A História do Calendário

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O Calendário

Não é frequente nos perguntarmos o que vem a ser um “calendário”’. Mais comum são perguntas “como foi determinado o primeiro dia do ano?”, ou “como se calcula a data do carnaval?”, ou ainda “como se definiu os dias dos meses”? Mas, é razoável que, a pergunta “o que é e como apareceu o calendário?” preceda a essas todas pois é respondendo a ela que poderemos, talvez, respondê-las todas e perceber o quanto um calendário é importante em nossas vidas e a tudo aquilo que nos precedeu.

Os manuais nos dizem que calendário é um sistema de ordenamento do tempo com propósitos de organização da vida civil, observância das obrigações religiosas e marcação de eventos científicos. De origem astronômica o calendário possui unidades de dias, meses e anos, além das semanas, de origem arbitrária. Anos se agrupam em décadas e séculos, e séculos se agrupam em milênios. Os calendários todos são de inspiração religiosa. Todos se referem a uma cosmologia. O primeiro dia de um calendário geralmente recai sobre a origem do universo ou o nascimento de um agente divino.

É mais do que normal que o calendário tenha relação íntima com a religião. Sua elaboração, desde sempre, foi uma tarefa religiosa. Os sacerdotes sempre foram os guardiões do tempo. Se existe algo que garante a crença em deuses é a promessa de boas safras no futuro. Acidentes agrícolas garantiam a fome e provavelmente a morte por inanição. O homem, a partir do momento que assume sua condição sedentária, conhece essa lei muito bem. A possibilidade de dialogar e mesmo controlar o desejo dos deuses que governam os elementos da natureza marcou as relações do homem com o cosmos. E a religião foi o meio óbvio para isso.

A origem dos dias é evidente. Descobrir que o Sol desaparece em um ponto e reaparece no ponto oposto é um dos primeiros grandes avanços intelectuais da humanidade. É interessante verificar como essa percepção se manifestou em nossos ancestrais. Os egípcios, um dos povos mais prósperos da antiguidade, acreditavam que o deus Aton se encarregava de transportar o Sol da “terra dos mortos” para o “renascer”, na terra da reencarnação. Com isso era muito fácil deduzir que uma boa bajulada no deus Aton trazia a garantia que o sujeito também seria contemplado com o mesmo feliz destino do Sol no renascimento. A orientação era muito fácil. O rio Nilo corre do sul para o norte. Logo, as terras do renascimento se situavam na margem direita. Não havia contradição quanto a isso.

A origem dos meses está nas lunações. A importância das luas nas marés, suas relações com as cheias, ressacas, etc., marcam a determinação dos meses. A Lua tem importância vital na navegação, seja por mar, seja por terra. Além de determinar as marés, sua luz auxiliava na iluminação noturna o que é determinante na segurança das caravanas em viagem.

Os anos são determinados através da alternância das estações. A complexidade dos calendários se dá porque os períodos dos calendários são incomensuráveis entre si. Afora a hora, 1/24 de um dia e a semana de 7 dias, cujas definições são arbitrárias, não há como obter relação inteira entre o mês lunar e o dia do ano com o mês lunar e com o dia. O mês lunar, também chamado mês sinódico possui 29,530589 dias e o ano trópico possui 365,242199 dias ou 12,368267 lunações na época de 1900. Todos esses números são dados dentro da precisão das medidas o que indica que em se aumentando as casas decimais, mais termos aparecerão.

Além das dificuldades inerentes na determinação do calendário, na antiguidade o que se via era a vontade de poderosos que se fazia valer ou a ocorrência de eventos astronômicos, como no calendário Maia, que definia a marcação dos dias e referências.

Todos os calendários se baseiam nos movimentos aparentes dos dois astros mais brilhantes da abóbada celeste, na perspectiva de quem se encontra na Terra – o Sol e a Lua – para determinar as unidades de tempo: dia, mês e ano.

O dia, cuja noção nasceu do contraste entre a luz solar e a escuridão da noite, é o elemento mais antigo e fundamental do calendário. A observação da periodicidade das fases lunares gerou a idéia de mês. E a repetição alternada das estações, que variavam de duas a seis, de acordo com os climas, deu origem ao conceito de ano, estabelecido em função das necessidades da agricultura.

O ano é o período de tempo necessário para que a Terra faça um giro ao redor do Sol – cerca de 365 dias e seis horas. Esse número fracionário exige que se intercalem dias periodicamente, a fim de fazer com que os calendários coincidam com as estações. No calendário gregoriano, usado na maior parte do mundo, um ano comum compreende 365 dias, mas a cada quatro anos há um ano de 366 dias – o chamado ano bissexto, em que o mês de fevereiro passa a ter 29 dias. São bissextos os anos cujo milésimo é divisível por quatro, com exceção dos anos de fim de século cujo milésimo não seja divisível por 400. Assim, por exemplo, o ano de 1.900 não é bissexto, ao contrário do ano 2.000.

Em astronomia, distinguem-se várias espécies de ano, com pequenas diferenças de duração. O ano trópico, também chamado de ano solar ou ano das estações, tem 365 dias, cinco horas, 48 minutos e 46 segundos. Compreende o tempo decorrido entre duas ocorrências sucessivas do equinócio vernal, ou seja, do momento em que o Sol aparentemente cruza o equador celeste na direção norte. Em virtude do fenômeno de precessão dos equinócios – causado por uma pequena oscilação na rotação terrestre – o ano trópico é mais curto que o ano sideral, que tem 365 dias, seis horas, nove minutos e dez segundos, tempo que o Sol leva para voltar ao mesmo ponto, em sua aparente trajetória anual. O ano anomalístico compreende o período de 365 dias, seis horas, 13 minutos e 53 segundos, entre duas passagens da Terra pelo periélio, ponto de sua órbita em que está mais próxima do Sol.

Dada a facilidade de observação das fases lunares, e devido aos cultos religiosos que frequentemente se associaram a elas, muitas sociedades estruturaram seus calendários de acordo com os movimentos da Lua. O ano lunar, de 12 meses sinódicos, correspondentes aos 12 ciclos da fase lunar, tem cerca de 364 dias. Conforme a escala de tempo seja baseada nos movimentos do Sol, da Lua, ou de ambos, o calendário será respectivamente solar, lunar ou lunissolar.

