Astrologia na História e na Mitologia

Os Limites da Astrologia

relógio astronómico by Johannes Stöffle

 Fr. Antônio de Beja contra os Prognósticos Diluvianos de 1524 

Pedro Campos Franke*

 * Mestrando do Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro e bolsista da Capes.

Nas primeiras décadas do século XVI, a atenção de diversos homens de letras da Europa voltou-se massivamente para o tema dos limites da teoria da influência dos corpos celestes sobre o mundo sublunar. A chamada astrologia judiciária teve suas bases teóricas postas em questão por uma enxurrada de impressos, especificamente nos anos que se seguiram à difusão de um almanaque de prognósticos, escrito pelos astrólogos alemães Johan Stöffler e Jakob Pflaum, que previa para o ano de 1524 uma grande conjunção planetária no signo de Peixes e sugeria, a partir de tal fenômeno, uma intensa alteração climática na Terra. As previsões doAlmanach nova plurinis annis venturis inserniens (1499), de caráter assaz ambíguo no que concerne aos acontecimentos climáticos concretos, foram interpretadas por alguns astrólogos como claríssimos significantes de um segundo dilúvio universal, de idênticas proporções ao ocorrido nos tempos de Noé.

Diante de manifestações de pânico coletivo e da corroboração de tais vaticínios por parte de prestigiados astrólogos europeus, coube aos filósofos naturais, teólogos e outros homens de letras (dentre eles alguns astrólogos) um consistente questionamento dos fundamentos de uma astrologia divinatória fatalista que em última instância não deixava espaço para a ação do livre arbítrio dos homens. É justamente nesta atmosfera de controvérsia que é publicado em Portugal o livro Contra os juízos dos astrólogos (1523), do frei jeronimita António de Beja.

Após uma breve introdução sobre o lugar da astrologia na época do Renascimento, veremos como Fr. António de Beja constrói em seu tratado uma argumentação fundamentada tanto no humanismo neoplatônico de Giovanni Pico della Mirandola quanto na filosofia de pensadores gregos e latinos e em interpretações bíblicas, concatenando uma crítica astrológica voltada para a ação pragmática dos intelectuais na refutação do determinismo astral em geral, e dos prognósticos sobre a conjunção de 1524 em específico.

A Controvérsia Astrológica na Época do Renascimento

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Os processos que vieram a interferir na formação da cultura científica de nosso tempo estão longe de constituir um movimento linearmente evolutivo. As tentativas de uma periodização rígida e do estabelecimento de marcos como o da Revolução Científica foram historicamente construídas a partir de modelos explicativos em constante transformação, e através dos quais não podemos deixar de perceber o embate de idéias e uma série de tensões intelectuais que são parte fundamental e imprescindível da escrita histórica.

Uma percepção clássica da formação da ciência moderna costuma opor ao florescimento de uma cultura científica no século XVII as ações obstaculizadoras, ora do movimento das idéias religiosas, ora das tradições de caráter “supersticioso” e especulativo como a magia natural, o hermetismo e a astrologia. A historiografia do século passado procurou, em grande medida, problematizar tais proposições. De um ponto de vista sincrônico, nem se faz presente categoricamente tal oposição, nem é sustentável um modelo explicativo que suponha uma linearidade na forma pela qual os embates filosófico-científicos, desde o Renascimento até o século XIX, acabaram por desestruturar o antigo sistema cósmico inspirado na física aristotélica e introduzir novos elementos à cultura científica, como o empirismo e a matematização do universo sensível. O nascimento da ciência moderna se deu, portanto, a partir da tensão entre “visões metafísicas divergentes e opostas”, e “por caminhos tortuosos e difíceis, de múltiplas e discordantes tradições.” 1

1 ROSSI, Paolo. A ciência e a filosofia dos modernos: Aspectos da Revolução Científica. São Paulo: Ed. Unesp, 1992. p. 212.

Neste sentido, a contribuição do Renascimento ao pensamento científico tem sido um dos temas mais debatidos por historiadores e filósofos da ciência, e pode-se dizer, dos mais controversos. Um forte caráter anti-naturalista do primeiro humanismo, 2 impulsionado por um novo afluxo de idéias, transformações sócio-culturais e novas traduções de textos antigos, parece indicar, grosso modo, uma aproximação de filósofos, teólogos e intelectuais em geral do Quattrocento italiano a uma cultura moral, cívica e retórica que teve seu ápice no pensamento da antigüidade latina; e um conseqüente afastamento das leituras escolásticas do pensamento grego lógico e naturalista, sobretudo o de Aristóteles, senão através de uma crítica de fato, pelo menos de uma realocação do helenismo em seu próprio tempo. De Petrarca a Marsilio Ficino e desta primeira fase até a segunda, o que se observa ao mesmo tempo é uma trajetória de idéias que se distancia da rigidez aristotélica da física natural e da lógica em direção a uma filosofia da alma, derivada das concepções neoplatônicas e centrada no elemento humano e nas formas pelas quais ele procura atuar e modificar o mundo que o circunda. 3 E é justamente a partir deste movimento que foram formuladas as mais contundentes críticas à astrologia divinatória de fins do século XV e princípios do XVI; e não, como se poderia esperar, dos primórdios de uma cultura “científica” à maneira moderna, oposta ao caráter supersticioso e supostamente anti-naturalista da astrologia. 4

2 GARIN, Eugenio. O zodíaco da vida:A polémica sobre a astrologia do século XIV ao século XVI. Lisboa: Editorial Estampa, 1988. p. 44.

3 v. Id., L’umanesimo italiano. Roma-Bari: Ed. Laterza, 1973.

