Astrologia Audiovisual

ZOE

Uma análise semiótica das estratégias de enunciação do programa “No Astral”

 Moema Najjar Diniz

Resumo

 Esta dissertação realizou um estudo das estratégias de enunciação utilizadas pelo Programa No Astral da emissora GloboNews Television (GNT) para se aproximar da recepção. Aplicou-se a metodologia de análise semiótica aos programas exibidos no ano de 2012 e ao contexto social de onde partiu a enunciação. Além disso, buscou-se analisar os elementos novos que o programa trouxe, a relevância e os sintomas percebidos em No Astral que implicam conclusões sobre a sociedade contemporânea. Durante a pesquisa, percebeu-se que o programa utiliza estratégias sensíveis para se aproximar de seu receptor, privilegiando em sua enunciação os testemunhos de pessoas comuns e celebridades. Estas personagens são apresentadas como pessoas normais, “gente como a gente”, a fim de gerar maior aproximação e servir de modelo de identidade para o público do programa. A pesquisa revelou que No Astral dissemina valores por meio de estratégias sutis e de envolvimento sensorial. O programa visa o entretenimento e altera o tradicional contrato de leitura da astrologia nas mídias.

À Guisa de Prefácio

Como contextualizar e atualizar um conhecimento que outrora foi a base de conceitos e doutrinas formadoras do pensamento e da razão para a dinâmica de nosso tempo?

 Certamente a questão fundamental a ser pensada neste tramite temporal é: como preservar os valores essenciais de um conhecimento através do tempo?

 E outra questão ainda mais profunda quando se fala em astrologia: como adequar ao mundo atual, no contexto da mídia focada no capitalismo e no consumo, a essência espiritual e filosófica do ensinamento astrológico?

 Deveras, esta adequação não será muito apropriada; nitidamente é algo bem distante do desejável, posso até ousar a dizer que a astrologia se tornou mais uma quimera no mercado das pulgas de nossa sociedade.

 Por isso, analisando esta dissertação, julguei interessante refletir sobre suas considerações, mesmo que no aparente fio da narrativa a crítica seja apenas formal para as questões da sua contextualização mediatizada.

 Porque nas entrelinhas pode-se observar com clareza como é distorcida na essência a hierarquia astrológica de nossa civilização (o saber astrológico) em algo tão fútil e estúpido, ou seja, poderemos ponderar, até por mais tempo, sobre como transformamos a astrologia em fofoca de mulherzinha.

 A dissertação completa poderá ser lida neste link.

César Augusto – Astrólogo

 1. Introdução

A astrologia surgiu aproximadamente em 3000 a.C. na Mesopotâmia com o principal objetivo de auxiliar nas tomadas de decisões dos líderes da época. Em sua origem, era muito utilizada para prever guerras, epidemias, perspectivas de colheitas e fazer recomendações para a agricultura. Todas estas decisões envolviam a vida e o futuro de muitas pessoas, por esta razão tinha-se o costume de buscar um auxílio de algo considerado “sobrenatural”.

 Durante muitos séculos o aconselhamento com astrólogos e a consulta a livros se mantiveram como as formas mais comuns de contato com a astrologia. Na Europa antiga as previsões astrológicas eram realizadas até mesmo nas feiras por tornarem-se populares na ocasião. A partir de 1950, com as primeiras impressões de horóscopos em jornais, a astrologia se tornou bastante difundida no mundo ocidental e desde então, obteve mais visibilidade por meio da lógica midiática do que pelos meios tradicionais de aconselhamento astrológico.

 Com o avanço do consumo, a astrologia diversificou seus produtos, porém predominou o caráter textual por meio da imprensa escrita desde os anos 50, apenas se adaptando posteriormente a outras mídias, como revista, celular e internet. Ao afirmar possuir o poder de prever o futuro e servindo como uma espécie de “guia” dando ordens para os indivíduos, a astrologia nas mídias permite pouco espaço para a interação com os interlocutores, mesmo com toda a difusão da tecnologia.

 Em 2011, com o lançamento programa No Astral da emissora GloboNews Television – GNT, ocorreu uma mudança na clássica forma de abordar a astrologia nos meios. O programa que vai ao ar aos domingos, aproxima o universo astrológico do cotidiano, através de uma linguagem coloquial, humorada e dinâmica.

A forma habitual de astrologia mediatizada realiza previsões para o futuro. Esta nova forma proposta, em um novo meio de comunicação, enfatiza o aspecto comportamental, utilizando estratégias sensíveis, como depoimentos de pessoas célebres e comuns, legendas e produções gráficas bem humoradas, visando gerar um forte sentimento de aproximação com o público e privilegiando o tempo presente.

 Desse modo, este trabalho objetivou identificar e analisar as estratégias utilizadas no programa No Astral para conquistar o público e ponderar sobre o papel desta enunciação na sociedade atual, por meio da metodologia de análise semiótica.

 A dissertação está estruturada em introdução e seis seções: a primeira aborda a história da astrologia abrangendo desde a sua origem até os dias atuais; a segunda trata da mediatização e da astrologia mediatizada; a terceira aponta as principais mudanças ocorridas na astrologia; a quarta destaca a utilização das estratégias sensíveis e do entretenimento na sociedade das mídias; a quinta aborda as características da emissora GNT e do programa No Astral e a sexta evidencia a análise semiótica da enunciação do programa.

 3. Sobre Mediatização

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 No século XX um novo fenômeno passou a tomar conta de nossa sociedade. A racionalidade e a dominação compuseram as forças de desenvolvimento do capitalismo até seu modo contemporâneo, instituindo um modelo mental instrumental e orientado para estes fins. Em sua história, a atividade econômica capitalista se vale do referido modelo para se afirmar politicamente como “tráfego social regido pelo direito privado burguês e pela dominação burocrática”, que dependem, para seu pleno desenvolvimento, de um sistema de pensamento tecnocrático. Nestes termos:

Racionalização significa, em primeiro lugar, a ampliação das esferas sociais, que ficam submetidas aos critérios da decisão racional. A isso corresponde a industrialização do trabalho social com a consequência de que os critérios da ação instrumental penetram também noutros âmbitos da vida (urbanização das formas de existência, tecnificação do tráfego e da comunicação). Em ambos os casos trata-se da implantação do tipo de ação social relativamente a fins.

Habermas

Para se perpetuar, o sistema capitalista utilizou a racionalização e a dominação em praticamente todas as áreas da vida. Quando falamos em racionalização também tratamos o uso de dispositivos, que atingiram a comunicação humana, ou tecnificação, termo usado por Habermas. A comunicação a partir daí torna-se extremamente mediada por dispositivos técnicos com o progresso e a serviço do capitalismo.

Daí advém o termo mediatização, que trata de aspectos sociais que passam a se desenvolver por meio de mídias como, por exemplo, a astrologia. Porém, isto ocorre sem excluir os meios tradicionais com que as práticas são realizadas, já que não se pode falar em mediatização como um processo completo, único, que extinguiria os antigos meios de realização de uma determinada técnica. Alguns autores vão além e acreditam que não somente alguns aspectos sociais estão sofrendo o processo de mediatização, mas sim a sociedade como um todo: da educação à política, do esporte à cultura, do esoterismo ao lazer, a vida passa a operar em uma lógica midiática.

De acordo com Verón, o processo de inserção das tecnologias de comunicação nas sociedades industriais passou por dois períodos diferentes. O primeiro foi o das sociedades midiáticas, ou seja, em que os meios de comunicação de massa foram progressivamente instalados no tecido social. As sociedades industriais midiáticas, segundo ele, surgiram no século XIX com o progresso da imprensa escrita de massa, evolução que se tornou mais complexa com a criação do rádio e da televisão.

O segundo período citado por Verón é o das sociedades industriais mediatizadas ou midiatizada, como ele denomina. Este tipo de sociedade emerge à medida que as práticas institucionais de uma sociedade midiática se transformam em profundidade porque há mídias. Para ele, a mediatização das sociedades industriais, que tinham se tornado midiáticas há mais de um século, acelerou-se depois da Segunda Guerra Mundial. A conscientização da importância das tecnologias da comunicação durante a guerra não é estranha a essa aceleração.

Sodré adverte, porém, que este processo de mediatização exacerbada faz com que os indivíduos deixem de viver autorreflexivamente, pois são constantemente solicitados a olhar para fora de si e praticamente “obrigados” a viver em interação:

Hoje, o processo redunda numa mediação social tecnologicamente exacerbada, com espaço próprio e relativamente autônomo em face das formas interativas presentes nas interações tradicionais. A reflexividade institucional é agora o reflexo tornado real pelas tecnointerações, o que implica um grau elevado de indiferenciação entre o homem e sua imagem – o indivíduo é solicitado a viver, muito pouco reflexivamente, no interior das tecnointerações, cujo horizonte comunicacional é a interatividade absoluta ou a conectividade permanente.

Sodré

Para o autor, a tecnocultura, que abrange os meios de comunicação e o mercado, seria uma espécie de quarto bios, em referência aos três gêneros de bios de Aristóteles, que distingue, a exemplo do que fez Platão no Filebo, três gêneros de existência (bios) na polis: bios theoretikos (vida contemplativa), bios politikos (vida política) e bios apolaustikos (vida prazerosa, vida do corpo). A mediatização, assim, torna-se uma nova forma de vida, pois implica em uma transformação das formas tradicionais de sociabilização, além de uma nova tecnologia perceptiva e mental. Sugere, portanto, um novo tipo de relacionamento entre os indivíduos e a sociedade, ou seja, outra condição antropológica.

