixes

A Era de Peixes é, antes de tudo, a Era da Europa e da trajetória da civilização ocidental no rumo da hegemonia planetária, processo que se afirma com maior força em sua quarta e última fase, que vai da expansão marítima ibérica até os nossos dias.

O que vemos hoje é a adesão de praticamente todos os países do mundo a um modelo de estruturação política e social de inspiração européia. As conseqüências da revolução industrial atingem todos os continentes, e o modelo tecnológico e de organização de trabalho segue um mesmo padrão em todos os quadrantes da Terra. O processo de globalização deu-se a partir de parâmetros europeus – ou norte-americanos, sendo estes os herdeiros e continuadores diretos da civilização européia. Para competir em pé de igualdade, povos de cultura tradicional tiveram de ocidentalizar-se, sendo o Japão o caso mais evidente.

Eis, então, o traço mais definitivo da Era de Peixes: o deslocamento do eixo de poder da Ásia para a Europa, sendo a Europa praticamente um sinônimo de cristandade, ou seja, de um conjunto de povos unidos pelo traço comum da religião cristã e da herança cultural greco-romana.

Para entender o significado da transição da Era de Áries para a de Peixes, é preciso investigar o período entre o quarto século a.C e o quarto século d.C. em busca de indicações do que desaparecia neste período para dar lugar a algo novo. Um bom começo é considerar o efeito das conquistas de Alexandre, cujo governo estendeu-se de 336 a.C a 323 a.C., sobre o mundo civilizado:

Alexandre desenvolveu intensa atividade no sentido de realizar a fusão de gregos e persas, promovendo a união de vencidos e vencedores e desenvolvendo a helenização do mundo antigo. Encorajou o casamento de ocidentais e orientais, ele mesmo desposando princesas persas; incorporou jovens persas helenizados ao seu exército (…); mostrou-se tolerante com os deuses e costumes dos vencidos, inclusive copiando o cerimonial asiático, mantendo os quadros administrativos e adotando práticas orientais, como a poligamia e o despotismo teocrático (proclamou-se filho de Amon e de Zeus). Paralelamente, tornou o grego o idioma oficial do Império e multiplicou a fundação de cidades. (…) Obrigando milhões de indivíduos a revisarem seus preconceitos de raça, a manter uma certa coexistência de interesses materiais, a tolerar as mesmas idéias religiosas, a compreender um mesmo idioma, Alexandre, por sua obra, marcou o início de uma nova era que se prolongaria até a conquista romana3.

3 SILVA, José Luiz Werneck da. & AQUINO, Rubim Santos Leão de. História Antiga e Medieval. Rio de Janeiro, Guymara Ed., 1970.

Não é difícil perceber Alexandre como um agente precursor da Era de Peixes, na medida em que cumpre papéis piscianos: integrar, dissolver fronteiras, fundir, diluir as diferenças. Para alguns pesquisadores, aliás, o período helenístico é considerado como já pertencente à era de Peixes. Contudo, melhor seria defini-lo como a fase de apogeu e início da desintegração das estruturas da era anterior, um período de transição em que o velho ainda coexiste com as sementes do novo.

Outro fator de transição é a emergência de Roma como potência imperialista, o que se dá especialmente a partir das Guerras Púnicas, contra Cartago, entre 264 a.C. e 146 a.C. Em muitos aspectos, a expansão romana foi facilitada pelo trabalho de integração cultural e econômica realizado por Alexandre. Ao dirigir seus exércitos para o Oriente, Roma não mais encontrará as velhas monarquias teocráticas, mas apenas os frágeis reinos helenísticos que resultaram da desagregação do império macedônio. O que Roma traz de já indicativo da nova era é o aperfeiçoamento da superestrutura jurídica – o Direito Romano – que fornece um parâmetro abstrato e lógico para o ordenamento das relações sociais e econômicas. A Era de Peixes tem os signos mutáveis nos ângulos do mapa simbólico do planeta. Na Casa 10, está Sagitário, o signo que expressa os princípios da lei e da cultura superior.