4 Exemplos destas críticas são FICINO, Marsilio. Disputatio contra iudicium astrologorum. Trad. italiana de Ornella Pompeo Faracovi, Milão: RCS Libri, S.p.A., 2000; PICO DELLA MIRANDOLA, Giovanni. Disputationes adversus astrologiam divinatricem. Ed. crítica de Eugenio Garin, Florença: Valecchi, 1946-52; SAVONAROLA, Girolamo. “Trattato contra li astrologi”. In: Scritti filosofici vol. 1. Ed. crítica de Eugenio Garin e Giancarlo Garfagnini. Roma: Angelo Belardetti, 1982.

De fato, já foi amplamente discutida e demonstrada a fundamentação aristotélico-ptolomaica da prática divinatória da astrologia na época do Renascimento. 5 Aristóteles não explicita em nenhum momento de sua obra uma opinião favorável à teoria da influência dos corpos celestes no mundo sublunar, mas algumas de suas proposições acerca da incorruptibilidade dos céus, sobretudo em De caelo, De generatione et corruptione e na Meteorologica, acabaram por dar margem à interpretação de que o movimento dos astros, suas conjunções e posições, constituem não apenas signos pelos quais se pode predizer eventos futuros, como também adquirem uma relação causal com os fenômenos terrenos. A difusão medieval do Tetrabiblos de Ptolomeu constitui um dos principais suportes teóricos de tal interpretação, na medida em que o texto transformava uma lacuna na obra aristotélica em fundamento para a prática de uma astrologia conjectural, porém ainda distante do fatalismo e necessidade astrais que uma outra tradição imprimirá de forma decisiva à tradição astrológica da baixa Idade Média: 6 a dos filósofos árabes e sua particular interpretação da física aristotélica.

5 v. BROECKE, Steven vanden. The limits of influence. Boston: Brill, 2003; KOYRÉ, Alexandre. Ibid.;ROSSI, Paolo. “Sobre o declínio da Astrologia nos inícios da Idade Moderna”, In: A ciência e a filosofia dos modernos, op. cit., pp. 29-48. E para o caso específico de Portugal, v. CAROLINO, Luís Miguel. Astrologia, ciência e sociedade. Rio de Janeiro: Access Editora, 2002.

6 Vanden Broecke traduz o aspecto conjectural, e não necessário, da astrologia ptolomaica no termo “epistemic secrecy”, op. cit., pp. 20-22.

A tradição islâmica da astrologia, introduzida no ocidente a partir do século XII através de traduções das obras de Albumasar, Abenragel, Albohali e Ibn Ezra, é responsável direta pela designação de judiciária. 7 O termo passa a fazer parte da linguagem astrológica ocidental, designando uma prática astrológica que prediz acontecimentos futuros de forma fatalista, e não apenas conjetural. Ora, além de uma fortíssima fundamentação aristotélico-ptolomaica, a tradição islâmica incorporou também a noção de necessidade universal, a partir de uma releitura de proposições estóicas que haviam eliminado da física aristotélica a idéia de um futuro contingente imprevisível – que se dá indiferentemente a partir de uma causa ou de uma cadeia causal – e articulado aos signos celestes um caráter de lei, fatalista e necessária. 8

7 v. GARIN, Eugenio. O zodíaco da vida, op. cit., p. 38. e FARACOVI, Ornella Pompeo. “Indroduzione” In: FICINO, op. cit., p. 14, 15.

8 Esta tendência estóica tem como principal fundamento os escritos de Posidonio de Apaméia e se faz fortemente presente através da Idade Média árabe e bizantina. Tal tradição se relaciona à doutrina das simpatias e dos quatro elementos, e via os corpos celestes “como agentes de uma cadeia cósmica que dispunham fatalmente a vida na Terra.” (CAROLINO, op. cit., p. 48).

É através desta chave de interpretação que a astrologia judiciária pôde ganhar espaço no discurso filosófico-científico das maiores universidades européias dos séculos XV e XVI. 9 Tal interpretação estava longe de constituir um pensamento minoritário e intelectualmente depreciável e, assim como a própria filosofia aristotélica, gozava de grande respaldo e credulidade na época do Renascimento.

9 v. BROECKE, op. cit. para o caso de Louvain e outras escolas e CAROLINO, op. cit. para o caso das universidades portuguesas. v. também NORTH, John D. “Celestial Influence: The Major Premiss of Astrology” In: ZAMBELLI, Paola. Astrology Hallucinati: Stars and the End of the World in Luther’s Time. Berlim: Walter de Gruyter, 1986.

Algumas das críticas mais loquazes à astrologia divinatória durante o Quattrocentoitaliano partiram de filósofos estreitamente ligados ao neoplatonismo, como Marsilio Ficino e Giovanni Pico della Mirandola. Ainda que em algum momento tais autores tenham se debruçado sobre o estudo da ciência dos astros, ambos terminam por condenar sem ressalvas a prática da astrologia judiciária ou divinatória como vã, supersticiosa e contrária à religião cristã. 10 Em suas argumentações, a astrologia divinatória é refutada, entre outras razões, por ser sua prática incompatível com o pleno desfrute do livre-arbítrio dos homens, articulado por Pico e Ficino à tradição neoplatônica fundamentada nas Enéades de Plotino, que impunha às influências astrais o limite intransponível da superioridade da alma em relação aos corpos terrestres e inclusive os celestes. Segundo esta tradição – seguida de perto pelos neoplatônicos medievais e da Antigüidade tardia – os astros, sendo corpos celestes, poderiam influir nas estruturas corpóreas terrenas, mas não nas almas dos homens, sendo estas superiores e substancialmente diferentes. 11 A reflexão sobre a astrologia por parte da metafísica neoplatônica assume, assim, o ponto de vista de que a característica mais especifica e essencialmente humana dos homens é a alma.

