Temas Transcendentais

A Construção do Universo Onírico e o “Homem Primordial”

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Carlos Manoel de Hollanda Cavalcanti

Resumo

Análise de símbolos contidos na série de histórias em quadrinhos Promethea, publicada na virada do século XX para o XXI pela editora norte-americana DC Comics, com o selo America’s Best Comics, de autoria do premiado roteirista britânico Alan Moore e do artista J. H. Williams III. A série expressa a permanência do imaginário do hermetismo nas sociedades contemporâneas. Tem-se por embasamento a teoria do imaginário, conforme Gilbert Durand, a formação das mitologias, em Mircea Eliade e Joseph Campbell e os processos históricos implicados no sincretismo daquelas representações. O percurso compreende os questionamentos acerca de ciência e pensamento mágico e uma breve imersão no estudo da Astrologia, da Kabbalah e do Tarot, de forma a contextualizar a leitura semiológica das páginas selecionadas da série que corroboram os temas inicialmente levantados. Para tanto, acrescenta-se um comentário biográfico sobre o roteirista, sua formação literária e temas recorrentes em outras de suas obras, que de um modo ou de outro são sempre voltados para assuntos correlatos. Lançada na virada do milênio, a obra refere-se também a expectativas, anseios e necessidades de seu tempo, trazendo à discussão toda uma herança das matrizes culturais do Ocidente quanto ao que é considerado sagrado e profano e quanto à chegada da chamada “Nova Era”.

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Capítulo 2

Retomando a hipótese central, caracterizada no início do capítulo 1, Promethea é uma obra que representa a permanência, no imaginário ocidental, de um processo de “reencantamento do mundo” por meio da síntese de um conjunto de simbolismos e filosofias, vinculados à Alquimia, à Kabbalah e à Astrologia. Dentro dessa estrutura, esse imaginário manifesta-se em diferentes práticas sociais, mas com a mesma matriz cultural, atualizando o pensamento mágico da Antiguidade, da Idade Média e do Renascimento. As práticas podem ocorrer pela via da ritualística das organizações iniciáticas e orientações da literatura especializada, ou pela cultura de massas, com menor profundidade, em torno de diversos assuntos não necessariamente pertencentes à mesma linha de pensamento. Todos atrelados a um eixo formado pela herança ocultista legada por místicos do século XIX, que se apropriaram de diversas vertentes filosóficas e metafísicas ocidentais e orientais preexistentes nas matrizes culturais europeias. O “reencantamento do mundo” através da lógica onírica dos mitos e das artes herméticas ocorre concomitantemente às descobertas científicas, conforme exemplos do capítulo anterior, e em contrapartida ao cientificismo imperante em sua época e depois. Entre os exemplos dados anteriormente, os estudos com drogas psicodélicas e a promoção de estados alterados de consciência por vias químicas contribuiu para um reforço e visibilidade desses elementos das matrizes culturais ocidentais associando-os com a Teosofia e as ordens iniciáticas.

O ressurgimento do interesse e utilização da estrutura simbólica do Hermetismo nos séculos XIX e XX, além de uma “complementação” ao racionalismo-cientificismo dos novecentos, é uma das várias etapas da retomada daquelas matrizes culturais do Ocidente desde o Helenismo de Alexandria e desde as interdições do cristianismo do século V da Era Comum em diante4. Após as incursões dos Cruzados, a partir do século XI, todo um vasto conjunto de saberes e tradições antigas oriundos das trocas culturais entre babilônios, gregos, hebreus, persas, indianos e chineses veio sendo trazido, por intermédio da Rota da Seda. Isso se deu principalmente pela tradução das obras filosóficas e herméticas gregas no contexto europeu. Primeiramente pelos árabes para seu idioma após a derrocada do Império Romano e a pulverização dos conhecimentos do mundo antigo pelo Oriente Próximo. Acumuladas pelos gregos em bibliotecas como a de Alexandria, as tradições astronômico-astrológicas sumero-babilônicas sincretizadas pelos gregos ou os procedimentos rituais mágicos egípcios baseados em princípios semelhantes foram, com o advento do cristianismo e das interdições sobre práticas e preceitos pagãos, aos poucos sendo cultivados na Pérsia e adjacências. Desde o século III, a partir da dinastia dos califas Sassânidas, tendo, antes, havido a transferência de diversos textos greco-babilônicos de Alexandria a Antióquia e a Harran durante as destruições promovidas por fanáticos cristãos a referenciais de conhecimentos pagãos. As traduções árabes dos conhecimentos matemáticos, filosóficos, astronômico-astrológicos e mágicos da Antiguidade mantiveram, no Oriente Próximo, concentradamente em Bagdá entre os séculos VIII e X8, uma série de saberes que no Ocidente permaneceram diluídos até então em meio a seu próprio processo civilizador, porém não totalmente eliminados. Posteriormente, com as trocas mais intensas entre Oriente e Ocidente proporcionadas, entre outros fatores, pela dominação muçulmana na Península Ibérica, grande parte desses textos e tradições foram traduzidos por sábios árabes e judeus para o latim. Entre as obras que serviram de ponte entre o neoplatonismo de Iamblicus (séculos II e III da era comum), a filosofia oculta e a magia naturalis de Heinrich Cornelius Agrippa (1486-1535), por exemplo, estão os tratados De Radiis (“Sobre os Raios”), Picatrix (“Jayat al-Hakîm”, em árabe, “Meta dos Sábios”) e Clavicula Salomonis (“Chave de Salomão”), do filósofo árabe al-Kindi (800-870)10. De Radiis estava entre os mais importantes escritos astrológico-filosóficos daquele autor. Segundo a concepção da época, explicaria o funcionamento do universo por uma rede de interligações entre as “emanações” dos planetas e os quatro elementos sobre a Terra, em que os raios, provenientes dos confins do universo, promoveriam um mar de energia vibratória sobre o qual a imaginação, a fé e a vontade exerceriam influência decisiva. A Clavícula Salomonis é um livro fundamental nos círculos mágicos da atualidade, contendo 36 diferentes imagens talismânicas supostamente tendo sido escrito pelo próprio Rei Salomão, com instruções para construção e uso. Os talismãs funcionavam de acordo com sua relação com os sete planetas clássicos (Sol, Lua – considerados “errantes”, como os demais – Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno). O texto é também sincrético entre concepções de magia cristãs, judaicas e árabes. Nas aventuras de Promethea, encontram-se várias referências a tal forma de magia talismânica, em especial nas aparições, mencionadas no capítulo 1, de Benny Solomon e os demônios por ele conjurados, não raro utilizando gráficos existentes no livro. O Picatrix, com tradução do árabe para o latim encomendada no século XIII pelo rei Afonso X de Leão e Castela (1221-84)11, a despeito da pena de morte que o mesmo instituíra contra a evocação de espíritos e outras formas de magia, consiste também de métodos para construção de talismãs. Herança da magia antiga e da teurgia12 neoplatônica, com a decodificação de sistemas simbólicos astrológicos13, e a conjuração de entidades mágicas que através dos talismãs e atitudes do mago, exerceriam influência sobre as realidades concretas de acordo com funções específicas para cada um. Iamblicus denominava “daimones” as entidades intermediárias que cumpriam o papel de levar preces, interceder com potências superiores imateriais, atuar na fisicalidade como interferência, na medida em que fossem invocados e em que o suplicante se conectasse mentalmente com o princípio simbólico que expressavam14. O mesmo Iamblicus, como referência para uma parcela do pensamento neoplatônico que ressurge com força no Renascimento, argumentava que os ensinamentos de Platão “estavam integralmente relacionados às sagradas tradições dos egípcios, caldeus e assírios e, como um teurgista, ele explicava e defendia sua tradição usando categorias platônicas”. De fato, Iamblicus, cuja influência no pensamento neoplatônico subsequente foi intensa, bebeu das tradições helênicas, mas enfatizava as tradições egípcias e seus ritos hieráticos, assim como asseverava que os princípios invocados naqueles ritos podiam ser exemplificados abstratamente pelos ensinamentos pitagóricos, platônicos e aristotélicos. Note-se que essas três vias filosóficas são sincretizadas no modelo disseminado por aquele filósofo, indo, depois, influenciar a construção de símbolos que reunissem sistemas cosmológicos e numéricos, o que inclui a Kabbalah. Apesar da racionalidade de Iamblicus, o mesmo considerava que a “hubris racionalista ameaçava separar o Homem da atividade dos deuses, e ele apresentava a teurgia como o antídoto para restaurar o contato com a ordem divina”.

