A Condicionalidade e o Intertexto como Instrumentos de Persuasão em Horóscopos

Interlúdio Crepuscular_

Uma Abordagem Sistêmico-Funcional

Christiane Augusto Gomes da Silva

 Resumo

 Esta pesquisa propõe-se a estudar a linguagem persuasiva dos horóscopos, coletados online, dos seguintes jornais dos Estados Unidos: Los Angeles Times, New York Daily News, Chicago Tribune and San Francisco Chronicle (USA). Foram compilados 2544 horóscopos, durante 53 dias e foram encontradas 943 construções condicionais.

O horóscopo é um gênero, e, assim, de acordo com a definição de Martin, divide-se em estágios, cada um com sua finalidade específica. Dos horóscopos examinados, 37,06% apresentam a construção condicional, com conectivo explícito, isto é, com “se” (30,75% dos casos) ou implícito (69,25% dos casos). A prótase ocorre, na maioria dos casos (71,15%), anteposta à apódose, funcionando, portanto, como tema, ou seja, determinando o conteúdo do tema. Por outro lado, a linguagem do horóscopo conta com a modalidade do metadiscurso, através de marcadores pessoais, hedges e enfatizadores. Além disso, um dos estágios reflete na maioria dos casos uma verdade, uma crença arraigada na cultura popular, que ajuda a fazer o leitor recuperar um intertexto, evidentemente, pretendido pelo autor do texto.

A isso, junta-se a noção de enquadres (Bednarek), responsável pela coerência do texto, que é, segundo ela, atribuída por parte dos leitores e ouvintes, focalizando a relação entre texto, contexto, conhecimento de mundo e coerência. Assim, ao ler um horóscopo, o leitor interage com o texto e dá a ele o significado mais coerente de acordo com seu conhecimento de mundo. Esses fatores concorrem para que, assim condicionados, os leitores não questionem as previsões do astrólogo e ajam guiados pela força do gênero, e para que o escritor possa esquivar-se da responsabilidade por eventuais falhas que seus prognósticos apresentem, fazendo do horóscopo, portanto, um gênero altamente persuasivo. A esse tipo de persuasão denomina-se implícita, pois ocorre graças a escolhas léxico-gramaticais, que, combinadas a contextos específicos, tornam o texto persuasivo.

As pessoas voltam-se à astrologia por meio dos horóscopos com as finalidades de entretenimento e aconselhamento, já que, segundo Spengler, a fé religiosa é substituída por outras crenças à medida que o homem se dá conta de que a vida não tem sentido após a morte. A metodologia adotada para a análise dos dados tem cunho interpretativista, com base em dados quantitativos.

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Resumi esta tese aos pontos que julguei mais oportunos para ilustrar juntamente com outro estudo, La Atenuación en las Cartas Astrales, a dinâmica interpretativa da linguagem nos prognósticos astrológicos. Nestas interpretações astrológicas de formato horoscópico os intérpretes do destino desenvolvem suas visões proféticas num tempo de discurso peculiar; o uso dos métodos astrológicos se condiciona na sugestiva temática do possível, enfatizando menos os princípios astrológicos do que é necessário, deixando a função do método interpretativo astrológico em condição secundária quanto ao uso das técnicas léxico-gramaticais.

Como em nossos pasquins nacionais o entretenimento da leitura horoscópica carrega consigo uma aparência de “verdade” para autenticar as necessidades que não conseguimos localizar claramente e que nos posicionam sujeitos ao modelo pragmático da linguagem e às crenças que não sabemos distinguir da realidade dos princípios astrológicos.

César Augusto – Astrólogo

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Introdução

 A persuasão, em especial a implícita, permeia o texto e nem sempre é realizada por adjetivos e advérbios claramente persuasivos, mas graças também a determinadas escolhas léxico-gramaticais, não consideradas interpessoais na tradição, mas que, combinadas a contextos específicos, tornam-no altamente persuasivo.

Nesse sentido, Latour e Woolgar afirmam que “o resultado de uma persuasão retórica é que os participantes devem ser convencidos de que não foram convencidos”. Segue-se que a persuasão tende a ser altamente implícita e evitar a linguagem atitudinal normalmente associada ao significado interpessoal, dependendo em grande parte, por exemplo, do sistema de valores partilhados. Martin alerta, então, para o fato de que “o apego a categorias explícitas significa perder-se uma grande porção do significado atitudinal implicada pelos textos”.

Esse tipo de persuasão, que acontece cumulativamente conforme o texto se desenrola pode ser extremamente eficaz em certos contextos. Um fenômeno que atiça a curiosidade, e que parece estar intimamente ligado à persuasão implícita, é o do horóscopo. Horóscopo (do grego horoskopos, pelo latim horoscopum) é, segundo o Grande Dicionário Larousse Cultural da língua portuguesa, “o prognóstico sobre a vida de uma pessoa, que os astrólogos pretendem tirar da situação, ou posição no céu, de certos astros no mês e na hora do nascimento dessa pessoa”.

Ora, como tal posição é variável e, portanto, difícil de ser estabelecida com certeza, segundo os astrônomos, é de se crer que nada se poderia prognosticar a respeito da vida de uma pessoa com base na posição de astros no firmamento. Portanto, não seria preciso muito raciocínio para descartar esse tipo de crença. Mas, como diz o ditado popular, há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar a vã filosofia humana.

E para entender essas “coisas”, um caminho é seguir Libânio na sua definição do ser humano como um “ser-fé”, que busca um Ser maior do que ele através da história da cultura, e cita Pascal, para quem o homem é mais do que ele mesmo. Por seu lado, Spengler, falando em nome da filosofia, esclarece que a fé religiosa é substituída por outras crenças à medida que o homem se dá conta de que a vida não tem sentido após a morte. Talvez por isso, Jung, psicólogo, ressalta que “em nenhuma época antiga (…) a astrologia esteve tão difundida e tão apreciada como nos tempos atuais”.

Assim, Barbault, astrólogo, traça uma breve psicanálise da história da astrologia, relatando a transição de uma astrologia antiga à atual e, embora confirme o alijamento da astrologia dos meios oficiais, aponta que o horóscopo nada mais é do que o algoritmo da relação de harmonia entre o indivíduo e o mundo confrontados num dado momento e lugar.

Para Arroyo, sempre foi necessário que as pessoas tivessem um modelo de ordem e de crescimento para guiar suas vidas coletivas e para dar significado à sua experiência individual. Na visão de Jung, isso constitui a necessidade religiosa do homem ocidental para quem a visão cristã do mundo esmaeceu.

