Almanaques Astrológicos I

Almanaques ou a Sabedoria e as Tarefas do Tempo

Manuel Viegas Guerreiro*
&
J. David Pinto Correia*

* Professores da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Origem da Designação «Almanaque»

 O vocábulo almanaque é de origem incerta. Antenor Nascentes* escreve: «Do árabe almanakh, lugar onde a gente manda ajoelhar os camelos; daí, conto, que neste lugar se ouve, e finalmente calendário. Eguilaz dá o lat. manachus (circulus) empregado por Vitrúvio no sentido de círculo de um meridiano que servia para indicar os meses. No baixo latim aparece almanachus e no baixo grego alamanakon, nome dado por Eusébio a calendários egípcios. Engelman salienta que o calendário em árabe é taqwim. José Pedro Machado também refere «lugar onde o camelo ajoelha», acrescentando-lhe «estação», «região», «clima». No Petit Robert, lê-se que «do lat. medieval alamanachus, árabe almanakh, provavelmente do siríaco, rad. ma, lua, mês». Geneviève Bollême, autoridade na matéria, é de opinião que a palavra significou primitivamente «a conta», «o cômputo».

* Antenor Nascentes, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Rio, 1955

Julgamos que melhor será considerar «almanaque» como designação de uma prática específica, importada para o Ocidente, forma aculturada do conjunto de dados com que, nalgumas cortes orientais, era hábito os astrólogos presentearem os soberanos no início de cada ano. A preocupação dominante seria o fornecimento de quadros cronológicos, com a indicação do movimento dos astros, sobretudo do Sol e da Lua.

Estes quadros que podemos considerar como os antecedentes dos almanaques propriamente ditos eram conhecidos do Ocidente nos finais da Idade Média. Tinham sido elaborados por astrólogos árabes, e adaptados, depois, por judeus ou conversos (segundo a opinião do Prof. Luís de Albuquerque). Assim, as tábuas preparadas por Al-Kvarismi (século IX) foram adaptadas por Malesma e, no século XII, traduzidas em latim por Adelardo de Bath. Conforme refere ainda Luís de Albuquerque, o primeiro destes almanaques redigido em português foi o Almanaque Perdurável, que, fazendo parte de um códice da Biblioteca Nacional de Madrid, data da primeira metade do século XIV.

O que é um Almanaque

 Podemos considerar o almanaque como uma publicação de periodicidade (quase sempre) anual com variável número de páginas – que pode ir desde as dezesseis, habituais nos folhetos de cordel, até mesmo abranger algumas centenas –, a qual poderá caracterizar-se por:

1. quanto aos seus objetivos, ser obra prática de fácil e permanente consulta;

2. quanto à sua estrutura, apresentar-se muito variada, embora as diferentes matérias se organizem por referência a uma tábua cronológica ou calendário, em que se fazem anotações religiosas (festas, santos), se indicam as principais feiras e arraiais, se registram as fases da lua;

3. quanto à natureza dos conhecimentos que veicula, abranger desde os dados astronômicos e meteorológicos, efemérides, ou ainda curiosidades, conselhos práticos, mezinhas, pequenas notas sobre acontecimentos, fenômenos ou personagens, até a notas astrológicas (sobretudo o «juízo do ano», horóscopos), anedotas, adivinhas, provérbios, quadras e mesmo algumas poesias. Podemos dizer que a função na vida quotidiana dos vários públicos a que, ao longo dos séculos, se tem dirigido é a também hoje exercida por três tipos de publicações auxiliares: o calendário, o anuário e a agenda.

Almanaques: História, Contribuições e Esquecimento

 Patrícia Trindade Trizotti*

* Aluna do curso de Pós-graduação em História, no nível mestrado, pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP, Assis, São Paulo, Brasil, orientada pela prof. Dra. Tânia Regina de Luca.

De acordo com o historiador Jacques Le Goff (1996), o primeiro almanaque surgiu na Europa por volta do ano de 1455. Logo após esta data, em 1464 surgiu o Almanaque da Corporação dos Barbeiros, e em 1471, o Almanaque Anual. No tocante a França, o almanaque apareceu ligado a leitura de colportage, sendo o Le Grand Calendrier Compost dês Bergers, de 1471, o mais importante e popular almanaque francês. Nos séculos XVI e XVII, os almanaques passaram a circular amplamente na Europa, tendo seu interior definido pelo calendário, pela astrologia, utilidades e entretenimento. Porém a partir do século XVIII, eles foram ganhando uma nova roupagem, diferente da anterior, cuja forma padrão era in-quarto, com oito paginas de um papel não muito bom e com gravuras grosseiras. A nova roupagem adquirida pelos almanaques os transformava em impressos mais elaborados, com mais páginas e novo conteúdo, além de passarem a serem veículos de propaganda e instrução.

A mudança pelo qual o almanaque passou nos séculos referidos, não foi sem razão. Para permanecer, sua função social se modificou. Essa transformação não foi em vão e o almanaque obteve êxito, podendo assim, se expandir para além da Europa, chegando a vários lugares como o Brasil.

Mas um pouco antes da chegada dessa forma de impresso, nosso país não tinha autonomia para imprimir. Por isso deve-se ressaltar que a criação da imprensa régia foi de não somenos importância para a história da imprensa no Brasil. Mesmo que essa durante muito tempo impôs censura a outros impressos e serviu antes de tudo para resolver a demanda de uma corte recém instalada, publicando atos do governo e noticias da coroa. Entretanto, com a proclamação da liberdade de imprensa em 28 de agosto de 1821, esse quadro mudou. Primeiro com a publicação da chamada imprensa da independência e depois com uma gama variada de jornais e almanaques.

Já os almanaques de farmácia foram os mais populares dentro os diversos tipos que existiam no gênero. O alcance e a importância dessa literatura traduz – se pela alta tiragem de exemplares gratuitos, modelo tipográfico e ampla rede de distribuição. Na França os almanaques divulgavam medicamentos, entretanto, não havia almanaques específicos. O primeiro almanaque de farmácia muito bem conhecido no Brasil foi o Pharol da Medicina, elaborado com o patrocínio da Drogaria Granado do Rio de Janeiro em 1887, e que foi uma espécie de modelo para os seus sucessores. O Pharol da Medicina possuiu uma tiragem inicial de 100 mil exemplares e de 1913 a 1923, atingiu a cifra de 200 mil exemplares. Fato esse muito significativo para a história dos almanaques, sobretudo os de farmácia. Os almanaques de maior popularidade foram: Saúde da Mulher, Bromil, Capivarol e o Biotônico Fontoura. Esse último merece grande atenção, pois foi um dos grandes almanaques de farmácia já publicados no Brasil. O almanaque do Biotônico foi elaborado e ilustrado por Monteiro Lobato em 1920. Ele nasceu do tônico criado pelo farmacêutico Cândido Fontoura, natural de Bragança Paulista, que em 1915 levou a forma do Biotônico para São Paulo e esse ganhou fama de ser um tônico capaz de mudar a vida, tornando-a mais cheia de energia, transformando apatia em desempenho, preguiça em vontade. A união de Monteiro Lobato com o Biotônico foi um encaixe perfeito. Lobato havia criado o folheto Jecatatuzinho, que era distribuído anteriormente nas farmácias e que foi substituído pelo Almanaque Biotônico Fontoura, do qual Jeca Tatu se tornou personagem símbolo. O almanaque de farmácia por ser um impresso gratuito e de grande acesso, foi um mecanismo perfeito utilizado por médicos, educadores, sanitaristas, intelectuais, ou seja, todo grupo de pessoas interessadas em mudar tal realidade, para que dessa maneira fosse possível a constituição de uma nação rumo ao progresso. Muitos almanaques eram vinculados não só a farmácia, livrarias e letrados, mas também, na sua grande maioria, a empresas jornalísticas e tipografias, deixando claro a dependência em relação a grande imprensa.

