A Classificação dos Seres no Lapidário de Alfonso X, o Sábio I

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El Cant de La Sibilla

Carlinda Maria Fischer Mattos

Resumo

O Lapidário é um documento que Alfonso X, rei de Leão e Castela entre 1252 e 1284, manda traduzir do árabe para o castelhano, em 1250, por Hyuda Fy de Mosse al-Cohen Mosca, médico judeu a serviço da corte, com o auxilio do clérigo Garcí Perez.

Na referida obra, apresentam-se 360 pedras, cujas propriedades estão relacionadas aos 360 graus do Zodíaco, trinta pedras para cada um dos 12 signos. Cada uma recebe suas propriedades físicas e suas virtudes operativas das estrelas que formam as constelações.

A maior parte das descrições das pedras traz a indicação de uso para o tratamento de doenças, mas também seu emprego nas mais diversas circunstâncias da vida cotidiana. As receitas combinam, frequentemente, o uso de partes de animais, e um bom número delas emprega também as plantas. Pedras, plantas, animais, seres sutis e astros intervêm continuamente na vida humana.

Dentre todas as possibilidades de estudo que o documento proporciona, optamos pelo modo como os seres são descritos, apreciados e classificados. Nosso objetivo é apreender que teorias presentes no texto explicam sua constituição.

Acerca do Céu

castillo de lorca pb

Castillo de Lorca

O Céu dos Sábios

Abu Yusuf Al-Kindi (800-873), nascido em Kufa, e um dos grandes nomes da Casa da Sabedoria, em Bagdá, escreveu, entre tantos textos (atribuem-lhe cerca de 140 obras, abrangendo os mais diversos domínios), o De radiis. Nessa obra o filósofo fala que tudo no mundo sublunar é marcado pelo poder das estrelas.

Segundo o filósofo, os sábios adquiriram, pela observação, a certeza de que a disposição dos astros celestes, e sobretudo a dos planetas, ordena as coisas do mundo, composto pelos elementos. Eles o fazem por intermédio dos raios que naturalmente emitem, cunhando com sua energia todas as coisas sobre as quais eles recaem.

12. Com efeito, eles (os sábios) olharam para o alto, e perceberam as formas de ser de numerosas estrelas; dentre elas, eles foram particularmente levados ao estudo e ao conhecimento das propriedades dos sete planetas, visto terem observado, ao longo de uma vasta experiência, serem (eles) os principais administradores das coisas deste mundo. Eles adquiriram, pela sensação, a certeza de que a disposição das estrelas ordena o mundo dos elementos, assim como todas as coisas que no mundo são compostas por esses, qualquer que seja o tempo e o lugar em que se encontrem. E isto, a tal ponto, que não há aqui nenhuma substância e nenhum acidente que não seja representado no céu à sua maneira, e isso provém, sem dúvida, dos raios que as estrelas enviam para este mundo.

De radiis

Cada estrela tem sua natureza própria e sua maneira de ser, diferente de todas as demais. Como a esfera onde se encontram se move continuamente, e também os planetas em suas órbitas, os raios de cada um deles banham todas as coisas. Esses raios se mesclam e se combinam, segundo a amplitude de sua difusão, e recaem sobre toda a terra, atingindo-a diferentemente segundo o local de sua incidência. E até na área em que a mesma combinação recai, ela dá origem a diferentes coisas, em função da diversidade da matéria, pré-jazente e passiva, que ela encontra, gerando semelhanças e diferenças:

9. Disso se segue que uma matéria pré-jazente particular recebe pelo movimento uma forma nova particular, segundo seja ela naturalmente mais apta, por sua natureza própria, a receber certa forma. (…). Essa potência – manifestando-se da mesma maneira em um lugar qualquer – produz coisas diferentes, em função da diversidade da matéria encontrada.

De radiis

A matéria é, nessa obra de al-Kindi, um princípio informe e subjacente, passivo, que dá origem aos seres sob o influxo dos raios estelares.

E, posto que o mundo dos elementos é uma imagem, um reflexo do mundo dos astros, todos os corpos por eles compostos e conformados emitem, igualmente, à sua maneira, seus próprios raios. Al-Kindi compara este dado com o fogo, que emite seu calor e o transmite aos corpos, e estes a outros.

Segue-se daí, que cada lugar deste mundo, cada corpo, emite e recebe raios de todos os lados, oriundos dos seres da terra e daqueles do céu, em diferentes intensidades e tipos. Cada corpo é a causa e o efeito de todas as combinações que se produzem, de semelhanças e de diferenças. Alguns corpos são mais receptivos que outros a determinadas influências.

Há, no entanto, em todas as empresas, uma estrela ou um signo que marca definitivamente seu nascimento. E é a partir desse traço fundamental que todas as outras influências se constituem, se combinam, e se determinam.

Apreender a causa de todos os seres e de todos os eventos que ocorrem ao nosso redor é algo impossível para o homem.

Por um lado, há aqueles que são mais aptos a perceber e compreender a natureza e a diversidade dessas causas; por outro, no entanto, há aquelas que se manifestam de maneira mais evidente que outras, e há outras que não se estampam no mundo de forma discernível, nem aos sentidos, nem à razão. As virtudes a que chamamos de ocultas são aquelas que a razão não apreende. Aquele que fosse capaz de observar o conjunto das posições dos astros no céu seria capaz de entender não apenas o presente, mas também o passado e o futuro.

Seguindo a lógica de al-Kindi, a de que todas as coisas estão continuamente transmitindo seus raios, suas influências recíprocas, não deve haver surpresa, portanto, quanto à idéia de que as pedras transmitem suas virtudes aos seres que as trazem consigo, ou que possam agir sobre aqueles que as contemplam. Se essa idéia expressa um pensamento relativamente aceito por seus contemporâneos, se ela repercutiu nas obras de seus sucessores, se ela se difundiu nos meios cultos, se a obra foi traduzida em Castela no século XII, não nos deve causar surpresa que também a encontremos no Lapidário do rei Alfonso, como no exemplo abaixo:

(12.) Da pedra a que chamam de anetatiz. Do décimo segundo grau do signo de Áries, é a pedra a que chamam de anetatiz, que quer dizer pedra sangüínea. É de natureza quente e seca.

(…) aquele que a olha todos os dias de manhã quando se levanta, está seguro de não ter apostemas nos olhos. As duas estrelas, que estão na boca do signo de Áries, uma no setentrião, a outra no meio-dia, têm poder sobre esta pedra, que delas recebe sua virtude; (…).

Alfonso X

Ou ainda entre outras (20, 62, 159, 192, 210, 218, 226, 245, 253, 262, 271):

(15.) Da pedra que atrai o ouro. Do décimo quinto grau do signo de Áries, é a pedra que atrai o ouro. É de natureza quente e seca (…). E ainda tem outra virtude: dá muita alegria ao coração, de forma que aquele que a olha de manhã, passará alegre o dia todo, se não fizerem força para entristecê-lo. A estrela mediana das três que estão no espaço da Curva do Rio, tem poder sobre esta pedra, que dela recebe sua virtude; (…).

Alfonso X

Ainda que sua influência no Lapidário não possa ser afirmada, o fato é que as idéias presentes na obra fazem parte de um repertório bem conhecido – tanto no Oriente quanto no Ocidente medieval. E, efetivamente, o De radiis foi uma das inúmeras obras de astrologia muçulmana que foram traduzidas na Espanha do século XII, por Gerardo de Cremona e por Domingos Gundissalvo, e uma das prováveis fontes cujos excertos entraram na composição do Libro de Astromagía, coletânea de textos mágico-astrológicos realizada na corte de Alfonso X, no século XIII.