3.1 Astrologia mediatizada

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O aconselhamento a astrólogos foi a forma mais comum de aproximação com a astrologia durante séculos, porém a partir de 1950, esta história ganhou contornos diferentes. Os primeiros horóscopos começaram a ser publicados no caderno de entretenimento dos jornais ocidentais que atingiam grandes massas, conjuntamente com as palavras cruzadas e as histórias em quadrinhos, com o intuito de “desanuviar” a mente dos consumidores após tanta informação publicada. Desde então, o maior ponto de contato entre o público e a astrologia passou a se desenvolver por meio da mídia, sofrendo um processo de mediatização que pode ser definido como uma tendência à “virtualização” ou “telerrealização” das relações humanas, no qual métodos sociais específicos passam a se desenvolver, inteira ou parcialmente, segundo lógicas da mídia.

Diariamente a partir de então, era possível encontrar horóscopos em jornais e revistas, nos quais o conteúdo apresentava um caráter individualista, com ordens de “cima-parabaixo”, onde o enunciador mostrava possuir o poder de prever o futuro do enunciatário e o mesmo deveria seguir suas instruções se almejasse sucesso.

Um dos maiores críticos da indústria cultural, o sociólogo alemão da Escola de Frankfurt, Theodor W. Adorno, realizou nesta época, entre novembro de 1952 e fevereiro de 1953, uma pesquisa no Los Angeles Times que resultou no livro As estrelas descem a terra – a coluna de astrologia do Los Angeles Times: um estudo sobre a superstição secundária. O jornal americano possuía uma coluna diária de astrologia assinada pelo astrólogo Carrol Righter, conhecido como consultor dos astros de Hollywood da época. O propósito do livro não era o estudo da astrologia em si, mas a “suscetibilidade” à qual estão sujeitas as pessoas. Adorno considera que a astrologia foi utilizada como chave para potencialidades sociais e psicológicas muito mais abrangentes, sendo vista como sintoma de tendências sociais específicas.

Vítimas do nazi-fascismo, os intelectuais filiados à Escola de Frankfurt avaliaram, em primeiro lugar, as formas e os instrumentos da cultura de massa manipulados pelo nazismo. No exílio, nos Estados Unidos, detectaram que a cultura, veiculada pelos meios de comunicação, funcionava como um poderoso instrumento para promover os valores da sociedade de consumo norte-americana. Controlada, a rigor, pelas corporações gigantes, a indústria cultural foi organizada segundo as estruturas de produção capitalistas. Durante os anos 40 e 50, a cultura de massa e os meios de comunicação funcionaram como poderosos instrumentos da geração e propagação de modos de pensamento e comportamentos apropriados para o funcionamento e massificação da sociedade.

Desse modo, o estudo de Adorno é, sobretudo, um estudo de valores e dominação implícitos na coluna do astrólogo que retratavam os modos de funcionamento da sociedade naquele momento, coincidindo com o que afirma Barthesa astrologia não é preditiva, mas sim descritiva, pois descreve muito realisticamente condições sociais.

Na década de 50, diferentemente do astrólogo Carrol Righter, muitos dos profissionais que faziam horóscopos impressos em jornais na ocasião eram os próprios jornalistas que se especializavam na prática da astrologia por meio de livros e almanaques, como retrata o filme dirigido por Bruce Robinson, O Diário de um Jornalista Bêbado. O longa-metragem nos mostra a vida do jornalista americano e protagonista do filme, Paul Kemp – interpretado por Johnny Depp – que abandona sua vida em Nova York para viver em Porto Rico para trabalhar no jornal The San Juan Star. O chefe de Kemp o deixa responsável pelo horóscopo, e desde então ele começa a estudar manuais de astrologia para criar os horóscopos diários do jornal. Kemp sente-se um pouco mal por trabalhar com astrologia e outros assuntos pequenos, pois percebe que seu potencial como jornalista é muito maior. O filme diagnostica a má prática da época em que os próprios astrólogos foram relegados ao segundo plano, perdendo lugar para os jornalistas. Isto evidencia que o horóscopo mediatizado impresso não exigia grande aprofundamento e contratar um astrólogo implicaria em um gasto a mais para os jornais da ocasião.

No Brasil, um pouco mais tarde em meados da década de 70, surgiram alguns astrólogos por meio da mídia como Omar Cardoso, considerado o maior e mais famoso astrólogo do país de todos os tempos. Ele trabalhou em diversos jornais paulistas, emissoras de rádio e televisão. Suas previsões eram respeitadas em todo o território nacional e as fazia principalmente pelo programa Bom Dia Mesmo, da Rádio Bandeirantes de São Paulo. Escrevia para 140 jornais e sua revista anual astrológica atingia a tiragem de 300.000 exemplares. Liderava ainda um grupo empresarial, responsável pela produção de chaveiros, brindes, adesivos, e horóscopos que eram distribuídos em todo o país até sua morte, em dezembro de 1978.

Nos anos 90, a autora Laurence Bardin realizou um trabalho parecido com o de Adorno, porém com o método criado por ela de análise de discurso para pesquisar a coluna de horóscopo semanal da revista feminina Elle. Bardin publicou suas análises em seu livro Análise de conteúdo, onde chegou a conclusão de que os horóscopos da revista impunham modelos de conduta sob a forma de conselhos, sobressaltavam certas atitudes consideradas positivas pela sociedade, tais como iniciativa e organização, e abominavam outras como preguiça e espírito crítico. Elle, segundo a autora, valorizava as atitudes que ajudavam e rejeitava as que prejudicavam o aumento do lucro e o progresso do capitalismo. Bardin chegou a mesma conclusão de Adorno, de que o horóscopo sustentava os valores da sociedade e era mais descritivo do que preditivo. Isto prova que da década de 50 para a década de 90 a astrologia mediatizada pouco se alterou.

Já na virada do século XXI com o advento da internet e a proliferação dos celulares, a mediatização da astrologia se tornou um pouco mais complexa. Passamos a encontrar horóscopos em vários sites ou receber short message service (SMS) no celular com previsões diárias ou mensais. Surgiram astrólogos de destaque através das mídias como Susan Miller, a americana mais acessada da internet. Susan escreve também para revistas de vários países como Turquia, Japão, Coréia, Estados Unidos e Brasil – Revista Lola, além de publicar horóscopos mensalmente no site astrologyzone.com, acessado por aproximadamente 18 milhões de pessoas no mundo todo. A astróloga é conhecida por seu horóscopo detalhista, com aproximadamente 3.500 caracteres em seu site, com previsões dos melhores dias para o amor, trabalho, datas para festas e viagens. Também ficou conhecida por ser consultora de celebridades como Kirsten Dust, Orlando Bloom, Jennifer Aniston e Cameron Diaz.

Com a publicação de horóscopos em meios distintos, como sites e celulares, a forma de veiculação da astrologia nos meios de comunicação pouco se alterou. Por meio de textos prontos, os horóscopos solicitavam pelo ato de linguagem do emissor uma reação determinada do receptor, gerando uma relação de influência e dominação.

Nos textos dos horóscopos, até então, qualquer que fosse a relação psicossocial do receptor ou seu comportamento efetivo, ele seria solicitado pelo ato de linguagem do locutor a ter uma reação determinada: responder e/ou reagir, provocando uma relação de influência. Este caráter autoritário surgiu nos anos 50 e persiste até hoje na maioria dos jornais como podemos observar no trecho do horóscopo da astróloga Barbara Abramo do jornal Folha de S. Paulo: “Imprima seu toque original…”, “… continue examinando tudo aquilo em sua vida que quer mudar”, “Paciência!”, “Para ter mais informações sobre qual a melhor atitude a ser tomada, consulte amigos e colegas…”. Estes fragmentos mostram o apelo do locutor a uma “tomada de posição” do interlocutor.

Para Lima, o sujeito falante dos horóscopos mediatizados tradicionais, em sua enunciação, encontra-se em uma posição de superioridade em relação ao receptor e lhe atribui papéis que impõem sua realização (“fazer fazer” / “fazer dizer”) ao interlocutor. Assim, há a produção de uma “solicitação” por parte do emissor ao receptor, de modo que se estabelece entre eles uma relação de demanda, como é evidente neste trecho do horóscopo do jornal O Globo feito por Cláudia Lisboa: “Os assuntos pendentes devem ser solucionados e, para isso, algumas decisões precisam ser tomadas”. Neste enunciado é visível como a astróloga utiliza o imperativo, requerendo uma ação por parte de seu receptor. Percebe-se que Lisboa demonstra estar em uma posição de superioridade e dominação, estabelecendo uma relação de demanda, onde um pede e o outro obedece. Este tipo de discurso é encontrado em praticamente todos os horóscopos mediatizados atuais.

3.2 Astrologia mediatizada audiovisual

Helios as the Personification of Midday, 18th century painting by Anton Raphael Mengs.

Antes de prosseguirmos neste tópico, convém aqui esclarecer o conceito de contrato de leitura, citado por Verón:

O conceito de contrato de leitura implica que o discurso de um suporte de imprensa seja um espaço imaginário onde percursos múltiplos são propostos ao leitor; uma paisagem, de alguma forma, na qual o leitor pode escolher seu caminho com mais ou menos liberdade, onde há zonas nas quais ele corre o risco de se perder ou, ao contrário, que são perfeitamente sinalizadas. Esta paisagem é mais ou menos plana mais ou menos acidentada. Ao longo de todo o percurso, o leitor reencontra personagens diferentes, que lhe propõem atividades diversas e com as quais ele sente mais ou menos desejo de estabelecer uma relação, conforme a imagem que eles lhe dão, a maneira como o tratam, a distância ou a intimidade que lhe propõem.

Verón

Para Verón, o contrato de leitura é que cria o vínculo entre o suporte e o receptor. Este contrato dar-se-ia por meio de dispositivos de enunciação criados pelo suporte para estabelecer um vínculo com seu destinatário. A enunciação diz respeito não somente ao que é dito, mas ao dizer e suas modalidades, os modos de dizer.

