A Astronomia e a Astrologia no Brasil Indígena

Do ponto de vista empírico é fato que a astronomia indígena no Brasil não pode ser considerada como uma astrologia indígena, pois o conhecimento astrológico pressupõe um sistema organizado de saber especializado e correlacionado aos efeitos dos corpos celestes com a vida na Terra.

Entretanto se considerarmos Astrologia como todo o conhecimento intuitivo desenvolvido a partir de uma determinada relação astronômica com a vida na Terra podemos, sem dúvida, considerar o saber astronômico dos indígenas do Brasil como um autêntico conhecimento astrológico nativo.

César Augusto – Astrólogo

Astronomia Indígena

Germano B. Afonso

Os conhecimentos astronômicos empíricos dos indígenas, relativos aos movimentos do Sol, da Lua, da Via Láctea e de suas constelações, associados à biodiversidade local, suficientes para a sobrevivência em sociedade, são desconhecidos por muitos historiadores da ciência. Nesta conferência, apresentamos uma parte desses conhecimentos, que conseguimos resgatar, utilizando documentos históricos, que relatam a importância da astronomia no cotidiano das famílias indígenas; vestígios arqueológicos, tais como a arte rupestre e os monumentos rochosos, que possuem conotação astronômica; diálogos informais e observações do céu com pajés de todas as regiões brasileiras; além de cursos de Etnociência, que ministramos para professores indígenas.

Em 1632, Galileu Galilei publicou o livro: “Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo; ptolomaico e copernicano”, onde afirmava que a principal causa do fenômeno das marés seriam os dois movimentos circulares da Terra: o de rotação em torno de seu eixo (diurno) e o de translação em torno do Sol (anual), desconsiderando a influência da Lua.

Em 1612, o missionário capuchinho francês Claude d’Abbeville passou quatro meses entre os tupinambá do Maranhão, da família tupi-guarani, localizados perto da Linha do Equador. Seu livro “Histoire de la mission de pères capucins en l’Isle de Maragnan et terres circonvoisines”, publicado em Paris em 1614, é considerado uma das mais importantes fontes da etnografia dos indígenas do tronco tupi. Nesse livro, publicado dezoito anos antes do livro “Diálogo” de Galileu, d’Abbeville escreveu: “Os tupinambá atribuem à Lua o fluxo e o refluxo do mar e distinguem muito bem as duas marés cheias que se verificam na lua cheia e na lua nova ou poucos dias depois”. Além disso, a maioria dos antigos mitos indígenas sobre o fenômeno da pororoca, que traz uma grande onda do mar para os rios volumosos da Amazônia, mostra que ele ocorre perto da lua cheia e da lua nova, demonstrando o conhecimento, por esses povos, da relação entre as marés e as fases da Lua.

Somente em 1687, setenta e três anos após a publicação de d’Abbeville, Isaac Newton demonstrou que a causa das marés é a atração gravitacional do Sol e, principalmente, da Lua sobre a superfície da Terra. Esses fatos mostram que, muito antes da Teoria de Galileu, que não considerava a Lua, os indígenas que habitavam o Brasil já sabiam que ela é a principal causadora das marés.

A arte rupestre pré-histórica é a fonte mais importante de informação que dispomos sobre os primórdios da arte, do pensamento e da cultura humana. A palavra Itacoatiara, que em tupi e em guarani significa pedra pintada, é frequentemente utilizada para denominar os rochedos decorados. Existem alguns painéis de arte rupestre que além do Sol, da Lua e de constelações, parecem representar fenômenos efêmeros, como a aparição de um cometa muito brilhante, um meteoro, uma conjunção de planetas ou um eclipse, que alteravam a ordem do Universo e amedrontavam o povo sendo, portanto, registrados. Assim, esses registros podem ser úteis para o astrônomo documentar antigos eventos celestes.

 Os indígenas observavam os movimentos aparentes do Sol para determinar, o meio dia solar, os pontos cardeais e as estações do ano utilizando o Gnômon, que consiste de uma haste cravada verticalmente no solo, da qual se observa a sombra projetada pelo Sol, sobre um terreno horizontal. Ele é um dos mais simples e antigos instrumentos de Astronomia, sendo chamado de Kuaray Ra’anga, em guarani e Cuaracy Raangaba,em tupi antigo.

Um tipo de gnômon indígena, que temos encontrado no Brasil, em diversos sítios arqueológicos, é constituído de uma rocha, pouco trabalhada artificialmente, com cerca de 1,50 metros de altura, aproximadamente em forma de tronco de pirâmide e talhada para os quatro pontos cardeais. Ele aponta verticalmente para o ponto mais alto do céu (chamado zênite), sendo que as suas faces maiores ficam voltadas para a linha norte-sul e as menores para a leste-oeste.

Em volta do gnômon indígena há rochas menores (seixos) que formam uma circunferência e três linhas orientadas para as direções dos pontos cardeais e do nascer e do pôr-do-sol nos dias do início de cada estação do ano (solstícios e equinócios).

Em geral, o zênite é o domínio do deus maior da etnia considerada; os pontos cardeais são os domínios dos quatro deuses que o auxiliaram na criação do mundo e de seus habitantes; os pontos colaterais são domínios das esposas desses deuses.

Chamamos esse monumento de rochas, constituído pelo gnômon e pelos seixos, de Observatório Solar Indígena, devido à sua relação com os movimentos aparentes do Sol.

Em 1614, o monge capuchinho francês Claude d’Abbeville escreveu que os tupinambá também observavam o movimento do nascer e do pôr-do-sol e o seu deslocamento na linha do horizonte, que efetua entre os dois trópicos, limites que jamais ultrapassam. Eles sabiam que quando o Sol vinha do lado norte trazia-lhes ventos e brisas e que, ao contrário, quando vinha do lado sul, trazia chuvas. Eles contavam perfeitamente os anos, pelo conhecimento do deslocamento do Sol de um trópico a outro e vice-versa. Conheciam igualmente os meses pela época das chuvas e pela época dos ventos ou, ainda, pelo tempo dos cajus.

Além da orientação geográfica, um dos principais objetivos práticos da astronomia indígena era sua utilização na agricultura. Os indígenas associavam as estações do ano e as fases da Lua com a biodiversidade local, para determinarem a época de plantio e da colheita, bem como para a melhoria da produção e o controle natural das pragas. Eles consideram que a melhor época para certas atividades, tais como, a caça, o plantio e o corte de madeira, é perto da lua nova, pois perto da lua cheia os animais se tornam mais agitados devido ao aumento de luminosidade, por exemplo, a incidência dos percevejos que atacam a lavoura.

A incidência de mosquitos também é muito maior na lua cheia do que na lua nova. Esse fato pode ajudar a combater o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, pois é muito mais eficaz dedetizar perto da lua cheia. Os indígenas que habitam o litoral também conhecem a relação das fases da Lua com as marés. Eles associam as marés às estações do ano para a pesca artesanal. Em geral, quando saem para pescar, seja no rio ou no mar, já sabem quais as espécies de peixe mais abundantes, em função da época do ano e da fase da Lua. Por exemplo, eles pescam a gurijuba (Arius parkeri), o peixe mais tradicional da região de Belém, PA, principalmente entre as fases de lua minguante para a nova, nos meses de outubro e novembro.

Para os guarani, do sul do Brasil, até o ritual do “batismo”, em que as crianças recebem seu nome, depende de um calendário lunissolar: o plantio principal do milho ocorre, geralmente, na primeira lua minguante de agosto. Após a colheita do milho plantado nessa época é que realizam o batismo das crianças. Esse evento deve coincidir com a época do máximo do “tempo novo”, caracterizada pelos fortes temporais de verão, geralmente o mês de janeiro, quando os guarani celebram a colheita do milho e o ritual do batismo.

As constelações indígenas diferem das concepções das sociedades exteriores ocidentais principalmente em três aspectos.

Primeiro, as principais constelações ocidentais registradas pelos povos antigos são aquelas que interceptam o caminho imaginário que chamamos de eclíptica, por onde aparentemente passa o Sol, e próximo do qual encontramos a Lua e os planetas. Essas constelações são chamadas zodiacais. As principais constelações indígenas estão localizadas na Via Láctea, a faixa esbranquiçada que atravessa o céu, onde as estrelas e as nebulosas aparecem em maior quantidade, facilmente visível à noite.

Segundo, os desenhos das constelações ocidentais são feitos pela união de estrelas. Mas, para os indígenas, as constelações são constituídas pela união de estrelas e, também, pelas manchas claras e escuras da Via Láctea, sendo mais fáceis de imaginar. Muitas vezes, apenas as manchas claras ou escuras, sem estrelas, formam uma constelação. A Grande Nuvem de Magalhães e a Pequena Nuvem de Magalhães são consideradas constelações.

O terceiro aspecto que diferencia as constelações indígenas das ocidentais está relacionado ao número delas conhecido pelos indígenas. A União Astronômica Internacional (UAI) utiliza um total de 88 constelações, distribuídas nos dois hemisférios terrestres, enquanto certos grupos indígenas já nos mostraram mais de cem constelações, vistas de sua região de observação. Quando indagados sobre quantas constelações existem, os pajés dizem que tudo que existe no céu existe também na Terra, que nada mais seria do que uma cópia imperfeita do céu. Assim, cada animal terrestre tem seu correspondente celeste, em forma de constelação.

