Temas Transcendentais

Algumas Considerações sobre o Estudo da Simbologia Religiosa

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Marcel Henrique Rodrigues

∗ Discente do curso Psicologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo ABHR e Bolsista PIBIC-CNPq.

Resumo

O presente artigo apresenta uma análise sobre a importância do estudo dos símbolos religiosos enfatizando seu caráter histórico e antropológico. Para tanto é feito um estudo com base em autores que investigaram este tema, como Campbell, Frazer e dedicaram grande parte de suas obras aos estudos dos símbolos religiosos nas mais diversas civilizações, chegando ao consenso de que os símbolos foram à primeira forma de manifestação linguística e religiosa da humanidade. Ao final, de maiores investigações sobre o tema, indicando as ricas áreas científicas que tal estudo insere e de levar o leitor a perceber que a Psicologia pode abordar outras áreas, além da clínica e do entendimento das patologias psicológicas, ou seja, a Psicologia tem material necessário para o estudo e a investigação das religiões, das crenças e dos ritos que permeiam a humanidade desde tempos imemoriais.

Introdução

O presente artigo é fruto de reflexões gerais sobre os resultados da pesquisa “A queda do simbólico na vida contemporânea: uma interpretação da relação dos sujeitos com os símbolos da Igreja Matriz de Americana”, amparada pela Bolsa PIBIC (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica) concedida pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), realizada entre agosto de 2010 e julho de 2011.

Essa linguagem simbólica existente há milhares de anos é motivo de adoração, culto ou admiração para milhares de fiéis, independentemente do contexto religioso ou filosófico em que se inserem. Exemplos destes símbolos são a cruz para os cristãos, o yin-yang para os orientais, o esquadro e o compasso para os maçons, entre outros milhares de símbolos. É interessante apontar que, quando se refere à simbologia religiosa, não devemos nos limitar somente ás imagens, aos signos, aos sinais, aos símbolos, aos monogramas, entre outras imagens semióticas; mas, também, abranger a linguagem simbólica e mítica presente em livros sagrados das mais diversas e distintas religiões. Porém, este trabalho se limitará ao estudo dos símbolos religiosos no campo das imagens visuais concretas.

Não será destacado um símbolo especial; -, assim, o leitor deverá ter em mente os mais diversos e variados símbolos religiosos existentes no cotidiano. O artigo exporá, já de início, a importância e os motivos para estudar os símbolos, embasando-se em diversas áreas do conhecimento humano a que o referido estudo se encontra intimamente ligado, dando destaque à Antropologia histórica. Outro aspecto que será tratado concerne à ciência da Psicologia, sobretudo à Psicanálise, no estudo dos símbolos religiosos. Freud e Jung são os autores que mais se destacaram em tal estudo, dando um aspecto mais científico ao assunto. Apesar de visões muito distintas sobre a importância da religião, cada um desses teóricos se dispôs a estudar a simbologia. Jung se prendeu mais aos símbolos religiosos e coletivos e Freud estudou os símbolos oníricos. Na sequência, faremos a abordagem dos símbolos dentro do campo histórico e antropológico com embasamento nas obras de grandes autores como James FrazerJoseph Campbell e Mircea Eliade, que enfatizam o processo histórico do surgimento dos símbolos primeiramente como linguagem rudimentar, mesmo antes da própria linguagem fonética, porém, ao mesmo tempo, com traços de símbolos de cultos religiosos.

Por fim, é válido ressaltar que este artigo não pretende julgar, defender ou criticar nenhuma religião específica, muito menos ponderar sobre questões de cunho teológico, mas, sim, pretenderá demonstrar, com uma visão fenomenológica, a importância e a grande abrangência que o estudo da simbologia religiosa implica para o homem. Concluiremos que o simples estudo dessa temática é capaz de fornecer importantes ferramentas para a compreensão de características históricas, antropológicas e culturais da humanidade.

