A Educação Medieval e a Filosofia em Tomás de Aquino: Elementos para Compreensão de uma Astrologia Cristã I

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José Aparecido Celório

Resumo

Neste trabalho pretende-se analisar de que forma a Astrologia influenciou a sociedade medieval do século XIII. Como uma disciplina ensinada no programa das sete Artes Liberais, o Trivium e o Quadrivium, a Astrologia esteve ao lado da Astronomia, sendo que ambas se preocupavam com o estudo do céu. A primeira tratava, exclusivamente, das influências que os corpos celestes podiam exercer sobre a vida humana. Essa idéia estava associada à visão cosmológica dos medievais de que o mundo dos homens estava ligado ao mundo das esferas celestes ou ao mundo supralunar. Embora a pesquisa esteja centrada na Astrologia, e se atenha às influências dos corpos celestes sobre os homens, a Astronomia também foi considerada para que fosse diferenciado o papel de uma e de outra. Sabe-se que essa disciplina esteve associada ao estudo do clima, das origens de doenças e pestes. Enfim, para seus praticantes, era possível saber a causa de muitos dos males que afligiam a sociedade e identificar, em determinadas posições celestes, os sinais de Deus para os homens… (…). A preocupação principal é analisar a forma como, sob o olhar de Tomás de Aquino, a astrologia poderia ser aceita pela cristandade, sem que isso se chocasse com a idéia de livre-arbítrio. É sob esse aspecto que se analisaram os comentários que Tomás de Aquino, teólogo e filósofo medieval, teceu acerca da influência dos corpos celestes na vida humana. Aquino foi responsável por definir os limites que a Astrologia poderia atingir sem contrariar a doutrina cristã e sem que se encerrasse o destino dos homens em posições planetárias. Para Aquino, os corpos celestes influenciavam, diretamente, apenas os corpos, mas não a alma, que é racional…. (…). Assim, depreendeu-se que, em sua opinião, a Astrologia poderia ajudar os homens na medida em que, por meio do seu estudo, o homem conheceria suas inclinações corporais. Diante disso, ele seria educado de forma que pudesse lidar da melhor maneira possível com essas disposições. Aquino preocupava-se, entre outras coisas, com a ordem social e defendia que, quanto mais os homens tivessem noção de suas inclinações corporais, mais poderiam orientar seu intelecto e sua vontade para ações que os levassem à ordem em suas relações sociais.

O Estudo dos Corpos Celestes na Cristandade

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O surgimento das universidades fez com que o conhecimento antigo fosse tratado de forma diferente do que ocorrera no início da Idade Média. A filosofia, na qual também estava inserida a ciência greco-árabe, mesclava-se, de forma mais clara, com a teologia cristã. Até nesse momento, a Baixa Idade Média – considerada pelos historiadores como sendo o final da Idade Média Central – estava sob a influência neoplatônica dos primeiros padres da Igreja, principalmente de Santo Agostinho (354-430).

Os homens do século XIII necessitavam de um conhecimento maior de Matemática, de Astronomia. Havia uma urgência de novos saberes ou, pelo menos, de novas formas de se adaptar o conhecimento que chegava com as traduções e com as transformações que estavam ocorrendo na sociedade, pois nem todo o conhecimento provinha do mundo árabe: o comércio também produziu novos conhecimentos no seio das comunas, dos feudos. O estudo do meio natural passou a ser necessário num mundo que começava a se abrir para novas regiões, sem a preocupação de saques e invasões.

As recém-chegadas obras de Aristóteles (384-322 a.C), apesar da relutância por parte da Igreja, passaram a ser utilizadas como fontes de estudo da natureza nas universidades, principalmente na Universidade de Artes de Paris. O programa básico de ensino, já utilizado nas escolas abaciais e palacianas de Carlos Magno, propunha sete disciplinas divididas em Trivium e Quadrivium.

No Trivium, os alunos estudavam Lógica, Retórica e Gramática. Por meio da Gramática, o aluno entendia a ligação entre a dimensão física (os sons e a forma das letras) e a dimensão lingüistica e simbólica; a Lógica fornecia ao indivíduo a percepção para apontar um direcionamento para o raciocínio de forma que criasse um vínculo entre os fatos observados; a Retórica mostrava a condição do indivíduo como ser social, a fim de se relacionar, discutir idéias e fazer um elo entre o conhecimento individual e o conhecimento alheio.

As artes do Quadrivium eram formadas pela Aritmética, Música, Geometria e Astronomia. A Aritmética era responsável por fornecer o conhecimento da quantidade e da unidade existente nas coisas; a Geometria fornecia ao aluno a idéia de um equilíbrio espacial entre as unidades das coisas existentes; a Música ensinava como estas unidades manifestavam-se no tempo, sendo que a idéia de melodia e ressonância tinham o fim de estabelecer o equilíbrio e a harmonia temporal; a Astronomia e a Astrologia compreendiam o estudo da unidade, do espaço e do tempo relacionados ao mundo da sociedade (Microcosmo) e universo (Macrocosmo), possibilitando encontrar o cosmo no caos, a desordem na ordem, enfim, ter uma visão total e harmônica da existência. Assim a educação medieval seria algo vital, no sentido de possuir vida, de manter as pessoas harmoniosamente em suas relações sociais. A filosofia aristotélica defendia uma idéia de vida, de movimento, fundamentando-se na teoria da potência e do ato, segundo a qual a modificação constante era uma característica básica da natureza. Essa noção de movimento é que permitia o aprendizado e o aperfeiçoamento humano nas sociedades antiga e medieval.

