Traduções

Literatura Astrológica na Espanha no Século XVII

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Tayra Lanuza-Navarro

Universitat de València, Departament d’Història de la Ciència i Documentació
The Colorado Review of Hispanic Studies | Vol. 7, Fall 2009 | pages 119–136

Tradução:
Rachel Zaniboni
rachelzaniboni@bol.com.br

Quando escreveu sua Religião e o Declínio da Magia, Keith Thomas destacou que os tópicos que ele considerou, incluindo a astrologia, não eram peculiarmente ingleses, e disse que um exercício em comparação com a história seria desejável, mas impossível até que os dados de cada país fossem devidamente montados. Quase quarenta anos depois, este exercício em história comparada ainda não é possível e os numerosos trabalhos astrológicos impressos nos diferentes reinos da monarquia espanhola durante o período moderno não foram estudados sistematicamente. O desejável exercício da história comparada proposto por Thomas deve começar com fontes de conhecimento, que ainda faltam para o caso de muitos países europeus.1

1 Até recentemente. No estudo da astrologia no início da Espanha moderna, ver minha dissertação: Astrología, ciencia y sociedad en la España de los Austrias.

Astrología, ciencia y sociedad en la España de los Austrias

Resumen: El propósito principal de esta investigación es conocer la realidad de la presencia de la astrología en la sociedad española del siglo XVII, y su participación en diversos aspectos de la vida humana, como los ámbitos político, histórico o religioso, en los distintos grupos sociales e integrada en un mundo académico y científico del que formaba parte. Se ha estudiado como inicio la organización de la actividad astrológica y la posición social de los cultivadores de esta disciplina. Así, se ha comenzado por el estudio institucional. El estudio se ha organizado en varios apartados. Tras una breve descripción de conceptos y de los textos utilizados como fuentes, el estudio se inicia con el capítulo sobre la astrología y la sociedad, en el que se analiza la situación de la astrología en las instituciones, los pronósticos de mayor impacto social, y la presencia de la astrología en la vida cotidiana. El capítulo tercero se centra en las cuestiones de la relación entre la astrología y la política, los pronósticos políticos realizados, y la presencia de la astrología en la corte española. El cuarto capítulo se refiere a las relaciones entre la astrología y la religión, y se plantea analizando los argumentos que a lo largo de la historia fueron utilizados por las autoridades eclesiásticas y los teólogos para atacar la astrología, y el modo en que los textos del siglo XVII reflejan los argumentos de defensa de la disciplina. Además se ha realizado un estudio de los procesos inquisitoriales en los que la actividad astrológica estuvo implicada. A continuación se encuentra el capítulo que estudia la interacción entre la astrología y la medicina, con la descripción de algunos tratados que expusieron la teoría de la medicina astrológica. Por último, el capítulo octavo se refiere a la situación de la astrología a finales del siglo XVII, analizando los textos de algunos de los llamados novatores, y las opiniones que expresaron acerca de la astrología; y haciendo también referencia a las distintas polémicas en torno a la astrología que se reflejan en los textos.

O objetivo deste trabalho é dar um primeiro passo em direção ao conhecimento astrológico com uma simples descrição e classificação dos primeiros trabalhos modernos espanhóis impressos. Os trabalhos descritos e comentados neste artigo são especificamente aqueles relacionados a astrologia que foi impressa na Espanha ou escrita por autores espanhóis e publicados no exterior durante o século XVII.2

2 A Espanha é usada no sentido amplo de qualquer das posses do rei espanhol, incluindo os reinos da Península Ibérica (Castela, Aragão e Portugal até 1640), as colônias americanas, (os vice reinos do México e do Peru, e as ilhas do Caribe), Filipinas, e qualquer outro território pertencente à monarquia espanhola.

Obras astrológicas espanholas

Tenho classificado as obras astrológicas de acordo com seu objeto. Existem trabalhos sobre cometas, eclipses, conjunções, repertórios, prognósticos anuais, calendários lunares, medicina astrológica, textos sobre fisionomia, defesas da astrologia e literatura anti-astrológica. Tenho classificado como repertórios, aqueles que geralmente falam sobre cosmografia, calendário e questões meteorológicas, e que foram tradicionalmente intitulados Cronografía o repertorio. Calendários lunares e prognósticos anuais foram organizados por título, no entanto, como vou explicar, na maioria dos casos a estrutura e conteúdo de ambos os tipos de trabalhos é o mesmo. Literatura anti-astrológica inclui obras que contêm assuntos fundamentalmente críticos contra astrologia, satirizando-a também.

Quase 1.200 trabalhos científicos espanhóis foram impressos durante o século XVII.3 Destes, quase 40 são relacionadas a astrologia. 117 deles se referem a cometas. Há 75 calendários lunares e mais de 32 prognósticos anuais, perfazendo um total de 107. 51 são prognósticos gerais e 24 deles são tratados gerais sobre astrologia. 37 são literaturas anti-astrologicas, e 12 obras que foram escritas para defendê-la. Há 15 obras sobre conjunções e 11 sobre eclipses. Existe, por enquanto 10 casos de repertórios e 8 obras sobre medicina astrológica, bem como 6 sobre fisionomia astrológica.

3 A compilação de dados sobre os trabalhos científicos publicados na Espanha ou por autores espanhóis durante o início do período moderno, incluindo este catálogo, é o resultado do trabalho de pesquisa de grupo dirigido por Víctor Navarro Brotons no Instituto de História de la Ciencia y Documentación (CSIC-Universidad de Valencia). Esses dados vêm sendo publicados no trabalho Bibliographia physicomathematica hispanica (1474-1900), com as informações relacionadas a trabalhos sobre disciplinas físico-matemáticas; volume I correspondente ao século XVI já foi publicado.

