Temas Transcendentais

O Esoterismo

The moon is seen behind a dome of St. Peter's Basilica at the Vatican, Saturday, March 16, 2013. Province of Rome Lazio

O Esoterismo: Uma Abordagem Hermenêutico-Conceitual

Otávio Santana Vieira

Resumo

O presente artigo consiste em uma reconstrução histórica e conceitual do esoterismo, suas origens, aplicações e, sobretudo, do sentido (tanto no significado, como no histórico) atribuído a ele pela tradição. O estudo do esoterismo propõe o retorno de um conhecimento rejeitado pelas tradições hegemônicas, mostrando que se pode estudá-lo de maneira lúcida, concisa, e dentro de seu próprio rigor metodológico. Trata-se aqui de uma introdução ao assunto, não se atendo a discutir temas ditos esotéricos, mas ao estabelecimento de um campo de estudo e uma tentativa de semear o interesse de pesquisa neste campo que cresce consideravelmente.

Introdução

O Esoterismo Ocidental

A chamada “Tradição Esotérica Ocidental” (Western Esotericism Tradition) é um recente campo de pesquisa acadêmica, porém esta “tradição” não é nada nova, nem mesmo uma moda moderna, nem pretende ser uma reação ao cientificismo ou ao empirismo. Para que possamos entender o que se designa por tal nome precisamos, antes de tudo, definir o que vêm a ser tradição e ocidental, além de esotérico e esoterismo.

Antes o esoterismo era estudado como pertencente a assuntos teológicos; entretanto, com o estudo sistemático e a adoção de métodos apropriados – e contando com publicações sérias sobre o assunto – passou a designar um campo de pesquisa autônomo (o “ismo”) com sua própria abordagem. Mas porque deveríamos estudar a “Tradição Esotérica Ocidental” (TEO)?

Aquilo que chamamos “ocidente” refere-se a todo o conjunto greco-latino e judaico-cristão, ambos “visitados pelo islamismo” na antiguidade e medievo. Em filosofia a questão envolvendo o ocidente sempre suscitou a relação de antagonismo entre ocidente e oriente. Não somente geográfica, mas, sobretudo, baseada em visões de mundo e contraposições culturais, os partidários do que ficou conhecido como “milagre grego” e os chamados “orientalistas” criaram uma dicotomia envolvendo as duas metades do mundo. Diferentes interpretações foram dadas para justificá-la e podemos distinguir duas: A primeira atribui um valor negativo ao oriente e positivo ao ocidente, pois o oriente seria um “ainda-não do ocidente”, atrasado, despótico, comunitário e religioso, enquanto o ocidente seria o desenvolvido, livre, societário, secularizado. A segunda atribui um valor negativo ao ocidente e positivo ao oriente, para eles, o oriente é o lugar por excelência da sabedoria, da espiritualidade, enquanto o ocidente é o deserto do materialismo, do cientificismo, do pragmatismo tecnológico, etc.

A chamada “Tradição Esotérica Ocidental” compreende, segundo Faivre, o mundo latino a partir do final séc. XV, o Renascimento e o resgate de correntes filosóficas e religiosas helenísticas tais como o gnosticismo, o hermetismo, neopitagorismo, estoicismo, como também o neoplatonismo, a cabala e a alquimia.

Nomes como Marcílio Ficino e Pico della Mirandola estão intimamente envolvidos tanto com o ressurgimento das filosofias pagãs, como do intercambiamento entre elas. Com Pico della Mirandola vemos a complementaridade entre a cabala, o cristianismo e o hermetismo alexandrino, e com Ficino a tradução da Hermética2, atribuída a Hermes Trismegisto.

2 O que aqui chamamos Hermética, ou Corpus Hermeticum, trata-se da compilação de vários textos, incluindo o Poimandres, o Asclépio, os fragmentos e testemunhos de Estobeo, entre outros autores e notícias de alguns neoplatônicos no período helenístico e cristão da filosofia antiga.

É no Renascimento que surge a ideia – recorrente no esoterismo – da unidade ou consonância entre as doutrinas, o que evoca a ideia da philosophia perennis: autores que trariam no âmago de suas doutrinas origens comuns, embora expressas de diferentes maneiras, porém conciliáveis entre si. A esta “perenidade” alguns autores desde o séc. XIX chamam de “Tradição”.

No contexto do pensamento esotérico, a noção de Tradição remete a uma ideia que surge de uma Tradição espiritualmente superior que perdura desde os inícios do pensamento até hoje por meio de inspiração divina ou grupos iniciáticos.

A abordagem hermenêutica pretendida neste trabalho propõe traçar a história do conceito de esoterismo e seu uso, compreendendo sua “via crucis”, seu julgamento, condenação e resgate. O sentido que nós e os autores clássicos (o apoio da tradição documental) atribuímos ao termo será a medida e a base para a compreensão, ao menos provisória por não se pressupor definitiva, de nosso objeto de estudo. A parte do método próprio ao esoterismo ocidental trata-se de um esboço para futuras abordagens desde “dentro”, e consequentemente, melhor compreensão dos temas pertencentes à Tradição e a complexidade que requer mais aprofundamentos em sua abordagem.

O estudo do esoterismo não propõe justificar os conteúdos de uma determinada corrente da Tradição, nem mesmo verificar uma suposta realidade histórica desta em tempos imemoriais; trata-se tão somente de apreender ou investigar a “emergência dessa ideia nas imagens e discursos, isto é, por meio das formas que assumiu até hoje”.

De minha parte propor o estudo do esoterismo significa trazer à luz um conhecimento “esquecido” ou “rejeitado”, não por que seja um caminho ideal, apenas porque é uma maneira pela qual o homem atribui sentido e constrói uma visão de mundo particular, ou – porque não? – uma maneira de conhecimento (uma nova ordem gnosiológica) ou uma construção onto-lógica própria.