almaque astrologique

O Juízo do Ano

Um estudo sobre o almanaque popular no Nordeste

 Luis Celestino de França Júnior*

* Pesquisador associado ao Grupo de Estudos em Jornalismo Cultural da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Introdução

O poeta é um repórter
De pensamento ligado
Ouvindo o que o povo diz
Fazendo todo apanhado
E sai contando na rua
Tudo quanto foi passado.

Manoel Caboclo

Percorrer o caminho de um estudo sobre um almanaque popular é obrigatoriamente entrar em trilhas que nos levarão a reflexões a partir de pesquisas tanto da área de comunicação como da área da cultura.

Editado entre as décadas de 1960 e 1990, o almanaque O Juízo do Ano, publicado pela tipografia da rua Todos os Santos, em Juazeiro do Norte, cidade da região do cariri cearense, e distribuído por todo o Nordeste, chegou a atingir a tiragem anual de 40 mil exemplares entre os anos de 1968 e 1974, um número significativo em se tratando de publicações populares.

O almanaque trazia notícias publicadas em versos de poesia de cordel sobre assuntos variados, conselhos, previsões e indicações astronômicas, seguindo a tradição dos almanaques populares que remontam à Europa do século XV. Trazia uma singularidade em relação aos demais almanaques publicados no Brasil, em geral editados por laboratórios farmacêuticos: tinha como redator um único homem – o pernambucano, descendente de índios, Manoel Caboclo.

Da tradição ibérico-medieval ao Nordeste brasileiro

A origem do almanaque remonta ao início da divulgação da palavra impressa no mundo. O espaço de distribuição dos almanaques era a praça pública. Isso nos remete a Bakhtin1. Ele lembra que era comum os vendedores de drogas e camelôs charlatões colocarem em versos cantados em diversas melodias os benefícios de seus remédios. A praça pública era o ponto de convergência de tudo que não era oficial. Elementos da linguagem popular se infiltravam na praça pública onde eram devidamente legalizados. Os primeiros almanaques populares divulgavam exatamente os benefícios de remédios milagrosos.

1 Bakhtin, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto da obra de François Rabelais. Brasília, Editora da UnB, 1987.

Um dos estudos mais importantes sobre almanaques no mundo é de Geneviève Bollème publicado originalmente em 1969 e intitulado Les Almanachs populaires aux XVII et XVIII siècles. No trabalho de Bollème 2 é feita uma distinção entre os almanaques gerais e os almanaques de farmácia. No Brasil, nesse período, o mais importante almanaque que circulou foi o Lunário Perpétuo, editado em Lisboa e uma das importantes referências na literatura popular nordestina. Trazia, por exemplo, orientações sobre sinais de chuva e sobre os melhores momentos para a pesca, plantações e colheitas.

2 Bollème, Geniève. Les Almanachs populaires aux XVII et XVIII siècles. Essai d’histoire sociale. Paris, La Haye Mouton, 1969.

Em 1936, Joaquim Ferreira Lima publicou o Almanaque de Pernambuco, pela tipografia São Francisco, o que o próprio autor considerava uma adaptação do formato do Lunário Perpétuo às especificidades nordestinas. Ressalte-se que Manoel Caboclo foi aprendiz na mesma tipografia.

No Brasil, ainda são poucos os estudos sobre almanaques e raros os estudos específicos sobre almanaques populares. Encontramos, por exemplo, os livros de Vera Casa Nova 3 e Margareth Brandini Park 4. Ambos, no entanto, se debruçam sobre almanaques de farmácia.

3 Casa Nova, Vera. Lições de almanaque: um estudo semiótico. Belo Horizonte, Ed. Da UFMG, 1996.

4 Park, Margareth Brandini. Histórias e leituras de almanaques no Brasil. Campinas, Mercado de Letras, 1999.

Na coletânea de ensaios sobre a cultura nordestina organizada por Gilmar de Carvalho, 5 encontramos o artigo da historiadora Kênia Sousa Rios 6 intitulado “O tempo por escrito: sobre lunários e almanaques”. Nele, Kênia lembra a presença de personagens de almanaques que permaneceram de destaque com o advento de uma indústria cultural. É o caso, por exemplo, de João Grilo, personagem de almanaques do pernambucano Ferreira Lima e Jeca Tatu, personagem do almanaque Biotônico Fontoura, almanaque mais importante do país, estudado no livro de Margareth Brandini Park.

5 Carvalho, Gilmar de. Lyra popular: o cordel do juazeiro. Fortaleza, Museu do Ceará, 2006.

6 Rios, Kênia Sousa. “O tempo por escrito: sobre lunários e almanaques”, in: CARVALHO, Gilmar de (org.) Bonito pra chover. Ensaios sobre a cultura cearense. Fortaleza, Ed. Demócrito Rocha, 2003.

É no livro “Do Almanak aos almanaques”, organizado por Marlyse Meyer, 7 que encontramos no trecho de um artigo da professora Jerusa Pires Ferreira, intitulado “Almanaque”, a idéia que reforça nossa hipótese de que o almanaque funciona como um diluidor de conhecimentos.

7 Meyer, Marlyse (org.) Do Almanak aos Almanaques. São Paulo, Ateliê Editorial, 2001.

“No caso do Brasil, pode-se mesmo falar no aspecto civilizador dos almanaques, do que representaram chegando aos mais distantes sertões, aos povoados mais afastados, e mesmo nas cidades, numa integração de domínios rurais e urbanos, transitando entre classes sociais, exercendo a aproximação efetiva de repertórios”.

almanque 1851

Almanaques Astrológicos, Relicários do Tempo, Prognósticos do Destino

Rosilene Alves de Melo*

* Professora da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Aluna do Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia – PPGSA/UFRJ.

Resumo

 Esta pesquisa estuda o universo das relações entre cultura, natureza e mundo sobrenatural a partir dos almanaques astrológicos de feira, anuários de orientação meteorológica para agricultores editados no Brasil. Estes livros apresentam e articulam saberes do hermético campo da astrologia, numerologia, magia e prognósticos. A partir dos almanaques, interessa investigar as formulações dos leitores em relação aos seus ensinamentos e cosmologias.

