Astrologia na Ciência e na Filosofia

Astrologia e Alquimia

“Ars Magna Lucis et Umbrae”_

No livro Tu és Isso de Joseph Campbell li uma frase de Heinrich Zimmer que ilustra bem a natureza das polêmicas causadas pela dificuldade de comunicação entre as pessoas: “As melhores coisas do mundo não podem ser ditas. As segundas melhores são mal interpretadas”.

Não é apenas uma questão de metáforas, mas é a falta de estudo e conhecimento preconizada pela presunção e pela ignorância, as causas do desentendimento que geram as polêmicas e discussões disparatadas sobre questões que só falam sobre o ego e a vaidade e nada mais.

Acho útil apontar certas discussões para elucidar como a mistificação e a deterioração da lógica e do bom senso preponderam sobre o julgamento de quem mais se interessa pelo alarido boçal do que pela sentença justa. Entretanto aqui não é o tribunal de defesa do nosso amigo filósofo Olavo de Carvalho. Como astrólogo meu direcionamento principal é esclarecer a questão da astrologia.

Por este motivo, não importa quão alto voem os pensamentos dos homens sábios e cultos do mundo, se estes não entendem a astrologia é porque ainda não são capazes de entender o sentido das coisas, por mais que se estude, sem o direcionamento superior do conhecimento astrológico a cultura humana será apenas uma quimera fantasiando uma realidade.

César Augusto – Astrólogo

Engraving by Girolamo Olgiati, 1569

Engraving

Ciências Esotéricas e Gnose

Felipe Coelho

A Gnose “Tradicionalista” de René Guénon e Olavo de Carvalho

“De fato, a existência de uma gnose ou philosophia perennis mostra que a religião e o dogma não são a última palavra em matéria de espiritualidade, e que a “fé” tende, em última análise, a desembocar num conhecimento direto que elimina toda a necessidade de “crença”, pois traz uma certeza, nas palavras de Guénon, ‘mais forte ainda que uma certeza matemática’.

Olavo de Carvalho, “A Autoridade Abalada. A Crise do Catolicismo” – II, in Planeta, nº 111, Dezembro de 1981, p. 27.

1. A Defesa da Astrologia por Olavo de Carvalho

Como vimos anteriormente, o esoterismo sempre inclui a Gnose, conforme disse Antoine Faivre.

Também Gusdorf mostra que “a palavra esoterismo evoca, por sua etimologia, a conversão ao espaço interior; ela designa uma ciência secreta, mas não apenas por seu conteúdo que se refere a procedimentos mágicos, a conhecimentos ocultos; mas também por seu estatuto. Há ensinamentos esotéricos, mas as instruções dadas e recebidas não concernem senão ao envelope exterior daquilo que está em questão”.

Noutras palavras, o esoterismo não pode ser transmitido apenas teoricamente: ele tem que ser vivido numa iniciação secreta, pessoalmente. Ele é intrinsecamente secreto.

Em seu Aviso 2, Olavo de Carvalho reconhece que o gnosticismo, ao longo dos tempos, impregnou, com alguns de seus elementos, várias atividades humanas, mas que esses elementos da Gnose foram incorporados com significado variado, “conforme o lugar e a função que recebam nas estruturas de pensamento que os acolhem. Isto é óbvio sobretudo no que se refere às ciências simbólicas da natureza – Astrologia e alquimia que já pelo simples fato de serem simbólicas, não remetem por si mesmas a um sentido unívoco, mas recebem o seu sentido do teor geral das concepções doutrinais que os integram e utilizam. Só para dar um exemplo, a mesmíssima teoria da influência dos astros sobre as paixões humanas se encontra, idêntica, em Santo Tomás de Aquino e em Robert Fludd. É cristã no primeiro e gnóstica no segundo, não porque apresente aí qualquer diferença interna, mas pelo lugar que ocupa nas concepções globais de um e de outro”.

Como você bem percebe, meu caro Felipe, Olavo está preocupado em sustentar que a Astrologia que ele praticou durante muitos anos, e defende até hoje, não é a que tem ligação com a Gnose. Seria mais uma “Astrologia tomista, cristã”, do que Fluddiana e gnóstica.

