Astrologia na Ciência e na Filosofia

A Filosofia da Astrologia

Uma Investigação entre Pico della Mirandola e Bachelard

Gabriel Kafure da Rocha

Doutorando em Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – Professor de Filosofia do Instituto Federal do Sertão Pernambucano.
Rev. Eletrônica Mestr. Educ. Ambient. E-ISSN 1517-1256, v. 33, n.1, p. 95-111, jan./abr., 2016.

Resumo

Este pequeno artigo visa suscitar uma investigação acerca da polêmica da astrologia entre o renascimento filosófico e a contemporaneidade. Para isso, nos valeremos da problemática acerca do lugar da astrologia como forma de esoterismo ou como possibilidade de uma forma de saber humanista. Tal investigação pretende, por fim, se valendo da ponte entre a argumentação de ambos os filósofos em questão, ter uma resposta sobre o contexto astrológico da filosofia bachelardiana.

Considerações Iniciais

Pico della Mirandola (1463-1494) foi um filósofo descendente da linha neoplatônica de Ficino (1433-1449) e que, como seu mestre, teve grande importância para a questão do humanismo no renascimento. Tanto que escreveu entre suas obras célebres, O discurso sobre a dignidade do homem (1480), sua obra ainda pouco estudada no campo da História da Filosofia, mas que contém bases antropológicas importantes para a concepção e humanismo na modernidade. Contudo, como iremos demonstrar mais à frente, há também uma obra pouco estudada e escrita por ele chamada de Disputationes adversus astrologiam divinatricem (1495) que consiste numa fonte importante para uma investigação mais aprofundada da polêmica dessa questão2.

2 Na intenção de união entre a sapiência e eloquência, dentro da problemática da redução da filosofia à retórica, há um momento que se dá um choque no renascimento entre a retórica e a filosofia aristotélica-medieval, esse debate foi protagonizado principalmente por um jovem que tinha 22 anos e chegou organizar um grande encontro filosófico na época: Giovanni Pico della Mirandola pensou então em organizar em Roma na primavera de 1487 um congresso a discutir 900 teses e assuntos controversos da época. Interessava a ele pôr em debate essas todas essas teses, Ele submeteu essas teses a aprovação papal que detectou umas 2 teses consideradas heréticas. Pelo fato de ter reclamado, o concílio acabou suspendendo todas as teses, tendo que ter fugido de Roma.

Gaston Bachelard (1884-1962), em o Engajamento Racionalista (1972), uma de suas obras póstumas que consistiu na compilação de textos escolhidos por Dominique Lecourt, demonstra um conhecimento de astrologia em o conhecimento de que há um livro chamado “Um texto nomeado à Descartes”. Esse título se deu por conta de Bachelard ter encontrado numa biblioteca um livro raro atribuído a Descartes em que o mesmo atacava a astrologia. Apesar do artigo ser dedicado a Descartes, não queremos nos ater a essa crítica diretamente, visto que ela foi bem formulada pelo próprio Bachelard, mas queremos sim, abrir espaço para uma investigação da própria leitura de Bachelard sobre o humanismo e colocar em via uma hipótese sobre a polêmica da astrologia e da adivinhação. Isso se dará, justamente pelo fato de que nesse texto é onde se expõe a única referência de Bachelard a Pico de La Mirandola:

“A Astromancia é pomposa e enganosa. É por ela que o autor vai atacar, depois de vários filósofos, depois de Giovanni Pico de La Mirandola. (…)”. Ora, fica evidente que Bachelard conhecera direta ou indiretamente o ataque de Pico à astrologia. É interessante que ele segue justamente a divisão empreendida pelo filósofo entre a astrologia natural ou astronomia e a astrologia judiciária (visto que o horóscopo naquela época era chamado de judicium).

O confronto com os renascentistas, sobretudo os da primeira fase, que procuravam os seus modelos na Antiguidade, que perseguiam, como Giovanni Pico della Mirandola ou Marsílio Ficino, os vestígios da mais arcaica sabedoria – da “prisca sapientia” ou da “prisca teologia” – ou que pretendiam mesmo ter encontrado a fórmula duma “philophia perennis”.