As Sete Artes Liberais

A partir do século XII, com as traduções árabes das obras gregas, esse programa passou a ser modificado. As obras que tratavam das ciências naturais deram outro sentido ao saber dos medievais, possibilitando novos conhecimentos na medicina, nas artes mecânicas, principalmente nas construções e nas navegações, o que refletiu, indubitavelmente, no nascimento de uma nova sociedade. Aliada a estas mudanças, a filosofia aristotélica deu uma nova direção ao estudo da sociedade.

Tomás de Aquino (1224-1274) fez uma releitura da obra de Aristóteles, de tal forma que sua doutrina não fosse contraditória aos preceitos do cristianismo e que, unindo-se Fé e Razão que, ambas pudessem explicar os grandes desafios daquele período, por exemplo, estudar profundamente o mundo natural sem se distanciar do seu criador.

Outro desafio para Aquino foi desenvolver uma teoria para as influências dos corpos celestes sem que esta interferisse no conceito de livre-arbítrio que ele tanto defendia. Para tanto, ele fundamentou sua teoria na Física aristotélica e na Astrologia de Ptolomeu. A primeira porque se referia a um mundo sujeito aos movimentos dos corpos celestes e a segunda porque propunha que o homem e seu meio recebesse uma emanação das forças dos corpos celestes. Estas influências eram chamadas por Ptolomeu de físicas. Assim, considerando que isto se dava em nível corpóreo, Aquino admitia a influência dos corpos celestes, dizendo, ao mesmo tempo, que um homem racional teria como lidar com estes influxos de modo a anulá-los, em alguns casos.

Em algumas passagens da Suma Teológica e da Suma contra os Gentios, aparecem discussões sobre a relação entre a influência astral na vida e no comportamento do homem e a liberdade humana. O determinismo astral é um assunto que causava desconforto entre os teóricos medievais, porque representava uma ameaça ao livre-arbítrio. Na medida em que o homem estivesse sujeito a certas disposições celestes, ficaria impossibilitado de agir, iria contra sua vontade e sujeitaria sua razão aos instintos naturais. Ao abordar esses textos de Tomás de Aquino, será destacada a importância que ele atribuía à razão para manter a ordem na sociedade e, em seus comentários, percebe-se a oposição que ele, da mesma forma que outros teólogos medievais, fizeram à idéia de que os corpos celestes poderiam determinar o destino do homem de forma irreversível.

Havia, no século XIII, duas posições a respeito da Astrologia. No início da Era Cristã, não se admitia a determinação astral, pois isso vinculava o homem diretamente às suas paixões, o que o levava ao distanciamento de sua vontade e à desordem social, ocasionando, assim, um distanciamento de Deus. Claudio Ptolomeu (100-170 d.C) afirmou que o sábio domina as paixões e, assim, pode atenuar as influências dos corpos celestes. No século XIII, Tomás de Aquino retomou essa idéia e propõs a teoria de que os corpos celestes influenciam diretamente apenas o corpo, mas não o intelecto. Desta forma, ele pôde dedicar-se ao estudo da Astrologia sem que isto interferisse na doutrina cristã.

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Sob esta perspectiva, ele retomou a teoria astrológica presente nas obras de Aristóteles, aceitando e analisando a questão da influência das estrelas no comportamento humano. Por meio da física aristotélica, ele procurava explicar de que modo os astros interferiam na vida humana e na natureza e, por outro lado, procurava também explicar que os homens poderiam usar sua razão para que os efeitos de determinados astros fossem diminuídos ou não influenciassem indiretamente seu intelecto.

Conforme se disse anteriormente, a Astrologia tornou-se uma disciplina estudada nos currículos medievais, principalmente a partir dos séculos XII e XIII. Foi com Tomás de Aquino que a hipótese de uma Astrologia Cristã começou a ter maior sustentação. Ele defendia que os corpos celestes poderiam ser vistos como causas segundas da manifestação de Deus e que não era um erro servir-se destes sinais para explicar o movimento das coisas corporais, visto que não interferiam diretamente nas escolhas dos homens. Baseando-se na observação da natureza, ele analisou o efeito dos corpos celestes na vida humana. Foi a idéia de que a razão era a ordenadora do ser que permitiu que Aquino fizesse um estudo pormenorizado da Astrologia e a concebesse como um conhecimento que demonstrava a harmonia existente entre o mundo supralunar e o mundo sublunar.

Evidentemente, a concepção de Tomás de Aquino sobre essa harmonia estava relacionada também à Astronomia. Para que a Astrologia pudesse ser praticada de forma a orientar o homem, ela necessitava de outra disciplina, a Astronomia, responsável pela parte da mecânica celeste. A Astronomia foi fundamental para que, mediante os cálculos das posições planetárias, fosse possível o estudo dos eventos astrológicos. A Astronomia, à medida que calculava e mensurava a posição dos corpos celestes, permitia que os estudiosos pudessem estudar e entender, com mais certeza, as alterações a que o mundo inferior estava sujeito.

