Astrologia e Astrólogos

Discurso Astrológico

Um Gesto de Interpretação no Horóscopo da Revista Capricho

Ana Júlia Tavares Staudt

Resumo

Este trabalho é fruto da pesquisa em andamento da dissertação de mestrado, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Estudos e Linguagens do Departamento de Ciências Humanas, Campus I, da UNEB. Tal estudo consiste em apresentar uma descrição acerca do horóscopo suportado no conhecimento milenar do estudo da astrologia e o horóscopo, propriamente dito, divulgado na revista mensal Capricho, da Editora Abril Cultural, direcionada a adolescentes. Buscou-se depreender a análise dos aspectos relacionados à compreensão de sentido e à materialidade presente, no texto. Para tanto este estudo constitui-se da explicação de um mapa astral, envolvendo todos os elementos que o constituem (signos, casas zodiacais, elementos, aspectos). A referida pesquisa fundamenta-se na análise do discurso francesa, que tem como representantes Michel Pêcheux, Orlandi e demais estudiosos. A partir do corpus horóscopo da capricho, buscou-se interpretar as condições de produção – sujeito e sentidos – formações discursivas, formações ideológicas, formações imaginárias. Esta é a questão que se procura descortinar na opacidade do texto em um gesto de interpretação.

1. Introdução

Este trabalho é fruto da pesquisa em andamento da dissertação de mestrado, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Estudos e Linguagens do Departamento de Ciências Humanas, Campus I, da UNEB. No presente texto, tem-se por objetivo apresentar uma reflexão acerca do horóscopo que se baseia no conhecimento praticado há milênios acerca da astrologia, divulgado na revista mensal Capricho, dezembro de 2014 da Editora Abril Cultural, direcionada a jovens adolescentes. Buscou-se depreender a análise dos aspectos relacionados à compreensão de sentido e a materialidade presente na previsão astral. Considerou-se a construção de sentido para um público jovem, na faixa etária de 12 a 19 anos, observando as estratégias de construção discursiva e os efeitos de sentidos que desejam produzir. Para tanto, faz-se um breve estudo dos elementos que constituem um mapa astral, a trindade astrológica: signos, planetas e casas. O conhecimento astrológico mantem-se até os dias de hoje, principalmente, divulgado em revistas, jornais, almanaques sites etc. Tem-se como objetivo um gesto de interpretação no horóscopo divulgado na revista Capricho. Este estudo está fundamentado na análise do discurso francesa, que tem como representantes Pêcheux, Orlandi e demais estudiosos da análise de discurso. A partir do corpus, busca-se interpretar as condições de produção, formações discursivas, formações ideológicas, formações imaginárias. Para iniciar, traça-se um breve histórico da análise do discurso, em seguida, situa-se o papel das revistas no mass mídia, discorre-se acerca da astrologia e a composição da carta astral – fotografia do céu no momento do nascimento, e, por fim, apresenta-se em um gesto de interpretação do corpus em questão, o horóscopo da Capricho.

A questão que se procura responder na opacidade do texto desenvolve-se em torno das condições de produção que se dão na formulação dos dois eixos: o da memória (constituição) – interdiscurso – e o da atualidade-formulação, intradiscurso, aquilo que se está dizendo naquele momento em condições dadas, dizeres já ditos, mas esquecidos na memória. Que relação de forças e em que lugar e posição este sujeito é constituído do que ele diz, ou melhor, que determina o que pode e deve ser dito por ele. É a partir do intradiscurso que o histórico e o ideológico e a memória discursiva já se revelam no gesto de interpretação.

2. A análise do discurso

O artefato teórico da análise de discurso não é mais hermético quanto nas fases anteriores, mesmo a produção discursiva apresentando uma relação de forças na discursividade. O interdiscurso é considerado assim como a sua heterogeneidade somada à instabilidade do discurso, este conceito encontra espaço na última fase da análise de discurso, denominada análise do discurso.

O discurso é maior que o texto, este se revela através da palavra em movimento, e é através da língua que o homem se manifesta. O objeto da análise do discurso é o discurso – efeitos de sentidos – e a língua é a condição de possibilidade para o discurso.