4 O que não impediu que pensadores do peso de Isidoro de Sevilla (aproximadamente 570-636), o “papa astrólogo” Gerbert de Aurillac (aproximadamente 940-1003) ou Alberto Magnus (1193-1280), entre vários outros da cristandade, produzissem obras sobre Astrologia e suas técnicas de análise, herdeiras do helenismo, ainda que diante da censura do Doutor da Igreja Católica, Agostinho de Hipona (Santo Agostinho – 354-430) à Astrologia no século V. Agostinho, na verdade, era um entusiasta da Astrologia, muito influenciado pelo maniqueísmo e pelo neoplatonismo de Plotino até deixá-la de lado, adotando a ideia de que somente Deus poderia prever o futuro.

8 A Astrologia, ainda que não seja considerada uma ciência nos termos atuais, agregava conhecimentos matemáticos, em aritmética e geometria e era motivo para as medições astronômicas, além de ser utilizada para finalidades médicas desde sua origem. Parte do modelo da medicina de Galeno hoje está na estrutura da Homeopatia e é parcialmente baseado na teoria dos 4 humores: quente, frio, seco e úmido, que, ao serem combinados entre si, correspondem aos 4 elementos – Fogo (quente-seco), Terra (frio-seco), Ar (quente-úmido) e Água (frio-úmido). Os 4 elementos são distribuídos entre os signos do Zodíaco: Fogo: Áries, Leão e Sagitário; Terra: Touro, Virgem e Capricórnio; Ar: Gêmeos, Libra e Aquário; Água: Câncer, Escorpião e Peixes. Paracelso, embora discordasse da medicina galênica, também contribuiu para a formação de parcela considerável da Homeopatia, sobretudo em se tratando do uso de medicina inorgânica: reduzindo os minerais à dosagem mínima, intensificando o que chamava de “espírito volátil” pela destilação (removendo o quanto possível o aspecto “terreno”), o que introduziria a virtude oculta das estrelas. Quanto à Alquimia de Paracelso e a relação de sua medicina com a Astrologia, ver SZULAKOWSKA, 2006, p. 6.

10 Abu Yusuf Ya’qub ibn Ishaq Al-Kindi foi o primeiro filósofo auto-identificado na tradição árabe. Um dos tradutores árabes de obras de Aristóteles, do neoplatonismo, da matemática e ciência grega. Entre elas, a famosa “Teologia de Aristóteles” e o “Livro das Causas”, versões em árabe de obras de Plotino e Proclo. O pensamento de al-Kindi era pleno de neoplatonismo, embora sua principal referência em questões filosóficas tenha sido Aristóteles. Sua obra em matemática e ciências também foi extensa, tornando-o conhecido na tradição árabe e latina tardias por seus escritos sobre Astrologia. Uma detalhada biografia de al-Kindi da Enciclopédia de Filosofia da Universidade de Stanford encontra-se disponível neste link.