O terceiro fator na transição de eras é o advento do Cristianismo, cuja ascensão deve-se antes de tudo ao próprio conteúdo moral e religioso da nova crença, que apresenta os seguintes fundamentos:

O monoteísmo que coloca a comunhão com Deus, o Pai, por intermédio de seu filho Jesus; o amor a Deus e ao próximo, considerado como irmão; (…) o desapego aos bens materiais, infinitamente inferiores aos bens no Reino Celestial; a igualdade, a pureza e a humildade do coração; o perdão das injúrias e a caridade; enfim, a salvação prometida aos que acreditassem e cumprissem seus ensinamentos, enquanto os demais seriam condenados. (…) O próprio caráter universalista da religião, imprimido por Paulo de Tarso (…) que pregou a conversão de todos os homens, e seu ideal de igualdade de todos perante a divindade constituiu um motivo de sucesso entre os pobres, os humildes e os escravos, tendo, por meio destes, penetrado nos lares dos poderosos, influenciando inicialmente os filhos e as esposas de seus senhores4.

4 SILVA, José Luiz Werneck da. & AQUINO, Rubim Santos Leão de. Op. Cit.

Vários desses traços remetem a conteúdos do signo de Peixes: o caráter universalista, o desapego, o amor e a caridade sem fronteiras, a difusão entre os pobres e escravos. Outros, como a valorização da humildade e da pureza, expressam o signo oposto e complementar, Virgem. A expansão do Cristianismo foi grandemente beneficiada pela:

Vitalidade da civilização helenística, que criara vínculos comuns aos mundos grego, oriental e romano. A língua grega serviu de veículo inicial de transmissão do Cristianismo, tendo permanecido até metade do século III como a língua oficial da religião cristã. (…) A unificação política do mundo mediterrâneo, sob a égide de Roma, também contribuiu para a propagação da fé cristã. Com efeito, a cristianização (…) foi facilitada pela existência de um denominador comum, o Império, do qual as estradas eram um veículo de romanização e, posteriormente, de divulgação do Cristianismo5.

5 Idem.

Portanto, em correspondência com a natureza dual do signo de Peixes, as grandes bases civilizatórias da nova era são também duplas: de um lado, a herança cultural da Grécia e dos reinos helenísticos, assimilada e preservada por Roma; de outro, o Cristianismo, religião pisciana por excelência, nascida entre pescadores e consolidada no martírio de Jesus e dos primeiros seguidores. Sem dúvida, a nova religião é o fator central das mudanças da passagem de era.

Mas que data podemos definir como marco inicial da Era de Peixes? Simbolicamente, o nascimento do novo messias no rústico ambiente de uma estrebaria, filho de uma mulher considerada pura e identificada com o signo de Virgem, e anunciado por configurações fortes o suficiente para atrair a atenção dos astrólogos da época (os reis magos), atende todos os requisitos para representar este momento inicial. Já se sabe que o nascimento de Cristo ocorreu algum tempo antes da data utilizada como referência para o calendário cristão, provavelmente no ano 7 a.C. Mas somos de opinião que o início de uma era não pode ser reduzido a um momento, sendo muito mais um período transicional que pode estender-se por vários anos, ou décadas.

Entretanto, estabelecer um ponto de partida para o início da Era de Peixes é importante como base de referência para tentarmos investigar quando se dará o momento inicial da era seguinte – a de Aquário.

Dividindo Uma Era em Doze Etapas

Uma ferramenta de investigação de grande utilidade foi proposta pelo astrólogo uruguaio Boris Cristoff, que sugeriu a divisão das eras astrológicas em doze períodos menores, sub-eras ou fases, cada uma em analogia com um signo e uma casa. Assim, o primeiro duodécimo da era teria sempre um sentido ariano (ou de casa 1), o segundo, de Touro (ou de casa 2), e assim por diante. Tal proposição encontra respaldo num dos princípios fundamentais em Astrologia, que é o da analogia entre ciclos, que permite transpor conceitos e significados de ciclos mais amplos para os mais curtos, e vice-versa. Tais analogias estão baseadas na correlação entre os três principais movimentos da Terra: a rotação, a translação e a precessão dos equinócios. Assim, se o ano de aproximadamente 365 dias gerado pelo movimento de translação pode ser dividido em doze porções, cada uma correspondendo a um signo, o mesmo pode ser feito em relação ao Grande Ano de Platão, de quase 26 mil anos, gerado pela precessão dos equinócios. E cada 1/12 avos deste Grande Ano – cada era astrológica, portanto – pode, por sua vez, sofrer nova subdivisão por doze, para gerar sub-eras.