As condições de produção são essenciais para compreender o sujeito e a situação. No contexto imediato, sentido estrito, tem-se as circunstâncias de enunciação, resultando no intradiscurso cujos sujeitos assinam. O contexto amplo trata da memória, o contexto sócio-histórico, ideológico: quem fala antes em algum lugar. Portanto percebe-se uma relação entre o já dito e o que se está dizendo, além da memória que se insere no interdiscurso a qual se denomina memória discursiva, tornando possível todo dizer.

Dessa forma, tem-se no horóscopo da Capricho o contexto imediato representado pela própria revista e mais especificamente, a página do horóscopo e os sujeitos que a assinam. No contexto amplo revela-se através dos sentidos postos na sociedade em que se vive, ou seja, as instituições, mídia escrita que determinam as posições de autoridade/autoritarismo e obediência/opressão. Tudo isto interpelado pelo contexto sócio-histórico, ideológico.

Segundo Courtine, citado por Orlandi, o interdiscurso encontra-se no eixo vertical da constituição, representando todos os dizeres já-ditos, entretanto esquecidos na memória, esta é que permite o dizer daquele momento e das condições possíveis inseridas no eixo horizontal da formulação, denominado intradiscurso. Assim, é na relação estabelecida entre o interdiscurso (constituição do sentido) e o intradiscurso (formulação) que se tiram os sentidos.

Retomando o dito acerca das condições de produção e/ou condições de significação, estas condições, segundo Orlandi, se representam através dos sujeitos e da situação, também o modo como a memória instala-se imprime às condições de produção. Acrescenta-se ainda para melhor elucidar:

[…] condições de significação: o contexto histórico-social enquanto capaz de refletir o movimento entre o linguístico e o discursivo; a relação do implícito e do explicito; a relação de forças; a relação de sentidos; a antecipação; a relação do texto com os textos possíveis naquele contexto; a relação de dominância de um sentido sobre os outros possíveis. Se observarmos bem o que foi enumerado, percebemos que constitui o que se chama condições de produção de um discurso. Assim podemos dizer que as condições de significação são a especificação, para cada texto, de suas condições de produção.

Orlandi

No contexto imediato, nas condições de produção, tem-se as circunstâncias de enunciação e, no contexto amplo, incluímos o contexto sócio-histórico, ideológico, ou seja, o enfoque se faz nas formas elaboradas pela sociedade e os efeitos de sentidos que aí decorrem. As condições de produção são constituídas pelas formações imaginárias, que apresentam mecanismos de funcionamento do discurso e que são as relações de sentido, de antecipação e de relações de força.

Nas relações de sentido, um discurso aponta para outro, pois “todo discurso é visto como um estado de um processo discursivo amplo, contínuo” que resultam nas formações imaginárias. Nas antecipações, Orlandi esclarece:

E se fazemos intervir a antecipação, este jogo fica ainda mais complexo, pois incluirá: interlocutor faz da imagem que ele faz do objeto do discurso e assim por diante. Na relação discursiva, são as imagens que constituem as diferentes posições.

O mecanismo de antecipação regula a argumentação, pois o sujeito dirá de uma maneira ou de outra, podendo prever o seu interlocutor como cúmplice até o outro extremo ao prevê-lo como um adversário.

Nas relações de forças, encontra-se o lugar de onde o sujeito se constitui, a imagem que se tem do astrólogo, porque se trata do horóscopo e o lugar de onde ele fala, o conhecimento que se supõe ele ter para falar acerca daquele assunto – a autoridade para tal. Vive-se em uma sociedade hierarquizada, que distribui posições de mando e obediência, e desses diferentes lugares se faz valer a interação entre as pessoas e, consequentemente, as relações de força. Dessa forma não são os lugares que eles ocupam na sociedade que funcionam no discurso, mas as projeções que se possam fazer. Dizendo assim, é importante estabelecer a distinção entre lugar e posição do sujeito, aquele é a posição empírica, este é a posição discursiva e insere-se ao discurso. Assim não é a visão empírica do astrólogo, mas a sua posição discursiva produzida pelas formações imaginárias. Ainda, segundo Orlandi, há regras de projeção que permitem ao sujeito passar de uma situação empírica para uma posição discursiva, a significação do discurso constitui-se nessas posições, e esta significação encontra-se em relação ao contexto sócio-histórico e à memória.