Comecemos por fixar como Olavo e seus mestres, os pensadores gnósticos chamados “tradicionais” ou “perennialists”, conceituam o que Olavo chamou de “ciências simbólicas da natureza”, e como elas se diferenciam das ciências comuns.

Olavo distingue a Astrologia natural, ou “científica”, – que ele não chama de Astronomia – da “Astrologia espiritual” ou “sapiencial”:

“(…) teremos não uma, porém duas ciências – complementares, é verdade – porém distintas e inconfundíveis. Tradicionalmente esses dois domínios chamam-se “Astrologia Natural” (ou, podemos admitir, “científica”), e “Astrologia Espiritual” (ou sapiencial).

Olavo de Carvalho, Astrologia e Religião, p. 27.

São, pois duas Astrologias mesmo. Olavo não fala da Astronomia.

Ele explicitou mais que uma distinção, estabeleceu uma separação, entre Astronomia e Astrologia, e o fez de modo ainda mais claro, num artigo escrito para a Revista Planeta em 1978, no qual afirma que Astrologia tem muito pouco a ver com Astronomia:

“Na realidade, não é preciso conhecer muita Astrologia para ver que ela tem muito pouco a ver com a astronomia. Pode-se estudar Astrologia com conhecimentos relativamente rudimentares de astronomia (o suficiente para calcular latitudes e longitudes, ascensão reta e declinações), mas não se pode fazê-lo sem sólidos conhecimentos de mitologia, de psicologia, de religiões comparadas, de heráldica, de simbologia, de arte sacra, e sem a vivência prática, concreta, de pelo menos uma das muitas vias de autoconhecimento e transcendência criadas pelas tradições espirituais do Oriente e do ocidente, como a cabala e a ioga, as várias formas de meditação e experiência mística, etc.”.

Olavo de Carvalho, artigo Cadeia para os Astrólogos, in Planeta, Dezembro de 1978, no 75, p.31.

Como Olavo era sincero quando escrevia na Revista Planeta!

Nesse artigo, ele confessa que, para ser astrólogo, não é preciso entender de Astronomia, mas sim que é preciso ter “vivência da Cabala ou da ioga”, isto é, da Gnose judaica ou da Gnose hindu!

Ora, Olavo foi astrólogo. Logo, ele teve “vivência” da doutrina gnóstica. Portanto, Olavo é um gnóstico. Pela própria boca, ele se condenou.

E ainda ele se espanta que eu o tenha acusado de defender a Gnose e de ser gnóstico! E ainda me desafia – ele que foi astrólogo profissional – a provar que ele tem doutrina gnóstica, sob pena de me taxar de “impostor”!

Noutro livro, Olavo faz a mesma distinção que já vimos:

“A distinção que assinalei acima evidencia a necessidade de dois enfoques diversos, que constituem por assim dizer duas Astrologias opostas e complementares: a Astrologia como ciência natural estuda a influência dos planetas; a Astrologia como hermenêutica estuda as significações dos fenômenos planetários como símbolos de potências superiores. Esta última forma demanda, por certo, conhecimentos de ordem metafísica e cosmológica que transcendem o campo habitual do astrólogo; ela desemboca numa angeologia e numa teologia”.

Olavo de Carvalho, Astros e Símbolos, p. 48.

A Astrologia Natural seria aquela que trata da influência dos astros sobre as paixões humanas, podendo, ou não, prever o futuro, por exemplo. A Astrologia Espiritual que desemboca numa angeologia e numa teologia, exigiria “conhecimentos de metafísica”.

Ora, para Olavo, o termo “Metafísica” significa, como vimos, Gnose. Olavo pretende que é astrólogo espiritual. Logo, ele tem que ser gnóstico. De novo, se prova que ele é gnóstico pelas próprias palavras dele. Olavo diz isso mesmo de modo bem transparente:

“Prolongando e precisando essa advertência, é preciso esclarecer que a Astrologia de que se trata neste livro é aquilo que mais propriamente se denomina “Astrologia Espiritual”, ou seja, a utilização do simbolismo astrológico como suporte para a compreensão de doutrinas tradicionais de ordem cosmológica e metafísica, e também como instrumento hermenêutico para a interpretação correta e tradicional de ritos e símbolos. Não se trata, de maneira alguma, de astrologia preditiva – científica ou não, dá na mesma -, nem de Astrologia Psicológica no sentido tão amplamente disseminado pelos junguianos. Falo da Astrologia como auxiliar da mística, e não como instrumento para a predição ou como muleta psicológica travestida de autoconhecimento”.