Boris Cristoff, para sua infelicidade, desenvolveu esta interessante discussão num livro cuja proposta maior revelou-se um enorme fracasso em termos de previsões coletivas: A grande catástrofe de 1983, escrito no final dos anos setenta. Neste livro, Cristoff tenta provar, com base em profecias e evidências astrológicas, que o ano de 1983 seria marcado por terríveis hecatombes mundiais, incluindo gigantescos terremotos e o desaparecimento de países inteiros. Como nada aconteceu, o livro caiu no esquecimento e, com ele, a discussão sobre as sub-eras.

Cristoff, aliás, parece ter incorrido em outros pecados: estabelece como ponto de partida da era de Peixes o ano zero do calendário cristão, como se correspondesse verdadeiramente ao nascimento de Cristo; estabelece para o Grande Ano de Platão uma duração de 25.200 anos, que não é aceita unanimemente pelos especialistas; e dá para cada era uma duração de 175 anos, que também pode ser contestada. A seguir, define o conteúdo astrológico de cada sub-era de forma um tanto simplificada e esquemática, sem entrar em maiores considerações de ordem histórica ou cultural.

Tentaremos resgatar a proposta central de Cristoff de que uma era pode ser subdivida em doze fases, cada uma carregando conteúdos do signo e casa correspondentes. Contudo, em vez de estabelecer datas e, a partir daí, procurar processos históricos que correspondam ao simbolismo astrológico, faremos o percurso oposto, que é buscar, no desenvolvimento da civilização ocidental, momentos coletivos que carreguem um sentido deste ou daquele signo, para apenas depois tentar uma periodização mais detalhada.

As Doze Fases da Era de Peixes

No caso das eras e sub-eras, estaremos lidando sempre com processos coletivos, macroscópicos, tão vastos no tempo e no espaço que sua verdadeira natureza só pode ser percebida com clareza a partir de uma perspectiva extremamente distanciada e abrangente. Trata-se de uma escala de tempo e de espaço muito superior ao de uma vida humana.

Áries e a Casa 1: o irromper da cristandade

 O período inicial da era de Peixes tem uma conotação ariana e de Casa 1. Precisa estar caracterizado, pois, pela implantação de um princípio novo, fundamentalmente diverso dos conteúdos das eras anteriores. Tal princípio, como já vimos, é o Cristianismo, religião que se desenvolve a partir das camadas mais pobres e socialmente excluídas do Império Romano. É um caso raro de religião que se afirma (sentido da fase Áries ou de Casa 1) pelo sacrifício voluntário (Peixes) de seus membros. É a fase também da afirmação do poder imperial romano e da construção de uma unidade política e social cujos parâmetros institucionais já são totalmente europeus. Este é o processo que será desdobrado e aprofundado nas fases posteriores.

Touro e a Casa 2: a consolidação da Igreja

Touro e a Casa 2 têm a ver com valores, com a estabilização da forma e com o preenchimento do molde definido pelo Ascendente através da aquisição e agregação dos recursos necessários. Considerando que a forma gerada na fase ariana foi a da nova civilização de base greco-romana e cristã, este momento de estabilização e consolidação se dá com o restabelecimento da paz religiosa através do Edito de Milão, no ano de 313, que põe fim às perseguições e permite a liberdade religiosa. Ainda no mesmo século, novo passo será dado pelo imperador Teodósio, com a elevação do Cristianismo à condição de religião oficial do Estado. Livre dos problemas externos, a igreja cristã consegue concentrar esforços na própria organização: uma série de concílios fixa os dogmas da religião e inicia o processo de estruturação do clero.