11 Em cujo reinado, ainda que não somente originadas na corte de Afonso X, mas em diferentes partes da Europa, foram criadas as chamadas tábuas afonsinas, que consistiam de tabelas astronômicas e compêndios astrológicos, desenvolvidas nos séculos XIII e XIV em al-Andaluz, precedidas por trabalhos de astrônomos-astrólogos judeus e muçulmanos reunidos em Toledo, em fins do século XI e início do XII, à época das primeiras Cruzadas. No período afonsino, a Astrologia e os estudos dos saberes sincréticos de origem sumero-egípcio-greco-babilônica, em especial a Kabbalah, via sábios judeus, foi-se disseminando e assimilando em toda a Europa, onde, durante o Renascimento, assimilada pelo cristianismo, está entre as origens da forma particular de magia hermético-cabalista que vemos representada em Promethea.

12 Entre alguns filósofos neoplatônicos, como Proclus e Iamblicus, a Teurgia é a arte de fazer Deus “baixar à alma humana para criar um estado de êxtase”. Etimologicamente, segundo o dicionário Houaiss, o termo vem do grego theourgía: “ato do poder divino, milagre”, podendo também significar “trato mágico com os deuses”.

13 Entre eles, as chamadas “mansões lunares”, em número de 28, o mesmo número de dias da revolução da Lua em torno do Zodíaco. As mansões lunares possuíam diferentes utilidades, entre elas a de demarcar um período de tempo favorável ou não a determinadas invocações mágicas ou a de determinar a qualidade do momento para a análise astrológica de uma pergunta, como a situação transcorreria. Esta última aplicação faz parte da técnica astrológica denominada “Astrologia Horária”, composta de muitos e complexos procedimentos para a previsão de tendências. Nem todos os astrólogos contemporâneos do Ocidente adotam as mansões lunares em sua prática, mas até hoje elas são importantes nas análises dos indianos, na Jyotish, a Astrologia Védica.

14 A “conexão” podia dar-se através da pronúncia de mantras, meditação, rituais em que o símbolo é desenhado no chão ao redor do mago e formas similares. Tal entidade é também uma herança grega que vemos em Sócrates e seu daimon, que, segundo ele, o guiava para decisões corretas e caminhos a seguir. O daimon é sempre um guia espiritual, sendo a origem etimológica de “demônio”, em português, mas não necessariamente possuindo conotação maligna como na acepção cristã. A coletânea de trabalhos de pesquisadores coordenada por Patrick Curry e Angela Voss, da Universidade de Cambridge, “Seeing with diferent eyes: essays in astrology and divination” aborda, entre outros fatores, os métodos utilizados pelos teurgistas para atingir os estados alterados de consciência que permitiriam a prática da divinação e a relação entre os símbolos astrológicos correspondentes ao resultado desejado.

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As heranças da Antiguidade não se restringiam ao Picatrix ou a outras obras que, traduzidas do grego para o árabe e o latim, versavam sobre o sistema astrológico legado pela Antiguidade, o que inclui as obras mais conhecidas do astrônomo-astrólogo Claudio Ptolomeu: o Tetrabiblos e o Almagesto15. Estas duas importantes obras, obviamente estavam entre as traduções árabes e foram decisivas para a transmissão do conhecimento astronômico-astrológico para o medievo europeu. A cosmologia ptolomaica, ainda que diferisse em parte da aristotélica16, partia inicialmente de seus pressupostos e foi uma base fundamental para as concepções de universo por todo o período, o que a tornava referencial para as imaginações relacionadas à ascensão e comunhão com a divindade17. É nesse ponto que os variados sincretismos se encontram nas origens dos sistemas cabalísticos que dali se desenvolveram.

15 Dois dos principais tratados de Astrologia Antiga, ao lado dos textos de Vetius Valens, Dorotheus de Sidon, Firmicus Maternus e outros filósofos astrônomos-astrólogos, que em suas épocas dificilmente não teriam sido influenciados pelo pensamento neoplatônico e as heranças do Helenismo. A Astrologia Ptolomaica, também herdeira das concepções aristotélicas do céu em camadas planetárias e a Terra como eixo central, perdurou até após a Revolução Copernicana do século XVI, em que o Sol passou a ocupar a posição central do sistema solar. Ptolomeu, no entanto, costuma ser descrito como estoico ou como aristotélico, mais do que como platonista ou como se, para ele, ser aristotélico ou platônico fosse algo mutuamente excludente. Segundo Campion isso não seria verdade, pois Ptolomeu apelava a Platão em especial.

16 Ptolomeu defendia aspectos que não existiam na cosmologia aristotélica, como os “epiciclos” dos planetas. Essa noção visava explicar os motivos pelos quais Marte, por exemplo, parecia andar “para trás” em determinadas fases de seu ciclo em torno do Sol. Na verdade esse movimento aparentemente contrário à trajetória normal do planeta explica-se pelo conceito de “retrogradação”, que nada mais é que o resultado da diferença das velocidades de translação da Terra em relação aos demais planetas do sistema solar. O efeito é semelhante ao de uma ultrapassagem de um carro por outro numa estrada, em que o ultrapassado dá a impressão de estar andando para trás em relação ao mais veloz.