Nesse sentido, a Astrologia, tendo sido incorporada à doutrina cristã, tornou-se importante para o desenvolvimento da ciência experimental, porque a observação do efeito que as estrelas desencadeavam sobre a vida humana era uma forma de pesquisa que representava, a união da teoria com a prática.

Esta concepção filosófica sobre o movimento das coisas corporais estava na base do pensamento de Tomás de Aquino. Para ele, a forma substancial não existia sem a matéria, ou seja, um homem só pode ser homem porque possui alma e corpo ou matéria e forma. Esta idéia era válida para todo o mundo natural: uma planta possuía uma alma e um corpo, um cachorro possuía uma alma e um corpo e assim sucessivamente.

Para que se possa discutir, diretamente, a posição de Tomás de Aquino a respeito da influência dos corpos celestes na vida humana, faz-se necessário recuar no tempo e percorrer alguns dos caminhos filosóficos nos quais ele se fundamentou, de forma a compreender melhor a construção de sua concepção de mundo.

A Influência Astral na Obra de Santo Agostinho

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O determinismo astral, em Santo Agostinho, foi cedendo cada vez mais espaço à possibilidade de escolha, isto é, por meio do exercício do livre-arbítrio, a pessoa podia escolher entre o bem e o mal e, assim, seguir os instintos ou a razão.

Inicialmente, Santo Agostinho acreditava nas predições astrológicas, fato que o levou a estudar e praticar a Astrologia. Mesmo que tentassem persuadi-lo sobre o erro desses vaticínios, ele só deixou de acreditar nas predições da Astrologia para a vida dos homens quando seu amigo, Firmino, disse ter presenciado o nascimento de duas crianças no mesmo horário. Ora, para Agostinho, essas crianças, por terem nascido sob a mesma configuração celeste, deveriam ter vidas iguais, fato que não ocorreu, pois uma era filha de família nobre e outra de uma escrava. Assim, após sua conversão ao cristianismo, ele refutou o determinismo astral, argumentando ser impossível que os astros definissem o destino das pessoas, como provava o nascimento de crianças gêmeas. A partir de então, ele passou a considerar que o homem era livre e não poderia estar sendo determinado por forças que eram secundárias ao poder de Deus. Dizia que os vaticínios dos astrólogos ocorriam porque eles eram influenciados por maus espíritos. Para ele, o caminho da salvação seria através do conhecimento e da redenção a Deus, o que faria com que o homem ficasse sob seu jugo. Assim sendo, o ser humano e suas ações não poderiam ser determinados pelas influências celestes. Esta valorização do livre-arbítrio colocava a tese do determinismo astral na vida das pessoas como contrária à doutrina cristã. Uma das formas de se provar isso era o fato de que os homens nascidos sob um mesmo céu não seguiam caminhos iguais, ao contrário do que pressupunha o determinismo astral. A idéia do livre-arbítrio superou, assim, desde Santo Agostinho, qualquer teoria que relacionava de forma determinante a vontade dos homens à vontade dos astros. Nela se baseou Tomás de Aquino para reconhecer que o homem, como um ser racional, deveria ser responsável pelos seus atos, fossem certos ou errados.

De acordo com o fatalismo astral, tudo o que nascesse sob o mesmo céu teria destinos iguais, porém isto não acontecia. Como estudioso desta ciência, Agostinho contestou este princípio mostrando que os gêmeos, mesmo tendo nascido sob o mesmo céu, teriam destinos diferentes e, por isso, a Astrologia era falha. Valorizou, nessa questão, a razão humana, a única capaz de diferenciar os homens dos animais:

Nos antigos tempos dos Patriarcas nasceram dois gêmeos, tão seguidos um do outro que o segundo tinha agarrado o pé do primeiro (…) Acaso quererá isto dizer-se que um passeava quando o outro se sentava, que um dormia quando o outro estava acordado, que um falava quando o outro estava calado – pormenores respeitantes a minúcias que não podem ser compreendidas pelos que anotam a posição dos Astros quando nasce alguém para em seguida consultarem Astrólogos?

(Agostinho, 1991, livro V, cap. V)

Santo Agostinho colocou em dúvida algo que foi um problema para os astrólogos medievais e continuou sendo para os modernos. Se o homem era determinado pelos astros, isto deveria ser observado em todos os pequenos detalhes de sua vida. O fato de isto não acontecer era uma prova, aos olhos de Agostinho, de que este conhecimento (ou o dos que professavam os vaticínios) era infundado. Por mais parecidos que os gêmeos fossem, suas vontades não eram as mesmas, donde se concluía que a influência dos astros era falível. Agostinho ressaltou as diferenças existentes entre os homens e observou a necessidade de se respeitar essas diferenças, pois elas decorriam da própria livre escolha dada ao homem por Deus. A preocupação de Agostinho era com a salvação da Alma, que se daria com a conversão ao Cristianismo. Isto indicava basicamente a diferença dos homens, os que eram convertidos e salvos e os que escolhiam o mal e a perdição da alma. A escolha, portanto, era intrínseca ao seu ser e somente ele poderia fazer suas escolhas, sem poder se eximir das responsabilidades.