Com o surgimento das novas mídias, a sociedade e os meios clássicos estão passando por grandes transformações e modificando concomitantemente seus contratos de leitura. O receptor está ganhando mais espaço para se posicionar, alterando as formas tradicionais de comunicação nos meios. Desse modo, a astrologia mediatizada – que apresentava o formato unilateral, a premonição e a imperatividade – tem se configurado para adaptar-se a um novo cenário e um novo meio. Neste panorama há uma maior participação dos interlocutores e a astrologia é exibida em um meio audiovisual.

Atualmente, a apresentação da astrologia audiovisual é feita pela emissora de tevê GNT (Globosat News Television), canal por assinatura da Rede Globo. A emissora que foi criada em 1991 com foco em transmissão de notícias, reposicionou a partir de setembro de 2003 sua programação, passando a privilegiar o entretenimento e a informação para o universo feminino. Criou programas voltados para moda, beleza, sexo, relacionamentos, gastronomia e comportamento. Na ocasião não havia nenhum canal de televisão especializado para o público feminino no Brasil.

Em 2011, depois de várias pesquisas realizadas com mulheres de vários estados, a identidade visual da GNT foi modificada e a programação repensada, organizando-a em editoriais. Ao longo do ano, foram 20 estreias nacionais, além de reformulações em programas já existentes. Uma das estratégias da emissora para atingir e conquistar o público feminino foi utilizar personalidades e jornalistas de sucesso como âncoras de programas segmentados. Na essência, o canal tornou-se uma revista feminina 24 horas no ar. Seu público abrange mulheres adolescentes e adultas das classes A e B.

Deste modo, com o novo formato da emissora em editoriais, o horóscopo não poderia ser deixado de lado, já que está presente em praticamente todas as revistas para o público feminino. Assim, foi criado o programa No Astral e a astrologia, com caráter tradicionalmente textual, adaptou-se ao meio audiovisual ganhando o status de programa televisivo em lugar de colunas de pouco destaque que assumia anteriormente em revistas e jornais.

Machado nos ajuda a entender a definição de programa televisivo:

Podemos definir o programa de televisão como qualquer série sintagmática (sequencia de imagens e sons eletrônicos) que possa ser tomada como uma singularidade distintiva em relação às outras séries sintagmáticas da televisão. Pode ser uma peça única, como um telefilme ou um especial; uma série ou minissérie apresentada em capítulos; um horário reservado para um gênero específico (seriado, telejornal, talk show etc.), que se prolonga durante anos, sem previsão de finalização; ou até mesmo a programação inteira, no caso de emissoras ou redes “segmentadas” ou especializadas, que não apresentam variação de blocos.

Machado

Dividido em temporadas e sem previsão de finalização, segundo a definição de Machado, o programa televisivo No Astral foi criado em 2011 pela GNT para preencher a “coluna” de horóscopo da revista. O programa aborda a astrologia em seu contrato de leitura por meio de animações, legendas humoradas, depoimentos de celebridades, trechos de filmes e uma grande participação de pessoas comuns narrando situações particulares, reforçando cada vez mais as características do entretenimento, até mesmo pelo dia e horário de exibição – aos domingos às 19:45 horas.

Segundo o próprio site da emissora, No Astral visa “desmistificar” e apresentar a astrologia de um modo simples. Em algumas edições, até mesmo recortes de filmes famosos são utilizados pela enunciação para ilustrar as características de cada signo e os discursos das personagens. Ao contar a história da astrologia remetendo a mitologia grega, o programa emprega animações bem atípicas, apõe certo tom de ironia, com enunciação leve, descontraída e sofisticada. Após a veiculação pela GNT, trechos do programa são hospedados em seu site e alguns episódios são postados no Youtube na íntegra, onde os receptores podem rever a qualquer tempo as cenas exibidas e deixar seus comentários.

O programa é apresentado por Cláudia Lisboa, astróloga e professora de astrologia desde 1979. Cláudia formou-se na escola da alemã Emma Costet de Mascheville, em Porto Alegre. Começou a carreira em São Paulo na Escola Júpiter de Astrologia e na década de 80 voltou para sua cidade natal, o Rio de Janeiro, onde abriu uma escola de astrologia. Atualmente, escreve o horóscopo do jornal O Globo, além de apresentar No Astral.

No programa, Cláudia analisa uma parceria a cada episódio: um casal de namorados, colegas de trabalho, sogra e nora, irmãos, e até um casal separado. Com base nos depoimentos e vivências reais, comenta as características de cada signo encontradas nos testemunhos. Em todas as edições, celebridades são convidadas também a revelar suas atitudes e a relação das mesmas com seu signo. Para gerar identificação com o público, o programa “dá a voz” para outros indivíduos contarem suas experiências, mesmo que a apresentadora faça colocações pontuais entre as declarações proferidas.

A astróloga foca sua fala sempre no lado comportamental e utiliza o discurso das personagens das historietas e entrevistas para ratificar as suas ideias. Pode-se dizer que a maior parte do programa é feita com a fala de celebridades e pessoas comuns, nas ruas, em suas casas, em seu trabalho, porém a enunciação do programa, em alguns episódios, tenta direcionar um pouco mais o olhar do receptor.

Em alguns momentos, quando são feitas entrevistas nas ruas onde não aparece o entrevistador, No Astral passa mais a imagem de “fatos sobre a vida real” do que um programa sobre astrologia em si, remetendo a ideia de inversão de papéis entre emissor e receptor. Por outro lado, durante as entrevistas de parceria e entre as entrevistas nas ruas, a astróloga comenta seus pontos de vista sobre o comportamento de cada signo e procura, nas histórias das pessoas, pontos que as confirmem. Assim, Cláudia Lisboa conduz as entrevistas de uma forma que as pessoas reafirmem os conceitos que ela mesma defende.

Estas narrações de personalidades comuns e célebres são colocadas com o tom de “pessoas normais”, “gente como a gente”, remetendo suas falas à cotidianidade e traçando uma espécie de vínculo com a audiência por meio de enunciações que levam ao reconhecimento. Percebemos essa tentativa de aproximação na fala da atriz Juliana Paes no programa da série amor, conhecida por fazer vários papéis de “mocinha apaixonada” e participar de finais felizes em novelas:

Acho que as pessoas esperam que o amor deva ser algo arrebatador, intenso, que até dói e eu não acho que o amor é isso. Eu acho que isso pode ser a paixão. O amor é pra ser suave, eu vejo o amor como um lago sereno. Obviamente que de vez em quando umas pedrinhas batem, né? Uns pedregulhos e aí ó! Relacionamento é feito disso, tem hora que tá muito bom, tem hora que tá uma porcaria, você pensa em separar: o quê que eu to fazendo com essa pessoa? E tem hora que você pensa: caramba! É realmente o amor da minha vida, como eu pensei em ficar longe dessa pessoa? É meio que por aí, de uma maneira geral o nosso coração tem que tá sereno só por saber que esses altos e baixos vão vir.

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A forma clássica de contrato de leitura da astrologia mediatizada da imprensa escrita realiza “previsões para o futuro”, esta nova forma, em um novo meio de comunicação, foca mais no modo em que as pessoas de cada signo levam a vida. Juliana Paes retrata em sua fala, uma pessoa de carne e osso, palpável, podendo representar o discurso de qualquer um de nós.

No site do programa, Cláudia Lisboa afirma que a astrologia é um saber singular e não visa respostas. Ela – a astrologia – aponta para um trabalho: o incrível trabalho de nos transformar no que somos, segundo a apresentadora. Ao ler isto, percebemos o por quê destes novos elementos trazidos pelo programa, que objetiva a “desmistificação” da prática, tentando aproximá-la do público por meio de uma linguagem de fácil entendimento e narração de fatos do cotidiano.

Ao abordar o assunto por meio da linguagem audiovisual, e não da forma clássica textual que a astrologia mediatizada possui há mais de 60 anos, o programa visa alterar a ideia do clássico formato unilateral e imperativo com que a prática sempre foi criticada. Os meios passam a utilizar estratégias sensíveis em seu contrato para envolver o público através de emoção e sentimento de proximidade.

4. Principais Mudanças de lá pra cá

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Como podemos perceber, em seu surgimento, a astrologia era utilizada para prever guerras, epidemias, ajudar nas tomadas de decisões e obter perspectivas de colheitas. Em outras palavras, no início a prática era muito mais voltada para o bem estar comum. As consultas a astrólogos se davam face a face, com horóscopos feitos à mão por técnicas passadas por ancestrais ou aprendidas nos livros, sendo ato corriqueiro consultar um astrólogo, como é atualmente ir a um médico.

A crença na influência dos astros na vida terrestre, que na antiguidade podia levar à guerra ou a um recuo provisório desta, perdeu seu valor como saber válido para explicação dos acontecimentos da vida cotidiana. A desvalorização, o descrédito e mesmo o processo de ridicularização a que a astrologia foi submetida ao longo dos séculos pelas religiões e pela ciência não lhe tiraram a capacidade de promover e sustentar crenças, mesmo no hipermaterialista mundo contemporâneo. É essa sua capacidade para manter a adesão aos valores e crenças que erige como visão de mundo, que garante sua sobrevivência na “selva” do processo rotineiro de apresentação das notícias, em que diversos textos e cenografias competem pelo espaço físico limitado da imprensa.

Obviamente, os horóscopos que olhavam para a comunidade já não fariam mais sentido na atual sociedade individualista que os associa ao divertimento. Além disso, a vida na antiguidade era marcada pela incerteza. O homem não dominava a técnica e não sabia lidar com a natureza e seus fenômenos e utilizava a astrologia como forma de auxílio para prever o temeroso desconhecido. Naquela época, a qualquer momento, poderia haver uma invasão de uma comunidade vizinha, a comida dependia de colheita própria e se era ainda mais vulnerável aos fenômenos naturais como tempestades, secas e terremotos. Visando dominar este “desconhecido” e tornar o imprevisto um pouco mais previsível, a astrologia se mostrava como técnica útil em favor dos povos antigos.