1. Esotérico e Esoterismo.

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Primeiramente devemos distinguir “esotérico” e “esoterismo”. A palavra “esotérico” é encontrada com muita frequência na literatura atual, e por esse motivo é a maior parte das vezes abordada sem o menor rigor. O uso inadvertido do termo causa confusão ao generalizar, por vezes, relacionando o esotérico com doutrinas exóticas, sistemas iniciáticos, ciências ocultas, entre outros – o que é o bastante para que a ciência moderna as taxe de falsas e nem sequer as considere ciências.

O primeiro a tentar resolver a problemática do termo esoterismo foi Antoine Faivre, professor da Sorbonne, em seu pequeno livro L’ésotérisme (1992). A etimologia do termo não sugere muito, ou melhor, é pouco explicativa: eso indica “para dentro”, o ter uma oposição, e o ismo um sistema. “Estar” ou “ir para dentro” sugere uma interiorização, voltar-se ao “interno”, porém “estar fora” ou “dentro” de quê? Pois a palavra esoterismo não indica algo específico, até mesmo pode significar uma infinidade de conteúdos. A tentativa de Faivre é circunscrever um campo de pesquisa possível. Porém, o esoterismo parece indicar mais uma “forma de pensamento” do que um “campo”. Faivre sugere investigar a natureza do esoterismo a partir de discursos que chamam a si mesmo de “esotéricos”, e os que implicitamente o dizem ser.

Em geral o termo esotérico indica “segredo”, “arcano”; algo isolado, misterioso ou reservado. Por exemplo, fala-se de doutrinas esotéricas de Platão e Aristóteles – o sentido do termo “esotérico” (έσωτερικός) é atribuído a Aristóteles, porém ele usa apenas a palavra “exotérico”, a qual seria o oposto a acromático (άκρόαμα), que quer dizer “instrução oral” – que eram ensinadas a discípulos escolhidos – ou dos ensinamentos das antigas escolas de mistérios reservados aos iniciados que deveriam percorrer um longo caminho de purificação. O termo “esotérico” aparece pela primeira vez com Luciano de Samosata3, contudo este termo só será associado a “segredo” em Clemente de Alexandria, posteriormente, o termo aparece em Hipólito de Roma5, Orígenes e Gregório de Nissa.

3 Leilão de Vidas. No livro Hermes e Zeus vendem filósofos. Os aristotélicos são vendidos “um” por “dois”, pois um veria para “fora” e o segundo para “dentro”, o primeiro exotérico, o segundo “esotérico”.

5 Refutações a todas as heresias.

Segundo Jean-Pierre Laurant o termo esoterismo aparece pela primeira vez em 1742 em um autor maçom6, e lá remete a um ensinamento interno, ou secreto, ministrado nas Lojas apenas aos seus integrantes.

6 La Tierce, Nouvelles obligations et status de la très vénérable corporation des francs maçons, 1742.

Hanegraaff, por outro lado, indica o ano de 1828 e ao autor Jacques Matter ao aparecimento do termo l’ésotérisme em seu livro História crítica do gnosticismo e de suas influências; seguido por Jacques Etienne em 1839, e Pierre Leroux. Em 1852 aparece no Dicionário Universal de Maurice Lachâtre (do grego eisôtheo entendido como princípio da doutrina secreta), depois popularizado por Eliphas Lévi em livros sobre magia, enquanto no inglês (esoteric, esotericism) é introduzido por A. P. Sinnett em Budismo Esotérico.

Aqui podemos perceber um sentido a ele associado, o do “mistério”, que torna o mundo uma experiência de aprofundamento, fora dos afazeres cotidianos, dos objetos comuns, para o insólito, em suma, para o extraordinário, ultrapassando os limites da linguagem e dos conceitos, e ingressa em um âmbito não comunicativo, ou no mundo do símbolo, do mito e do rito, da linguagem velada ou simbólica. Porém, esse sentido é muito restrito ou pouco significativo, pois muito do que se diz “esotérico” é restrito aos iniciados, cabendo apenas a eles o domínio apropriado do sentido e transmissão dos conteúdos “esotéricos”, sendo então muito problemático para os não-iniciados.

O esoterismo possui outros sentidos, como: 1) o de um caminho ou prática que dirige aquele que o segue a um lugar o qual conteria um tipo superior de conhecimento através do contato direto com a Tradição. As escolas ou correntes seriam um meio para alcançar esse lugar, tanto que o termo esoterismo poderia se referir tanto ao meio de alcançá-lo, quanto o lugar como tal que se quer atingir. Segundo Faivre, esse lugar seria o mesmo alcançado por todos aqueles que o buscam, não importando sua orientação ou tradição (no sentido de transmissão) de onde particularmente partiriam. Isso demonstraria uma suposta unidade entre todas as tradições existentes. Ou, 2) o de conhecimento rejeitado, marginalizado por uma tradição hegemônica.

Seria, entretanto, no mínimo ignorância, ou ingenuidade, supor que tudo aquilo que é herético ou contrário a um conteúdo dogmático seja “esotérico”. Podemos perceber que as correntes ditas esotéricas surgem dentro de movimentos religiosos, da mesma maneira que vemos falar com certa frequência de “cristianismo esotérico” ou “budismo esotérico”, como sendo a versão marginalizada da doutrina oficial.

O caso do dogmatismo não é restrito à questão religiosa, mas atinge até mesmo o ambiente filosófico. Na tradição filosófica ocidental, tudo o que se diz “esotérico”, ou se aproxima disso, é rejeitado reiteradamente e taxado como irracional, contraditório ou como um problema superado, um velho quadro inútil da ignorância primitiva do homem (por exemplo, a crítica de Theodor Adorno contra a astrologia, sendo esta instrumento de manipulação ideológica em As Estrelas descem à Terra, por outro lado, Paul Feyerabend em O Estranho Caso da Astrologia; também “O Mundo Humano do Espaço e do Tempo”, Ensaio sobre o Homem de E. Cassirer). Sendo então tudo aquilo que não se encaixa no padrão “racional” ou do método não aceitável ou passível de estudo.