No calendário gregoriano os anos começam a ser contados a partir do nascimento de Jesus Cristo, em função da data calculada, no ano 525 da era cristã, pelo historiador Dionísio o Pequeno. Todavia, seus cálculos não estavam corretos, pois é mais provável que Jesus Cristo tenha nascido quatro ou cinco anos antes, no ano 749 da fundação de Roma, e não no 753, como sugeriu Dionísio. Para a moderna historiografia, o fundador do cristianismo teria na verdade nascido no ano 4 a.C.

A Classificação dos Calendários

Em sentido amplo, todo calendário é astronômico, variando apenas seu grau de exatidão matemática. Classificam-se eles em siderais, lunares, solares e lunissolares.

Illuminated Cloud Trails Above Greece

O Calendário Sideral

Baseia-se o calendário sideral no retorno periódico de uma estrela ou constelação a determinada posição na configuração celeste. Para o estabelecimento do calendário sideral, há milênios, utilizou-se a observação do nascer ou do ocaso helíaco (ou cósmico) de uma estrela. Além do nascer ou do ocaso real de uma estrela, respectivamente, pelo horizonte leste ou oeste, chama-se nascer ou ocaso helíaco (ou cósmico) a passagem de um astro pelo horizonte oriental ou ocidental no momento do nascer ou do pôr do sol, respectivamente. Quando o astro nasce no momento do pôr do sol, ou se põe no momento em que o Sol nasce, diz-se que há nascer ou ocaso acrônicos. Nascer helíaco, portanto, é a primeira aparição anual de uma estrela sobre o horizonte oriental, quando surgem os primeiros raios de sol. Para evitar atraso no registro da data do nascer helíaco, os sacerdotes egípcios, que determinavam as estações em função desse fenômeno, eram obrigados a vigílias rigorosas. Algumas tribos do Brasil e da América do Sul serviam-se do nascer helíaco das Plêiades para indicar o início do ano. O primeiro calendário assírio se baseava no nascer helíaco da constelação de Canis Majoris (Cão Maior), cuja estrela principal, Sirius, tinha importante papel em sua mitologia.

O Calendário Lunar

A base do calendário lunar é o movimento da Lua em torno da Terra, isto é, o mês lunar sinódico, que é o intervalo de tempo entre duas conjunções da Lua e do Sol. Como a sua duração é de 29 dias 12 horas 44 minutos e 2,8 segundos, o ano lunar (cuja denominação é imprópria) de 12 meses abrangerá 254 dias 8 horas 48 minutos e 36 segundos. Os anos lunares têm que ser regulados periodicamente, para que o início do ano corresponda sempre a uma lua nova. Como uma revolução sinódica da Lua não é igual a um número inteiro de dias, e os meses devem também começar com uma lua nova, esse momento inicial não se dá sempre numa mesma hora. Por sua vez, na antiguidade, e mesmo depois, houve frequentes erros de observação desse início.

Para que os meses compreendessem números inteiros de dias, convencionou-se, desde cedo, o emprego de meses alternados de 29 e 30 dias. Mas como o mês lunar médio resultante é de 29 dias e 12 horas, isto é mais curto 44 minutos e 2,8 segundos do que o sinódico adicionou-se, a partir de certo tempo, um dia a cada trinta meses, com a finalidade de evitar uma derivação das fases lunares. Por outro lado, como o ano lunar era de 354 dias, observou-se que havia uma defasagem rápida entre o início do mesmo e o das estações. Procurou-se eliminar essa diferença, intercalando-se periodicamente um mês complementar, o que originou os anos lunissolares.

O calendário lunar surgiu entre os povos de vida essencialmente nômade ou pastoril, e os babilônicos foram os primeiros, na antiguidade, a utilizá-lo. Os hebreus, gregos e romanos também dele se serviram. O calendário muçulmano é o único puramente lunar ainda em uso. Com Júlio César, Roma adotou um calendário solar que predominou entre as populações agrícolas.

O Calendário Solar

Os egípcios foram o primeiro povo a usar o calendário solar, embora os seus 12 meses, de trinta dias, fossem de origem lunar. O calendário instituído em Roma, por Júlio César, reformado mais tarde pelo papa Gregório XIII e atualmente adotado por quase todos os povos, é do tipo solar, e suas origens remontam ao Egito.

O calendário solar segue unicamente o curso aparente do Sol, fazendo coincidir, com maior ou menor precisão, o ano solar com o civil, de forma que as estações recaiam todos os anos nas mesmas datas.

O Calendário Lunissolar

Baseia-se o calendário lunissolar no mês lunar, mas procura fazer concordar o ano lunar com o solar, por meio da intercalação periódica de um mês a mais. O mês é determinado em função da revolução sinódica da Lua, fazendo começar o ano com o início da lunação. Para que a entrada das estações se efetue em datas fixas, acrescenta-se um mês suplementar, no fim de certo número de anos, que formam um ciclo. Os babilônicos, chineses, assírios, gregos e hindus utilizaram calendários lunissolares. Atualmente, os judeus – que adotaram o calendário babilônico na época do exílio – e os cristãos se valem desse sistema para determinar a data da Páscoa.

Nos calendários lunares e lunissolares o dia tem sempre início com o pôr do sol, como ocorre ainda hoje, no calendário judeu e muçulmano. No calendário solar, o dia começa com a saída do Sol, como no antigo Egito. Na Mesopotâmia o dia, para as observações astronômicas, começava à meia-noite, embora o calendário usual partisse do anoitecer. Os chineses e romanos adotaram também a meia-noite para o início do dia, uso que é seguido pelo calendário gregoriano.

Os Calendários Antigos

Os antigos babilônios tinham um calendário lunar de 12 meses lunares de 30 dias cada, e adicionavam meses extras quando necessitavam acertar o calendário com as estações do ano.

Os antigos egípcios foram os primeiros a substituir o calendário lunar pelo solar, baseado no ano solar. Mediam o ano solar em 365 dias, divididos em 12 meses de 30 dias cada, com 5 dias extras no fim. Cerca de 238 a.C., o rei Ptolomeu III ordenou que um dia extra fosse adicionado de cada 4 em 4 anos, similar ao moderno ano bissexto.