Gêmeos e a Casa 3: o bárbaro que experimenta

 Gêmeos e a Casa 3 expressam conteúdos de troca, aprendizagem, dualidade, intercâmbio, mudanças rápidas e instabilidade. Politicamente, correspondem à derrocada final do Império Romano do Ocidente e sua substituição por uma miríade de pequenos reinos bárbaros, fruto da aceleração das invasões de povos germânicos e asiáticos (hunos) no antigo território imperial. Paralelamente, sobrevive na parte oriental do Mediterrâneo o Império Romano do Oriente, que também passa por intensas transformações culturais cujo resultado será o progressivo abandono das raízes latinas e a retomada do patrimônio cultural grego, sob a capa do Cristianismo. Consoante com a natureza dual de Gêmeos, consolida-se na Europa a dualidade entre o Ocidente latino-germânico e o Oriente greco-cristão. A igreja cristã tem sua unidade ameaçada pelas heresias (em grego, “opiniões separadas”) que, se já existiam desde o século II, nesta fase alcançam seu maior impacto com a conversão de povos bárbaros, como os visigodos, às seitas heréticas. É também a fase em que começam a nascer as línguas européias modernas, resultantes da desagregação do latim clássico em uma série de dialetos locais.

O sentido geminiano está em que esta fase pode ser considerada um grande laboratório de experimentação de novas formas de organização política e social. Os bárbaros recém-chegados da vida nômade das estepes apoderam-se dos sofisticados recursos do Império Romano e experimentam um poderoso choque cultural, comportando-se como “macacos na cristaleira”. É a adolescência da Europa Moderna.

Câncer e a Casa 4: em busca das raízes

 A metade do século VI marca um brilhante momento do império bizantino. Sua grande contribuição é a consolidação, no governo de Justiniano, de todo o saber jurídico até então existente através do Corpus Juris Civilis, uma obra monumental de compilação. Justiniano desenvolve uma política expansionista com o objetivo de recuperar a grandeza do império romano. É bem sucedido, mas os resultados não são duráveis:

Sua política imperialista foi um erro de proporções grandiosas porquanto, ao tentar ressuscitar o passado, comprometeu consideráveis recursos militares e financeiros em conquistas precárias6.

6 Idem.

Porém, o que impressiona no Império Bizantino desta fase é a preocupação canceriana e de Casa 4 no sentido de resgatar o passado, reconstituir o fio da meada da trajetória da civilização romana, restaurar as raízes do império. Tal tentativa revela-se artificial, pois a base populacional de Bizâncio já não é latina, e sim grega. Este fato é reconhecido pelos imperadores subseqüentes, especialmente Heráclio (610-641), que finalmente abandona o latim como língua oficial e adota o grego na legislação, na administração e até mesmo na denominação dos cargos. Com Heráclio, Bizâncio, cancerianamente, encontra sua raiz.

O século VII marca o surgimento de uma nova religião – o Islamismo – e a emergência política e militar do povo árabe, até então destinado a um papel secundário em relação às principais correntes civilizatórias. O sentido canceriano do Islamismo está presente até mesmo em seu símbolo máximo – a Lua crescente. Esta fase corresponde ao atingimento do primeiro quarto da Era de Peixes, sua Casa 4 simbólica, cujo sentido é o da fixação das bases emocionais e das raízes ancestrais da civilização. O Islamismo cumpre bem este papel, indo resgatar elementos do judaísmo, do cristianismo e dos cultos tribais para sintetizá-los numa religião simples e de grande impacto popular. O Islamismo expandiu-se rapidamente movido, entre outros fatores, por um intenso emocionalismo, que é um traço canceriano. Ao mesmo tempo, a Europa Ocidental assiste a tentativa de consolidação dos reinos bárbaros que, passada a turbulência dos séculos anteriores, iniciam um processo de fixação à terra e de delimitação de territórios.

Leão e a Casa 5: os grandes monarcas

 O século VIII marca um momento de retomada da centralização política em torno da figura de monarcas fortes que, desenvolvendo políticas imperialistas, consolidam o controle sobre vastos territórios. No Ocidente, o Papa, como líder da cristandade, estabelece uma aliança com o reino dos Francos, como forma de enfraquecer outros reinos bárbaros em que predominam tendências heréticas. Desta aliança surgirá o império de Carlos Magno, tentativa de reconstituição do Império Romano. No auge do poder, Carlos Magno faz-se coroar imperador pelo papa cujo nome já é uma revelação: Leão III.