Olavo de Carvalho, Astros e Símbolos, p. 16.

From-The-Work-Of-Robert-Fludd

É claríssimo: a Astrologia de Olavo é instrumento para o conhecimento de doutrinas metafísicas tradicionais, que como vimos, equivale à Gnose. Logo, Olavo é gnóstico mesmo. É também astrologicamente gnóstico. Olavo é astrologicamente gnóstico tal como Robert Fludd, que ele afirmou defender uma Astrologia Gnóstica.

Repare ainda, caro Felipe, que Olavo, no texto acima citado, condena a “Astrologia Preditiva”, seja ela científica ou não. Entretanto, noutra passagem desse mesmo livro, ele escreveu:

“A noção de que as pessoas tenham um destino estampado nos céus e de que o pré- conhecimento desse destino possa ser levar a um “aperfeiçoamento” individual não é em si mesma totalmente falsa, mas uma ênfase excessiva neste modo de ver as coisas misturadas a concepções fantasistas sobre o karma, das quais falarei mais adiante – pode levar a uma extinção de toda religiosidade autêntica e ao estabelecimento de uma nova astrolatria”.

Olavo de Carvalho, Astros e Símbolos, p. 77.

Portanto, a Astrologia Preditiva não seria, agora, totalmente falsa. Alguma predição seria possível ser feita por meios astrológicos.

Veremos, nos Apêndices desta carta – que são de São Tomás, na Suma Contra Gentiles e na Suma Teológica, ensinou que as predições astrológicas são falsas e demoníacas, obras daqueles “cherubini neri”, de que falou Güido de Montefeltro a Dante no Inferno.

Noutra passagem de um de seus livros, Olavo diz:

“No que diz respeito às ciências tradicionais, como a Astrologia, a geometria, a alquimia, etc., é evidente que nenhuma delas tem a menor possibilidade de ser corretamente compreendida fora do quadro de um esoterismo completo e vivente, ao qual sé se tem acesso, precisamente, por meio do compromisso com um exoterismo ortodoxo”.

Olavo de Carvalho, Astrologia e Religião, p. 13.

Portanto, ele admite que só com um conhecimento esotérico – isto é gnóstico – se pode ter compreensão da Astrologia e das outras ciências “tradicionais”. Ora, Olavo proclama que tem um conhecimento esotérico – portanto, gnóstico – que lhe permite possuir a verdadeira e correta compreensão da Astrologia.

Por outro lado, Olavo previne que, no mundo moderno, há duas deturpações da Astrologia Tradicional, castiça”: a Astrologia “Ocultista”, e a Astrologia dita “científica”.

Olavo de Carvalho, Astros e Símbolos, p. 19.

A Astrologia Ocultista, ele a condena, porque Guénon condenou o ocultismo de Papus, com quem brigara. A Astrologia científica moderna, por seu materialismo, e por seu racionalismo, ele não a aceita na medida em que a razão engana o homem, confinando-o no mundo da manifestação. A Astrologia Tradicional ou espiritual defendida por Olavo de Carvalho é uma ciência esotérica, isto é, gnóstica.

Queremos salientar, agora, o ponto de vista anticientífico e antirracional das ciências esotéricas.

Por se oporem ao mundo real, compreensível pela razão, elas não aceitam a relação natural de causa e efeito. Olavo salienta que jamais os astrólogos pretenderam aplicar à Astrologia essa relação de causa e efeito, quanto às ações dos homens:

“(..) por toda parte se explica a relação entre os astros e os homens como um processo de semelhança, de analogia, de simpatia, de correlação, de sincronismo, e nunca de causa e efeito.