A questão que sugere “ir para dentro”, indica olhar “de fora” algo que desde a idade média estava inserido na Teologia. O jugo da Teologia acerca do esotérico o tornara periférico ou excluído; entretanto, o desmantelamento do lastro que sustentava a hegemonia da Teologia fez surgir um campo vasto passível de inúmeras abordagens, sem a necessidade da Teologia para acessá-la. Ou seja, foi primeiro necessário “ir para fora” do teológico, para acessar o esotérico por meio dele mesmo (o “interno”), ou seja, desde a perspectiva – no sentido mesmo de visão – do esoterista, recuperando-o do exílio, do claustro teológico.

Devemos muito aos humanistas renascentistas neste ponto, pois eles ousaram romper com o jugo teológico-escolástico para celebrar um verdadeiro casamento entre as doutrinas das religiões abraâmicas com as doutrinas hermético-filosóficas (Pico della Mirandola, Discursos Sobre a Dignidade do Homem). O desprendimento da Teologia descortinou o campo de abrangência do esoterismo, e o mesmo ocorreu com a ciência: ela se tornou autônoma. O conteúdo dito esotérico passou a designar assuntos de cunho metafísico, cosmológico e ético, fora do âmbito teológico.

Segundo Faivre, as fontes as quais constituem a Tradição Esotérica Ocidental podem ser distinguidas como grandes rios que deságuam no oceano do esoterismo moderno. Estas disciplinas ou ramos irrigam a Alquimia, a Astrologia e a Magia, sendo seus afluentes – usando a metáfora de Faivre os seguintes:

tabela

* Não confundir com a expressão moderna de Teosofia, associada a doutrinas orientais, pela Sociedade Teosófica de H.P. Blavatsky (séc. XIX).

Todos os afluentes irrigaram, forte ou tenuemente, os três grandes rios do esoterismo. Todos eles mantêm relações entre si, como também com as tradições religiosas ou culturais que não podem ser totalmente separadas ou dissociadas, pois ambas são fontes para uma estrutura do imaginário esotérico, o que é bastante visível ao analisarmos profundamente estas obras. Há um distanciamento das questões teológicas, entretanto se mantêm as filiações religiosas (ou talvez espirituais) e culturais, aspectos mitológicos e sociais que envolvem toda a formação esotérica de seus componentes.

2. Os seis elementos fundamentais do esoterismo em Antoine Faivre.

Definir de maneira inequívoca quais são os conteúdos nos quais se adéqua perfeitamente o termo esoterismo é bastante complexo, pois de maneira alguma se busca definir doutrinalmente o que venha a ser esotérico – nem é o objetivo defender que maneira deve ser a mais adequada para entender o esoterismo, privilegiando uma doutrina em detrimento de outra.

Ao menos podemos seguir a tentativa de Faivre, em sua já consagrada distinção, entre os quatro elementos fundamentais do esoterismo: (1) as correspondências; (2) a natureza viva; (3) imaginação e mediações; e a (4) experiência da transmutação, além de outras duas que seriam elementos “secundários” ou “não fundamentais”: (5) a prática da concordância e a (6) transmissão.

1. O elemento correspondência indica uma relação de interdependência, “O que está em cima é como o que está embaixo…”8, além de diferenciados níveis de existência, os quais estariam ligados ou interligados por meio de correspondências ou analogias. Na literatura esotérica é comum encontrar correspondências entre microcosmos e macrocosmos, e associações entre metais, plantas e planetas, um elemento sendo remetido aos outros, criando assim uma rede praticamente infinita. Estas correspondências são quase sempre ocultas ou pouco reveladas. Este é o campo do mistério, do encoberto, do segredo. Faivre distingue dois tipos de correspondências: (a) as visíveis e as invisíveis. As visíveis são as que estão ligadas ao mundo natural, partes do corpo, plantas, metais, etc., com as regiões invisíveis do mundo celeste; as invisíveis tratam da correspondência entre (b) o cosmos, ou a história, com o texto revelado. Natureza e Escritura corroboram-se mutuamente, uma ajudando no conhecimento da outra.

8 O segundo princípio hermético, “princípio da correspondência”. Cf. Iniciados, Três. O Caibalion.

O estudo das correspondências indicaria uma dimensão na qual o contraditório, paradoxal ou indissociável se desfaria e encontraríamos a solução para os grandes problemas da existência. Deste modo, é demolida toda a estrutura lógico-aristotélica dos princípios de não-contradição, identidade e terceiro excluído9. A noção de correspondências sugere que a ordem cósmica segue uma estrutura não linear, diferente da lógica clássica. As relações de analogias e semelhanças podem variar facilmente de níveis ontológicos e/ou lógicos, por meio de redes interligadas ou hierarquias, alterando-se tanto ascendentes, quanto descendentemente – do macro ao micro, do “acima” ao “baixo”, e vice-versa.

9 Sobre este tema ver “Aspectos da Semiose Hermética” in ECO, Umberto. Os limites da Interpretação.

2. A correspondência pode ser associada à ideia de uma natureza viva, pois a relação simpática que liga todas as coisas naturais é o elo da magia, onde o controle e emprego das forças estão ligados ao uso das correspondências. A ideia de uma natureza viva é o princípio mesmo da magia, particularmente no Renascimento. Do latim magia e do grego magiké téchne, “a arte dos mágoi” – os antigos magos persas – designava para os gregos um praticante de rituais privados que posteriormente passou a ser marginalizado e proibido. A crença em forças vivas ou animadas é chamada animismo, na qual se admite a ação ou causa às forças naturais animadas (salamandras, ondinas, silfos, gnomos).

Desta maneira podemos compreender o cosmos como um complexo, plural, com entidades hierárquicas continuamente animadas por uma energia viva. O domínio destas forças naturais costuma-se chamar magia. A prática da magia se faz por parte de instrumentos, amuletos ou talismãs, pelos quais o praticante se comunica com as forças celestes ou terrestres.