No Oriente, duas outras potências também se estendem por enormes porções territoriais: o Império Bizantino e o Califado de Bagdá, em plena fase de apogeu sob o governo de Harum-Al-Raschid. Esta fase leonina, de centralização e estabilização, expressa também conteúdos de Casa 5 (criatividade, auto-expressão) na retomada da produção cultural, que atinge níveis altamente florescentes entre os árabes e manifesta-se na forma do “renascimento carolíngio” do Ocidente.

Virgem e a Casa 6: o isolamento feudal

Após a morte de Carlos Magno, o império fragmenta-se em unidades menores. Para os novos reinos da Europa é um momento difícil e caótico: piratas vikings, originários da Escandinávia, assolam toda a costa do Atlântico em pequenos barcos, sobem pelos rios navegáveis e arrasam povoados e plantações, espalhando o terror; os magiares, bárbaros oriundos das estepes asiáticas, atravessam as estepes russas e ucranianas para desabar sobre a Europa Oriental; ao sul, são os muçulmanos que, já instalados na Espanha desde 711, ocupam agora os pontos estratégicos do Mediterrâneo e reduzem drasticamente as possibilidades de comércio marítimo entre povos cristãos. A ação conjugada de vikings, muçulmanos e magiares paralisa a Europa e obriga à adoção de uma estrutura social militarizada, onde a preocupação defensiva organiza as populações em comunidades estanques e auto-suficientes.

Surge o Sacro Império Romano Germânico, raiz da futura Alemanha, e o reino da França. Os séculos X e XI representam o apogeu do feudalismo. A virada do milênio encontra uma Europa agrária, compartimentada em unidades políticas e econômicas descentralizadas, que funcionavam na prática como pequenos Estados independentes. Em 1066, os normandos (descendentes dos vikings que se estabeleceram na costa francesa e assimilaram a cultura dos francos) invadem as Ilhas Britânicas e instauram uma nova dinastia. É a origem da Inglaterra moderna.

Outro fato importante que marca essa época é a definitiva cisão, em 1054, entre as igrejas de Roma, chefiada pelo papa, e de Bizâncio, chefiada pelo patriarca de Constantinopla. É o Grande Cisma (cisão), que dividirá, daí em diante, a cristandade em dois blocos: católicos na Europa Ocidental e ortodoxos na Europa Oriental.

Por outro lado, desencadeia-se nos séculos X e XI um processo de aperfeiçoamento das técnicas agrícolas que resulta no aumento gradativo da produtividade e na geração de excedentes para o comércio. É desse movimento que virá, já na fase Libra, o renascimento comercial e urbano da Europa, a partir da segunda metade do século XI.

A fragmentação de impérios em reinos menores, a acentuação das diferenças étnicas, políticas e religiosas, os lentos mas seguros avanços no campo material, tudo isso remete a Virgem, signo da discriminação e da fragmentação do todo em partes. Outro sentido virginiano está presente no apogeu cultural da civilização muçulmana, que assume as tarefas de revisão, filtragem e repasse do patrimônio cultural clássico (rever, filtrar e aperfeiçoar são funções de Virgem).

Libra e a Casa 7: a cristandade em armas

 Com os aperfeiçoamentos tecnológicos iniciados na fase anterior, a Europa entra numa fase de maior prosperidade, caracterizando um renascimento comercial e urbano a partir das últimas décadas do século XI. A chegada de uma nova ameaça à cristandade é representada pelos turcos vindos da Ásia Central que, após converterem-se ao Islamismo, apoderam-se aos poucos das principais fontes de produção e vias de comércio do Oriente Médio. A tomada de Jerusalém pelos turcos soa como o sinal de alerta para a cristandade e como pretexto para que o papado e as lideranças feudais desviem a população excedente da Europa para um grande esforço bélico multinacional: as cruzadas. É o conflito de duas grandes correntes civilizatórias, a cristã e a islâmica, caracterizando todo o período com um claro toque libriano e de Casa 7. É o confronto com a alteridade, com todas o seu leque de possibilidades: acordo, compromisso ou guerra.

O auge do movimento cruzadista estendeu-se de 1099, quando a primeira cruzada conquista Jerusalém, a 1204, quando a quarta cruzada, desviada para Constantinopla por interesses comerciais, forma um efêmero império latino em território de Bizâncio.