“E completaram (os astrólogos): nenhum astrólogo jamais disse que os astros causam as ações humanas, pela simples razão de que o princípio de causa e efeito, tão importante para o cientista materialista, é, para os astrólogos, um princípio menor e secundário. O princípio maior é a lei da analogia, mediante a qual o grande e o pequeno, o macrocosmo e o microcosmo, a matéria e a consciência, têm uma estrutura e uma dinâmica semelhante, já que são apenas faces diversas do mesmo fenômeno”.

Olavo de Carvalho, Os Astrólogos Estão de Volta, in Planeta, Janeiro de 1978, nº 64, p. 23.

Não seria então pela relação de causa e efeito que os astros influenciariam as ações humanas, mas sim pela relação da analogia esotérica. Ainda outra citação mostrando que o significado que Olavo dá à expressão “Ciência tradicional”, que ele aplica à Astrologia e à Alquimia, é realmente ligado à noção de Gnose:

“Todas as ciências tradicionais da natureza – Astrologia, alquimia, geomancia, etc. – mobilizam poderosas forças psíquicas que não podem ser governadas pela mente do indivíduo, e cujo domínio cabe somente a Deus. Todos os tratados de alquimia (e a alquimia não é outra coisa senão uma Astrologia “operativa”) insistem claramente na necessidade absoluta da prece. E não há prece sem a filiação regular a uma religião tradicional”.

Olavo de Carvalho, Astros e Símbolos, p. 83.

Fica sempre mais patente que a noção de ciência tradicional, para Olavo é religiosa, mas religiosa enquanto relacionada com o núcleo comum de todas as religiões, que seria a Gnose.

E guardemos bem a identificação de Astrologia como Alquimia operativa. Olavo garante que o verdadeiro astrólogo – o “astrólogo de raça” – só pode ser um homem “espiritual”:

“Essas observações preliminares fornecem ao leitor, desde já, um critério seguro para saber se está falando com um conhecedor do assunto ou com um charlatão, ignorante e falsário (envernizado ou não das tinturas acadêmicas): o astrólogo de raça há de saber, por um lado, enunciar os princípios metafísicos, cosmológicos e teológicos em que se fundam as regras astrológicas que aplica, e, por outro, converter essas regras nos seus equivalentes gramaticais, lógicos, estéticos, etc.”

Reparou o desprezo dele pelos que têm envernizamento acadêmico, e que, de fato seriam charlatães, e que ele usa para salientar a superioridade do “astrólogo de raça”, ainda que ele seja – como Olavo – um autodidata? E coloquei em negrito as palavras que comprovam que Olavo liga a Astrologia à Teologia. O que é muito significativo.

E Olavo prossegue:

“Mas é preciso, ademais, que esse homem de erudição – (Homem de valor extraordinário! Especialmente por sua humildade) – seja ainda um homem de espiritualidade, marcado pela vocação de convergência de todos os conhecimentos na luz unificante do Intelectus primus, ou Logos, ou Verbo Divino. Pois aqui não se trata de conhecimentos esparsos, mas de um saber perfeitamente integrado, no eixo de uma realização espiritual pessoal”.

Olavo de Carvalho, Astros e Símbolos, p. 21.

Utriusque Cosmi, by Robert Fludd, 1617-1621

Observe como Olavo usa expressões do código tradicionalista para exprimir que o verdadeiro astrólogo deve ser um Gnóstico e um iniciado. Porque, “realização espiritual pessoal” significa, no jargão da gnose tradicionalista, ter realizado a união com a Divindade por meio do Conhecimento unificante e salvador, o qual não tem nada que ver com o saber racional acadêmico.

Por isso, também, Olavo previne que esse “conhecimento integrado, por ser integrado, não tem como ser expresso em modo extensivo. O contrário, ele demanda a síntese, ele tende antes à intensidade intelectiva do que à extensividade discursiva. Daí o amplo uso do simbolismo”.

Olavo de Carvalho, Astros e Símbolos, p. 27

O astrólogo “de raça”, “castiço”, como Olavo pretende ser, não pode ter os “conhecimentos esparsos”, próprios da formação racional universitária, mas deve ter os conhecimentos integrados, esotericamente unificados, como exige a gnóstica definição de Filosofia de Olavo.