O Cruzeiro do Sul fica em plena Via Láctea, sendo a constelação mais conhecida dos indígenas do Hemisfério Sul, que a utilizam para determinar os pontos cardeais, as estações do ano e a duração do tempo à noite. As Plêiades ficam em segundo lugar, sendo utilizadas para calendário.

Segundo d’Abbeville, os tupinambá conheciam muito bem o aglomerado estelar das Plêiades e o denominavam “Seichu”. Quando elas apareciam no lado leste, ao anoitecer, afirmavam que as chuvas chegariam como chegavam, efetivamente, poucos dias depois. Como a constelação aparecia alguns dias antes das chuvas e desaparecia no fim para tornar a reaparecer em igual época, eles reconheciam perfeitamente o intervalo de tempo decorrido de um ano a outro. Da mesma maneira, atualmente para os tembé, que habitam o norte do Brasil, o surgimento das Plêiades anuncia a estação da chuva e o seu ocaso, quando elas desaparecem no lado oeste, ao anoitecer, indica a estação da seca. Para os guarani do sul do país, o aparecimento das Plêiades anuncia o verão, enquanto o seu desaparecimento indica a proximidade do inverno.

 Além dessas duas constelações, há outras que servem para calendário e orientação geográfica, tais como o Colibri, o Homem Velho, a Ema e a Cervo do Pantanal, todas elas localizadas na Via Láctea.

Devemos ressaltar o valor pedagógico do ensino da astronomia indígena para os alunos do ensino fundamental de todo o Brasil, por se tratar de uma astronomia baseada em elementos sensoriais (como as Plêiades e a Via Láctea), e não em elementos geométricos e abstratos, e também por fazer alusão a elementos da nossa natureza (sobretudo fauna e flora) e história, promovendo autoestima e valorização dos saberes antigos, salientando que as diferentes interpretações da mesma região do céu, feitas por diversas culturas, auxiliam na compreensão das diversidades culturais.

Em geral, por solicitação da comunidade pesquisada, entregamos uma cartilha bilíngue, em português e na língua nativa, com o resgate do conhecimento astronômico obtido e, também, uma réplica do observatório solar, para serem utilizadas como material didático nas escolas indígenas.

Referências

ABBEVILLE d’, C., Histoire de la mission des Pères Capucins en l’sle du Marignan ET terres circonvoisines ou est traicté dês singularites admirables & des moeurs merveilleuses des indiens habitans de ce pais. gallica.bnf.fr. 1995. AFONSO, G.B., BARROS, O., CHAVES, A. e RODI, M.R. (Coord.), O Céu dos Índios Tembé. Universidade do Estado do Pará, 1999. Prêmio Jabuti, 2000.

 AFONSO, G.B., Etnoastronomia dal Brasile. Le Stelle, Roma, v. 19, pp. 84-86, 2004. AFONSO, G.B., Mitos e Estações no Céu Tupi-Guarani. Scientific American Brasil (Edição Especial: Etnoastronomia), v. 14, p. 46-55, 2006. AFONSO, G. B., Determinação dos Pontos Cardeais com o Gnômon. Astronomy Brasil, v. 2, p. 76-77, 2007. AFONSO, G. B., Galileu e a Natureza dos Tupinambá. Scientific American Brasil, nº 84, p. 60-65, 2009.

Tradições Astronômicas Tupinambás na Visão de Claude D’Abbeville

Flávia Pedroza Lima

Museu de Astronomia e Ciências Afins – MAST/MCT

Ildeu de Castro Moreira

Instituto de Física – UFRJ | Pós-Graduação em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia – UFRJ

Resumo

 Apresenta-se uma análise de um dos mais importantes documentos históricos brasileiros sobre conhecimentos astronômicos indígenas: Histoire de la mission des pères capucins en l’isle de Marignan et terres circonvoisines où est traicté des singularitez admirables & des moeurs merveilleuses des indiens habitans de ce pais, de Claude D’Abbeville, publicado em 1614. A crônica traz descrições de constelações, sistemas de calendário e alguns conhecimentos astronômicos empíricos. Objetiva-se conhecer os saberes etnoastronômicos desenvolvidos pelos tupinambás do Maranhão, descritos e interpretados por esse missionário francês. As informações históricas são também cotejadas com estudos etnográficos recentes sobre grupos indígenas atuais.

 Introdução

 A maioria dos autores dos primeiros séculos da colonização do Brasil teve contato com os tupinambás1 – grupos tribais com unidade linguística e cultural –, que se localizavam nas áreas em que os contatos com os brancos foram mais intensos e regulares. Os tupinambás não mais existem, em consequência de guerras (com europeus e outros grupos indígenas), escravidão, fome, epidemias causadas pelo convívio com os portugueses.2 De acordo com o Mapa etno-histórico de Curt Nimuendajú,3que mostra a localização de mais de 1.400 grupos indígenas no Brasil, os tupinambás, que pertenciam à família linguística tupi-guarani, podem ser vistos nas áreas amarelas ao longo da costa brasileira.

1Os tupinambás são “grupos tribais tupi que, na época da colonização do Brasil, entraram em contato com os brancos no Rio de Janeiro e na Bahia; e os grupos tribais tupi que, depois, povoaram o Maranhão, o Pará e a ilha dos Tupinambaranas. Todos os grupos tribais tupi constituíam ramos de um tronco comum e provavelmente tiveram um mesmo centro de dispersão”. (FERNANDES, Florestan. Organização social dos tupinambá. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1963. p. 15.)

2Muitos dos tupinambás que escaparam do extermínio foram submetidos à escravidão. Após a sangrenta batalha de Cabo Frio, em 1574, de oito a dez mil índios se tornaram cativos dos portugueses (ibidem, p. 31). Por causa dos cruéis embates no Rio de Janeiro, os sobreviventes abandonavam a costa em movimentos migratórios para o sul e para o norte. No final do século XVI, trinta mil se dirigiram para o sul; destes, dez mil foram exterminados pelos portugueses e vinte mil foram repartidos como escravos (ibidem, p. 33). Na Bahia, os jesuítas chegaram a contar com mais de quarenta mil índios cristãos. Incluindo os índios que estavam trabalhando como escravos em lavouras, o total chegava a oitenta mil índios, porém, em 1585, estavam reduzidos a dez mil. Muitos morriam de tristeza por terem sido escravizados, ou por doenças (uma epidemia matou trinta mil deles em 1562; no ano seguinte, mais trinta mil morreram de varíola). Em 1564, ocorreu uma “fome geral” e algumas aldeias tiveram de ser despovoadas (ibidem, p. 39-40).

3IBGE. Mapa etno-histórico de Curt Nimuendajú. Ed. fac-sim. Rio de Janeiro: IBGE; Brasília: Ministério da Educação, 2002.

No século XVII, o frade capuchinho francês Claude D’Abbeville4 escreveu uma importante obra sobre os tupis do Maranhão. Em Histoire de la mission des pères capucins en l’isle de Marignan et terres circonvoisines où est traicté des singularitez admirables & des moeurs merveilleuses des indiens habitans de ce pais,5 de 1614, D’Abbeville nos apresenta, no capítulo 51, uma relevante descrição da astronomia tupi. A edição brasileira de 1945, traduzida por Sérgio Milliet, traz um glossário de Rodolfo Garcia sobre as palavras e frases em língua tupi contidas no livro, na forma de notas de rodapé.

4O frei Claude D’Abbeville “nascera certamente na cidade que lhe deu o nome religioso. Faleceu em Ruão no ano de 1616, com 23 anos de hábito, segundo Ferdinand Denis, ou em 1632, na indicação de Eyriès. Foi, com seu irmão seráfico frei Yves d´Evreux, cronista da França Equinocial nas terras do Maranhão. Veio com o Almirante de Rasilly. Ficou em São Luís do Maranhão e arredores de 29 de julho a 8 de dezembro de 1612”. (CASCUDO, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro. 4. ed. São Paulo: Livraria Martins Ed., 1971. p. 39.)

5D’ABBEVILLE, Claude. Histoire de la mission des pères capucins en l’isle de Marignan et terres circonvoisines où est traicté des singularitez admirables &amp, des moeurs merveilleuses des indiens habitans de ce pais. Gallica: bibliothèque numérique de la Bibliothèque nationale de France, 1995. Microfilm Reprod. de l’éd. de Paris: de l’Impr. de François Huby, 1614.

D’Abbeville mostra admiração ao se referir aos tupinambás em várias passagens da obra, como, por exemplo:

São grandes discursadores e mostram grande prazer em falar. Fazem-no às vezes durante duas a três horas seguidas, sem hesitações, revelando-se muito hábeis em deduzir dos argumentos que lhes apresentam as necessárias consequências.