1. Motivos para estudar os símbolos

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Autores como Santos argumentam que o estudo da chamada “ciência-simbólica” é importante, pois todos os símbolos possuem um forte enlace cultural, filosófico e histórico. O autor deseja apontar que o estudo, ou mesmo a simples observação dos símbolos, leva o sujeito a entrar em contato com diversos ramos do conhecimento, como a Filosofia, a História, a Antropologia, entre outras áreas.

Para clarear esse complicado apontamento, proposto por Santos, pode-se elencar que cada símbolo possui uma ligação com diversos ramos do conhecimento, sendo eles:

a) A Filosofia: cada símbolo, sobretudo, os religiosos, possui, geralmente, uma conotação filosófico-metafísica, na qual o sujeito é instigado a uma reflexão sobre o significado daquela imagem, ou seja, conduzirá o indivíduo pela busca do saber do significado do emblema;

b) A História: cada símbolo tem uma história, ou seja, esteve presente nesta ou naquela cultura. Talvez esse seja o ramo do conhecimento que mais esteja ligado aos símbolos, pois os mesmos se encontram presentes na humanidade há muitos milhares de anos, sendo transmitidos de cultura para cultura;

c) A Antropologia: se cada símbolo é uma criação cultural do homem, não se poderia excluir esse importante ramo do conhecimento.

Existem outras áreas a que somos levados quando estudamos os símbolos; elencamos acima somente algumas delas. Ficará claro, no decorrer da pesquisa, que a Psicologia é outro ramo, talvez o mais recente, a ser incorporado para o estudo da simbologia religiosa.

O cerne da importância do estudo reside no caráter fenomenológico que cada símbolo possui. O estudioso que pesquisa seriamente as religiões tem em mãos uma importante ferramenta, ou seja, que são os próprios símbolos das religiões, que com sua “carga” histórica, filosófica e antropológica, fornecem ao estudioso um panorama geral da teologia ou das crenças dessa ou daquela religião; portanto, os símbolos possuem uma raiz fenomenológica para o estudioso que deseja estudar o fenômeno religioso sem fazer referências à existência ou não de Deus/deuses ou valorizar/desvalorizar uma ou outra religião. Em termos gerais, o estudo dos símbolos, como é apontado por Jung, nos fornece um rico material para a compreensão da religiosidade humana, da cultura e da história de modo geral, com uma visão fenomenológica que não faz julgamentos a priori e que mantém a neutralidade do pesquisador perante o fenômeno.

O que foi exposto até o momento está dentro do campo da pesquisa acadêmica sendo que os símbolos fornecem um meio fenomenológico para estudar as religiões. Mas e para os que não são cientistas, o que o entendimento dos símbolos pode fornecer?

Essa indagação talvez fosse respondida somente na conclusão deste trabalho, mas essa questão é necessário que se levante aqui, visto que falamos somente da importância dos símbolos para o estudioso acadêmico. Para o leigo, nos assuntos acadêmicos, a compreensão simbólico-religiosa pode-lhe fornecer ferramentas básicas para compreender o contexto histórico da religião, por exemplo, com que ele se simpatiza ou que frequenta. Para exemplificar, vamos usar o símbolo da cruz, que é amplamente conhecido, sobretudo no meio cristão ocidental em que vivemos.

Vieira demonstra que quando falamos na palavra cruz, logo nos vem à mente a figura de Cristo, de sua Paixão, de seu sangue, de sua crucificação, entre outros aspectos. Seriam somente esses conceitos de significados aplicados à cruz?

Do ponto de vista histórico e antropológico não, pois, como aponta Vieira, a cruz é um dos símbolos mais antigos presentes na humanidade, sua história é muito anterior ao Cristianismo. Lurker explica que a cruz é um símbolo primordialmente pagão e que aparece em diversas culturas no mundo, como na cultura dos antigos gregos, germânicos e até mesmo na cultura pré-colombiana, onde a cruz era dedicada ao deus da chuva.