No momento em que ressurge e começa a ser publicada nos jornais, a astrologia volta com um caráter diferente, pois a própria sociedade já não é mais a mesma. Com a revolução industrial e a globalização, a vida se tornou um pouco mais previsível, o homem passou a dominar a técnica e a prever muitos fenômenos naturais. A comida, para muitos, não é escassa e já não há ameaças de invasões e tomadas de territórios como antigamente. Desta forma, a astrologia foi ressignificada de acordo com o momento vivido.

Pode-se, portanto, atribuir de alguma forma estas mudanças de abordagem e uso da astrologia no decorrer dos anos, às mudanças sociais, já que a astrologia acompanha as transformações nas sociedades para sobreviver. Com o avanço do capitalismo, o conhecimento, o lazer e os vários aspectos da vida transmutaram-se em entretenimento para as massas, mediados pelas novas tecnologias de informação e pelo sentido de hedonismo (ou vazio existencial) que marca a metade final do século XX e o início do século XXI. Neste cenário, com a tentativa de preencher este vazio, a astrologia volta o seu olhar para o indivíduo, transformando-se mais em entretenimento do que em técnica preditiva, a fim de acompanhar estas transformações.

A literatura e a escrita, porém, perderam a hegemonia que conquistaram como narrativas centrais do entretenimento no século XIX para o cinema e a televisão. A astrologia levou alguns anos para adaptar-se a estes novos meios, chegando a atingi-los com mais força no século XXI.

Após longos anos de publicações nas sessões de entretenimento de jornais e revistas com caráter apenas textual, ao estrear no audiovisual com No Astral, a prática mudou o formato tradicional da relação entre emissores e receptores nas mídias, dado que, com o avanço e popularização de redes sociais como twitter, facebook e instagram, ocorre uma inversão de papéis entre estes pólos, onde todos podem se tornar emissores de suas próprias ideias. No Astral, ciente disto, implantou a estratégia de utilizar pessoas comuns para seguir a tendência da sociedade contemporânea, na qual os receptores possuem maior participação nas mídias.

De acordo com Barbero, as pessoas sentem-se estimuladas a participar nas mídias pelo prazer da visibilidade e da representação social. Para ele, a hegemonia imagética é uma forma de reconhecimento, em que o direito de ser visto e ouvido equivale ao direito de existir socialmente, seja no campo individual ou coletivo. Isso denota que as pessoas não querem apenas informação das mídias, mas querem fundamentalmente ver-se, ouvir-se participar, contar o próprio cotidiano para si mesmas e para aqueles com quem convivem. O autor enxerga no avanço das tecnologias a possibilidade de maior participação popular, proporcionando aos indivíduos a chance de interação e intervenção.

Por outro lado, Sodré acredita que ocorreu uma grande transformação entre a recente televisão, a qual denomina de “neotelevisão” e a “paleotelevisão”, primeiro formato geral da tevê. Para ele, a Neotevê fala menos do mundo exterior e mais de si mesma e do contato que estabelece com o público. Com a maior oferta de programações, os telespectadores podem mudar de canal no momento que desejarem. Desta forma, para sobreviver a este poder de comutação, procura-se entreter o telespectador dizendo-lhe “eu estou aqui, eu sou eu e eu sou você”. Segundo o autor, a mídia atual utiliza uma linguagem mais afetiva do que racional:

Liberadas as pessoas e as coisas de seu peso ou de sua gravidade substancial, tornadas imagens que ensejam uma aproximação fantasmática, a cultura passa a definir-se mais por signos de envolvimento sensorial do que pelo apelo ao racionalismo da representação tradicional, que privilegia a linearidade da escrita.

Sodré

Nesta fala de Sodré, podemos abranger a mediatização da astrologia, prática que a mídia privilegiou por tanto tempo através da escrita e agora a está lançando em um meio de envolvimento sensorial maior, que é a tevê, com uma linguagem mais afetiva.

6. Sobre a GNT e No Astral

Ao longo dos anos, algumas transformações ocorreram no canal GNT. Desde sua criação ocorreram vários reposicionamentos para se adaptar ao gosto e interesse do público, em uma destas repaginadas, inclusive, ocorreu a criação de No Astral. Aqui, conheceremos um pouco mais sobre a emissora e o novo programa.

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6.1 GNT

Como foi abordado anteriormente, a GNT é um canal de tevê a cabo voltado para o público feminino desde 2003, com programas sobre moda, relacionamentos, sexo, comportamento, culinária, viagens, maternidade, além de filmes, séries e documentários. A emissora é considerada uma das sete marcas mais fortes de mídia dirigida a públicos segmentados do país. Atualmente, a média de visitantes mensal em seu site é de 3 milhões além de quase 2 milhões de seguidores no Facebook.

Seguindo o formato de revista feminina audiovisual, a emissora exibe programas com duração de aproximadamente 15 a 30 minutos. Os programas possuem um tom leve, descontraído e com baixa duração, realizando o papel de editoriais. Como toda revista feminina sempre possui celebridades na capa e no conteúdo, a emissora se apoia na apresentação destas em praticamente todos os seus produtos.

A “leitura” de revistas femininas nas quais a GNT se espelha como, por exemplo, Cláudia, Lola e Elle é rápida e não deve tornar-se cansativa. As revistas precisam apresentar um universo familiar à leitora, ao discorrer sobre assuntos próximos deste público. Estes meios procuram informar e entreter ao mesmo tempo e a GNT utiliza a mesma fórmula para atrair seus telespectadores. Os programas da emissora, em sua maioria, identificam a mídia como a própria realidade, apagando simultaneamente a ideia de mediação. Este gênero televisivo é denominado por Jost de telerrealidade.

A emissora por assinatura de destaque do grupo Globosat, parte do princípio de que as mulheres, assim como a sociedade, estão em constante transformação. Desta forma, reposiciona sua marca constantemente há oito anos. O último reposicionamento foi exatamente no ano de criação de No Astral, em 2011, com a inclusão definitiva do sistema High Definition (HD). A reconfinguração resultou em mudanças videográficas e nova programação, com a estreia de 20 programas na grade, além de reformulações em outros já existentes.

O canal revela uma nova identidade com intuito de atualizar-se para o público-alvo – a mulher multifuncional e contemporânea, como define a própria emissora. Estas mudanças culminaram em uma programação mais descontraída, íntima, leve e cada vez mais em busca do “real”.

Segundo entrevista concedida pelo grupo de criação de arte da emissora ao blog Televisual, a última reconfiguração se deu após uma extensa pesquisa qualitativa realizada com mulheres de 25 a 49 anos de classes A e B. As mesmas, apesar de gostarem bastante da identidade antiga da GNT, não se viam refletidas por aquelas mulheres perfeitas e idealizadas que faziam parte da programação anterior.

A partir de então, a emissora incluiu um pouco mais de intimidade, “realidade palpável”, ou, em outras palavras, estratégias sensíveis nos programas, na publicidade e nas vinhetas, evidenciando que celebridades incríveis e mulheres anônimas também são “gente como a gente”. Desse modo, a GNT objetivou que esta mulher – que não se reconhecia anteriormente naqueles modelos distantes – pudesse ser, de alguma forma, “tocada”.

A respeito da identidade e da marca das emissoras, Jost nos fala:

A lógica de marca, enfim, impulsiona as emissoras a escolherem programas coerentes com sua imagem e, reciprocamente a construírem a imagem da emissora, seja ela privada ou pública, comercial ou não. Essa é, com efeito, a questão central a ser resolvida pelo programador: cada programa constitui a imagem da emissora e a imagem da emissora semantiza cada programa, de tal modo que assistir ao mesmo programa em duas emissoras diferentes não tem o mesmo sentido.

Jost

Desta forma, o que deve ser coerente com a marca e identidade da GNT é que a enunciação de No Astral, assim como a de outros programas da grade, possua os mesmos princípios, valores e tons adotado pela emissora: o uso de celebridades e pessoas comuns, a realidade possível, a leveza, o bom humor e a descontração.

Mais do que ser coerente com a emissora, Verón afirma que os dispositivos de enunciação, que ele denomina de contrato de leitura, devem ser coesos com o público, pois eles criam o vínculo entre o suporte e o receptor. Os dispositivos comportam itens importantes como: 1– a imagem que o emissor atribui a si mesmo e, esta contém, portanto, a relação daquele que fala ao que ele diz; 2– a imagem daquele a quem o discurso é endereçado, o receptor. Assim, o produtor não só constrói o seu lugar no que diz, mas também de seu destinatário; 3– a relação entre o enunciador e o emissor, que é proposta pelo discurso.

Frequentemente, a estagnação ou a baixa de conjunto de receptores resulta de uma alteração progressiva e insensível do contrato ou a introdução de modificações redacionais que produzem uma incoerência no mesmo. Desta forma, o vínculo entre as partes poderia ser alterado, de acordo com Verón.

Assim, o contrato de leitura de No Astral deve abranger inicialmente para haver coerência, de acordo com o autor: 1– a imagem que a GNT produz de si mesma (revista audiovisual que visa informar e entreter seu público de forma intimista, ancorada na participação de celebridades), assim como, a imagem do programa (linguagem simples, bem humorada e intimista com seu público). Estas seriam promessas básicas feitas pela emissora e por No Astral, ou seja, o que eles “falam”. A relação do que eles falam com o que eles dizem será analisado mais à frente; 2– a imagem que a emissora possui do receptor. A GNT identifica o público como mulheres de 25 a 49 anos de classes A e B que desejam ser reconhecidas na emissão, sem a idealização e a perfeição de outrora; 3– a relação e o reconhecimento da emissão com a recepção, (que também será analisado mais a frente). Entretanto, não é objetivo deste estudo se aprofundar nos aspectos da emissão, porém poderemos obter algumas pistas importantes sobre esta relação adiante.