Na antiga Grécia utilizou-se um calendário de ano lunar de 354 dias. Os gregos foram os primeiros a intercalar meses extras com base científica, adicionando meses em intervalos específicos do ciclo dos anos solares.

O Calendário Egípcio

Esse calendário foi o primeiro a ser determinado por regras fixas. Consistia de 12 meses de 30 dias seguidos por 5 dias adicionais ao final do ano. Não havia correção para o ano trópico. Como consequência, o ano egípcio retrocedia em um ciclo de 1460 anos com respeito ao ano trópico. Esse período era conhecido como “ciclo sótico”. Havia três estações determinadas pelo fluxo do Nilo: Cheias (Akket); Semeio (Pert) e Colheita (Shemu). A relação entre as estações definidas pelo Nilo e as estações naturais era feita pelo nascer heliacal da estrela Sirius, conhecida dos egípcios pelo nome de Sothis. A primeira aparição da estrela no céu da manhã, depois da sua conjunção com o sol determinava o início da contagem das estação das Cheias. Hoje a conjunção de Sirius com o sol se dá em 2 de julho e a primeira aparição subsequente no céu da cidade do Cairo é em 10 de dezembro. A origem deste calendário foi lunar. Ele regulava os festivais em função das fases da lua. Aparentemente “ajustes” foram feitos, para conformar tal calendário a uma relação fixa com o calendário civil.

O calendário egípcio foi reconhecido pelos astrônomos gregos e tornou-se o calendário de referência da astronomia por muito tempo. Copérnico usou-o para construir suas tábuas da lua e planetas.

Ptolomeu Euergetes tentou, em 238 a.C. introduzir o sexto dia para cada quatro anos, sugerindo algo como o ano bissexto moderno. No entanto sua proposta não teve eco. Seus argumentos foram considerados apenas sob o império romano na mão de Augusto (26-23 a.C.) que introduziu tal modificação no calendário. Assim, no sentido de corrigir deslocamentos já mensurados, o ano egípcio correspondente a 23-22 a.C. em 29 de agosto do chamado calendário juliano, foi introduzido um dia a mais. O ano egípcio correspondendo 23-22 a.C. possui o mês correspondente a agosto com 30 dias. A partir de então, este mesmo mês voltou a possuir 29 dias salvo nos anos bissextos, quando tinha um dia a mais. Esse novo calendário passou a se chamar Alexandrino.

Esta reforma não foi aceita integralmente e os dois calendários permaneceram paralelos até pelo menos 238 d.C. Os astrônomos e astrólogos mantiveram a notação antiga. Cláudio Ptolomeu usava-o, salvo no tratado de fenômenos anuais em que o novo calendário tinha mais conveniência.

Os persas adotaram o antigo calendário egípcio em 500 a.C. Não é bem certo se foi adotado exatamente ou com modificações. Os armênios ainda o adotam. Os três últimos meses do calendário armênio correspondem exatamente aos três primeiros do antigo calendário egípcio. Em seguida vêm os cinco dias finais, característicos deste. O calendário alexandrino é ainda usado na Etiópia, na igreja Cóptica e para fins de agricultura no moderno Egito e vizinhos do norte da África.

O Calendário Babilônico, Grego e Romano

O calendário na Babilônia era constituído de 12 meses lunares. O primeiro dia do mês era declarado quando aparecia a primeira lua no crepúsculo após a lua nova (que para eles era “sem lua”). Para ajustar este sistema ao período definido pelas estações, um mês adicional era, casualmente, introduzido o (13º mês) ao final de cada período de três anos. O mês suplementar é introduzido após elul ou adar, conservando o mesmo nome seguido da indicação de segundo.

Para determinar a época de acrescentar o mês complementar, observava-se o nascer de determinadas estrelas e constelações. Muitas observações causavam erros. Chegou-se a colocar dois meses suplementares no mesmo ano. O ano iniciava na primavera com o mês “Nisannu”. Em cerca de 480 a.C., os babilônios adotam um ciclo de 19 anos, no qual introduzem os meses complementares em sete anos. Dessa forma conseguem maior concordância entre o ano lunar e o solar.

Os gregos, que adotaram o calendário babilônico fizeram uma modificação importante no ano de 432 a.C. através do matemático ateniense Meton. Este introduziu um critério de correção do ano lunar, através de 7 intercalações num período de 19 anos, conhecido por ciclo metônico. O astrônomo Callippus de Cizicus, em 330 a.C., modificou este período, com uma correção a cada 4 desses ciclos, perfazendo um período de 76 anos, conhecido como período calípco, fazendo o ano médio, neste ciclo, valer 365,25 dias, muito mais próximo ao ano trópico verdadeiro. Os babilônios adotaram essas correções 50 anos depois.

Apesar das modificações tornarem a contagem dos anos lunares ajustados ao ano trópico, o calendário greco-babilônico não foi adotado em todas as regiões, visto que os países eram constituídos por cidades-estados independentes. O resultado é que a datação de eventos na contagem do tempo juliano, por exemplo, é bastante difícil.

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A exemplo dos gregos, os romanos também adotaram o calendário babilônico. É dito que o Rômulo, o fundador de Roma, proclamou o calendário baseado no grego nos anos de 700 a.C. Contudo, contava-se apenas 10 meses, perfazendo 304 dias no ano: Martius, Aprilis, Maius, Junius, Quintilis, Sextilis, September, October, November e December. Os últimos seis meses se referiam ao número do mês no ano: quinto, sexto, sétimo, oitavo, nono e décimo. Os 61 dias restantes caiam no inverno. Aparentemente os romanos não faziam muita questão de considerá-los, pelo menos no início.

O Pontífice observava a Lua após a lua nova e proclamava o início do mês. Tal ato se denominava Calare e dizia-se Kalend como o primeiro dia do mês (o dia da proclamação). Ao mesmo tempo em que marcava o Kalend o Pontífice também marcava o nones (quarto crescente) e o ides (lua cheia). A tradição manteve o termo ides (em português, idos) como o dia 15 do mês. Na peça Júlio César, de Shakespeare, um adivinho disse a César: “Cuidado com os idos de março”. No dia 15 de março, César teria se encontrado com o adivinho e comentou: “Então, os idos de março chegaram”, ao que o adivinho respondeu: “Mas não se foram”.