Essas escolhas também explicavam o próprio esfacelamento da sociedade. Era o erro dos homens que causava o mal entre eles. O Cristianismo foi visto, por Agostinho, como a única forma de escolher o certo, pois, à medida que recebia os ditames diretamente de Deus, o homem podia dar ordem à sua vida e às suas relações sociais. As diferenças que ele identificava nos homens de sua época tinham origem na situação histórica de confronto entre pagãos e cristãos e o caminho proposto para superá-las implicava a idéia de conversão. No século XIII, os homens já viviam num meio predominantemente cristão e as diferenças entre eles apresentavam-se como resultado da forma como utilizavam sua razão, seu intelecto e sua vontade.

Em Tomás de Aquino, um homem era diferente do outro à medida que seu intelecto era capaz de perceber realidades sensíveis diferentes. O homem alcançava determinado lugar se tivesse condições de enxergá-lo. Mas, se a influência celeste fosse algo determinante, os homens estariam muito próximos da igualdade, no sentido de seu intelecto e de sua vontade. Assim, ele ponderava que os homens eram iguais em sua humanidade, mas não em sua Alma. Se os homens fossem apenas seres corporais, suas diferenças poderiam ser explicadas pelos corpos celestes, mas eles eram seres de corpo e alma, estando sua vontade e seu intelecto subordinados a ela. Por isso, em virtude de sua alma, um ser humano diferia do outro.

Outra razão da diferença dos homens, sobre a qual se manifestava Agostinho, dizia respeito à concepção. Por que, então, o nascimento era considerado mais importante? A alegação dos astrólogos de que os gêmeos nasciam em horários diferentes, daí a diferença nas atitudes, era refutada por ele. Considerando-se a influência astral, se as almas nasciam juntas, os gêmeos deveriam ter igual comportamento. Como isso não acontecia, a liberdade da alma para Agostinho, era o que garantia que os homens tivessem direções opostas das indicadas pelas determinações astrológicas.

As considerações de Agostinho sobre a Astrologia demarcaram, claramente, o limite da prática astrológica: a interpretação dos astrólogos não interferia na liberdade da alma humana. As críticas de Agostinho sobre o determinismo ou fatalidade astral não se estendiam à Astrologia natural, que se atinha ao estudo dos efeitos da Natureza Celeste no mundo dos homens. Segundo ele, embora seus efeitos não determinassem a vontade humana, a Astrologia poderia ser utilizada para o estudo dos fenômenos que circundavam o homem, por exemplo, a chuva, os ventos, as doenças, etc.

A Astrologia possibilitou o entendimento de muitos dos fenômenos naturais que tinham uma razão celeste e foi em virtude dessa possibilidade que Alberto Magno (1206-1280), Roger Bacon (1214-1292) e Tomás de Aquino a aceitaram sem muitas restrições, como se verá nos capítulos seguintes. Entretanto, como se tratava de um novo momento histórico, novos conceitos foram sistematizados para se pensar a sociedade como um todo e foi com esse novo aparato conceitual que, no século XIII, a Astrologia foi retomada para a pesquisa da natureza. Porém, no período em que Santo Agostinho viveu, a preocupação estava voltada somente para a salvação religiosa do homem.

Com a queda do Império Romano, o Cristianismo foi visto pelos primeiros padres como a única maneira de dar direção a uma sociedade em transição em virtude de uma série de transformações, como a invasão dos Bárbaros, a dissolução das cidades, elevação da carga tributária, corrupção dos governantes, entre outras causas. A revelação das Sagradas Escrituras tornava possível uma nova educação, segundo a qual os homens teriam o direito de escolha entre o bem e o mal. A aceitação do determinismo astral colocava em xeque a nova educação, baseada no Cristianismo, na busca interna de Deus. De que forma haveria a possibilidade de escolha? Para Agostinho, o homem poderia não levar em consideração a vontade das estrelas, pois, enquanto os astros poderiam influenciar as paixões, Deus, em contrapartida, influenciaria a alma. Esta é que deveria ser salva, o que implicava a possibilidade de se estabelecer uma ordem na sociedade a partir da conversão dos pagãos ao Cristianismo.

Para Agostinho, o homem podia ser inclinado pela posição dos astros a ter determinadas atitudes, isto não significava uma imposição. Segundo ele, inclinar-se para um ato não significava estar determinado, mas propenso a agir de uma forma ou de outra. Portanto, cabia ao homem saber qual caminho queria seguir, ou melhor, a qual desejo iria ceder.