10 v. FICINO, Marsilio. Disputatio contra iudicium astrologorum, op. cit., e a introdução de Ornela Pompeo Faracovi da mesma obra, p. 12; e a ed. crítica de E. Garin das Disputationes de Pico, op. cit.

11 v. FARACOVI, op. cit., pp. 14-20.

O jovem Giovanni Pico della Mirandola, nos últimos anos de sua breve existência acaba por dedicar-se à redação daquilo que viria a ser o mais contundente, extenso e completo tratado anti-astrológico escrito até então: as Disputationes adversus astrologiam divinatricem.12 A obra, publicada postumamente pelo sobrinho de Pico, Gian Francesco, 13 apresentava, em doze livros, refutações à prática divinatória da astrologia fundamentadas tanto em argumentações teológicas quanto filosófico-científicas. O ataque à astrologia divinatória não é desferido por Pico a partir de um “naturalismo científico”, como querem alguns, 14 e sim de uma concepção filosófica, estreitamente associada à teologia, que recusa veementemente a submissão da alma humana à influência de qualquer categoria de causa eficiente, seja ela celeste ou mundana.

12 v. ed. crítica de Eugenio Garin, op. cit.

13 v. nota crítica de Eugenio Garin em SAVONAROLA, Girolamo. “Tratatto contra li astrologi” op. cit., 1982.

14 CARVALHO, “Prefácio”, In: BEJA, Fr. António de. Contra os juyzos dos astrólogos. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1944, p. 19.

Num livro recente, Steven Vanden Broecke propõe que, apesar do teor crítico radical das Disputationes, o verdadeiro alvo dos seus ataques não é a astrologia ou a prática astrológica em todo seu conjunto teórico e instrumental, e sim a proliferação dos prognósticos baseados na teoria das grandes conjunções de Albumasar através de toda a península itálica durante o fim do século XV, e sobretudo o impacto social que a difusão de tais prognósticos acarretava. 15 Diversos autores já chamaram a atenção para a “atmosfera de anúncios escatológicos entre conjunções e mudanças fatais” do final dos quatrocentos e início dos quinhentos. 16 É bastante razoável, portanto, que em meio a tal surto de credulidade, um grupo assaz heterogêneo de filósofos naturais, teólogos e mesmo astrólogos procurasse refutar o fatalismo dos prognósticos não apenas visando o público culto das academias e universidades, como também os setores populares da sociedade, onde estes prognósticos se difundiam com mais alarde, resultando até em “casos de pânico coletivo”. 17

15 BROECKE, “Between astrological reform and rejection: Giovanni Pico’s Disputations”, In: The Limits of Influence, op. cit.

16 GARIN, O zodíaco da vidaop. cit, p. 95. v. também BROECKE, op. cit. e ZAMBELLI, op. cit. Um estudo minucioso do impacto popular das profecias foi escrito por NICCOLI, Ottavia. Prophecie and People in Renaissance Italy. Princeton University Press, 1990.

17 NICCOLI, op. cit., p. 141.

É exatamente sob esta ótica que devemos entender os tratados anti-astrológicos de cunho “vulgarizador”, escritos em língua vernácula, como o Tratato contra li astrologi, de Girolamo Savonarola e, para o caso específico a ser estudado a seguir, o de Fr. António de Beja no contexto da literatura sobre a conjunção de 1524. Estes constituem aplicações práticas e divulgadoras das argumentações desferidas por Giovanni Pico em suas Disputationes, e de outras proposições acerca dos limites da teoria da influência dos corpos celestes no mundo sublunar.

 A Conjunção de 1524 e a Crítica Astrológica de Fr. António de Beja

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Mais de uma década após a publicação do Almanach de Stöffler e Pflaum, seus vagos prognósticos acerca da conjunção de 1524 assumem proporções provavelmente nunca vislumbradas pelos dois astrólogos alemães. Com base no prenúncio de “indubitável mutação”, 18 o célebre astrólogo italiano Luca Gaurico passa a difundir a idéia de que uma tal conjunção num signo aquático seria causa de um grande dilúvio universal, nas mesmas proporções daquele descrito no Velho Testamento. 19 Em diversos lugares da Europa, seguiram-se intensas manifestações de pânico coletivo: pessoas construíam barcos, refugiavam-se nas montanhas e acumulavam provisões para sobreviver ao pretenso cataclismo. 20

 18 Apud.THORNDYKE, Lynn. “The 1524 Conjunction” In: History of Magic and experimental science vol. V. New York: The Macmillan Company, 1923., p. 181.

19 v. ZAMBELLI, Paola. “Many ends of the world: Luca Gaurico Instigator of the Debate in Italy and in Germany”, In: Astrologi Hallucinati, op. cit. pp. 239-263.

20 Sobre a imensa repercussão popular dos vaticínios diluvianos, v. NICCOLI, “A case of collective panic”, In: Prophecy, op. cit.