Nesse contexto, é compreensível que o que sentimos sobre o que acontece depende muito da nossa posição de leitura. Assim, segundo Macken-Horarik, os textos podem ser entendidos como naturalizações de posições de leitura para um leitor ‘ideal’, e se pudermos acessar essa posição através de etnografia apropriada, então estaremos em posição mais forte para conseguir acordo sobre avaliações implícitas – lendo de uma posição naturalizada desse ideal. Por outro lado, continua a autora, a avaliação, que em última instância tem a função de levar à persuasão, é realizada prosodicamente, de tal forma que as realizações diretas tendem a colorir o discurso e assim fornecer alguma confirmação das avaliações implícitas.

Ligada a essas considerações, Macken-Horarik, mencionando o trabalho de Bakhtin, que conscientizou os lingüistas para o caráter profundamente ‘endereçador’ dos textos tratados como monológicos, fala em textos que ensinam implicitamente, em especial itens de conteúdo de certos valores éticos, que assim engajam os leitores no processo da leitura.

O trabalho, como uma resposta em diálogo, orienta-se em direção à resposta do outro (outros), em direção à sua compreensão responsiva ativa, que pode tomar diversas formas: influência educacional dos leitores, persuasão de tema, respostas críticas, influência em seguidores e sucessores, etc.

Bakhtin destaca a omissão relativa das funções comunicativas da linguagem pelos ramos principais da lingüística e mais especificamente a omissão do fato de os textos e os enunciados serem moldados por textos anteriores aos quais eles estão ‘respondendo’ e por textos subseqüentes que eles ‘antecipam’.

Essa função fundamentalmente dialógica do texto foi introduzida por Bakhtin juntamente com a noção de heteroglossia: que tudo que diferencia as vozes sociais (classes, gêneros, movimentos, épocas, pontos de vista) de uma comunidade forma um sistema intertextual no qual cada um deles é necessariamente ouvido. Bakhtin mostrou que as relações que os textos constroem juntamente com essas vozes são tanto ideacionais (representativamente semânticas) quanto axiológicas (orientadas aos valores).

O termo intertextualidade, calcado na heteroglossia, trata da reatualização, no enunciado, dos enunciados de outros, e foi cunhado por Kristeva, no final dos anos 1960, no contexto de suas influentes apresentações para audiências ocidentais do trabalho de Bakhtin. O termo, portanto, não é de Bakhtin, mas o desenvolvimento de uma abordagem intertextual (ou em seus próprios termos, ‘translingüística’) para a análise de textos era o maior tema de seu trabalho ao longo de sua carreira acadêmica e estava estreitamente ligado a outras questões importantes, incluindo sua teoria do gênero.

Dito isso, o fato é que, como se pode verificar facilmente, a crença nos astros tem sempre seus adeptos, provavelmente porque existe um contexto favorável e porque os horóscopos convencem. A maioria das pessoas – mesmo as que declaram “não acreditar nessas coisas” – conhece o seu signo do zodíaco, e muitos também consultam o horóscopo, em especial quando enfrentam situações nebulosas. Talvez esses fatos expliquem o porquê de os horóscopos fazerem parte de diferentes meios de comunicação, como jornais, revistas e a Internet, o que sugere que haja uma expectativa do público leitor em relação a esse assunto. Assim, por exemplo, importantes jornais dos EUA dispõem da sessão de horóscopo: Los Angeles Times, New York Daily News, Chicago Tribune e San Francisco Chronicle. O mesmo acontece no Brasil, onde jornais e revistas trazem cotidianamente os prognósticos do horóscopo.

É fácil perceber que os horóscopos diários, veiculados pelos meios de comunicação de massa, não são completos, mas apenas aspectos que podem ser generalizados para um grande número de pessoas que têm em comum o mesmo signo do zodíaco.

Mas, mesmo que os horóscopos diários disponibilizados pela mídia mundial não sejam específicos para cada indivíduo, eles parecem cumprir, ainda que superficialmente, a função que deles se espera, visto que têm seus leitores.

Surge aqui um problema. Notemos que os horóscopos fazem previsões sobre fatos do porvir, e, notemos que, por isso mesmo, o astrólogo não pode dizer nada sem o risco de errar. Então, cabe a pergunta: como são feitas as previsões a respeito da vida das pessoas, sem o risco de falhar nos prognósticos, já que seus autores, por um lado, precisam expor-se a esse risco e, por outro, precisam de alguma forma evitar errar em seus prognósticos?

Durante a coleta dos horóscopos nos jornais de língua inglesa, acima citados, percebemos dois fatos lingüísticos que podem estar relacionados à questão da persuasão: a influência do intertexto e a função da construção condicional, abundante nos horóscopos.

Faz-se necessário esclarecer que a seleção de corpus em língua inglesa deve-se ao fato de o ensino de inglês ter sido o grande motivador dessa pesquisa e, portanto, pretende-se também que ela seja um instrumento para que professores e estudantes de inglês atentem para as funções e não somente para as estruturas da língua.

Durante a pesquisa de trabalhos feitos na área, constatei que não há ainda trabalhos relacionando a persuasão em textos de horóscopos à construção condicional. Encontrei, entretanto, trabalhos interessantes como o de Auwera, sobre a condição perfectiva; o de Fonseca, sobre as comparativas condicionais independentes no português europeu; o de Thompson e Longacre, contendo uma distinção básica entre tipos de condicionais que é feita pela maioria das línguas, os reais e os irreais; o de Decat, que aponta a significativa ocorrência de cláusulas com inferência de condição no gênero dissertativo; o de Sweetser, mostrando a existência de condicionais em três domínios: as de conteúdo, as epistêmicas e de ato de fala e as metalingüísticas, também chamando a atenção para a ocorrência da contrafatualidade; o de Lechler, que conclui que não se pode fazer uma distinção clara entre raciocínio e interpretação na interpretação das condicionais; o de Neves e Braga, que estuda as construções hipotáticas condicionais, entre outros. Então, com base nesse panorama, o trabalho procura estabelecer tal conexão.

Portanto, esta dissertação espera responder a duas perguntas:

(a) Qual é a estrutura genérica do horóscopo para não só convencer o leitor, mas também proteger seu autor de possíveis falhas em seus prognósticos?

(b) Que outros recursos contribuem para o horóscopo cumprir as funções citadas em (a)?

Para tanto, consideramos o horóscopo como constituindo um tipo específico de gênero discursivo, com seus estágios e finalidades, de acordo com Martin, mas com uma abordagem mais recente que o considera um tipo de enquadre (frame) que condiciona, já que proporciona coerência ao texto, a sua compreensão através de determinado viés.