“As origens do Império Romano bem como a de todos os reinos não foi fortuita nem resultou da posição das estrelas (…) é seguramente a Providência divina que estabelece os reinos humanos. Se alguém atribuir ao destino, chamando “destino” à própria vontade ou omnipotência de Deus, pois mantenha a sua opinião mas corrija a linguagem. Porém, porque é que não diz logo de início o que virá a dizer quando se lhe perguntar a que é que chama “destino”? Na verdade, quando a ouvem, os homens tomam esta palavra no sentido usual e não pensam senão na força da posição dos astros tal qual como ela se apresenta quando alguém nasce ou é concebido (…) Mas para aquele para quem os astros decidem, sem a vontade de Deus, do que fazemos ou dos bens que possuiremos ou dos males que teremos de suportar, devem ser impedidos de fazer-se ouvir não só dos que observam a verdadeira religião mas também dos devotos de qualquer deus, mesmo falso. (…) Aqueles que fazem depender da vontade de Deus a posição das estrelas que decidem de certo modo do caráter de cada um e dos acontecimentos bons ou maus da sua vida, – se julgam que essas estrelas, que receberam esse poder do poder supremo, decidem desses acontecimentos como lhe apetece – grave ofensa fazem ao Céu. Tomam o Céu por uma espécie de ilustre senado e esplêndida cúria em que se decide dos crimes que se podem cometer – crimes esses que, se fosse alguma cidade terrena a votá-los, tal cidade deveria ser destruída pelo gênero humano. (…) Poderão ainda dizer que as estrelas indicam  mas não realizam os acontecimentos. É como se a sua posição fosse uma linguagem de predizer e não de realizar o futuro (foi de facto este o parecer de homens não mediocremente doutos). Não é porém assim que os astrólogos costumam falar. Não dizem, por exemplo: “esta posição de Marte anuncia um homicida” mas “faz um homicida”. Concedamos, porém, que eles não falam como devem e que deviam tomar dos filósofos a sua maneira de falar para anunciarem os acontecimentos que julgam descobrir na posição dos astros”.

(Agostinho, 1990, livro V, Cap. I)

Agostinho via, na teoria da influência dos astros, uma possibilidade, mas não algo determinante. Levando-se em consideração o momento de transição histórica vivenciado por esse filósofo, percebe-se o quanto era delicado, para uma sociedade marcada por profundos conflitos sociais, acreditar nas determinações dos astros. Do ponto de vista do Cristianismo e, portanto, de Agostinho, dizer que um homem era homicida porque nasceu sob influência do planeta Marte determinava e condicionava a impossibilidade de sua salvação. Ao contrário, de acordo com a nova proposta filosófica, supondo-se apenas sua inclinação para ser homicida, esse mesmo homem poderia ser salvo pela fé. No conjunto, esta nova orientação filosófica fundamentava a possibilidade de se manter a ordem na sociedade. Deus podia enviar sinais por meio das estrelas, mas não determinar o comportamento dos homens a partir delas. Portanto, o homem, na concepção de Santo Agostinho, só poderia buscar a salvação por meio da fé em Deus. Já as previsões fatalistas dos astrólogos não continham a possibilidade dessa salvação. Uma dada interpretação das predisposições celestes excluiria da vida de uma pessoa, a possibilidade da salvação. A célebre frase “Astra inclinant, non necessitant” estava presente, implicitamente, no pensamento de muitos filósofos e teólogos importantes do Cristianismo.

Agostinho baseava-se na idéia de que as estrelas não determinavam o destino e, para isso, aludia à posição que os homens deveriam tomar, baseados na opinião dos filósofos, ou seja, de que o homem, diante de determinados caminhos (estes podem ser direcionados pelos astros), poderia escolher entre um e outro, e não ser forçado a seguir apenas um. O livre-arbítrio apresentava-se como a possibilidade de garantir a paz e a salvação do mundo. Seu exercício se daria pelo domínio das paixões humanas e o uso pleno da capacidade racional, mediante a reflexão e a percepção da realidade interior. Para Agostinho, a essência do pecado estava na submissão da razão às paixões. A razão era superior às paixões, pois baseava-se nas escrituras sagradas e não estava à mercê das mudanças do mundo sublunar, ou seja, das coisas existentes na Terra. Ela era a própria Lei de Deus.

Julgas que a paixão seja mais poderosa do que a mente, à qual sabemos que por lei eterna foi-lhe dado o domínio sobre todas as paixões? Quanto a mim, não o creio de modo algum, pois, caso o fosse, seria a negação daquela ordem muito perfeita de que o mais forte mande no menos forte. Por isso, é necessário, a meu entender, que a mente seja mais poderosa do que a paixão e pelo mesmo será totalmente justo e correto que a mente a domine.

(Agostinho, 1995, II parte, cap. X)

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Agostinho, mesmo admitindo que o livre-arbítrio permitia a escolha entre o bem e o mal, considerava que as paixões continuariam sendo um canal aberto para que o homem cometesse o pecado. A alma possuidora de virtudes, quer dizer, dotada de razão, não seria alvo de nenhuma influência externa, seja de pessoas dotadas de vícios ou mesmo do influxo das estrelas. Todavia, aquele que estivesse no vício receberia o mal tanto das pessoas ao seu redor como sofreria a determinação das estrelas. Com base nas colocações já feitas é possível inferir que o homem, em Agostinho, estava mais exposto ao vício do que o homem em Tomás de Aquino, em virtude dos momentos históricos de cada um. Para Aquino, o homem podia caminhar por caminhos tortuosos, porém cabia a ele ter discernimento entre o caminho da virtude e o do vício, porque ambos sempre estariam presentes em sua vida.

Portanto, o livre-arbítrio tornava-se um meio para que o cristão conquistasse o bem e a salvação da alma, mas, para isso, era preciso que ele fosse redirecionado para a Cidade de Deus, já que a cidade terrestre estava desaparecendo. Na falta desta, bastava que o homem se orientasse pela Cidade de Deus como um plano cósmico. Assim como as cidades da Babilônia e de Jerusalém, a cidade planejada pelo bispo de Hipona refletia a necessidade do homem se redirecionar para o cosmo, o que, numa linguagem cristã, significaria aproximar-se do poder e da glória de Deus. Para que isso acontecesse, porém, o homem necessitava praticar seu livre-arbítrio e ser responsável pelos seus atos.