Ribeiro

Vamos propor então uma leitura sobre o contexto desse problema por Mirandola e mais à frente uma exposição por Bachelard, tentando entender a contraposição de teses da questão. Por se tratar de uma obra muito antiga, não tivemos acesso diretamente a obra de Pico sobre a astrologia, mas através de comentadores, procuramos estabelecer uma espécie de psicologia indireta3 sobre a questão.

3 Chamaremos de psicologia indireta justamente o empreendimento bachelardiano de utilizar e valorizar o tipo de psicanalise do imaginário por meio da materialidade dos elementos como água, fogo, ar e terra.

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Pico Della Mirandola

Pico havia desenvolvido estudos contra a magia e a astrologia no sentido de questionar os efeitos e movimentos do destino e a manipulação da natureza. A objeção da astrologia parte da visão de mundo aristotélica da dimensão sublunar. Provavelmente introduzida por volta do Séc. IV na Grécia, apesar de Aristóteles não ter escrito diretamente sobre a astrologia, um de seus seguidores, Ptolomeu havia escrito o Almagesto e o Tetrabiblos, ou seja, livros importantes sobre a astrologia da antiguidade.

“Todos aqueles humanistas que, como Nicolau de Cusa, Giovanni Pico della Mirandola, Juan Luis Vives e tantos outros, porão em destaque a liberdade criadora do homem, frente aos determinismos astrológicos ou naturais”. Com os pensadores humanistas, uma boa parte dos textos antigos foram transcritos e traduzidos, Ficino, um dos mestres de Pico foi o principal responsável pela dissipação desses textos herméticos. Ele próprio, era um admirador da astrologia, porém seu discípulo Pico, apesar de conhecer profundamente a astrologia, traça uma crítica veemente sobre aspectos que serão expostos a seguir.

A dita astrologia judicial consistia em predições opostas as ocorrências naturais, envolvendo a configuração estelar. Contudo, a utilização dessas práticas era polêmica, pois poderia ser utilizada como uma forma de pretensão de cura de doenças psicológicas. “For example, the issue of nativities or horoscopes was problematic. They could be seen as aids for medical care, much as a medical history is used today, or they could be seen as predictive tools that interfered with divine providence and human free will”. Para alguns os pensadores do tempo, a astrologia só poderia predizer grandes acontecimentos, já para Pico, é justamente a questão de predição do futuro que consiste no problema da astrologia.

Pico defende que existem aspectos da mágica que podem até ser aceitos, mas que o problema são os inimigos da verdade primeira que usam esses poderes para a escuridão. A Cabala teria o papel do discernimento sobre essas formas de conhecimento. A Cabala seria propriamente até uma condição para que a mágica ou mesmo a astrologia terem uma efetividade.

De fato, a polêmica sobre a visão de Pico e a astrologia se deram por conta do fato de que as “Disputations” foram publicadas postumamente, já que ao longo do Heptatlus4 Pico não havia condenado a astrologia. O que aconteceu foi que o conhecimento dito teorético de Pico sobre a astrologia e a magia lhe tornou um comentador sobre o tema. Pico argumenta que Platão e Aristóteles haviam silenciado sobre a astrologia por não haver na Grécia naquele tempo, mas segundo Dougherty, esse havia sido um erro de Pico já que trabalhos como “O segredo dos segredos” e “Sobre a propriedade dos elementos” não poderiam ser negados da autoria dos pseudos-Aristóteles e ter um viés da astrologia implícito neles.

4 Livro que expõe a teoria criacionista mirandoliana a partir da matriz bíblica.

Havia de fato uma motivação religiosa forte em Pico, já que mesmo sendo advertido (“no who wah condemmed by Church for proclaiming that Kabbalah proved the divinity of Christ) pela igreja católica por seus estudos cabalísticos. Ainda assim, seus argumentos eram de que se astrologia fosse preditiva, as estrelas e o céu influenciassem a individualidade das pessoas, não poderia haver um, mas múltiplos céus que em sobre-planos influenciassem indivíduo por indivíduo por revelar o seu futuro. Nesse sentido, Pico negava assim o princípio hermético da relação entre céu e a terra. Ele opôs a ideia de que as estrelas e astros influenciam a personalidade, colocando em oposição a ideia dos anjos como forças entre Deus e os homens nessa atividade. Ora, em outros termos ele substitui uma forma de esoterismo por outra.