A pesquisa recorrerá também a estudos na área da análise crítica do discurso, examinando as propostas de Fowler, que trata da importância da língua, de como ela refrata a percepção da realidade e o papel da intertextualidade na interpretação do corpus estudado. Para tanto, assim como o faz Fowler, a análise apóia-se basicamente na Lingüística Sistêmico-Funcional, de Halliday e seus seguidores, enfocando em especial as metafunções interpessoal e textual.

As categorias de análise são a construção condicional e o intertexto, que conjugados formam uma argumentação de tipo retórico. A argumentação retórica, segundo Wästerfors e Holsanova, embora se assemelhe à dedução, usa silogismos incompletos ou resumidos, os ‘entimemas’. Aqui, uma das premissas é omitida para efeito de persuasão e brevidade, o que significa que um entimema é uma conclusão amparada numa única premissa ou justificativa. Assim, a lógica na retórica está escondida ou suposta e não expressa, e sua meta não é uma verdade indisputável, mas probabilidades. No caso dos horóscopos, há uma premissa suposta, através da inferência convidada, como veremos oportunamente.

Esses fatores contribuem para a formatação do ‘leitor ideal’, a que se refere Macken-Horarik, e ajudam a compreender a realização da persuasão implícita dos textos do horóscopo.

A relevância da minha investigação deve-se, principalmente, ao fato de que o horóscopo afeta as relações humanas, já que são lidos por uma parcela significativa da população, que ao buscar algum tipo de solução para seus problemas, sofre a persuasão exercida por esse gênero. A pesquisa tenta mostrar para o leitor que a língua não é uma janela límpida, mas um meio de refração e de estruturação, e como conseqüência, a visão do mundo resultante será necessariamente parcial, que os fatos, quando expressos pela língua, sofrem uma refração, que o discurso não é natural.

A Astrologia

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Antes de iniciarmos a fundamentação teórica desta pesquisa, e para entendermos o contexto em que se situa o horóscopo, vamos examinar como a astrologia é considerada pela comunidade que respeita o seu estudo. Não pretendemos aqui estabelecer uma relação de equivalência entre religiões e a astrologia, mas mostrar que há algo inerente ao ser humano que o motiva a buscar respostas em religiões e crenças, o que, provavelmente, também justifica seu interesse pelos horóscopos, já que, segundo Libânio, “a fé antropológica é uma necessidade para o existir humano”.

Dos estudos mais antigos de astronomia, que datam de 3000 a.C. e visavam tanto a objetivos práticos quanto a previsões sobre a vida, origina-se a astrologia. As especulações sobre a natureza do Universo devem remontar aos tempos pré-históricos e, por tal razão, a astronomia é freqüentemente considerada a mais antiga das ciências. O céu vem sendo usado como mapa, calendário e relógio desde a Antigüidade, sendo que os mais antigos registros astronômicos, feitos pelos chineses, babilônios, assírios e egípcios, datam de aproximadamente 3000 a.C., época em que o estudo dos astros tinha objetivos práticos, como medir a passagem do tempo, ou fazer calendários, para prever a melhor época para o plantio e a colheita, ou objetivos relacionados à astrologia, como fazer previsões do futuro, pois, por não terem conhecimento das leis da física, os antigos acreditavam que os deuses do céu tinham o poder da colheita, da chuva e mesmo da vida.

Libânio ainda afirma que o homem é estruturalmente voltado para o mistério e para a transcendência. Após traçar um breve perfil dos momentos de fé da humanidade, esclarece que “um terrível cansaço perpassa a modernidade pós-cristã, que corroeu idéias e valores tradicionais” e aponta que “há busca de realidades místicas que venham responder à solidão da racionalidade instrumental, ao cálculo frio da sociedade materialista e consumista” da atualidade. Assim, pode-se dizer que a busca por algo em que acreditar faz parte da essência humana: “A fé é uma experiência humana fundamental que se faz entre as pessoas e que se prolonga para coisas, mistérios e religiões. Crer é a condição de existir num convívio humano”. De acordo com ele: “Enquanto a fé antropológica é uma necessidade para o existir humano, a fé no divino parece responder ao desejo de mistério inerente ao ser humano”.

Confirmando essa afirmação, em sua psicanálise da história da astrologia, Barbault mostra que associado à ”propriedade mestra ou o privilégio essencial da ótica astrológica” está o fato de que “o mapa do céu de nascimento é o documento testemunha praticamente tão individualizado quanto a carteira de identidade: cada indivíduo tem um “tema” que lhe é próprio e que difere das figuras celestes dos outros”. Ele segue dizendo que esse horóscopo é o “hieróglifo das relações, o qual liga um lugar dado, em um momento dado, com os elementos do sistema solar”.

Segundo Barbault, os diagnósticos e prognósticos astrológicos contribuem para o conhecimento da pessoa: “trata-se, para o intérprete, de traduzir a significação das forças profundas do ser e estabelecer um quadro de seu mundo interior, a fim de ajudá-lo a encontrar o caminho de seu desenvolvimento. Tal análise permite dar a cada um uma consciência mais aguda de si mesmo, de suas possibilidades e de seus limites”.

Stephen Arroyo refere-se à astrologia como uma mitologia que pode ser usada conscientemente: “pode ser usada como um recurso para reunir o homem ao seu interior, à natureza e ao processo evolutivo do universo”. Além disso, corrobora com os dizeres de Barbault ao reforçar a necessidade da linguagem astrológica para a descrição da experiência e singularidade do ser humano, útil e compreensivelmente, e também como fonte de fórmulas e combinações incomparáveis, de qualidades arquetípicas, tornando-a um instrumento psicológico ideal. Para ele, a mitologia dá ênfase às manifestações culturais dos arquétipos; a astrologia utiliza os princípios arquetípicos essenciais como sua linguagem, para compreender as forças e as configurações fundamentais presentes tanto na vida individual quanto na cultural e, portanto, “… a astrologia pode ser vista como a estrutura mitológica mais compreensível que já surgiu na cultura humana”. Sobre os arquétipos, Jung os define como “a existência de determinadas formas na psique, que estão presentes em todo tempo e em todo lugar”, e aponta que o inconsciente coletivo é o conteúdo constituído de arquétipos.

Arroyo continua relacionando o renascimento atual da astrologia ao fato de a cultura ocidental já não ter qualquer mitologia viável para energizá-la, para colocá-la em contato com uma realidade maior. Para ele, sempre foi necessário que as pessoas tivessem um modelo de ordem e de crescimento para guiar suas vidas coletivas e para dar significado à sua experiência individual. Na visão de Jung, isso constitui a necessidade religiosa do homem ocidental para quem a visão cristã do mundo esmaeceu.