De origem oriental, difundiu-se no mundo grego e posteriormente no latino, tornando-se marginal na Idade Média e ressurgindo no Renascimento como parte da filosofia natural. As ideias básicas expostas aqui concordam com praticamente todos os autores da época, como Pico della Mirandola, Reuchlin, Agrippa, Paracelso, Fracastoro, Cardano e Della Porta, sendo a mesma ideia desdobrada pelo último, como também por Campanella. A magia retorna ainda no Romantismo Alemão em Novalis, Goethe, etc. No final séc. XIX e metade do XX a magia torna-se então somente uma categoria de interpretação na sociologia e na psicologia. Do séc. XX em diante vemos um retorno da magia associado a movimentos como o neo-paganismo, wicca, new age, e correntes correlatas, como também pode ser incluída nos Novos Movimentos Religiosos (NMR).

No âmbito das sociedades iniciáticas modernas percebemos a predominância da magia na Ordem Hermética da Aurora Dourada e suas ramificações posteriores (A. O. Alfa et Omega (S. L. Macgregor Mathers), Sociedade da Luz Interior (Dion Fortune), Builders of the Adytum (P. Foster Case), Thelemic Order of the Golden Dawn, etc., como também no movimento Thelemita A.A. (Aleister Crowley), O.T.O – sistema maçônico que após Crowley passa a possuir um caráter mágico-cerimonial ou em demais ordens ou práticas cerimoniais (Societas Rosacriciana in Anglia, Elus Cohen).

3. A imaginação e a mediação pressupõem a interligação entre estas e as correspondências e as forças naturais. São destas interligações que surgem os ritos, símbolos, angelologias, etc. Faivre indica uma diferenciação importante entre o esotérico e o místico, no qual o primeiro inclui em seu sentido um “iniciador”, ou seja, aquele que transmite (mediação) um conhecimento ou prática, enquanto o segundo termo dispensa tais mediações.

O esotérico visa, sobretudo, as mediações e revelações, pelo qual o uso da imaginação é essencial. Porém, isto não pode impedir que esoteristas possuam traços místicos ou vice-versa. Ainda sobre a imaginação, podemos perceber sua importância não somente no âmbito da magia, mas em toda a experiência humana (cognitiva10, inventiva, religiosa). É com a imaginação que o homem estabelece uma intricada estrutura significativa e explicativa do mundo11. Faivre faz referência neste elemento ao que Henry Corbin chama de mundus imaginalis, um mesocosmo, um mundo intermediário o qual teria relação cognitiva e visionária.

10 A importância dada por Kant à imaginação como a condição de síntese entre as categorias e as sensações em sua estética transcendental, na Crítica da Razão Pura. O “esquema transcendental” seria o procedimento pelo qual a imaginação confere uma imagem para um conceito.

11 Para uma abordagem mais aprofundada acerca do tema ver. DURAND, Gilbert. A Imaginação Simbólica.

4. A Transmutação remete à “metamorfose”, ou seja, uma mudança que não é de um estado a outro, senão um movimento parcimonioso ou gradual. De origem alquímica, porém não possuindo o sentido restrito de processo laboratorial, senão no sentido original da palavra (labor–oratorium, labora et ora, trabalha e ora) no qual o processo que ocorre na matéria da Obra ocorre do mesmo modo no interior do operador. O sentido iniciático sugere o renascimento, o novo homem. Na alquimia a transmutação possui três estágios: o nigredo, o albedo, e o rubedo, que podem ser associados à purgação, iluminação e unificação na mística tradicional.

5. Neste elemento secundário, Faivre insere a prática da concordância como o estabelecimento de pontos comuns entre diferentes tradições (uma indicação de laicidade do esoterismo). Este método de estudo, o comparativo, surge no séc. XV-XVI (lembrar a importância de Ficino e Pico della Mirandola) e retomando com mais força nos fins do séc. XIX.

É importante ressaltar o espírito de tolerância que existe no fato de se reunir diferentes tradições sem evidenciar suas particularidades, senão em suas convergências. Porém, o que Faivre pretende mostrar é que a convergência das tradições visa atingir uma gnosis que contenha, de maneira individual ou coletiva, o vislumbre de uma origem única da qual todas as tradições se ramificaram. O que se iniciou com o estudo de doutrinas orientais, o estudo de “religiões comparadas”, deu origem à ideia de uma philosophia perennis (ou Tradição primordial) que se acredita ser a fonte de todas as religiões e concepções esotéricas.

6. O elemento transmissão indica que os conteúdos esotéricos devem ser transmitidos ou comunicados; todavia, essa transmissão não se efetua de qualquer maneira. Isso sugere a emergência de um Iniciador e um sistema “legítimo” e “regular”. Isto se encontra de maneira bastante clara dentro de todos os sistemas iniciáticos ocidentais que podem ser investigados (maçonaria, rosacrucianismo, martinismo, etc.).

Todos os elementos expostos aqui sugerem um ponto de partida para o estudo do esoterismo e suas diversas correntes. A tentativa de Faivre em elencar seis elementos fundamentais não visa constituir um marco doutrinário para a área, senão assinalar a presença de pontos comuns aos mais variados discursos ou disciplinas esotéricas. Cada elemento pode variar hierarquicamente dentro de um determinado sistema, como também pode assumir posições metafísicas, teológicas ou cosmológicas diferentes.

3. O Problema da definição acadêmica de esoterismo.

Spinster’s Rock - a solitary dolmen near the Devonshire town of Drewsteignton, England.

Wouter Hanegraaff no Dictionary of gnoses & western esotericism distingue duas perspectivas acerca do sentido do termo esoterismo: a) uma construção tipológica (certos tipos de atividade religiosa com sua estrutura específica); b) ou como um tipo de religião ou dimensão estrutural (associado a certas correntes históricas ou culturais da tradição ocidental).