As imagens das constelações seriam puramente fruto da imaginação humana e esse tipo de sonho se assemelharia a uma filosofia errante com fábulas poéticas. De fato, os aspectos da astrologia não seriam demonstráveis tais como uma descrição física dos fenômenos universais. A astrologia então não poderia tampouco ser uma forma de religião, visto que não há revelação ou mesmo a filosofia que é baseada na razão. Em suma, a astrologia seria um erro.

Apesar da Cabala servir ao cristianismo, ela não teria essa relação entre as imagens das estrelas e a personalidade, mas na Cabala, ironicamente, o alfabeto seria justamente relacionado as estrelas. Desse modo, a astronomia não era simplesmente aceita, pois atacaria principalmente ao fatalismo e a ideia de livre arbítrio do cristianismo. Impedindo ao nível mais elevado aspecto da dignidade humano: a liberdade. As estrelas representariam o lado da criação de Deus e não a criação humana de si. Por conta dessas questões, a recepção da obra Disputatio foi bem ruim, ao passo que os avanços da astronomia foram muito mais divulgados na época do que a própria crítica da astrologia.

O Discurso acerca da dignidade do homem seria justamente a conferência de abertura do congresso que ele idealizou, nele há uma conciliação entre as doutrinas, não significando reduzi-las todas ao mesmo, mas mostrar como a verdade é diferenciada em todas elas. Se lermos as partes finais do Discurso sobre a dignidade do homem será percebido esse aspecto; A verdade dá-se na luta, na antinomia, não é ser um eclético como os tomistas, mas entender as diferenciações das filosofias.

Com isso Mirandola formulou suas conclusões, 90 teses sobre todas as doutrinas que vão desde Platão, até a magia, Cabala, Zoroastro e hermetismo5. Pico estava, por um lado, do lado dos escolásticos e por outro lado tem uma concepção hermética da linguagem.

5 Apesar de Pico estar familiarizado com o hermetismo, ainda assim, sua obra está mais inclinada para a Cabala, “Para dar um exemplo, considere-se a abordagem que alguns comentadores tenham tomado na avaliação da relação do Pico aos textos herméticos atribuídos a Hermes Trismegisto. Enquanto deve-se admitir que em um lugar na Oratio Pico cita um texto de Hermes Trismegisto, esta citação não é suficiente para estabelecer a Oratio essencialmente como um documento hermética.”. Vale ressaltar ainda que em 1614, o filólogo Isaac Causaubon, já demonstrava que a Tábua de Esmeralda era datada após o início do cristianismo. Então nota-se a tendência ao descrédito do próprio hermetismo daquela época em diante.

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Gaston Bachelard

Princípios astrológicos. – O céu é um infinito contínuo. As estrelas existem num movimento como os peixes no mar, sem deixar qualquer vestígio da sua passagem. Suas órbitas, portanto, não são realidade. E todas as linhas que traçamos no céu não têm nenhuma virtude ativa. Em particular, são casas do céu, como as varandas do céu, construções do devaneio. Estes todos lugares imaginários podem especificar uma ação real.

Bachelard

É justamente sobre a palavra “ação real” que Bachelard visa distinguir a ideia das influências em astrologia, para um caminho ligado a uma manifestação do imaginário. Moralmente, a tradição tentou resistir a tentação da influência astrológica, por esse motivo, Bachelard começa sua reflexão questionando que se a astrologia era tido como um erro, então o posicionamento contra astrológico parece dialeticamente como uma mesma tensão. Logo, “Parece, portanto, forma ainda ambígua. É verdade que todas as formas de redução de preconceitos e até o melhor que é sem dúvida a redução através do riso, são obrigadas a seguir longa sedução das intuições errôneas e familiares.” (Bachelard)

A filosofia de Bachelard, dentro das perspectivas diuturnas poderia dizer que a visão da astrologia como erro não é descartável. Desse modo, tal erro foi fundamental para o desenvolvimento diurno da própria ciência astronômica. Logo, talvez o aspecto noturno do anima6 tenha alguma relação com a complementariedade da psique humana. Isso é dito, de maneira em que certos aspectos como a divisão elemental da astrologia, nos tipos de arquétipo de dinamização de imagens da água, terra, fogo e ar são usualmente utilizados por Bachelard.