É, então, nesse contexto, que Jung afirma que “em nenhuma época antiga (…) a astrologia esteve tão difundida e tão apreciada como nos tempos atuais”. Para Jung:

A fé não exclui a razão na qual reside a maior força do ser humano. Nossa fé teme a ciência e também a psicologia, e desvia o olhar da realidade fundamental do numinoso que sempre guia o destino dos homens.

Com a evolução da consciência do homem e conseqüente evolução de seus mitos, segundo Stephen Arroyo, muda também o modo como o homem se relaciona com suas religiões e deuses e também com a astrologia, já que ainda existe a necessidade que o homem tem dela, a despeito de todas as tentativas para racionalizá-la fora da existência. Para ele, a astrologia pode ser vista como uma mitologia que pode ser usada conscientemente, visto que o ocidental contemporâneo evoluiu a ponto de não se contentar em viver inconscientemente, de acordo com mitos obsoletos, dogmas rígidos ou tradições arcaicas. Entretanto, diz que, simultaneamente, esse homem perdeu o contato com as bases arquetípicas do seu ser, as quais são fonte de alimentação e sustentação espiritual, e sugere, portanto, o uso da astrologia como um recurso para reunir o homem ao seu eu interior, à natureza e ao processo evolutivo do universo.

Ainda no âmbito da necessidade religiosa, o filósofo e historiador Oswald Spengler esclarece que a fé religiosa é substituída por outras crenças à medida que o homem se dá conta de que a vida não tem sentido após a morte. Ele afirma que a vida de hoje está na ciência e que a evolução humana é concebida como resultado de forças e estímulos de fora, e não do desejo e vontade interiores, ao mesmo tempo em que define ciência como “o que o homem é; o homem a cria à sua imagem, do mesmo modo que criou Deus”. Para ele, tal fato é um símbolo de decadência, de fraqueza na vontade da raça humana e do indivíduo, enquanto os homens que considera fortes “crêem mais em destinos do que em causa, crêem mais no que os impele para a frente no que espicaça por trás, crêem mais numa força interna do que em estímulos externos”. Tal contradição, portanto, que faz da ciência uma nova fé, proporciona a queda da própria ciência, por apresentar sinais de degeneração e fraqueza.

Nesse contexto, as classes superiores abandonam a fé enquanto as inferiores trazem-na à tona das mais variadas formas. O autor afirma que a religião é a essência das culturas e que o homem possui o desejo da verdadeira religiosidade, mas que o ateísmo existe nas classes superiores e, segundo ele, “é a necessária expressão duma espiritualidade que já se realizou e exauriu as suas possibilidades religiosas”, daí, sendo incompatível com o desejo da verdadeira religiosidade, e poderá acabar com uma nação pois quando o homem descobre que nação há significação na vida após a morte ele abandona a esperança, fato que faz com que a religião deixe de ser a alma da cultura e seja substituída por mitologias. Assim, a ciência que afasta as pessoas da religião as leva de volta ao mistério e a fé. Para Freud:

… a religião não mais possui sobre o povo a mesma influência que costumava ter… E isso não aconteceu por que suas promessas tenham diminuído, mas porque as pessoas as acham menos críveis.

Esse, portanto, é o contexto cultural em que a astrologia ganha força.

Corroborando tais dizeres, Libânio define o ser humano como um “ser-fé” e diz que a busca de um Ser maior do que nós atravessa a história da cultura, ao mesmo tempo em que cita o Princípio Esperança do filósofo marxista Ernest Bloch, e Pascal, que afirma que o homem é mais do que ele mesmo. O autor afirma que o homem é estruturalmente voltado para o mistério e para a transcendência, mas que para ele, embora pareça a fé ser uma solução, ela é um problema. Após traçar um breve perfil dos momentos de fé da humanidade, esclarece que “um terrível cansaço perpassa a modernidade pós-cristã, que corroeu idéias e valores tradicionais” e aponta que “há busca de realidades místicas que venham responder à solidão da racionalidade instrumental, ao cálculo frio da sociedade materialista e consumista” da atualidade.

Assim, pode-se dizer que a busca por algo em que acreditar faz parte da essência humana: “A fé é uma experiência humana fundamental que se faz entre as pessoas e que se prolonga para coisas, mistérios e religiões. Crer é a condição de existir num convívio humano”. De acordo com ele: “Enquanto a fé antropológica é uma necessidade para o existir humano, a fé no divino parece responder ao desejo de mistério inerente ao ser humano.”

A Intertextualidade

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A intertextualidade é, para a presente pesquisa, mais um pano de fundo que possibilita a existência de vários fatores que influem na persuasão implícita, do que propriamente uma categoria de análise. Assim, ela ampara a noção de gênero como um enquadre – estruturas mentais de conhecimento que captam as feições típicas de uma situação, para garantir a coerência, relacionando texto, contexto, conhecimento de mundo e coerência; está por trás da construção de mundo textual, que por sua vez garante o papel da construção condicional – uma categoria de análise do horóscopo – na efetivação da persuasão implícita nesse gênero.

Conforme Fairclough, o termo ‘intertextualidade’ foi cunhado por Kristeva no final dos anos 1960, e tem base na abordagem intertextual de Bakhtin, ou nos termos do próprio de Bakhtin, ‘translingüística’. A intertextualidade, segundo Fairclough, implica uma ênfase sobre a heterogeneidade dos textos e um modo de análise que ressalta os elementos e as linhas diversos e freqüentemente contraditórios que contribuem para compor um texto. Os textos diferem na medida em que seus elementos heterogêneos são integrados, e também na medida em que sua heterogeneidade é evidente na superfície do texto.

Para Voloshinov, toda comunicação verbal, escrita ou falada, é ‘dialógica’, ou seja, falar ou escrever é referir-se àquilo que foi dito/escrito antes, e simultaneamente antecipar respostas potenciais ou imaginadas dos leitores ou ouvintes. Inicia dizendo que aquilo que nós falamos é apenas o conteúdo do discurso, o tema de nossas palavras. Mas o discurso de outrem constitui mais do que o tema do discurso; ele pode entrar no discurso e na construção sintática “em pessoa”, como uma unidade integral da construção.

Sabe-se, segundo o autor, que a unidade real da língua, que é realizada na fala, não é a enunciação monológica individual e isolada, mas a interação de pelo menos duas enunciações, isto é, o diálogo. Como o receptor experimenta a enunciação de outrem na sua consciência, que se exprime por meio do discurso interior? Encontramos justamente nas formas do discurso citado um documento objetivo que esclarece esse problema. Esse documento, quando sabemos lê-lo, dá-nos indicações, não sobre os processos subjetivo-psicológicos passageiros e fortuitos que se passam na “alma” do receptor, mas sobre as tendências sociais estáveis características da apreensão ativa do discurso de outrem que se manifestam nas formas da língua, no caso desse trabalho, sob a forma de horóscopos. O mecanismo desse processo não se situa na alma individual, mas na sociedade, que escolhe e gramaticaliza – isto é, associa às estruturas gramaticais da língua – apenas os elementos da apreensão ativa, apreciativa, da enunciação de outrem que são socialmente pertinentes e constantes e que, por conseqüência, têm seu fundamento na existência econômica de uma comunidade lingüística dada.