Escrito nas Estrelas

Abril de 2008, dia nove, quarta-feira, sete da manhã. Para os demais moradores do Rio de Janeiro, uma manhã como outra, sem nenhum grande acontecimento na crônica diária dos jornais. Para mim, provavelmente também seria um dia comum não fosse por um detalhe; era o dia do meu aniversário e havia uma decisão a tomar: escolher entre aproveitar o dia para visitar algum ponto turístico da cidade – estava no Rio de Janeiro há apenas um mês – ou ir à Fundação Casa de Rui Barbosa, onde estava realizando pesquisas. Pelos inexplicáveis motivos que só alguém que está iniciando um doutorado conhece, acabei optando por ir à Casa Rui Barbosa.

Na volta, desembarquei na Estação Carioca, no centro da cidade, onde todos os dias os passageiros do metrô encontram bancas de livros e revistas usados. Por diversas vezes já havia me demorado ali, folheando alguns livros, muitos dos quais baratíssimos. Numa destas incursões encontrei três livros importantes para esta pesquisa: o Anuário Astrológico para 1995, de Marco Natali, o Almanaque Simpatias Populares, de Cícero Augusto, e um cujo título era bastante singular, Menino ou Menina: os astros e a hereditariedade, escrito pelo astrólogo brasileiro Omar Cardoso.

Contudo, naquela quarta-feira, algo inusitado aconteceu durante a costumeira visita à estação. Um dos livreiros, ao me ver observando os livros, reconheceu-me e perguntou: “você gosta desses livros de astrologia, não é?” Fiquei surpresa porque entre tantas pessoas que passam por ali o livreiro não só me reconheceu como lembrou de minha predileção pelos almanaques. Diante da resposta afirmativa ele foi objetivo: “vou levar você a um lugar onde vai encontrar o que procura”. Curiosa, o segui. Andamos poucos metros e logo estou na Livraria Camões, importadora de livros portugueses bastante conhecida na cidade.

Ele me apresentou o proprietário, um homem muito simpático, residente há muitos anos no Brasil, mas que ainda conserva o sotaque lusitano característico. Os dois conversaram rapidamente e o dono da livraria me conduziu a um espaço reservado, um tanto apertado e disse amigavelmente: “divirta-se”.

Para minha surpresa me deparei com uma estante com alguns livros, em francês e inglês, todos sobre astrologia. Pouco tempo depois, fui convidada a voltar minhas atenções para uma caixa de papelão, em pleno chão da livraria. Mais uma vez, o recado amigável: “divirta-se”. Que presente inesperado a caixa me reservava! Uma coleção de almanaques franceses, ingleses e norte-americanos, datados do início do século XX. Pelo estado em que se encontrava, supus que há tempos a caixa e os livros estavam ali e ninguém havia se dado conta de sua presença.

Rapidamente negociamos o valor e adquiri todo o conteúdo da caixa, empoeirada, no canto da Livraria Camões. Confesso que não observei de imediato tudo o que havia comprado. No trajeto até Niterói abri alguns exemplares e, surpreendentemente, todos tinham a mesma assinatura na primeira página: Danton Pereira de Souza. Depois percebi que os livros estavam cheios de anotações, indecifráveis à primeira vista. Ao chegar em casa imediatamente busquei informações a respeito daquele homem, que tudo indicava ser um leitor contumaz de almanaques, cuja coleção havia caído em minhas mãos. Em uma rápida pesquisa na internet – descobri que se tratava do primeiro astrólogo profissional do Brasil. Desnecessário dizer que, para quem acabava de ingressar no Doutorado cuja pesquisa trata da presença dos almanaques astrológicos no Brasil, a coleção de Danton Pereira de Sousa se revelou, ao final do dia, um grande presente de aniversário.

Desde o primeiro contato com os almanaques astrológicos, durante a realização da pesquisa para o mestrado, algo me incomodou profundamente: a quase absoluta invisibilidade sobre esses livros. Não posso dizer que completa porque foi produzida apenas uma dissertação sobre o tema (Almeida, 1981). Por conseguinte, desse estranhamento surgiu a necessidade de realização deste trabalho. Outras pesquisas dedicadas a estes livros tratam dos almanaques de farmácia (Park: 1990, Nova: 1996, Meyer, 2001), o gênero que mais se notabilizou no Brasil graças ao sucesso adquirido pelo Almanaque Biotônico Fontoura, editado a partir de 1920 pelo Laboratório Fontoura. Portanto, é notória a indiferença com a qual os almanaques, especialmente aqueles dedicados à astrologia, são tratados pelas ciências sociais. Mas, afinal, de que livros trato nesta pesquisa?

Os almanaques são publicações anuais, sob o formato de calendário, e apresentam indicações astrológicas, previsões meteorológicas destinadas aos agricultores, orientações sobre saúde e comportamento, além de curiosidades, provérbios, receitas, etc. Neste sentido, a publicação mais conhecida deste gênero ainda em circulação é o Almanaque do Pensamento, tradicional anuário editado desde 1912, em São Paulo, pela Editora Pensamento.

O sucesso do Almanaque do Pensamento inspirou a edição de outras publicações do gênero por pequenas tipografias e editores independentes. Conhecidos como folhinhas de inverno, ou almanaques de feira, estes livros começaram a ser editados no final do século XIX e ainda hoje são comercializados nas feiras livres e mercados populares. Embora as ciências sociais tenham dedicado poucos esforços na investigação sobre estas publicações, os almanaques astrológicos de feira constituem um importante material de ordem intelectual editado por agricultores, poetas de cordel e profetas. Estes livros ocupam, portanto, um papel singular na divulgação de práticas culturais, cosmologias e na sistematização de saberes tradicionais que há séculos circulam no país.

Os almanaques de feira se destinam aos sujeitos que vivem na zona rural e nas pequenas cidades do interior; voltam-se com mais intensidade para orientar os agricultores a respeito das épocas propícias ao plantio e à colheita, às ocorrências de secas e inundações. Trazem informações sobre plantas medicinais e seus efeitos terapêuticos; apresentam indicações de chás, banhos e outras recomendações para o combate a doenças. Também são indispensáveis como informativos as fases da lua, os eclipses, os santos de cada dia, orações, anedotas, bem como propagandas de remédios, talismãs, anéis e toda sorte de amuletos.

Do ponto de vista editorial, os almanaques de feira guardam muitas semelhanças com os folhetos de cordel, pois são editados nas mesmas tipografias, utilizando os mesmos recursos editoriais. Assim como os folhetos, os almanaques de feira podem ser encontrados no formato de oito, dezesseis ou trinta e duas páginas. Impressos em papel barato, no tamanho de 11×13 cm, com ilustrações na primeira capa, reservam espaço na quarta-capa para a publicidade, através do anúncio de amuletos e da relação revendedores onde os livros podem ser adquiridos. É interessante observar que a maioria dos produtos e serviços anunciados é confeccionada pelos próprios editores/autores: a comercialização dos horóscopos personalizados, talismãs e anéis, compõem outra expressiva fonte de renda associada aos almanaques. Estes livros são sempre lançados no período de setembro a dezembro, quando há uma acirrada disputa entre os astrólogos para garantir o privilégio de lançar as profecias para o próximo ano “em primeira mão”.