É uma época contraditória: ao mesmo tempo em que existe fanatismo religioso e guerra permanente contra os infiéis, existe também um intenso movimento de troca entre as duas civilizações em conflito. Desta troca resultará a reintrodução da cultura clássica no Ocidente, que fora preservada pelos árabes, assim como o progressivo incremento do consumo de artigos de luxo, especialmente de tecidos. A vida urbana ganha terreno e refina-se aos poucos, em contraste com o dura austeridade dos séculos anteriores. Tudo isso reflete conteúdos de Libra: a era chega a seu ponto intermediário – a oposição – e a civilização cristã caminha para a sofisticação e para a crescente complexidade dos séculos seguintes.

Escorpião e a Casa 8: a hora da peste

 Em meados do século XIV, a Europa sofre a maior de suas crises, desde o advento da era cristã. O inimigo maior, desta vez, não é o guerreiro bárbaro, mas um bacilo invisível e insidioso, que chega ao continente no aparelho digestivo dos ratos de navio. Não é difícil perceber na Peste Negra um forte conteúdo de Escorpião e de Casa 8. É o sombrio véu da morte que desaba sobre a Europa, dizimando um terço de sua população. Paralelamente, uma ameaça mais palpável muda os rumos da história na Ásia, com reflexos sobre a Europa: é o auge da expansão das hordas mongólicas e turco-tártaras para o Ocidente. As ricas civilizações bizantina e árabe-persa sofrem com a chegada dos guerreiros bárbaros de Tamerlão que, vindos das profundezas das estepes asiáticas, espalham o terror, arrasam Bagdá e põem em cheque a sobrevivência bizantina. A civilização ocidental passa, neste período, por um aparente retrocesso, para voltar a expandir-se mais adiante, em busca de novos horizontes.

Sagitário e a Casa 9: expansão e fé

 O período da expansão marítima européia tem um evidente sentido sagitariano. É uma ampliação de fronteiras culturais e econômicas que se dá pela via oceânica, caracterizando claramente o sentido da fase sagitariana da Era de Peixes.

As décadas que marcaram mais fortemente este período são as que vão de 1488 – chegada de Bartolomeu Dias ao cabo das Tormentas, no extremo sul da África – à primeira viagem a dar a volta à Terra por mar, por Fernão de Magalhães, entre 1519 e 1522. Entre uma e outra, a chegada de Colombo à América, em 1492, e de Vasco da Gama às Índias por mar, em 1498.

Nesta mesma fase, ocorre também a Reforma Protestante, iniciada por Lutero e aprofundada por Calvino. Enquanto navegantes e piratas exploram os mais longínquos oceanos, a Europa mergulha em sangrentas guerras de religião. Não é preciso lembrar que tanto as longas viagens quanto a religião organizada são assuntos de Sagitário e de Casa 9.

Capricórnio e a Casa 10: a hora do poder

 A fase Capricórnio teria de estar ligada a valores deste signo: hierarquia, materialismo, fortalecimento das estruturas de poder, conservadorismo. É a fase do máximo fortalecimento das monarquias européias na forma dos regimes absolutistas. E é também a fase em que a Europa começa a libertar-se do jugo restritivo da Igreja e a desenvolver visões filosóficas e teorias científicas que vão de encontro à visão teológica até então vigente. O século XVII é o século do empirismo, da lei da gravidade, do desenvolvimento da mecânica e dos modelos matemáticos do universo.

O longo reinado de Luís XIV, na França, é o fenômeno político mais refinado do regime absolutista. A famosa frase atribuída a Luís XIV – “Après moi, le déluge” (Depois de mim, o dilúvio) – parece esconder uma profecia de base astrológica: efetivamente, depois de Capricórnio vem Aquário, o signo do Aguadeiro.