White propõe uma análise de recursos lingüísticos referentes ao posicionamento intersubjetivo (que têm sido rotulados de modalidade, polaridade, evidencialidade, hedging, intensificação, atribuição, concessão e conseqüência). Inspirando-se na noção de perspectiva dialógica de Bakhtin, ele tenta mostrar que recursos léxico-gramaticais podem ser reunidos em termos da semântica discursiva ou retórica, fornecendo meios para o falante posicionar-se em relação a pontos de vista ou posições sociais referenciados pelo texto e, por conseguinte, alinhar-se ou não em relação a outros sujeitos sociais. Para Voloshinov, toda comunicação verbal, escrita ou falada, é ‘dialógica’, ou seja, falar ou escrever é referir-se àquilo que foi dito/escrito antes, e simultaneamente antecipar respostas potenciais ou imaginadas dos leitores ou ouvintes.

Reforçando o dialogismo de Voloshinov, White diz que para examinar e descrever adequadamente a funcionalidade comunicativa dos recursos léxico-gramaticais, é necessário vê-los como fundamentalmente dialógicos ou interativos. Pelo uso de palavras como talvez, tem sido afirmado que, naturalmente, eu acho, a voz textual age, antes de mais nada, para reconhecer, comprometer-se ou alinhar-se com posições que podem ser alternativas àquilo que está sendo dito no texto. É a taxonomia que oferece meios para evidenciar como as vozes textuais se engajam com vozes alternativas e ativamente representam o contexto comunicativo como caracterizada pela diversidade heteroglóssica.

Em termos amplos, o autor divide os enunciados em dois grupos: heteroglóssicos ou dialogísticos, nos quais há sinal de compromisso com posições alternativas e também há a possibilidade de negociação dos significados, e monoglóssicos, afirmações não-dialogizadas que não possibilitam posições alternativas (bare assertions), estes últimos bastante encontradiços no texto do horóscopo.

Análise

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(a) A estrutura genérico-esquemática

* As CCs são tradicionalmente consideradas como constituídas por duas partes: a chamada if-clause ou oração subordinada adverbial condicional, e a oração principal. Em lógica, a proposição correspondente à oração subordinada é chamada prótase e à oração principal, apódose.

Portanto, de início, o horóscopo foi analisado como gênero, quando distinguimos os estágios que o compõem, bem como suas finalidades, conforme Martin.

Horóscopo (1)

You want to campaign– everyone else does. Don’t. Competitors soon become their own worst enemies and you won’t have to lift a finger.

(San Francisco Chronicle, 02-03-06, Áries)

Quadro 6 – A estrutura genérica - horóscopo (1)

Quadro 1 – A estrutura genérica – horóscopo (1)

Nesse horóscopo a prótase antecede a apódose e a CC* é iniciada por um imperativo negativo fazendo, portanto, com que ela seja implícita, pois não é iniciada por ‘se’.

Horóscopo (2)

Today is a 7. If you can’t figure out what a stubborn person is talking about, get a friend to intervene. Maybe you need a translator.

(Chicago Tribune, 08-02-06, Leão)

Quadro 7 – A estrutura genérica - horóscopo (2)

Quadro 2 – A estrutura genérica – horóscopo (2)

Em (2), a prótase, anteposta, é introduzida pela conjunção explícita ‘se’.

Horóscopo (3)

Jupiter’s mandate for the year is to build, buy or refurbish your dream house. Saturn sitting solemnly on your sign virtually demands that you prioritize. Currently — with so much astroactivity in your one-on-one house — it appears obvious that joint funds are an issue. If a mate is involved, use tact and intuition to calm troubled waters.

 (San Francisco Chronicle, 29-01-06, Leão)

Quadro 8 – A estrutura genérica - horóscopo (3)

Quadro 3 – A estrutura genérica – horóscopo (3)

Também no horóscopo (3) há anteposição de prótase introduzida por ‘se’.

Horóscopo (4)

You will do well professionally today if you stick to your own job. Being versatile and having a great capacity for multitasking is fine but that doesn’t mean you should take on someone else’s work. Do your own job well. 3 stars

 (New York Daily News, 27-01-06, Gêmeos)

Quadro 9 – A estrutura genérica - horóscopo (4)

Quadro 4 – A estrutura genérica – horóscopo (4)

Em (4), diferentemente dos exemplos anteriores, a apódose antecede a prótase, antecipando ao leitor uma conseqüência positiva caso o conteúdo da prótase se realize. Nesse caso a CC é introduzida por ‘se’.

Horóscopo (5)

At the banquet of life, the food is terrific and the portions are ample. So, when someone tries to fight you for crumbs on the floor, it’s best to be big about it and let him win.

 (Los Angeles Times, 31-01-06, Capricórnio)

Quadro 10 – A estrutura genérica - horóscopo (5)

 Quadro 5 – A estrutura genérica – horóscopo (5)

Nesse horóscopo a prótase antecede a apódose e a CC não é explítcita. Apesar de a prótase ser introduzida por um conectivo, trata-se de ‘quando’ e não do canônico ‘se’.

Horóscopo (6)

Accomplishment will come easy as long as you are honest about what you can and can’t do. Bringing in the help of someone who can take care of the things you can’t will show how efficient, complimentary and in control you can be. 3 stars

 (New York Daily News, 15-02-06, Virgem)

Quadro 11 – A estrutura genérica - horóscopo (6)

Quadro 6 – A estrutura genérica – horóscopo (6)

Em (6) aparecem duas CCs, ou seja, duas apódoses e duas prótases. No primeiro caso, a prótase é introduzida por conectivo diferente de ‘se’, as long as, que é equivalente a ‘contanto que’, ou a ‘se’, no caso, pois se houver honestidade o conteúdo da apódose poderá realizar-se, e é posposta. Já no segundo, ela é posposta e não é introduzida por ‘se’, mas por gerúndio.

Horóscopo (7)

Today is an 8. It’s becoming easier for you to get your message across. If you need it, however, request assistance from those who do this for a living.

 (Chicago Tribune, 06-02-06, Leão)

Quadro 12 – A estrutura genérica - horóscopo (7)

Quadro 7 – A estrutura genérica – horóscopo (7)

No horóscopo (7), mais uma vez, a prótase é anteposta e introduzida por ‘se’.