Os itens acima são imprescindíveis para manter a coerência e a relação com os receptores. Possivelmente, mudanças ou incoerências nestes itens do contrato, poderiam alterar a conexão da recepção com o programa, caso os receptores não se sentissem à vontade ou reconhecidos com a ideia criada pela emissão.

Jost denomina a relação da emissão com sua marca de “combinação tonal” de um produto televisivo, que se dá por meio de textualização na televisão – figurino, representação, gestos, expressão corporal, fala, cenário, ruídos, música. Em uma revista se daria por meio de sua criação gráfica, linguagem, imagens, diagramação, etc. Se os tons anunciados pelo produto – no caso de No Astral: linguagem simples, bem humorada e intimista e no caso de Lola: profundidade, dinamismo e bom humor – estiverem presentes em todos estes aspectos citados e compatíveis com o tom do canal, diz-se que contraem uma relação de coerência. Porém, diferentemente de Verón, o conceito de Jost abrange apenas a emissão.

6.2 Temporadas de No Astral

 O primeiro episódio de No Astral foi exibido em 27 de março de 2011 com um programa sobre “signos fixos”, que tratou da qualidade dos doze signos astrológicos que podem ser divididos em cardinais, fixos e mutáveis.

 Esta primeira temporada do programa realizada de março a junho foi mais explicativa, com o intuito de introduzir o público no mundo da astrologia. Abordando temas como o retorno de Saturno, os signos complementares, as revoluções de Urano e a importância da Lua no mapa astral, o programa visou tornar o mundo da astrologia mais familiar para o receptor.

 A partir de agosto de 2011, No Astral passou a ser segmentado, começando uma temporada específica sobre cada signo que se estendeu até outubro. No final desta etapa, em 30 de outubro, foi realizado um programa especial sobre os quatro elementos dos signos do zodíaco – terra, fogo, ar e água.

 Em dezembro daquele ano, No Astral retornou com a exibição de programas sobre os temas: Brasil (dia 4), Santa Ceia (dia 18) e Viradas (dia 25).

De primeiro de janeiro a 25 de março de 2012, o programa surgiu com o tema amor, exibindo a temporada sobre os signos e seus relacionamentos. No episódio de abertura, a emissora introduziu o questionamento – “Por que o amor?” e buscou respostas nos depoimentos de celebridades e de pessoas comuns sobre a importância do tema para nossa vida e como a astrologia pode ajudar a lidar com esta questão.

 A partir de 25 de março, No Astral saiu novamente do ar e retornou em julho de 2012 com a temporada sobre o tema trabalho. O primeiro programa da série buscou, como na temporada anterior, explicar a importância e o modo que as pessoas e a astrologia lidam com este tema. Em 8 de julho, tiveram início os episódios sobre a relação de cada signo com o trabalho que se estendeu até 23 de setembro. Desde então, esta foi a última data em que o programa foi ao ar.

 A cada temporada, é notório que No Astral trouxe novidades em sua enunciação. A fim de se diferenciar das outras séries exibidas, buscou unidade e identidade para cada etapa. Com isso, o desafio foi não fugir do tom da emissora e do objetivo da marca já impressos por No Astral. Estas mudanças visaram manter os receptores ainda mais interessados e fiéis, introduzindo um novo tema e um novo formato para manter o interesse do público.

 Alguns programas das temporadas sobre os temas amor e trabalho e suas mudanças foram analisados em nosso estudo. Os demais episódios não foram disponibilizados no site da emissora e no Youtube.

 Em seu site, a GNT disponibilizou apenas alguns quadros destas temporadas, porém, no site do Youtube, os episódios são postados na íntegra e tem por finalidade a divulgação do programa e da própria emissora para o público não assinante que navega pelo site.

 Para Jost, os receptores, atualmente, não esperam que as emissoras programem a exibição ou a reexibição de seus programas favoritos. Eles buscam os episódios na internet para assistir no momento em que desejarem. Ele acredita que isto seria uma tendência da sociedade atual, na qual os receptores possuem maior autonomia.

 A emissora parece estar ciente dessa mudança ao postar seus vídeos em seu site e no Youtube, mostrando o desejo de estar disponível a qualquer momento para os telespectadores. Até mesmo os comerciais são postados na íntegra. O ato de postagem demonstra certo cuidado com os interlocutores que acompanham a série e que, eventualmente, podem perder algum episódio, criando uma relação de proximidade e confiança.

7. Análise da Enunciação

Neste estudo foi realizada análise semiótica embasada na metodologia peirceana. Peirce divide os signos, grosso modo, em ícones, índices e símbolos que podem ser definidos da seguinte forma:

O ícone não tem conexão dinâmica alguma com o objeto que representa; simplesmente acontece que suas qualidades se assemelham às do objeto e excitam sensações análogas na mente para a qual é uma semelhança. O índice está fisicamente conectado com seu objeto: formam ambos, um par orgânico, porém a mente interpretante nada tem a ver com essa conexão, exceto o fato de registrá-la, depois de ser estabelecida. O símbolo está conectado a seu objeto por força da ideia da mente que usa o símbolo, sem a qual essa conexão não existiria.

Peirce

Portanto, quando a relação com o objeto representado ostenta semelhança com alguma qualidade, pode ser definido como ícone; quando a relação com o objeto representado consiste numa correspondência de fato ou relação existencial, é apontado como índice; e quando o fundamento da relação com o objeto representado depende de um caráter imputado, convencional ou de lei, é chamado de símbolo.

O programa No Astral, por meio de sua enunciação, privilegia como veremos adiante, principalmente a linguagem simbólica, pois trabalha com convenções e leis, objetos que nos remetem a ideias que geralmente são compartilhadas por todos, como é o caso da linguagem e dos símbolos zodiacais.

(…)

7.1 Quadro Apresentação

figura 1 no astral 2012

O quadro de apresentação de No Astral é exibido no início de cada programa.

Primeiramente, é apresentada a vinheta padrão de todos os programas em sua abertura, que nos remete aos símbolos dos signos do zodíaco, como podemos observar na Figura.

Segundo Susan Miller, estes símbolos são originários da mitologia grega e são representados praticamente da mesma forma em todos os horóscopos mediatizados. Porém, em No Astral, eles ganham um tom mais irônico e descontraído. Todos eles funcionam como animação, pois se movimentam de acordo com a música de fundo, um som lounge tranquilo com estilo oriental, dando o “tom místico” à matéria. A logomarca do programa é cor-de-rosa e esférica, aparecendo ao final da vinheta e nos remete aos astros do sistema solar. A logo do programa se mantém presente no canto superior direito da tela, durante toda a exibição da série amor, funcionando como marca d’água junto com a logomarca da GNT.

(…)

Na abertura, Cláudia sempre expõe o signo tema do programa do dia e apresenta as personagens do quadro parceria, fazendo uma introdução sobre o assunto, como no programa de Libra e o amor:

Para os librianos o amor é principalmente troca. Eles nasceram para serem plural, reverenciam o amor e a beleza acima de tudo e sabem que as diferenças enriquecem o mundo. Esses grandes idealistas sonham com o mundo e com relações justas, harmoniosas e verdadeiras. Os librianos são inteligentes sensíveis e grandes parceiros que buscam no amor não só o equilíbrio e a parceria, mas o verdadeiro encanto da vida.

Lisboa

(…)

Em comparação, o quadro de apresentação do horóscopo de Lola dá-se no índice da revista onde é chamado de “GPS Astral, feito pela Guru Hype* Susan Miller”. Sabemos que o aparelho GPS nos guia a caminhos desconhecidos. Desse modo, a revista nos dá a pista de que tentará nos direcionar por meio do horóscopo. Podemos observar também que a apresentação de Lola se apoia na imagem de Susan Miller como a “astróloga do momento”, que virou celebridade. Notamos que Lola se preocupa mais em mostrar quem realiza o horóscopo, do que o próprio horóscopo propriamente dito. A revista aplica uma linguagem moderna e “descolada”, utilizando palavras e ferramentas atuais a fim de “estar na moda” até mesmo em seu horóscopo.

* Hype é a promoção extrema de uma pessoa, ideia, produto. É o assunto que está “dando o que falar” ou algo que todos falam e comentam. Geralmente é algo passageiro, como o assunto da moda. A palavra deriva de hipérbole, figura de linguagem que representa o exagero de algo ou uma estratégia para enfatizar alguma coisa.

Tanto a apresentação de No Astral quanto Lola utilizam bom humor, leveza e celebridades. Porém, enquanto No Astral não demonstra que deseja ser um guia ou modelo, Lola posiciona seu horóscopo explicitamente como uma bússola para o receptor.

7.2 Quadro Parceria

astronomical clock face

(…)

A parceria envolve relacionamentos entre namorados heterossexuais e homossexuais (até ex-namorados e ex-maridos), mãe e filho, irmãos, colegas de trabalho, nora e sogra, dentre outros.

Na série amor este quadro comumente é apresentado com Cláudia Lisboa em cena, fazendo o papel de entrevistadora e comentarista astrológica. As personagens da parceria são sempre pessoas comuns, entrevistadas em suas casas ou locais bem íntimos, dando um tom bastante pessoal e intimista à série.