3. A Revista Capricho

A revista Capricho foi criada em 1952 por Vitor Civita, primeiro título da Editora Abril e também a primeira revista feminina. Durante 30 anos, foi uma revista de fotonovelas, histórias de amor contadas em quadrinhos, mais a frente a revista insere moda, beleza e comportamento. Em 1982, a revista, que ainda era mensal e voltada para leitoras jovens de 15 a 29 anos, retira as fotonovelas e dá espaço a mais serviços de moda, beleza e comportamento. Em 1985, adota o slogan A revista da gatinha, cuja capa sempre foi representada por fotografias de modelos femininas. Na década de 1990, passa a ser quinzenal. O sonho de toda modelo era ser capa da Capricho, a partir de 1996, as fotografias de modelos que caracterizavam as capa são substituídas pelas fotos de ídolos preferidos das adolescentes. Em 2006, a revista passa por uma mudança radical, objetivando ficar mais moderna e atraente. O site passa a trazer conteúdos atraentes e há possibilidade maior de interação com as leitoras. Em 2014 passa a ser, novamente, mensal, nos dias de hoje, está presente na vida da leitora, no site, no celular, em produtos licenciados, games e eventos, explicando o mundo de um jeito simples e divertido, segundo sua nova proposta de público alvo: meninas de 13 a 17 anos.

4. Astrologia

A astrologia figura entre os primeiros registros do aprendizado humano e tem sua origem na Suméria, Babilônia, em torno de 4.000 anos a. C. Tabuinhas com símbolos astrológicos encontradas na biblioteca de Assurbanípal, em Nínive, revelam que os conhecimentos astrológicos eram aplicados a várias áreas da vida. Pode-se afirmar que este conhecimento era restrito aos interesses de poucos, consequentemente, ao longo do tempo, os astrólogos só serviam a poucos. Na Idade Média, depois da tomada de Alexandria, o estudo astrológico passa a se individualizar, a focar seu interesse na pessoa humana, ou seja, passa a se interessar pelo estudo do homem a partir da compreensão de sua essência, pois, neste período da história da humanidade, o homem era considerado como microcosmo. A igreja não via com bons olhos a prática do conhecimento astrológico, especialmente porque retirava do homem o poder de dirigir sua vida, seus atos, ferindo um dos princípios centrais da igreja: o livre-arbítrio.

Contudo, no início do período moderno, em função da criação da Academia de Ciências por Colbert, os estudos astrológicos não foram incluídos devido ao decreto de Luís IV, em 1682, condenando a difusão dos almanaques astrológicos e da produção das Efemérides e das tábuas das casas zodiacais, elementos de grande importância para estes estudos.

No mundo acadêmico, constitui-se em objeto de estudo em dissertações, teses e artigos, principalmente, na área da história, da filosofia, antropologia etc. Por exemplo, no Brasil, na Universidade de Brasília, em 2004, foi criado um curso de astrologia para pesquisadores (Escola de Extensão da UnB).

A trindade astrológica é formada pelos signos, planetas e casas e são estes elementos que constituem a carta astral, a fotografia do céu no momento do nascimento. Assim o estudo do mapa astral se constitui na percepção de que as relações simbólicas entre os corpos celestes são extremamente significativas e podem ser vistos como traçado do destino, aquilo que tem que ser feito, viver a experiência em diferentes níveis, conforme o entendimento daquele ser humano do qual se faz a interpretação astrológica. Tem-se, então os doze signos (áries, touro, gêmeos, câncer, leão, virgem, libra, escorpião, sagitário, capricórnio, aquário e peixes); os planetas Marte, Vênus, Mercúrio, Júpiter, Saturno, Urano, Plutão, Lua e o Sol e as doze casas de experiência que indicam os espaços terrestres considerados como o campo de ação dos signos e dos planetas. A grosso modo, entende-se desta maneira: as casas I representa o Eu, a II, realizações concretas, a III, a mente concreta, a IV, a família, a V, criatividade, a VI, a saúde, a VII, o Outro, o parceiro com quem nos associamos, a VIII, a transmutação, a IX, a mente abstrata, a X, a missão pública e social, a XI, a vida social, e a XII, o autossacrifício. Acrescenta-se, ainda os aspectos, calculados a partir das efemérides (tábuas elaboradas por astrônomos), a conjunção 0 grau, o sextil 60 graus, a quadratura 90 graus, o trígono 120 graus e a oposição 180 graus.