Olavo explica que o estudante de Astrologia Espiritual precisa atingir um “estado de integração continuada, isto é, um estado de claridade e de evidência – (estado de clarividência, como se diz no maçônico rito de Misraim) – que lhe permita assimilar conhecimentos extremamente complexos sem maior dificuldade”. Precisa conquistar “um estado permanente de evidência intuitiva”.

Olavo de Carvalho, Astros e Símbolos, p. 27.

Não preciso salientar que Olavo está insinuando que o principiante em “Astrologia Espiritual” deve ser iniciado, para obter o Conhecimento, a Gnose, que lhe permita alcançar a “realização espiritual pessoal”. E recorda-se você que ele afirmara que para ser astrólogo era preciso ter “vivência da cabala ou da ioga”.

Olavo, por fim, diz expressamente:

“O corpo de técnicas que concorrem para esse fim é o que se denomina esoterismo, como sinônimo de “interiorização, e que não se confunde de modo algum com o “ocultismo”, a magia, a bruxaria, os poderes psíquicos reais ou fingidos, etc.”.

Olavo de Carvalho, Astros e Símbolos, pp. 27-28.

O esoterismo, como vimos, implica em gnose, conforme explica Antoine Faivre. Note ainda que a distinção entre esoterismo e ocultismo é o eco do que diz Guénon, com raiva de Papus. Portanto, Olavo ecoa a doutrina de Guénon também neste ponto.

Concluindo, diz Olavo que a Astrologia “é via de acesso ao Ser”.  E Ser, para Olavo, é a Divindade. Portanto, a “Astrologia Espiritual” de Olavo é meio para, através do Conhecimento, atingir a ‘realização espiritual pessoal’, unindo-se ao Ser, à Divindade, o que permitiria reconquistar “certas capacidades humanas originárias, como por exemplo, um estado permanente de evidência intuitiva e, portanto, de certeza e de paz”.

Olavo de Carvalho, astros e Símbolos, p. 28.

Há que se concordar com Olavo neste ponto: a “Astrologia Espiritual”, que ele defende, está bem longe da vulgar e supersticiosa Astrologia dos horóscopos de jornal. A Astrologia de Olavo exige admitir a Gnose. A “Astrologia Espiritual”, ciência esotérica e via para a Gnose preconizada por Olavo, está então inteiramente de acordo com a Astrologia do cabalista e gnóstico Robert Fludd, que Olavo admitiu ser gnóstica. E é contrária ao que ensina São Tomás de Aquino, cujo prestígio Olavo tentou puxar para a sua sardinha astrológica.

Com efeito, Olavo de Carvalho procura insinuar que não há contradição entre o que ele diz da Astrologia e o que ensinou São Tomás sobre esse tema. Ele começa afirmando corretamente a doutrina de São Tomás dizendo:

“Segundo São Tomás, os astros não influem em nosso entendimento, mas sim no nosso aparato corpóreo; se, portanto, agem sobre nosso psiquismo, não é a título de causas essenciais, mas de causas acidentais”.

Olavo de Carvalho, Astros e Símbolos, p. 63.

“Enquanto corpos, diz S. Tomás, os planetas só atuam sobre corpos. Isto significa que, se a atuação sobre os entes corporais como a água ou os minerais é direta e causal, e abrange estes corpos na totalidade de seu ser, o mesmo não se poderia dizer com relação ao ser humano, pois este possui qualidades próprias que ultrapassam o domínio corporal e portanto não poderiam estar à mercê da influência de quaisquer corpos, inclusive os planetas. Isto não quer dizer, porém, que os planetas não atuem sobre o homem de maneira alguma, mas sim que eles agem apenas sobre o que neles há de corporal, sem atingir suas faculdades superiores, como a vontade, a razão e o entendimento”.

Olavo de Carvalho, Astros e Símbolos, p. 45-46.

Se não fosse a imprecisão final entre vontade, razão e entendimento se poderia dizer que Olavo, desta vez, exprimiu bem o que ensina São Tomás. De fato, São Tomás ensina que os astros não têm influência nem sobre nossa inteligência, nem sobre nossa vontade, mas apenas sobre nossos corpos, sem afetar nosso livre arbítrio. Portanto, para São Tomás, é falsa a Astrologia, quando pretende que os astros determinam nossas ações.