São bons raciocinadores e só se deixam levar pela razão e jamais sem conhecimento de causa. Estudam tudo o que dizem e suas censuras são sempre baseadas na razão. Por isso mesmo querem que lhes retribuam na mesma moeda.6

6D’ABBEVILLE, Claude. História da missão dos padres capuchinhos na Ilha do Maranhão e terras circunvizinhas. Tradução: Sérgio Milliet. Introdução e notas: Rodolfo Garcia. São Paulo: Livraria Martins Ed., 1945. p. 244.

E se surpreende com a acuidade visual dos índios:

Durante nossa viagem de regresso os índios que trazíamos conosco muito antes de qualquer tripulante percebiam os navios no horizonte graças à sua vista maravilhosa. E quando os mais hábeis marujos pensavam ter descoberto terra trepados no alto do grande mastro, os índios sem sair do tombadilho fàcilmente verificavam não se tratar de terra, porém de acidentes de horizonte ou de simples nuvens escuras. E assim tendo os marujos se enganado várias vezes, apesar de sua experiência, zombaram deles os índios dizendo: “caraíbes osapucai tenhe terre, terre euvac com assupinhé”, isto é, “esses franceses gritam terra e no entanto não é terra, mas sòmente céu preto”. Em verdade, foram os primeiros a descobrir a terra por ocasião de nossa chegada, e muito antes que qualquer um de nós a pudesse ver, e embora muitos na nossa tripulação tivessem excelente vista. Assim como a vista têm eles os outros sentidos do ouvido, do paladar e do tato.7

7Ibidem, p. 243-44.

A Astronomia Tupinambá

 Sobre a observação do céu pelos tupinambás do Maranhão, D’Abbeville escreve: “Il y en a sort peu entr’eux qui ne connoisse la pluspart des astres & Estoiles de leur hemisphere & qui ne les appelle par leur nom propre que leurs predecesseurs ont inventé & imposé à chacune d’icelles” ou, de acordo com a edição de 1945, “Poucos entre eles desconhecem a maioria dos astros e estrelas de seu hemisfério; chamam-nos todos por seus nomes próprios, inventados por seus antepassados (…)”.

É necessário aqui comentar que a tradução da edição de 1945 apresenta várias falhas, inclusive a omissão de frases inteiras. Esses dois trechos transcritos são um exemplo, pois o final da frase do original foi omitido na tradução: “…& imposé à chacune d’icelles”. Por isso, optamos, algumas vezes, por transcrever o texto original e a tradução de 1945, para efeitos comparativos.

No Quadro, listamos os nomes de alguns astros e constelações tupinambás, a descrição de D’Abbeville e os comentários de Rodolfo Garcia (edição de 1945).

1 Termos das edições de 1614 (em maiúsculas) e de 1945 (em minúsculas), respectivamente.

2 Edição de 1614.

3 Edição de 1945, traduzida por Sérgio Milliet.

4 Notas de rodapé da edição de 1945.

O planeta Vênus é conhecido popularmente como “Estrela da Tarde”, ou como “Estrela da Manhã”, dependendo da época do ano em que aparece no céu: de manhãzinha, ou de tardinha. Os tupis deram o nome de Yasseuhtata Ouässou (iaceí-tatá-uaçu)à “Estrela da Manhã” e de Pirapanémà “Estrela da Tarde”, segundo D’Abbeville. Mas, segundo Rodolfo Garcia, os guaranis chamavam Pira-panéao planeta Mercúrio, que assim como Vênus aparece no céu à tarde próximo ao ponto do horizonte onde o Sol se põe. Como a “Estrela da Tarde” é um astro muito brilhante, de fácil identificação e muito popular, é difícil crer que D’Abbeville tenha se enganado em sua identificação. José Vieira Couto de Magalhães, em seu Curso de Língua Tupi Viva, diz que entre os tupis o planeta Vênus se chama iaci-tatá-uaçú, confirmando D’Abbeville.

Os comentários de Rodolfo Garcia sobre aspectos astronômicos devem ser analisados com cautela. Ele parece não saber que a “Estrela da Tarde” e o planeta Vênus são o mesmo corpo celeste, conforme transparece em seus comentários sobre Januaree Iapuicã. O autor associa Januareà Estrela da Tarde, ou Vésper, mas pela definição de D’Abbeville para Januare“Elle est fort rouge & ordinairement elle suit la Lune de sort pres” – não pode ser o planeta Vênus, pois este não tem o brilho vermelho. Marte estaria mais próximo dessa definição do que Vênus.

Além disso, Rodolfo Garcia sugere a associação da constelação Potimcom a de Câncer (que em nada se parece com um caranguejo e não tem nenhuma estrela muito brilhante), da constelação Urubucom o Corvoe da constelação de Tapiticom a Lebre, sem nenhum argumento que corrobore tais afirmações. Rodolfo Garcia, assim como outros autores, têm a visão etnocêntrica de que as constelações indígenas terão correspondência exata com as nossas, o que não é verdade. Uma constelação indígena às vezes corresponde a pedaços de várias das nossas, ou vice-versa. Além do mais, alguns povos da América pré-colombiana conceituam constelações negras, e não de estrela a estrela, como as que herdamos da astronomia ocidental, inclusive os guaranis, que têm uma origem comum com os tupinambás.

Os comentários de Rodolfo Garcia têm uma importância linguística inquestionável, porém, suas tentativas de identificar planetas, estrelas e constelações se revelaram duvidosas.

Quanto às identificações de D’Abbeville, chama a atenção o seguinte trecho: “Eles têm também uma estrela extremamente brilhante que se chama Yaseuh Tatá Oué, sobre a qual eles cantam um canto em louvor de sua beleza e de seu movimento”. A alusão ao movimento dessa “estrela” que chamou a atenção dos tupinambás pode indicar que se trata de um planeta e não de uma estrela.

Yäpouykan, a “estrela que se acha sempre diante do Sol” poderia ser o planeta Mercúrio ou Vênus, pois estes aparecem no céu sempre próximos ao Sol: um pouco depois do pôr-do-sol ou um pouco antes do nascer do Sol. Porém, D’Abbeville diz que Jaceí-tatá-uaçué a “Estrela da Manhã” (Vênus), então Mercúrio se torna mais provável.

D’Abbeville também relata que os tupinambás identificam muitas outras estrelas, não mencionadas por ele no livro, e que sabiam distinguir perfeitamente uma estrela da outra, e observar “o Oriente e o Ocidente das que se levantam e se deitam no horizonte”.

Sistemas de Calendário

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Geografia Indígena – Parque Indígena do Xingu. São Paulo: Instituto Sócio Ambiental, MEC 1996 pg. 55

 D’Abbeville nos informa a respeito dos conhecimentos dos tupinambás sobre a Lua: “É certo que não conhecem a Epacta, nem as Idades da Lua; porém, em virtude de longa prática, conhecem seu crescente e minguante, o plenilúnio e a Lua nova e muitas outras coisas sobre o seu curso”.

Como D’Abbeville era um frade capuchinho, conhecia bem a epacta e a idade da Lua, pois eram usadas para se calcular as datas no Calendário Eclesiástico.8 Estas são meras definições, que só apresentam utilidade para calendários lunares oulunissolares.Acreditamos que os tupinambás tinham o conhecimento prático, embora não definissem da mesma forma que os europeus. Ou talvez não dessem muita importância, uma vez que utilizavam um calendário solar, como relata D’Abbeville:

8D’ABBEVILLE, Claude. Histoire de la mission des pères capucins en l’isle de Marignan et terres circonvoisines où est traicté des singularitez admirables &amp, des moeurs merveilleuses des indiens habitans de ce pais, op. cit., p. 310-11.

Epacta: Diferença entre o ano solar e o ano lunar. No calendário gregoriano, chama-se epacta de um ano qualquer ao número de dias passados desde a última Lua nova do ano anterior até 1° de janeiro, a menos de uma unidade. Como a lunação tem aproximadamente 29,5 dias, ela compreende 30 dias no calendário, o que significa que a epacta é um número que assume valores entre 0 e 29.

Idade da Lua: intervalo de tempo, medido em dias, entre a Lua nova e uma dada posição da Lua. A idade da Lua varia entre 1 e 29,5 dias.

Calendário eclesiástico: calendário lunissolar que tem por objetivo estabelecer as normas de cálculos das datas nas quais as festas religiosas devem ser comemoradas.

Observam também o curso do Sol, a rota que segue entre os dois trópicos, como seus limites e suas fronteiras que ele jamais ultrapassa; e sabem que quando o Sol vem do pólo ártico traz-lhes ventos e brisas e que, ao contrário, traz chuvas quando vem do outro lado em sua ascensão para nós.

Contam perfeitamente os anos com doze meses como nós fazemos, pelo curso do Sol indo e vindo de um trópico a outro. Eles os reconhecem também pela estação das chuvas e pela estação das brisas e dos ventos.

Eles os reconhecem, ainda, pela colheita dos cajus (…) assim como nós saberíamos aqui pela época da vindima.9

9Idem. História da missão dos padres capuchinhos na Ilha do Maranhão e terras circunvizinhas, op. cit., p. 246.

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Figura 1

O curso do Sol nos dias dos solstícios (junho e dezembro) e equinócios (março e setembro).