O mapa se constitui de um círculo dividido em 12 partes, medindo cada uma destas partes 30 graus, totalizando 360 graus, são as casas zodiacais. Na parte interior tem-se o símbolo de cada signo e os planetas distribuídos com seus aspectos de acordo com as efemérides, do dia do nascimento e/ou acontecimento que será interpretado. A partir destes dados, o astrólogo poderá iniciar a leitura do mapa astral. Assim, tem-se o cenário do evento em questão para que se possa interpretá-lo.

A astrologia se popularizou muito especialmente na sua forma dos astros do zodíaco. As pessoas de classes sociais diferentes, independente do nível de escolaridade, procuram manter-se informadas sobre os signos do zodíaco, seja lendo em revistas, jornais, almanaques, blog, sites, rádio. Inclusive há muitas revistas mensais que se dedicam exclusivamente a divulgar informações sobre os signos do zodíaco. Outras, voltadas para o público feminino, mantêm uma seção exclusiva para tratar do tema. Dentre estas se destaca a revista Capricho.

5. Um gesto de interpretação

Conforme dito anteriormente, a partir deste momento, foca-se no contexto imediato, considerando o corpus selecionado, trata-se da edição Capricho mensal, voltada para adolescentes, dezembro de 2014. A revista é constituída de 94 páginas e se compõe de pequenos artigos e reportagens diversas. O índice sob o título de busca, elenca os seguintes títulos: Famosos, Pôsteres, Beleza, Moda, Você, lugar em que o horóscopo está inserido. A astróloga Luciana Martins faz as previsões do horóscopo, oriundo da palavra grega horoscopus, que significa “consideração da hora” ou “consideração do grau ascendente”, ou seja, horóscopo é o “mapa do tempo”. Retomando não é por acaso que a revista se chama Capricho (A melhor amiga da garota brasileira), também pode-se pensar em um dos significados do vocábulo, obstinação em alguma coisa sem razão de ser, próprio do ser/estar adolescente. Todas estas características compõem o sentido do texto, incluindo o suporte utilizado e não outro, no caso uma revista.

No texto do horóscopo, propriamente dito, nas condições de produção dadas, tem-se os sujeitos, de um lado o enunciador (astrólogo) e de outro as leitoras da revista (adolescentes), que autorizam o dizer, a ação do sujeito a falar sobre tal assunto; o sujeito é quem tem autoridade para falar, pois sabe, conhece o assunto.

O sujeito desloca-se do lugar para a posição e vice-versa como foi dito já anteriormente, ora como astrólogo ora como conselheiro. Deve-se considerar como o espaço social onde tudo significa as construções, o estilo, o tom, este espaço é ocupado pelo falante e pelo ouvinte. Os sentidos que se constituíram ao longo da história da palavra “horóscopo” e seus efeitos nas pessoas, entre a repetição e a diferença, exercem no leitor uma memória discursiva que remete ao interdiscurso. Estes sentidos podem derivar para outras situações. Mas, o simples fato de aparecer na Capricho uma seção, denominada horóscopo, elencando a data de nascimento para que o leitor identifique o seu signo (e quem não sabe o seu?), já trazem à memória, já falam em nós. Como esta revista é valorada no mecanismo da indústria cultural, existe a persuasão, as opiniões sempre previsíveis àquela camada social e ainda subjacente a ideologia da jovem alegre despreocupada, feliz, certamente, aqui não há referência à jovem da periferia.

Faz-se importante então mostrar os signos de áries e peixes e como são feitas as previsões, o primeiro e o último signo do zodíaco, respectivamente, apenas por uma questão de espaço, escolhe-se esses dois. O signo de áries apresenta-se com a seguinte previsão:

Mais alegre e bem humorada, você estará cheia de disposição para animar todas as pessoas e os lugares por onde passar. Os astros também vão te deixar mais poderosa e sensual, porém você vai querer levar os compromissos com mais seriedade. Garotos irresponsáveis não terão vez!No círculo de amigos, valorize quem é verdadeiro e saiba abrir mão de seus interesses de vez em quando para evitar discussões.