O que torna importante a crença na influência astral não é o nível de conhecimento que se tinha da Astrologia ou da Astronomia, mas, sim, o perigo de se acreditar numa força que seria superior à força de Deus e se distanciar da salvação. Santo Agostinho, com base nesta concepção, elaborou questões lógicas, como a prova dos gêmeos, para convencer os homens de que existia apenas uma força que podia dominá-los ou exercer influência direta sobre suas almas: a de Deus.

Os homens do século IV, devido às crises políticas e econômicas que atingiram o Império Romano, afligiam-se em dúvidas e incertezas. Considerava-se que, para enfrentá-las, era de grande importância sublimar as paixões e dar lugar à razão e isso só seria possível com a conversão, ou melhor, a aceitação do Cristianismo. Essa forma de educação é que fortaleceria  e daria segurança à sociedade. Essa segurança não era possível para os que seguiam as determinações dos ritmos astrais (fatalismo astral), visto que dependeriam dos movimentos dos corpos celestes, que ora poderiam inclinar para as coisas boas ora para as coisas nefastas.

Santo Agostinho, baseado na sua crença em Deus, condenava alguns astrólogos que faziam previsões assertivas sobre o futuro. Para ele, a certeza de algumas previsões davam-se pela influência dos demônios, sendo estes os únicos interessados nas paixões dos homens. Era por intermédio delas que os homens se entregavam à violência e à barbárie.

O caráter supersticioso da Astrologia foi atenuado, consideravelmente, nos séculos XII e XIII, a partir de quando esta passou a ser estudada nas faculdades de artes sem maiores restrições. O fato das práticas supersticiosas terem sido constantes, no período em que viveu Agostinho, foi devido à existência de uma desordem social em que as pessoas não possuíam certezas do próprio futuro. Dessa forma, uma Astrologia voltada para a investigação da natureza era cada vez menos praticada.

Se não houve desenvolvimento significativo das questões referentes à Astrologia/Astronomia, no início da Idade Média, ou de qualquer outra área do conhecimento, deve-se ao fato de não ter havido, antes de tudo, uma sociedade organizada. Por isso, a preocupação em explicar os fenômenos naturais não era, naquele momento, o principal objetivo. Havia a necessidade de se reorganizar a sociedade que estava se deteriorando e, acima de tudo, manter, de certa forma, os homens inseridos na idéia de que era possível um mundo novamente ordenado.

A idéia de que a crença no Cristianismo poderia conduzir à ordem social, estava implícita nas construções dos templos antigos, principalmente das cidades. O homem procurou uma referência para a ordem de sua vida e de sua sociedade partindo da idéia de que há um mundo superior em perfeita harmonia. Assim, ao trazer o mundo superior para o mundo inferior, o homem sentia estar envolvido com a própria ordem do universo. A Cidade de Deus, de Santo Agostinho, está baseada nesse conceito de ordem cósmica, da mesma forma que a Jerusalém Terrestre descendeu de uma Jerusalém Celeste. Essa visão de que o homem poderia chegar a Deus por meio de sua aproximação do sagrado, como dizia a teoria agostiniana, influenciou as principais construções de templos e cidades, os quais eram vistos como o próprio centro do mundo, do poder e da glória de Deus.

Tanto em Aristóteles como em Ptolomeu e Agostinho viu-se a relação que se fazia entre o mundo supralunar e o mundo sublunar, ou seja, a idéia de que esses mundos se correspondiam. Em A Cidade de Deus, o mundo supralunar de Aristóteles e os planetas de Ptolomeu adquiriram a mesma perspectiva, a de que o mundo dos homens existe porque há um mundo imutável e perfeito acima deles.

A Cosmologia e sua Importância para a Formação do Homem

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Desde o momento em que a razão passou a substituir as explicações míticas sobre o mundo, o céu passou a ser a morada não só dos deuses, mas de astros, cujos movimentos estavam, de certa forma, relacionados à vida humana e à natureza ao seu redor. Tanto a sociedade como a própria ordem cósmica espelhavam os receios e anseios do homem. Na proporção em que se rompia o sistema Feudal, o céu finito e fechado de Aristóteles abria-se para o universo infinito de Copérnico.

Cada época teve uma forma específica de expressão científica, filosófica ou religiosa, não havendo um período mais avançado do que outro. Simplesmente existiram modos particulares de viver e de analisar o mundo. Assim, a partir do desenvolvimento da ciência moderna, quando houve uma ruptura entre a idéia de Macrocosmo e Microcosmo, o homem, que até então concebia estes dois mundos como inseparáveis, passa a ter uma nova concepção acerca da natureza e de sua relação com ela. Ou seja, antes ele se considerava como parte da natureza, como um de seus elementos. Depois, ele desvincula-se do meio natural e passa a ser o “ordenador” da natureza, invertendo totalmente a visão de mundo em que estava inserido. É nesse momento que começa a se desenvolver a idéia de que a natureza é apenas uma fonte de exploração para servir aos anseios do homem.