A Figura 1 mostra o caminho diário do Sol em dias diferentes do ano. Nos equinócios, o Sol nasce no Leste e se põe no Oeste. À medida que vamos nos afastando das datas dos equinócios, os pontos de nascer e ocaso do Sol vão se afastando dos pontos Leste e Oeste. Nos solstícios, o afastamento dos pontos de nascer e pôr do Sol, em relação aos pontos cardeais Leste e Oeste, respectivamente, é máximo. Essa é a rota que o Sol segue entre os dois trópicos, à qual se refere D’Abbeville.

A divisão do ano em doze meses pode ser uma dedução etnocêntrica de D’Abbeville, pois há estudos sobre calendários de grupos tupis-guaranis atuais que não utilizam divisão em meses como os nossos.

Para finalizar, D’Abbeville nos explica como os tupinambás utilizam também um calendário estelar (sideral):

Além do mais a estrela Seichu começa a aparecer alguns dias antes das chuvas e desaparece no fim das mesmas; ela reaparece acima do horizonte no começo das chuvas do ano seguinte, de onde os maranhenses reconhecem perfeitamente bem o interstício e o tempo de um ano inteiro.10

10A tradução, nesse caso, está incompleta, pois falta uma parte da frase original. Uma tradução melhor seria: “Eles têm também uma estrela extremamente brilhante que se chama Yaseuh Tatá Oué, sobre a qual eles cantam um canto em louvor de sua beleza e de seu movimento”.

D’Abbeville diz que seichué a “Poussinière”, as Plêiades, um aglomerado de estrelas muito bonito e conspícuo, facilmente visível a olho nu, na constelação ocidental do Touro: “Temos entre nós a Poussinière que muito bem conhecem e que denominam seichu. Começa a ser vista, em seu hemisfério, em meados de janeiro, e mal a enxergam afirmam que as chuvas vão chegar, como chegam efetivamente pouco depois”.11

11 MAGALHÃES, José Vieira Couto de. Curso de língua tupi viva. In: O selvagem. 3ª ed. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1935. (Brasiliana, v. 52.) p. 78.

O centro-norte do estado do Maranhão tem duas estações: a seca, quando os totais de chuva apresentam pequenos valores (junho a novembro) e a chuvosa, quando os totais apresentam valores significativos (dezembro a maio). O período chuvoso é subdividido em pré-estação (dezembro e janeiro) e a estação chuvosa propriamente dita (fevereiro a maio).12

12D’ABBEVILLE, Claude. Histoire de la mission des pères capucins en l’isle de Marignan et terres circonvoisines où est traicté des singularitez admirables &amp, des moeurs merveilleuses des indiens habitans de ce pais, op. cit., p. 319. Tradução livre do original.

D’Abbeville diz que seichu “começa a aparecer alguns dias antes das chuvas”. A expressão “começa a aparecer” pode se referir ao Nascer Helíaco desse aglomerado de estrelas, ou ao seu Nascer Cósmico (anti-helíaco). O Nascer Helíaco das Plêiades é a primeira aparição das Plêiades, depois de sua invisibilidade devido a sua conjunçãocom o Sol, do lado Leste, pouco antes do nascer do Sol. Isso ocorre no início do mês de junho. O Nascer Cósmico é o primeiro dia em que uma estrela ou constelação é visível no horizonte Leste ao pôr-do-sol. O Nascer Cósmico das Plêiades ocorre em meados do mês de novembro.

D’Abbeville, porém, diz que seichucomeça a ser vista em janeiro, época que não corresponde ao seu Nascer Helíaco, e que também não corresponde ao seu Nascer Cósmico. Como as chuvas começam em dezembro, é mais provável que D’Abbeville esteja se referindo ao Nascer Cósmico. O Nascer Helíaco das Plêiades, em junho, corresponde ao início da época seca no Norte do Brasil.

Por sua vez, Germano Afonso13 afirma que, para os guaranis, que pertencem à mesma família linguística e possuem sistema astronômico parecido com o dos tupinambás, o Nascer Helíaco das Plêiades, na primeira quinzena de junho, marca o início do ano.

13Ibidem, p. 317.

As Plêiades ficam aproximadamente um mês sem possibilidade de serem observadas devido à proximidade com o Sol. Seu Ocaso Helíaco (último dia em que podem ser vistas, do lado Oeste, logo após o pôr-do-sol) ocorre próximo a 30 de abril, voltando a aparecerem (Nascer Helíaco) próximo a 5 de junho. D’Abbeville diz que seichu“desaparece” no fim das chuvas, o que provavelmente se refere ao seu Ocaso Helíaco. De fato, a estação chuvosa termina em maio.

D’Abbeville diz que seichué a “Poussiniere”, as Plêiades, porém se refere a elas como “a estrela seichu”, e as Plêiades são um conjunto com várias estrelas próximas, e não uma estrela apenas; portanto, essa frase é incoerente.

As Marés

 A relação entre a Lua e as marés também é descrita por D’Abbeville: “Eles atribuem à Lua o fluxo e o refluxo do mar e distinguem muito bem as duas marés cheias que se verificam na Lua cheia e na Lua nova ou poucos dias depois”.14

14Ibidem, p. 320.

Essa citação tem um significado importante, pois, na época em que D’Abbeville escreveu o livro, as causas das marés ainda não eram conhecidas. Galileu Galilei escreveu o Discorso del flusso e reflusso del mare em 1616, e uma expansão do Discorsoem Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo Tolemaico e Copernicano, escrito em 1632. No Discorso, Galileu diz que “La prima e più semplice delle quali è la determinata accelerazzione e ritardamento delle parti della Terra, dependente dal componimento dei due moti, annuo e diurno”, e que, portanto, não precisa recorrer à “vã quimera do movimento da Lua” para explicar as marés. No Dialogo, Galileu tenta mostrar que apenas pela combinação da rotação axial da Terra com sua revolução orbital – os dois movimentos que Copérnico atribuiu à Terra – os movimentos de maré que observamos podem surgir.

Mas a causa das marés é a atração gravitacional da Lua e do Sol, e Newton foi o primeiro a mostrar corretamente como as forças geradoras da maré funcionam.

A Astronomia Tupinambá e Guarani

 Um estudo da literatura etno-histórica sobre os extintos tupinambás e a comparação com a tradição astronômica guarani, ainda hoje, permitem-nos identificar algumas das constelações descritas por D’Abbeville, uma vez que as duas culturas pertencem à mesma família linguística e possuem sistemas astronômicos parecidos. Germano Afonso relata:

Através de entrevistas com pajés de diversos grupos, das cinco regiões brasileiras, pôde-se localizar no céu a maior parte das constelações indígenas relatadas na literatura. (…) Verificou-se que o sistema astronômico dos extintos Tupinambá do Maranhão, descrito pelo monge capuchino francês Claude D’Abbeville, em 1614, no seu livro “Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão”, é muito semelhante ao utilizado, atualmente, pelos Guarani do Sul do Brasil, embora separados pelas línguas (Tupi e Guarani), pelo espaço (mais de 3.000 km, em linha reta) e pelo tempo (quase 400 anos). Verificou-se, também, que etnias diferentes de índios brasileiros possuíam um conjunto muito semelhante de conhecimentos astronômicos que era utilizado para materializar o calendário e a orientação. Esse conjunto comum se refere, principalmente, aos movimentos aparentes do Sol, da Lua, de Vênus, do Cruzeiro do Sul, das Plêiades, de Escorpião, das Três Marias e da Via Láctea.

A Via Láctea é uma faixa mais clara cortando o céu de um lado a outro, pois é a região do plano da nossa galáxia, onde vemos a maior concentração de estrelas. Germano Afonso fala da relação das constelações indígenas com a Via Láctea:

Os índios brasileiros davam maior importância às constelações localizadas na Via Láctea, que podiam ser constituídas de estrelas individuais e de nebulosas, principalmente as escuras. A Via Láctea é chamada de Caminho da Anta (Tapi’i rapé, em guarani) pela maioria das etnias dos índios brasileiros, devido principalmente às constelações representando uma anta (Tapi’i, em guarani) que nela se localizam.15

15MELLO, Namir. Considerações a respeito do clima do setor norte do Nordeste do Brasil. Revista Ciência Online, ano 1, n. 3, jun./ago. 2002.

A Via Láctea não se encontra sempre na mesma posição no céu. Durante a noite, ela muda de posição ao longo das horas (consequência do movimento de rotação da Terra), e também muda de posição ao longo do ano, se observada todas as noites numa mesma hora (consequência da revolução da Terra em torno do Sol). Ela é utilizada para orientação e para fins de calendário quando se encontra na posição exatamente acima da cabeça do observador (zênite), o que ocorre nas datas próximas aos equinócios de março e setembro.

Conseguimos localizar no céu, com a ajuda de informantes guaranis, algumas das constelações descritas por D’Abbeville, como, por exemplo: Yandoutim, Tuyvaée Crussa.