(…)

Observa-se outra diferença na enunciação entre Lola e No Astral. No horóscopo da revista, a astróloga Susan Miller é quem destaca a posição social de seu receptor, demonstrando que seu endereçamento é voltado para mulheres bem sucedidas “Aproveite para jogar tênis, correr na praia e ler um bom livro”, “Algum projeto profissional feito por você vai impressionar pessoas influentes e você será recompensada com elogios e dinheiro”, “O momento para viagens ao exterior será espetacular entre os dias 30 de julho e 10 de agosto”. Os modos de endereçamento, segundo Ellsworth dizem respeito a quem o emissor pensa que o receptor é. Lola claramente imagina que seja comum para suas receptoras viajar para o exterior, jogar tênis e impressionar pessoas influentes. É para esta mulher que Susan Miller fala em seu horóscopo.

No Astral, por outro lado, não endereça claramente uma mensagem para seu público, porém mostra personagens como Bruno Flora, que visam estabelecer um vínculo com o emissor e gerar reconhecimento. Assim, o programa acredita também que seu público receptor seja bem sucedido, viaje ao exterior e possua boa aparência, porém No Astral não explicita isso em seu discurso mediado como o faz Lola, deixando para as personagens dos quadros o papel de representar o receptor imaginado pela emissão do programa.

(…)

Já em Lola, percebemos que o horóscopo é preditivo e sem espaço para interação dos receptores, onde terão que assistir o que a astróloga promete acontecer e tomar ou não a posição que ela os ordena. Susan Miller (diferentemente de Cláudia Lisboa que ouve a história de seus entrevistados) se posiciona como a guru, que tudo sabe e tudo vê na vida de seu receptor:

Você começou a ver bons avanços em sua carreira depois que Mercúrio, planeta da comunicação e do comércio, voltou a sua órbita regular. Seus planos profissionais estão mais claros agora. Por isso, agilize seu cronograma de encontros antes que Marte, planeta da orientação, deixe sua casa da fama e da honra, no dia 18 de setembro. Você estará muito produtiva, com chances de desenvolvimentos inesperados. Questões domésticas também podem ser resolvidas neste mês. A partir do meio de setembro, você pode vender, comprar ou alugar uma casa, decorar o apartamento, fazer consertos ou arranjar uma companheira de quarto.

(…)

Miller

(…)

Outra diferença clara percebida entre Lola e No Astral é a constância do tempo presente no discurso das personagens e da astróloga, apresentando muitas expressões como “eu sou, eu gosto, eu penso, eu odeio, librianos são, aquarianos amam, etc.”. Não há uma maior preocupação com a história das personagens ou seu futuro. O caráter preditivo da astrologia antiga ou textual das revistas aqui é praticamente extinto, privilegiando apenas o aqui e agora, como podemos observar no discurso da gerente de marketing, Aline Tassar, na série de Virgem no trabalho:

O meu dia-a-dia precisa ter uma certa ordem, sabe? Eu detesto acordar e ao invés de acordar, tomar café e vir pro trabalho, ter que ir antes no médico. Isso me causa uma certa irritação. Eu gosto de acordar, tomar café e vir pro trabalho, como eu faço todos os dias. Eu gosto de ter as coisas controladas, sobre o meu poder, quando elas estão sob o meu poder eu sei onde eu tô pisando.

Tassar

Este fenômeno nos pareceu curioso, pois mesmo nos horóscopos descritivos, são raros os que se mantém sempre no presente, sem realizar nenhuma previsão.

Procuramos buscar respostas ampliando nosso olhar para o mundo que nos cerca.

Segundo Verón, os macrofuncionamentos discursivos de uma sociedade sobredeterminam os microfuncionamentos linguísticos. O autor afirma que no âmbito dos macrofuncionamentos pode-se perceber a influência das condições produtivas sobre os discursos e o enraizamento destes na sociedade.

Desta forma, para compreender melhor as condições de produção do discurso presenteísta de No Astral necessitamos conhecer um pouco o macrofuncionamento atual da sociedade, já que esta tendência pode advir e estar inscrita na mesma.

(…)

Esta crescente mediatização da sociedade, que Debord acredita estar em um estágio avançado, substitui os livros pela informática, privilegia o tempo real, o presente em detrimento da crítica e da história:

Não é de estranhar que, desde pequenos, os alunos comecem, com grande entusiasmo, pelo Saber Absoluto da informática: enquanto isso ignoram cada vez mais a leitura, que exige um verdadeiro juízo a cada linha e é capaz de dar acesso à vasta experiência humana anti-espetacular. A conversação já está quase extinta, e em breve estarão mortos muitos dos que sabiam falar.

Debord

Para Debord, a leitura seria a salvação dessa sociedade, pois por meio dela surge a consciência que pode ser transmitida em momentos que não aqueles da relação imediata dos vivos. A leitura seria a única forma de recuperar a ideia de tempo e história, porém o autor acredita que, em breve, os livros e a própria fala humana perderão espaço – como já estão perdendo – para as novas tecnologias de informação.

Em No Astral o tempo presente e a vida atual das personagens, sejam pessoas comuns ou celebridades, é o que tem importância. A enunciação não privilegia as histórias de vida e a trajetória pessoal. Este fenômeno pode decorrer do momento em que a sociedade vive, como afirma Bakhtin sobre as ideologias do cotidiano:

Os sistemas ideológicos constituídos da moral social, da ciência, da arte e da religião cristalizam-se a partir da ideologia do cotidiano, exercem por sua vez sobre esta, em retorno, uma forte influência e dão assim normalmente o tom a essa ideologia. Mas, ao mesmo tempo, esses produtos ideológicos constituídos conservam constantemente um elo orgânico vivo com a ideologia do cotidiano; alimentam-se de sua seiva, pois, fora dela morrem, assim como morrem, por exemplo, a obra literária acabada ou a ideia cognitiva se não submetidas a uma avaliação crítica viva. Ora, essa avaliação crítica, que é a única razão de ser de toda produção ideológica, opera-se na língua da ideologia do cotidiano. Esta coloca a obra em uma situação social determinada.

Bakhtin

(…)

Outro traço a ser discorrido sobre No Astral é esta tendência a narrar a própria vida, os próprios defeitos e qualidades.

Segundo Arfuch, a narração da própria vida como expressão da interioridade e afirmação de si mesmo é um fato que ocorre há um pouco mais de dois séculos e não pode ser dissociado da consolidação do capitalismo e do mundo burguês. A partir do século XVIII, com o surgimento das autobiografias, brota este espaço de autorreflexão decisivo para a consolidação do individualismo como um dos traços típicos do ocidente, acrescenta:

Esboçava-se, desse modo, a sensibilidade própria do mundo burguês, a vivência de um “eu” submetido à cisão dualista (público/privado, sentimento/razão, corpo/espírito, homem/mulher), que precisava definir os novos tons da afetividade, o decoro, os limites do permitido e do proibido e as incumbências dos sexos, que, no século XIX, se consolidariam sob o signo da desigualdade, com a simbolização do feminino como consubstancial ao reino do doméstico.

Arfuch

A partir desta época, os relatos da esfera íntima, depoimentos da vida real, nunca cessaram. Vidas filosóficas, literárias, políticas, intelectuais, artísticas e etc., representavam testemunhos inestimáveis, e ampliavam o interesse pela vida de pessoas comuns. Os diários íntimos confessionais não só registram acontecimentos da fé ou da comunidade, como também falam do mundo afetivo de seus atores.

(…)

No Astral, por exemplo, nos diz muito sobre o tom de nossa época. Centrado nos relatos pessoais, mostra-nos que valorizamos as narrativas de pessoas comuns e célebres. Seus assuntos principais são o trabalho, o amor, as relações pessoais, a busca por uma identidade. Não seriam estes a maior preocupação dos viventes deste tempo? Anteriormente, a astrologia mediatizada era baseada em aconselhamentos, em um locutor que possuía um poder acima do nosso, de prever o futuro, de guia, de modelo e nos solicitava certas ações, atitudes. Aqui em No Astral, porém, percebemos uma nova roupagem da astrologia na mídia, como se de alguma forma os emissores, receptores e a sociedade, em geral, valorizassem mais os discursos que nos colocam em um mesmo patamar, do que os discursos que “vem de cima”.

(…)

Os meios de comunicação, e mais precisamente No Astral, parecem demonstrar esta nuance do sistema capitalista, onde o trabalho não se apresenta como opção, mas um dever, um “valor” obrigatório. A série trabalho de No Astral não abre espaço para o diferente, para pessoas que não trabalham, assim como a sociedade capitalista não abre e não dá boas oportunidades de crescimento fora do trabalho. A série amor pode demonstrar pessoas que não amam, pessoas solteiras, separadas e casais homossexuais, porém todas elas se mostram felizes e realizadas. A série trabalho, porém, jamais demonstra pessoas desempregadas e felizes, ou seja, não há espaço para outras realidades.

Qualquer ideia de espontaneidade, de mostrar o real em si, de participação popular é aqui desconstruída, visto que, o estranho, o diferente ou outro tipo de vida é evitado. Mesmo que o programa tente passar a ideia de realidade, de espontaneidade, trata-se de uma realidade controlada, fabricada, que deve estar de acordo com os valores que a emissora cultiva.

7.3 Quadro Celebridades

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Como abordado anteriormente, a emissora GNT adota em seu contrato de leitura a participação de pessoas comuns e celebridades em seus programas. Normalmente em todos os seus produtos, poderemos ver esta mescla de anônimos e celebridades dando opiniões sobre um determinando assunto. Como não poderia ser diferente, o quadro celebridades de No Astral é apresentado em todas as edições, já que o contrato de leitura do programa e da própria emissora envolve a utilização destas personagens para criar identificação com o público.

Em No Astral, cantores, jogadores de futebol, atores (da Rede Globo, obviamente) e apresentadores aparecem contando histórias pessoais. Temas como trabalho, amor, família e astrologia são abordados pelos mesmos. Em praticamente todos os programas disponíveis no site da emissora e no Youtube, a celebridade narra algo sobre si mesma de frente para a câmera, sem a presença de um mediador, exceto no programa introdutor sobre a série amor, onde Cláudia Lisboa entrevista Marisa Orth. Nos demais, é como se a celebridade estivesse olhando diretamente para o interlocutor em uma conversa informal.