Nos primórdios da humanidade, quando não havia a separação entre homem e natureza, o homem colocava-se a necessidade de conhecer os limites do universo, expressando sua idéia de correspondência entre o Macrocosmo e o Microcosmo  em diferentes representações simbólicas. Da mesma forma, o homem antigo e o homem medieval baseavam suas construções em símbolos celestiais, conforme esclarece Mircea Eliade:

As cidades têm protótipos divinos. Todas as cidades babilônicas tinham seus arquétipos nas constelações: Sippara em Câncer, Nínive na Ursa Maior, Assur em Arcturo, etc. Sennacherib mandou construir Níneve de acordo com a ‘forma (…) delineada a partir de eras distantes, pelos textos do paraíso das estrelas’. Não só existe um modelo que precede a arquitetura terrena, mas o modelo também se encontra situado numa região ideal (celestial) da eternidade. É Isso que Salomão anuncia: Tu deste a ordem para a construção de um santuário em tua montanha sagrada, E um altar na cidade de tua morada, Uma cópia do tabernáculo sagrado que preparasse de antemão, desde o princípio.

O estabelecimento dessas relações era algo comum nas construções, principalmente nas cidades que, para o homem, sempre deveriam ter uma planta original vinda do Céu. Outro fator importante nas construções é o simbolismo do centro. As cidades sempre eram construídas como se fossem o “umbigo” (ônfalo) do mundo: “(…) o ônfalo é universalmente o símbolo do centro do mundo. Um número muito grande de tradições supõe que a origem do mundo tenha partido de um umbigo, de onde a manifestação se irradia nas quatro direções” (Chevalier). Não somente as cidades tinham esse simbolismo, os templos também seguiam o mesmo modelo e uma cidade sagrada possuía ligações intrínsecas com a cosmologia estabelecida em cada época. A Jerusalém Celestial foi, sem dúvida, o grande modelo para os grandes templos erigidos em épocas posteriores, inclusive no período medieval.

As cidades, instaladas no centro do mundo, refletem a ordem celeste e recebem sua influência. Pela mesma razão, em certos casos são também as imagens de centros espirituais. Assim, a Heliópolis primordial, cidade do sol; Salém, a cidade da paz; Luz, a amendoeira, que Jacó denominou Beith-el, a casa de Deus. O nome Heliópolis evoca naturalmente o simbolismo zodiacal. Lembraremos também que a Jerusalém Celeste possui doze portas (três em cada oriente) que correspondem, manifestamente, aos doze signos, a não ser que sejam as doze tribos de Israel, e que a divisão duodenária também fosse praticada nas cidades romanas e, menos explicitamente, nas hindus. Percebe-se, então, o papel que a Astrologia deve desempenhar na construção das cidades, que refletem os movimentos do Sol, fixando-os, e cujo plano freqüentemente coincide com as posições da Ursa Maior.

(Chevalier)

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Pode-se observar que a orientação, com base no plano celeste, foi comum entre os antigos. Esta visão de mundo remetia a uma idéia da Astrologia na qual o mundo inferior seguia a ordem do mundo superior. Ou seja, o homem baseava-se nas orientações dadas pelas posições dos astros no céu. Isto inseria o homem e seu meio na totalidade do universo, fazendo dele uma das peças do grande quebra-cabeça cósmico.

No caso da Astrologia, deve-se entender que tanto esta como a Astronomia eram formas de uma cosmologia. Não havia, na Antigüidade, a idéia de emanação ou influência planetária desenvolvida, posteriormente, no século II, por Ptolomeu. Os homens apenas faziam analogias entre o Céu e a Terra e tudo o que realizavam cá embaixo tinha uma correspondência com o plano celeste ou divino. Pode-se dizer que havia razão para que os templos seguissem posições astronomicamente precisas. Esta idéia de analogia repercutiu no pensamento de Tomás de Aquino, visto que ele, de acordo com a sua visão de totalidade e de ordem social, procurava compreender os fenômenos que ocorriam na Terra como decorrência do movimento do mundo superior.

Um outro exemplo dessa conexão são as pirâmides do Egito, as quais simbolizavam, na Terra, a grande constelação do Horus (Órion para os romanos), e suas três estrelas principais – Mintaka, Alnilam, Alnitaka –  representavam o cinturão do guerreiro. Partindo deste pressuposto, é possível considerar o fato de que, em dados momentos históricos, estudava-se o caminhar dos homens por meio do estudo do céu. Os sacerdotes – sábios – projetavam no céu todos os seus desejos, costumes, comportamentos. Por isso, o estudo da Astronomia antiga e medieval, antes de representar vários símbolos aparentemente míticos ou obscuros, refletem, claramente, os anseios de povos que estabeleciam, mediante uma visão cosmológica, uma íntima ligação com o cosmo.

Algumas construções medievais também seguiram o plano do simbolismo do centro. O mundo medievo recebeu a “religião solar” dos antigos e a manteve viva em suas construções. Além disso, os templos góticos procuraram manter uma correspondência entre o Céu e a Terra, porque suas posições respeitavam os pontos cardeais, elemento fundamental para os templos de origem celeste.

Podemos acrescentar que o mesmo simbolismo (do centro) sobreviveu no mundo ocidental até o limiar dos tempos modernos. A concepção bastante primitiva do templo como a imago mundi, ou seja, a idéia de que o santuário reproduz o Universo na sua essência, passou para a arquitetura religiosa da Europa cristã: as basílicas dos primeiros séculos de nossa era, do mesmo modo que as catedrais medievais, reproduzem simbolicamente a Jerusalém Celestial.