D’Abbeville cita uma constelação chamada Iandutim, que ele traduz como “Avestruz branca”: “Conhecem uma constelação denominada Iandutim, ou Avestruz branca, formada de estrelas muito grandes e brilhantes, algumas das quais representam um bico; dizem os maranhenses que elas procuram devorar duas outras estrelas que lhes estão juntas e às quais denominam uirá-upiá, isto é: os dois ovos”.16 Mas no Brasil não existiam avestruzes e, sim, uma ave parecida chamada ema (Rhea Americana). A constelação descrita por D’Abbeville é, provavelmente, correspondente à constelação guarani da Ema (Guyra Nhandu). De acordo com Germano Afonso:

16AFONSO, Germano B. As constelações indígenas brasileiras. Observatórios Virtuais, USP, 2004.

Os Guarani do Paraná nos mostraram a localização exata da constelação da Ema (Guyra Nhandu) que fica na região do céu ocupada pelas constelações ocidentais do Cruzeiro do Sul, da Mosca, do Centauro, do Escorpião, do Triângulo Austral e de Altar.

A cabeça da Ema é formada pelo Saco de Carvão, sendo que a parte superior fica perto da estrela Mimosa e o bico perto de Magalhães, ambas da constelação do Cruzeiro do Sul. Perto do seu bico parece existirem dois ovos de pássaro (Guirá-rupiá, em guarani) que ela tenta devorar. Esses ovos são as estrelas Alfa e Beta da constelação da Mosca.

As estrelas Alfa e Beta da constelação do Centauro estão dentro do pescoço da Ema, que também é formado por uma mancha escura da Via Láctea.

A cauda da Ema é formada por Antares, Al niyatn e outras estrelas da constelação do Escorpião. Um dos pés da Ema é formado pela cauda do Escorpião.

A parte de baixo do corpo da Ema começa a ser formado pela estrela Beta da constelação do Triângulo Austral(Triangulum Australe)e por estrelas da constelação da Altar(Ara),sendo que a parte de cima de seu corpo é formado principalmente por estrelas pertencentes às constelações de Escorpião e do Lobo(Lupus).

A constelação da Ema aparece em relatos de várias etnias brasileiras. Couto de Magalhães relata que, uma noite, os carajás lhe fizeram observar que uma das manchas escuras do céu que fica na Via Láctea, próxima à constelação do Cruzeiro do Sul, representava uma cabeça de uma avestruz (na verdade, uma ema), e, à medida que a noite se adiantava, aparecia o pescoço e, depois, o resto do corpo dessa ave. Segundo os padres salesianos, os bororós (que não pertencem à família tupi-guarani) também têm uma constelação da Ema, que denominam Pári, na mesma região do céu que os guaranis: “É um conjunto de manchas, ocupando grande parte da abóbada celeste, semelhante a uma ema correndo cuja cabeça está perto do Cruzeiro do Sul”.

Outros relatos revelam que a constelação da Ema aparece também em outras etnias, como os tembés e os teneteharas:

Eduardo Galvão relata que os teneteharas, do Maranhão, também conhecem uma constelação que forma a figura de uma ema e que aparece somente no verão. Perto da Linha do Equador, a estação da seca é chamada de verão correspondendo, nessa região, ao inverno (frio) no Sul do Brasil. Tivemos a oportunidade de confirmar essa informação com os tembés, no Pará.17

17BURSTYN, Harold L. Galileo’s attempt to prove that the earth moves. ISIS, v. 53, part 2, n. 172, p. 161-185, 1962.

A constelação da Ema aparece, inclusive, em culturas de outros continentes, como, por exemplo, entre os boorongs, povo aborígene que vive em Victoria, Austrália: “O ano boorongs começa no outono, quando Tchingal, a ema gigante, aparece no céu à noite. Esta é a época em que as emas começam a pôr seus ovos e que seus filhotes saem dos ovos”.

Os tupinambás também reconhecem uma constelação em forma de Cruz próxima à constelação da Ema, segundo D’Abbeville: “Conhecem também a Cruzada, que é uma bela constelação de quatro estrelas muito brilhantes que aparecem no céu em forma de uma bela Cruz e a chamam de Crussa, ou seja, cruz”. Os guaranis a chamam de Curuzu.18

18Existem 17 reservas, com aproximadamente 9.500 indígenas, no estado do Paraná. Germano Afonso realizou pesquisas com indígenas de todas as reservas. No entanto, os seus dois principais informantes foram os pajés guaranis Onório Benites, 85 anos, da Reserva Indígena Ocoí (latitude = 25,350S, longitude = 52,150W) e Manoel Firmino, 98 anos, da Reserva Indígena Mangueirinha (latitude = 25,950S, longitude = 53,570W).

Outra constelação citada por D’Abbeville é a do Homem Velho: “Há uma outra (constelação) que eles chamam de Tuyvaé, isto é, Homem Velho, pois ela é composta de muitas estrelas dispostas na forma de um homem velho segurando um bastão”.19

19AFONSO, Germano B. Arqueoastronomia brasileira. Curitiba: UFPR. CD-ROM. 2000.

Os guaranis também reconhecem no céu uma constelação chamada Homem Velho:

 Na segunda quinzena de dezembro, quando o Homem Velho (Tuya’i, em guarani) surge totalmente ao anoitecer, no lado Leste, indica o início do verão para os índios do sul do Brasil e o início da estação chuvosa para os índios do norte do Brasil.

A constelação do Homem Velho é formada pelas constelações ocidentais Taurus e Orion.

Conta o mito que essa constelação representa um homem cuja esposa estava interessada no seu irmão. Para ficar com o cunhado, a esposa matou o marido, cortando-lhe a perna. Os deuses ficaram com pena do marido e o transformaram em uma constelação.

(…) A cabeça do Homem Velho é formada pelas estrelas do aglomerado estelar Hyades em cuja direção se encontra a Tauri (Aldebaran), a estrela mais brilhante da constelação Taurus. Acima da cabeça do Homem Velho fica o aglomerado estelar das Plêiades que representa um penacho que ele tem amarrado à sua cabeça.

Segundo Magaña, os tarenos, do norte do Brasil, narram o mito da origem de Órion (Yalawale) e Sírius (Urutula), mulher de Órion. Segundo a lenda, uma vez Yalawale estava pescando e se feriu em uma perna, a qual finalmente teve de amputar, decidindo então ir para o céu como constelação. Aparece, dizem, para anunciar a estação seca com seu Nascer Helíaco em junho. Se em outras fontes se encontra como o Senhor das Chuvas, deve-se ao seu Nascer Cósmico em janeiro (o que confere com as informações obtidas por Afonso), ou devido ao fato de que ao ocultar-se em meados de junho leva consigo as chuvas.

A constelação do Homem Velhodos guaranis do Paraná contém três outras constelações indígenas, cujos nomes em guarani são: Eixu (as Plêiades), Tapi’i rainhykã(as Hyades, incluindo Aldebaran) e Joykexo(O Cinturão de Orion).

Sobre as Plêiades (Poussinière), D’Abbeville diz: “Temos entre nós a ‘Poussinière’ que muito bem conhecem e que denominam seichu. Começa a ser vista, em seu hemisfério, em meados de janeiro, e mal a enxergam afirmam que as chuvas vão chegar, como chegam efetivamente pouco depois”.

Eixusignifica “ninho de abelhas” em guarani.20 Segundo Germano Afonso, essa constelação marca o início de ano, quando surge pela primeira vez no lado leste, antes do nascer do Sol (Nascer Helíaco das Plêiades), na primeira quinzena de junho.

20ALBISETTI, César; VENTURELLI, Ângelo J. Enciclopédia bororo. Campo Grande: Museu Regional Dom Bosco, 1962. v. 1, p. 614.

Há algumas diferenças nos vocábulos utilizados pelos tupinambás e pelos guaranis, como é o caso de Seichu (tupi) e Eixu (guarani). Couto de Magalhães comenta algumas dessas diferenças:

(…) O mesmo se dá entre o Tupi e o Guarani; o que é som de ç cedilhado ou s passou para o Guarani com o de h aspirado; amar em tupi é: çaiçú, em guarani haihu; ovo em tupi, çupiá, em guarani hupiá; verbo ir, em tupi çô, em guarani ho, e assim por deante.

Tapi’i rainhykã significa “a queixada da anta” para os guaranis21. Essa constelação pode estar relacionada a uma constelação tupinambá: “Entre aquelas (constelações) que eles conhecem em particular, há uma que se chama Symbiare Raieuboare, isto é, maxilar, uma constelação disposta como os maxilares de um cavalo ou de uma vaca, a qual é chuvosa”.

21MORIESON, John. Indigenous astronomy.

Segundo Rodolfo Garcia, os vocábulos symbiaree raieuboaredevem estar alterados, pois não há palavras em tupi parecidas com essas.

A constelação guarani Joykexo corresponde às estrelas que nós chamamos de Três Marias: “Joykexo representa uma linda mulher, símbolo da fertilidade, servindo como orientação geográfica, pois essa constelação nasce no ponto cardeal leste e se põe no ponto cardeal oeste. Joykexo também representa o caminho dos mortos”.