6 Noção noturna herdada dos conceitos junguianos, o anima e o animus são noções complementares respectivamente de masculino e feminino, diurno e noturno.

Bachelard, no seu texto sobre a crítica da astrologia por Descartes, se utiliza de um tom bem irônico, mas certos trechos como os que serão trabalhados a seguir permitem abrir um questionamento de certas posições nas entrelinhas do texto.

As estrelas tinham um produtor significado de causa em assuntos humanos, este significado que tem sido atribuído às estrelas por Deus. Em seguida, o livro do céu seria uma ‘sagrada escritura’. Astrólogos não merecem entrar no Conselho de Deus. Além disso, de acordo com Copérnico, as estrelas ficam imóveis. O livro dos céus… parecem, portanto, sempre as mesmas coisas.”

Bachelard

Ou seja, a mentalidade da época considerava o céu dentro da perspectiva imutável do próprio criador. Contudo, hoje se sabe que essa perspectiva é justamente oposta, isso os leva a questionamento mais além como; será que a concepção quântica tem alguma aproximação com essa questão? Ora, existe uma grande suspeita atualmente da espiritualidade relacionada às igrejas quânticas.

A tensão dialética ou astrológica apresentada até então também relembra que entre os antigos, a própria dialética era tida como uma forma de adivinhação lógica do que viria a ser a previsão da síntese das tensões do pensamento. Contudo, na modernidade e contemporaneidade a dialética passou a tentar preservar as visões opostas sem tentar sintetizá-las. Apesar de Bachelard não se declarar abertamente como simpatizante da astrologia, é possível perceber, que assim como Pico aceitará a Cabala, Bachelard aceitaria a alquimia como forma de ciência rudimentar fundamental para a evolução da história das ciências, principalmente da química.

Em vão, o autor leva a salientar que “o raio de luz é a única coisa sensata, que nos vem das estrelas” e que “a luz é o único princípio de conhecimento que podemos desenhar das estrelas, conhecimento qualquer quantitativo e longe de qualquer inferência qualitativa”.

Bachelard

Nessa mesma tensão, nada melhor do que uma espécie de antítese da própria astrologia, por esse motivo, fizemos um iudicium astral de Bachelard (conforme o anexo) e pretendemos com isso extrair o que seria hoje uma leitura que se aproxima da astrologia por meio da composição elemental deles mesmos.

Vemos que Pico de la Mirandola, apesar de não ser possível fazer um mapa astrológico preciso desse filósofo, tem uma personalidade ligada aos elementos água e ar e Bachelard uma personalidade ligada aos elementos terra e água. O que seria vantajoso filosoficamente dessa leitura? Ora, a resposta é justamente a raiz da dualidade diurna e noturna de ambos os filósofos. Mirandola pode ser caracterizado como diurno por ter uma força ligada mais ao elemento masculino, ou seja, regido consequentemente pelo anima, então tal pensador não poderá ter uma via imanente, mas sim transcendental e aérea. Já Bachelard, que tem como via astrológica os elementos da terra e da água, elementos femininos que abrem o espaço para o animus e o imaginário. Seus modos mais realistas ficam no lugar para as tarefas diárias da vida, dos espaços íntimos. Já a fraqueza reside na sua recusa teimosa e certa tendência edipiana. Gosta de mudanças, descontinuidades, apesar de ter dificuldade com elas. Desenvolve um forte carácter crítico e um desejo de perfeição.

É o no animus e feminino dos elementos da terra e da água que estará o aspecto mais imanente de Bachelard. Com tal leitura, ainda que breve e sintética, há uma tentativa de demonstrar que a própria complementariedade dessa questão tem uma tendência mais para um lado ou outro. Não que seja uma nova onda interpretativa filosófica ler os mapas astrais dos filósofos, mas sim que em casos em que a relação obra/autor é questionável, esse pode ser um recurso para tentar entender aspectos que biografias não revelam, mas que tenham uma ligação direta com o conteúdo produzido da obra deles. A astrologia pode auxiliar como um conhecimento hermético de alguns aspectos interpretativos de uma psicologia indireta, tal qual o próprio Bachelard realizou em suas leituras poéticas e noturnas.