(Eliade)

O homem tinha uma visão da natureza, de forma que ele podia se relacionar com todos os elementos de seu meio. A origem do mundo provinha do céu e, ao estudá-lo, o homem encontrava algo que pudesse explicar sua própria origem. Claudio Ptolomeu fez menção às regiões da Terra que seriam governadas por determinados signos. O que hoje, por exemplo, conhecemos por Grã-Bretanha, Países Baixos, Alemanha, Itália, Portugal, Espanha relacionavam-se à natureza de Áries, Leão e Sagitário e eram governados por Júpiter e Marte. Assim, observa-se, ao longo de diversas épocas, o desenvolvimento de várias cosmogonias e cosmologias, que expressaram necessidades tanto psicológicas como práticas, para que o homem pudesse buscar um sentido para sua própria existência.

Diante das considerações acima, é possível concluir que o corpo humano poderia ser análogo ao cosmo, ou seja, que cada parte do céu estaria ligada às partes do corpo humano. Desse modo, Áries, o primeiro signo do zodíaco porque demarca o início da primavera, rege, no corpo humano, a cabeça; Touro, como segundo signo, rege a garganta e, assim, sucessivamente até os pés, que são regidos pelo signo de  Peixes.

Esta influência celeste no corpo humano era considerada possível para Tomás de Aquino, porém tal influência não atingiria a razão humana. A idéia de vincular o mundo dos homens ao mundo superior permitia que ele se sentisse cada vez mais próximo de seu criador, além de lhe garantir e ao seu meio um sentido de ordem.

A visão de que o homem é um ser social e pertence à totalidade do universo esteve presente desde a Antigüidade e certamente influenciou a posição de muitos autores medievais dos séculos XII e XIII

A Filosofia como Base para a Teoria dos Influxos Celestes

Astronomical Clock – Prague

O saber científico, astronômico e astrológico medieval recebeu influência direta da  Cosmologia e da Astronomia grega. Os estudiosos da Idade Média determinavam a posição dos planetas, demarcavam as estações e usavam esses cálculos para a demarcação do tempo religioso, ou seja, para o Cômputo Eclesiástico.

É preciso ressaltar, todavia, que a Astrologia, até fins do século XII, diferentemente do que ocorria na Grécia antiga, não pôde ser  praticada com a mesma precisão, pois faltavam elementos que permitissem o cálculo de cartas astrais para fins de prognóstico e estudo de temperamento, como, por exemplo, a trigonometria esférica. Até essa época, permanecia a crença em cometas e eclipses como sinais nefastos da chegada de pestes e guerras. Os cometas eram astros que provocavam certa “desordem temporária” no céu pelo fato de seu movimento não corresponder ao curso normal dos planetas e, por isso, foram identificados sempre como algo que poderia trazer malefícios à sociedade.

Havia uma explicação racional para os cometas serem sinais de guerra. Por exemplo, ao passar pelo céu, um cometa aquecia de tal forma o ar que um homem, ao inspirá-lo, teria seu cérebro também aquecido. Isto o levaria a um surto de cólera e, por conseguinte, a uma propensão para a hostilidade, que poderia acirrar ainda mais um conflito que estava propenso a ocorrer.

Os astros poderiam, do ponto de vista do homem antigo e medieval, interferir no corpo humano, e esta crença era normal na concepção aristotélica. A partir do contato com as teorias de Ptolomeu sobre a Astrologia física, que foram difundidas no séc. XII com a tradução do Tetrabiblos, foi possível a elaboração filosófica dessas interferências. Considerando a idéia de que os astros influenciavam os corpos físicos, Tomás de Aquino elaborou uma teoria sobre a função e a importância da Astrologia natural para a formação do homem.

Observa-se que os primeiros passos para uma explicação racional das ações dos homens foram trilhados desde o início da Idade Média, com Agostinho e Boécio, entre outros. Foram estes estudiosos que, indiretamente, permitiram o desabrochar das investigações acerca da natureza no século XIII. Há que se ressaltar, no entanto, que foi a partir do século XII que a Astronomia e a Astrologia medievais receberam importantes contribuições de obras gregas e árabes. O contato com conhecimentos sobre trigonometria esférica facilitou a elaboração de mapas geográficos e um estudo pormenorizado das influências físicas nos corpos inferiores.

É evidente que se tratava de uma perspectiva de ver o mundo e a ciência diferente daquela trilhada e definida pela Igreja, em que a fé suplantava a razão. Assim, uma nova idéia, voltada para a realidade externa, havia de ser instalada nos séculos XII e XIII, permitindo uma aceitação maior, pelos cristãos, da ciência greco-árabe, principalmente a filosofia aristotélica.

Foi com Tomás de Aquino que a cosmologia aristotélica melhor se adaptou à doutrina cristã e, juntamente com ela, à teoria da influência das estrelas no mundo sublunar. O estudo dessas influências instigou o homem a buscar uma causa para todos os fenômenos que observava, possibilitando que a Astrologia tivesse um caráter prático e útil à sociedade.

A Educação Medieval e a Filosofia em Tomás de Aquino: Elementos para Compreensão de uma Astrologia Cristã II