17 Apesar de que a Astrologia não viesse a ser diretamente um sistema promotor de ascensão ao divino sob todos os aspectos, mas uma linguagem que permitia um diálogo entre o ser humano e as circunstâncias vividas em sociedade e na natureza. Desde os sumérios a aplicação da Astrologia visava o gerenciamento da vida, não exatamente calcado em um fatalismo como viria a ser grandemente discutido por séculos entre filósofos desde gregos e romanos até medievos e modernos. A visão mágico-astrológica do mundo entre mesopotâmicos, não diferenciaria ou separaria aspectos divinos dos mundanos e materiais, estando tudo interligado. A um fenômeno físico atribuir-se-ia uma subjetividade e a manifestação de um aspecto divino. A associação entre a concepção astrológica e as práticas que supostamente permitiam o acesso a níveis sublimes de existência veio ocorrendo na medida das apropriações e sincretismos religiosos de diferentes povos, mas alcançou relevância ainda maior entre gnósticos e neoplatônicos do século II e entre alquimistas ao longo da Idade Média e do Renascimento, na dicotomia entre espírito e matéria. Para Campion, a Astrologia se distanciou gradativamente dos meios de contato divino via êxtase para dar lugar ao uso da razão e da lógica. Ele ainda afirma que “precisamos distinguir a Astrologia da religião astral”, sendo esta última “a adoração de deidades planetárias e estelares, enquanto Astrologia é uma tentativa de organizar o que os deuses e deusas planetárias pretendem para a humanidade, sem necessidade de orações, adorações ou rituais religiosos. Astrologia pode ser ligada a tais atividades, mas elas não são necessárias (para a prática do astrólogo)”.

figura 1

O cosmo de base aristotélico-ptolomaica (com a representação dos planetas em camadas concêntricas e o céu das estrelas fixas), na Cosmographia de Pedro Apiano, de 1524. Os sete primeiros céus correspondem às esferas planetárias. O oitavo é a esfera das estrelas fixas ou “Mazloth”: “Zodíaco”, em hebraico. A base chamada de “aristotélica” dos sete planetas (que era muito anterior a Aristóteles, já sendo concebida em parte pelos sumérios) sofrera sincretismos de representação também no tempo de Ptolomeu e, na representação de Apiano, 13 séculos depois, o nono e o décimo céu correspondem, respectivamente, ao céu Cristalinum e ao Primum Mobile (“primeiro movimento”), ambos contendo todas as potencialidades das demais estratificações. Acima de tudo está o Coelum Empireum (etimologicamente: Céu de Fogo – pode ser entendido também como “céu ardente” ou “céu feito de infinita luz”), a “morada de Deus e de todos os eleitos”. A discussão sobre a suposta existência desse céu acirrou-se nos séculos XVI e XVI, conforme Luis Miguel Carolino, ao dissertar sobre as opiniões do astrônomo Cristoforo Borri a respeito. Dante Alighieri (1265-1361), no entanto, já considerava a teoria dos dez céus e o céu Empíreo em seu “Il Convívio” (1304-1307), estabelecendo analogias entre os céus esquemáticos e as ciências de seu tempo.

Antes, porém, de seguir adiante com uma visão geral sobre a Kabbalah em sua relação com a série Promethea, cumpre retomar a observação já feita no capítulo 1, em que Moore sugere que ali houvera um “adormecimento” da consciência. Segundo aquela narrativa, isto ter-se ia dado desde o século V, com o advento do mundo cristão em detrimento das antigas práticas pagãs e mágicas. Na verdade, como se vem demonstrando, toda a Idade Média é provida por sincretismos dos mais diversos e por incursões dos saberes da Antiguidade, sua ciência e suas crenças, adaptadas à religiosidade cristã. A Alquimia medieval, a Astrologia e o próprio desenvolvimento da Kabbalah ganharam relevo em vários momentos durante os mil anos de Idade Média. Junto com elas, algumas tecnologias e a semente das ciências que conhecemos hoje. A simplificação da Idade Média européia como “Idade das Trevas” desconsidera esses e muitos outros aspectos do desenvolvimento e das trocas culturais ocorridas entre muitos povos de diferentes etnias e históricos, o que requer tempo para a sedimentação e relativa acomodação das mais díspares visões de mundo. Não raro, isso ocorre sob tremendo conflito. Como o próprio autor coloca, através dos lábios da protagonista, a imaginação “não pode ser destruída”. No máximo, ela e os arquétipos que traduz de época em época, de sociedade em sociedade, pode diluir-se e expressar-se nos símbolos que uma dada cultura acata e ajusta a sua própria estrutura, exaltando uns e suprimindo outros. Analogamente, as traduções árabes dos textos greco-babilônicos e sua passagem para o latim proporcionaram as apropriações e adaptações das antigas formas mítico-imaginárias da Antiguidade ao sincretismo cristão em que santos assumem o papel mediador outrora desempenhado pelos daimones. Deuses salvadores celestiais e seus aspectos sacrificiais, seu “despedaçamento”, empalamento, morte, ressurreição e ascensão concentram-se em alguns personagens sagrados das narrativas cristãs, prefigurando, a seu modo, a trajetória do que Campbell denominaria a “Jornada do Herói” ou “monomito”. A divindade ser massacrada para ressuscitar em seguida já era tema corrente em muitas narrativas bem anteriores ao cristianismo, a exemplo de Dioniso, Inanna, Osíris e outros deuses intermediários entre mundo espiritual e terreno. No sentido místico, tanto quanto no científico, portanto, não houve Idade das Trevas, mas uma circunscrição radical da imaginação em torno de uma linha de pensamento que se apropriou de narrativas anteriores e as revestiu com suas roupagens. A imposição da mesma durante pelo menos mil anos fora localizada no Ocidente Europeu e em parte do Oriente Próximo, não em todas as partes do planeta nem tampouco sendo homogênea nas zonas cristianizadas.

A Alquimia e a Magia ganharam novos contornos durante o Renascimento e permaneceram relativamente estáveis, ainda que sob discordâncias e críticas, até a chamada Revolução Científica, no período do século XVI ao XVIII. O Renascimento não “desencantou” o mundo, desassociando ciência e magia, como o faria o processo decorrente do Iluminismo (e mesmo assim, não o fez totalmente, como veremos). Ao contrário, acentuou na Europa, entre os círculos filosóficos tocados pela tradução do Corpus Hermeticum e de outras obras gregas por Marcilio Ficcino (1433-1499), todo um interesse num mundo suprafísico, o que seriam seus efeitos no universo fenomênico ou, ainda, na consciência do praticante de artes herméticas. As práticas ligadas à Alquimia naquele período revelaram-se ainda mais sincréticas entre suas origens e as vertentes cristãs, árabes e judaicas.