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Tratados

Autores espanhóis publicaram volumosas obras destinadas a estabelecer uma base geral para a astrologia ou qualquer uma de suas partes. Estes textos incluíram uma explicação de toda a teoria da astrologia ou de algum aspecto particular seu, como meteorologia ou medicina. Não existem tratados focados exclusivamente no prognóstico político, porque este aspecto da astrologia foi sempre considerado suspeito pelas autoridades eclesiásticas. Previsões astrológicas relacionadas a meteorologia ou agricultura, navegação e medicina foram consideradas astrologia natural, a qual foi autorizada pela Igreja Católica e reconhecida como válida nos círculos acadêmicos. Outros tratados tiveram seus objetivos principais como a defesa da astrologia; estes geralmente incluíram uma introdução com linhas gerais da disciplina.

Dos tratados astrológicos publicados nos reinos da monarquia espanhola durante o século XVII, o primeiro foi um tratado sobre cometologia, o Liber de cometis por Antonio Núñez de Zamora, que foi professor de astrologia na Universidade de Salamanca. Este trabalho foi principalmente um trabalho astronômico escrito com o objetivo de localizar o cometa do ano 1604 no céu. O Liber de cometis também continha uma discussão teórica sobre os fundamentos da astrologia e uma reflexão sobre as previsões baseadas em cometas. Foi obviamente dirigida à elite intelectual interessada em astronomia, em meio a polêmicas européias sobre a natureza e local dos cometas que seguiram à supernova de 1572. A última parte do texto, no entanto, foi um livro escrito em língua vernácula que foi um prognóstico relativo à conjunção planetária de 1603 e vários cometas.

Outro tratado foi escrito por um médico espanhol e impresso no México em 1618, intitulado Sitio, naturaleza y propiedades de la Ciudad de México. O autor, Diego Cisneros, explicou no mesmo os desenvolvimentos teóricos na meteorologia como causados por configurações astrais, bem como toda teoria sobre medicina astrológica.

A obra de Juan de Figueroa foi sobre medicina astrológica. Foi intitulado Opúsculo de astrología en medicina, e explicou as doutrinas astrológicas nas quais a prática da medicina estava ou, segundo a sua opinião, deveria ser baseada. Ele se referiu à importância da astrologia para o conhecimento do curso de doenças, a forma como elas devem ser tratadas de acordo com as posições das estrelas no céu e, acima de tudo, instruções sobre como sangrar e expurgar.5

5 Descrição exaustiva dos tratados mencionados e outras obras astrológicas impressas na Espanha durante o século XVII estão na minha Astrología, ciencia y sociedad en la España de los Austrias.

Panfletos

A maioria das obras astrológicas impressas na Espanha era de uma natureza diferente. Estas foram as obras que, no caso da Inglaterra, foram estudadas por Bernard Capp e referem-se a “imprensa popular”. Suas características comuns foram um curto número de páginas (normalmente), e que se concentram em fenômenos concretos, em eventos particulares ou sobre questões específicas, fazendo prognósticos astrológicos sobre elas, mas não desenvolvendo os princípios teóricos da astrologia, mesmo que se às vezes eles mencionam algumas idéias gerais. Tenho classificado esses trabalhos em vários tipos: calendários lunares e prognósticos anuais, trabalhos sobre cometas, previsões relacionadas a outros fenômenos e obras críticas satíricas.

Calendários lunares, almanaques e prognósticos anuais

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A palavra “lunario” foi originalmente usada para se referir a “mesas da Lua” e, portanto, a obras contendo efemérides. Tornou-se, no entanto, o título mais comum para obras astrológicas contendo prognósticos anuais durante os séculos XVI e XVII nos reinos espanhóis. O significado original da palavra “almanaque” era calendário, mas, no mundo de língua inglesa, foi amplamente usado para se referir a este tipo de prognósticos anuais. Mas nem todo trabalho intitulado lunario, ou calendário lunar, e nem todo almanaque necessariamente continham astrologia. Alguns calendários lunares impressos no século XVII eram simplesmente efemérides, e alguns almanaques são calendários litúrgicos.6

6 Esse é o caso das obras impressas em Málaga e escritas por Mateo López Hidalgo, mantidas no Archivo Municipal de Valência, fondo “Serrano Morales”.

De acordo com a tradição astrológica havia vários sistemas para fazer prognósticos para um determinado ano. Um deles consistia em fazer os corpos celestes que costumavam corresponder ao início de cada estação, ou seja, quando o Sol entrava na parte zodiacal do céu correspondendo a Áries e Libra, os equinócios da primavera e outono, e quando entrava Câncer e Capricórnio, ou seja, os solstícios. Estes pontos eram conhecidos como as “témporas”. Partindo dessas figuras celestiais, astrólogos fizeram prognósticos principalmente sobre o clima e sobre os melhores momentos do ano para administração de medicamentos, e para sangrar ou expurgar pacientes. Às vezes, quatro figuras a mais, as das conjunções do Sol e da Lua, eram adicionadas a estas para fazer previsões para o ano.

Outro sistema usado para fazer previsões astrológicas para um determinado ano foi baseado na teoria do “Senhor do Ano”. Uma vez que o astrólogo tinha os corpos mencionados ou apenas uma figura para o início do ano, ele estabelecia quais dos sete planetas ocupavam o lugar no céu dando-lhe um poder maior ou capacidade de influenciar na Terra, de acordo com critérios astrológicos. Levando em conta a posição e os aspectos de cada planeta, o astrólogo decidia que um deles ia ser o planeta mais influente para aquele período, e este foi nomeado o “Senhor do Ano”. Às vezes vários planetas em combinação eram considerados senhores do ano. De acordo com as influências atribuídas a cada planeta o astrólogo fazia o prognóstico geral para o exercício, “el juicio general del  año”. Ele geralmente continha previsões sobre o clima, sobre a agricultura e sobre questões de saúde para o ano também. A palavra julgamento, significando prognóstico astrológico, era o termo mais popular usado nos títulos de obras sobre astrologia ou para se referir a previsões.