Capricho

É necessário, neste momento, retornar a noção de interdiscurso (memória discursiva) no qual entra o jogo de imagens, o já dito, o já lá, resultando nas formações discursivas que dialogam e regulam as formações imaginárias, dando o consentimento ou não ao sujeito daquilo que pode e não pode ser dito. No horóscopo da Capricho, percebe-se como a formação discursiva conecta-se à formação imaginária, a ideologia presente no dizer da posição sujeito do astrólogo que não fala deste lugar, deslocamento, mas de um lugar de conselheiro “Na verdade há todo um silêncio em torno do conhecimento astrológico, sufocado pela ideologia presente. De que lugar social o sujeito fala, a tomada de posicionamento insere o sujeito como bom sujeito em relação as leitoras da revista, pois este se identifica plenamente com o mundo adolescente, em formações discursivas e formações ideológicas que sugerem a alegria, o divertimento, a boa conduta em uma discursividade opaca. Por outro lado percebe-se uma ‘desidentificação’ do sujeito com os conhecimentos astrais, pois em nenhum momento afirma algo sobre, apenas refere-se aos “astros”.

A partir das condições de produção constituídas pela situação e pelo o sujeito percebe-se a partir do discurso do astrólogo apresentado no horóscopo um texto “híbrido”, pois irregular, produzido em condições determinadas e que de alguma maneira se fazem presente, necessitando serem decodificados. O sujeito pensa que diz, mas não diz, apresentando toda a opacidade já no intradiscurso.

Além disto, observa-se o lugar e a posição que o sujeito ocupa nas pretensas previsões e, entende-se que não são os lugares que eles ocupam na sociedade que funcionam no discurso, mas as projeções que se possam fazer. Dizendo assim, julgou-se importante estabelecer a distinção entre lugar e posição do sujeito, aquele é a posição empírica, este é a posição discursiva e insere-se ao discurso. Assim não é a visão empírica do astrólogo, mas a sua posição discursiva produzida pelas formações imaginárias.

Hoje, os meios de comunicação constituem o locus principal em que é atualizado o labor sobre as representações sociais, pois conquistaram um status institucional que lhes autoriza a interpretar e produzir sentidos sobre o social com o consenso da sociedade.

As revistas femininas direcionadas a adolescentes constituem um meio de comunicação de massa. A indústria publicitária não mede esforços para vender este produto. Ao mesmo tempo em que estas revistas relacionam o feminino ao espaço do público e se dirige a uma adolescente moderna, esta revista – objeto de análise do presente texto – continua condicionada a ideias e valores tradicionais no que diz respeito à sexualidade e à representação de gênero, apesar da aparência descompromissada com o público. Além desta revista influenciar as relações sociais, as mesmas inserem noções equivocadas de feminilidades, gerando contradições; os meios de comunicação, muitas vezes, trabalham com uma visão do mundo que pode ou não corresponder à realidade.

Ao considerar os efeitos de sentidos, o mesmo texto pode aparecer em outra formação discursiva, a partir de um lugar social, historicamente, determinado. As formações discursivas apresentam dois tipos de funcionamento, a saber, a paráfrase e a polissemia. A paráfrase funciona como fechamento, delimitação, já a polissemia, introduzida por Orlandi rompe com as fronteiras enredando variadas formações discursivas, anunciando a pluralidade de sentido e o pré-construído, como esclarece Brandão:

O pré-construído remete assim às evidências através das quais o sujeito dá a conhecer os objetos de seu discurso: ‘o que cada um sabe’ e simultaneamente ‘o que cada um pode ver em uma situação dada. Isso equivale a dizer que se constitui, no seio de uma formação discursiva, um sujeito universal que garante ‘o que cada um conhece, pode ver ou compreender’.

Brandão

É importante para melhor observar o signo de peixes:

Mais intuitiva, você vai enxergar de longe o que as pessoas não percebem. Isso pode fazer com que você absorva um pouco de energia negativa dos outros. Para evitar esse drama, aproveite as férias para passar um tempo reciclando as energias perto da natureza, seja no parque, seja na praia. Se estiver solteira abra bem os olhos, pois alguém do passado pode reaparecer para mexer seu coração.

Capricho

Em síntese, Indursky distingue o pré-construído em um encaixe sintático que se apropria do objeto realizando uma correferência, isto causa no sujeito o efeito de o mesmo pensar que o discurso foi produzido por ele, desta forma pode-se afirmar que o sujeito pensa estar fazendo o horóscopo fundamentado em todo o conhecimento que lhe é pertinente acerca do assunto, mas, na verdade, encontra-se assujeitado pela linguagem e diz apenas o que pode ser dito, naquelas condições de produção. Os sentidos do texto tem a ver com o que é dito e, também o que poderia ser dito e não foi. Assim as margens do dizer também fazem parte deste dizer.