Em um trabalho de campo na aldeia guarani de Paraty Mirim (Rio de Janeiro), em março de 2004, pudemos ver algumas constelações pintadas na parede da escola pelas crianças guaranis, como a constelação da Ema(Guyra Nhandu), Eixu(Favo de Mel, que corresponde às Plêiades) e Kuruxu(Cruz, correspondendo ao Cruzeiro do Sul). Na mesma parede aparecem também: Tapi’i rapé(Via Láctea), uma constelação chamada Jakare rainhykã(Queixada de Jacaré) e uma outra chamada A(k)uarai, que ainda precisam ser identificadas. Em trabalhos de campo anteriores com esses mesmos guaranis, Luiz C. Borges e Lourdes Gondim recolheram os seguintes nomes de constelações, algumas das quais ainda precisam ser identificadas: Tapi’i rainhykã(Queixada da Anta), Aka’eKora(Cercado ou Gaiola de Gralha), mboikuá(Buraco de Cobra), Guaxuou Guaxu Puku (Veado), Jakare rainhykã(Queixada de Jacaré, uma constelação mista formada por três estrelas e o fundo escuro do céu), Kaguare(Tamanduá); Guyra Nhandu(Ave Aranha, um tipo de ave de grande porte).

Considerações Finais

 D’Abbeville fez o melhor trabalho sobre astronomia tupinambá encontrado na literatura histórica brasileira. Embora tenha passado apenas quatro meses no Maranhão, foi capaz de descrever mais de trinta termos relacionados à astronomia e alguns conceitos empíricos astronômicos.22

22“É na verdade surpreendente como, em período tão limitado, viajando quase todo o tempo, Frei Claude D’Abbeville possa ter dominado a língua Tupi, escrevendo sobre geografia, botânica, zoologia, etnologia (incluindo o conhecimento de astronomia dos índios). Nossa hipótese é que ele muito provavelmente incluiu em seu livro informações de outras fontes (de des Vaux ou de Migan, como sugerido por Rodolfo Garcia), sem devidamente reconhecer a autoria.” (PAPAVERO, Nelson et al. O novo éden: a fauna da Amazônia brasileira nos relatos de viajantes e cronistas desde a descoberta do rio Amazonas por Pizón (1500) até o Tratado de Santo Idelfonso (1777). Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi. 2000. p. 84.

O estudo sobre a identificação das estrelas e constelações tupinambá mostra algumas das dificuldades ligadas ao estudo da astronomia indígena em relatos etno-históricos. Os testemunhos históricos com frequência podem parecer confusos. O pesquisador não só precisa compreender o funcionamento da astronomia de posição, como também a visão do cosmos que tinham os autores que compilaram alguns testemunhos etnográficos de que dispomos na atualidade para estudo.

Quando se trata de identificar estrelas e constelações indígenas, devemos ter cuidado para evitar que nossa própria bagagem cultural interfira no processo de entendimento dos saberes celestes desses povos. Por exemplo, se esperarmos encontrar constelações de estrela-a-estrela, como as ocidentais, talvez não consigamos perceber que a constelação que o informante está nos mostrando não é desse tipo e, sim, uma constelação escura. D’Abbeville provavelmente perguntava sobre a natureza do céu com expectativas inteiramente ocidentais, antecipando, quem sabe, respostas que podiam se vincular à ciência celeste de sua época. As perguntas que formulava e as respostas que interpretava provavelmente foram inteiramente distintas das que emanariam de um antropólogo especializado.

Além dos testemunhos históricos escritos, há outras culturas que possuem um passado comum com os antigos tupinambás, como os guaranis. Assim, para nossa compreensão da astronomia antiga praticada pelos povos nativos, o estudo do registro etnográfico contemporâneo sobre observações astronômicas é tão importante quanto o estudo dos livros dos primeiros séculos pós-Conquista.

Flávia Pedroza Lima, astrônoma e mestre em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia pela COPPE/UFRJ, é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia da COPPE/UFRJ.

Ildeu de Castro Moreira, doutor em Física, é professor do Instituto de Física – UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia da COPPE/UFRJ. Este artigo é parte da dissertação defendida pela autora em 2004 intitulada “Observações e descrições astronômicas de indígenas brasileiros: a visão dos missionários, colonizadores, viajantes e naturalistas”. Os autores agradecem ao Professor Germano B. Afonso e ao Dr. Luiz C. Borges pelas valiosas discussões sobre etnoastronomia guarani.

O Céu Estrelado de Claude Lévi-Strauss

Jean-Claude Pecker

“Et, penchés à l’avant des blanches caravelles.
Ils regardaient monter dans un ciel ignoré,
Du fond de l’Océan des étoiles nouvelles.”

“E inclinados na proa das caravelas
Eles viam subir num céu ignorado
Do fundo do Oceano novas estrelas.”

José-Maria de Heredia

Como os conquistadores de outrora, foi pelo mar que Claude Lévi-Strauss descobriu a América indígena. Desde o início (Tristes trópicos), ele fica maravilhado com o pôr do sol. Antes de conhecer e de amar os ameríndios, entusiasma-se com a beleza do céu, que lhe inspira acentos líricos:

Durante esse tempo, por trás dos celestes recifes que obstruíam o ocidente, o Sol evoluía devagar: a cada progresso de sua queda, um de seus raios perfurava a massa opaca ou abria uma passagem (…) Com a obscuridade, tudo se achata de novo como um brinquedo japonês maravilhosamente colorido.

O venerável mestre se reconheceria hoje na visão edênica do jovem professor? Não estou certo disso. Seu olhar ficou mais lúcido, o sorriso mais marcado de ironia. Mas desde os seus primeiros contatos com os índios a onipresença do céu aparece com força:

Um homem não é (para os Bororo) um indivíduo, mas uma pessoa; faz parte de um universo sociológico, a aldeia que existe por toda a eternidade lado a lado com um universo físico, ele próprio composto de outros seres animados: corpos celestes e fenômenos meteorológicos (…) Alguém se torna “bari” (feiticeiro) após uma revelação cujo motivo central é um pacto feito com alguns membros de uma coletividade muito complexa formada de espíritos (…) em parte celestes (e que controlam então todos os fenômenos astronômicos e meteorológicos) (…) Esses seres são responsáveis pela marcha dos astros.

O Astro de Fogo

 Certamente é possível descobrir uma designação dos astros nos diversos mitos dos povos ameríndios.

O astro por excelência é o Sol, bilhões de vezes mais brilhante que todo o resto do céu. Com uma bela regularidade, levanta-se a cada manhã e se põe a cada anoitecer. Para os índios da bacia amazônica estudados por Claude Lévi-Strauss, e que não vivem muito longe do Equador, a diferença entre os longos dias de verão e os curtos dias de inverno não é muito sensível, contrariamente ao que se passa, por exemplo, para os índios Inuit, bem mais próximos do Polo Norte.

Claude Lévi-Strauss, que se preocupa com o aparecimento da cozinha entre os índios, depara necessariamente com o Sol em seu caminho. Como poderia o Sol não intervir em inúmeros mitos? Tendo os homens se tornado muito numerosos na Terra (mito M3 Bororo), não é o Sol em pessoa que, buscando reduzir o número deles, procura afogá-los e desencadeia o relato mítico? Em grande medida, o Sol que se vê todo dia é também fonte de civilização. Não é o calor do Sol que permite secar as carnes para que se possa comê-las? Para cozinhar os alimentos, o homem imita o Sol e inventa o fogo. “Entre o Sol e a humanidade, a mediação do fogo de cozinha permite evitar uma disjunção; ele une o Sol e a Terra e preserva o homem do mundo apodrecido que seria o seu destino se o Sol desaparecesse.”

A Lua está associada ao Sol, como uma irmã ou uma esposa ou uma inimiga. Caracterizada por suas fases, ela permite a divisão do tempo em meses. Suas fases mesmas são um símbolo de fraqueza, de corrupção, mas também de renascimento. Ora, a Lua às vezes eclipsa o Sol – um fenômeno terrível que em geral desencadeia reações muito emocionais. Claude Lévi-Strauss evoca as “vaias” e as “gritarias” a que se lançam em certas circunstâncias as sociedades ditas primitivas. Os eclipses da Lua e do Sol são (foram) a ocasião frequente de “gritarias” cuja finalidade seria “assustar, para pôr em fuga, o animal ou o monstro prestes a devorar o corpo celeste” – e a coisa funciona! A analogia entre a vaia e a gritaria é a da ruptura da ordem estabelecida: a vaia surge contra a ruptura (de ordem sociológica) dos casamentos não conformes às boas regras, a gritaria contra a ruptura de uma ordem cosmológica, o eclipse. Claude Lévi-Strauss aproxima essa dualidade da dualidade Céu-Terra observada nos mitos Gê.

Segundo todos os mitos, a descoberta da cozinha1 afetou as condições que prevaleciam até então entre o céu e a Terra. Antes de conhecer o fogo e a cocção dos alimentos, os homens eram obrigados a pôr a carne em cima de uma pedra para expô-la aos raios do Sol (atributos celeste e terrestre por excelência). Por meio da carne, atestava-se assim a proximidade do céu e da Terra, do Sol e da humanidade. É o que diz expressamente um mito: “Outrora os Teneteara não conheciam o fogo. Coziam sua carne ao calor do Sol que, naquele tempo, estava mais perto da Terra”.