Com essa rápida explanação, sobre o quão antigo e histórico é o símbolo da cruz, podemos inferir que, um indivíduo, ao se questionar sobre tal símbolo e se for levado a buscar e a descobrir suas origens, inevitavelmente entrará em contato com a história de várias culturas distintas, que mostrarão a ele que um símbolo não é estático e único de uma religião, mas que é dinâmico e culturalmente difundido por diversas civilizações. Assim o sujeito entra em contato com a história, que é essencialmente importante para o conhecimento humano, de suas próprias raízes e de como se dá a construção do conhecimento.

2. A simbólica no plano psicológico

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 Como já apontado, a Psicologia é um dos mais recentes ramos do conhecimento científico que contribuí para o estudo da simbologia religiosa, ou, “ciência-simbólica”, como proposto por Santos. Apesar de, a rigor, a Psicanálise pertencer ao campo da Medicina, onde nasceu, ela já foi amplamente adotada pelo campo da Psicologia, como referencial teórico e tema de pesquisas, tornando a Psicologia ainda mais complexa em matéria de escolas, teorias e fundamentações filosóficas. Dentro da Psicologia, a Psicanálise foi a escola que mais contribuiu para o estudo dos símbolos religiosos, sobretudo a Psicanálise de Jung. O médico de Zurique, que fora amigo e depois dissidente de Freud, é o fundador da chamada Psicologia Analítica.

Não é nossa intenção discutir sobre os argumentos de Jung que levaram ao rompimento com Freud, o fundador da Psicanálise, nem discutir sobre nenhum método de tratamento clínico. Nosso intuito aqui é conhecer as principais teorias psicanalíticas para os símbolos religiosos, sempre utilizando dos conceitos antropológicos e históricos que são fundamentais para a simbologia.

Para Jung, os símbolos são produtos do inconsciente humano que se utiliza de imagens para expressar uma linguagem que, segundo o autor, é a linguagem da alma humana. Esse estudioso chegou à noção de simbólica, como linguagem do inconsciente, após observar que milhares de símbolos idênticos uns aos outros se apresentavam em diversas culturas do mundo, independentemente de seu contexto geográfico ou histórico. O exemplo da cruz, citado acima, é essencial para a explicação desse conceito junguiano, pois, como observamos, a simbólica da cruz aparece não só no Cristianismo, mas também na cultura grega, germânica e pré-colombiana, que estão distantes entre si, e que, possivelmente, e principalmente entre os pré-colombianos, não tiveram nenhum contato ou intercâmbio cultural. Este e outros exemplos levaram Jung a postular não só a existência de um inconsciente, que se expressa através dos símbolos míticos, mas a existência de um inconsciente coletivo, (inerente a todos os seres humanos), que, a partir de sua linguagem simbólica, independentemente da cultura, da posição geográfica ou do credo religioso, leva todos os seres humanos a estarem culturalmente interligados a uma coletividade simbólica trazida pelo inconsciente. Eis como Jung interpreta o inconsciente coletivo:

O inconsciente coletivo é uma parte da psique que pode distinguir-se de um inconsciente pessoal pelo fato de que não deve sua existência à experiência pessoal, não sendo, portanto uma aquisição pessoal. Enquanto o inconsciente pessoal é constituído essencialmente de conteúdos que já foram conscientes e, no entanto desapareceram da consciência por terem sido esquecidos ou reprimidos, os conteúdos do inconsciente coletivo nunca estiveram na consciência e, portanto não foram adquiridos individualmente, mas devem sua existência apenas à hereditariedade. Enquanto o inconsciente pessoal consiste em sua maior parte de complexos, o conteúdo do inconsciente coletivo é constituído essencialmente de arquétipos.

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Dentro dessa explicação devemos compreender o que Jung entende por arquétipo. Tal termo é utilizado, dentro da perspectiva da Psicologia Analítica, para designar ideias e imagens primordiais que são inatos à psique humana e que, portanto, fazem parte do inconsciente coletivo que projeta os símbolos frutos das atividades arquetípicas. Lurker argumenta que Jung postulou os arquétipos como parte da instintualidade humana, ou seja, se os símbolos religiosos são produzidos pelo inconsciente arquetípico e se os arquétipos, que são os “produtores” destes símbolos, são parte dos instintos, então os símbolos e as religiões são, segundo Jung, manifestações típicas da natureza humana.