Aquário e a Casa 11: as luzes da ciência

 Não é difícil perceber uma forte conotação aquariana e de seu regente moderno, Urano, nos processos políticos e econômicos que transformaram a face da Europa no final do século XVIII: a Revolução Francesa, com seus ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade (todos conceitos aquarianos) e a Revolução Industrial. O século XIX e o início do século XX carregam também o toque aquariano no movimento expansionista do capitalismo industrial, no enorme impulso

tecnológico e na elevação da ciência quase à categoria de uma nova religião. É a época da máquina a vapor, da descoberta da eletricidade, do trem de ferro, da microbiologia, da invenção do automóvel. Surgem os meios de comunicação à distância, como o telégrafo, o rádio e o telefone. Uma verdadeira revolução urbanística começa a substituir cidades ainda de aspecto medieval por metrópoles modernas, de avenidas largas e arejadas. Paris dá o exemplo, no reinado de Napoleão III, e assume o aspecto que preserva até hoje. Nos novos países do Ocidente, como os Estados Unidos, desenvolve-se uma sociedade cujos valores favorecem a livre iniciativa e a liberdade de expressão. As cidades americanas assumem um aspecto futurista, com seus arranha-céus. Na Europa Oriental, a Rússia inaugura a experiência de um regime que se propõe a socializar em bases equitativas os frutos da produção.

A expectativa quase ingênua de que a ciência e o desenvolvimento tecnológico criariam condições para a paz e a prosperidade é subitamente posta em cheque com o barbarismo da primeira guerra mundial e com os acontecimentos da década de trinta. O capitalismo entra em crise. O desemprego e a desesperança abrem as portas para regimes totalitários na Alemanha e em outros países. Surge outra vez a figura do líder forte e providencial – um arquétipo de Leão, signo complementar a Aquário. E surge, com as bombas de Hiroshima e Nagasaki, a possibilidade concreta da extinção da raça humana.

O conceito aquariano de fraternidade preside a criação de organismos internacionais de ajuda mútua e de preservação da paz mundial: a Liga das Nações, a ONU, a Organização Mundial da Saúde, a Unesco, etc. Por outro lado, jamais tão poucas potências acumulam tanto poder de fogo quanto neste período. Contudo, o que prevalece é o enfrentamento estratégico através da chamada Guerra Fria (Aquário). A impessoalidade começa a ser um problema definido nas relações humanas e nas relações entre governos e populações.

Peixes e a Casa 12: as lições não aprendidas

 A última fase de uma era guarda correlação com a Casa 12, aquela que simboliza a necessidade do confronto com os conteúdos das casas anteriores, com vistas a uma nova síntese e a um novo recomeço. Sendo a fase pisciana de uma era pisciana, o paradigma civilizatório instituído na fase de Casa 1 está aqui enfatizado, pela dupla ênfase em Peixes. Os esqueletos guardados no armário tendem a reaparecer e a provocar mal estar. É a hora de resolver pendências milenares.

Toda a era de Peixes foi uma longa trajetória de ascensão da civilização ocidental em busca da hegemonia mundial. Houve momentos de crise e de aparente retrocesso, especialmente na passagem pelas casas que limitam o Fundo do Céu – a 3 e a 4 – e naquelas tradicionalmente associadas a processos críticos, a 6 e a 8 (que simbolicamente estão em quincúncio com o Ascendente da era). E houve um claro momento de expansão e de apogeu, na passagem pelas casas 9, 10 e 11. De qualquer forma, é natural que o final da era – sua fase de casa 12 – traga de volta problemas relacionados ao mau uso das energias corporificadas nos signos e casas anteriores.

A civilização ocidental tem seu fundamento na generosidade dos preceitos cristãos e na universalidade de suas propostas. Contudo, o “Amai-vos uns aos outros” do primeiro momento traduziu-se na deturpação de uma religião que acobertou todas as formas de beligerância, intolerância e discriminação. A possibilidade de uma síntese entre os valores do Ocidente e do Oriente colocou-se na fase de Libra e da Casa 7, durante as cruzadas. A cristandade optou pela tentativa de aniquilação do “diferente”, visto como infiel e inimigo. A possibilidade de utilizar a concentração de recursos e poderes em prol de um grande projeto de disseminação de um novo paradigma de civilização colocou-se duas vezes, nas duas passagens pelos signos do eixo Casa 5-Casa 11. Em ambas, as luzes do progresso foram postas a serviço de formidáveis máquinas de destruição e drenagem de riquezas para alimentar as elites hegemônicas. Nas duas ocasiões, a oportunidade foi desperdiçada pelos francos, a primeira com Carlos Magno, a segunda, com Napoleão Bonaparte.

Na fase Sagitário e da Casa 9, a civilização ocidental teve a oportunidade única de expandir seus horizontes de fé e de conhecimentos para continentes inteiros até então desconhecidos. Com raras exceções, o que prevaleceu foi a submissão forçada e o massacre metódico dos nativos, sob o pretexto da salvação de suas almas.