D’AGOSTINI, A. Il Grimório del Rey Sábio. In: ALFONSO X. Astromagia: (Ms. Reg. lat. 1283a). Edição e estudo introdutório de Alfonso d’Agostini. Napoli : Liguori, 1992. 7-88p.

gemini

Al-Kindi nos descreve o funcionamento de um mundo vivo, dotado de uma alma – a ‘alma do mundo’, segundo a concepção neoplatônica – e movimentos próprios, onde tudo guarda relação com tudo, num desdobramento contínuo e ligado a séries causais. Estas, em sua imensa variedade, só podem ser percebidas parcialmente pelo ser humano.

Este, sendo um ser particularmente dotado com razão, pode apreender as causas com maior ou menor amplitude e profundidade, dependendo das qualidades com que a própria harmonia natural o dotou. É o único ser que, dentro do mundo, pode interferir na sua ordem, na sua harmonia – com sua sensibilidade, sua capacidade de processar racionalmente as informações percebidas, deduzir as causas e agir sobre elas por intermédio de seu desejo, de sua intenção, de sua imaginação, expressos por pensamentos, palavras e atos, escritos e realizados ritualisticamente.

4. O homem, portanto, por seu ser corretamente proporcionado, se apresenta semelhante ao mundo mesmo. Eis porque dizemos que ele é um pequeno mundo, e que ele recebe como o mundo, o poder de introduzir um movimento apropriado na matéria, graças a sua ação, à condição de ter antes elaborado em sua alma uma imaginação, uma intenção e uma certeza. (…). 5. (…), o espírito imaginativo emite raios, semelhantes àqueles do mundo, e daí provém, consequentemente, seu poder de colocar em movimento por seus próprios raios as coisas exteriores (…).

Al-Kindi

O segredo de obter-se o resultado desejado de forma segura e certeira reside na capacidade que tem o sábio de compreender as causas que determinam os fenômenos, os jogos de influências exercidas pelas estrelas e pelos seres do seu entorno, captar as disposições harmônicas no maior raio de abrangência possível.

Trata-se, pois, de um equilíbrio tão sensível, que mesmo a enunciação de palavras em seu sentido inverso, o fiar a lã no sentido contrário, e atos semelhantes realizados contra a ordem habitual, podem gerar situações insólitas.

Por meio de suas orações, de suas conjurações, de suas invocações, expressas num tom e num momento adequado, segundo as posições estelares mais auspiciosas, carregadas de vontade, o homem sábio altera e reorganiza os acontecimentos. A intenção e a vontade aplicadas à ação acrescentam-lhe algo. Exercem um efeito motor que sublinha uma possibilidade de intervenção na ordem dos eventos.

32. (…) e as palavras produzem também os relâmpagos, as nuvens, as trevas e os outros acidentes concernentes aos elementos. Mas em todos os casos, os raios produzidos pelas palavras, graças a sua propriedade originada da harmonia, dão à coisa uma certa forma ou a privam daquela que teriam (…).

Al-Kindi

E, ainda mais:

16. (…) se elas (as palavras) forem pronunciadas com intenção e solenidade adequadas, nos lugares e nos momentos oportunos, produzirão ou impedirão os movimentos na matéria apropriada, graças aos raios que nascem de sua enunciação e que vão em direção à matéria, passiva por natureza. E assim se produzem os prodígios nos elementos, assim como os movimentos nas coisas individuais, (…) ou ainda o impedimento desse movimento. Da mesma forma, é assim que certos animais são engendrados ou corrompidos, que eles são algumas vezes afastados e, em outras, atraídos, e que se produzem outras coisas do mesmo tipo que parecem surpreendentes aos comuns dos mortais.

Al-Kindi

O mesmo pode ser dito das imagens, dos símbolos, e das figuras que ele traça nos pergaminhos, nas pedras e nos metais, compondo talismãs. E todas essas obras, não supõem a intervenção de espíritos intermediários, como muitos pensam –segundo al-Kindi. Todas elas são realizadas pelo sábio, com o concurso dos eflúvios emanados pelas estrelas e planetas no céu.

E entre as ações que ele pode empreender para dispor os eventos do mundo sublunar, o sacrifício animal é aquela que mais fortemente realiza sua vontade: o animal, também dotado de alma e desejo, aproxima-se do homem e encerra laços poderosos com o mundo em torno de si. A morte natural não altera nada da disposição ordinária que o curso das coisas tem, mas o sacrifício opera um rompimento, uma mudança significativa, tanto mais complexos os elos que ligam o animal ao mundo. *

* O Cristianismo rompe com tal idéia pela introdução da dimensão miraculosa da Eucaristia. Já não se faz necessária a efusão ritual de sangue no altar. Ver a instituição e sentido dessa cerimônia em Mateus 26,17; Coríntios 10, 16-17, por exemplo.

aquario

Embora al-Kindi finalize o De radiis dizendo que “aqui termina a teoria das artes mágicas”, acreditava que tais práticas eram o resultado do uso de uma razão esclarecida, de uma constituição brindada com uma conformação equilibrada, posto tratarem-se de relações de causa e efeito perfeitamente explicáveis. Para o filósofo, são ocultas apenas as relações para as quais não encontramos explicações racionais.

Ainda que a obra diga o que pode ser feito e o porquê, ela não nos diz como, quando, e com o que realizar aquelas operações. O De radiis, no entanto, insere-se num conjunto de outros textos de al-Kindi e, mais, insere-se ainda no conjunto de outras tradições – muitas delas, sim, definidas como esotéricas, e que encontram ressonância nele, até mesmo aquelas que vieram a ser traduzidas na corte do rei Alfonso X, como veremos em seguida.

Embora al-Kindi acredite que aquelas relações que descreve são de causa e efeito perfeitamente explicáveis do ponto de vista racional, ao ser traduzida no Ocidente, a obra foi considerada de cunho mágico, e os princípios ali expostos foram entendidos como contrários aos dogmas da fé cristã e, mesmo, contrárias à ordem que se percebe no mundo.

Que Deus opere no mundo através de todas as potências e sequencia de causas que ele mesmo dispôs, que Ele opere por meio dos planetas, que os astros do céu realizem a Sua vontade num encadeamento contínuo sobre o mundo sublunar, que os homens se debrucem sobre a natureza a fim de estudá-la e utilizá-la como recurso; que empreguem as virtudes presentes em todos os seres e neles infundidas por toda a sequencia de influxos celestes que neles se deposita – tudo isso é bom e agradável ao Senhor. Esses são os princípios que, a partir do século XII, com a grande quantidade de traduções de obras de astronomia e astrologia realizadas, vão orientar o que se convencionou chamar de magia natural – encarada por muitos como algo bom e um recurso que a Providência coloca ao alcance dos homens, mas vista por muitos como algo perigoso, cujas fronteiras com a magia maléfica não ficam muito definidas.

Para bom número de pessoas, contudo, fica claro que: se por meio de encantamentos e sacrifícios, por meio de imagens impressas em pedras, pergaminhos e metais, podemos imprimir algo alheio à potencialidade e destino da própria coisa; que se com o emprego da invocação de entidades que se envolvem nas questões comezinhas da vida alheia, podemos interferir na ordem da natureza, podemos interferir na vontade dos outros seres humanos, então todas essas práticas são ofensivas à lei divina e ao respeito aos seres. Toda uma tradição ancora a certeza de que tais entidades, os demônios, são más, só causam malefícios e induzem a más ações.