É verídico que as hipóteses de Jung geraram muitas polêmicas, discussões e críticas, mas, o que também não mais é negado, é que seu trabalho foi e ainda é fundamental para os estudos dos símbolos e das religiões comparadas, dentro de uma perspectiva filosófica, histórica e psicológica.

Dentro do círculo da Psicanálise, Freud também escreveu sobre os símbolos de um modo geral. Embora Freud não tivesse uma visão tão amigável como Jung tinha das religiões, o pai da Psicanálise estudou o fenômeno das religiões e dos símbolos com uma lente mais crítica, sempre embasada em seu positivismo. O Positivismo, como explica Barbour, rejeita qualquer noção de metafísica, dogmas ou crenças, ou seja, só é válido, para os positivistas, aquele conhecimento que possa ser empírico e verificável. Freud, assim como Jung, teorizou que grande parte dos símbolos utilizados pelas religiões e pelas culturas em geral, é fruto da atividade do inconsciente que se manifesta, na maioria das vezes, pelo viés onírico. Embora Freud tenha rejeitado totalmente a teoria do inconsciente coletivo, ele aceitou a ideia de que a simbolização das culturas, sobretudo das religiões, é transmitida no que ele chamou de “resíduos-arcaicos”, que seriam resíduos que sobrevivem na psique inconsciente desde os tempos imemoriais, e que instigam o ser humano, de modo geral, a agir de uma maneira semelhante a de seus ancestrais e ao seu grupo, principalmente na criação dos símbolos e rituais religiosos.

A intenção deste estudo é levar o leitor a uma reflexão sobre o tema dos símbolos, de sua grande importância, que instigou dois dos maiores nomes do século XX, Freud e Jung, a estudá-los sob uma óptica científica. Por meio de seus trabalhos, comprovaram que o estudo da simbologia fornece ao pesquisador uma conexão com os estudos de outras áreas do saber, como a História, a Antropologia, a Filosofia, as religiões comparadas, entre outras.

3. A simbologia religiosa no contexto histórico e antropológico

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Vimos à importância dos símbolos na área da Psicologia – Agora daremos atenção ao contexto histórico e antropológico em que os mesmos se inserem. Campbell é um dos autores que mais enfatiza a importância histórica dos símbolos, colocando-os como fruto da evolução intelectual do ser humano. O autor, que muito se aprofunda nos temas simbólico-religiosos, entende que os símbolos antecedem a própria formação da linguagem fonética, portanto, caracteriza-os como uma das primeiras formas de comunicação humana enraizada no contexto mítico religioso.

Campbell ousa supor que as pinturas rupestres, sobretudo as da caverna da Lascaux, no sudoeste da França, são imagens religiosas e simbólicas, comprovando a probabilidade de que uma das primeiras formas de comunicação humana se dera através dos símbolos imagéticos. O autor não se orienta somente pela pré-história para comprovar suas teses, mas se volta também para a antiguidade egípcia com seus temas hieroglíficos, que são marcados por imagens simbólicas com caráter linguístico-fonético.

Frazer também observou nos símbolos uma forte manifestação linguística dos homens da antiguidade e que este aspecto por si só, comprova a importância histórica dos símbolos para a humanidade. Este renomado antropólogo acredita que seja difícil separar os mitos dos símbolos, e que ambos estão intrinsecamente interligados. Campbell não tem dúvidas sobre o valor histórico dos símbolos e aponta a impressionante forma pela qual as imagens simbólicas, sejam elas em mitos ou imagens, são transmitidas de uma cultura para outra.

D’Alviella estudou os símbolos religiosos, não dentro de um contexto psicológico, mas sim histórico, e nos mostra como diversos símbolos foram sendo transmitidos de cultura para cultura, sempre se adequando ao novo contexto. Esse estudioso pesquisou sobretudo a suástica1 como símbolo amplamente difundido e cultuado entre diferentes culturas do mundo antigo.