Segundo a literatura, o biógrafo grego Plutarco, que viveu no final do século I d.C., confirma esta passagem como verdadeira. O diálogo teria sido travado entre César e o astrólogo Spurinna. A expressão “Cuidado com os idos de março” teria sido dito pelo astrólogo. Impressionado, César resolveu não sair da cama, naquele dia. Diz-se, então, que seu amigo Decimus Albinus Brutus (o filho adotivo de César era Marcus) convenceu-o que um homem de seu porte não podia se submeter a previsões supersticiosas de um astrólogo. No caminho do Senado, que naquele dia se reunia no templo a Vênus, encontrou-se com Spurinna e lançou-lhe a frase com desdém. A verdadeira resposta do astrólogo foi: “Os idos de março chegaram, mas ainda não passaram”.

César foi assassinado ao chegar, diante da estátua de Pompeu, no dia 15 de março de 44 a.C.

O termo nones para designar a lua em quarto crescente se deve ao fato que, sob certas condições entre a lua nova (“sem lua” para os romanos) e o quarto crescente decorrem 8 dias. Vide, por exemplo o mês de julho de 1998. No primeiro dia se dá a lua crescente e no dia nove foi a lua cheia. Procurando-se um pouco, verifica-se o mesmo entre as luas novas e quarto crescente.

O termo Março vem de Marte, o deus romano da guerra. Tirando esse termo e os que denotam o número do mês, os nomes dos outros meses são objeto de uma certa polêmica.

Abril: Enquanto existem aqueles que associam o termo a uma corruptela de Aphrodite, aphrilis, outros dizem ter o nome relação com um herói mitológico ou deus chamado Aper ou Aprus.

Maio: Homenagem à deusa Maia, filha de Atlas.

Junho: referência à deusa Juno. Contudo há referências a alusões que maio e junho vêm de “velho” e “jovem”.

Julho: Em uma revisão do calendário, em 8 a.C., o imperador Augusto ofereceu a mudança de nome do mês “quintilis” para julius em homenagem ao imperador Júlio César, e de quebra, aproveitou e mudou o mês “sextilis” para Agosto ou Augustus.

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Janeiro é um nome que deriva da homenagem ao velho deus Janus, associado à origem do universo, regendo o caos. O nome fevereiro parece derivar de februa, chicote de pele de carneiro com o que se procurava “purificar” ou “penitenciarse”. Nos “idos” deste mês, os romanos observavam o festival da Lupercalia, quando mulheres estéreis eram chicoteadas na esperança de se tornarem férteis. Tal associação, contudo, dizem os historiadores ser improvável. De qualquer forma o verbo februare, parece se relacionar com penitência.

Antes da reforma juliana, os meses chegaram a possuir, alguns, 22 ou 23 dias. O ano chegava a ter, no máximo 355 dias. Para corrigir para o ano trópico, um mês era acrescentado. Chamava-se Mercedinus, em referência a merces, ou salário, pois se dava na época do pagamento de empregados. Podia também se chamar “intercalaris”, de onde a palavra moderna deriva.

Após a marcação de “Ides”, a metade do mês, a contagem se dava regressivamente. O período de “kalendas” era, portanto, o mais longo de todos. Cobrindo, logo após a proclamação da lua cheia até logo depois da lua nova.

A duração do mês, as intercalações, etc., eram de atribuição dos Pontífices que a usavam, muitas vezes, para suas conveniências, para alongar ou encurtar o período de um cargo eletivo, sendo objeto de muita corrupção. A reforma juliana veio para colocar um fim a essas ações arbitrárias. Essa reforma, também, fixou as datas, a contagem dos dias e a relação entre os meses, fazendo o calendário se parecer bastante com o que se tem hoje.

 O Primitivo Calendário Romano

O primeiro calendário romano foi criado por Rômulo em 753 a.C., ano de fundação de Roma, baseado no calendário egípcio. Era um calendário lunar, e tinha 304 dias, divididos em dez meses, dez meses lunares, seis de 30 dias e quatro de 31, desde Março a Dezembro. O primeiro mês é o Martius (Março) e adota a meia-noite para início do dia.

É atribuído a Rômulo. Numa Pompilius,discípulo de Pitágoras, que por tradição foi o segundo rei de Roma (715-673 a.C.?), acrescentou-lhe mais dois meses, Janeiro e Fevereiro, para um ano de 354 dias.

Em (616-579 a.C.) o etrusco Tarquinius Priscus, por receio supersticioso dos meses com números pares, deu um dia mais a Janeiro, e sistema passou a ser de um ano com doze meses e 355 dias. Janeiro tinha 29 dias, Fevereiro tinha 28 dias, Maio, Julho e Outubro 31 dias, Janeiro, Abril, Junho , Agosto , Setembro, Novembro e Dezembro 29 dias.

Estes anos de 366 dias, chamam-se bissextos, porque os latinos chamavam ao dia 25 de Fevereiro “bi-sextus kalendas Martii” quando este tinha 29 dias. Mudou-se também o nome do quinto mês do ano “quintilius” para Julho (Julius) em homenagem a Júlio César, e mais tarde o sexto mês “sextilius” passa para o que hoje é Agosto (Augustus) em homenagem a Octávio César Augusto.

Januarius, com 29 dias, é colocado sob a proteção de Janus, o deus da paz, representado por duas faces, uma olhando para o passado (fim do ano) outra para o futuro (ano novo).

Februarius, com 28 dias, azarado por ser número par, é dedicado ao deus da purificação dos mortos, Februa. Sua denominação faz referência à “febre”, é o mês das doenças, considerado de mau agouro.

Assim, o ano fica com 355 em vez de 354, que era o valor do ano lunar, para evitar o suposto azar de um número par. A cada dois anos, há um 13º mês, Mercedonius, com 22 ou 23 dias.

Os anos no calendário romano eram chamados de a.u.c. (ab urbe condita), a partir da fundação da cidade de Roma. Neste sistema, o dia 11 de Janeiro de 2000 marcou o ano novo do 2753 a.u.c.