Entretanto, se Olavo, nesses trechos citados, ensina o que diz São Tomás, mais adiante ele acrescenta:

“Se, enquanto corpos, os planetas só atuam sobre corpos, podemos completar o raciocínio de São Tomás dizendo que, enquanto símbolos, ao contrário, eles representam ou veiculam a atuação de potências espirituais e cósmicas que ultrapassam infinitamente os domínios do corpóreo. Neste caso, não são os planetas que agem, mas sim as potências angélicas das quais eles são somente a cristalização simbólica e sensível, por assim dizer”.

Olavo de Carvalho, Astros e Símbolos, p. 47.

E pouco adiante, ele diz que os astros são a “hierofania” dos anjos. Olavo se arroga o direito de “completar o raciocínio de São Tomás“! E completar de tal modo que acaba por dizer o oposto do ensina o Doutor Angélico!

Olavo concorda com São Tomás que os planetas, enquanto corpos, só podem influir sobre nossos corpos. Mas, depois, extrapola – e não completa – o que diz São Tomás, afirmando que os planetas são “cristalizações” e veículos de “potências angélicas”. No fundo, ele toma a suposta influência simbólica dos astros, como se os estes tivessem um efeito “sacramental”.

Tendo começado por afirmar a verdadeira explicação de São Tomás sobre a influência dos astros apenas sobre os corpos, passando, a seguir, a “completar” o raciocínio de São Tomás, Olavo termina por dizer que São Tomás aceita a influência dos astros sobre os fatos humanos como veículos de potências angélicas:

“Ao contrário do que geralmente se pensa a Astrologia, enquanto estudo das relações entre os movimentos planetários e eventos terrestres e humanos, nunca foi propriamente “condenada” pela igreja, como aliás se vê pelas longas e belas páginas que São Tomás de Aquino, na Suma contra os Gentios, dedicou à explicação das influências dos astros como veículos das potências angélicas”

Olavo de Carvalho, Astros e Símbolos, p. 80.

Olavo diz – pelo menos no livro acima citado – que concorda com São Tomás que se os astros não influem na vontade humana, entretanto, eles influenciariam os ciclos históricos. Num artigo na revista Planeta, ele escreveu:

“A Astrologia tem, sobre a ciência histórica corrente, justamente a vantagem de permitir um estudo mais amplo, pois o modelo dos ciclos planetários pode articular, numa moldura única e coerente, as várias correntes de causas – econômicas, políticas, culturais, etc. – que contribuem para a elaboração da história: onde o historiador comum se perde ante a variedade dos fatores, o astrólogo (ou o historiador versado em Astrologia) elabora rapidamente uma síntese viva e dinâmica do conjunto”.

Olavo de Carvalho, A Década de 80. Com que Direito estão Prevendo o Fim do Mundo? Artigo in Planeta, Dezembro de 1979, nº 87 p. 40.

No mesmo artigo, ele escreve pouco depois:

“As grandes transições ocorridas sob o signo de Escorpião parecem evidenciar sempre o desgosto das potências cósmicas, que regem o destino humano, contra qualquer forma de equilíbrio estático que ameace eternizar um determinado status”.

Dessa forma, segundo Olavo, os astros mais do que influir sobre os homens individualmente, influem nos ciclos históricos. Assim, eles ajudariam a explicar a História. Abandonando a “explicação” marxista da História, Olavo buscou, para substituí-la, uma “explicação” astrológica.

Concluímos, pois, que a Astrologia Espiritual, tal como a expõe Olavo de Carvalho, tanto como a Alquimia, é uma pseudociência; é uma “ciência” esotérica, ligada à Gnose, pretendendo ser veículo para o “Conhecimento salvador”.

Essa conclusão minha é confirmada pelo que diz um dos mestres tradicionalistas gnósticos, admirado e elogiado por Olavo: Titus Burckhardt. Esse autor afirma em um de seus livros:

“É verdade que, durante um certo tempo, precedendo diretamente a época moderna, elementos de gnose verdadeira, que tinham sido rejeitados do domínio da teologia, ao mesmo tempo pelo desenvolvimento exclusivamente sentimental do misticismo cristão tardio e pela tendência apologética inerente à Reforma, acharam um refúgio na alquimia especulativa. Isto explica sem dúvida fenômenos tais como os ecos de Hermetismo que se podem distinguir na obra de um Shakespeare, de um Jacob Boehme ou de um Johann Georg Gichtel“.