A partir de 1519, diversas obras passam a discutir a possibilidade de um dilúvio universal, dentre as quais o Adversus prognosticatorumde Alberti Pigghio, o De falsa diluvii prognosticatione, de Agostino Nifo e o Defensionem astrologorum iudicantium, de Miguel de Pietrasanta. Entre defesas e ataques à ciência astrológica, tais obras têm em comum a negação de um dilúvio de proporções bíblicas, ainda que aceitem em alguma medida a influência dos astros acarretando grandes inundações e tempestades locais. 21

21 Sobre toda a literatura da conjunção de 1524, v. THORNDYKE, History of Magic, op. cit.

Como já ressaltamos, as demonstrações de pânico coletivo diante dos prognósticos sobre a conjunção de 1524 22 estimularam diversos homens de letras a redigir, em língua vernácula, tratados com fins essencialmente “vulgarizadores”; por um lado refutando qualquer possibilidade de um segundo dilúvio universal, e, por outro, esclarecendo os pormenores da ciência astrológica para atacar o fatalismo astral dos prognósticos judiciários. 23 Em Portugal não poderia ter sido diferente.

22 v. NICCOLI, Ottavia. Prophecy, op. cit.

23 Alguns destes tratados: CELEBRINO, Eustachio. Dichiarazione perchè non è venuto il diluvio nel 1524, Veneza, 1524; NIFO, Agostino. Rebrobacion neuvamente ordenada contra la falta de prognosticacion del diluvio, Sevilha, 1524; SAVONAROLA, Girolamo. Trattato contra li astrologi, op. cit.

O empenho da corte de D. João III em tornar pública a falsidade da astrologia divinatória e neutralizar o alarmismo gerado pelas profecias culmina com a impressão do tratado Contra os juízos dos astrólogos, de Fr. António de Beja. O livro foi encomendado e financiado pela rainha D. Leonor, escrito em português com a intenção explícita de esclarecimento sobre a falácia da astrologia divinatória, considerando as partes da ciência dos astros que são dignas de fé.

Empregaremos aqui a edição crítica de Joaquim de Carvalho, publicada em 1944, que contém um prefácio do estudioso português a ser citado e comentado criticamente quando for cabível. As proposições de Carvalho sobre a obra de Fr. António de Beja são desferidas com excessiva desconfiança quanto a sua relevância para o debate sobre a conjunção de 1524, distanciando-o da perspectiva de um humanismo cívico e aproximando-o tão somente do ponto de vista teológico.

 A Ação dos Homens de Letras na Vida Civil e Espiritual

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O primeiro capítulo de Contra os juízos dos astrólogos traz, de forma enfática, uma justificativa do impulso “vulgarizador” que levou o autor a redigir o tratado, inserindo-se no debate com a manifesta intenção de esclarecer aqueles que menos sabem. O frade considera tal atitude necessária por parte dos mais doutos e estudiosos, tanto no que concerne à salvação das almas, quanto ao bem da comunidade; e, assim, atribui à “ignorância e pouco saber” a credulidade do vulgo em relação aos prognósticos diluvianos. 24 Contra a indevida profecia, que “se diz ser fundada em ciência astrológica”, devem agir aqueles que têm conhecimento e instrumentos para tanto, “porque, neste caso e outros que à honra de Deus pertencem, se me eu calar, diz o profeta, as pedras bradarão.” 25

24 BEJA, Fr. António de. Contra os juízos dos astrólogos. Lisboa, 1523. Transcrito e prefaciado por Joaquim de Carvalho. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1944, p. 22. A grafia das citações foi atualizada em relação à original, para contribuir a uma maior fluência de leitura.

25 Id., Ibid. p. 23.

Seja no âmbito das justificativas bíblicas e teológicas, seja no dos “seculares negócios”, Fr. António ressalta de forma enfática o dever dos mais sábios de esclarecer e tornar públicos os temas mais controversos da sociedade: “diz Deus que se por teu calar e falta de tua doutrina, o pecador e mau se não aparta de sua maldade, ele morrerá mau, e tu não serás sem culpa de sua danação.” 26 Neste sentido, é freqüentemente invocada a importância da sabedoria para o bom funcionamento da sociedade, “bem assim o que é dotado de entendimento e dom da sabedoria, em qualquer grau que seja, é obrigado a aproveitar com ela e não deve calar, mas pregar e dizer toda cousa que pertencer ao louvor de Deus e comum proveito dos próximos” 27.

26 Id., Ibid. p. 23,24. Os grifos serão sempre meus.

27 Id., Ibid. p. 24.

O emprego da noção de “bem comum” e a exaltação do lugar social da virtude da sabedoria não se limita, no pensamento de Fr. António de Beja, a estas páginas. Tais idéias são manifestas pelo teólogo português em toda sua obra, e com um forte caráter pragmático de atuação social dirigida pela virtude intelectual. 28

28 Referimo-nos, além de Contra os juízos dos astrólogos, a BEJA, Fr. António de. Breve doutrina e ensinança de príncipes Lisboa, 1525. Transcrito e prefaciado por Mário Tavares Dias. Lisboa: Instituto de Alta Cultura, 1965.

A Refutação do Prognóstico

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Dadas as justificativas para sua douta intervenção na polêmica, Fr. António de Beja começa sua exposição formalmente escolástica, apresentando as opiniões favoráveis à significação catastrófica da conjunção de 1524, a serem posteriormente refutadas: “Pergunto se a vulgar opinião que (afirma que) será dilúvio na terra é verdadeira, e parece que sim, por duas razões” 29. A primeira destas razões tem fundamento nos escritos de Ptolomeu e sua interpretação do aristotelismo físico, e defende que “toda conjunção e ajuntamento de planetas é causa de geração ou corrupção nas cousas inferiores”. 30 A segunda opinião, compilada por Fr. António da obra de Agostino Nifo, De falsa diluvii prognosticatione, e fundamentada pelos astrólogos judiciários no primeiro livro das Meteorológicas de Aristóteles, afirma “nunca vir nem ser feito dilúvio sem algum ajuntamento ou disposição celestial que haja poder de o fazer” 31. Tal disposição ocorreria com a conjunção de planetas de qualidade úmida, que seria causa de “abundância de águas”.