O Vaticínio e Prognóstico do Ano – editado na Paraíba por José Honorato de Souza, entre 1920 e 1953 – é provavelmente o primeiro almanaque de feira a circular regularmente no Brasil. Alguns almanaques de feira tiveram vida longa e chegaram até nós. Hoje é possível encontrar nas feiras e mercados públicos O Nordeste Brasileiro – editado por Manoel Luiz dos Santos desde 1949, em São José do Egito, Pernambuco – o almanaque de feira mais antigo em circulação. Calendário Nordestino é o título do almanaque editado pelo cordelista e xilógrafo José Costa Leite, cuja primeira edição data de 1959. Semanalmente José Costa Leite refaz o mesmo percurso e segue da cidade de Condado, Pernambuco, onde reside, para as feiras de Goiana, Timbaúba e Itabaiana, onde encontra feirantes e agricultores ansiosos pelas suas previsões.

Neste sentido, as problematizações desta pesquisa se situam tem três eixos: o primeiro, buscar compreender as modalidades de apropriação e recepção dos almanaques pelos leitores, os usos diversos, particulares e criativos que são feitos a partir desses textos; o segundo, analisar as condições de produção e recepção dos almanaques de feira enquanto linguagem, narrativa, que encerram saberes tradicionais, a exemplo da astrologia, contribuindo para a formulação de determinadas cosmologias, valores e práticas culturais; e, por último, problematizar como, no momento da escrita, os editores selecionam, organizam e apresentam os saberes medicinais, astrológicos, meteorológicos e literários tendo em vista atender as expectativas dos leitores;

Atualmente é possível encontrar uma série de almanaques diferentes nas bancas de revistas e outras publicações de cunho astrológicas: livros de signos, previsões astrológicas mensais, livros de interpretações de sonhos, livros sobre simpatias. Publicações com sofisticados recursos de editoração, se comparados aos almanaques de feira, aparecem em número cada vez maior nas bancas de revista, o que contraria o ceticismo em torno do lugar da astrologia como conhecimento na contemporaneidade.

No Brasil, existem poucos acervos de almanaques de feira. O melhor e mais importante acervo do gênero está na Biblioteca Átila Almeida, na Universidade Estadual da Paraíba. A coleção possui cerca de 200 exemplares. Durante pesquisa realizada em 2007, foram catalogadas todas as edições dos seguintes almanaques: Almanaque Calendário Brasileiro, Almanaque de Pernambuco, Almanaque do Nordeste, Almanaque Aéreo da Paraíba, Almanaque Estrela, Almanaque O Vencedo, Almanaque O Nordeste Brasileiro, Almanaque Apolo Norte e Profecia de Nostradamus, Almanaque do Ano Almanaque Leão do Norte, Almanaque São José, Almanaque O Juízo do Ano, Almanaque Paranor, Vaticínio e Prognóstico do Ano. Ao longo do processo inicial de pesquisa observei as seguintes características editoriais: autor, título, preço, tamanho, ilustrações, número de páginas, tipo de papel, local de publicação, editora e data de publicação.

Apesar do importante acervo da UEPB, poucas bibliotecas brasileiras cuidaram em reservar espaço em suas estantes para os almanaques. Por se tratar de um livro com feição utilitária, uma vez que as previsões servem para apenas um ano, também são poucos os leitores que possuem o hábito de guardá-los. Além disto, os estudos no campo da literatura brasileira ignoram a presença dos almanaques e de outras modalidades de publicações bastante divulgadas entre os leitores – livros de cartas, orações, cordéis e de sonhos – que não fazem parte do interesse dos estudos literários. A exclusão desses materiais aponta para concepções ainda vigentes, aliás, bastante conservadoras, que consagram como objeto de pesquisas as modalidade de livro e de leitura, não por acaso, aquelas praticadas pelos próprios intelectuais que se debruçam sobre seu estudo.

Estes livros contribuem para a formulação de cosmologias, discursos e práticas sobre as quais ainda paira um profundo silêncio porque questionam as concepções de saber, de conhecimento e de ciência instituídas. É sobre este silêncio que é necessário interrogar, pois, de acordo com Gayatri Spivak, “a condição de subalternidade é a condição do silêncio” (Carvalho: 2001, 120). A contribuição desta pesquisa é dialogar com outras narrativas em jogo que recorrem a outros textos produzidos antes mesmo do discurso de matriz cartesiana, fundador do pensamento científico moderno, se tornar hegemônico no Ocidente. Narrativas complexas, impressas, produzidas noutros espaços de enunciação e por outros sujeitos colocados nas bordas, nas dobras e nas frestas dos lugares de verdade construídos historicamente no Brasil. Interessa compreender o lugar que os almanaques ocupam como manuais de orientação, conselheiros, guias e profetas, investidos do poder de revelar o futuro, antecipar o infortúnio, a sorte e mudar o destino das pessoas.

Qual o contraponto da indiferença? A capacidade de estar dentro de uma cultura e ser diferente, exercer a diferença sem que haja sobre este conjunto de práticas culturais alguma visibilidade. A (in) diferença como possibilidade que é dada a sujeitos, objetos e textos de circularem livremente, à olhos vistos, sem que “ninguém” se incomode com isto. Significa manter a liberdade para estar, continuar e permanecer na rede discursiva de significações sem que sobre este saber atuem os esforços disciplinares, justamente por seu caráter supostamente ingênuo, supersticioso, falso, desprovido de verdade. Aprendemos com Michel Foucault (1996, 2007) que os mecanismos do poder disciplinar têm especial apreço pela verdade. O conhecimento científico, como campo disciplinar por excelência, não poderia perder tempo com cosmovisões comprovadamente “falsas”. Creio estar aí a chave para entender como este conjunto de práticas, saberes, textos, imagens e, sobretudo, sujeitos, foram ao longo do tempo, relegados ao esquecimento.

Creio que tão importante quanto o estudo dos processos de elaboração, transformação e transmissão de saberes e práticas culturais é a análise dos processos de exclusão, separação e segregação daquilo que não é privilegiado pelo “olhar” científico, que não merece atenção, que repousa no esquecimento. Estas práticas culturais e os vestígios de sua presença continuam, obstinadamente, permanecendo à sombra, nas bordas, percorrendo em silêncio e atravessando o labirinto das trajetórias pessoais e coletivas, na quietude da qual retiram a sua força.

A esta permanência eu atribuo o significado da resistência. Resistir é (re) existir, não é apenas o confronto, como o significado consensual da palavra resistência nos remete, mas existir duas vezes, é ter fôlego, é ter sete vidas. Estar presente, se fazer presente, se fazer palavra, lavrar as folhas em branco, lavrar o chão de significações no qual inscrevemos a cultura.

As pessoas que passaram pela Livraria Camões até o nove de abril de 2008 pisavam, quem sabe distraídas, sobre um chão de estrelas que, de agora em diante, ocuparão as estantes da minha biblioteca.

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Os Almanaques Populares

 Christiane Marques Szesz

Resumo

 Neste trabalho faz–se uma análise de como o escritor Ariano Suassuna se apropria do texto popular, mais especificamente, do almanaque popular e o cita em sua obra.