O Lapidário não está alheio a essas concepções, e menciona a presença de espíritos que infundem medo, que entram nas operações enganadoras e maléficas (35, 40, 51, 160, 275) – fora o fato de que chama pelo nome ‘demonis’ a epilepsia, doença que ao longo do período medieval foi sempre envolta em uma dubiedade constitutiva: doença sagrada ou doença provocada pelos demônios?

160- Da pedra que tem nome de militaz. Do IX grau do signo de Libra é a pedra a que dizem militaz. (…). É achada na terra da Índia, em minas que ali há sobre a superfície da terra, não em covas nem em outro lugar fundo. (…) Sua natureza é quente e úmida. Sua virtude é tal que fogem diante dela as moscas e todos os maus répteis, E ainda disseram mais os sábios: que se assustam daquele que a traz consigo os diabos, e não lhes faz dano obra de nigromancia nem feitiço algum que lhe façam. A estrela que está na ponta da mão da besta a que chamam de Cantoriz tem poder sobre esta pedra, que dela recebe a força e a virtude; (…).

Alfonso X

Kieckheffer chama a atenção para o fato de que o concurso das entidades sutis era uma prática comum na Antiguidade ocidental, e assim o foi ainda no século IV e além, quando o cristianismo não era hegemônico. Para os pagãos, os demônios eram espíritos neutros, intermediários, vivendo entre os humanos e os deuses, podendo agir benéfica ou maleficamente. Para Marciano Capella, autor neoplatônico do século V, existiam seres intermediários que se manifestavam na magia e na adivinhação. Mas para os cristãos, os demônios eram anjos caídos que agiam sempre para o mal.

Folio del Lapidario (c. 1250) de Alfonso X el Sabio donde aparece la palabra formiga_Ms. h.I.15 de la Biblioteca de El Escorial

Santo Agostinho veria em algumas manifestações surpreendentes as forças da própria natureza das coisas – como a atração que o ímã exerce sobre o ferro, ou o poder que uma planta exerce quando suspensa perto do corpo de um enfermo, ou colocada junto dele. Mas ainda assim, é reticente e receoso acerca da origem desses fenômenos.

Quanto aos demônios, entretanto, ele é taxativo. Diz Santo Agostinho na Cidade de Deus:

XI. 1. Porfírio foi sábio em sua carta a Anebon onde, sob o pretexto de o consultar e o interrogar, ele desmascara e arruína as artes sacrílegas. Ele condena todos os demônios, afirmando que pela falta de sabedoria eles se deixam atrair pelos fumos úmidos e que por essa razão eles residem não no éter, mas no ar, sob a lua e no globo da Lua mesma. Ele não ousa, no entanto, imputar a todos, todas as imposturas, maldades e inépcias que o revoltam a justo título. Ele, como tantos outros, diz que uns são bons, confessando que no conjunto são desprovidos de sabedoria. (…) Ele se pergunta ainda, sem saber o que responder, se os adivinhos e os fazedores de prodígios tiram seu poder das disposições da alma ou de certos espíritos vindos de fora: conjectura ele, acerca das pedras e das ervas das quais essa gente se utiliza para ligar certas pessoas, abrir portas fechadas e operar tais maravilhas semelhantes. Outros pensam, segundo ele, que existe um gênero de seres que são atentos às solicitações: naturezas enganadoras que tomam todas as formas, todos os aspectos, se transformam em deuses, em demônios, em almas de defuntos. (…). Cheios de irreflexão e de orgulho, eles saboreiam os perfumes e se deixam prender pelas bajulações. *

* AGOSTINHO (Santo). Oeuvres de Saint Augustin. La cité de Dieu. Paris: Desclée De Brouwer, 1948-1959. vol. 34, Livre X, cap. XI, 1, 463-465.

A Astrologia, assim como as demais artes divinatórias estava extremamente associada à atividade dos demônios. A partir do século XII, no entanto, com a tradução e introdução de grande aporte muçulmano na ciência, envolvendo a Matemática, a Ótica, a Física, a Medicina, associadas à investigação do céu, a Astrologia e a Astronomia passavam a ganhar espaço próprio e um estatuto diferenciado com respeito às artes mágicas. A fronteira entre Astronomia e Astrologia permaneceu, no entanto, ainda por longo tempo, bastante indefinida.

No Livro III da Summa Contra os Gentios, São Tomás de Aquino (1225-1274) fala extensamente acerca do modo como os astros influem sobre a vida dos homens, bem como acerca das operações mágicas. Concede toda a importância que as estrelas e os planetas exercem no desenrolar dos acontecimentos do plano sublunar, mas delimita o âmbito e a natureza dos poderes que eles operam. Os corpos celestes fazem parte de uma cadeia de causas.

Há uma ordem no universo, disposta pelo Criador, e uma cadeia de operadores – como os planetas e estrelas – que a executa e a mantém. Há um intrincado de relações que Ele põe em ação como instrumentos de sua Vontade. E Sua Vontade não contradiz o plano de Sua Criação. E mesmo Seu plano dá espaço para o que nós, humanos, entendemos por acaso e sorte.

Faz parte da perfeição do plano divino o livre arbítrio do homem, a volição, as escolhas que faz. O influxo dos astros não age fatal e inexoravelmente, porque o plano da matéria é o plano da mudança. Se os astros pudessem determinar todos os acontecimentos, o mundo sublunar seria sempre igual. Se os astros pudessem determinar nossas escolhas, as escolhas de todos os homens submetidos às mesmas configurações astrais seriam iguais entre si.

Os influxos dos astros agem de forma natural e segundo leis constantes – que correspondem à sua natureza, à perfeição de seu movimento circular, à imutabilidade de sua composição. Mas a maneira como os corpos elementares os recebem, varia.

Cada causa age, entretanto, sobre o plano que lhe está afeto. Os influxos dos astros agem sobre o plano dos corpos, e não diretamente sobre a parte espiritual do homem – sua alma, sua vontade, seu intelecto. E mesmo sobre o plano da matéria, os astros não podem cunhá-la com virtudes que lhes são alheias – mas apenas com aquelas que correspondem à sua própria natureza. As substâncias simples e puras, imateriais, chamadas de Virtudes, que agem sobre e por meio dos corpos celestes, são inteligências intermediárias entre as causas universais e os efeitos que provocam no mundo sublunar. Têm a seu cargo o movimento dos astros e, no plano inferior, os fenômenos naturais, as regularidades da natureza.

As Virtudes e os influxos celestes, no entanto, só podem agir indiretamente quanto às escolhas do homem – afetando sua compleição, ou agindo sobre a sede de suas paixões, por exemplo. Nesse caso, o coração, sede física das emoções, gera um movimento local que se distribui por todo o corpo. São Tomás cita, como termo de comparação, o caso da fascinação: um movimento que afeta o olho porque introduz nele algo que lhe é exterior, que é comunicado ao coração, mobilizando as pessoas que são impressionáveis.

O homem pode ganhar, no entanto, pela ação da Providência, força e eficácia para realizar o que escolhe, seja por intermédio dos anjos ou dos astros.