29 BEJA, Fr. António de. Contra os juízos dos astrólogos, op. cit., p. 26.

30 Id., Ibid. p. 27.

31 Id., Ibid. p. 27.

Ambas estas razões, afirma o teólogo, são falsas, e deduzidas a partir de equivocadas leituras das obras dos filósofos antigos. A refutação das duas razões pelas quais se deveria crer no prognóstico começa com a contextualização de sua origem – o Almanach de Stöffler e Pflaum, que afirmam “sem temor que do tal ajuntamento há de ser feita uma grande e tão comum alteração quanto nunca ouvimos de nossos maiores que será.” 32 O prognóstico original, portanto, não se refere especificamente à possibilidade de um dilúvio, como mostra bem saber Fr. António de Beja, mas apenas a “uma grande e tão comum alteração, (…) da qual sentença tomaram estes (os astrólogos de vulgar opinião) a ousadia e disseram sem nenhum conselho que há de vir dilúvio na Terra.” 33 A essência do problema se constitui, portanto, não do prognóstico contido no Almanach, e sim a partir da “vulgar opinião” que acaba por se espalhar e atiçar os ânimos populares, “deitando juízos por que dão novas de triste alvoroço ao mundo.” 34

32 Id., Ibid. p. 28.

33 Id., Ibid. p. 29.

34 Id., Ibid. p. 28. Tanto Joaquim de Carvalho no prefácio a esta edição quanto José V. de Pina Martins no artigo “Fr. António de Beja contra a astrologia judiciária” (in: NEMÉSIO (org.), Asgrandes polêmicas portuguesas, Lisboa: Verbo, 1962) ignoram o fato de não ter sido o Almanach a explicitar a significação de um dilúvio universal. Pelo contrário, atribuem ao livro de prognósticos uma categórica previsão para o dilúvio de 1524, o que vimos não ser correto no item anterior.

A reação popular às profecias diluvianas constitui o motivo principal da publicação de Fr. António de Beja, que descreve alguns aspectos do alvoroço entre os nossos portugueses e naturais,

(…) postos em tanto temor que não ousam alguns edificar casas, nem fazer outros edifícios, com medo que hão pouco de durar, e outros buscam lugares postos em altos montes onde pera o dito ano se vão e acolham, outros imaginam e cuidam em seus pensamentos fazer navios e arcas em que se metam e escapem de tanta tormenta. 35

35 Id., Ibid. p. 29.

Cenas semelhantes foram descritas por fontes documentais das mais variadas procedências, muitas delas enfileiradas por Ottavia Niccoli no capítulo dedicado à conjunção de 1524, de seu livro Profezie in piazza: note sul profetismo popolare nell’Italia del primo Cinquecento. Niccoli atenta para um aspecto menos “escatológico” e mais mundano das profecias, observando que, na Itália do século XVI, a palavra diluvio seria sinônimo de alluvione (enchente), e ressaltando a recorrência de enchentes causadas por excesso de chuvas e cheias dos rios na Itália de fins dos quatrocentos e princípios dos quinhentos. 36 De fato, como referimos anteriormente, a maioria dos tratados que procuraram refutar a iminência de um dilúvio universal em 1524 acabam por ceder à aplicabilidade da influência astral que redundaria em dilúvios “particulares”, altas pluviosidades e grandes cheias fluviais. 37 A plausibilidade da ocorrência de dilúvios locais e particulares parecia ser, portanto, bastante razoável para uma boa parte da sociedade letrada e mesmo das camadas mais populares; assim como a causalidade astral de tais catástrofes menores.

36 NICCOLI, Ottavia. Prophecy and people, op. cit.,p. 142-3. Niccoli enumera nada menos que sete enchentes na região da Lombardia entre 1450 e 1500, e mais seis entre 1500 e 1550.

37 v. THORNDYKE, History of magicop. cit.pp. 193-233. Veremos que Fr. António de Beja não figura entre esta maioria – sobretudo por seguir mais de perto as argumentações anti-astrológicas de Pico della Mirandola.

Depois de distinguir os fenômenos diluvianos entre particulares e universais, António de Beja expõe as causas pelas quais os primeiros podem vir a ocorrer naturalmente, segundo Aristóteles, em cidades ou regiões específicas; a saber: simples excesso de chuvas, abundância de águas subterrâneas (o “abismo”), terremotos ou “multidão de ventos”. Através de uma ou mais destas causas naturais, pode uma localidade sofrer os danos de uma grande enchente, “e isso concedem todos. Negam, entretanto, poder se fazer naturalmente cataclismo, e universal dilúvio que venha e alague toda a terra, ou todo um reino”.38

38 BEJA, Fr. António de. Contra os juízos, op. cit., p. 35.

Possíveis e freqüentes são, portanto, os dilúvios particulares, que têm como causa eficiente fenômenos naturais, passíveis de serem identificados com base na física aristotélica. Já para os dilúvios universais, a lógica causal deve ser necessariamente outra: “Pera vir universal dilúvio na terra, não pode ser sem multidão e excesso de águas em toda ela. Isto não se pode causar naturalmente, logo, virá que naturalmente não possa chover em toda a terra”, ao menos não “sem virtude e poder de Deus”. 39