Leituras e Apropriações em Ariano Suassuna

Ariano Suassuna aponta constantemente a vinculação de sua obra com a cultura popular. Desde a primeira peça, Uma Mulher Vestida de Sol Ariano iniciou a tentativa de recriar na dramaturgia textos da literatura popular. Desse modo, jamais deixou de expor as fontes populares de seu trabalho referindo-se um trabalho de criação e recriação com base nos elementos herdados da tradição popular.

Desse modo no romance a Pedra do Reino há inúmeras apropriações da tradição erudita e da tradição popular. Quaderna o narrador da história é escritor de almanaques, “e como astrólogo e dizedor de sorte” mantém no jornal da cidade de Taperoá, a cidade onde se desenvolve a narrativa, uma coluna de horóscopo.1

1 Sobre a coluna de horóscopo diz Quaderna: “Eu porém não dormia sobre os louros. Havia, em nossa vila, um semanário governista, a Gazeta de Taperoá, pertencente ao comendador Brasílico Monteiro. Visando meu prestígio de colaborador de almanaque, convenci o comendador a introduzir na Gazeta, uma página literária, social, charadística e astrológica que passei a dirigir, começando, logo a ser discretamente cortejado por aqueles que queriam publicar seu artigo.

Através de Quaderna Ariano Suassuna registra a importância dos almanaques populares no nordeste. Para Quaderna o almanaque era uma espécie de enciclopédia popular redigido em linguagem acessível que reunia variados tipos de conhecimentos eruditos e populares. Entre eles estava o almanaque de Campina Grande.

Os almanaques populares, a astrologia assim como os folhetos fazem parte da tradição popular rural do nordeste.

Os prognósticos astrológicos e os almanaques populares sempre foram muito consultados no mundo rural. Essa tradição do culto à astrologia é antiga. Da antiguidade clássica até finais do século XVII a astrologia e aristotelismo partilhavam aspectos centrais de uma cosmologia assentada na estrita distinção entre a região celeste e a região terrestre e na influência da região celeste sobre a região terrestre. No século XVI, a astrologia fazia parte da imagem que o homem culto tinha do universo e de seu funcionamento. Nascida da fusão entre religião e ciência, a astrologia sustentava-se numa total humanização do cosmos e na integração dos comportamentos e emoções do homem no plano cosmico2. Os astros, mais do que realidade meramente físicas eram concebidos, pelos cultivadores e defensores da astrologia nas vésperas do século XVII, como dotados de vida e ação. A astrologia constituída, assim, “uma coerente e orgânica visão de mundo”, na expressão de Paulo Rossi estava baseada na distinção, hierarquia e influência de céu/ terra em toda sociedade.3

2 Ver por exemplo a publicação em 1593 de Commentarii Collegii Conimbricensis Societatis Iesu in quatuor libros de Coelo Aristotelis Stagiritae. Esta obra foi concebida como livro de suporte ao ensino das matérias de Cosmologia no Colégio das Artes de Coimbra e destacava-se pela extensão que dava a um topos: a teoria da influência dos corpos celestes no mundo sublunar ou terrestre. Astrologia é uma das ciências que aristóteles chamava de ciência mista; quero dizer que é Filosofica, que é matemática. A astrologia aparecia definida como ciência intermediária, ou seja ocupava dentro da taxonomia uma posição entre a física, que estudava o ser natural, e a matemática que visava o ser quantificável.

3 A cosmovisão assentada na astrologia defendida por alguns grupos tem chamado a atenção dos historiadores hoje ver Burke, Peter. El renascimento italiano. Cultura e sociedad em Itália. Madrid, Alianza editorial, 1995. p. 174-177.Curry, Patrick. Prophecy and Power: Astrology in Early modern england. Cambridge: Polity Press. 1989. Curry, Patrick. “Astrology in early Modern England: the making of a vulgar knowledge”in: S. Pumfrey, p. Rossi e L. R. Slawinski (eds.), Science, Culture and Popular Belief in renaissance Europe, Manchester/Nova Iorque, Manchester University Press, 1991, pp. 274-291. Garin. Eugenio. O zodíaco da vida. A polêmica sobre a astrologia do século XVI. Lisboa; Editorial Estampa, 1988.

Era geralmente aceito que os quatro elementos que constituíam a região sublunar – terra, ar, fogo e água – eram mantidos no seu estado de incessante permuta pelo movimento dos corpos celestiais. Acreditava-se que os vários planetas transmitiam diferentes quantidades das quatro qualidades fisiológicas de calor e frio, secura e umidade. Na interação entre corpos celestes e terrestres podia se compreender as mudanças físicas na terra. Essa relação entre os eventos terrenos e o movimento dos céus era apenas um exemplo dos muitos laços e correspondências que mantinha o universo coeso4. Desse modo a astrologia era uma disciplina mais ou menos aceita por todos.

4 Segundo a cosmologia aristotélica – ptolomaica, a região celeste era composta na sua integra por um quinto elementos útil que alguns autores nomeavam de éter celestial, e que se encontrava em estado de perfeição e, logo, de inalterabilidade. Nesta região encontravam-se apenas as estrelas fixas, e os planetas em número de sete (girando em orbes, que se discutia seres fluidos ou duros e sólidos, concêntricos e excêntricos. Os fenômenos da estrelas cadentes, os cometas estavam localizados abaixo do côncavo da lua, no nível superior da atmosfera terrestre. Os corpos celestes apresentavam matéria diferente. Os sete planetas, considerando a ordem ascendente do mais distante ao mais próximo da terra (Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio, Lua) moviam-se segundo movimento circular, perfeito e eterno. O movimento das orbes celestes era atribuída, segundo alguns autores, não a uma força motriz própria, mas a inteligências espirituais. Considerava-se que esta mutabilidade estava relacionada com a influência dos corpos celestes, e que esses processos correspondem aos movimentos e as posições dos planetas. Ver Thorndike, Lynn. “The true place of Astrology in the History of Science” Isis, 46 (1955) pp.273-278. Aristóteles expõe as bases de sua cosmologia, sobretudo, nos dois primeiros livros Commentarii in Secundum librum De Coelo. Ver Khun, Thomas. A Revolução Copernicana. Lisboa: Edições70. s.d. p. 86-121.

A prática da astrologia era composta de quatro ramos principais. Primeiro havia as previsões gerais, baseada nos movimentos futuros dos céus e que levavam em conta certos eventos iminentes tais como eclipses do sol ou da lua, ou as conjunções dos principais planetas em uma casa do zodíaco. Tais previsões diziam respeito ao clima, ao estado das colheitas, à mortalidade e às epidemias, à política e a guerra. Em segundo lugar, havia os mapas do céu no momento do nascimento de uma pessoa, que poderiam ser feitos na hora do nascimento a pedido dos pais da criança, ou poderiam ser reconstruídos para indivíduos adultos que pudessem fornecer detalhes sobre o momento do nascimento. Através do horóscopo poderia se prever o seu temperamento, da sua sorte e dos acontecimentos e ações no futuro.5 O horóscopo feito no nascimento podia ser reforçado por revoluções anuais, em que o astrólogo calculava as perspectivas do indivíduo para o ano que estava por vir.6

5 “Quod ergo il, quo genethliacos vocant, qui videlicete nataletiam divicatonen profitentur cuisque hominis mores, tortunam, eventies actiones, etiam quae a libero arbítrio dependent, ac caetera futura contingiuta, certo prawnuntiare valiant videtur probari posse”. Commentarii Collegee Conimbricensis Societatis Iesu in quatuor libros. De Coelo Stageratae, Lisboa: Ex officina Siminis Lopes. 1593. P. 186.