1 A suástica, como é definida por Lurker, é um dos mais antigos símbolos de que se têm registro. Aparece em culturas como as dos hindus, gregos, romanos, celtas entre outras. Ficou mundialmente conhecida por ter sido usada pelos nazistas como emblema do movimento, que deturpou totalmente o seu original significado religioso.

Embora esses estudiosos tenham planos de pesquisa diferenciados, suas conclusões coincidem no que se refere ao caráter histórico dos símbolos, ou seja, que todas as religiões foram se desenvolvendo mediante a introdução das imagens sacras, ou símbolos. Não há como negar que a chamada “linguagem dos símbolos” tenha se manifestado em praticamente todas as culturas do globo, primeiramente como símbolos de culto sagrado, depois passando para símbolos dos estados e das cidades que se contextualizam fora do âmbito sagrado. Seja como for, os símbolos sobreviveram ao pesado tempo da história, às diversas transformações sociais e continuaram como linguagem das religiões e motivos de culto e devoção. Antes de aprofundar sobre os símbolos nas religiões atuais, é necessário argumentar sobre o que consiste a linguagem dos símbolos.

Por linguagem entendemos, segundo Cassirer, como sendo uma manifestação, seja ela – fonética, artística, simbólica, gestual, entre outras -, entre os seres viventes, numa tentativa de comunicação. Assim, como apontado, existem muitos tipos de linguagem, incluindo a própria linguagem simbólica que, segundo Cassirer, está intimamente atrelada ao surgimento da linguagem tal qual temos hoje. O estudioso defende que os mitos, com sua linguagem simbólica, foram as primeiras manifestações de linguagem, em forma fonética, que se tem registro. Portanto, seguindo o pensamento desse autor e de outros, como Campbell e Eliade, chegamos à conclusão, de que além das características históricas, psicológicas e antropológica, existentes nos símbolos, há ainda a sua característica linguística.

Cada símbolo é carregado de significados – sempre dependendo do ambiente em que está inserido – Para compreender sua linguagem, ou seu real significado, é necessário o conhecimento da história, seja a história de determinada cultura, crença, ideologia, teologia, entre outros. Frutiger acrescenta que, além do conhecimento histórico, o sujeito deve entender que um símbolo nunca é o que realmente demonstra ser, ou seja, seu significado está ocultado. Essa definição é um tanto quanto confusa, tentaremos explicá-la de uma forma mais inteligível. O que a autora deseja explicar é que o símbolo não é como a linguagem dos sinais, que são distintos dos símbolos – Os sinais refletem uma linguagem mais objetiva, – Por exemplo -, ao vermos o sinal de um prato entre talheres seremos levados a crer que tal sinal se refere a um restaurante, na perspectiva da simbologia religiosa tal conceito não se aplica. Um símbolo possui uma linguagem, se assim podemos dizer mais transcendental, que sempre remete a outro, como a cruz remete a Jesus, para os cristãos, como o quadrante da terra para os pagãos.

Para explanar o conceito de símbolo, como linguagem oculta, utilizemos o exemplo fornecido por Daniélou que estudou amplamente os símbolos religiosos dos cristãos no início da cristandade. Ele nos apresenta alguns símbolos que serviram para ocultar o culto dos cristãos no início do Cristianismo, tal ocultamento, segundo o autor, era necessário, pois -, a grande violência exercida por parte dos pagãos contra o culto cristão fizera com que a única forma de manter os valores da nova religião fosse ocultando-os sob símbolos, – o símbolo mais utilizado nessa época foi o peixe, que era já bem conhecido no mundo antigo.