Segundo Stuckrad, a opinião corrente sobre as origens da Alquimia encontram-se no Egito Antigo, mas somente no período helenista foram reunidas as condições favoráveis para a formação da mesma. “Não por acaso, as origens da Alquimia coincidem com a época do surgimento do Hermetismo, ou seja, do século I a.C. ao século III d.C.”. Alquimia e o “fogo celestial” possuem analogia, sobretudo, segundo recorda Eliade, em se tratando do uso e sacralização do ferro obtido de meteoritos em tempos bastante remotos. A metalurgia está nos primórdios das práticas alquímicas inclusive entre os egípcios contemporâneos à construção da Grande Pirâmide de Gizé (2900 a.C.), sendo que o “termo biz-npt, ‘metal do céu’, indica claramente sua origem meteórica”. Há uma relação entre essas origens e a temática do Fogo Prometéico, que vemos na série Promethea, especialmente se pensarmos na arquetipologia do xamã/ferreiro que trabalha o ferro meteórico e dos sistemas iniciáticos de sociedades arcaicas24. O trabalho ou Obra (Opus) alquímica é essencialmente regulado pela relação do fogo com a mudança de estado da matéria e sua correspondência com as alterações na alma do praticante. De fato, sob a herança gnóstica e neoplatônica, também para a Alquimia o corpo material constitui uma prisão e uma corrupção do “estado original”, platônico, de vínculo direto com o mundo divino das ideias, o que requer depuração para o retorno à origem. Na metalurgia arcaica o metal é depurado, “sacrificado”, calcinado, comprimido, enfim, passa por diversas etapas até que esteja pronto para o uso. Na Alquimia medieval e moderna o processo ocorre com o que os filósofos denominavam “substância”, mesclando o simbolismo metalúrgico com as características do processo vital, envolvendo a purgação, a morte, a putrefação e uma subsequente “ressurreição” como restauração da pureza originalmente perdida.

24 Como os Dogons do Mali, com a figura do “Ferreiro celeste/Herói Civilizador”, em que este exerce funções de sacerdote do fogo e do raio. Quanto às mitologias dos Dogons e de povos com narrativas semelhantes ver ELIADE, 1983. É o xamã quem exerce a função de mediar a relação entre o mundo divino e o humano, como o faria o Trismegisto, da tradição hermética, ou a Promethea, nos quadrinhos.

A matéria, no simbolismo alquímico, precisa passar por estágios de “sofrimento” até atingir a Pedra Filosofal, que seria a reunião de todos os aspectos num todo divino. Os estágios normalmente são divididos em três partes principais (Nigredo, Albedo, Rubedo)26 que por sua vez subdividem-se em: Calcinatio, Solutio, Coagulatio, Sublimatio, Mortificatio, Separatio, Coniunctio27. Os sete estágios alquímicos acima possuem relação com a concepção do universo em sete camadas planetárias e suas demais correspondências naturais: sete cores do arco-íris, sete notas musicais28; ou em apropriações culturais: sete pecados, sete virtudes, sete sacramentos etc. No caso da Alquimia, em linhas gerais, cada estágio é uma etapa a ser vencida, representa uma experiência diferente e cumulativa em direção à união com a divindade, representada pela Coniunctio.

26 Nigredo, o negrume ou massa confusa, normalmente putrefata; Albedo, a brancura ou “estado lunar” que precede a Rubedo, o vermelho, o “estado solar”. Há autores que incluem o estágio da Citrinitas, o amarelo, situado entre a Albedo e a Rubedo, e a Cauda Pavonis, entre a Albedo e a Citrinitas.

27 Em linhas gerais, os estágios remetem a experiências como a queima (Calcinatio), a dissolução (Solutio), a solidificação (Coagulatio), a elevação, a fumaça ou aspecto aéreo decorrente das operações anteriores (Sublimatio), a putrefação da matéria restante e sua gradativa desintegração (Mortificatio), o distanciamento, decomposição e discernimento dos aspectos que compõe a matéria e que antes estavam indissociados (Separatio), o ápice da Opus, com a coesão dos aspectos contrários ou múltiplos (do múltiplo ao uno) já purificados em uma só coisa na qual as oposições se harmonizam (Coniunctio). Jung detalha as fases e os processos segundo a simbólica medieval e em nível psicológico, em seu “Psicologia e Alquimia”.

28 Que com as cinco dissonantes totalizam 12, o número dos signos do zodíaco.

Circle & Spiral

Circle & Spiral

Como veremos adiante, a “purgação” da substância, entre os alquimistas do Renascimento, recebe a forte influência da Igreja no Medievo, com a doutrina do Purgatório, na qual o indivíduo, após ter-se depurado de seus pecados, recuperaria seu “corpo original” quando da “Ressurreição” (no Juízo Final). Ambas as concepções do “purgar/depurar”, por sua vez, encontram eco no Orfismo29, que desenvolvera sua doutrina a partir do mito milhares de anos mais antigo de Zagreu/Dioniso, o “nascido duas vezes”30. Entre as versões daquela narrativa, Zagreu, filho de Zeus, deus celestial, com Perséfone, sua filha e uma divindade ctônica31, fora devorado pelos titãs, filhos da Terra/Gaia, a mando de Hera, enciumada com mais uma das muitas infidelidades do marido. Em resumo, os titãs dividem o menino em sete pedaços e o devoram, exceto o coração. Atená, deusa da sabedoria, resgata o coração e o entrega a Zeus, que o engole para que o infante viesse a renascer posteriormente, quando o deus engravidaria Sêmele. Logo em seguida incinera os titãs com um raio. Das cinzas dos titãs, imbuídos da carne e do sangue do deus devorado, nascem os mortais, meio deuses (aspecto celestial), meio titãs (o aspecto terroso, ctônico, “maléfico”). Como vimos, os arquétipos vão-se manifestando nas narrativas apesar de serem revestidos com outras roupagens entre épocas e culturas: grande parte das religiões de mistérios helenistas baseava-se nas canções de Orfeu. A ideia da depuração do aspecto ctônico na natureza humana visando união com a parcela divina de cada um já era lugar-comum no imaginário que viria a se manifestar na religiosidade e misticismo medieval e renascentista. As características do mítico Orfeu, de modo análogo às de Pitágoras, são tipicamente xamânicas, prefigurando a imemorialidade daquelas tradições que, ao que tudo indica, provieram de fontes orais.