Horóscopo (8)

Neighbors and friends of friends are sources for employment. Be specific about which jobs you are willing to do and which ones you are not willing to do. Otherwise, someone tries to get you to do his dirty work.

(Los Angeles Times, 22-02-06, Gêmeos)

Quadro 13 – A estrutura genérica - horóscopo (8)

 Quadro 8 – A estrutura genérica – horóscopo (8)

Nesse caso, a prótase é anteposta e a CC é introduzida pelo conectivo otherwise, ‘caso contrário’, ou ‘se não’.

Horóscopo (9)

Relationships have an arc. The start is interesting, exciting and new. Unless the fire is fed with constant fodder, there is a cooling off. This period is appropriate and healthy and can be quite enjoyable if you accept it.

(Los Angeles Times, 01-03-06, Touro)

Quadro 14 – A estrutura genérica - horóscopo (9)

Quadro 9 – A estrutura genérica – horóscopo (9)

Assim como em (6), esse horóscopo também apresenta duas CCs, sendo que a primeira tem prótase anteposta introduzida por unless (‘se não’) e a segunda tem prótase posposta iniciada por ‘se’.

Horóscopo (10)

The less risk, the better. Don’t let anyone know what your plans are — today is about taking others by surprise. Brainstorming may result in discovering a gimmick that will be marketable. You are on the right track. 3 stars

 (New York Daily News, 21-02-06, Escorpião)

Quadro 15 – A estrutura genérica - horóscopo (10)

 Quadro 10 – A estrutura genérica – horóscopo (10)

Mais uma vez, no horóscopo (10) aparecem duas CCs. Nesse caso, a primeira tem prótase anteposta introduzida por uma estrutura comparativa; a segunda, também com prótase anteposta, é introduzida por um gerúndio.

Horóscopo (11)

Be careful how you handle friends and family today. You may give the wrong impression if you are too friendly or not friendly enough. You will walk a fine line so maintain balance and you will probably end up pleasing everyone. 5 stars

 (New York Daily News, 26-02-06, Libra)

Quadro 16 – A estrutura genérica - horóscopo (11)

Quadro 11 – A estrutura genérica – horóscopo (11)

O décimo-primeiro horóscopo traz duas CCs. A primeira tem prótase posposta, introduzida por ‘se’ e a segunda, proposta, é introduzida por imperativo.

(b) A função interpessoal

hubble_Pluto

Em seguida, o horóscopo foi analisado quanto à função interpessoal. Seguindo a proposta de Fuertes-Olivera, buscamos identificar os seguintes elementos: hedge (talvez, possível, apenas), enfatizador e marcadores pessoais.

Horóscopo (1)

You want to campaign– everyone else does. Don’t. Competitors soon become their own worst enemies and you won’t have to lift a finger.

(San Francisco Chronicle, 02-03-06, Áries)

Quadro 17 – A função interpessoal – horóscopo (1)

Quadro 12 – A função interpessoal – horóscopo (1)

Aqui, soon é um enfatizador, enquanto you é um marcador pessoal.

Horóscopo (2)

Today is a 7. If you can’t figure out what a stubborn person is talking about, get a friend to intervene. Maybe you need a translator.

 (Chicago Tribune, 08-02-06, Leão)

Quadro 18 – A função interpessoal – horóscopo (2)

Quadro 13 – A função interpessoal – horóscopo (2)

Em (2), há a ocorrência de marcador pessoal (you) e de hedge (maybe).

Horóscopo (3)

Jupiter’s mandate for the year is to build, buy or refurbish your dream house. Saturn sitting solemnly on your sign virtually demands that you prioritize. Currently — with so much astroactivity in your one-on-one house — it appears obvious that joint funds are an issue. If a mate is involved, use tact and intuition to calm troubled waters.

(San Francisco Chronicle, 29-01-06, Leão)

Quadro 19– A função interpessoal – horóscopo (3)

Quadro 14– A função interpessoal – horóscopo (3)

Também no horóscopo (3) há ocorrência de marcadores pessoais, incluindo não somente you, mas you implícito em imperativo e também your.

Horóscopo (4)

You will do well professionally today if you stick to your own job. Being versatile and having a great capacity for multitasking is fine but that doesn’t mean you should take on someone else’s work. Do your own job well. 3 stars

 (New York Daily News, 27-01-06, Gêmeos)

Quadro 20 – A função interpessoal – horóscopo (4)

Quadro 15 – A função interpessoal – horóscopo (4)

Em (4), o marcador pessoal you é seguido pelo enfatizador will na apódose e reaparece também posteriormente, assim como your own e o imperativo.

Horóscopo (5)

At the banquet of life, the food is terrific and the portions are ample. So, when someone tries to fight you for crumbs on the floor, it’s best to be big about it and let him win.

 (Los Angeles Times, 31-01-06, Capricórnio)

Quadro 21– A função interpessoal – horóscopo (5)

Quadro 16– A função interpessoal – horóscopo (5)

Nesse horóscopo encontramos ocorrências do marcador pessoal you e de um enfatizador it’s best.

Horóscopo (6)

Accomplishment will come easy as long as you are honest about what you can and can’t do. Bringing in the help of someone who can take care of the things you can’t will show how efficient, complimentary and in control you can be. 3 stars

 (New York Daily News, 15-02-06, Virgem)

Quadro 22 – A função interpessoal – horóscopo (6)

Quadro 17 – A função interpessoal – horóscopo (6)

Em (6) observamos a ocorrência tanto de marcador pessoal (you) quanto de hedge (can e can’t) e enfatizador (will).

Horóscopo (7)

Today is an 8. It’s becoming easier for you to get your message across. If you need it, however, request assistance from those who do this for a living.

 (Chicago Tribune, 06-02-06, Leão)

Quadro 23 – A função interpessoal – horóscopo (7)

Quadro 18 – A função interpessoal – horóscopo (7)

No horóscopo (7) verificamos que há os marcadores pessoais you e your.

Horóscopo (8)

Neighbors and friends of friends are sources for employment. Be specific about which jobs you are willing to do and which ones you are not willing to do. Otherwise, someone tries to get you to do his dirty work.

 (Los Angeles Times, 22-02-06, Gêmeos)

Quadro 24 – A função interpessoal – horóscopo (8)

 Quadro 19 – A função interpessoal – horóscopo (8)

Nesse caso encontramos apenas marcadores pessoais: imperativo e you.

Horóscopo (9)

Relationships have an arc. The start is interesting, exciting and new. Unless the fire is fed with constant fodder, there is a cooling off. This period is appropriate and healthy and can be quite enjoyable if you accept it.