Sendo assim, o peixe, que tem como significado cristão do batismo, ou o renascimento nas águas do Espírito Santo, era colocado em lugares comuns indicando as proximidades de um local para culto “secreto” cristão. O interessante é que o símbolo do peixe, nessa época, estava transmitindo uma mensagem oculta, somente conhecida por aqueles que tinham o conhecimento do culto cristão e seu real significado, sendo que, para a maioria dos pagãos, o símbolo tinha um mero significado de abundância. O’Connell e Airey complementam que esse símbolo, além de um significado simbólico mítico, possuía também um significado fonético, pois, – peixe em grego é escrito ICHTHUS. Estas letras são as iniciais de “Jesus Cristo, o Filho de Deus e Salvador”, revelando um eficaz símbolo secreto para o Cristianismo nascente. Esse exemplo é importante para ilustrar que os símbolos têm a função de fornecer uma linguagem oculta, ou seja, de trazer consigo o significado de outro, significado este que necessita ser decodificado, para se compreender seu real sentido. Kast diz que a linguagem dos símbolos é composta de no mínimo, dois elementos, em que uma imagem sempre se apresenta no lugar da outra, ou seja, todo símbolo é uma referência a outro. Um exemplo simples é a cruz no lugar de Jesus Cristo, no âmbito cristão.

Após essa apresentação e a compreensão de que, de fato, os símbolos ainda continuam a fazer parte das grandes religiões mundiais, e que os mesmos possuem uma conexão histórica e antropológica, não sendo meras imagens decorativas, passemos a um novo tópico.

4. Afinal por que a religião é em si simbólica?

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Esta é uma questão que não é difícil de ser respondida, visto que já foram expostas todas as qualidades que um símbolo possui. Estamos longe de fazer qualquer indagação metafísica, ou sobre a existência ou não de poderes divinos entre outras crenças; iremos nos preocupar com a investigação da religião como manifestação típica da humanidade.

Vimos que a antropologia está intimamente ligada às questões simbólicas. É a partir deste pressuposto antropológico que tentaremos responder a questão apresentada. É bem provável que o leitor já tenha encontrado a resposta para a pergunta, porém, acredito ser necessária uma revisão para justificar cientificamente o uso da linguagem dos símbolos religiosos.

Os autores que até agora foram citados, como Campbell, Freud, Jung, Eliade, Frazer, são unânimes ao postular que os símbolos foram, de modo geral, a marca central para o início da crença religiosa, da linguagem e da cultura. Bettencourt demonstra que é praticamente impossível encontrar uma civilização que não tenha tido um tipo de culto religioso na mais afastada das eras, – mesmo os considerados homens das cavernas, que não possuíam um corpo evoluído, com as características que hoje temos, já apresentavam sinais de cultos simbólicos mesmo antes da criação da linguagem fonética. O que o autor está demonstrando é que, acima de tudo, as características da religiosidade humana são de cunho antropológico e histórico, e que a linguagem simbólica é a mais antiga manifestação de comunicação existente.

É cientificamente impossível saber se tais símbolos eram de cunho somente religioso ou se já eram tidos como meio de comunicação. Alguns autores postulam que esses símbolos eram muito mais utilizados como meios de comunicação do que para fins religiosos, porém, as opiniões são muito divergentes.

Após termos voltado para as características antropológicas da simbologia, que são tão evidentes, podemos responder a questão com base científica e apontar que a religião é, de modo geral, fundamentalmente baseada em símbolos. Por isso, as linguagens das religiões são propriamente simbólicas, seja pelas características de imagens ou mesmo pelos contos míticos.

Agora podemos indagar, será que as religiões, da contemporaneidade, consideram a manifestação simbólica primitiva? Ou estão demasiadamente empenhadas para “comprovarem” que todos os seus escritos religiosos são na realidade realidades históricas? Talvez a segunda questão se encaixe de melhor forma, pois, o que hoje podemos observar é uma verdadeira “guerra” entre religiões que se digladiam entre si em nome da literalidade de seus deuses, de seus mitos e de seus símbolos e acabam se esquecendo de que todas as manifestações religiosas vieram, antropológica e historicamente falando, de um ramo simbólico.

A religião é em si simbólica por causas naturais do próprio homem que demonstram a necessidade humana de simbolizar aquilo que não consegue expressar, ou que está ausente, ou seja, a própria divindade que o homem desconhece. É esse impulso que faz com que a religião seja em si natural, em que a verdadeira divindade se manifesta de forma límpida e articulada na imaginação do homem, não de forma dogmática, mas adogmática.