Havia também prognósticos anuais não só dos começos das quatro estações, mas também de cada uma e todas as fases do Lua durante o ano. Neste caso, o astrólogo utilizava quatro figuras para cada mês, um por fase, e fazia as previsões usando todas elas. Quando os textos eram assim detalhados, eles geralmente continham previsões sobre o tempo específico que deveria ser esperado para cada dia do ano. Esta é a razão porque estes tipos de prognósticos eram conhecidos como “lunarios”.

Todos esses sistemas eram geralmente misturados e usados em combinação, e a eles os astrólogos muitas vezes adicionavam figuras para as conjunções planetárias e os eclipses que aconteceriam durante o ano.

A maioria das previsões em almanaques era meteorológica, porque o seu público-alvo era gente do campo. A tradição para este tipo de textos era usada por Ptolomeu como referência principal, porque ele tinha incluído nas regras do Almagest para as previsões sobre o clima, bem como sobre as fomes e epidemias, porque estas eram todas consideradas conseqüências naturais do tempo. Astrólogos faziam previsões sobre o tempo para cada estação e para cada mês, e depois de certo tempo, os almanaques misturavam-se com os calendários lunares e incluíam também previsões para cada dia do ano. A característica usual de almanaques de astrologia grega antiga subsequente foi a consideração dos aspectos dos planetas e particularmente as propriedades dos signos do zodíaco, onde o Sol e a Lua eram colocados em um determinado momento. Eles muitas vezes mencionaram também o nascer helíaco de algumas estrelas ou grupos, tais como Sirius ou as Plêiades, porque estes tinham sido tradicionalmente utilizados como referências em calendários rurais.

Vários historiadores têm estudado almanaques para o caso da precoce Inglaterra moderna (Thomas; Capp; Curry). De acordo com esses estudos, os almanaques eram, depois da Bíblia, a literatura mais popular na Inglaterra do século XVII. O texto geralmente continha três elementos: um calendário acompanhado de uma breve história seletiva do mundo; informação sobre os principais fenômenos astronômicos do ano; e previsões astrológicas, incluindo previsões políticas e religiosas.

No caso espanhol eu encontrei referências a setenta e cinco calendários lunares e trinta e dois prognósticos anuais que mantiveram a estrutura de “lunarios”. A estrutura dos prognósticos anuais, calendários lunares e almanaques escritos nos reinos espanhóis não correspondem exatamente ao esquema dos ingleses. Não contêm uma cronologia nem uma história do mundo, mas eles costumam começar referindo-se diretamente aos fenômenos astronômicos do ano, para fazer depois disso uma previsão geral baseada quase sempre na teoria do senhor do ano ou das quatro figuras das estações do ano, para acabar com uma previsão particular para cada mês ou dia. Previsões políticas e religiosas são normalmente encontradas no prognóstico geral. As previsões mensais são mais freqüentemente limitadas a astrologia natural, referindo-se à colheita e frutas, ao clima e a oportunidade de sangramento ou expurgar pacientes.

Um exemplo interessante desses trabalhos é o Pronóstico y lunario de Cadiz del año de mil y seiscientos y quarenta y dos, escrito pelo frade Salvador Arias de Sanabria, que era médico do rei de acordo com a primeira página. Um trabalho anterior desse autor foi retirado pela Inquisição em 1636. O autor incluiu uma nota curiosa na primeira página que dá uma idéia de quão costumeiros esses prognósticos anuais eram. Arias advertiu as pessoas que muitas falsas obras estavam sendo publicadas em seu nome. Para ajudar os leitores a identificar seus reais prognósticos, o autêntico seria emitido todo ano depois do Natal, impresso em Madri e assinado no início pela estamparia e no final por ele mesmo. Esse o caso da edição de 1642 mantido na Biblioteca Nacional (Arias, 1642). Assim, este médico publicou um prognóstico anual a cada ano, e ele foi tão bem sucedido que foi copiado e suas obras falsificadas.

O trabalho de Arias começou com os feriados eclesiásticos e listou os eclipses do ano. A previsão geral seguinte a estas é baseada em Júpiter, que Arias provavelmente considerou o senhor do ano. As previsões referidas a questões agrícolas, a doenças, ventos e terremotos. O trabalho de Arias diferia de outros prognósticos anuais dirigidos às classes populares em suas referências as bases gerais da astrologia. Ele escreveu vários parágrafos sobre as influências astrológicas, causadas pela luz e calor das estrelas, bem como por suas “qualidades ocultas”, na mais clássica tradição, com vários exemplos.7 Ele também explicou que os doutores da igreja “consienten al Christiano judiciario pronosticar las cosas tocantes a la navegación, medicina y agricultura, sin más juzgar, ni entremeterse en los juizios pendientes a la voluntad, o libre alvedrío de los hombres”.  Neste texto, o autor focou certamente em previsões, dentro dos limites da astrologia natural, provavelmente porque ele aprendeu sua lição quando seu trabalho de 1636 foi proibido pela Inquisição devido às suas previsões sobre os comerciantes, o rei, cargos eclesiásticos e questões políticas. O trabalho de Arias para 1642 continha as previsões habituais para todos os meses do ano, neste caso para todas as fases da lua, mas apenas sobre questões meteorológicas.