Arfuch acrescenta que, ao narrar em primeira pessoa, uma maior verdade é adicionada aos fatos e à “realidade televisiva” (na medida em que aproxima sujeitos numa dimensão sensível).

(…)

Já na série trabalho, tanto artistas do quadro celebridades, quanto pessoas comuns no quadro parceria aparecem com legendas com seu nome, profissão, signo do zodíaco e algum traço de personalidade que corresponda àquele signo com ponto de exclamação ao final para dar bastante ênfase, funcionando mais como um signo sensorial/emotivo do que como legenda.

(…)

Torna-se relevante destacarmos a teoria de Peirce. Para ele, a produção de sentido se dá por meio da tríade signo-objeto-interpretante que pode ser mais bem exemplificada no Quadro.

Quadro

Signo, segundo Peirce, é tudo o que possa ser conhecido, tudo o que é reconhecível. Mas, para que um signo potencial possa atuar como tal, deve estar relacionado com um objeto, deve ser interpretado e produzir um interpretante na mente do sujeito implicado. Este processo interpretativo é denominado “semiose”.

(…)

Observamos que a concepção peirceana deixa espaço à interpretação individual. O interpretante é um pensamento subjetivo que utiliza um signo para fazer referência a esse objeto. Para cada um de nós, a relação entre um signo e um objeto tem um sentido preciso, está vinculado a afetos, lembranças e experiências que têm a ver com tal semiose. Segundo Peirce, a semiose adquire uma dimensão afetiva que, embora seja subjetiva, para o sujeito não é arbitrária, em absoluto.

Em outras palavras, para Peirce, o interpretante é subjetivo, é a mente de cada um que interpreta de acordo com o repertório individual. Um mesmo signo pode não representar a mesma coisa para duas pessoas. Em No Astral, porém, não visualizamos muito espaço para a interpretação, apesar de sabermos que cada receptor interpreta um signo à sua maneira. O programa não exibe apenas a legenda com o nome do participante como de costume, mas também um “resumo do que a pessoa é”. Se for virginiano, é perfeccionista, se for sagitariano, tem muita energia. No Astral tenta interpretar pelo próprio receptor ao invés de deixá-lo tirar as próprias conclusões do que está sendo visto e ouvido. Assim, o programa tenta impor seu próprio sentido. (…). A respeito deste assunto, Bourdieu nos fala sobre esta tendência da “nomeação”:

De fato, paradoxalmente, o mundo é dominado pelas palavras. A foto não é nada sem a legenda que diz o que é preciso ler – legendum -, isto é, com muita frequência, lendas que fazem ver qualquer coisa. Nomear, como se sabe, é fazer ver, criar, levar à existência. E as palavras podem causar estragos.

Bourdieu

Para o autor, muitas vezes, a mídia cria situações com legendas para uma cena, uma imagem ou uma foto, que na verdade não existem. Jost comunga com esta ideia e nos diz:

Desse ponto de vista, a informação televisual sustenta-se em um mal entendido: enquanto o telespectador imagina que a informação vem da imagem, e que o comentário do jornalista visa primeiramente descrever o que viu ou o que sabe, o exercício ao qual ele se entrega tende antes a conformar a imagem à sua palavra. Com o princípio de no início era o verbo, a informação torna-se conformação.

Jost

Valendo-nos das palavras de Jost, percebemos que No Astral faz exatamente isto, conforma a imagem à palavra, seja esta uma legenda ou o discurso da apresentadora, portanto a impressão de “programa feito com a fala de pessoas normais” seria ilusória, já que o discurso dos produtores do programa prevalece sobre seus participantes.

Outro ponto importante que devemos procurar compreender na enunciação de No Astral é o motivo da utilização de celebridades contando sobre suas atitudes e vida pessoal.

De acordo com Bauman, um dos principais focos da sociedade atual é a busca pela identidade que possa nos conferir “aprovação social”. Para isso, a identidade deve ser fácil de decompor, como foi fácil de construir, permanecendo flexível para alterá-la quando não for mais satisfatório. A preocupação dos antepassados com a própria identificação, exclusiva e única, tende a ser deslocada pela preocupação com uma reidentificação perpétua. Ele acredita que a identidade no mundo atual é líquida e momentânea:

A facilidade de desfazer-se de uma identidade no momento que ela deixa de ser satisfatória, ou deixa de ser atraente pela competição com outras identidades mais sedutoras, é muito mais importante do que o “realismo” da identidade buscada ou momentaneamente apropriada.

Bauman

Nesta busca, acabamos procurando modelos na indústria cultural que possam satisfazer nossa necessidade de aceitação e adequação.

O autor acredita que a indústria do entretenimento se aproveita desta busca nos sugerindo modelos a todo o momento. O sucesso desta indústria, segundo Bauman, se dá pela imensa capacidade tecnológica, que permite a criação de espetáculos que oferecem oportunidade de participação a telespectadores fisicamente remotos.

Para ele, o indivíduo tranquiliza-se pela orientação moral dada e imposta pela sociedade e pelos meios. Esta orientação se daria mais pela estética do que pela ética. Como todos os objetos da experiência estética, a indústria do entretenimento atuaria por meio da sedução e não por meio da razão.

(…)

Segundo Bauman esta identificação e a ideia de comunidade criada pelos programas de entretenimento por meio dos discursos das celebridades são ilusórias e passageiras. Para ele, estão são apenas um simulacro, com laços são facilmente desfeitos, já que em uma verdadeira comunidade todos os indivíduos protegem e criam obrigações para com os outros:

Os ídolos realizam um pequeno milagre: fazem acontecer o inconcebível; invocam a “experiência de comunidade” sem comunidade real, a alegria de fazer parte sem o desconforto do compromisso. A união é sentida e vivida como se fosse real, mas não é contaminada pela dureza, inelasticidade e imunidade ao desejo individual que Durkheim considerava atributos da realidade, mas que os habitantes móveis da extraterritorialidade detestam como uma intromissão indevida e insuportável em sua liberdade. Os ídolos, pode-se dizer foram feitos sob encomenda para uma vida em episódios. As comunidades que se formam em torno deles são comunidades instantâneas, prontas para o consumo imediato – e também inteiramente descartáveis depois de usadas.

Bauman

(…)

7.4 Quadro anônimos

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(…)

O quadro utiliza apenas cenas externas para dar a impressão de casualidade e informalidade, como se “capturasse” pessoas naquele exato momento, andando pelas ruas, e perguntassem o que lhes viessem à cabeça sobre um determinado signo. Assim, temos a impressão de que os próprios receptores, ou seja, nós mesmos, estamos fazendo parte do programa, já que apenas leigos aparecem falando sobre a astrologia.

O nome ou outra identificação sobre a personagem não aparece em nenhum momento durante o quadro. Não há legendas, nem apresentação. As falas vão sendo passadas de uma personagem para outra, até que cada um fale o que pensa sobre o signo tema. Em geral, 4 personagens são apresentadas em um mesmo programa. O quadro não identifica as personagens, para criar a ideia de elas podem ser você, eu, ou quem sabe, alguém que a gente conhece.

Este quadro simboliza em No Astral a participação dos receptores nas mídias, o senso-comum, um programa feito “pela gente”. É como os jornais onde participam receptores leigos que escrevem, fotografam ou filmam os acontecimentos. Aqui, não se pretende saber sobre suas vidas, seus defeitos e qualidades, como vimos no quadro parceria, e sim saber o que os receptores pensam sobre o assunto em questão. Eles recebem espaço para se posicionar, mesmo não possuindo formação em astrologia. Implicitamente, o programa mostra que a voz dos receptores também é importante, que deseja ouvi-los, diferentemente do que ocorria anteriormente nos horóscopos mediatizados, onde não havia espaço para este receptor se posicionar, dizer o que pensava e sentia, deixando para os jornalistas e astrólogos o papel de emissores. Neste quadro, assim como nos outros, a emissão tenta inverter o papel entre emissores e receptores.

(…)

Trivinho crê que nossa sociedade, como nenhuma outra, desvaloriza o sujeito per si. É como se somente existir não bastasse, é necessária visibilidade e o reconhecimento alheio. Para ele, há uma cultura em nosso tempo em que é praticamente obrigatório nos relacionarmos por meio de mídias. A existência apenas tem valor se for evidenciada nos e por meio dos media, é como uma lei tácita. O slogan da Internet: “o que não está na internet não existe” poderia ser aqui facilmente modificado por “quem não aparece nas mídias, não existe”.

De acordo com Reis, o sujeito se constrói a partir de uma teia de relações – entrecruzadas com o repertório mediático composto por modelos de sujeito ideal – e se alimenta dessa estrutura por sua necessidade de ter coordenadas existenciais, sinalizadas pela alteridade (que pode ser exercida pelos próprios media). Esse modus operandi do indivíduo abriga forças de dominação, exercitadas entre sujeitos, e se alimenta de configurações econômicas e socioculturais de época, uma vez que o ambiente é o lugar em que se processa a história psíquica do sujeito. Os receptores buscam as mídias como recurso para o enfrentamento de incertezas e vicissitudes, no plano existencial imediato, e para suportar a impermanência, considerando um horizonte simbolicamente longínquo da existência.

Reis

A mídia aproveita-se dessa busca, em especial a grande mídia como jornal, televisão, cinema e rádio, nos mostrando em seus produtos o modelo ideal de comportamento e aparência na sociedade pós-moderna, tornando-se um grande “ditador” de condutas e estética. Ela nos mostra, assim, o que considera bom ou ruim, bem ou mal, belo e feio e se torna para os receptores uma grande referência de mundo.