O certo é que há um já dito que torna possível este dizer, esta afirmação é importante para que possamos perceber o funcionamento do discurso e a conexão do sujeito com a ideologia. O horóscopo em questão nos remete a uma filiação de dizeres a partir do momento que se folheia a revista e depara-se com a palavra horóscopo e mais abaixo os signos elencados. Também há toda uma ideologia acerca deste conhecimento que se leva a crer que este tema não é tomado a sério, os estudiosos deste tema, ao longo do tempo, procuram inseri-lo em estudos mais aprofundados e sérios mesmo não sendo reconhecido como um conhecimento científico. Além disso, só o fato de o título e os signos com a indicação da data de nascimento já remetem a memória, em síntese afirma Indursky: o imaginário destes dizeres é um imaginário fundante, trata-se da memória discursiva que ao longo do tempo vem repetindo-se infinitamente e que a referida autora denomina regime de repetibilidade, “ou seja, pelo viés do regime de repetição tornou-se memorável”, os horóscopos divulgados em jornais, revistas, blogs e vários outros suportes servem para imprimir lugares de memórias que sucessivamente repetidos cristalizam-se como afirma a autora sustentando dessa forma, as redes de memória que sustentam o memorável.”. Desta forma, nada há de novo, tudo repete-se a exaustão, resultante do esquecimento, estruturante, no artefato de leitura da análise de discurso.

6. Conclusão

A astrologia se popularizou muito especialmente na sua forma dos astros do zodíaco. As pessoas de classes sociais diferentes, independente do nível de escolaridade, procuram manter-se informadas sobre os signos do zodíaco, lendo revistas, jornais, almanaques, blog, sites, rádio. Inclusive há muitas revistas mensais que se dedicam exclusivamente a divulgar informações sobre os signos do zodíaco. Outras, voltadas para o público feminino, mantêm uma seção exclusiva para tratar do tema. Dentre estas se destaca a revista Capricho.

No presente texto, procurou-se mostrar uma reflexão acerca do horóscopo que se baseia no conhecimento milenar do estudo da astrologia, divulgado na revista Capricho mensal, da Editora Abril Cultural direcionada às adolescentes. Buscou-se depreender a análise dos aspectos relacionados à compreensão de sentido e a materialidade presente. Considerou-se a constituição dos sentidos para um público, particularmente, adolescente, observando as estratégias de construção discursiva e o efeito de sentido que desejam produzir.

A partir das condições de produção constituídas pela situação e pelo o sujeito percebe-se a partir do discurso do astrólogo apresentado no horóscopo um texto “híbrido”, pois irregular, produzidos em condições determinadas e que de alguma maneira se fazem presente, necessitando serem decodificados. O sujeito pensa que diz, mas não diz, apresentando toda a opacidade pertinente ao discurso.

Além disto, observa-se o lugar e a posição que o sujeito ocupa nas pretensas previsões e, entende-se que não são os lugares que eles ocupam na sociedade que funcionam no discurso, mas as projeções que se possam fazer. Dizendo assim, julgou-se importante estabelecer a distinção entre lugar e posição do sujeito, aquele é a posição empírica, este é a posição discursiva e insere-se ao discurso. Assim não é a visão empírica do astrólogo, mas a sua posição discursiva produzida pelas formações imaginárias.

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Referências Bibliográficas

BRANDÃO, Helena Hathsue Nagamine. Introdução à análise do discurso.2 ed. rev. Campinas: Unicamp, 2004.

CAPRICHO. São Paulo: Abril, n. 1205, dezembro 2014.

INDURSKY, Freda. A memória na cena do discurso. In: ___; MITTMANN, Solange; FERREIRA, Maria Cristina Leandro (Orgs.). Memória e história na/da análise do discurso. Campinas: Mercado de Letras, 2011. p. 67-89.

RIBEIRO, Ana Maria da Costa. Conhecimento da astrologia. Rio de Janeiro: Hipocampo, 1986.

MARCH, Marion D; McEVERS, Joan. Curso básico de astrologia: técnicas de cálculo e interpretação. São Paulo: Pensamento, 1997.

ORLANDI, Eni Puccinelli. Discurso em análise: sujeito, sentido e ideologia. 2. ed. Campinas: Pontes, 2012.

______. A linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso. 4. ed., 4 imp. Campinas: Pontes, 2006.

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PECHÊUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. 4. ed. Campinas: Unicamp, 2009.

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