7 Para a atribuição de “qualidades ocultas” na tradição filosófica e astrológica ver, entre outros, Copenhaver, Millen, Henry, e Hutchinson.

Outro exemplo é o de Leonardo Ferrer, um professor da Universidade de Valência, no final do século XVII, ele escreveu muitos prognósticos anuais. Seu trabalho de1691 se encaixa na estrutura habitual: feriados, “témporas”, eclipses e os prognósticos gerais e específicos. No seu caso, a previsão geral é antes daquela dos eclipses. O que é interessante em seu caso é que ele fez todo tipo de prognósticos astrológicos, sobre política e assuntos religiosos, referindo-se ao governo do país e para os conselheiros do rei, para além das questões incluídas na astrologia natural. Estas previsões não-naturais estão também presentes para cada mês.

O último trabalho que vou descrever foi escrito por Bachelor Juan Sáenz del Orduy. Seu Pronóstico de la revolución del año 1659 foi retirado de circulação pela Inquisição por causa de suas previsões, que estavam fora dos limites da astrologia natural. O trabalho tem a mesma estrutura de muitos outros: uma página de dedicatória, uma longa nota para o leitor e, em seguida, feriados, témporas, eclipses com seus efeitos (políticos) e o prognóstico geral para o ano, que inclui também todo o tipo de previsão. A maioria destes é marcada pela censura inquisitorial. A última parte é a previsão particular costumeira para cada mês limitada principalmente a questões médicas, meteorológicos, agrícolas e de navegação.

Cometas

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Os textos com prognósticos sobre cometas merecem ser examinados isoladamente. Este tipo de texto constitui quase 30 por cento das obras sobre astrologia publicadas na Espanha durante aquele século. Escritos sobre cometas são freqüentemente encontrados em todos os países europeus durante a Média e Início da Idade Moderna. Ambos os tratados sobre cometas e artigos com prognósticos sobre diferentes cometas são freqüentes na literatura espanhola do século XVII, e 117 obras (cerca de 400 publicadas) foram localizados. Além disso, ele tem que ser levado em consideração que autores espanhóis tiveram como principal obra de referência sobre o tratado de cometas de De cometis, por Francisco Fernández Raxo (1579), que teve uma grande distribuição.

De acordo com Thorndike, um dos primeiros tratados medievais sobre cometologia foi escrito na Espanha por um autor anônimo na primeira parte do século XIII, e consistiu de uma amálgama de física Aristotélica e astrologia Árabe-Ptolomaica. Este trabalho tinha uma estrutura que, de acordo com Thorndike, tornou-se o sistema padrão para falar sobre aparições de cometas: em primeiro lugar, a natureza dos cometas, sua geração e tipos; segundo, sua importância de acordo com a cor, a localização, posição em relação aos planetas, tamanho, etc.; em terceiro lugar, as conseqüências dessas aparições de uma perspectiva geral e, finalmente, exemplos de observações anteriores de cometas e seus efeitos. Essa estrutura, com variações insignificantes de organização, é o da maioria dos trabalhos de Castilla, Aragón e Portugal do século XVII, embora alguns deles discutem muito pouco as questões sobre definição, geração e tipo de cometa, por outro lado concentram-se em sua morfologia, cor e significado.

A literatura sobre cometas apareceu comumente misturada com dissertações sobre prodígios e monstros. Não só os cometas eram sinais divinos, mas também luzes permanentes, tochas, “exércitos celestes”, estrelas diurnas e, além disso, estranhos nascimentos e outros tipos de fenômenos. Este tipo de literatura sobre cometa era bem-vindo nas obras acerca de prodígios, trovas e crônicas no início da idade moderna, e eram vistos como eventos prodigiosos contra a natureza, e conseqüentemente atribuídos a vontade de Deus. Um exemplo desse tipo de literatura é o tratado de Juan de Victoria, Libro de los cometas, phenomenones y portentos (Victoria, 1596). A discussão dos trabalhos dedicados aos cometas a partir do ano 1618 dará ao leitor uma noção geral desses trabalhos.

Os cometas de 1618

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O tratado de Vespasiano de Bargas sobre os primeiros dois cometas observados em 1618 foi de trinta e duas páginas. Consistiu na aprovação e licença, uma dedicatória e prefácio, antes do início do texto. Tem várias partes: um primeiro discurso geral sobre os cometas, que os definiram e indicaram que eles eram “o trabalho das principais conjunções”, seguido por uma descrição de seus aspectos, forma, número e cor. Este primeiro discurso também detalhava as finalidades dos cometas como sendo limpar o chão das exalações e ser um sinal divino, dando vários exemplos de cometas anteriores “para confirmar essas palavras”. Então os efeitos gerais dos cometas eram descritos: alterações, epidemias, e períodos de escassez, terremotos, e as mortes dos reis. E seguiu com um segundo discurso “sobre os dois cometas observados neste mês de novembro de 1618.” Esse descreveu, em primeiro lugar, a localização e a forma do primeiro cometa. A segunda parte seguiu focada nos efeitos do cometa, com prognósticos sobre assuntos políticos e doenças. A terceira parte foi sobre as províncias e cidades que iam sofrer os efeitos. Em seguida, o tratado começou a descrever o segundo cometa: localização, forma (“nomeada pelos árabes de dominus ascone”) e, finalmente, seu significado. Esse também indicou os locais afetados, e o texto terminava com uma indicação do momento em que os efeitos começariam, e o tempo que eles durariam, este último tópico acabou sendo muito debatido pelos astrólogos e seus críticos. A característica particular do tratado Bargas é que ele contém um número de páginas no final indicando quais medidas poderiam ser tomadas para prevenir aqueles problemas anunciados pelo cometa. Estas páginas recomendam medidas públicas de saúde e procedimentos para evitar doenças.