29 Seita filosófico-religiosa originada na Grécia do século VII a.C., cuja fundação, atribui-se ao poeta mitológico Orfeu. Os Mistérios Órficos tinham na ideia de transmigração ou reencarnação da alma, o núcleo místico de sua doutrina, e o fator por meio do qual influenciou escolas filosóficas gregas como o pitagorismo, empedoclismo e platonismo.

30 Segundo Campbell, mitos como o de Zagreu e as doutrinas órficas possuem origem nas sociedades paleolíticas, com o ato de canibalismo, e nas neolíticas, com a alusão à caverna, à semente que plantada após a morte da planta ressurge noutro ciclo. Os mesmos titãs, que no mito surgem cobertos com barro branco, segundo aquele autor, podem ter algum vínculo com as práticas de tribos canibais cujo ato ritualístico de comer carne humana é acompanhado das pinturas sobre o corpo com pigmentos brancos. Quanto a isso ver as observações daquele autor em “As Máscaras de Deus vol. II – Mitologia Oriental”, onde, relembrando Frazer, mostra as semelhanças entre os mitos de Osíris, Tamus e Adônis e seu desenvolvimento pré-histórico, Paleolítico e Neolítico Tardio, sobretudo este último, em um tema comum à Idade do Bronze.

31 Filha de Deméter deusa da Terra e da agricultura, com Zeus. Perséfone, que significa “semente”, protagoniza também o mito em que, raptada pelo Hades, deus do submundo e irmão de Zeus, torna-se o motivo pelo qual a deusa-mãe, em desespero por não recuperar a filha, se ausenta, provocando grande escassez no mundo. Zeus entra em acordo com Hades, fazendo com que por seis meses Perséfone fique com ele em seu reino e nos outros seis retorne à superfície e à mãe. Além de ser uma herança neolítica com analogias sobre morte e renascimento, base dos Mistérios de Elêusis, o mito fala também da origem das estações do ano.

Orfeu era professor, poeta, mago, ensinava religião e produzia oráculos e, como qualquer xamã, visitou o mundo dos mortos, incentivado por um dos mais comuns motivos xamânicos: recuperar uma alma perdida ou roubada. A operação do “resgate da alma” consiste, segundo Eliade, na recuperação de parcelas da alma de um “doente” que se desloca da alma “total” do mesmo diante de eventos traumáticos. Normalmente trata-se de uma situação envolvendo o próprio indivíduo quando criança, faceta esta encontrada pelo xamã em sua “viagem”. O modo de fazê-lo pode variar de cultura para cultura, em que uns capturam a alma com uma pequena cesta (como se fosse uma borboleta) e outros, ao entregarem a parcela ao doente, o fazem soprando no peito do mesmo. Em todos os casos, durante o estado alterado de consciência temos o papel do guia dos mortos, como o do já citado Hermes Psicopompo, e a perspectiva de reintegração em um todo daquilo que estava fragmentado. Analogamente, na Alquimia a questão central é a depuração da alma e a união com a inteireza representada pela unidade divina, mormente por intermédio do enfrentamento das 7 etapas supracitadas.

A perspectiva de depuração e de supressão da materialidade em favor de uma sacralidade imaterial na Alquimia também faz parte de um sistema de apropriações narrativas calcadas em duas concepções arcaicas36: a do tempo cíclico, passando ao tempo linear, e a do “Grande Homem”. Este último assumirá as feições do “Anthropos” e outros cujo corpo mitológico ou conceitual serviria como matéria prima do universo37. Na noção do tempo cíclico o mundo tende a renovar-se após sua inevitável deterioração, corrupção ou destruição. Ainda que essa noção ocorra entre as primeiras sociedades possuidoras de escrita, estas a herdaram dos períodos Paleo e Neolítico, das sociedades caçadoras-coletoras e das agricultoras detentoras de tecnologias rústicas de fundição38. A própria sazonalidade da natureza teria relação direta com a construção dessas narrativas desde a pré-história: a projeção imaginária da fisicalidade no meio ambiente, bem como a coincidência dos ritmos deste com os do corpo (menstruação, gestação, digestão, excreção), dá margem à associação entre corpo (Micro) e Cosmo (Macro) como entidades correspondentes. O tempo cíclico está nos alicerces da visão alquímica da união dos opostos, do fim e do início como partes de uma única totalidade. A mística do “fim do mundo”, por sua vez, pertence ao tempo linear de base judaico-cristã, em que há um suposto começo (marcado pelo Gênesis) e fim (Apocalipse) do tempo. Entretanto, ao pensarmos num começo marcado pelos atos míticos de um Criador e num final marcado por uma sequência que faz retornar ao mesmo Criador, estamos falando novamente de um ciclo, cuja separação inicial retorna à Unidade, ainda que sob outro prisma. Ambos os aspectos participam da forma que assume a Alquimia na Idade Média e no Renascimento, bem como as subsequentes apropriações de seus discursos nas organizações iniciáticas dos séculos XIX e XX, como veremos a seguir.