Mais tarde Júlio César criou o calendário juliano, numa reforma aconselhada pelo astrônomo alexandrino Sosígenes, adotando um calendário com 365,25 dias no ano trópico, que mesmo assim era maior que o ano solar em 11m e 14seg. Isto dava um erro de 3 dias em cada 400 anos.

Desta forma, atribuiu 445 dias ao ano de 46 a.C., para reajustar o ano civil ao solar. Este ano é chamado de Ano da Confusão. A diferença de 6 horas entre o ano solar e o ano civil era ajustado de 4 em 4 anos, no mês de Fevereiro, dia 24, repetindo esse dia.

O Calendário Juliano

As principais reformas são: o início do ano passa de 1º de Março para 1º de Janeiro; os meses passam a ter 30 e 31 dias intercalados (exceto Fevereiro); quintilis e sextilis ficam com 31 dias porque têm nome de imperadores; o 13º mês, mercedonius, é suprimido.

A contagem dos anos, a partir da era cristã, dá-se quando a igreja solicita ao abade romano Dionysius Exiguus que calculasse o ano de nascimento de Jesus. Naquela época, 325 d.C. contava-se os anos a partir do início do governo do grande imperador Deocliciano, embora já vigorasse a religião cristã como oficial. Exiguus determinou que o ano 248 da era deocliciana correspondia a 332 d.C. Sabe-se, hoje, que Exiguus errou o cálculo em 4 anos. Por tradição, contudo, festeja-se o ano cristão como o definido por Exiguus. O sistema cristão inicia a era no ano I. O ano anterior a este é -I ou I a.C. Muitos países adotam a notação I a.D., para denotar o ano I, depois de Cristo. “AD” representa a abreviação latina de anno dominum, ano de Cristo.

Nos catálogos astronômicos adota-se o chamado dia juliano, contagem em que o dia começa ao meio-dia do dia civil anterior. A contagem do dia juliano é contínua. Valores quebrados, indicando momentos do dia, são admitidos. Adota-se o dia juliano “1” o primeiro dia ao meio-dia de 4713 a.C.

Como o ano trópico é de 365,2422 dias, com o passar dos anos se registra um adiantamento na data do equinócio da primavera. Caso fosse mantido o calendário juliano, haveria um adiantamento de seis meses no início das estações, num período de 20.200 anos. Para evitar o problema, o Concílio de Trento, reunido em 1563, recomendou ao papa a correção do inconveniente, que alteraria a data da Páscoa, em virtude dos ciclos de concordância das lunações com o ano solar.

Finalmente, em 1582, o papa Gregório XIII, aconselhado por astrônomos, em particular por Luigi Lílio, obteve o acordo dos principais soberanos católicos e, através da bula Inter gravissimas, de 24 de fevereiro, decretou a reforma do calendário, que passou, em sua homenagem, a chamar-se gregoriano, e é o mais perfeito utilizado até hoje.

O Calendário Hebraico ou Judaico

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O calendário judaico, diferentemente do gregoriano, é baseado no movimento lunar. Onde cada mês se inicia com a lua nova (quando é possível visualizar o primeiro reflexo de luz sobre a superfície lunar). Antigamente o calendário era determinado simplesmente por observação. O moderno calendário judeu foi adotado a partir de 359 d.C. pelo presidente do Sanhedrin, uma espécie de conselho, Hillel II. É um calendário lunissolar e tem propostas puramente religiosas. Três tipos de ano são possíveis: o ano deficiente, o ano normal e ano completo.

Os judeus não adotaram o calendário juliano, em grande parte para que sua Páscoa não coincidisse com a cristã. O ano israelita civil tem 353, 354 ou 355 dias; seus 12 meses são de 29 ou trinta dias. O ano intercalado tem 383, 384 ou 385 dias. O primeiro mês do calendário judaico é o mês de Nissan, quando temos a comemoração de Pessach. Entretanto, o ano novo judaico ocorre em Tishrei (quando é acrescentado um número ao ano anterior).

O calendário hebraico introduziu pela primeira vez a semana de sete dias, divisão que seria adotada em calendários posteriores. É possível que sua origem esteja associada ao caráter sagrado do número sete, como ocorre nas sociedades tradicionais, ou que se relacione com a sucessão das fases da lua, já que a semana corresponde aproximadamente à quarta parte do mês lunar.

O calendário hebraico começa a contar o tempo histórico a partir do que os judeus consideram o dia da criação. No calendário gregoriano, tal data corresponde a 7 de outubro de 3761 a.C.

O grande problema com o calendário lunar é que se compararmos com o calendário gregoriano, temos em um ano solar 12,4 meses lunares, o que ocorre uma diferença a cada ano de aproximadamente 11 dias, para compensar esta diferença, a cada ciclo de 19 anos acrescenta-se um mês inteiro (Adar II). São acrescidos no terceiro, sexto, oitavo, décimo primeiro, décimo quarto, décimo sétimo e décimo nono anos desse ciclo.

O Calendário Gregoriano

O calendário gregoriano é também chamado calendário cristão porque considera a data do nascimento de Cristo como a data de começo. No entanto o nascimento de Cristo originalmente dado para 25 de Dezembro, 1 d.C., é hoje assumido como em 4 a.C.

É o calendário vigente na maior parte dos países do mundo. Essencialmente é o calendário juliano com alguma mudanças para acertar a adoção da Páscoa, principal festa cristã depois do Natal. Esta data seguia a da tradição judaica que é observada no dia 15 Nisan. Segundo o Concílio de Nicea, em 325 d.C., o equinócio vernal foi fixado em 21 de março e a Páscoa seria o primeiro domingo depois da primeira lua cheia após este dia. Essa definição impunha o ciclo metônico à observância da Páscoa.

Esta prática vigorou até 1582 d.C., quando o papa Gregório XIII promoveu a última reforma do calendário, introduzindo o calendário gregoriano. O equinócio verdadeiro aparecia cada vez mais cedo no calendário (o equinócio da Primavera que deveria ser em 21 de Março de 1582 ocorreu em 11 de Março), fazendo a Páscoa avançar cada vez mais para o verão do hemisfério norte. Para corrigir a discrepância, Gregório eliminou 10 dias do mês de outubro de 1582, fazendo o dia 4 de outubro ser sucedido pelo dia 15. Introduziu o ciclo em que fazia de todo ano de centena não ser bissexto a menos daqueles divisíveis por 400. Essa medida ajustou o deslocamento do ano trópico. Finalmente, determinou que a Páscoa deveria cair nunca antes de 22 de março, nem depois de 25 de abril. Essa medida tornou o cálculo da Páscoa bem mais complicada e fez aparecer regras que tornaram sua dependência menos astronômica.