Titus Burckhardt

Mas isto é dito da Alquimia e não da Astrologia, objetaria alguém. A resposta nos é dada pelo próprio Burckhardt, como veremos logo em seguida.

hyle-triangle_+

2. Alquimia e Gnose

“A Astrologia e a alquimia que, na sua forma ocidental, derivam ambas da tradição hermética, tem entre elas a mesma relação que o Céu e a Terra. Uma interpreta a significação do zodíaco e dos planetas, a outra, a dos elementos e dos metais”.

Titus Burckhardt, Alchimie, ed. Thot, impresso na Itália, texto francês, Milano,1974, p. 73.

Burckhardt afirma então que Astrologia e Alquimia são ciências esotéricas, herméticas, portanto, gnósticas. E também Olavo havia relacionado todas as ciências esotéricas, especialmente a Alquimia e a Astrologia, com o esoterismo, isto é, com a Gnose. Pontifica Burckhardt:

“Pela maneira “impessoal” pela qual ela considera o mundo, a alquimia se acha em relação mais direta com a “via do conhecimento” (a gnose) do que com a “via do amor”.

T. Burckhardt, Alchimie, pp. 27-28.

Burckhardt é explícito: a Alquimia é ligada à Gnose. E a palavra Gnose é do próprio texto de Burckhardt. O que Olavo mais ou menos camufla, Burckhardt proclama. A Alquimia é ligada à Gnose.

“Por sua integração à fé cristã a alquimia se achava espiritualmente fecundada enquanto que ela trazia à Cristandade uma via conduzindo à “gnose” através da contemplação da natureza”.

T. Burckhardt, op. cit., p. 18.

Mais ainda. Como se não bastasse a relação da Alquimia com a Gnose, Burckhardt mostra que ela era cabalística. (E a Cabala é a Gnose Judaica, conforme Scholem): “Não se sabe, escreve Artéphius, célebre alquimista medieval, que nossa arte é uma arte cabalística”?

Burckhardt diz ainda:

“A Alquimia, apoiando-se sobre uma perspectiva puramente cosmológica, não pode ser transposta senão indiretamente ao domínio meta – cósmico ou divino. Mas, como ela pode representar uma etapa no encaminhamento em direção ao objetivo supremo ela foi, entretanto, incorporada na gnose cristã e islâmica. A transmutação alquímica conduz o elemento central da consciência humana ao contato direto deste raio divino que atrai irresistivelmente a alma e direção ao alto e a faz entrever o Reino dos Céus”.

T. Burckhardt, op cit., pp. 70-71.

Portanto, mais do que transmutar chumbo em ouro, a Alquimia visa colocar em contato a partícula divina oculta no homem com a própria Divindade, a fim de realizar a Identidade Suprema, isto é, transmutar o alquimista em Deus.

“Ora, a Grande Obra não limita sua ambição à pesquisa interessada de técnicas para a produção do metal precioso. O alquimista trabalha para a sua própria transmutação; sua tarefa externa é o símbolo de uma caça do ser, de uma ascese que lhe dará o domínio do absoluto. O enobrecimento dos elementos naturais é a figura alegórica da promoção espiritual do homem, o mais precioso de todos os elementos, assim como o manifestou o Fausto romântico de Goethe“.

G. Gusdorf, Le Romantisme, Vol. I, p. 846.

Olavo deixara entrever que a Astrologia espiritual exige uma iniciação. Burckhardt vai dizer expressamente isso da Alquimia:

“Como toda arte sagrada no verdadeiro sentido da palavra (isto é, como todo método podendo conduzir à realização de estados de consciência supraindividuais) a alquimia depende de uma iniciação”.

T. Burckhardt, op. cit. p. 32.

Olavo admite que a Alquimia não é uma ciência racional. Nesse artigo delirante, Olavo explica como se pode obter o ouro potável, captando a “energia vital que move o universo e os seres vivos”, energia que ele chama ainda de “energia cósmica”.