Muitas dessas críticas à atual religiosidade, sobretudo ocidental, podem ser encontradas nos escritos de Jung, que amplamente estudou sobre as questões dos símbolos nas religiões da contemporaneidade tendo encontrado uma nova forma de culto, pois a atual religiosidade, como já dito, tem deixado de lado sua simbologia e se preocupado cada vez mais com a exploração e a comprovação de que todos os contos de seus livros sagrados são verdades literais. Podemos crer, que apesar de grande parte das religiões continuar a expor sua incrível simbologia, elas sofrem com a chamada “queda” do simbólico porque, simplesmente, deixaram de lado o uso e a interpretação de seus próprios símbolos.

Reflexões e considerações finais

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 Com certeza falar sobre simbologia religiosa é algo bastante difícil, pois sempre há o perigo de cairmos em afirmações teológicas. Porém, acredito que tenha conseguido, mesmo que em partes alcançar meu objetivo.

Para fecharmos o trabalho vamos refletir sobre a grande quantidade de áreas de conhecimento que um simples símbolo abarca. Vimos somente as áreas principais, ou as que estão mais conexas com o tema, provando assim que os símbolos são muito ricos em conhecimento humano.

Parece estranho falarmos que um símbolo é rico em conhecimento humano, parece mesmo uma espécie de antropomorfismo do símbolo, porém, considerando a antiguidade das imagens simbólicas, podemos dizer que realmente eles têm uma vasta interconexão com várias áreas das ciências humanas, sobretudo da antropologia. E é exatamente pelo rico material que os símbolos fornecem que faz com que o estudo da simbologia seja extremamente enriquecedor e importante.

Hoje as religiões estão com seus templos adornados por antigos e milenares símbolos, muitos de seus fiéis lhe prestam culto, mas será que conhecem seu significado? Os fiéis sabem que esses símbolos pertencem a uma coletividade religiosa de outras culturas, ou melhor, dizendo, que estes símbolos são mais antigos que sua própria religião enquanto sistema teológico? Com certeza a resposta é não. Não é nosso intuito propor que os membros de uma religião sejam especialistas em símbolos, porém, o conhecimento dessa linguagem simbólica, dessas imagens enigmáticas que enchem seus templos e catedrais, pode ser um importante viés para que o homem tome, ou retome, o contato com sua história, com a história da sua religião, de suas crenças, e de uma maneira mais ampla, com a história da própria humanidade.

Temos a consciência que um dos males que atinge a humanidade na atualidade é a própria desconexão com o fluxo da história. Temos visto grandes comunidades, povos e países que vivem e agem como se não houvesse uma construção histórica da cultura, um exemplo, que podemos citar, é a própria guerra entre Islamismo e Judaísmo, essas culturas tendem a enfatizar somente os momentos históricos em que essas duas grandes religiões se digladiaram e se esquecem que partilham dos mesmos temas simbólicos, como a crença em um Deus único, ou, em questão de imagem, o símbolo do Hexagrama3 que é um motivo simbólico tanto do Islamismo como do Judaísmo; esses hexagramas tem sido destruídos por parte do povo árabe em manifestações contra os israelitas.

3 O Hexagrama, segundo Lurker é um importante símbolo para o Judaísmo e para o Islamismo que representam uma incrível quantidade de significados. Para os judeus representam as doze tribos de Israel e para os sufistas a união entre divindade e humanidade.

Longe de fazermos apologias políticas ou religiosas, este escrito teve a preocupação com o estabelecimento do homem histórico e simbólico a partir dos estudos e da compreensão da simbologia religiosa. É notório como um símbolo é rico em significado histórico-antropológico, sendo um importante meio de estudar a cultura humana através de um olhar fenomenológico e sem julgamentos, a priori, que pode fornecer ao homem um arcabouço crítico com sua própria religiosidade e com a sociedade de modo geral.

Historia de las creencias y de las ideas religiosas – Vol. I – II – III

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Mircea Eliade

O Livro Vermelho

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C. G. Jung

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