1 Que é o centro de gravidade do livro com este título tão significativo: O cru e o cozido.

Outro motivo de fúria, sobretudo entre os Xerente, são as secas anormais, “devidas à cólera do Sol contra os homens”. Esses períodos suscitavam um ritual de abstinência (forçada?), o “Grande Jejum”. Como a quase conjunção entre uma estrela e o Sol (nascente ou poente helíaco) dava a essa estrela um papel anunciador, tal estrela tinha também o papel de companheira (momentânea) do Sol. Asaré (isto é, Kde Órion), herói do mito xerente M124 (sobre o qual voltaremos a falar), tornou-se o “arauto” do Sol ao final de um Grande Jejum ritual.

Esse Sol e essa Lua devoradora de Sol devem ter uma origem. Curiosamente, Claude Lévi-Strauss é obrigado a buscá-la entre os Esquimó do estreito de Behring (mito M165). Uma irmã busca escapar do amor do seu irmão; refugiada no céu, é a Lua; ele a persegue lá, e é o Sol. Numa outra versão esquimó (M168), o mito se inverte: a irmã perseguida priva o irmão do alimento, oferecendo-lhe em troca seu seio cortado. “O rapaz recusa. A mulher sobe ao céu e se torna o Sol; ele se transforma em Lua e a persegue sem nunca poder alcançá-la; privado de alimento, ele desaparece aos poucos sob o efeito da fome até que não se possa mais vê-lo.” Podemos nos interrogar, nesse caso, sobre a falta de referências a um mito ameríndio: nestes, são os mitos de origem do fogo que respondem mais ou menos à questão colocada.

Os Astros Errantes do Céu Noturno

 Poucos planetas, apenas cinco, são visíveis a olho nu. Mas Mercúrio, muito próximo do Sol, é raramente observável, e Saturno, bastante afastado, não é muito brilhante. Para alimentar os mitos, restam Vênus, Marte e Júpiter, muito brilhantes, mais brilhantes mesmo (em média e em ordem de grandeza) que as estrelas mais brilhantes. Esses planetas nunca parecem próximos das mesmas estrelas, e seus movimentos aparentes sobre o fundo do céu em nada parecem associados ao movimento aparente do Sol, não servindo para marcar nenhum acontecimento anualmente recorrente. No entanto, esses astros tão brilhantes não poderiam escapar ao interesse dos índios. Vênus, Marte e Júpiter têm um papel importante e intervêm como divindades celestes, testemunhas ou mensageiros. Durante o “Grande Jejum”, cerimônia de mortificação dos Xerente, ergue-se um grande mastro, chamado “caminho do céu”. Nessas cerimônias, “uma distribuição de água é feita aos homens reunidos em volta desse mastro por três oficiantes que representam respectivamente Vênus, Júpiter e Marte. Os dois primeiros oferecem água clara. Mas os homens recusam a Marte a água turva que ele oferece”. Eu tenderia a interpretar esse rito à luz da evidente cor vermelha de Marte.

Segundo o mito carajá M110, o herói (ou heroína) Estrela parece se identificar a Júpiter; o mito lhe atribui a origem das plantas cultivadas, certamente por causa de uma extrapolação excessiva do papel desse planeta no retorno das chuvas, o que não poderia ser associado a ele do ponto de vista do astrônomo.

Animais, Estrelas e Heróis

 Duas mil estrelas no céu dos índios, deuses, animais, plantas, heróis. Claude Lévi-Strauss se move com agilidade nesse considerável museu, nesse Olimpo amazônico.

O mito bororo M34 propõe uma origem às estrelas; as mulheres de uma aldeia são punidas, por sua maldade, com a transformação dos filhos em estrelas: “São os olhos deles que vemos brilhar”. O mito M28 dos índios Warrau (da Guiana) vai um pouco mais longe e se relaciona a asterismos2 precisos. O herói, após ter matado a sogra, uma ogra malvada, é perseguido pela cunhada; ele se refugia numa árvore alta com sua mulher. Mas não bastante rápido: “sua cunhada lhe corta uma perna; o membro se anima, torna-se a Mãe das aves. Ainda se vê, no céu noturno, a mulher do herói (as Plêiades), mais abaixo este (as Híades), e mais abaixo ainda a perna cortada (o cinturão de Órion)”. Esses asterismos estão próximos do Equador e da eclíptica, e são bastante reconhecíveis a olho nu. Nos mitos ameríndios, eles têm uma importância particular.

2 Conjunto de estrelas com uma forma definida dentro de uma constelação.

Voltemos aos estudos de Claude Lévi-Strauss sobre os Bororo. Em O cru e o cozido, ele analisa as relações triangulares homens-Terra-céu, com um grande cuidado de exatidão das considerações astronômicas. Desde o estudo do “mito de referência” bororo M1, que serve a Claude Lévi-Strauss de fio de Ariadne no labirinto dos mitos ameríndios, mito dito do “desaninhador de aves”, o céu está discretamente presente. O nome mesmo do herói, Geriguiguiatugo, parece significar às vezes “constelação do Corvo”. E não é uma conclusão obrigatória associar, num diálogo conceitual, a mãe, o pai, os filhos e a avó ao céu, às águas e à Terra? O filho é ora (M2) o céu (e o pai é então a Terra), ora (M5) a Terra (e a mãe é então a água).

Uma concepção desmesurada das relações familiares provoca a disjunção de elementos firmemente ligados. A conjunção se restabelece graças à introdução de um terceiro elemento intermediário, do qual o mito se propõe reconstituir a origem: a água (entre céu e Terra), os enfeites corporais (entre natureza e cultura), os ritos funerários (entre os vivos e os mortos), as doenças (entre a vida e a morte).

Os mitos descrevem evidentemente essas relações e também tentam fornecer respostas. Por que o fogo? Por que os porcos selvagens? Por que as estrelas?

Por que o tabaco? Por que os jaguares? Por que as mulheres? Por quê? Ou melhor, como? Todos esses mitos se entrelaçam, se sobrepõem. As histórias contadas continuam sendo muito humanas, reflexos das paixões e das interrogações da vida diária. Por meio de uma grande árvore, os protagonistas sobem com frequência ao céu, que certamente pertence ao ambiente comum, mas que domina com sua força e seus humores as vicissitudes da existência dos homens e das mulheres.

Versando sobre os ritos agrícolas, muitos mitos evocam a água da chuva, chuvas de tempestade ou “chuvas suaves”, estudadas no capítulo “A astronomia bem temperada” do livro O cru e o cozido.A interpretação dos mitos, portanto, exige um conhecimento preciso do regime das chuvas, que é diferente de uma região da América austral a outra, de uma população a outra. Claude Lévi-Strauss sabe isso bem e nos oferece um mapa particularmente esclarecedor, mostrando continuidade e diferenças entre os regimes das chuvas daqui e dali, o que explica a transformação dos mitos. O mito xerente M124 (100 de latitude sul), ao qual Claude Lévi-Strauss dá uma grande importância, narra a história do herói Asaré. Seus sete irmãos, culpados de terem violado a mãe, fogem e se banham nas águas de um oceano que fizeram emergir. “Ainda hoje, no final da estação das chuvas, ouve-se do lado oeste o ruído que eles fazem ao se divertirem na água. Pouco depois os vemos aparecer no céu, muito limpos e renovados, sob a aparência das sete Plêiades.” Segundo algumas interpretações, o próprio Asaré seria, como já assinalamos, a estrela Kde Órion (Saiph, o “joelho direito” do caçador celeste). O poente (oeste) das Plêiades é aqui associado, portanto, à estação das chuvas. Segundo Claude Lévi-Strauss, que associa o mito M1 e o mito M124, M1 evoca a chegada da estação das chuvas (o herói é identificado à constelação do Corvo), e M124, seu início (o herói sendo identificado à Kde Órion); convém notar que o Corvo e Órion estão separados em mais de 1000. A propósito dessas constelações, Claude Lévi-Strauss coloca o problema das relações, sem dúvida indiretas mas “plausíveis”, entre os mitos do Novo Mundo e os do Velho Mundo.

Os gregos e os latinos associavam Órion à má estação por razões empíricas. Basta postular, em primeiro lugar, que os Bororo, no seu hemisfério, procediam de forma comparável ao associarem o Corvo à estação das chuvas e, em segundo lugar, que Órion e o Corvo dominam o céu austral em períodos diferentes, para que daí resulte que, se dois mitos se opõem entre si sistematicamente quanto M1 e M124, embora recorrendo ao mesmo léxico, e se um diz respeito à origem da água celeste e o outro à da água ctônica, enfim, se um desses mitos se refere à constelação do Corvo, então o outro necessariamente se referirá a Órion, com a única condição de que uma oposição entre as duas constelações seja efetivamente concebida pelo pensamento indígena.

Falaremos mais adiante dos problemas colocados pelos papéis respectivos do Corvo e de Órion. É verdade que as identificações dos mitos ameríndios são muitas vezes sujeitas a dúvidas e Claude Lévi-Strauss se explica longamente a esse respeito ao evocar os mitos mais claros da Polinésia. A significação precisa dos nomes atribuídos às constelações pelos ameríndios é um aspecto fascinante desses estudos.