Existe aí o debate sobre a necessidade de restringir o âmbito do esoterismo à modernidade ou à contemporaneidade, caracterizado pela busca de um núcleo dominante para o estabelecimento de uma periodização ou demarcação histórica do esoterismo e sua definição.

Uma saída para uma definição apoiada em uma periodização seria delimitar uma corrente histórica específica, porém quais seriam os pressupostos para o acolhimento de uma corrente como definição de esoterismo?

Von Stuckrad critica a definição de Hanegraaff por ele usar duplamente o termo “certos” (certain) como vago para distinguir dois sentidos de esoterismo. O que há de racional nisso? Poderíamos selecionar hermetismo, paracelsismo, new age, separadamente excluindo os demais, entretanto não teríamos uma definição geral do que seja esoterismo. Em vez disso ressalta-se o caráter de conhecimento rejeitado pela academia, no qual o próprio estudo do esoterismo retornaria excluindo certos componentes que integrariam sua própria definição. Isso sugere uma reflexão acerca dos pressupostos e preconceitos dos pesquisadores acadêmicos.

Segundo Von Stuckrad, alguns estudiosos preferem aplicar o termo esoterismo para um restrito contexto ou período, da mesma forma que autores evitam outras formas de abordagens históricas, ou evitam o uso do termo esoterismo para não serem associados ao movimento moderno “new age”.

Ainda seguindo a crítica de Von Stuckrad, o desafio acadêmico de delimitação de campo e definição do conceito é imprescindível para fornecer um prévio quadro interpretativo no qual estes diversos estudos (hermetismo, alquimia, rosacrucianismo, maçonaria, new age, etc.) possam estar devidamente ancorados em seu devido lugar. A proposta de Von Stuckrad não é definir o esoterismo por meio das correntes históricas que a compõem, senão defini-lo como “um elemento estrutural da cultura ocidental”. Além disto, é necessário perguntar: qual a importância do esoterismo na “dinâmica da história ocidental”? E o que podemos “obter com o uso de uma ética do esoterismo”?

4. Conclusão: A possibilidade de estudo e o(s) método(s) do Esoterismo Ocidental.

Se desejarmos abordar o esoterismo a partir de uma perspectiva que lhe seja própria, qual seria então o método próprio a essa empresa? O que fazem os principais autores e especialistas nesta área de estudo, tanto do esoterismo como no estudo de religiões, é apontar a emergência do método empírico12.

12 Empírico porque pretende sustentar a pesquisa em “materiais” delimitados dentro do espaço e do tempo. Não confundir com empirismo, pois não se trata de verificação.

O esoterismo (enquanto noção restritamente ocidental) remete para todo um conjunto de materiais para o qual um estudo conciso somente possuiria êxito se investigado dentro de seu restrito ambiente geográfico, histórico e cultural, ou seja, o mundo greco-latino e judaico-cristão visitado pelo islã. Segundo Faivre a sua proposta de estudo do esoterismo é delimitar fronteiras nas quais os seis elementos fundamentais sejam encontrados todos juntos em um determinado período histórico e geográfico, no qual já existiria a necessidade de buscar nomes para designar tal fenômeno. Este método buscaria afastar todos os riscos de anacronismos ou inconsistências comumente encontrados em estudos pouco rigorosos ou aventureiros do esoterismo e das religiões.

A legitimidade da pesquisa se arvora na questão comum a todos os homens, ou seja, a busca pelas respostas acerca da perplexidade na qual o homem se encontra ao estar lançando em um mundo estranho e repleto de enigmas, o qual o faz indagar-se sobre si e sua existência. O esoterismo é tão antigo quanto o pensamento ocidental e as suas histórias estão entrelaçadas seja como visões de mundo, concepções religiosas e metafísicas ou como desenvolvimentos científicos pelo qual percorreram até a modernidade.

De nenhuma maneira o estudo do esoterismo deve pretender-se científico – no rigor do termo -, nem inserir-se no âmbito do irracionalismo. Se admitirmos que apenas o que é “cientifico” ou “racional” produz “conhecimento” caímos em um poço sem fundo, o qual rejeita toda outra maneira (seja lógica, cognitiva, significativa) de pensar – compreender – o mundo. O pensamento esotérico possui sua própria epistemologia que os métodos hegemônicos rejeitam por não se enquadrarem neles. As ideias de correspondência e magia não fazem sentido em um mundo dominado pelos princípios de identidade, não-contradição e terceiro excluído. A “razão hermética” não deixa de ser “racional” ou produzir compreensão (em níveis ontológicos) por não ser redutível à lógica tradicional (a não-linearidade) ou fazer uso dela.

O estudo do esoterismo propõe resgatar uma maneira completamente válida – quando abordada metodologicamente – de atribuir sentido a um mundo muito amplo e passível de diversas aproximações, seja por parte da história da filosofia, do imaginário, do simbolismo, da antropologia, etc., como por sua própria via de acesso, a da “razão hermética”.

Antoine Faivre lançou os pontos coordenadores, dentre os quais podem ser acrescidos outros como fez Pierre Riffard. A estes elementos fundamentais podem ser associadas abordagens que nos possibilitam se aproximar de nosso objeto. Abordagens particulares como a semiose hermética de Umberto Eco, no campo da semiótica, e a hermetica ratio em Gilbert Durand, na teoria do imaginário. Ambas, mais fortemente em Durand, partem da crise do pensamento moderno. Eco na contraposição entre a lógica formal-aristotélica e a lógica hermética; Durand na crise das ciências humanas e na contribuição epistemológica da “hermetica ratio”. Vemos que Durand pretende mostrar o retorno do princípio hermético da correspondência de dois modos: a profunda metodologia que sugere este princípio e a solução ao círculo, as reduções e fragmentações comuns às ciências sociais.