6 Na opinião dos estudiosos da astrologia no século XVI tendo-se em conta o planeta dominante e a posição dos astros no momento do nascimento de uma pessoa teria-se informações sobre o temperamento dos homens e também sobre o seu futuro. Assim, afirmava-se aqueles homens que Capricórnio tinha olhado benignamente -numa espécie de olhar fatal- nasceriam reis; os olhados por Aquário pescadores; por Mercúrio, banqueiros; por Orion caçadores; e por Marte, homicidas. Algo semelhante se passava com aqueles que tinham ascendente em Gêmeos e Saturno e Mercúrio juntos. Sob Aquário na nona casa nasceriam poetas. Além disso, aqueles que no seu horóscopo tivessem tido Saturno colocado em Leão, estes seriam afastados de muitoas calamidades. Comentari Collegii Conimbricensis Societatis I seu in quatuor libros De Coelo Aristóteles Stageratae, Lisboa: Ex officina Siminis Lopes. 1593. p. 187.

O astrólogo ajudava o seu cliente eleger o momento certo para tomar algumas atitudes. Comparando a relação entre as tendências indicadas pelo horóscopo do cliente com o que se sabia do movimento futuro dos céus, certos momentos poderiam ser identificados como mais propícios que outros para se realizar qualquer empreendimento potencialmente arriscado, tais como viajar e escolher uma esposa. A escolha do melhor momento era também feita para operações rotineiras, tais como cortar os cabelos ou as unhas, ou tomar um banho.

Essas quatro esferas de atividades – previsões gerais, horóscopos, eleições e questões horárias eram o resumo da arte do astrólogo. Cada profissional podia especializar-se em uma delas, mas se esperava que ele dominasse todas elas. O astrólogo podia possuir também um conhecimento sobre medicina7. Entre os médicos do século XVI dizia-se que “O médico que não souber astronomia não poderá conhecer a causa nem tão pouco a doença”. Na gênese destas idéias encontra-se uma reflexão sobre a patologia baseada na teoria hipocrática dos humores humanos, na qual uma doença era concebida como um desequilíbrio dos humores provocado.

7 Os estudiosos da Astrologia no século XVI afirmavam que os astros em uma determinada relação com a terra poderia acarretar a esterilidade ou a fertilidade da terra, a calma ou a tempestade do mar e podia até provocar e curar doenças. Ver Lopes, Diogo e Cruz, Francisco da.

No século XVI, os assuntos relativos à astrologia não ficavam restritos aos estudiosos, mas foram difundidos através dos almanaques. Estas publicações começaram a se popularizar a partir do século XV8. Receberam várias denominações (calendários, lunário, prognósticos). Na Península Ibérica o primeiro almanaque publicado em 1496 com este nome foi o Almanach Perpetuum do astrólogo, judeu, salmantino Abraham Zacuto. Um dos almanaques mais reeditado foi o do Lunário e Prognóstico Perpétuo.9

8 Os almanaques eram pequenas publicações impressas em largas tiragens que tinham uma periodicidade anual e que eram colocados a venda em locais próprios do livreiro ou eram vendidos pelos vendedores ambulantes. Ver Radich, Maria Carlos.

9 Vários almanaques circularam em Portugal no século XVII e XVIII como por exemplo Pequeno, Antonio. O cego astrólogo Antonio Pequeno, filho bastardo do sarrabal  Saloyo, offerece A todos os cegos, cegonhas e tortos este grande prognóstico para o anno de 1739 terceiro depois do Bissexto Calculado em Cataluna, e ajustado nas Lunações às duas Lisboas, Pela altura so seu Pólo 38 graus e 42 minutos de curiosa elevação, & Lisboa, Officina de Miguel Rodrigues, 1738. Ver também o cego astrólogo, Pequeno, Antonio, filho bastardo do sarrabal   Saloyo, prognóstico particular para o anno de 1742. Segundo depois do Bissexto. Calculado, e ajustado nas lunações pela altura de nosso pólo 38 graos e 42 minutos de curiosa elevação, Lisboa, Officina de Miguel Rodrigues, 1741.

 O almanaque compreendia três partes completamente distintas. Havia o almanaque propriamente dito, que indicava os eventos astronômicos do ano entrante. Havia o calendário, que mostrava os dias da semana e do mês e as festas fixas da Igreja. Por fim, havia os prognósticos, ou previsão astrológica dos eventos notáveis do ano. Em geral eram vendidos juntos em um só volume, entremeados com o tipo de informações variadas como, por exemplo, um guia de estradas, cronologia dos acontecimentos históricos mais importantes, receitas médicas, sugestões de jardinagem. No século XVIII, os almanaques traziam também a propaganda de livros, remédios patenteados e professores de matemática.

No nordeste brasileiro os almanaques circularam em grande quantidade. Havia o Almanaque de Pernambuco10, de João Ferreira de Lima lançado em 1936 e que circulou até 1979, o Almanaque de Manoel dos Santos chamado Almanaque do Nordeste Brasileiro11, o Almanaque de Manoel Caboclo e Silva chamado Almanaque o Juízo do Ano12 e de José Costa Leite chamado de o Calendário Brasileiro, o Almanaque do Nordeste de Vicente Vitorino Melo13 e o Almanaque do Cariri14. Os almanaques eram publicações populares de caráter regional e normalmente eram elaborados por escritores de cordel nordestinos, impressos nas folheterias de cordel e, vendidos, sobretudo no nordeste, visando os habitantes da zona rural dessa região.15 Enquanto os folhetos saiam várias vezes por ano os almanaques, as profecias e os avisos eram publicações anuais. Assim como as histórias dos folhetos os almanaques chegavam ao homem do campo através da feira e do rádio.16

10 O Almanaque de Pernambuco foi lançado em 1936 por João Ferreira de Lima. João Ferreira era tido como um estudioso das ciências astrológicas, e era designado pelos poetas astrológicos, como mestre. Era bastante consultado. Para se ter uma idéia da circulação desse almanaque no ano de 1946, o próprio João Ferreira de Lima informa que de julho de 1945 a julho de 1946 recebeu 1.222, confeccionou 775 horóscopos e fez 2.354 consultas. Diz João Ferreira “Sócios do Almanaque Astrológico, tenho 365, sócios de 1940 a 1947”. Em 1946, informou que faturou cerca de 23.540,00 em consultas e posteriormente declarou que até 1970 fez 33.000 horóscopos e deu 25.000 consultas. João Ferreira de Lima, além de fazer horóscopos, lançou em 1951 “Segredos da natureza e sabedoria humana” e criou a Sociedade do Almanaque de Pernambuco. Essa associação cobrava anuidade e dava direito a cada sócio de receber um guia prático que continha os dias favoráveis para realizar negócios.