 (Los Angeles Times, 01-03-06, Touro)

Quadro 25– A função interpessoal – horóscopo (9)

 Quadro 20– A função interpessoal – horóscopo (9)

Em (9), os elementos interpessoais presentes são hedge (can) e marcador pessoal (you).

Horóscopo (10)

The less risk, the better. Don’t let anyone know what your plans are — today is about taking others by surprise. Brainstorming may result in discovering a gimmick that will be marketable. You are on the right track. 3 stars

 (New York Daily News, 21-02-06, Escorpião)

Quadro 26 – A função interpessoal – horóscopo (10)

 Quadro 21 – A função interpessoal – horóscopo (10)

A relação de interpessoalidade no horóscopo (10) se dá por marcadores pessoais (imperativo, you e your), hedge (may) e enfatizador (will).

Horóscopo (11)

Be careful how you handle friends and family today. You may give the wrong impression if you are too friendly or not friendly enough. You will walk a fine line so maintain balance and you will probably end up pleasing everyone. 5 stars

 (New York Daily News, 26-02-06, Libra)

Quadro 27– A função interpessoal – horóscopo (11)

Quadro 22– A função interpessoal – horóscopo (11)

No horóscopo (11) há marcadores pessoais (imperativo e you), enfatizador (will) e hedge (may).

(c) O intertexto

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Finalmente, cada horóscopo foi analisado com o intuito de descobrir como se dá a relação intertextual. Em geral, há uma ‘verdade’ que o leitor conhece e traz para o texto do horóscopo – no processo chamado de intertexto – fato que aumenta as probabilidades de ele aceitar o prognóstico contido na mensagem.

Nesta parte, não manteremos sempre os mesmos exemplos analisados em (a) e (b) por acreditarmos que os horóscopos evocam o intertexto por meio de uma vasta gama de elementos que contribuem pra a criação do mundo textual de cada um de seus leitores. Assim, os horóscopos já analisados terão seus números mantidos e, os apresentados pela primeira vez, serão numerados a partir do Horóscopo (12), inclusive.

Horóscopo (3)

Jupiter’s mandate for the year is to build, buy or refurbish your dream house. Saturn sitting solemnly on your sign virtually demands that you prioritize. Currently — with so much astroactivity in your one-on-one house — it appears obvious that joint funds are an issue. If a mate is involved, use tact and intuition to calm troubled waters.

 (San Francisco Chronicle, 29-01-06, Leão)

Quadro 28 – O intertexto - horóscopo (3)

Quadro 23 – O intertexto – horóscopo (3)

Esse horóscopo estabelece o intertexto por meio da utilização de referência aos astros (Júpiter e Saturno) e a astrologia, ao referir-se a atividade astral e a casa astral. Ao aproximar o leitor dos astros, tais referências conferem um certo grau de cientificidade ao texto, tornando-o mais crível para o leitor que se interessa por ou acredita em astrologia.

Horóscopo (5)

At the banquet of life, the food is terrific and the portions are ample. So, when someone tries to fight you for crumbs on the floor, it’s best to be big about it and let him win.

 (Los Angeles Times, 31-01-06, Capricórnio)

Quadro 29 – O intertexto - horóscopo (5)

Quadro 24 – O intertexto – horóscopo (5)

Em (5), a metáfora ‘banquete’ utilizada para referir-se a vida evoca o intertexto de que a vida é abundante, o que é reforçado pela boa comida e fartura. Assim, o leitor privilegia o que importa na vida e não se desgasta por bobagens, o que se depreende das ‘migalhas’ no chão.

Horóscopo (9)

Relationships have an arc. The start is interesting, exciting and new. Unless the fire is fed with constant fodder, there is a cooling off. This period is appropriate and healthy and can be quite enjoyable if you accept it.

 (Los Angeles Times, 01-03-06, Touro)

Quadro 30 – O intertexto - horóscopo (9)

 Quadro 25 – O intertexto – horóscopo (9)

No horóscopo (9), a verdade incontestável de que os relacionamentos são moldados como um arco faz com que o leitor recorra a sua própria experiência sobre o assunto, envolvendo-o no texto.

Horóscopo (12)

The Moon/Pluto conjunction shows a sacrifice carries a steep price. Remember: it’s grueling ordeals that deliver the most lasting rewards.

 (San Francisco Chronicle, 22-02-06, Escorpião)

Quadro 31 – O intertexto - horóscopo (12)

Quadro 26 – O intertexto – horóscopo (12)

No horóscopo (12) a relação intertextual é estabelecida por meio de uma referência aos astros, aproximando o escritor da ciência e, portanto, tornando seus dizeres mais confiáveis.

Horóscopo (13)

The planets help you take your natural optimism to the next level of total commitment to the impossible. On a practical note, do you know where your important documents are? This is a good time to organize.

 (Los Angeles Times, 12-02-06, Aquário)

Quadro 32 – O intertexto - horóscopo (13)

Quadro 27 – O intertexto – horóscopo (13)

Assim como em (3) e (12), também em (13) o intertexto é estabelecido por referência aos astros, evocando o mesmo tipo de intertexto.

Horóscopo (14)

Time is irrelevant to the heart. You may want to revisit a dream you thought was impossible. New pathways are opening, and it is up to you to travel them.

 (Los Angeles Times, 06-02-06, Capricórnio)

Quadro 33 – O intertexto - horóscopo (14)

Quadro 28 – O intertexto – horóscopo (14)

Nesse horóscopo, assim como em (9), a intertextualidade é trazida por uma verdade incontestável.

Horóscopo (15)

Cupid is like St. Nick — after age 10, it takes more imagination to keep it real. You experience something Tuesday or Wednesday that defies your current beliefs. Go with it. Loved ones present you with wonderful gifts this weekend, but they are not the kinds of gifts that are wrapped up in paper and bows.

 (Los Angeles Times, 26-02-06, Áries)

Quadro 34 – O intertexto - horóscopo (15)

Quadro 29 – O intertexto – horóscopo (15)

Nesse horóscopo, a referência feita a Cupido e a um Santo possibilita a intertextualidade.

Horóscopo (16)

All bets are off as long as Uranus is strong (4 weeks). But the Wheel of Fortune Planet works in capricious ways. You could come out ahead.

 (San Franciso Chronicle, 01-03-06, Áries)

Quadro 35 – O intertexto - horóscopo (16)

Quadro 30 – O intertexto – horóscopo (16)

Os elementos intertextuais do horóscopo (16) são sua referência aos astros (Urano) e ao popular jogo ‘Roda da Fortuna’.

Horóscopo (17)

You have your differences, but what it comes down to in the end is: money talks. Who would think that capitalism would promote tolerance?