O Discurso de Juan Casiano consistiu em dezesseis páginas. Seguindo a licença e a “taxa”, o discurso foi claramente estruturado. Primeiro, a definição de cometa e exemplos históricos. Em seguida, a descrição do cometa 1618: morfologia, cor, localização no céu (entre Libra e Virgem) e seus movimentos. Depois houve uma explicação de seus aspectos (exalações), sua causa (uma conjunção) e sua natureza (de Saturno e Vênus). O discurso continuou a indicar o momento em que os efeitos teriam lugar e, finalmente, fez prognósticos, mostrando primeiro que o homem deve fazer penitência para o perdão de Deus. Também foram incluídas previsões sobre cidades, doenças e os locais onde ocorreriam esses efeitos.

O trabalho de Ferragut sobre o cometa de 1618 era de dezesseis páginas. Depois da licença, o discurso iniciou-se se referindo aos aspectos (exalação), movimento, os tipos de cometas e a cor. Foi seguido pelo prognóstico: como sinal de Deus e como um sinal natural. De acordo com Ferragut, o cometa significava desgraça e tragédias, epidemias, doenças, guerras, infertilidade, inundações, terremotos e morte de príncipes. Ferragut também comentou sobre o livre arbítrio e defendeu que, às vezes, os cometas não eram causa de infelicidade, mas um sinal disso. O discurso seguiu com o prognóstico de cometas que apareceram em novembro. O primeiro cometa era do tipo pertica e jovial, isto é, da natureza de Júpiter. O segundo cometa era, de acordo com a forma, dominus ascona, mas milhas de acordo com sua cor de Vênus. Foi localizado em Libra. O discurso faz vários prognósticos sobre doenças, ladrões e naufrágios, indicando os locais afetados e concluindo que para Espanha era um evento feliz pois afetaria seus inimigos.

O discurso de Antonio Luciano era composto de nove páginas. Era dividido em duas partes, intitulado primeiro eclipse e segundo eclipse. Na primeira parte ele descreveu o primeiro cometa em Escorpião e seus movimentos. Sobre o tipo, ele identificou-o como biga, de acordo com as indicações de Ptolomeu. Ele seguiu com as causas: as conjunções, e concluiu com as previsões gerais sobre agricultura e meteorologia, mas também sobre as mudanças das leis. A segunda parte descrevia brevemente o segundo cometa, afirmando apenas que esse estava localizado em Escorpião e tinha importância semelhante.

Pedro Mexía escreveu também um texto de trinta e uma páginas sobre os cometas de 1618. Ele continha licenças, uma dedicatória e um discurso. Ele considerava os cometas como sinais de Deus e usou exemplos históricos. Ele se referia aos efeitos gerais citando Bede e Isidoro de Sevilha, e então passou a definir os cometas e seus tipos. Ele também afirmou que eles eram causados por conjunções e descreveu os locais em que foram observados: o primeiro em Libra. Os efeitos prognosticados incluíam guerras e assuntos políticos e de negócios, incluindo os locais onde estes efeitos aconteceriam. Os prognósticos foram classificados de acordo com as formas adotadas pelo cometa, que eram quatro em sua opinião. Em relação ao segundo cometa, ele indicou que estava em Escorpião, e fez muitos tipos de prognósticos, com mais exemplos do passado. Ele também atribuiu os locais indicados por este segundo cometa e concluiu afirmando que era necessário pedir misericórdia a Deus.

O Discurso feito por Cristóbal de Montalvo foi de 176 páginas. Ele consistiu de uma aprovação e licença, seguido de uma dedicatória. Em seguida, um prefácio para o leitor sobre o livre arbítrio. O discurso seguiu. Ele indicou que o cometa estava localizado em Virgem, e, portanto, afetaria os lugares por ele listados. Ele fez prognósticos gerais e explicou os efeitos das grandes conjunções. Nesse ponto, ele indicou vários prognósticos políticos e médicos e, novamente, lista os locais afetados. O ‘Senhor’ do segundo cometa foi Júpiter, disse ele, e isso mostrou a cor do estanho. Ele ressaltou sua causa e observou eventos que aconteceram em Granada como conseqüência do cometa. Neste ponto, ele se referiu a vários exemplos históricos, fez previsões políticas e atribuiu Sagitário a Espanha como seu signo apropriado, descrevendo as características do povo espanhol como resultado deste signo. O texto conclui com mais prognósticos políticos e previu o fim do Islã. Por fim, ele escreveu o laus deo.

O texto de Antonio de Nájera, escrito em português, é composto por vinte e seis páginas. Ele contém a licença e o imposto, e o texto é dividido em vários discursos. O primeiro deles, sobre cometas em geral, consistiu-se de exemplos de cometas anteriores, e os efeitos que a eles atribuídos. O segundo discurso explicou o que os cometas são e concluiu com uma definição de cometas como exalação. O terceiro discurso citou os efeitos gerais dos cometas e, como causas naturais, ele atribuiu a eles ventos, epidemias e terremotos, assim como algumas doenças. Ele também indicou que os cometas causaram guerras. Há um quarto discurso, no qual ele tratou os cometas como sinais de Deus, e prosseguiu escrevendo sobre astrologia natural, explicando os efeitos na agricultura, navegação e meteorologia que os cometas em geral tinham. Ele também listou os lugares que seriam afetados por esses efeitos. O quinto discurso continha o julgamento do cometa e onde estava localizado em relação aos planetas. O sexto e último discurso – limitado a astrologia natural – continha todos os prognósticos sobre o cometa. Esse concluiu com uma lista de locais afetados, a duração dos efeitos e a hora em que se dariam. Antonio de Nájera indicou que a Espanha não seria afetada pelas tragédias e terminou o texto com o laus deo.