Considerações Finais

«não houve ninguém no passado nem haverá depois de nós a quem seja dado compreender toda a verdade, pois a sua imensidão é maior do que alcança a capacidade humana.»

Mirandola

A verdade, a realidade, o sentido e até a própria imaginação se constituem em aspectos de uma verdade que é muito maior do que a própria vã filosofia. Talvez fosse justamente esse o temor dos humanistas em relação a própria filosofia. Por isso, reuniam saberes diversos para comporem suas teorias. Pico della Mirandola, em seu ataque a astrologia preditiva, com suas mais de 900 teses contra ela, acaba deixando um espaço aberto também para um novo tipo de astrologia. Visto que ele próprio era um conhecedor da astrologia. Logo é possível, também após a visão de Bachelard, um horizonte de um tipo de leitura fenomenológico de uma astrologia ligada aos elementos água, fogo, ar e terra.

Assim, colocar a astrologia fora do humanismo como uma simples espécie de ocultismo não tirará o seu lugar como um instrumento de predição do senso comum, popular e não descartável. Por mais que a ciência tenha se utilizado principalmente da dedução lógico-dialética para formular ou mesmo deformar seus problemas, como Bachelard concordaria, ainda assim, há um tipo de adivinhação racional dentro dessa perspectiva. Revendo as críticas da astrologia pode-se inferir que muitas delas são razoáveis, mas ainda assim, há os aspectos positivos de que a astrologia pode ser uma forma de psicologia primitiva que auxilia o próprio autoconhecimento  antropocósmico. Haveria assim sido uma oposição mirandoleana a astrologia preditiva e não uma astrologia espiritual?

“A verdade, a realidade, o sentido não são dados em propriedade definitiva a nenhum dos humanos. Como o dizia o jovem Pico della Mirandola, no que poderá ter sido a primeira versão do seu famoso Discurso sobre a dignidade do Homem,”. Ora, a própria fenomenologia, como leitura do mundo, tem características que se aproximam dessa psicologia indireta, que depura as ilusões do espírito e que vê a complexidade do espírito como algo que não pode ser medido de forma puramente racional. Desse modo, o mundo da vida é e pode ser lido muito melhor a partir do que os astrólogos aprenderam das estrelas, na medida em que,

Os signos do mundo cá de baixo, o desenho das encostas e do riacho, a fenda da pedreira são submetidos, nessa visão, a uma decifração que possui tanto sentido quanto a leitura astrológica das constelações.

Bachelard

Bachelard, como bom aprendiz de feiticeiro se interessa então por todas essas artes esotéricas que não deixam de ser leituras de mundo. Ainda assim, os caminhos de uma racionalidade mais descritiva e de uma racionalidade mais imaginativa são complementares, vão chegar talvez ao mesmo fim do caminho. Todos são manifestações, modos e grafias da leitura da vida, dos signos, dos astros. A diferença estará justamente na ação e na reflexão sobre a transformação que esses conhecimentos fará na natureza.

Por fim, fica então a reflexão de que no contexto humanista, nem todos os saberes são aceitos e sintetizados. Logo, a relação da astrologia com a alquimia se torna, de certo modo, uma tese derrubada. Contudo, na contemporaneidade, há elementos dessas artes ocultas que podem ser utilizados para análises psicológicas das ciências e da antropologia do imaginário.

Anexo

Pico dela Mirandola

24-02-1463
20:38:56
Mirandola – Modena – Itália

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Gaston Bachelard

27-06-1884
11:00
Aubin – França

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Referências Bibliográficas

BACHELARD, G. L’engagement rationalist. Paris: PUF, 1972.

DOUGHERTY, M. V. Pico della Mirandola: New Essays. New York: Cambridge, 2008.

RIBEIRO, L S. Linguagem, Retórica e Filosofia no Renascimento. Lisboa: Colibri, 2004.

_____. O Espírito da Letra. Ensaios de hermenêutica da modernidade. Lisboa: INCM, 2007.

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