 (San Francisco Chronicle, 02-02-06, Touro)

Quadro 36 – O intertexto - horóscopo (17)

Quadro 31 – O intertexto – horóscopo (17)

O dito popular presente em (17) é o elemento responsável pela intertextualidade.

Horóscopo (18)

Approval is a double-edged sword. You crave it, but resent feeling so needy. None of this really matters. Ask and you shall receive.

 (San Francisco Chronicle, 06-06-06, Capricórnio)

Quadro 37 – O intertexto - horóscopo (18)

Quadro 32 – O intertexto – horóscopo (18)

Em (18) a expressão ‘faca de dois gumes’ ativa intertextualidade, preparando o leitor para algo que considere bom e para algo que considere ruim.

Horóscopo (19)

Mix business with pleasure if at all possible. Romance is in the stars but avoid people who are already involved with someone else. Travel arrangements will be disrupted or not go according to plan. 3 stars

 (New York Daily News, 05-03-06, Câncer)

Quadro 38 – O intertexto - horóscopo (19)

Quadro 33 – O intertexto – horóscopo (19)

O horóscopo (19) usa um dito popular às avessas como elemento intertextual ao sugerir que negócios e prazer sejam misturados, além de referir-se às estrelas ao dizer que elas antevêem romance.

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Considerações Finais

 Esta pesquisa procurou examinar como se dá a persuasão nos textos do gênero horóscopo a fim de que o texto não só convença o leitor, mas também proteja seu escritor para que este não seja responsabilizado por eventuais falhas de suas previsões.

A análise de 2544 textos de horóscopos apontou 37,06% de ocorrência de CCs, de vários tipos, dos quais 30,75% têm prótase introduzida pelo conectivo ‘se’, explícito, e 69,25% são iniciados de alguma uma outra forma. Tal constatação sugere que os autores preferem não condicionar abertamente seus prognósticos, atitude condizente com sua preocupação em não errar ao fazê-los.

Dentre os que apresentam CCs, 71,15% têm prótase anteposta, ou seja, apresentam condicionais como Temas, mostrando que os escritores acautelam-se antes de fazer seus prognósticos, responsabilizando o leitor pela realização ou não de suas previsões, visto que as prótases como Temas restringem os conteúdos das apódoses.

Além da tematização das CCs, a pesquisa apontou que há a interferência de ‘inferências convidadas’, ou seja, a interpretação que o leitor dá ao texto, com base em seu conhecimento -intertexto-, pode fazer com que uma condição necessária seja interpretada como essencial para a concretização da previsão e seu não cumprimento seja interpretado como indicativo da não-concretização da previsão. De tal forma, o autor dos horóscopos fica protegido de eventuais erros.

Outro fator que auxilia o escritor na tarefa de persuadir o leitor, além do intertexto, é a interpessoalidade, presente em 100% dos textos, que traz elementos como hedge, enfatizador e marcador pessoal, com as respectivas funções de tornar o ponto de vista do escritor aceitável e negociar significado, reforçar a inevitabilidade de acontecimentos futuros, e dirigir o texto pessoalmente a cada um de seus leitores.

Assim, podemos ver que o leitor do horóscopo fica a mercê desse gênero por vários motivos, além, é claro, das razões presentes em sua vida que o fazem procurar esse tipo de apoio.

O horóscopo, como um enquadre, condiciona-o a aceitar a mensagem nele contida sem um exame detido de seu conteúdo. Por outro lado, esse conteúdo está expresso através de estruturas – as CCs – que compõem os estágios desse gênero, que o condicionam por meio de conectivos dissimulados e por meio da prótase antecipada à apódose. Dessa forma, acreditamos que o horóscopo está arquitetado tanto em termos formais, quanto em termos de conteúdo, para proteger o seu autor e para envolver um leitor desprevenido e, em geral, emocionalmente frágil. É interessante notar que a noção de enquadre (frame) age dialeticamente: o texto faz sentido porque é um horóscopo, e leva o leitor a acreditar nele; ao mesmo tempo, o leitor acredita no texto porque está diante de um horóscopo e assim é levado a agir.

O trabalho constatou que, de fato, os textos do gênero horóscopo freqüentemente trazem um tipo de condição e de conseqüência, embora não haja estágios fixos, reforçando a tese de que um gênero não é formado por etapas pré-fixadas e, portanto, privilegiando o papel do leitor no texto.

Pretendemos ter conseguido demonstrar que as condicionais são uma das formas lingüísticas de persuasão e que elas também funcionam como forma de argumentação em textos, fato importante, pois a persuasão facilita a argumentação. Como é do conhecimento da comunidade científica e de educadores em geral, a língua é um instrumento de poder e proporciona “sofisticação” ao discurso. Assim, a argumentação e a persuasão trazem poder àqueles que as dominam. A comunicação de eventos e idéias, portanto, não se dá de forma neutra, visto que há valores sociais que criam uma perspectiva potencial em relação a eles. Assim, a língua toma a forma relacionada às necessidades sociais e pessoais para as quais ela serve, no nosso caso, à persuasão.

Utilizando-se de estruturas condicionais o autor resguarda-se e, ao mesmo tempo, convida o leitor a confiar nele, o que funciona como outro instrumento de persuasão. Entretanto, a contextualização e a confiança no autor/falante não são instrumentos persuasivos exclusivos de textos de horóscopos, ao contrário, são instrumentos encontrados em vários outros gêneros discursivos, tais como os discursos políticos, os discursos de professores, de gerentes e de presidentes de empresas, enfim, são características discursivas de todos aqueles grupos que precisam que outros os atendam e/ ou neles confiem, em diferentes níveis.

O ensino de línguas é uma área que este trabalho também pretende tocar, principalmente em relação a sua abordagem sistêmico-funcional. Quando estudam determinada língua, os alunos aprendem sua forma, suas estruturas, mas não são ensinados a quais funções tais formas podem servir. No nosso caso, especificamente, os alunos aprendem as formas dos diversos tipos de condicionais em inglês, mas não são, ou são raramente, expostos ao uso das condicionais em seu cotidiano como estruturas lingüísticas que os ajudem a exercer as mais variadas funções. Nunca é dito, por exemplo, que as condicionais são estruturas que podem ser usadas com função persuasiva e que podem ser de grande utilidade em textos argumentativos, por exemplo, os quais devem saber escrever a fim de defender seus pontos de vista. Não se pode esquecer, também, que o domínio lingüístico é uma forma de poder e que é um discurso persuasivo o responsável pela manutenção ou pela perda de poder em vários momentos do nosso cotidiano. Esperamos, além disso, que cientes de que a língua exerce importantes funções em seu cotidiano, os alunos sintam-se mais motivados a aprendê-las, estudá-las.

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