11 Manoel Luiz dos Santos residia em São José do Egito, Pernambuco. Sua casa era inclusive denominada de “Casa dos Horóscopos”. Foi agricultor e começou a se interessar pelo estudo da influência dos astros aos 7 anos de idade. Foi influenciado pelo pai. Seu pai possuía um caderno onde fazia anotações sobre o tempo, posição das nuvens, presença ou ausência de ventos. Essa influência inicial foi complementada pelo contato que teve com João Ferreira de Lima e principalmente pela leitura do Lunário Perpétuo. Em 1974, dois anos após a morte de João Ferreira de Lima exterioriza a admiração que tinha pelo amigo, num texto intitulado “O Homem é o herdeiro dos Homens”. Lembro os nomes dos 17 profetas sagrados: Jeremias, Isaias, Ezequiel, Daniel, Barue, Oséias, Joel, Amós Jonas, Abdias, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias. Recordo os grandes  astrólogos  do  passado: Claúdio Ptlomeu do Egito,  Nicolau  Copérnico da Polônia, Kepler  de Wurtemberg, Galileu da Itália, Newton da Inglaterra, Miguel de Nostradamus da França, mas a minha maior lembrança é sobre João Ferreira de lima, natural de São José do Egito, Pe. Foi contemporâneo meu, muito meu amigo!  De 1944 a 1947 vendeu folhetos e em 1947 começou a publicar almanaques. O primeiro número do almanaque do Nordeste Brasileiro foi publicado em 1949.”

12 O almanaque de Manoel Caboclo teve sua primeira publicação em 1960. O almanaque apresenta uma série de objetos a venda: horóscopos, talismãs e anel do zodíaco. O juízo do ano apresenta material variado desde citações sobre a bíblia Padre Cícero e sobre costumes. Ver ainda Meyer, Marlyse.

13 José Costa Leite era escritor de Folhetos. Em 1963 estabeleceu a folheteria São José e dedicou-se a xilogravura. Publicou o primeiro número do almanaque em 1960. Acreditava na influência dos astros sobre a vida humana. Afirmava por exemplo que um folheto escrito no quarto minguante não teria êxito. Não se achava um predestinado ou um profeta. As previsões astrológicas do ano aparecem no seu almanaque como título “A Experiência do ano”. Em 1972 passa a ser o “Juízo do ano”. Ver também Meyer, Marlyse.

14 O Almanaque do Cariri foi muito conhecido no sertão da Paraíba. Há exemplares de 1952. O Almanaque do Cariri é inclusive mencionado por Quaderna. Diz Quaderna: (…) o nosso conhecido Euclides Villar emigrou para Campina Grande.  Além de fotógrafo, ele era charadista, mestre em logogrifos e enigmas em verso. Com ele e meu pai eu tinha me iniciado nesta nobre arte, escarnecida por Clemente e Samuel. Mas foram a charada e o logogrifo que me abriram as portas do Almanaque de Campina Grande e, através dele, as de outras publicações congêneres, entre as quais a mais importante era o Almanaque Charadístico e Literário Luso Brasileiro. Suassuna, Ariano.

15 Os almanaques tinham cerca de oito, dezesseis ou trinta e duas páginas. Tanto os Almanaques de farmácia como os Almanaques do Pensamento, que circularam no Brasil desde 1912, influenciaram os Almanaques Populares no Nordeste. Outros textos eram citados nos almanaques como por exemplo O Lunário e Prognóstico Perpétuo, O Tarô adivinhatório e Experiências Astrológicas. Lunário Perpétuo de Jerônimo Cortez é uma das principais fontes de leitura e consulta dos fazedores de almanaques é a obra que mais influência os escritores de almanaques. Fornece informações sobre o tempo, o astro, os planetas e dá toda a base necessária para a elaboração do horóscopo. Seguem-se ainda conselhos médicos com indicações de remédios. Informa ao leitor também os vários tipos de jogos. Descreve ainda informações a saúde e sobre a efeito da carne nos humores “A carne de cabra, de bode, de lebre e de boi, não é boa para conservar a saúde; porque, como diz Almançor, “de anima” a tal carne gera os humores grossos e sangue melancólico. Isaac escreve (in diactis universalibus), que as carnes de boi e de bode são duras, carregadas e de má disgestão, e que criam os humores melancólicos e pesados. Finalmente, toda a carne que tem pello agudo, e a pior carne das sobreditas, conforme Avicena, é a de bode, e a melhor conforme Galeno, é a do toucinho: porém, os enfermos nem uma nem outra valem, nada, antes é maligna e prejudicial” Cf. Lunário Perpetuo. 1955 p. 166.

16 Em 1950 surgiram no rádio os programas de cantadores e os programas que falavam de horóscopo. Cf Almeida, Rute Trindade.

Os almanaques populares do nordeste tinham um caráter informativo. Contavam de duas partes: uma correspondente às seções redigidas a partir de conhecimentos astrológicos e outra de conteúdo variado, em que se revelavam as tendências pessoais e o estilo de cada autor. O domínio do divinatório dá especificidades à publicação. Os conhecimentos astrológicos juntavam-se a outros como numerologia, quiromancia e recebiam nos almanaques populares a designação geral de ocultismo ou ciências ocultas.17

17 Ver por exemplo a seguinte propaganda presente no panfleto de propaganda do almanaque “ O Vencedor” O astrólogo científico prof.  José Inocêncio, e grafólogo, quiromante, cartomante- científico, tendo concluído os cursos de astrologia Científica e Ciências Ocultas”.

Na primeira parte dos almanaques de Pernambuco predominam os elementos ligados à astrologia.18 Havia várias seções nos almanaques de Pernambuco. Entre elas o “Juízo do ano” ou “Experiência do ano” e a “Previsão do ano”. Porém, a elaboração do horóscopo é destacada. Havia também vários tipos de horóscopo. O Horóscopo individual e coletivo chamado “Os doze signos ou Horóscopos para todos, O Horóscopo Médio de 3 anos de futuro, Horóscopo de 6 anos de futuro, Horóscopo e talismã Planetário do signo, Horóscopo e Guia da saúde, Horóscopo com grafologia, Horóscopo com cartomancia, numerologia. Inocêncio Rosa escritor de almanaques fala de Horóscopo n. 1 ou popular, Horóscopo n. 2, ou “ O Destino pelos Astros” e Horóscopo n. 3, Trabalho Geral ou Diretriz do Destino”. Para fazer o horóscopo os astrólogos exigiam do cliente nome, hora, dia mês e ano de nascimento.