Miguel Pedro escreveu uma Iuzyo de catorze páginas. Ele falou sobre a natureza dos cometas, os tipos, características (de acordo com o planeta que os havia criado) e formas. O cometa a que ele se referia afetaria frutas, e traria guerras. Ele indicou que os cometas sempre sinalizaram terremotos, e descreveu a teoria das exalações. Ele explicou que, de acordo com Ptolomeu, informações relevantes derivaram do lugar e do signo de um cometa, sua cor e morfologia, seu tamanho, duração, movimento e a direção apontada pela cauda do cometa. Conseqüentemente, ele descreveu todos esses recursos do cometa de 1618, que se localizou em Libra. Em seguida, ele escreveu os prognósticos, que incluem a morte de um rei, e os locais, horários de início e duração dos efeitos.

A tradução do escudeiro do rei da França, feita por Diego Álvarez de Salcedo, tinha quinze páginas. Este texto organizado de forma diferente do resto dos escritos por autores espanhóis e os prognósticos que ele contém são de um tipo diferente. Primeiro, foi escrito para o rei, que descreve o cometa para ele. Ele fez avisos muito específicos, como o de que o rei não deveria sair do palácio ou não devia falar com uma mulher loira. Fez prognósticos políticos, acerca de motins, desgraça para a Inglaterra e Espanha, bem como para Constantinopla. Ele também previu a morte de um rei. O texto conclui-se afirmando que ele não incluía uma explicação das regras astrológicas sobre a qual foi baseado nem uma discussão sobre a natureza material dos cometas, porque isso seria simplesmente ostentação. Finalmente, ele indicou que o rei tinha o direito de pedir-lhe as razões sobre as quais o discurso foi fundado.

O trabalho de Juan de Soto, de nove páginas, foi organizado seguindo o esquema clássico: esse explicou o que o levou a escrever o texto e depois começava com a causa material dos cometas, sua definição (como exalações), a causa efetiva (um planeta) e a causa final (os sinais de Deus e os efeitos naturais das exalações). Isso foi seguido por uma descrição geral dos efeitos dos cometas, além do discurso do cometa 1618, que incluiu os prognósticos políticos.

O trabalho de Bartolomé del Valle, “Explicación y pronóstico de los dos cometas”, era quase um livro, uma vez que tem quarenta e oito páginas. Este texto foi dividido em quatro partes. Duas delas eram discursos sobre os dois primeiros cometas do ano, com cada tipo de prognóstico incluindo forma, cor e movimento do cometa, bem como localização. As duas últimas partes foram duas detalhadas descrições do céu em junho, para a conjunção de Saturno e Marte, um delas para a latitude de Granada e a outra para a latitude de Constantinopla. É notável que, no final do texto, o autor citou todas as críticas da astrologia feitas pela Igreja Católica e terminou afirmando que os cometas não podem ser usados para fazer prognósticos sobre guerras, epidemias, novas leis ou seitas, porque “nossas vontades não são submetidas ao céu”. O que é surpreendente, pois o autor tinha feito anteriormente isso.

Prognósticos sobre outros fenômenos: eclipses e conjunções

Cada vez que um evento astronômico acontecia era considerado extraordinário, vários textos apareceram com suas correspondentes previsões astrológicas. Este não foi só o caso dos cometas, mas também dos eclipses do sol e da lua, e das conjunções de diferentes planetas. Onze trabalhos deste tipo são sobre eclipses e há quinze que falam de conjunções.

Embora, como temos visto quase todos os prognósticos anuais continham um breve parágrafo muito dedicado a eclipses que iriam acontecer naquele ano, em alguns casos, especialmente se fosse eclipse solar total, trabalhos sobre eles foram publicados logo após eles serem observados. Este foi o caso do eclipse de 1684, que atraiu muita atenção, e sobre o qual mais do que um escrito está disponível. O primeiro foi escrito por um médico, Pedro Barrada de Oliveros y Vela. O texto está organizado sem divisões. Barrada começa por explicar que o Sol era a estrela “de suprema dignidade e régio” e que Deus criou o universo e corpos celestes para governar o mundo. Ele defendeu a astrologia, citando Adão como o primeiro astrólogo e citando São Tomas e Manilius. A segunda estrela, de acordo com Barrada, era a Lua. Desta forma, ele explicou que os eclipses eram “nada mais do que falta de luz solar que normalmente brilha sobre nós. A causa do eclipse do sol é a interposição do corpo opaco e denso da lua, entre a estrela solar e nossos olhos”. Então Barrada datou o eclipse, que aconteceria em 12 de julho, detalhando que este iria acontecer às duas horas e trinta e sete minutos, e que “o sol seria totalmente ofuscado, causando desânimo e desespero”. Ele continuou indicando onde no céu o eclipse iria começar (a nona casa), e onde ele poderia ser encontrado por quão tempo ele durasse. Após esta informação, ele escreveu o prognóstico astrológico, segundo a qual o eclipse seria prejudicial para o Império Otomano. Previsões foram feitas sobre colheitas e frutas, e sobre a futura morte de um rei ou príncipe e, as vitórias militares das tropas espanholas. Em seguida, Constantinopla foi referida como exemplo histórico, e o texto conclui-se por indicar onde os efeitos do eclipse iriam ocorrer e quando (dois anos mais tarde, ele afirmou).