Seres inteligentes imateriais, os anjos são as entidades mais próximas das causas particulares e do ser humano, podendo agir sobre o intelecto do homem, inspirando-lhe – tão somente. Podem, além disso, agir sobre as causas cujo manejo está ao alcance de sua potência. Demônios são anjos caídos, que mantêm a potência com que foram criados, mas que agem em benefício próprio e particular – e não em vista do fim comum, o supremo Bem. E é nesse âmbito que ocorrem as operações propriamente mágicas. São Tomás cita, por exemplo, fenômenos como o tornar-se invisível, abrir um ferrolho sem tocá-lo, fazer uma estátua falar ou se mover, gerar rãs (embora estas também possam ser geradas sem artifício algum): tudo isso são operações realizadas com o concurso de criaturas inteligentes sutis, que têm poder sobre a matéria, e que agem de acordo com as possibilidades que a Providência põe à sua disposição. *

* Os anjos, por seu intelecto muito mais perfeito do que o nosso, podem prever certos acontecimentos futuros que dependem de leis físicas, que eles conhecem. Podem mesmo antecipar acontecimentos que dependem de leis naturais, como os fenômenos meteorológicos, mortes, destruições de cidades, fome, epidemias, etc. Mas eles não são oniscientes; apenas possuem um entendimento mais penetrante acerca das coisas, mas não podem prever um acontecimento imprevisível. Eles só podem conhecer os fatos futuros, desde que as causas que o determinam existam e não possam ser impedidas por outras, ou provocadas por ações de vontades livres. São Tomás afirma que só por uma revelação especial de Deus, os anjos podem conhecer o futuro que dependa de uma vontade livre ou de uma causa fortuita (causa que não depende de leis naturais). O anjo não sabe o que está no pensamento do homem, nem em sua vontade, a menos que o homem o manifeste por seus efeitos ou sinais externos. Cf. AQUINO. Suma Teológica,. 2° ed. Trad. Alexandre Corrêa. Porto Alegre/Caxias do Sul: EST/UCS/ Livraria Sulina, 1980. vol 2. Questão LVII, art. I- LVIII, art. III.

sabio2

São Tomás contesta a idéia de que a inscrição de palavras ou figuras sobre pedras ou pergaminhos, ou invocações e sacrifícios, possam atrair qualquer poder sobrenatural dos astros, quer porque a ação que eles exercem está subordinada às suas próprias virtudes, como pelo fato de que as inscrições mesmas não acrescentam nada à matéria que ela já não possua potencialmente, e o que fazem é, no limite, comunicar uma ordem ou um desejo a seres inteligentes que as recebem e agem no âmbito próprio de suas atribuições.

São Tomás, portanto, confere aos astros um lugar seguro na ordem de causas que agem sobre o mundo sublunar, e entende que a investigação acerca dos recursos que a Providência dispõe para o bem humano é uma atividade benéfica, distinguindo-a daquelas que são perpetradas pelos demônios em operações maléficas e vãs. Quando Deus ordena que suas potências parem o curso do Sol no céu, dividam as águas, ou multipliquem as moscas, essas potências agem segundo o impulso divino que as move – dentro do plano da Criação. Embora sejam fenômenos excepcionais, não são contra a natureza – porque se o fossem, isso significaria que Deus age contra sua própria disposição, mudando de idéia e alterando sua Providência, o que não seria possível. A essas operações divinas e que nos surpreendem chamamos de milagres, e não de magia.

Contudo, as idéias de al-Kindi foram muito difundidas no mundo muçulmano – e também no Ocidente -, assim como as de muitos outros estudiosos que acreditavam que os astros eram animados por entidades que podiam intervir na vida humana e nos eventos que nos concernem.

Ainda que a Astrologia estivesse muito vinculada à Astronomia*, a primeira não se constitui uma prática homogênea na cultura muçulmana: havia vários graus de aceitação por parte da população como um todo e, sobretudo, entre os estudiosos, e particularmente entre os médicos: havia a tradição de que o prático deveria sempre observar os dias críticos, determinados por certos aspectos celestes que desaconselhavam o uso de sangrias e de certos laxantes, por exemplo.

* “No mundo islâmico medieval, não mais que no mundo ocidental, não existe verdadeira distinção entre ‘astronomia’ e ‘astrologia’. Os termos utilizados permanecem duais, e a ciência dos astros, ilm ahkam al-nujum, como tenta definir o pensador al-Farabi no século XI, é ao mesmo tempo uma ciência racional, fundada sobre a observação dos astros (…), e uma ciência de predições e julgamentos a partir dos astros.” CAIOZZO, Ana. Images du ciel d’Orient au Moyen Âge. Paris: Presses de l’Université deParis-Sorbonne, 2003. p. 61.

Havia aqueles que, como Avicena, se opunham à possibilidade de serem realizados ajuizamentos preditivos com base nas disposições estelares e que, quanto à prática médica, acreditavam que o prático não deveria se preocupar com as causas primeiras acerca das quais não pode agir, mas apenas com as causas mais próximas e objetivamente dadas. *

* Em 2007, foi publicada a tradução integral da obra de Avicena, Réfutation de l’astrologie, Paris: Éditions Albouraq, do árabe para o francês, realizada pelo prof. Yahya MICHOT.

Outros, no entanto, como os Ihwan al-Safa, ou Irmãos da Pureza, ismaelitas, grupo dissidente dos imamitas, elaboraram todo um edifício conceitual com base na Astrologia, associado a práticas ritualísticas bastante complexas, como suporte para sua posição político-religiosa.

Ali ibn Talib, quarto califa (656-661) depois da morte de Maomé (632), casado com a filha deste, Fátima, fora assassinado, e seu filho Hasan alijado do trono, em meio a uma disputa acérrima pelo poder. Seus partidários organizaram-se em núcleos secretos, espalhando-se pelo atual Iraque, pelo sudeste do Irã até o Kurdistão e a Síria.

Acreditavam que os sucessores de Maomé haviam recebido, por intermédio de Ali e seus descendentes, uma alma especial e um conhecimento oculto acerca do Alcorão, chegando a ser mais que humanos. Um deles voltaria, e daí a importância dos cálculos dos ciclos cósmicos, para prever a instauração do reino da Justiça.

A leitura que fazem dos livros sagrados do Islã apóia-se nas doutrinas neoplatônicas, pitagóricas, nos conhecimentos esotéricos disseminados sob o nome de Hermes Trismegisto, nas doutrinas dos sabeístas de Harran, na astrologia caldaica, entre outras, a fim de demonstrar, dentro do panorama do caminho de retorno à Origem, quem é o Imã sagrado, quem são os justos, que práticas os aproximam do conhecimento da verdade, do ser real e transcendente.

Seguindo os filósofos helenísticos, os Irmãos da Pureza explicavam o mundo como emanação do Uno, o Deus do Alcorão. Diziam que assim como o sol distribui calor e vida prodigamente, tanto mais o faz Deus, luz das luzes, vertendo seu influxo, derramando-se, sobre um segundo nível da realidade a que chamavam de Inteligência Universal. Esta, contemplando o Uno, conhece-se a si mesma e, plena de conhecimento, derrama-se num terceiro nível, o da Alma do Mundo, e esta, uma vez mais, num outro, o da Matéria Primeira. Eis o Mundo dos Espíritos, vertido num golpe, fora do tempo.

Dando origem ao tempo, no entanto, a Alma do Mundo desposa a Matéria Primeira e, num processo descendente, forma o Corpo do Mundo. Dividindo-se em múltiplas potências, dá-lhes forma e movimento: uma sucessão de nove esferas celestes concêntricas, dotadas de astros a girar, e duas esferas sublunares, uma correspondendo ao ar e a outra à terra, formando na última destas, o centro do planeta. *

* A esfera do ar se subdivide em três: um mais quente, aquecido pelo movimento dos astros acima, e semelhante ao fogo; um mediano; um inferior, que interpenetra a terra, possibilitando a vida no seu interior. A esfera da terra se subdivide em água e terra. Cf. Ibidem, p. 153.

del astrolabio

Como, entretanto, o fim de todo o processo da emanação é o retorno ao Uno, o movimento de ascensão é marcado pelo surgimento, na ordem de perfeição, dos minerais, dos vegetais, dos animais e do homem, e este caminha, por fim, em direção à reintegração pela iluminação da consciência, pela purificação do corpo, pelo desvelamento da alma.