A fase da Casa 12 da Era de Peixes pode ser identificada nos movimentos que começam a minar e a ameaçar a hegemonia da civilização ocidental. Um marco notável foi a guerra do Vietnam, quando os Estados Unidos experimentaram seu primeiro grande revés no papel de “polícia mundial”. Outro delimitador foi a eclosão do terrorismo islâmico durante as Olimpíadas de Munique, em 1972. As figuras encapuzadas dos membros do movimento Setembro Negro são pura casa 12: os inimigos abertos da fase da Casa 7 (cruzadas) tornam-se, modernamente, os inimigos ocultos que podem agir a qualquer momento em pleno território ocidental. Ainda nos anos sessenta, o movimento hippie, as manifestações pacifistas e de integração racial nos Estados Unidos e as revoltas estudantis por toda parte começam a dar voz a uma inquietação latente sobre os rumos do “sistema”. Não é ainda a era de Aquário: é o ocaso da era de Peixes, com toda sua carga de desencanto, dúvidas e perplexidade.

1973 marca a união dos produtores de petróleo – povos islâmicos, na maioria – para colocar contra a parede os países industrializados do Ocidente, maiores consumidores do produto. 1979 é o ano do renascimento do fundamentalismo islâmico, consubstanciado na tomada do poder pelos xiítas iranianos.

Até a década de cinqüenta, o mundo ainda parecia em ordem. Apesar de toda a barbárie das duas guerras mundiais, o Ocidente ainda era o dono do planeta. É nas décadas de sessenta e setenta que a falência da civilização ocidental começa a prenunciar-se, de forma lenta, insidiosa e inexorável. Conflitos históricos que se acreditavam absolutamente superados voltam à cena. Velhos ódios étnicos e religiosos explodem outra vez, como se todos os ressentimentos acumulados ao longo da era tivessem subitamente vindo à tona. As guerras civis de fundo étnico na Bósnia, no Kossovo, na Chechênia e em outras regiões da Europa Oriental parecem o eco de velhas batalhas medievais, mas não são apenas um anacronismo: são também uma recapitulação.

Uma Periodização Possível da era de Peixes

 Com base nas correlações apresentadas pode-se tentar agora uma fixação aproximada dos limites da era de Peixes e de cada uma de suas fases. Tomando como base um ciclo precessional de 25.974 anos, teríamos cada era com uma duração de 2.149,5 anos, e cada fase com uma duração de 179,125 anos. Se contarmos o ano de 7 a.C. (provável nascimento de Cristo) como ponto de partida da era de Peixes, o quadro de sucessão das fases seria o seguinte, incluindo as últimas fases da era de Áries:

Verifica-se que a maioria dos limites de datas corresponde ao simbolismo que identificamos. Contudo, não temos a pretensão de considerar o quadro como definitivo, já que esta é apenas uma das delimitações possíveis. Algumas observações fazem-se ainda necessárias:

a) Nem todas as civilizações reagem da mesma forma e com a mesma rapidez ao simbolismo da era e de suas diversas fases. A ressonância parece ser maior naquelas culturas mais afinadas com as novas tendências e que, por isso mesmo, tendem a exercer um papel hegemônico nos campos político ou cultural.

b) Este é um modelo que considera apenas o ponto de vista da Europa e do Oriente Médio. Sua adoção deve-se à caracterização da era de Peixes como a era européia e ocidental por excelência. Este fato, aliás, só se torna evidente a partir do último quarto da era, já que, durante o primeiro milênio, alguns dos maiores focos de civilização estiveram no Oriente, especialmente na Índia e na China.

c) O simbolismo de cada fase parece não esgotar-se em seus limites de tempo. Conteúdos de cada fase são antecipados nas fases anteriores e sobrevivem nas fases seguintes. Estamos falando aqui de traços dominantes, e não de uma caracterização fechada e excludente.

Mesmo com todos estes cuidados, não há como não observar que este modelo descreve com adequada precisão a trajetória da civilização ocidental, do seu nascimento à crise que vivemos hoje. É uma abordagem especulativa, mas perfeitamente factível.

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