De um ponto mais distante podemos evocar aqui a fenomenologia de Mircea Eliade ao expor de maneira brilhante a estruturação da realidade na mentalidade do homem primitivo. Partindo de uma compreensão da ontologia do pensamento arcaico podemos nos aproximar do esoterismo como uma construção particular da realidade fundada na ruptura de níveis ontológicos e no estabelecimento de outros níveis tanto lógicos como ontológicos da realidade, como na relação entre ontologia e hermenêutica para a compreensão da relação entre homem e mundo.

O estudo do esoterismo pode, além de possibilitar outra maneira de compreensão acerca do real, ser também de grande importância para formulação de um pensamento ético ligado a situação do homem em relação com os outros homens e com a natureza.

Earth and Moon

5. Referências

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DURAND, Gilbert. Ciencia Del hombre y tradición: El nuevo espíritu antropológico. Barcelona: Ediciones Paidós Ibérica, 1999.

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FAIVRE, Antoine. O Esoterismo. Campinas, SP: Papirus, 1994.

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ancient times

O que é o Esoterismo?

António de Macedo

O substantivo «esoterismo» é de formação relativamente recente, por comparação com o adjetivo «esotérico», de origem grega, donde deriva.

O adjetivo eksôterikos, «exterior, destinado aos leigos, popular, exotérico» já existia em grego clássico, ao passo que o adjetivo esôterikos, «no interior, na intimidade, esotérico» surgiu na época helenística sob o Império romano. Diversos autores os utilizaram. Veremos dentro em pouco alguns exemplos.

Têm a sua origem, respectivamente, em eisô ou esô (como preposição significa «dentro de», como advérbio significa «dentro»), e eksô (como prep. significa «fora de», como adv. significa «fora»). Destas partículas gramaticais (preposição, advérbio) os gregos derivaram comparativos e superlativos, tal como no caso dos adjetivos. Em regra, o sufixo grego para o comparativo é teros, e para o superlativo é tatos. Por exemplo, o adjetivo kouphos, «leve», tem como comparativo kouphoteros, «mais leve», e como superlativo kouphotatos, «levíssimo». Do mesmo modo, do adv./prep. esô obtém-se o comparativo esôteros, «mais interior», e o supuerlativo esôtatos, «muito interior, interno, íntimo».

O adjetivo esôterikos deriva, portanto, do comparativo esôteros. Certos autores, porém, talvez mais imaginosos, propõem outra etimologia, baseada no verbo têrô que significa «observar, espiar; guardar, conservar». Assim, esô + têrô significaria qualquer coisa como «espiar por dentro e guardar no interior».

Platão no seu diálogo Alcibíades utiliza a expressão ta esô no sentido de «as coisas interiores», e no diálogo Teeteto utiliza ta eksô com o significado de «as coisas exteriores». Por sua vez Aristóteles utiliza o adjetivo eksôterikos na sua Ética a Nicómaco, cerca do ano 350 a. C., para qualificar o que ele chama os «discursos exotéricos», ou seja, as suas obras de juventude, de fácil acesso a um público mais geral.

O primeiro testemunho do adjetivo esôterikos encontrámo-lo em Luciano de Samosata (aprox. 120-180 d. C.) na sua obra satírica O Leilão das Vidas, § 26 (também chamado O Leilão das Escolas Filosóficas), composta cerca do ano 166 d.

Mais tarde, os adjetivos eksôterikos e esôterikos passaram a ser aplicados, por engano, aos ensinamentos de Aristóteles por Clemente de Alexandria (aprox. 150-215 d. C.) na sua obra Strômateis, composta cerca do ano 208 d. C.: «As pessoas da escola de Aristóteles diziam que, entre as suas obras, algumas são esotéricas e outras destinadas ao público ou exotéricas». Clemente supunha que Aristóteles era um iniciado e, portanto, seriam «esotéricos» os ensinamentos que facultava no seu Liceu a discípulos já instruídos. Na verdade era apenas um ensino oral e Aristóteles qualificava-o como «ensinamento acroamático», que quer dizer «transmitido oralmente», nada tendo de esotérico no sentido iniciático do termo.

O teólogo alexandrino Orígenes (aprox. 185-254 d. C.), discípulo de Clemente, já usa ambos os adjetivos em conotação com o «oculto», ou melhor, o «iniciático»; contestando as críticas do anticristão Celso, diz Orígenes: «Chamar oculta à nossa doutrina é totalmente absurdo. E de resto, que haja certos pontos, nela, para além do exotérico e que, portanto, não chegam aos ouvidos do vulgo, não é coisa exclusiva do Cristianismo, pois também entre os filósofos era corrente haver umas doutrinas exotéricas, e outras esotéricas. Assim, havia indivíduos que de Pitágoras só sabiam “o que ele disse” por intermédio de terceiros; ao passo que outros eram secretamente iniciados em doutrinas que não deviam chegar a ouvidos profanos e ainda não purificados».

O termo «esotérico» começou a ser usado como substantivo a partir de Jâmblico (aprox. 240-330 d. C.), filósofo e místico neoplatónico que se refere aos discípulos da escola pitagórica nos seguintes termos: «Estes, se tivessem sido julgados dignos de participar nos ensinamentos graças ao seu modo de vida e à sua civilidade, após um silêncio de cinco anos, tornavam-se daí em diante esotéricos, eram ouvintes de Pitágoras, usavam vestes de linho e tinham direito a vê-lo».

O conceito de «esoterismo» é de criação muito mais recente. Johann Gottfried Herder (1744-1803), que se opôs ao racionalismo Iluminista da sua época, foi o primeiro autor a utilizar a expressão esoterische Wissenschaften («ciências esotéricas»), referenciável no tomo XV das suas Sämtliche Werke, e o substantivo l’ésotérisme surgiu pela primeira vez na obra Histoire critique du gnosticisme et de ses influences (1828), de Jacques Matter. Na sequência, deve-se ao ocultista e cabalista Eliphas Lévi (1810-1875) a vulgarização dos termos «esoterismo» e «ocultismo» (este último na sua acepção moderna e mais lata de corpus de «ciências ocultas», diferente da Occulta Philosophia, ou Magia, de Agrippa, por exemplo). A partir de então o termo adquiriu uma voga crescente, sobretudo depois que Helena P. Blsvatsky, A. P. Sinnett, Annie Besant, C.W. Leadbeater, etc., da corrente teosofista da Sociedade Teosófica popularizaram o conceito, desde o último quartel do século XIX e ao longo dos inícios do século XX.