Os Irmãos da Pureza tecem críticas acérrimas a filósofos que, como al-Kindi, não buscam a filosofia verdadeira, a que salva a alma.

A Natureza é a parte inferior da Alma do Mundo; ela formata os corpos segundo os arquétipos que traz em si, fecundando a matéria; imprime movimento aos elementos; dá andamento a todos os processos de transformação do mundo sublunar; mantém a vida permanentemente, infundindo e fazendo circular suas faculdades, até a última parcela da Terra. A Alma do Mundo, enquanto Natureza, é um grande organismo vivo, gestando todos os seres no seu interior. Ela divide-se em múltiplas faculdades, às quais chamam também de almas.

(…) ela (a Alma do Mundo), se acha desde então diferenciada em inumeráveis faculdades, ou almas, destinadas a reger todas as partes do mundo material, distribuídas no espaço das esferas celestes e estágios dos céus, da mesma forma que nos quatro elementos, entre os animais e vegetais; (estão) encarregadas de salvaguardar a criação (II, 472), e (circulam) nos corpos universais e particulares (…) como raios que descem até o centro da terra.

Todas as almas, enquanto faculdades dessa Alma, formam um único todo. Elas se diferenciam por suas funções, segundo os gêneros, as espécies, e os seres em particular, incluindo as almas dos planetas, assim como a de todos os anjos, djinns e demônios que não podemos ver. Estamos todos interligados, exercendo cada qual seu papel, sua função nesse Corpo do Mundo, animados por uma mesma Alma Universal.

O mundo dos Irmãos da Pureza, como dissemos antes, é composto por 11 esferas concêntricas: 9 celestes, 2 sublunares tendo a Terra como centro, imóvel, formada pelo elemento de mesmo nome e, acima dela, a dos demais elementos. No seu interior não há vazios. A nona esfera, exterior e abarcando tudo, é o Trono de Deus, e ocupada por diversos anjos, que operam a serviço da Alma. A oitava esfera é a das estrelas fixas, que formam as figuras e os signos: é por meio delas que a Alma infunde seus influxos; é o lugar pelo qual descem as almas, e onde habitam as Falanges Divinas. Depois, as sete esferas de éter, incorruptíveis, pelas quais passeiam os planetas, que são, em si mesmos, corpos animados por almas e que contam com o auxílio de anjos. O mundo sublunar, mutável, todo ele formado pelos quatro elementos, sujeitos à geração e corrupção, é também habitado por seres sutis, ou seja, gênios e demônios.

É por meio das esferas que a Alma mantém o mundo: elas comunicam os movimentos umas às outras. A nona esfera coloca em movimento a oitava esfera que, por sua vez, move todas as demais. Os planetas são como os órgãos no corpo humano, cada qual com uma potencialidade própria para agir sobre o mundo sublunar. E tal analogia não é meramente ilustrativa, porque há, efetivamente, uma correspondência entre os planetas e os órgãos do corpo humano, como há também com os dos animais, tipos de plantas e pedras.

A chave dessas correspondências é um conhecimento oculto, em que valem as semelhanças formais que observamos empiricamente, mas que as ultrapassa. Elas fazem parte de uma tradição, na qual a revelação e a inspiração desempenham papel fundamental. É com tal conhecimento que as cerimônias, os rituais de consagração, a confecção dos talismãs e os sacrifícios são elaborados e codificados – práticas que elevam o homem acima das situações prosaicas cotidianas, ressaltando-lhe sua nobreza. É unicamente por ele que animais, plantas e minerais comporão o corpo reintegrado, a volta ao Uno. É unicamente pela associação ao seu destino final que os demais seres poderão ser salvos do aniquilamento pós-morte.

O sacrifício animal é uma das práticas cerimoniais-chave na elevação da condição de um ser, assim como o é para uma pedra vir a compor um talismã:

(…) em toda a hierarquia animal, “aquele que tem o privilégio da vida eterna é aquele que é transportado da forma humana à forma angelical, do sublunar ao supralunar” (IV, 208); no entanto, somente uma alma humana é digna disso. (Mas) as almas dos animais que têm uma bela forma e que se prosternam diante das almas humanas ‘poderão unir-se a elas em sua superioridade’; essas almas (a dos animais domésticos), que servem o homem e se fadigam a lhe obedecer, são, com efeito, as mais dignas de passar, um dia, para o nível da humanidade, em particular aqueles que são vítimas oferecidas em sacrifício.

Decorre dessa distinção que, na classificação estabelecida pelos Irmãos da Pureza, animais domésticos e selvagens sejam separados como categorias distintas, como vimos antes.

E ainda, quanto às pedras, elas são vistas como seres dotados de vida – um tipo de vida. Segundo Yves Marquet, para os Irmãos da Pureza os minerais são dotados de alguns traços de caráter. Como a Natureza não as dota com virtudes ociosas, das quais não têm necessidade, as pedras têm traços de caráter tênues. Para ilustrar a vida dos minerais,

Os Ihwan evocam ‘a atração semelhante ao amor que experimenta o ferro pela pedra magnética’ (II, 126). Entre a natureza desses dois corpos, (…) existe uma familiaridade (ulfa) e um desejo (iatyaq); há entre eles uma correspondência e uma semelhança de natureza como a que existe entre os amantes. (…) O mesmo ocorre com os outros minerais; existe também uma familiaridade entre o ouro e o diamante (…); as pedras minerais atraem a carne, os cabelos, as unhas, a argila; e isso pode existir com não importa qual pedra e outra coisa. Em suma, todos os minerais possuem não somente propriedades múltiplas, mas também naturezas diversas; umas opostas e antipáticas, outras análogas e harmonizadoras; eles exercem influências recíprocas: atração, repulsão, antipatia (…). Os Ihwan declaram que os minerais têm, tal como os vegetais e os animais, uma sensibilidade, mas dificilmente discernível: desejo, amor, raiva e hostilidade.

A citação, um tanto longa, nos fala de forma ímpar de como é entendida a natureza das pedras, tema principal de nosso estudo. Elas são entendidas, por essa linha de abordagem, como dotadas de alma, ainda que tenham uma vida mínima.

Como tudo na Natureza, contudo, elas possuem virtudes, e uma vez incorporadas ao ofício, a todas as circunstâncias empreendidas para a elevação da alma humana, para a conexão com os níveis superiores, elas ganham novo status. Ao serem empregadas na confecção de talismãs e amuletos, ao serem utilizadas em cerimônias ritualísticas, elas são retiradas de um nível banal para fazer parte de uma celebração.

Tal celebração, tais sacrifícios devem necessariamente entrar num programa, num conjunto que lhes confere sentido, no qual os astros e as estrelas são os canais operadores das energias necessárias à objetivação dos fins.

Como dizíamos antes, os Irmãos da Pureza entendem que os astros regem todas as coisas e são como os órgãos de um corpo, mas de um Corpo Universal, alcançando até a mínima parte que o compõe. Citamos alguns exemplos, a seguir.