39 Id., Ibid., p. 35-6.

Adentrando a seguir uma argumentação mais especificamente astrológica, Fr. António alude pela primeira vez aos escritos anti-astrológicos de Giovanni Pico della Mirandola, a quem se refere como “varão, além de sua nobreza, digno de louvor por sua ciência e mui honestos costumes (que poucas vezes em pessoas de tanto sangue se acham juntas)”. 40 O conteúdo do livro quinto das Disputationes é evocado para que se mostre a falsidade de uma “sentença de Fr. Gregório de Módica da ordem dos pregadores, a qual divulgou em um juízo que veio da Itália, mui notório a todos e a quem se dá muita fé nesta terra”. 41 O dito juízo do monge pregador corroborava com a opinião mais freqüente entre os escritores envolvidos na polêmica – a de que a conjunção prenunciaria a ocorrência de dilúvios locais, grandes enchentes e destruição. Tais juízos constituiriam uma descabida contradição astrológica na significação de dilúvios particulares, devidamente destrinchada por Pico em suas Disputationes. Segundo esta proposição contraditória, o alinhamento na esfera celeste desses cinco planetas num determinado signo teria mais poder de influência no mundo sublunar do que cada um dos mesmos planetas agindo sozinhos, cada qual com suas próprias propriedades elementares. Fr. António contra-argumenta então que a conjunção poderia fazer “cousas novas”, mas jamais “cousas maiores”.42

40 Id., Ibid., p. 38.

41 Id., Ibid., p. 37. Não encontramos outra referência a Fr. Gregório de Módica e seus escritos, nem no compêndio de Lynn Thorndyke, nem nos livros de Paola Zambelli e de Steven Vanden Broecke.

42 Id., Ibid., p. 38, 39.

Especificamente para o caso desta prevista conjunção, acompanhada pela hipótese de dilúvios particulares decorrentes de sua influência, seria inegável, segundo os argumentos empregados por Pico, que planetas de virtude seca como Marte, Mercúrio e o Sol (não citado por Fr. Gregório de Módica, mas sim pelo prognóstico original de Stöffler) anulariam os efeitos úmidos de outros planetas como a Lua, Vênus e Júpiter. Ainda assim, veremos que ao fim e ao cabo, as proposições do conde mirandolano, corroboradas por Fr. António em seu tratado, não admitem de forma alguma tal sorte de influência astral por parte dos planetas que não o sol e a lua.

Fr. António conclui esta parte voltando aos argumentos de caráter teológico, com a certeza de que um novo dilúvio universal por mandado divino de forma alguma se concretizaria, já que teria Deus, após o dilúvio de Noé, prometido ao mesmo que tal sorte de cataclismo não ocorreria novamente. Afirma, portanto, que “se somos cristãos verdadeiros, bem devemos crer que jamais há de vir dilúvio sobre a terra, porque assim o prometeu Deus, depois daquele grande que foi em tempo de Noé.” 43

43 Id., Ibid., p. 86.

O texto remete freqüentemente à impossibilidade do dilúvio ocorrer especificamente em Portugal, segundo as proposições de Ptolomeu acerca da relação entre os signos zodiacais e as localidades geográficas da Europa. Segundo a articulação ptolomaica, assim como a Itália está submetida ao signo de Leão e a Germânia a Áries, Portugal e Espanha seriam regidos por Sagitário, o que minimizaria a influência de uma conjunção em Peixes para toda a Península Ibérica. 44

44 Id., Ibid., p. 44, 45.

Numa das passagens mais interessantes do tratado, Fr. António, ao mesmo tempo em que condena o alarmismo escatológico das profecias diluvianas, redige um enfático sermão de teor moralizante sobre a proximidade do fim do mundo e os seus “sintomas”, que se fazem notar através da degeneração dos costumes de seu tempo. Apesar de ser falso o prognóstico do dilúvio, é certo o merecimento de uma catástrofe semelhante por parte das gentes corruptas, para que os “não honestos costumes e desvairadas maldades das gentes sejam castigadas com tristes e espantosas penas em os perpétuos fogos do inferno”. Fr. António compara os maus costumes da época do dilúvio bíblico com os de seu próprio tempo, concluindo “não ser agora menor malícia na terra, nem são nestes tempos nossas vontades e desejos menos inclinados ao mal” e, dirigindo-se à rainha D. Leonor, pergunta:

que cousas (excelentíssima senhora), podiam ser naqueles dias de tanta ofensa pera Deus que agora mais não haja? (…) Presentes são a nós tantas maldades quantas nunca puderam ser. Não faltam agora escusadas tiranias nos reis, nem pouco justas e encobertas opressões e peitas no povo, más governações e irosos mandadores. 45

45 Id., Ibid., p. 47.

O clima de renovação moral com o qual são desferidas tais palavras constitui, como tentei demonstrar no primeiro capítulo, uma característica marcante do humanismo luso. Sua intensidade aumenta em meados do século XVI, sobretudo em nomes como André de Resende, Aires Barbosa e Garcia de Resende, movimentando-se freqüentemente para o âmbito do reformismo das estruturas eclesiásticas e da sociedade civil.

Fr. António de Beja articula tal sermão moralizante ao propósito anti-astrológico de sua obra, vociferando contra os astrólogos judiciários que,

buscando seu próprio e particular proveito, seguindo seus maus desejos, chamam-se doutores e mestres, por que havendo por estes nomes autoridade entre as pessoas de pouco saber, com sua falsa conversação, falem doces palavras, dizendo a uns o que há de vir, (…) tirando-os da verdade, os façam assim tão familiares, que dêem crédito às fábulas, e fingidas novidades, que cada dia quiserem dizer. Destes fuja todo cristão! 46

46 Id., Ibid., p. 48.

Na primeira parte de seu breve tratado, Fr. António se mostra muito mais interessado em refutar qualquer possibilidade de um dilúvio, e sobretudo um que possa atingir o reino de Portugal, do que em constituir uma sólida crítica à astrologia nos moldes das Disputationes de Pico della Mirandola. De fato, tal aspecto é marcante na redação de todo este tratado. Seu autor não escreve do mesmo ponto de vista dos astrólogos que polemizam entre si sobre as teorias conjuncionistas, ou mesmo dos filósofos naturais que procuram atacar tais teorias, mas tampouco remete pura e simplesmente à defesa dos interesses teológicos que procurariam refutar os prognósticos apenas quando encontram-se ultrapassados os limites da providência divina e da doutrina cristã. 47 Fr. António de Beja escreve com um intuito divulgador, e esclarecedor das falsidades de uma ciência que considera vã e supersticiosa, com a finalidade de amainar o pânico difundido nas gentes de Portugal, em específico.