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Paralelamente, certos autores começaram a encarar o estudo do esoterismo de um ponto de vista mais acadêmico, não se considerando, eles mesmos, «esotéricos», mais investigadores, quer da história, quer das ideias de determinadas correntes, espirituais, místicas ou ocultas. Entre estes se contam, por exemplo, nos finais do século XIX, George R. S. Mead e Arthur Edward Waite, cujos trabalhos, apesar de tudo, ainda se encontram a meio-caminho entre o «discurso esotérico» e a pesquisa universitária. No primeiro quartel do século XX, Max Heindel (1865-1919) estabeleceu a distinção técnica entre «o oculto» e «o místico», e, embora inserido numa específica corrente esotérica, deu forma consistente, nas suas obras, quer à vertente mística quer à vertente oculta do esoterismo. Por sua vez Rudolf Steiner (1861-1925), igualmente inserido numa corrente esotérica bem definida, abordou o esoterismo segundo um duplo enquadramento, ocultista e científico. René Guénon (1886-1951) trabalhou o esoterismo, genericamente, segundo uma perspectiva mais filosófica do que histórico-crítica, tendo o cuidado de distinguir entre o esoterismo cristão, o islâmico e o védico; todavia, o grande impulso para o estudo do esoterismo de um ponto de vista de investigação acadêmica surgiu a partir de 1928, com a tese de Auguste Viatte sobre o Iluminismo, seguindo-se-lhe as pesquisas e os trabalhos de Will-Erich Peuckert sobre a pansofia e o rosacrucianismo, de Lynn Thorndike sobre a história da magia, da Prof.ª Frances A. Yates sobre o Iluminismo rosa-cruz e o esoterismo renascentista, etc., devendo-se a esta última o principal estímulo para uma pesquisa universitária, rigorosa, incidindo sobre o «território esotérico», o que fez alterar o respectivo panorama investigacional a partir dos anos 60 e 70 do século XX. O prof. Antoine Faivre, mais recentemente, chama a atenção para os estudos de Ernest Lee Tuveson sobre o hermetismo na literatura anglo-saxônica dos séculos XVIII e XIX, e de Massimo Introvigne sobre os movimentos «mágicos» dos séculos XIX e XX, sobretudo pelo fato de proporem abordagens novas, interdisciplinares.

Atualmente, é já bastante vasto o leque de autores que estudam o esoterismo em ambiente de investigação acadêmica, tendo-se tornado consensual a designação de «esoterólogos» para alguns desses investigadores, o que pressupõe uma ciência da Esoterologia que está a ter acolhimento nos curricula de algumas Universidades. Nem todos coincidem, porém, nas suas posições e definições do campo investigacional do «esoterismo», podendo de certo modo, e sem tentar uma conciliação entre os diferentes autores, dizer-se que existem vários «esoterismos».

Por amor à brevidade, limitar-me-ei a salientar alguns esoterólogos contemporâneos cujos trabalhos são de capital relevância para a compreensão do «objeto temático» do esoterismo:

Prof. Antoine Faivre: Director de Estudos da École Pratique des Hautes Études – Section Sciences Religieuses (Sorbonne, França);

Dr. Wouter J. Hanegraaff: Professor de História da Filosofia Hermética e Correntes Relacionadas – Faculdade de Humanidades da Universidade de Amesterdão (Holanda) e orientador de pesquisas sobre História das Correntes Esotéricas – Departamento de Ciência das Religiões da Universidade de Utrecht (Holanda);

Prof. Pierre A. Riffard: Investigador de Metodologia de Esoterismo e professor Catedrático na Université de Novakchott (Mauritânia);

Prof. Massimo Introvigne: Historiador das Correntes Esotéricas Contemporâneas e Director do Centro Studi sulle Nuove Religioni, Turim (Itália);

Prof. Roland Edighoffer: Professor emérito na Université de Paris III (Sorbonne Nouvelle, França);

Prof. José Manuel Anes: Grão-Mestre da GLRP/LP (Maçonaria Regular de Portugal) e professor de História das Correntes Esotéricas no Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões da Universidade Nova de Lisboa (Portugal).

Em termos muito simplificados podemos dizer que duas grandes tendências gerais se perfilam entre estes autores: uma, poder-se-á designá-la por «universalismo pró-esotérico», e outra, por «estruturação histórico-crítica». O prof. Wouter J. Hanegraaff ainda considera uma terceira tendência a que chama «formas de anti-esoterismo», que, por não serem indispensáveis neste breve resumo, me abstenho de considerar aqui.

Na linha do «universalismo pró-esotérico» incluem-se os trabalhos e a atividade universitária de professores como Pierre A. Riffard e José M. Anes, por exemplo. Segundo Riffard, o esoterismo tanto existe no Ocidente como no Oriente, desde a pré-história até aos nossos dias, e tem a ver com o mistério da existência tal como é percebido pelos seres humanos; além disso, Riffard critica certos investigadores acadêmicos que procuram estudar o esoterismo «de fora», como se pudesse existir um «fenômeno cultural esotérico» independentemente do esoterismo em si. Segundo Riffard, a essência do esoterismo é, ela mesma, «esotérica»; na sua monumental obra de perto de 400 páginas, L’ésotérisme, Riffard interroga-se: «Pode alguém ser um esoterólogo sem ser, ao mesmo tempo, um esotérico?» De acordo com este ponto de vista, elabora uma descrição do esoterismo segundo as oito invariáveis que, em sua óptica, o caracterizam:

(1) A impessoalidade do autor;
(2) A oposição esotérico/exotérico;
(3) A noção de «o subtil» como mediador entre o espírito e a matéria;
(4) Analogias e correspondências;
(5) A importância dos números;
(6) As ciências ocultas;
(7) As artes ocultas;
(8) A Iniciação.