(…)

7.4 Quadro Céu (ou dica) da Semana

Astrology__1999_

O quadro céu da semana é o último quadro apresentado ao final de cada programa.

Aqui temos a apresentação do que mais se associa aos horóscopos mediatizados, já bem conhecidos por nós.

Cláudia Lisboa aparece no cenário de apresentação do programa, sentada em uma poltrona moderna, onde faz previsões para a semana. Esta previsão é geral, válida para todas as pessoas de acordo com as mudanças existentes no céu naquele momento, e não uma previsão para cada signo ou o signo tema do dia. É possível constatar estas observações no discurso de Cláudia no programa de Aquário no amor:

Hoje eu vou falar sobre uma data importante para a astrologia. A entrada do sol no signo de Áries, o primeiro signo do zodíaco. Esse evento marca o início do novo ano astrológico, então nada melhor do que aproveitar a força impulsionadora e o desejo de vencer do signo de Áries para se inspirar, reunir coragem, ousar e ir à luta. É hora de tomar decisões importantes, iniciar novos projetos, mudando o que for preciso para começar um novo ciclo de vida, melhor e mais próspero. E mais uma dica: cuidar da saúde e fazer atividades físicas.

Lisboa

Evidenciamos que, mesmo que o tema do programa seja o signo de Aquário, a astróloga ao final fala sobre o próximo signo que entrará “em vigor” durante a semana, pois as datas do programa não se encontram de acordo com as datas dos signos apresentados em si. Para situar os receptores na semana do signo vigente, Cláudia utiliza estas dicas remetendo ao momento atual, independente do signo tema. Por exemplo, o programa onde Cláudia realizou esta dica é de Aquário. Aquarianos nascem do dia 20 de janeiro ao dia 19 de fevereiro, porém o programa foi apenas exibido em março. Para posicionar os receptores no momento atual (março), Cláudia utiliza o quadro céu da semana. Assim, a astróloga faz uma conexão com o momento vivido, independentemente da importância do signo tema do programa, para despertar mais interesse do público, já que os conselhos servem para todos os signos.

(…)

Interessante é percebemos também que esta etapa do programa é a que mais se assemelha com os horóscopos da mídia, inclusive com o discurso que Cláudia emprega em seu horóscopo no jornal O Globo: “Neste momento, uma forte alegria pode ser experimentada com as iniciativas que têm origem na força que emana do coração. É tempo de confiar no seu desejo e agir de acordo com sua intuição”. Este é um trecho do horóscopo ndividualizado do jornal para o signo de Áries. Neste trecho, tanto quanto em seu discurso no programa, percebemos a marca da astróloga que emprega em seus conselhos sempre as expressões “É hora de, é tempo de…”. Notamos aqui, aquele locutor um pouco mais soberano e modelo em tudo o que faz, portando-se como guia. Cláudia, no programa, procura fazer isto de uma forma mais sutil, evitando verbos no imperativo como “Realize, faça, comece”, as expressões “é hora” e “é tempo” soam como um convite para o receptor aplicar em si, como se este fosse o momento perfeito para realizar ou mudar algo, mesmo que estas expressões representem ainda um locutor acima do receptor.

Ouroboros, fred weidmann, 1999

8. Conclusão

Este estudo nos possibilitou identificar algumas características nas estratégias de enunciação utilizadas no programa No Astral para se aproximar dos receptores. As observações encontradas nas estratégias do programa nos permitiram, em alguns momentos, comparar com as estratégias empregadas pela revista Lola. Notamos que No Astral há um enfoque mais acentuado no que é vivido no aqui e agora, enfatizando principalmente as experiências e a verdade que as pessoas conseguem nos passar do que as preocupações com o futuro desconhecido, com o que há de vir. Por outro lado, em Lola podemos perceber claramente que o horóscopo é voltado para a previsão, o enunciador se mostra como um “guia” soberano que tudo vê e tudo sabe, estando acima do seu receptor.

Em No Astral buscam-se modelos mais reais, palpáveis, a fim de atingir e gerar identificação nos receptores com a ideia de que “poderia ser eu ou alguém que eu conheça”. Com o depoimento da vida de cada pessoa é como se todos os valores fossem possíveis, como se o programa “aceitasse” as diferenças entre nós mais do que ditasse normas. Assim, No Astral diversifica as personagens, mostrando pessoas parecidas ou muito próximas com as que conhecemos, como por exemplo, casais gays, casais separados, deixando que os modelos de pessoas felizes na sociedade sejam deixados um pouco de lado. Porém, até mesmo estas personagens, estão a serviço do sentido maior que No Astral deseja evidenciar, já que em nenhum momento apresentam uma ruptura com os valores da emissora e do programa.

Propõe-se, desse modo em No Astral, uma aproximação com o nosso mundo e não a distância da racionalidade, de palavras difíceis, da “aura célebre”, saberes restritos, possibilidades distantes. Porém, nem tudo é permitido na televisão, como vimos com Bourdieu e Jost, os discursos são pautados e não se pode falar tudo o que pensa. A espontaneidade e normalidade de No Astral, seriam, de alguma forma, também “encenadas”, pois as legendas e o discurso de Cláudia Lisboa é editado e dirigido, buscando conduzir nosso olhar a todo o momento.

No Astral nos mostra mais do que diz como deve ser, sem solicitar explicitamente uma mudança de postura. Utiliza estratégias sensíveis, de forma despretensiosa, para servir de modelo de identidade, como padrão a ser seguido, como assinalaram anteriormente Bauman e Luhmann. Por sua vez a astrologia em Lola nos mostra, por meio de palavras no imperativo, como devemos nos comportar e quais os valores que a revista sustenta.

A astrologia se mostra muitas vezes como o pano de fundo do programa, em “segundo plano”, pois a principal função de No Astral é mostrar a vida das pessoas e aproximá-las de nosso mundo, sejam célebres ou comuns, apenas pautando as entrevistas pelo signo dos entrevistados e suas características. O quadro céu da semana ao final de cada edição apenas realiza uma previsão superficial e geral, direcionada para todas as pessoas. Se tomarmos a astrologia como o conhecimento que realiza previsões por meio de horóscopos, No Astral seria então um simulacro de astrologia com conteúdo transbordando de entretenimento.

Na primeira seção deste estudo, verificamos que a prática da astrologia é complexa, exigindo o estudo matemático da posição dos planetas, das casas astrológicas, dos signos e das influências planetárias em determinado mapa natal de uma pessoa ou empresa, visando prever comportamentos e qualquer tipo de acontecimento.

No Astral simplifica e até mesmo desconsidera este saber, fazendo pouca ou nenhuma menção a este estudo aprofundado que faz parte da astrologia. O espetáculo, como afirmou Debord, pode fazer com que um objeto falso conserve o nome e boa parte da aparência do verdadeiro, mas retire seu conteúdo. O falso pode substituir legalmente o nome do verdadeiro que se extinguiu. É o que acontece com a astrologia em No Astral, não se fazem previsões, nem falam em casas astrológicas, horóscopos, influências planetárias. A essência, o que caracterizava a astrologia como tal, foi perdida, apagada, obliterada pelo espetáculo.

O espetáculo de No Astral cria a ideia de sociabilidade na busca incessante pelo vivido, testemunhal, na tentativa de reunir o que está separado (os receptores), porém, como diz Debord, os reúne como separados. A sociabilidade criada pelo programa também se apresenta como um simulacro, já que uma comunidade verdadeira não é criada em decorrência do programa. Desliga-se a tevê e a “comunidade” acaba.

Por outro lado, analisando o lado comunicacional da emissão por meio do contrato de leitura, o programa se mostra coerente com o tom e a promessa da emissora, pois utiliza celebridades de um modo palpável e também cumpre o compromisso de linguagem simples e bem-humorada, identificada nos discursos, legendas, vinhetas, figurino e cenário. Em todos os programas hospedados no Youtube que fazem parte do corpus, percebemos que apresentam nenhum ou apenas um único dislike contra vários likes por parte dos receptores. Esta pequena pista nos mostra que No Astral gera um forte laço e reconhecimento com seu público.

A identidade, diferentemente da definição, é construída. As definições informam a uma pessoa quem ela é, as identidades a atraem pelo que ela ainda não é. Desta forma, No Astral seduz com seu simulacro de astrologia, pois nos apresenta modelos de identidades atraentes, a começar pelas celebridades. Buscamos no programa, como tirar melhor proveito das sensações e acabamos nos tornando “colecionadores de sensações”.

Percebe-se também, que neste atual cenário midiático, há uma tentativa de aproximação e de uma certa “espetacularização” da astrologia como estratégia do campo. O programa estabelece com o receptor uma via de mão dupla, em que o telespectador passa a ocupar uma nova posição no contexto discursivo, propõe um lugar para o destinatário. Porém, não podemos esquecer que isto também se trata de uma estratégia de sobrevivência, pois com a grande insurgência e utilização das mídias sociais, os sujeitos passaram a ter um maior poder de “voz” nos meios.

No Astral, assim como as revistas femininas e outras mídias, dita valores instaurados sutilmente a partir de imagens e signos em narrativas que funcionam como um conjunto imaginário de identificação e pertencimento social. O conjunto de imagens/signos da enunciação funcionam como um imaginário de pertença social, em que públicos (principalmente as classes médias) se identificam na partilha do sensível, contribuindo para o debate das exibições enquanto produtoras simbólicas de maneiras de estar e se destacar no mundo.

No Astral é assim, sobretudo, um retrato de nossa época. De uma sociedade que valoriza extremamente o vivido, tem obsessão pelo testemunhal, exalta o entretenimento, vive de simulacros e busca incessantemente um modelo de identidade que se adeque ao mundo atual, tão fluido e inconstante, onde a única certeza que se tem é que tudo muda a todo instante.

fashion-horoscope

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