Para se conseguir a devida correção, o dia a seguir a 04 de Outubro de 1582 (quinta-feira), foi o dia 15 de Outubro de 1582 (sexta-feira). Desta maneira a diferença entre o ano civil e o natural (solar) não atingirá um dia em menos de 5.000 anos.

Tábuas com base no período metônico foram levantadas. Elas determinam a chamada “lua eclesiástica”. Esta segue, via de regra, o comportamento da lua real, com algumas modificações. O equinócio vernal é fixado em 21 de março, mesmo que, eventualmente esse não seja o caso. No primeiro domingo após o décimo quarto dia da “lunação tabelada”, é a Páscoa cristã.

A contar do ano I a.C., cada ano é numerado de 1 a 19. Tal número é conhecido desde o fim da Idade Média como “Número de Ouro”. O número de ouro é definido, portanto como o resto da divisão do ano por 19 somado com 1.

Uma letra – a exemplo das antigas tábuas de calendário romano marcando o dia do “mercado” no mês – determina, no calendário gregoriano, o dia da semana que inicia o ano. Com a ajuda de uma tabela com o número de ouro versus a letra dominical determinava-se o dia Páscoa num determinado ano, segundo o calendário juliano. O calendário gregoriano introduziu um número denominado “Epacta” que dá a idade da lua diminuída de 1.

Tudo isso tornou o cálculo do calendário gregoriano uma tarefa para iniciados. Felizmente com a ajuda de computadores foi possível estabelecer algoritmos que são capazes de estabelecer o calendário, como o que roda no Observatório Nacional.

Mesmo assim, apresenta algumas deficiências. Uma delas é a diferença com o ano trópico que, aliás, não é importante para efeitos práticos. Mais relevante é a diferença na duração dos meses (28, 29, 30 ou 31 dias) e o fato de que a semana, que é utilizada quase universalmente como unidade de tempo de trabalho, não esteja integrada nos meses, de tal forma que o número de dias trabalhados durante um mês pode variar entre 24 e 27.

Apesar de representar um avanço, o calendário gregoriano demorou em ser aceito, principalmente em países não católicos, por motivos, sobretudo político-religiosos. Nas nações protestantes da Alemanha, foi adotado no decorrer dos séculos XVII (em poucos casos, antes de 1700) e XVIII (Prússia, 1775); na Dinamarca (incluindo então a Noruega), em 1700; na Suécia (com inclusão da Finlândia), em 1753. Nos cantões protestantes da Suíça, no princípio do século XVIII. Na Inglaterra e suas colônias, entre as quais os futuros Estados Unidos, em 1752. Nos países ortodoxos balcânicos, depois de 1914 (Bulgária, 1916, Romênia e Iugoslávia, 1919; Grécia, 1924). Na União Soviética, em 1918. Na Turquia, em 1927. No Egito, já havia sido adotado para efeitos civis desde 1873, mesma data em que foi aceito no Japão. Na China foi aceito em 1912, para vigorar simultaneamente com o calendário tradicional chinês, até 1928. No Brasil, então colônia de Portugal, que na época estava sob o domínio da Espanha, o calendário gregoriano entrou em uso em 1582.

As Festas Cristãs

Duas datas definem, independentemente, a sequência de festas cristãs no ano: a Páscoa e o Natal. O Natal, adotado em 25 de dezembro determina o Advento, quarto domingo que antecede o Natal. A Páscoa determina as festas móveis.

A tabela abaixo lista as festas de antes e depois da Páscoa:

O carnaval, festa pagã, parece ter sido adotado antecipando o período da Quaresma, que vai da quarta-feira de Cinzas até a sexta-feira da Paixão (Ressurreição). Muitas parecem terem sido as origens do carnaval. Em Atenas, no século VI aC, parece ter alcançado o período de maior confusão e licenciosidade. Em Roma, eram festas associadas com a Bacanália, Saturnália e Lupercália. Nas Saturnálias, carros alegóricos atravessavam as ruas de Roma recheados de homens e mulheres em trajes mínimos a dançar e gestuar libidinosamente. Nas Bacanálias era tradição os senhores servirem os escravos em banquetes como também em desejos outros. Em Portugal, desde a Idade Média, eram praticados os ”entrudos” com cabos de guerra, guerra de farinha e confete pelas ruas.

Conhecido é o carnaval de Veneza que irrompeu de alegria após a vitória da batalha de Lepanto, quando a frota otomana foi derrotada, na segunda metade do século XVI. Todos os anos é organizado o famoso “Baile de Máscaras” na terça-feira de carnaval, que entre os europeus é conhecida como “mardi grãs”, ou, terça-feira gorda, véspera de Cinzas.

O sábado de Aleluia e a Malhação de Judas parecem ser de origem portuguesa. A perda da conotação religiosa e a consequente relação com a política local e nacional condenaram essas práticas populares.

A Reforma Anglicana

À época da reforma gregoriana a Igreja Anglicana já havia sido posta fora da autoridade do Vaticano e por isso não a aceitou imediatamente. Foram necessários mais de dois séculos para que os domínios dos bretões aceitassem o novo calendário, finalmente ele foi adotado em 3 de setembro de 1752, que foi sucedido pela supressão de 10 dias e assim os dois calendários passaram a se equivaler.

A defasagem que vigorou por dois séculos foi palco de um desencontro protagonizado por personagens do romance “O Pêndulo de Foucault” do escritor italiano Umberto Eco. Nessa trapalhada a cadeia dos pretensos encontros seculares entre os sucessores da outrora temida e poderosa Ordem dos Templários foi quebrada e provocou toda sorte de desencontros que Eco explora muito bem.

Verdade ou invenção, sabe-se que os remanescentes dos Templários refugiaram-se em vários pontos da Europa, como Eco descreve. Sul da França, Escócia e Portugal foram alguns dos “portos seguros” que os Templários se alojaram. Sob os auspícios do Infante Dom Henrique, esses remanescentes fundaram a Ordem dos Cavaleiros de Cristo em Sagres onde criaram as sementes para a bem sucedida aventura das Grandes Navegações do povo lusitano que marcaram definitivamente a história universal (e do Brasil), desde então.