Outro discurso sobre o eclipse de 1684 permanece anônimo. Pode ser uma previsão não assinada por Leonardo Ferrer, professor em Valência, porque a estrutura deste trabalho é muito semelhante a alguns de seus discursos. As afirmações astrológicas encontradas no trabalho correspondem às crenças deste frade agostiniano. O texto está organizado em três partes: primeiro um prólogo dirigido ao leitor, onde o autor explica que Deus é a causa primeira e que as estrelas são seus instrumentos (de acordo com a tradição astrológica cristã) de modo que “as criaturas elementares vivem subjugadas às suas destinação soberana”. Este autor indicou que “aunque es cierto que el eclipsarse el Sol y la Luna son causas de la astrología natural, también debemos agradecer a la judiciaria el haber descubierto este secreto, rebelándonos los vaticinios de Eclipses (…), que siempre han sido anuncios de grandes desdichas”. A parte seguinte foi intitulada “explicación del orbe o rueda”, onde o autor tentou explicar astronomicamente como um eclipse acontece. A terceira parte foi o prognóstico sobre o eclipse, datada e localizada nos céus. O autor fez algumas previsões agrícolas, mas as profecias foram principalmente de natureza política: guerras, derrotas, regiões devastadas, vitórias dos Habsburgs. Ele acrescentou quando os efeitos aconteceriam, de acordo com ele entre 1685 e 1688.

O trabalho sobre o eclipse do ano de 1600 escrito pelo professor Salamanca, Antonio Núñez de Zamora, é interessante porque revela uma maior capacitação matemática em relação a outras obras similares, e contém dados astronômicos. Zamora declarou a hora e o local do eclipse, e, em seguida, compôs a figura celeste para a hora de início do eclipse, para “o meio do eclipse”, e para o fim. Nestas figuras ele indicou a ascensão reta do sol, a ascensão oblíqua do ascendente, o grau de cada signo onde cada planeta foi colocado e as casas astrológicas. Nesta base Zamora estabeleceu o “senhor” do corpo celeste e explicou os aspectos entre os planetas. Em primeiro lugar ele fez previsões meteorológicas, agrícolas e médicas, mas, em seguida, Zamora fez previsões políticas, tais como guerras, tumultos, exílios, violência e a morte de um rei e de um eclesiástico. No final da obra ele indicou as datas em que os efeitos dos eclipses começariam e os locais onde eles ocorreriam. No mesmo trabalho que ele fez outro prognóstico sobre o eclipse lunar daquele ano, que é organizado exatamente do mesmo jeito, e contém o mesmo tipo de previsões.

Para o caso das conjunções existem vários textos que podem servir como exemplo. O primeiro é o quarto livro da obra Liber de cometis de Núñez de Zamora, comentado acima. Nele, o autor explicou a teoria das grandes conjunções, citando Albumasar e faz muitas previsões com base na conjunção de Saturno e Júpiter de 1604. Mas apesar da importância deste trabalho, o texto principal sobre conjunções nos reinos hispânicos do século XVII foi o trabalho de um médico valenciano da cidade de Xativa: Francisco Navarro. Este trabalho tornou-se texto de referência a todo autor espanhol que resolveu escrever sobre conjunções desde sua publicação em 1604. Francisco Temudo e Cristóbal López de Cañete, autores de outras obras sobre conjunções, citou Navarro e até mesmo copiou parágrafos inteiros sem atribuição, uma prática freqüente. Não há dúvida de que o Discurso sobre a grande conjunção de Navarro, publicado em 1604, desempenhou um papel importante na divulgação da teoria das conjunções em Castela e Coroa de Aragão durante este século, porque esse foi citado em quase todos os trabalhos posteriores onde esta teoria astrológica foi mencionada, mesmo naqueles que não tratam especificamente de conjunções.

O trabalho de Navarro foi organizado em cinco partes, após a dedicatória ao rei: a primeira parte definiu grandes conjunções e explicou as bases gerais da teoria, seguindo Albumasar. Então Navarro fez previsões sobre os efeitos da conjunção de 1604. Muitos delas eram políticas, particularmente relacionadas ao governo do país, e também de natureza religiosa, insistindo na vitória do catolicismo sobre o Islã. Na segunda parte Navarro listou os países e cidades que sofreriam os efeitos da conjunção. Na terceira parte ele se referiu ao tipo de homens que seriam afetados por ela. De acordo com o signo ascendente de cada pessoa, ao planeta “senhor” da figura de seu nascimento e de outras características astrológicas, o eclipse seria favorável a alguns e desfavorável a outros. Navarro explicou em maiores detalhes a teoria astrológica das conjunções e inseriu questões cronológicas, incluindo uma lista de conjunções do passado com seus supostos efeitos. A quarta parte do trabalho é a principal, focada em demonstrar astrologicamente que o Islã declinaria, e que os países muçulmanos sofreriam problemas políticos e derrotas militares. A quinta e última seção detalha quando esses efeitos viriam a ocorrer. O texto conclui-se com uma seção que não é de natureza astrológica e na qual Navarro referiu-se a Bíblia e a certas profecias religiosas para apoiar suas afirmações.

Trabalhos críticos e satíricos

Ao longo do século XVII vários temas astrológicos desempenharam-se em prensas espanholas. Alguns autores criticaram a astrologia e outros a defenderam. Os textos não têm uma estrutura comum. Vou me referir a alguns dos trinta e sete trabalhos críticos e satíricos, e aos doze publicados em defesa da astrologia.