“Sendo a forma mais universal de energia, a energia cósmica não se deixa evidentemente isolar em laboratório. Por isso não se poderia “provar” cientificamente a existência da energia vital ou cósmica (pelo menos com os recursos habituais da ciência atual)”.

Olavo de Carvalho

E ele previne que os procedimentos alquímicos “são quase o inverso simétrico do procedimento científico!”.

Há, pois, que acreditar na tal “energia cósmica”. A alquimia exige um ato de fé. E, descrevendo a experiência alquímica, Olavo conta que ela consta de várias etapas: “escolha do local e dos momentos para a colheita da matéria prima; alimentação da matéria prima com orvalho e flores; destilação, corrupção e incineração; obtenção final do “levedo” que, ao contato com o ouro, “abre” a estrutura energética íntima do metal, captando suas propriedades medicinais; testes clínicos e de laboratório”.

Ele informa ainda que há que fazer “milhares de cálculos astrológicos” no decorrer da operação, além de analisar a “configuração astral pessoal do alquimista, que é uma espécie de catalisador”. Pior ainda. A colheita da matéria prima e a escolha do local onde encontrá-la exigem uma operação “espírita”:

“A escolha do local é determinada quase exclusivamente por clarividência. A mulher do alquimista, em estado de transe mediúnico, o conduz até determinado sítio, onde vê figuras que ele vai interpretando como indicações sobre o modo de colher a matéria prima”.

Olavo de Carvalho, art. cit., p. 3.

Olavo diz ainda que o ouro e outros elementos são “apenas a sede material e aparente, disfarce e embalagem de forças invisíveis de natureza imaterial, puramente ‘espirituais’, ou, digamos assim, energéticas”.

“É também o mundo das forças obscuras do céu e da terra, que se juntam num inquietante trabalho de parto, ora aliadas, ora inimigas, e das quais o homem parece esperar algum sacramento secreto”.

É evidente que não é possível discutir seriamente com alguém que escreve tais coisas. Tal discussão equivaleria a debater com “Madame Pavlovna” que lê o futuro na bola de cristal, ou com a “cigana Manolita”, que prometia desvendar o futuro lendo as cartas, “pois as cartas não mentem jamais”, como garantia uma cançãozinha popular, em 1940.

É evidente que a “barafunda” de conceitos religiosos que Olavo ligou à Alquimia demonstra que ela exige uma atitude religiosa e mágica, simetricamente oposta à ciência racional, isto é, uma atitude gnóstica. Releia agora o que Olavo escreveu em seu ameaçador Aviso 2:

“Uma mente afeita às técnicas da investigação erudita, mas pobre de discernimento filosófico, está sujeita a perder de vista a forma abrangente e a se confundir de tal modo na barafunda dos elementos de procedência gnósticos que, onde quer que os encontre isoladamente, acabe acreditando estar na presença de uma heresia justamente por incapacidade de atinar com a estrutura geral que lhes dá um sentido completamente diverso”.

Olavo De Carvalho

Só “uma mente pobre de discernimento” de qualquer tipo não reconhecerá que Burckhardt disse a verdade: a Alquimia é ligada à Gnose.

Ora, são os próprios mestres que Olavo admira – e um tanto veladamente, até ele mesmo – que reconhecem que as ciências esotéricas são de cunho gnóstico. Não é então essa concepção o resultado de um espírito uspianamente míope. É a própria visão iluminada dos mestres esotéricos de Olavo que vê Gnose nas ciências “simbólicas” citadas por ele.

Todas estas citações tornam clarissimamente comprovado que tanto a Astrologia Espiritual, quanto a Alquimia, são “ciências” esotéricas essencialmente ligadas à Gnose. E quem as pratica, realmente, ou as defende doutrinariamente, deve ser, e é gnóstico. Olavo foi astrólogo, crê e defende a “Astrologia Espiritual”. Logo, Olavo é um gnóstico.

Montfort Associação Cultural

Formas Tradicionales y Ciclos CósmicosRené Guénon

The Sun, Robert Fludd from Utriusque Cosmi (1617),v. 2, p. 19.

Sol Invictus