O Calendário Chinês

O calendário chinês surgiu com o terceiro herói cultural, Huang-ti, o Senhor Amarelo ou Senhor Augusto. Foi introduzido em 2.637 a.C., baseado nas fases da lua e, posteriormente, no ano lunissolar de 12 meses, a exemplo do israelita. Como no israelita, há o período metônico. Cada mês pode ter 29 ou 30 dias e o ano tem 354 ou 355 dias.

Comporta dois ciclos: um de 12 anos (354 ou 355 dias, ou 12 meses lunares) e um de sete anos (com anos de 383 ou 384 dias, ou 13 meses). Os chineses inserem meses adicionais em intervalos fixos para resolver a diferença entre o ano solar (365 dias) e o ano lunar (354 dias). O ano novo começa sempre em uma lua nova, entre 21 de Janeiro e 20 de Fevereiro.

A República Popular da China adotou o calendário gregoriano, introduzido pelos jesuítas em 1582, para fins oficiais após a revolução de 1911. No entanto, para festividades é adotado o antigo calendário chinês que parece ter sido introduzido em 2637 a.C. pelo Imperador Huangdi. É possível recuperar o traço deste calendário até remotas épocas do século 14 a.C.

O calendário chinês é um dos mais antigos registros cronológicos que há na história dos povos. Ao contrário dos outros calendários, a contagem dos anos do calendário chinês se renova a cada 60 anos.

Anteriormente, a contagem dos anos se fixava na vigência do reinado de cada imperador. Tal prática foi abolida em 1911. Uma contagem é feita pela combinação de duas palavras, a primeira advinda de um conjunto de 10 palavras de “origem celestial” e outras 12 do ramo terrestre. As palavras de origem celestial não possuem similar em língua ocidental e são: jia, yi, bing, ding, wu, ji, geng, xin, ren, gui. As palavras do ramo terrestre são nomes de animais: zi (rato), chou (boi), yin (tigre), mao (coelho), chen (dragão), si (serpente), wu (cavalo), wei (carneiro), shen (macaco), you (galo), xu (cachorro), hai (porco). As palavras celestes se combinam às do ramo terrestre em sequência. Ao terminar a sequência de uma delas, retoma-se do início. Assim em 12/02/2002 inicia-se um novo ano denominado yi-wu, para os ocidentais, simplesmente o ano do cavalo.

Os anos do Dragão repetem-se a cada 12 anos. O ano do Dragão Dourado ocorre uma vez a cada 3000 anos (ocorreu no nosso ano 2000) e é suposto trazer a harmonia completa dos cinco elementos da filosofia chinesa (metal, madeira, água, fogo e terra), o que se refletiria em um sentimento de felicidade para todos.

Um roteiro especial na China pode mostrar as maravilhas de mecanismos inventados pelos chineses na esperança de “automatizar” o cálculo do calendário.

O Calendário Maia

O calendário maia é o mais bem elaborado das antigas civilizações pré-colombianas e do qual deriva o calendário asteca. Tanto um como o outro tinham um calendário religioso de 260 dias, com 13 meses de vinte dias; e um calendário solar de 365 dias, constituído por 18 meses de vinte dias e mais cinco dias epagômenos, isto é, que não pertencem a nenhum mês e são acrescentados ao calendário para complementar o ano. Esses cinco dias eram considerados de mau agouro, ou nefastos. Um ciclo de 52 anos solares harmonizava os dois calendários, o religioso e o solar. A cada dois ciclos – 104 anos – iniciava-se um ano venusiano, de 584 dias, um ano solar, de 365 dias, um novo ciclo de 52 anos solares e um ano sagrado, de 260 dias. Esse acontecimento era comemorado com grandes festas religiosas.

O calendário maia é tido como um dos mais precisos e intrincados. Era composto de três partes: o da contagem longa, o calendário divino (Tzolkin) e o civil (Haab). Uma datação maia poderia se apresentar da seguinte maneira: 12.18.16.2.6, 3 Cimi, 4 Zotz.

O primeiro termo é o da contagem longa e é composto por 5 partes. É uma contagem de dias e equivaleria ao chamado “dia juliano”, adotado nos catálogos astronômicos. Da direita para a esquerda, teríamos:

6 kin (dias);

2 uinal (1 uinal = 20 kin);

16 tun (1 tun = 18 uinal);

18 katun (1 katun = 20 tun);

12 baktun (1 baktun = 20 katun)

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Unidades extraoficiais também eram adotadas, particularmente o Alautun correspondendo a 63 milhões de anos é a maior unidade de tempo que se conhece entre povos antigos.

Os Mais contavam o baktun de 1 a 13 e adotavam a origem do calendário a data 13.0.0.0.0 que equivale ao calendário cristão a provavelmente uma das datas:

As três datas correspondem a valores adotados entre os estudiosos.

O calendário que se segue é o Tzolkin, religioso. Uma numeração da semana de 13 dias e a nomeação de outra “semana” de 20 dias era indicado. Há uma sincronia com a data de longa contagem de forma que os valores de um e de outro não são combinação de números quaisquer. Os nomes das semanas podem ser: Ahau, Imix, Ik, Akbal, Kan, Chicchan, Cimi, Manik, Lamat, Muluc, Oc, Chuen, Eb, Ben, Ix, Men, Cib, Caban, Etznab, Caunac. O dia 13.0.0.0.0 corresponde a 4 Ahau.

Finalmente temos o calendário civil, o Haab, constituído de 18 meses de 20 dias cada, seguido de 5 dias extras, chamados Uayeb, completando o ano de 365 dias. Os nomes dos meses eram: Pop, Uo, Zip, Zotz, Tzec, Xul, Yaxkin, Mol, Chen, Yax, Zac, Ceh, Mac, Kankin, Muan, Pax, Kayab, Cumku.

O dia 13.0.0.0.0 corresponde a 8 Cumku.