Um exemplo de trabalho satírico é o Discurso astronômico e prognóstico geral de 1683 até o fim do mundo, assinado comicamente por um “Bacharelato Carambola”. Este trabalho está organizado exatamente da mesma forma que os prognósticos anuais e o calendário lunar. Esse inclui uma dedicatória, uma aprovação e licença, e até mesmo uma errata no início. Ele prossegue com feriados, previsões de eclipses, e um prognóstico geral para o ano. O autor detalha as datas das fases da lua com uma previsão de “alterações do ar” para cada mês e, finalmente, previsões específicas. Todo o texto é escrito em um tom de escárnio e sátira, referindo-se não só a astrologia em si e aos autores de obras astrológicas, mas também, às vezes, a situação social do momento. O texto é “dedicado” à Piscatore de Sarraval e a Francisco Temudo. O objetivo deste trabalho foi claro desde o início: “Dedico este discurso astronômico a você, de modo que, comparando minhas verdades com suas mentiras, você vê quão mal informados sobre estrelas você é”.8 O autor disse que poderia sofrer o que estes astrólogos mentiram sobre os céus enquanto vivos, mas ele não podia suportar suas mentiras após eles morrerem.9 O mencionado Piscatore de Sarraval foi o autor de algumas previsões astrológicas que foram bastante populares durante o século XVI e das quais várias edições foram impressas durante o século XVII. De acordo com o “Bacharelato”, ele estava enviando um prognóstico a cada ano da outra vida, e isto já era muito.10

8 “Dedico a vuestras mercedes este astronómico discurso, para que cotejadas mis verdades con sus mentiras, conozcan quán mal informados están de las estrellas”.

9 Que estos astrólogos, decía el autor, “siendo vivos, mintiessen de los cielos, vaya, pero mentir después de muertos, no me lo mienten”.

10 “que el señor Piscatore nos regale con puntas de Milan, texidas por el signo que las tiene, es dar lo que sobra, pero embiarnos cada año desde la otra vida embustes por encages, es socorrernos con lo que no nos falta, y acreditar la ignorancia de sus vaticínios”.

Estas obras satíricas zombavam das previsões astrológicas de duas maneiras principais. A primeira delas dizia que muitas delas nada mais eram do que trivialidade. A segunda zombou das técnicas astrológicas e da astrologia, caracterizando-a como um conhecimento inútil. Por exemplo, do primeiro tipo era esta declaração do “Bacharelado Carambola”: “Considero el polvo que habrá sacudido vuestra merced señor Piscatore, a los estantes de su librería, para asegurarnos que en los meses de invierno habrá vientos, lluvias, y nieves, y en particular en los montes”. Ele continua: “hablando del estío, asegura también que será una estación caliente y seca”. Ele riu de técnicas astrológicas, dizendo, por exemplo, que os astrólogos haviam aprendido “lo retrógrado de um cangrejo,” e “de Nebrija, las conjunciones”. A suposta aprovação da censura e a licença do trabalho também foram em tom de brincadeira. O corpo do texto contém o mesmo tipo de declarações e ironias óbvias, tais como “Saturno, el tragador, pronostica ganas de comer en los hambrientos” ou que “la abundancia de lantejas manifiesta melancolía a los que no tuvieren con qué comprarlas”. O autor fez uma afirmação interessante no final do seu trabalho, estabelecendo uma distinção entre astrólogos populares e autores acadêmicos. “El tema de este papel no se encamina a los doctos, que me enseñan, sino a los ignorantes que me enfadan”, escreveu ele. Ele considerou ignorantes aqueles autores que acreditavam no determinismo. Ele concluiu dizendo que “con lãs burlas deste papel pretendo apoyar estas verdades; si lo consigo, he logrado el fruto del trabajo; pero si la obstinación perseverare, me disculparé con que lo dije de chança”.

Muitos outros textos deste tipo foram publicados no século XVII, contendo principalmente insultos e sarcasmo. Alguns exemplos são o Discurso astronómico, supusación infalible, y mysterioso desempeño del arte chabalística sobre los efectos del cometa que apareció en nuestro orizonte este presente año de 1682. Sacola por alambique el Bachiller Caramesola; as obras de autores que assinavam com nomes ridículos, como “Chirlimirli Garibandi Burlon”, cujo trabalho foi intitulado Pronóstico redículo, verdadero, y gracioso, del año 1656; Benedel Tirlimon de la Maula, com seu Pronóstico nuevo, iocoso, verdadero, y general del año MDCLIIII, ou o Discurso seuo-iocoso sobre la poca subsistencia de los pronosticos, por Pedro González de Godoy.

Além destes, também houve trabalhos que criticavam a astrologia sem usar a sátira. Esse é o caso de algumas obras já mencionadas por Cotarelo, como o de Padilla Tratado contra la astrología judiciária (1603); o trabalho de PalomaresDestierro de pronósticos (1613); ou publicação latina de Carreras, De vario omnique falso astrologiae conceptu (1657), contra astrologia judiciária.

Conclusões

Não pode haver dúvida que os textos astrológicos tiveram grande sucesso e enorme difusão no início da Espanha moderna. O número de trabalhos publicados sobre o assunto não deixa dúvidas. Quase um terço dos trabalhos relacionados a atividade científica foram trabalhos astrológicos. Mas há astrologia não apenas em almanaques e obras astrológicas. O conhecimento da prática de astrologia deve também levar em conta os conteúdos astrológicos encontrados na literatura estritamente científica, como os tratados astronômicos sobre Sphaera, trabalhos sobre cosmografia, navegação, teoria astronômica, instrumentos científicos, filosofia natural, cronologia, descrições e previsões de fenômenos astronômicos (cometas, luas novas, conjunções), livros de segredos e obras enciclopédicas. Os contextos políticos, sociais e culturais onde esses trabalhos foram produzidos devem também ser levados em conta, de modo que a formação dos profissionais da astrologia, seu status social e suas atividades intelectuais possam ser entendidos a partir de uma perspectiva comparativa. Ainda há um longo caminho para estabelecer o conhecimento sobre a prática da astrologia no caso da Espanha, bem como em vários outros países, de modo que o exercício comparativo que Keith Thomas propôs há muito tempo seja possível.

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