Moon rising

Uma posição totalmente diferente é assumida pelos profs. Antoine Faivre e Wouter J. Hanegraaff, por exemplo, defensores da linha «histórico-crítica». Segundo Faivre não se deve falar em «esoterismo», mas em «esoterismos», ou melhor, em «correntes esotéricas e místicas», uma vez que ele considera que não há um esoterismo em si, mas apenas correntes, autores, textos, etc. Para que o esoterismo constitua uma especialidade acadêmica reconhecida pela comunidade científica, Antoine Faivre define-o do seguinte modo, de acordo com a Direção de Estudos da «Section des Sciences Religieuses» (Sorbonne), que ele mesmo integra com outros docentes: um corpus de textos que constituem a expressão dum certo número de correntes espirituais, na história Ocidental moderna e contemporânea, ligadas entre si por um «ar de família», bem como uma «forma de pensamento» que subjaz a essas correntes. Considerado de forma extensiva, esse corpus estende-se da Antiguidade tardia até hoje; considerado de forma limitativa, abarca um período que vai do Renascimento até à época contemporânea.

Isto implica que, ao contrário das teses «universalistas», ficam excluídos do conceito de esoterismo alguns significados que Antoine Faivre enumera de modo a deixar bem claro o que, de acordo com o seu critério, o esoterismo «não é»: (a) Um termo genérico, mais ou menos vago, que serve para os editores e livreiros classificarem coleções de livros ou rotularem prateleiras, e onde cabem o paranormal, as ciências ocultas, as tradições sapienciais exóticas, etc.; (b) Um termo que evoca a ideia de ensinamentos secretos e uma «disciplina do arcano», com diferenciação entre iniciados e profanos; (c) Um termo aplicável a um certo número de processos mais experienciais que racionais, e que se aproxima da ideia de Gnose no sentido universal, propondo-se atingir, mediante certas técnicas experienciais, o «Centro do Ser» (Deus, o Homem, a Natureza, etc.), não se excluindo, desta concepção, uma atitude filosófica que advoga a «unidade transcendente» de todas as religiões e tradições.

Em contrapartida, aquela «forma de pensamento» que Faivre considera como própria do conceito de esoterismo distinguir-se-ia por seis características ou componentes fundamentais, das quais quatro são «intrínsecas», no sentido em que a sua presença simultânea é uma condição necessária e suficiente para que um discurso seja identificado como esotérico, e duas são «secundárias» ou «extrínsecas», e cuja presença pode ou não coexistir ao lado das outras quatro. São elas:

(1) A ideia de correspondência («O que é em cima é como o que é em baixo», segundo a Tábua da Esmeralda);

(2) A Natureza viva (o Cosmos não é apenas complexo, plural, hierarquizado, etc.: é, sobretudo, uma Grande Entidade Cósmica viva);

(3) Imaginação e mediadores (a imaginação é a faculdade superior de penetrar nos códigos que se ocultam nos mediadores, os quais, por sua vez, são os rituais, as imagens do Tarot, as mandalas, etc., etc., símbolos carregados de polissemia cuja decifração cognitiva permite o acesso ao mundus imaginalis definido por Henri Corbin);

(4) A experiência da transmutação (percurso espiritual simbolizado alquimicamente por três graus: nigredo, ou obra em negro, morte, decapitação; albedo, ou obra elevada ao branco; e rubedo, ou obra elevada ao vermelho, pedra filosofal);

(5) A prática da concordância (prática que visa descobrir os denominadores comuns a duas ou mais tradições aparentemente distintas, na expectativa de que, mediante esse estudo comparativo, se alcance o «filão escondido» que levaria à «Tradição primordial», da qual todas as tradições e/ou religiões concretas seriam apenas os «galhos» visíveis da grande «árvore» perene e oculta);

(6) A transmissão (conjunto de «canais de filiação» pelos quais se processa a continuidade de mestre a discípulo, ou de iniciação no interior duma sociedade, no pressuposto de que ninguém se pode iniciar sozinho e que o «segundo nascimento» passa obrigatoriamente por esta disciplina).

Outros autores simplificam a questão considerando que o esoterismo se constituiu no Ocidente como disciplina autônoma, a pouco e pouco, a partir de finais da Idade Média, porque a teologia e a ciência absorveram certos temas que o integravam, eliminando outros que, por serem mais inquietantes ou pertencerem ao imaginário mais perturbador, acabaram, com essa expulsão ou mesmo perseguição, por integrar as correntes esotéricas ocidentais, sobretudo a partir do Renascimento. No Oriente, pelo contrário, a teologia contém os temas esotéricos e, por conseguinte, o esoterismo não precisa de se constituir como disciplina aparte. Segundo este ponto de vista, pode-se falar em esoterismo associado às varias escolas e tendências que se desenvolveram no Ocidente na linha dos ensinamentos de Marsilio Ficino (1433-1499), de Pico della Mirandola (1463-1494) e de Johannes Reuchlin (1455-1522), esoterismo esse que floresceu, sobretudo, na Europa e nos séculos XVI e XVII. A sua principal característica é a rejeição da linguagem comunicativa como expressão da verdade, e a pretensão de que é nas camadas nãosemânticas da linguagem que se oculta a antiga Sabedoria. Em extensão a este conceito, não se pode ignorar a importância do pensamento judaico e dos textos hebreus na Europa, cujo torat hasod (conhecimento esotérico) constituiu um corpo específico de tradições secretas na cultura judaica, no centro do qual, e a partir do século XIII, se encontra a Cabala, que teve uma influência de indiscutível relevo no esoterismo cristão.

Snowy Owl gorgeous.

Algumas referências:

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