O Calendário Asteca ou Incaico

Não há muita documentação precisa sobre o calendário incaico, já que essa cultura passou por maior destruição por parte dos conquistadores. O conhecimento preciso das constelações levou a impressionantes semelhanças com as figuras usadas pelos criadores do Zodíaco para representá-las, e com os signos zodiacais.

O observatório de Cuzco era o responsável pela base do calendário incaico: possuía oito torres voltadas para o nascente e outras oito apontando para o poente, com alturas desiguais (duas pequenas intercaladas entre duas bastante altas). Sua sombra projetada no terraço ao redor permitia aos observadores imperiais definir a exata situação dos solstícios, enquanto as colunas zodiacais (curiosamente semelhantes ao zodíaco caldeu) permitiam definir os equinócios.

O calendário asteca era basicamente igual ao dos maias. O ano possuí início no solstício de Inverno com um ciclo de 18 meses de 20 dias cada e mais um curto período, ou mês diminuto de 5 dias.

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Com 104 anos comuns tinha-se um grande ciclo no qual intercalavam 25 dias.

Essa exatidão do ciclo de 260 anos sagrados em relação ao exato movimento do Sol, possuía uma diferença de apenas 0,01136 de dia, ou seja, um pouco mais de um centésimo de dia.

O calendário asteca dava aos dias nomes próprios que correspondiam a números de ordem no decorrer do mês. Os dias corriam de 1 a 20, e os festivais eram comemorados no último dia do mês.

A escrita da data informava o ano em curso, o número e o nome do dia, sem mencionar o dia do mês e o próprio mês.

Para citar uma ocorrência de longa duração, os astecas informavam apenas o ano em curso.

Os meses no calendário asteca eram 18, totalizando 360 dias, mais cinco dias suplementares, denominados Nemotemi ou “dias vazios”.

O Calendário Muçulmano

A civilização islâmica adotou o calendário lunar. Neste calendário o ano se divide em 12 meses de 29 ou trinta dias, de forma que o ano tem 354 dias. Como o mês sinódico não tem exatamente 29,5 dias, mas 29,5306 dias, é necessário fazer algumas correções para adaptar o ano ao ciclo lunar. O mês começa quando o crescente lunar aparece pela primeira vez após o pôr do sol. O dia santificado é a sexta-feira.

Trinta anos lunares têm aproximadamente 10.631,016 dias. Com anos de 354 dias, trinta anos totalizariam 10.620 dias, e por isso é preciso acrescentar 11 dias a cada trinta anos.

A origem do calendário muçulmano se fixa na Hégira, que comemora a fuga de Maomé, da cidade de Meca para Medina, que coincide com o dia 16 de julho de 622 da era cristã, no calendário gregoriano.

Para fazer uma aproximação entre os anos muçulmanos e gregorianos:

Tira-se 622 (ano da Hégira) do ano em curso multiplica-se o resultado por 1,031 (número de dias do ano gregoriano dividido pelo número de dias do ano lunar).

Exemplo: 2002 – 622 = 1380

1380 x 1,031 = 1422.

O Calendário Indiano

Originalmente vigoravam cerca de 30 calendários na Índia, em função da região e da religião. Os mulçumanos adotam o calendário mulçumano e o calendário gregoriano é contado para fins oficiais.

A Reforma Nacional do Calendário, formalizado em 1957 da era moderna fez os anos serem contados segundo os mesmos critérios do calendário gregoriano salvo que a contagem dos anos, meses e dias está defasada. Foi estabelecido que o dia 1 Chaitra de 1879 da era Saka seria a de 22 de março de 1957 dC.

Os critérios dos anos bissextos são os mesmos adotados no calendário gregoriano salvo que deve somar 78 ao ano Saka.

As festas religiosas e datas regulando o comércio são definidas astronomicamente segundo condições lunares e solares.

Abaixo uma tabela contendo as informações sobre o nome, início e duração dos meses do calendário indiano:

O Calendário Revolucionário Francês

Um caso muito singular é o do calendário republicano, instituído pela revolução francesa em 1793, e que tinha como data inicial o dia 22 de novembro de 1792, data em que foi instaurada a república. Pretendia substituir o calendário gregoriano e tornar-se universal. A França Revolucionária adotou um Calendário Republicano ao mesmo tempo que adotou o sistema métrico de medidas. A “objetividade” tanto do sistema métrico quanto do calendário deveria dar o mesmo fim para ambos. No entanto apenas o sistema métrico vingou e se impõe mais a cada dia que passa.

O ano passaria a ter 12 meses de trinta dias, distribuídos em três décadas cada mês. Estas eram numeradas de um a três, e os dias de um a dez, na respectiva década, recebendo nomes de primidi, duodi, tridi, quartidi, quintidi, sextidi, septidi, octidi, nonidi, décadi. Deram-se, depois, às décadas, nomes tirados de plantas, animais e objetos de agricultura. Seus nomes seriam: Vendémiaire, Brumaire, Frimaire, Nivôse, Pluviôse, Ventôse, Germinal, Floréal, Prairial, Messidor, Thermidor, Fructidor. Os poetas Chénier e Fabre d’Eglantine e o pintor David se encarregaram de dar os nomes aos meses e aos dias. Os matemáticos Romme e Monge estabeleceram que a data gregoriana de 22 Set 1792 equivaleria a 1 Vendémiaire da ano 1 da República. Os nomes dos meses foram reunidos de forma a rimarem “ao sabor da estação”. Os três primeiros indicariam o estado do “outono”, os três seguintes, classificariam o estado climático do inverno, em seguida viriam os três meses primaveris e finalmente os três últimos sugerindo o calor ambiente.

Dividiu-se o dia em dez horas de cem minutos, e estes com cem segundos de duração. As denominações dos meses inspiraram-se nos sucessivos aspectos das estações do ano na França. Aos 360 dias acrescentavam-se cinco complementares, anualmente e, um sexto a cada quatriênio.

O ano desse calendário revolucionário começou à meia-noite do equinócio verdadeiro do outono, segundo o meridiano de Paris. A eliminação das festas religiosas católicas, dos nomes de santos e, sobretudo, do domingo, insuficientemente compensado pelo décadi, indispôs a população. Teve curta duração e a 1º de janeiro de 1806 (com pouco mais de 13 anos), já no primeiro império napoleônico, foi restabelecido o uso do calendário gregoriano.