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O Sol é como o coração dentro do corpo: da mesma forma que o órgão difunde calor e energia a todo o corpo, também o astro faz isso. Ele infunde vida nos corpos, e é a porta de entrada para a alma. Relacionam-se com ele o leão, as plantas odoríferas, belas, carregadas de frutas; entre os metais, o ouro e o rubi; cores amarelo, amarelo-avermelhadas, laranja; a seda.

Saturno confere estabilidade aos seres, mantém a forma na matéria; corresponde ao baço, e vela pela distribuição da bile negra no organismo. É ela que dá consistência aos ossos e tendões, e coagula os humores. Correspondem-lhe os animais feios, escuros, os animais selvagens; entre os minerais, o chumbo; tudo o que é negro e que cheira mal.

A Lua é a porta de passagem dos influxos que descem das esferas superiores para as inferiores, e vice-versa. Realiza “a respiração dos seres dos dois mundos, tanto a que vem do mundo das esferas para o mundo de geração e corrupção, no início do mês, tanto a que vai deste para aquele lá, no fim do mês. A lua cheia é como o pulmão quando se dilata, e a lua crescente, quando ele se contrai”. É por ela que passam os anjos, que nos trazem inspiração, bênçãos, premonições, etc. No corpo humano, é o pulmão; rege a prata, o sal, a neve, o gelo, as pedras brancas, os animais que nascem na água, e aqueles cujo ciclo de vida é muito curto, como o dos insetos; rege também os animais que se transformam, como as larvas das borboletas e os bichos da seda, cujo ciclo acompanha as fases da lua. Cor branca. Reflete as situações que mudam bruscamente.

Efetivamente, cada astro emite seus eflúvios sobre todo o planeta, que é um corpo vivo regido por uma alma, a Alma do Mundo. Tudo o que acontece nesse mundo inferior guarda relação com o movimento dos astros – e estes são dotados de alma, de vida, e são auxiliados em todas as suas operações por falanges angelicais. Toda a doutrina dos Irmãos da Pureza reside no conhecimento dessas dinâmicas, da atração da infinidade desses seres sutis, portadores de bons ou maus fluídos, da possibilidade de escapar da condição de passividade diante das forças celestes para poder agir positivamente sobre a ordem dos acontecimentos.

Naturalmente, essa breve exposição não dá conta de toda a riqueza de detalhes da doutrina astrológica, tão vasta e complexa, dos Irmãos da Pureza. Há toda uma gama de informações que não nos cabe aqui acrescentar: regências, decanos, aspectos, horas do dia, climas, os ciclos governados pelos astros e pelos signos, entre outros tantos temas.

Nosso intuito, entretanto, é o de mostrar uma outra visão da Astrologia, sua lógica interna, além da de al-Kindi, a fim de podermos contextualizar a visão astrológica presente no Lapidário.

As doutrinas dos Irmãos da Pureza, suas fórmulas para compor talismãs, cerimônias propiciatórias, sacrifícios, encantamentos, filtros, foram vertidos em boa parte na obra Ghâyat al-hakim – erroneamente atribuída ao madrilenho Abû-l-Qâsim Maslama al-Maÿritî, (séc. XI), mas provavelmente de autoria de um discípulo seu. Esta obra foi traduzida para o castelhano na corte de Alfonso X, em 1256, com o nome de Picatrix, seguida de uma tradução para o latim, realizada pouco depois.

Pouco do Picatrix, no entanto, pode ser encontrado no primeiro tratado do Lapidário com que estamos trabalhando, mas percebe-se sua presença nos outros tratados que compõem o conjunto do volume original, e muito dele no Libro de Astromagia, também traduzido na corte do rei sábio.

O primeiro tratado do Lapidário não nos dá ensinamento extensivo e detalhado sobre como se constitui o mundo; ele não oferece fórmulas para a composição de talismãs, não dá nenhuma indicação de procedimentos rituais.

Embora haja correspondência entre signos e planetas, tal como entendida pelos Irmãos da Pureza, e tal como aparece no primeiro Lapidário – Áries e Escorpião correspondem a Marte; Touro e Libra a Vênus; Gêmeos e Virgem a Mercúrio; Câncer a Lua; Leão ao Sol; Sagitário e Peixes a Júpiter; Capricórnio e Aquário a Saturno – a relação com animais, plantas, pedras e cores, num e noutro, são diferentes, com algumas exceções.

O primeiro tratado do Lapidário, contudo, nos oferece importantes e extensas informações sobre os usos das pedras, tanto para a vida diária e seu uso medicinal, mas, sobretudo, àqueles que precisam conhecer suas características e virtudes mágicas. As informações que traz permitem seu emprego no uso medicinal, mas também na confecção de peças talismânicas – aquelas que fazem apelo a cerimônias, invocações, encantamentos e orações, visando captar a influência dos astros e dos seres sutis.

Ele nos diz que virtudes as pedras têm – para o que podem ser usadas, onde são encontradas, que características físicas possuem. O primeiro tratado do Lapidário nos informa de que estrela cada pedra ganha tais virtudes, em que grau ela se localiza e no qual a pedra mesma as realiza mais fortemente. Ele não identifica a influência dos planetas, estrelas e signos com base nas cores, formatos ou aspectos físicos, porque há pedras de todas as cores, tamanhos, formas e características físicas semelhantes, distribuídas por todos os graus. Cada pedra é vista segundo a conexão singular que ela guarda com um agente formador determinado – a estrela que está na pata dianteira esquerda de Caytoz, por exemplo.

Elas são reunidas num mesmo signo conforme sejam quentes e secas, quentes e úmidas, frias e secas, frias e úmidas, sendo dotadas, por conta das diferentes intensidades, de diferentes virtudes naturais. Mas sendo quentes e secas, podem fazer parte do signo de Áries, ou de Leão, ou de Sagitário, sem que nenhuma característica exterior seja indicativa de qualquer das três atribuições; e o mesmo pode ser dito das naturezas quentes e úmidas, que podem corresponder aos signos de Gêmeos, Libra ou Aquário; as frias e secas, aos signos de Touro, Virgem ou Capricórnio; as frias e úmidas, aos signos de Câncer, Escorpião ou Peixes.

Dizer que a pedra é cunhada por uma estrela que encontra-se em Áries e que, em decorrência disso, possui as qualidades elementares ‘quente’ e ‘seca’, diz-nos mais acerca da localização da estrela em determinada constelação, do que aquilo que faz uma pedra ser jaspe. É da estrela que a pedra ganha, em última instância, a qualidade de ser quente e seca, e ainda, todas as outras qualidades naturais e ocultas, com as quais aquela não têm relação causal aparente.

Então, se nas doutrinas astrológicas correntes as pedras expressam as assinaturas das estrelas e planetas pelas características exteriores, identificadas segundo a técnica de observação semelhante à da fisiognomonia, as regras de atribuição estão ocultas no primeiro tratado do Lapidário. A doutrina que as sustenta precisaria ser investigada mais profundamente.

Festugière, ao falar do Liber Hermetis, obra que reúne diversos textos datados dos séculos II a.C. ao II d. C., nos informa que o capítulo 25 traz uma abordagem diferenciada acerca do céu: o catálogo que ele traz chama-se Monomoirai – que significaria “divisões de um grau” – e que alude aos astros-deuses, estrelas, cada um presidindo um grau do círculo zodiacal. O texto, que se supõe do século II a.C. – ou ainda anterior -, tem por base uma antiga concepção egípcia segundo a qual não há uma única parcela do tempo que não seja regida por um ser sagrado, os chronocrators. Diz-nos o autor que Hiparco teria desenvolvido essa teoria.