47 Esta é a opinião de Joaquim de Carvalho, manifesta enfaticamente no prefácio que escreveu para a edição de Contra os juyzos dos astrólogos de 1944.

As Duas Faces da Astrologia

Johann de Sacrobosco Textus spherae materialis, Leipzig, 1509.

Fr. António de Beja dedica à parte segunda e principal de Contra os juyzos dos astrólogos uma explanação detalhada da astrologia, dividindo-a em duas partes, como era habitual: o estudo contemplativo do movimento dos astros – ciência verdadeira e parte integrante das sete artes liberais – e a arte de adivinhar o futuro a partir dos movimentos celestes – falsa ciência, supersticiosa e condenável. O teólogo jeronimita realiza um amplo e sólido compêndio sobre a ciência dos astros, fundamentando-se em filósofos gregos e latinos da Antigüidade, nos grandes doutores da Igreja e em autores renascentistas como Giovanni PicoAgostino Nifo.

À verdadeira ciência astrológica, “uma das sete artes liberais, que a sutil invenção do juízo humano achou porque usando delas houvesse virtuoso exercício e viesse em conhecimento de outras mais excelentes doutrinas”, 48 opor-se-ia uma falsa ciência divinatória, equivocada tanto pela natureza vil daqueles que a inventaram (os cananeus, povo amaldiçoado por Deus), quando pela falta de precisão de seu método – argumentações basicamente compiladas das Disputationes de Pico.

48 Id.. Ibid., p. 50.

Acerca da efetiva influência das propriedades astrais sobre os corpos terrenos, Fr. António recorre à opinião de São Tomás de Aquino, apenas para concordar parcialmente com ele. O frade concede aos depoimentos astrológicos de São Tomás apenas no que toca ao tema do livre-arbítrio – assunto que ocupa um lugar privilegiado em toda a obra do teólogo português – porque “nenhuma estrela tem poder sobre as obras humanas que procedem do livre arbítrio, (…) e posto que pera isso bem concede (São Tomás) que os podem mover e inclinar alguma cousa, não empero em tanta maneira que os constranja fazê-las se eles não quiserem”. Segundo a opinião de São Tomás, “se algum usa do juízo das estrelas pera por elas saber algumas cousas futuras que se causam e procedem dos corpos celestiais, como são securas e chuvas, (…) não é ilícito usar do conhecimento e uso das estrelas”. 49 Sobre a constatação de São Tomás, Fr. António adota a ressalva crucial de Giovanni Pico, corroborada por Savonarola, admitindo ser verdadeira tal influência apenas por parte dos “dous luzeiros do mundo, convém a saber: o sol e a lua, que somente hão poder de fazer estas mudanças de tempos e cousas temporais, cá as outras (estrelas) em estes pouco ou nada obram em nós”. 50

49 Id., Ibid., p. 66.

50 Id., Ibid., p. 67, 68.

A negação da influência dos corpos celestes que não o sol e a lua, portanto, é adotada de forma radical por Fr. António de Beja, identificando-se com a opinião de Pico, Savonarola, e aqueles que “não querem conceder que as estrelas têm alguma outra coisa mais que luz e movimento do céu em que estão”, 51 e afastando-se da opinião majoritária dos astrólogos envolvidos na polêmica diluviana.

51 Id., Ibid., p. 69.

Ao longo de toda uma longa exposição escolástica sobre os erros da astrologia judiciária, Fr. António nunca se abstém de lembrar aos leitores quanto ao principal propósito do tratado – o de refutar o prognóstico diluviano e atacar a irresponsabilidade dos astrólogos, mais interessados na “glória, fama e proveito temporal” do que no bem estar de seus próximos, exercendo sua falsa arte “pera que, dizendo muitos erros conformes ao desejo dos pouco sábios, sejam deles tidos em muita honra e estima, e alcancem por isto algum proveito temporal”, 52 e “cá fingem estar cheios de divindade e com uma enganosa astúcia dizem e pregam aos homens cousas que hão de vir”. 53

52 Id., Ibid., p. 64.

53 Id., Ibid., p. 69.

Mais adiante, como que celebrando e valorizando seu próprio trabalho de esclarecimento, refere-se ao livro que então escrevia:

por ventura quis o sumo Deus que este pequeno livro em nosso Portugal se fizesse agora, para que, sendo por ele sabida a verdade, não houvesse em os belicosos portugueses menos poder pera resistir aos publicadores de tanto alvoroço do que houve nas outras partes, de que sempre foi lançada, e isto não por outra causa salvo porque por sua incerteza era geradora de muitos alvoroços e falsidades. 54

54 Id., Ibid., p. 85.

Tais manifestações parecem confirmar a hipótese de que Contra os juyzos dos astrólogos, além de compilar das Disputationes e de outras fontes uma explanação detalhada dos pormenores da astrologia e sua parte judiciária, servia principalmente ao propósito de divulgação e esclarecimento sobre as falsas profecias, dirigido sempre à percepção crítica do papel que exerciam os astrólogos defensores das teorias das grandes conjunções na sociedade da época do Renascimento, na qual gozavam de ampla credulidade e tinha sua prática grande respaldo, tanto em meio ao vulgo, quanto entre os homens de letras e os governantes.