Nos mitos que acabamos de evocar, o surgimento das Plêiades é associado à estação das chuvas. Mais precisamente, trata-se do “nascente helíaco”, quando se começa a ver esse asterismo no céu, depois de meses em que ele não era visto por estar muito próximo do Sol. Ora, os ritos de caça, pesca e cultivo, sobretudo, estão muito ligados às condições climatológicas, elas próprias ligadas à sucessão das estações que está marcada pelos aspectos sucessivos, e regularmente recorrentes, do céu das estrelas. Os Bororo, a cerca de 150 de latitude sul, perto do Trópico de Capricórnio, são sensíveis a isso e seus mitos refletem essa sensibilidade secular.

Os Companheiros do Sol

 O Sol e determinada estrela só são companheiros durante um período muito curto do ano, sempre o mesmo para um astro dado, o do “nascente helíaco” ou o do “poente helíaco” do astro. Assim essa companhia pode marcar acontecimentos importantes na vida dos homens e da natureza. São as estrelas, e especialmente as que estão próximas do Equador e da eclíptica, que têm esse papel. Donde a importância nos mitos ameríndios das constelações do Corvo, de Órion, de Touro (e de seus dois asterismos, Plêiades e Híades – amontoados de estrelas). Poderíamos nos surpreender com isso, uma vez que, contrariamente aos habitantes das regiões de latitude elevada, os Inuit, por exemplo, os das regiões tropicais e equatoriais percebem poucas diferenças das estações tanto no céu como na Terra. Para eles, não há estrela circumpolar; quase todas as estrelas são visíveis durante cerca de seis meses todas as noites, desde que o céu esteja bastante claro, sem brumas e nuvens. Mas devemos lembrar que, se os Warrau da Guiana, por exemplo, estão sob o Equador, os Bororo, que fornecem a Claude Lévi-Strauss seus principais mitos, assim como os índios da cultura Gê, estão bem mais ao sul, perto do Trópico de Capricórnio. Para eles, as estações astronômicas são evidentes, assim como suas manifestações meteorológicas.

Pequena digressão astronômica– Mas justamente essa duração aproximada de seis meses, evocada anteriormente, é significativa. Na proximidade do Equador, todas as estrelas são visíveis à noite durante seis meses e invisíveis nos outros seis, o que não acontece nas latitudes médias ou elevadas. Mas todas são visíveis numa estação ou noutra (exceto as que estão muito perto dos polos celestes). A Terra faz todo ano uma volta ao redor do Sol: portanto, em aparência, o Sol se desloca dia após dia em relação ao céu das estrelas fixas. Num ano o Sol atravessa sucessivamente todas as constelações do Zodíaco. Num dia dado, uma estrela dada surge ao mesmo tempo em que o Sol; no dia seguinte ela surgirá alguns minutos antes dele (exatamente 3 minutos e 55,9018 segundos – duração que corresponde precisamente a um dia) e no dia seguinte um pouco mais cedo ainda. Ela será vista durante seis meses, no céu noturno. O dia em que o seu surgimento coincide com o do Sol (uma vez por ano) é o do seu “nascente helíaco”, e pode-se definir do mesmo modo o “poente helíaco” de uma estrela. O dia do equinócio(da primavera ou do outono) é aquele em que na terra inteira a duração da noite e do dia são iguais. Nesse momento, o Sol se encontra diante de uma porção bem determinada do céu estelar zodiacal, chamado de “ponto gama γ” (primavera) ou “ponto gama prime γ” (outono). O ponto γ entra atualmente na constelação de Aquário; na Antiguidade, o ponto γ estava na constelação de Áries (cujo símbolo, conhecido pelos astrólogos, é precisamente γ).

A presença do céu nas preocupações cotidianas dos índios, portanto, se afirma de forma evidente nos ritos agrícolas.

Precessão dos equinócios

 Os mitos têm uma história. Eles se formaram como por uma espécie de cristalização, há séculos, talvez milênios. Ora, de um ano a outro, o dia do nascente helíaco desta ou daquela estrela é aos poucos modificado numa evolução muito lenta, mas constante e regular. Só se tornará a vê-lo voltar no mesmo dia depois de vinte e seis mil anos! Podem-se compreender melhor os mitos levando em conta esse fato? Evidentemente, o fenômeno da “precessão dos equinócios” é importante e Claude Lévi-Strauss tinha consciência disso, ele que buscava descobrir uma racionalidade comum, como vimos, entre os mitos gregos e os mitos dos índios da Amazônia.

Foram essas considerações que provocaram meus primeiros encontros com Claude Lévi-Strauss, após a minha eleição (1963) ao Collège de France. Eu estava preocupado então com as críticas que ele poderia fazer ao meu livro Le ciel, ou melhor, ao capítulo desse livro dedicado aos aspectos míticos das referências aos astros nas civilizações primitivas. Por sua vez, ele me interrogou sobre alguns aspectos de suas pesquisas (ele terminava então O cru e o cozido), pois lhe parecia natural que o astrônomo tivesse algo a dizer sobre as conotações astronômicas de certos mitos e ritos agrícolas.

Segunda digressão astronômica– Nossa primeira digressão derivava do fato de a Terra ser animada por dois movimentos principais, que provocam os dois movimentos aparentes principais do céu. São sua rotação(em torno do eixo dos polos celestes – num dia) e sua revolução(em torno do Sol, no plano da eclíptica

– é a definição mesma desse plano – num ano). Esses dois movimentos aparentes do céu se efetuam em torno de dois eixos diferentes, o dos polos do Equador e o dos polos da eclíptica, situados num eixo perpendicular à eclíptica e que passam pelo centro da Terra.

Há mais de dois milênios, Hiparco (o mais inovador dos astrônomos da Antiguidade greco-romana, no segundo século antes de nossa era), que conhecia os dois movimentos principais, descobriu um terceiro fenômeno que resulta da rotação do eixo da eclíptica em torno do eixo dos polos do Equador (ou vice-versa), em 26 mil anos: é a precessão dos equinócios. Os pontos do Equador que se acham no plano da eclíptica (já definidos na primeira digressão) são os “pontos γ e γ” (pontos equinociaisou equinócios; o ponto γ é também chamado “ponto vernal”); eles se deslocam em relação às constelações do Zodíaco.

A rotaçãoda Terra tem por consequência os dias e as noites. A revoluçãoda Terra tem por consequência (por causa da inclinação do eixo da Terra no plano da eclíptica) a sucessão das estações. Qual é então a consequência principal, para o habitante da Terra, da precessão dos equinócios? O ponto γ se desloca em relação às constelações e, evidentemente, as constelações em relação ao ponto γ; do mesmo modo, o nascente helíaco e o poente helíaco de todo astro se deslocam no tempo, dando uma volta ao céu a cada 26 mil anos. Saber que, para um determinado observador, o nascente helíaco de tal astro ocorreu em tal data do ano deve nos permitir saber se esse observador é nosso contemporâneo ou se viveu há um, dois, três séculos, ou mesmo um, dois, três milênios.

De fato, a observação do céu noturno, a visibilidade dessas e daquelas estrelas, permitem situar no ano os fenômenos sazonais, portanto regular a vida agrícola. Voltemos então ao problema colocado pelas constelações do Corvo e de Órion. Segundo Claude Lévi-Strauss, ele resulta de cálculos feitos que levam em conta a precessão dos equinócios:

Primeiro, por volta de 1000 a.C., o surgimento vespertino de Órion deixava de ser observado no final do mês de outubro, período que coincidia com o início do frio e dos nevoeiros (a seguir, Órion já havia surgido quando as estrelas se tornavam visíveis após o crepúsculo); segundo, nessa época, em que Órion possuía plena significação meteorológica, ele estava visivelmente em oposição de fase com o Corvo, tal como se pode observar hoje; isso qualificaria essa última constelação para cumprir em nossos dias no Hemisfério Sul – mas por seu surgimento matinal – o papel que outrora cabia a Órion no Hemisfério Norte.

Deixando a Claude Lévi-Strauss a responsabilidade desse raciocínio, constatemos não apenas seu interesse pelas sutilezas dos movimentos aparentes dos astros, mas seu domínio dos conceitos astronômicos.

Oferecemos aqui somente uma visão muito limitada do universo astronômico de Claude Lévi-Strauss. Sua considerável erudição, inclusive num domínio tão especializado quanto a astronomia, lhe permitiu realizar uma obra profunda e sutil, admirada e respeitada por todos. No que me diz respeito, conservo de nossas conversas uma lembrança muito comovida de admiração e amizade.

Jean-Claude Pecker é professor honorário do Collège de France e membro da Academia de Ciências. Foi titular da Cátedra de Astrofísica teórica de 1964 a 1988.

Publicado em Hors Série – La Lettre du Collège de France, Claude Lévi-Strauss– Centième anniversaire, Novembre 2008. Tradução de Paulo Neves. O original em francês – “Le ciel étoilé de Claude Lévi-Strauss” – encontra-se à disposição do leitor no IEAUSP para eventual consulta.