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Mas o que nos indica que a estrela na mão direita da personagem que figura na constelação O Homem que Emite Vozes possa ter relação com determinada pedra?

O Lapidário é econômico em sua explicação acerca das concepções astrológicas que balizam as atribuições, bem como acerca do modelo de céu de que essas mesmas concepções partem. Mas se Alfonso X manda traduzir um grande número de obras de Astrologia e/ou de Astronomia, as escolhas das obras que foram traduzidas não seguem um fio condutor? Não há uma idéia de céu, uma posição determinada, tomada diante de tantas outras concepções, que orienta esse conjunto?

De qualquer forma, se há um céu a partir do qual as pedras ganham suas virtudes, é nessa medida que precisamos observá-lo, embora este não seja esse nosso objetivo último – e, sim, o entendimento sobre a maneira como as estrelas se relacionam com as pedras do Lapidário de Alfonso X.

Antes de tratarmos da maneira como o primeiro tratado do Lapidário apresenta o céu, assim como a influência dos astros e estrelas, é preciso dizer que o documento com o qual estamos trabalhando insere-se num conjunto de lapidários, formando um único volume na biblioteca do rei; é preciso dizer que ele se insere num conjunto mais amplo de obras de cunho mágico-astrológico, traduzidas na corte de Alfonso X. Ou seja, as informações que ele traz agregam-se a todas as outras trazidas por outras obras que orientam a prática mágica. E dentre elas, o primeiro tratado é a obra que mais extensamente fala sobre o poder das pedras.

O Lapidário é um conjunto, formado por quatro lapidários, destinado a reunir o maior número de conhecimentos possível acerca de pedras para a realização das artes mágico-astrológicas.

Lembramos que entre as obras de Astrologia que Alfonso X manda traduzir, estão: o famoso Tetrabiblos, de Ptolomeu; o Libro de las Cruzes, o Libro cumplido de los judizios de las estrellas, o Libro de las formas y de las ymágenes, o Lapidario, o Picatrix, o Liber Razielis, o Libro de Astromagía.

O Liber Razielis é um compêndio de magia astral judia, em que as invocações dos anjos desempenham um papel primordial na confecção de amuletos, talismãs, fórmulas propiciatórias, filtros de amor. A obra costuma ser atribuída a Eleazar de Worms, ou Eleazar ben Judá ben Kalonymos (1176-1238). Alfonso X o manda traduzir em 1259, provavelmente por Juan d’Aspa.

Mas antes da aparição deste Liber há muito tempo circulavam em certos ambientes cristãos, textos mágicos judaicos que se relacionavam com Raziel. Já no século XII, Pedro Alfonso, judeu convertido e médico de Alfonso VI de Castela (10391109), citava um Secreta secretorum atribuído à inspiração daquele anjo. Também Alberto Magno, no século XIII, mencionava um livro de Raziel. *

* AVILÉS, Alejandro Garcia. Alfonso X y la tradición de la magía astral. In: MARTINEZ; RODRIGUEZ, 1999, op. cit., p 83-103; Idem. Alfonso X y el Liber Razielis: imágenes de la magia astral judía en el scriptorium alfonsí. In: Bulletin of Hispanic Studies. Liverpool: British University Deparment of Hispanic Studies, LXXIV, 21-39, 1997.

Na magia talismânica, o favor dos astros é obtido pelo traçado de imagens mágicas em pedras, pergaminhos virgens e outros objetos; da sua confecção mágica depende a correta escolha dos dias e horas em que os planetas estão melhor posicionados nas figuras do céu, a correta invocação dos anjos intermediários ou a dos planetas – quando se acredita ser possível fazer apelo diretamente a essas entidades tão elevadas – , o uso de suportes físicos que guardem relação de afinidade com os astros cujas virtudes queremos solicitar: minerais, vegetais e animais. Por isso o Lapidário é tão importante: ele traz uma vasta gama de informações para tal uso, ainda que não dê receitas de confecção de peças talismânicas, salvo a de seu uso como amuletos ou simplesmente medicinais.

Da mesma forma, conhecer os anjos, suas características, poderes e posição na hierarquia celeste e seu grau de residência é fundamental – poderia ser desastroso apelar para um outro anjo. Por isso Alfonso X teria se esforçado em buscar os principais textos de angelologia judaica.

García Avilés aponta para a importância que essa angelologia tinha já na Alta Idade Média: Carlos Magno teria, em 789, proibido a invocação de anjos cujos nomes não estivessem na Bíblia.

Santo Isidoro de Sevilla fala extensamente dos anjos em sua obra Etimologias. Tal como o fará São Tomás de Aquino, dá a ordem e a função de cada nível de seres espirituais: anjos, arcanjos, virtudes, potestades, principados, dominações, tronos, querubins e serafins – e acrescentará: os anjos presidem os lugares e os homens, e não há lugar algum que não seja presidido por um deles (e não será também a extensão do tempo, em todos os seus 360°, presididos por eles?). Esses seres espirituais presidem todas as empresas humanas.

Embora a idéia de que os anjos, enviados de Deus, estão presentes em todos os lugares e que intercedem continuamente em benefício dos homens fizesse parte da doutrina da Igreja, a teoria de que os astros são anjos ou que são movidos por eles terá uma longa vida no mundo medieval e gerará grande polêmica, sobretudo a partir do século XII, quando ocorre o grande afluxo de traduções de textos astrológicos árabes no Ocidente.

Sacrificios a Mercurio en Géminis y Cáncer, Libro de Astromagia

Alfonso X, como vimos, desempenhará um papel de enorme importância na introdução de obras científicas no Ocidente. O rei elaborou um verdadeiro ‘programa’ de compilações de obras astromágicas, e o Liber Razielis, além de ter sido traduzido para o latim, ainda teve partes suas inseridas em outras obras, como o Libro de las formas et de las imágenes, e o Libro de astromagia.

O Libro de las formas y de las ymagenes teria sido uma compilação de 11 tratados, realizada na corte do rei Alfonso X, e que versaria sobre os poderes dos corpos celestes. Falaria sobre a forma como tais poderes podem ser vertidos e condensados pelos magos na confecção de talismãs. Desses tratados, contudo, só se conservou o sumário. Entre estes, estão presentes o segundo e o terceiro lapidários que compõem o Lapidário. Há quem questione se, de fato, essa obra foi realizada, já que dela só temos o sumário.

O Libro de astromagia é uma vasta compilação de astromagia zodiacal e planetária, patrocinada por Alfonso X, no fim dos anos 70, tirando partido das obras que ele mesmo já havia mandado traduzir anteriormente – e que já citamos: Picatrix, Liber Razielis, Libro de las formas y de las ymagenes -, além de outra possível fonte, uma obra de Abū Ma’shar al-Balkhī (787-886), ou Albumasar para os latinos, importante pensador muçulmano oriundo do Afeganistão.

O trabalho Introdução à astronomia, escrito por volta de 848 por Albumasar foi um dos textos mais importantes de astrologia medieval. A obra foi primeiramente traduzida em latim por Johannes Hispalensis em 1133 e depois, em 1140, por Hermano Dalmata. Ele traz importantes aportes das doutrinas persa, indiana e grega, sob um fundo marcadamente harranita, semelhante ao que consta do Ghâyat (texto original do Picatrix). A segunda parte do Astromagia (II. Libro de los decanos) corresponde, quase textualmente, segundo d’Agostini, à parte da obra de Albumasar que trata dos decanatos e sua influência está presente no segundo tratado do Lapidário, que estabelece a relação entre decanatos e pedras. Já as constelações que aparecem na obra de Albumasar são semelhantes às que aparecem no primeiro tratado do Lapidário (aquele com o qual estamos trabalhando) e no Livro da oitava esfera ou Livro das estrelas fixas, de clara matriz ptolomaica.