36 “Arcaico”, aqui, não significa “em desuso” ou “desprovido de fundamento”. O uso do termo, nesta análise, alude à antiguidade de algo e a seu aspecto tradicional, pré-moderno, voltado às raízes formadoras dos símbolos em uso ainda hoje.

37 No nível mítico-filosófico, o Anthropos, “Homem Primordial”, “Adão”, reconstituído à maneira cristianizada e helenizada no século II entre gnósticos (ver mais detalhes no texto principal adiante). No nível mitológico, o corpo gigante e inumano de dragões ou grandes serpentes, como nas duas versões de Tiamat, divindade sumero-babilônica, ora matriz criadora dos deuses, ora monstro do caos primordial, morta por Marduk, que das partes de seu corpo construiu o mundo. Outros “corpos” formadores do mundo são o de Gaia (Terra) e Urano (Céu), entre gregos; o de Ymir, o gigante do gelo, nascido andrógino, que os deuses nórdicos Odin, Vili e Vé mataram e posteriormente usaram partes de seu corpo para fazer o Céu e a Terra, montanhas, rios etc.; o de Nut, a deusa-céu egípcia, cujo corpo é a própria abóbada celeste, separada de Geb, seu consorte deus-terra, por seu pai, Shu, o ar. Os Upanishades descrevem um homem primordial composto pelos próprios elementos que viriam a tornar-se o mundo. Nessa tradição hindu, este divino ser gigantesco, embora infinitamente distante, permanece nos recessos mais íntimos do coração humano. Campbell traça vários estudos comparativos envolvendo esses personagens em sua quadrilogia “As máscaras de Deus”, sobretudo no volume I, “Mitologia Primitiva”. Nos quadrinhos da Marvel, algo relativamente semelhante pode ser visto no personagem Eternidade, cujo corpo é o próprio universo, o tempo e o espaço.

38 Quanto a isso, ver Campbell, em seu “As máscaras de Deus”, vol. I, e Campion, em “A History of Western Astrology, vol. I: The Ancient World”. A narrativa de Promethea, assim como as apropriações mítico-religiosas de muitas sociedades contêm, sob diversos aspectos, reminiscências dos mitemas paleolíticos e neolíticos. Um deles, o “eixo do mundo” (axis mundi), está na base de narrativas e crenças que colocam árvores como centro do universo e sustentação do mesmo, cruzes, troncos ou montanhas também como eixos e como base para expiação de crimes/pecados ou, ainda, a morte e a ressurreição, no simbolismo vegetal da semente que traz de volta a vida da planta anterior.

O supracitado Anthropos ou “Homem Primordial” possui relação com a Alquimia e com o “fim dos tempos” desde os escritos herméticos do século II da Era Comum. No Poimandres, um dos capítulos do Corpus Hermeticum, o Anthropos é a terceira etapa no processo criador que comporta também o Logos (a Palavra) e a Mente-Artífice (Demiurgo, Nous)40. Ele é também o retorno à inteireza, à identificação com a fonte criadora divina, que a historiadora Urszula Szulakowska atribui ser um dos conceitos fundamentais da teosofia de Paracelso e de sua medicina. Para ela, antes mesmo do advento do cristianismo, o mito do “Filho do Homem” (Anthropos), “tinha sido uma das mais evocativas histórias herdadas do Oriente Médio, especificamente do Irã, e afetou profundamente as imagens e o discurso tanto do cristianismo quanto do misticismo pagão”. A autora também descreve o modo como esse conceito veio sendo apropriado pelo modelo cristão e pela Alquimia, conforme o excerto a seguir:

Em alguns grupos religiosos helenistas (a figura do) Anthropos tornou-se interligada com a figura histórica de Jesus Cristo, desse modo criando um tipo peculiar de Redentor. Os alquimistas medievais incluíram seus próprios elementos a esse mito em seu conceito de “Mercurius”, a matéria prima, ao qual foram atribuídas as qualidades cósmicas do Anthropos. Quando a ideia da pedra filosofal se desenvolveu na Alquimia helenística tardia ela foi imaginada como sendo uma perfeita forma de Mercurius. No contexto da cristandade medieval, esta entidade pneumática gradualmente adquiriu atributos similares aos do Cristo como um ser martirizado que fora condenado à morte, mas ganhou a vitória sobre a corrupção [da matéria]. Subsequentemente, ao final do século XIV a pedra era representada em manuscritos e iluminuras como Cristo, o Homem Cósmico, contendo toda a manifestação em todo seu corpo.

Urszula Szulakowska

40 Nous pode ter muitas acepções dependendo da linha filosófica adotada. Entretanto, Nous, quando associado por Hans Jonas ao Demiurgo, refere-se ao intelecto, sendo este a “inteligência criadora” e organizadora do Cosmo (criadora de formas), também traduzido como “Entendimento”. O Demiurgo regula as formas que passam a existir a partir das ideias primordiais (em conformidade com Platão) e “abaixo” delas. No Poimandres o Anthropos é também o “Homem” formado no Gênesis, após a criação do sistema cósmico dos planetas.