Como vimos na primeira parte do presente capítulo, a crítica astrológica do final do século XV e princípio do XVI parte predominantemente de um impulso que se encontra tanto ou mais no plano moral que no científico. Tal é o caso do ataque à astrologia de Pico della Mirandola, e também de Marsilio Ficino e Girolamo Savonarola. Mesmo as opiniões mais moderadas, lançadas no debate sobre a conjunção de 1524 por astrólogos e filósofos naturais, colocam ênfase na falsidade das profecias de um dilúvio bíblico, ainda que adotem sem grandes ressalvas a teoria da influência dos corpos celestes no mundo sublunar, concordando com a significação de enchentes e dilúvios particulares.

Contra os juyzos dos astrólogos traz visivelmente a urgência de tal impulso moral em sua refutação astrológica. Ao mesmo tempo em que compila argumentações técnicas e específicas sobre a ciência dos astros para comprovar a falsidade de sua parte divinatória – no que de fato extravasa o propósito inicial de refutação do cataclismo – Fr. António dirige uma poderosa exortação aos homens de letras seus “naturais” para que passassem a fazer com afinco aquilo que então levava a cabo: a interferência dos sábios e daqueles ligados às “cousas intelectuais” nos grandes temas da sociedade de seu tempo, sobremaneira através de publicações impressas. O que novamente manifesta em seu epílogo:

Não é minha intenção escandalizar alguma pessoa em particular, mas mostrar a verdade, que o dizer e autoridade de tantos doutores e santos como nesta aleguei me ensinaram, e se algum alumiado por graça divinal achar neste caso doutrinas mais saudáveis, publique-as!Porque minha intenção foi, como disse, espertar os que mais sabem, e a quem isto não satisfazer, contente-se com um dito de meu padre São Jerônimo que, escrevendo das pessoas a quem nenhum bom dizer contenta, diz: Quem não quiser beber água clara, beba a cheia de lama. 55

55 Id., Ibid., p. 103.

Considerações finais

Hieronymus Bosch_Extraindo a Loucura

A obra de António de Beja foi escassamente discutida pela historiografia portuguesa do século XX. Sobre Contra os juyzos dos astrólogos, apenas dois estudos mais vultuosos se destacaram. O primeiro deles é o prefácio de Joaquim de Carvalho à edição que organizou do livro em 1944. Apesar do esforço em concretizar a publicação e de um aprofundado levantamento de fontes sobre a polêmica, o estudo de Carvalho diminui o valor do pensamento de Fr. António com excessivo ceticismo e com uma coleção de lugares comuns historiográficos que, tendo em vista o brilhantismo de tal pesquisador, só podemos atribuir ao contexto historiográfico específico de sua redação. O filósofo português atribui a autoria do tratado a uma “mente de formação medieval”, esvaziando-o de qualquer conteúdo de caráter humanístico. 56

56 CARVALHO, Joaquim de. Posfácio à edição de Contra os juyzos dos astrólogos. p. 114.

Duas décadas depois, José Vitorino de Pina Martins, como que para atualizar e corrigir as proposições de Carvalho, publica o artigoFr. António de Beja contra a astrologia judiciária”, em que de fato atribui uma essência humanística ao tratado anti-astrológico, ressaltando seu débito em relação à cultura italiana do Quattrocento, sobretudo ao pensamento de Pico della Mirandola. 57 Entretanto, não é apenas à “dependência ostentada pelo frade em relação a Giovanni Pico della Mirandola”, a qual “inculcaria a sua abertura ao Humanismo italiano”, 58 que se deve a aproximação de Fr. António à cultura humanística. De fato, podemos vislumbrar no pensamento de Fr. António de Beja um ímpeto ativamente moralizante e uma visão privilegiada do papel dos homens de letras na cultura impressa da época do Renascimento, características que, nas formulações acima comentadas do teólogo jeronimita, claramente podemos atribuir a uma associação estreita com uma nova concepção sobre o lugar do homem no mundo.

57 MARTINS, José V. De Pina, “Frei António de Beja contra a Astrologia Judiciária”, In: As grandes polêmicas portuguesas, vol. 1. Lisboa: Verbo, 1963, p. XVIII.

58 MARTINS, José V. de Pina. “Joaquim de Carvalho: historiador da Cultura Portuguesa”, In: CARVALHO, Joaquim. Obra Completa, vol. 2. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1982, p. XVIII.

É evidente que o presente artigo procurou analisar algumas idéias e proposições manifestas através de uma herança textual, cuja repercussão, de que não se tem de fato notícia alguma, não está, e não poderia estar, dentro dos limites de nosso objeto. Como e para que buscar, então, em livros “ignorados dos contemporâneos e esquecidos pelos confrades, sem rastro de memória entre os cronistas”, 59 aspectos elucidativos dos primórdios de um humanismo português?

59 DIAS, José Sebastião da Silva. A política cultural na época de D. João III, vol. 1, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1969, p. 178.

A resposta talvez resida na hipótese de que aqueles livros “signifiquem já algo de novo na história da nossa cultura”, 60 ou talvez a vislumbremos por detrás das próprias palavras de São Jerônimo, colhidas por Fr. António: “quem não quiser beber água clara, beba a cheia de lama”.

60 MARTINS, Ibid., p. XVIII.