Do primeiro tratado do Astromagia, (I. Pseudo Pitágoras. Libro de los Paranatellonta) restaram-nos as descrições das constelações que sobem/aparecem no horizonte em cada grau dos signos de Touro a Sagitário. Paranatellonta são as figuras que correspondem a cada grau dos decanatos, segundo a tradição egípcia e caldaica. Se tomarmos o signo de Virgem como exemplo, veremos ali constar que:

No terceiro grau (do signo de Virgem) sobe um homem com um livro aberto. Aquele que nascer sob tal figura será um homem religioso. No quarto grau sobe um homem sobre um touro e um arado. Aquele que nascer sob tal figura será lavrador de terra, arador e trabalhador.

Libro de los Paranatellonta

Do segundo tratado do Astromagia a que aludimos pouco antes, o (II. Libro de los decanos), só temos as partes relativas aos signos de Leão e Virgem. Nelas, estão descritas as figuras que sobem no céu quando entra um decanato, aqui chamado de ‘face’, primeiramente, segundo os indianos, depois, segundo o que dizem os de Babilônia, Pérsia e Egito. Tomemos como exemplos a primeira face, segundo a descrevem os indianos.

Na primeira face deste signo sobe uma menina donzela vestida com manto e com panos velhos, e tem uma mão pendurada e segura pela outra, e está de pé num lugar onde há mirtos formosos e procura a casa e as terras de seu pai e de seus amigos para obter vestimentas e jóias.

Libro de los decanos

O terceiro tratado, o Libro de la Luna, é constituído por cinco textos de tradições diferentes acerca das imagens que correspondem à passagem da Lua por suas casas, ao longo de seu percurso ao redor da Terra. O tratado tem por objetivo ensinar quais as imagens devem ser gravadas nos talismãs que fazem uso do poder infundido pela Lua. Esta é entendida aqui como a lente que filtra, aumentando ou distorcendo todas as energias que emanam dos outros planetas e estrelas. No segundo texto deste tratado, o mestre indiano Kancaf ensina a seu discípulo Sirez:

Saibas que as posições das imagens é a origem de todas as obras terrenas e das coisas que acontecem nas almas naturais (…). E saibas ó Sirez, que a primeira virtude que passa pelo mundo são as dos corpos perfeitos luminosos, que são as estrelas fixas; e depois, a dos sete planetas até que cheguem ao céu da Lua, e dali passam para as almas particulares, recebendo cada uma delas aquilo com que está aparelhada para receber dessas virtudes. E saibas que assim passam as virtudes da alma universal pelos corpos universais e particulares, assim como a luz do Sol e seus raios (passam) pelos corpos diáfanos. E saibas que os planetas (…) estão mais perto dos corpos perfeitos que são chamados de estrelas fixas e delas ganham luz e virtudes; e depois descem para seu hadid, que é o oposto de seu auge…, e transmitem aquelas virtudes ao céu a Lua que as recebe todas. E dela passam às almas particulares.

Libro de la Luna

Como todas as virtudes que emanam das estrelas e planetas que passam pelo céu da Lua e são por meio dela distribuídas ao mundo sublunar, é fundamental o conhecimento sobre as casas que esse astro ocupa ao deslocar-se, suas características propiciatórias ou danosas, as imagens que condensam sua energia, para que possam ser reproduzidas sobre peças talismânicas, que agem por similaridade.

No quarto tratado (IV. Pseudo Aristóteles. Libro de las imágenes de los doce signos), do qual só nos restam os signos de Áries e de Touro, o autor, citando Aristóteles, recomenda que se façam imagens que se deduzem da leitura do céu, para as mais diversas finalidades, observando-se a posição dos astros.

Quando quiseres fazer uma imagem para mudar o estado de uma cidade, observa quando Áries estiver ascendendo, e que seu senhor, Marte, esteja em Câncer, que é a quarta casa. E farás com o cobre a figura de carneiro, só o corpo, sem pés, sem mãos e cabeça. E trabalha nela todos os dias na hora da Lua…E cuidarás para que isso termine em cinco dias. (…) Enterra a imagem na rua mais movimentada da cidade no quadragésimo quinto dia depois de a teres começado, na hora da Lua. E verás a maravilha da mudança do estado dos homens daquela cidade .

Libro de las imágenes de los doce signos

O quinto tratado, cujo título é (V. Libro de Marte) traz as mais diversas figuras que devem ser utilizadas para as obras relacionadas com esse planeta, observando-se suas posições, relativamente à dos outros planetas, e os materiais adequados sobre os quais inscrevê-las.

O sexto tratado (VI. Libro de Mercurio) traz as fórmulas rituais – vestimentas, procedimentos, orações, incensamento, invocações – que se devem realizar segundo as posições do planeta, de acordo com o fim a ser alcançado.

Com essa breve exposição do Libro de Astromagia, tentamos mostrar como a matéria astromágica é apresentada na obra, de forma a nos permitir apreciar como o Lapidário apresenta a sua.

As traduções de obras de autores muçulmanos realizadas nos séculos XII e XIII pelos latinos ampliaram imensamente seu âmbito de compreensão, sua gama de conhecimentos, a complexidade das questões colocadas, até mesmo no que concerne à abordagem matemática demandada pela astronomia, ou no caso presente, pela astrologia astronômica.

O primeiro tratado do Lapidário, sobre o qual nos debruçamos, traz a descrição e finalidade de uso de 360 pedras, cada qual relacionada com uma estrela que habita num determinado grau. Dela, a pedra ganha todas as suas virtudes. Esse tratado vem acompanhado, no mesmo volume, por outros três. Nesses outros lapidários, a conexão entre pedras e estrelas obedece a outros parâmetros.

O segundo tratado vincula cada pedra a um decanato, ou seja, cada um dos doze signos é composto por 30 graus, e estes trinta graus são divididos em faces, ou seja, conjuntos de dez graus. Para cada uma das três faces de cada signo há uma figura, ou entidade planetária, que a rege, e a cada uma, está vinculada uma pedra. São, portanto, 12 signos, cada qual com 3 faces ou decanatos, o que significa que temos 36 figuras de decanatos, e cada uma vinculada a uma pedra, somando 36 pedras.

Todos os quatro lapidários, reunidos sob o nome genérico de Lapidário, estão presentes na edição de Roderio C. Diman e Lynn W. Winget (1980) com a qual estamos trabalhando.

O terceiro tratado vincula cada um dos sete planetas a uma determinada pedra, apontando as virtudes que dele ganha. Trata das circunstâncias pelas quais passa cada planeta, e como isso se reflete na dita pedra.

O quarto tratado trata de pedras específicas, sem critérios definidos. Ressalta a preocupação com as cores, mas reúne uma série de outras informações, sem constância, como a influência dos astros do céu.

De todo o conjunto – chamado também de Lapidário -, sobressai a mesma necessidade: a de reunir um grande número de informações sobre a relação entre as pedras e os astros do céu, sobre as pedras e as virtudes com que são dotadas – as naturais e as ocultas, ou seja, aquelas que não são deduzidas de suas qualidades elementares.

A Classificação dos Seres no Lapidário de Alfonso X, o Sábio II

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