18 As previsões astrológicas são destacadas na Pedra do Reino. Diz Quaderna: “vinha provar, mais uma vez que a astrologia não falha. De fato, ainda na Carnaúba, eu consultara os astros sobre minha expedição, e encontrara o seguinte no Almanaque: Para os nascidos sob o signo de Gêmeos o tempo será favorável, por causa dos influxos benéficos do Planeta Mercúrio. Viagem melhorará assuntos amorosos, financeiros, políticos e sócias. Grande achado. Pessoa mal intencionada quererá intervir, mas não obterá sucesso. Seja mais observador. Era claro, claríssimo, até! A viagem à Pedra do Reino  seria favorável à monarquia dos Quadernas e eu deveria ser o mais observador possível, não só para evitar as interferências daqueles mal intencionados Pereira, como também para entender um sinal, um achado que os astros terminariam me indicando”.

A primeira seção tratava das previsões gerais para o ano. Os escritores de almanaque apresentam o planeta dominante e os arcanos correspondentes. Esta  informação era geralmente extraída do Tarô Advinhatório. Os escritores de almanaques se apoiavam no Lunário e Prognóstico Perpétuo o Tarô Advinhatório e Experiências Astrológicas para fazer suas previsões.

A segunda parte está voltada predominantemente, para a vida prática, e nela os autores podem mostrar suas tendências pessoais. O centro de interesses é a terra. Quase todas as seções estão ligadas a terra: dias e locais próprios para semear, previsão dos preços de cereais, remédios contra praga flora medicinal, conselho aos criadores. Escrito, basicamente, para os agricultores nordestinos, almanaques e horóscopos trazem todo tipo de informação que lhes poderiam ser úteis. Assim, Vicente Viturino escrevia uma página do seu almanaque com “dias próprios para deitar galinhas tirar mais pintas do que pintos em 1976” e “os dias não aconselháveis para a castração de animais”.

Na Pedra do Reino há um destaque nos almanaques aos raizeiros19. Realmente havia uma seção dos almanaques, que circularam em Pernambuco, que era dedicada à saúde. Havia informação sobre as ervas para a cura de algumas doenças. A maior parte dos medicamentos é composto de chás. Como coadjuvantes aos tratamentos estão cataplasma, fricções banhos, banhos de assento e dietas. Há também um regime alimentar para complementar o tratamento de diversas doenças. Alguns produtos do receituário popular aparecem nos almanaques, como sal-amargo, água oxigenada, álcool amoníaco, óleo de rícino, terebentina. Recomendava-se procurar certos farmacêuticos que curavam certas doenças como asma epilepsia, reumatismo.

19 Quadena se refere aos raizeiros: (…) meu pai se tornou se tornou, além de redator do Almanaque do Cariri, um pouco médico, com as receitas do Lunário, um pouco poeta, um pouco orador (…). O professor Clemente e o doutor Samuel, quando morávamos na Casa Forte da Torre da onça Malhada, costumavam ridicularizar meu pai a quem chamavam “O Fidalgote Raizeiro”. Raizeiro, por causa das receitas do Lunário e dos chás de Ervas (…) Suassuna, Ariano. Romance d’ A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta. 3. ed. Rio de Janeiro: José Olympio. 1972. p. 447. Essa citação de Quaderna tem sua razão de ser. Os raizeiros tiveram importância marcante em Recife. Izidio Salustiano Diniz em Memórias de um raizeiro narra sua história como raizeiro em Caruaru. Diz ele: Quando eu já estava com mais ou menos meus 16 anos, 17, uma coisa assim, minha mãe veio para Caruaru. Aí fui embora morar mais ela, que continuou me incentivando: Se você gosta da natureza das árvores, da terra, então isso é um prazer seu. Faça aquilo que você gosta! (…) Minha mão não era uma rezadeira. Apenas fazia aqueles remediozinhos com plantas. Um dia conversando com ela, eu disse: Mãe, eu vou ser um vendedor de plantas, um raizeiro”. “Minha mãe é rezadeira e todos os medicamentos que ela passa é através das plantas. É um defumador, é um banho, é um chá, um lambedor, uma garrafada”. Diniz, Izidio Salustiano. Memórias de um raizeiro. Cadernos de Educação popular 18. Petrópolis: Nova, Vozes1991. p. 10, p. 25.

Na Pedra do Reino o escritor Ariano Suassuna se refere aos cordelistas se tornaram escritores de almanaques. Há que se destacar outros cordelistas que escreveram os almanaques mais importantes que circularam em Pernambuco. Entre eles José Costa Leite, João Ferreira de Lima, Manoel Luiz dos Santos, Manoel Caboclo e Silva, José Joavelim os mais respeitados escritores de almanaques20.

20 O primeiro almanaque foi do astrônomo popular José Honorato de Souza, de 1924. Em 1935, outro o poeta popular, João Ferreira de Lima, lançou em Bezerros, em Pernambuco, o Almanaque de Pernambuco. Em 1949 o astrólogo e poeta popular Manoel Luiz dos Santos lançou em São José do Egito, o almanaque de inverno chamado Almanaque do Nordeste Brasileiro. Em 1952, Vicente Vitorino de Melo, em Caruaru, lançou o Almanaque do Nordeste. José Joavelim da Silva o professor de ciências ocultas lançou no ano seguinte o Almanaque Leão do Norte que posteriormente recebeu um novo nome Almanaque São José. No mesmo ano José Costa Leite lançou em Condado, Pernambuco, o Calendário Brasileiro e, em 1960, o poeta popular e astrólogo Manoel Caboclo e Silva lançou o Almanaque Juízo do Ano. Sobrinho, José Alves. Cantadores, repentistas e poetas populares. Campina Grande Bagagem, 2003. p.195-196.

Bibliografia:
1 – ALMEIDA, Rute Trindade. Os almanaques populares no nordeste.
2 – CAROLINO, Luis Miguel. Ciência, Astrologia e Sociedade. A Teoria da influência celeste em Portugal (1593-1755). Porto: Fundação Caloste Gulbenkian e Fundação para a Ciência e a Tecnologia. 2003.
3 – CRUZ, Francisco DA. Institutiones Phisicorum.
4 – GARIN, Eugene. O Zodíaco da Vida. A polêmica sobre a astrologia do século XIV ao século XVI. Lisboa: Editorial Estampa, 1998.
5 – KHUN, Thomas. A Revolução Copernicana. Lisboa: Edições 70.
6 – LOPES, Diogo. Compendium Totis Philosphophica.
7 – MEYER, Marlyse. Do Almanak aos Almanaques. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.
8- NASCIMENTO, Carlos Ribeiro do. “Lê   statut epistemologique dês sciences intermediáries, selon Saint Thomas D’ Aquin. Cahiers d’ Etudes Medievales, 2 (1974).
9 – RADICH, Maria Carlos. Almanaque.Tempo e saberes, Centelha s.d.
10 – ROSSI, Paulo. A Ciência e a Filosofia dos Modernos. Aspectos da Revolução Científica. São Paulo: Editora UNESP, 1992.
11 – ROSSI, Paulo. “Sobre o declínio da Astrologia nos Inícios da Idade Moderna”. In: A

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Impressões do Tempo – Os Almanaques no Ceará

Lunario de un siglo Por Buenaventura Suárez

Lunario del año de 1764

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