 As apropriações renascentistas dessa fórmula escatológica trazem de volta as expectativas de uma “segunda vinda”, isto é, do retorno do Cristo, restabelecendo o Reino dos Céus do qual se havia distanciado no decorrer do tempo. O Cristo, nesse caso o “novo Adão”, representa o Anthropos, o homem ideal (produzido no Mundo das Ideias), que na Kabbalah veremos ser representado pelo Adão Kadmon43. A figura é bastante similar a mitos das mais diferentes culturas: entre outras idealizações, um grande corpo humano ou uma Ideia platônica como tecitura do universo ou como a priori imaterial do mesmo. Os alquimistas, influenciados pelos textos herméticos, contudo, relacionarão o Anthropos com o símbolo do andrógino caracterizado astrologicamente por Mercúrio (“Mercurius” – tanto o planeta quanto o metal ou condição líquida da prima matéria). Este une o princípio solar, masculino, e o lunar, feminino, em um só símbolo. As atribuições do mesmo vão além, de acordo com Szulakowska:

Mercurius em Alquimia pode também significar o princípio feminino, “Spiritus”. Ele era representado na forma da lua, o princípio oposto ao sulphur, uma entidade masculina ou substância identificada com o Sol e “anima”. Mercurius manteve na Alquimia seu significado pagão como mensageiro de natureza dupla dos deuses: espírito e matéria, macho e fêmea, atributos similares aos do Anthropos no Corpus Hermeticum. Como tal ele foi identificado com a serpente ou dragão, símbolos do “menstruum”, a força vital no sangue com uma potência perigosa. A manipulação do sangue deveria ser evitada. Era apenas passando por um processo de purgação alquímica que o menstruum poderia se tornar o elixir da vida, o quintessencial “coelum”.

Urszula Szulakowska

43 Kadmon ou “Qadmon”, do hebraico “antepassado”, “ancestral”, “predecessor”. Adão ou “Adam” vem de “Adamah”, “terra”, em hebraico. O “Revestido de Terra” (ou matéria) é também o “ancestral comum”. Em geral “Adam Kadmon” é traduzido como “Homem Primordial” ou “Homem Arquetípico”.

Cumpre observar que em Promethea há uma direta relação entre o “menstruum” e o “coelum” ou “caelum”, por um lado o firmamento das estrelas, por outro o “azul” celeste, em contraste com o “vermelho”, sendo o primeiro o acesso ao “não-tempo” arquetípico, em oposição à passagem do mesmo e à deterioração. Já vimos em Durand como a fisiologia feminina contribuiu para relacionar a passagem do tempo e a morte à menstruação, a propósito. No capítulo IV serão analisadas algumas imagens da edição número 21 em que a narrativa chega num ponto crucial da jornada da heroína pela Árvore da Vida no qual isso é demonstrado claramente. Vale ressaltar que na Alquimia Mercurius é também um princípio feminino, manifesto na HQ como a própria personagem.

Szulakowska também recorda que o mesmo princípio (Mercurius) está estreitamente ligado à expectativa milenarista que permeava o pensamento dos alquimistas. Vale lembrar que o “Milênio”, como vimos antes, não se refere exclusivamente a um período de mil anos, mas sim a uma “eternidade” ou ao período imediatamente anterior ao que promoveria a união definitiva do humano com o divino. A ligação entre Alquimia e escatologia encontrada na literatura produzida por Paracelso no século XV reforça e dá continuidade a esse aspecto, conforme o excerto a seguir:

Naquele momento o discurso escatológico foi cooptado para o serviço das ciências esotéricas, mais especialmente na teoria alquímica da tradução em latim do século XII do Turba Philosophorum (do original em árabe de 900 d.C). Interpolações cristãs foram adicionadas ao texto referindo-se à morte e ressurreição de produtos químicos em termos apocalípticos. O processo de destilação na Alquimia Cristã simbolizava a morte e ressurreição, bem como a união do Macrocosmo e Microcosmo. Para os alquimistas a morte e ressurreição da Pedra Filosofal na forma de um ser humano era a indicação mais clara que a Alquimia era uma ciência divina, não humana. A partir do final do século XIV, houve um aumento do interesse na profecia apocalíptica (…) Barnes argumenta que por trás da busca por uma ciência universal, tal como a do alquimista Roger Bacon, estava a profecia sobre o vindouro Tempo das Tribulações e do Milênio.

Urszula Szulakowska

Da mesma forma, a figura de Hermes, assim como o metal/planeta Mercúrio, seu análogo, não raro fora representado como uma divindade cósmica, tomando a forma do Cristo, nas apropriações alquímicas da iconografia cristã do Renascimento. Há ainda um outro aspecto de Mercúrio/Mercurius para o qual Jung chama a atenção, como se segue:

Mercurius (…), muito perto do Sol é (…) um lúcifer, um portador da luz. Ele anuncia, como a estrela matutina, só que de um modo muito mais direto, a luz iminente. Para bem interpretarmos Mercurius é importantíssimo considerar sua relação com Saturno. Mercurius como ancião é idêntico a Saturno, assim como muitas vezes (…) a prima matéria não era representada pelo mercúrio (Hg), mas pelo chumbo ligado a Saturno. (…) No gnosticismo, Saturno é o arconte supremo, o Ialdabaoth de cabeça leonina (em português: o “filho do caos”). Literalmente, o filho do caos, na linguagem alquímica, é Mercúrio.

Jung

A relação estabelecida acima por Jung entre Mercúrio e Saturno, é também a relação da Gnose (o Conhecimento que pressupõe não apenas o saber teórico, mas a experiência direta com o divino) com o acesso à última das etapas sujeitas ao Tempo (Crono, Saturno) e sua transcendência. A figura 2 apresenta um diagrama das etapas celestiais como imaginadas pela vertente ophita do gnosticismo.

figura 2

No diagrama, o céu em camadas difere do aristotélico-ptolomaico ao trocar as posições de Vênus e de Mercúrio. Estruturalmente, no entanto, a posição dos demais fatores permanece a mesma e Saturno encontra-se no limiar entre as camadas (éons, arcontes, planetas) e o paraíso. “Ophitas”, de “ofídio”, “serpente”, designa genericamente seitas gnósticas da Síria e do Egito que se desenvolveram entre os séculos I e II da Era Comum. Em suas doutrinas era atribuída grande importância à serpente mencionada no livro do Genesis como tentadora de Adão e Eva. Considerada como portadora do conhecimento do Bem e do Mal, constitui-se tanto um símbolo de Gnose quanto um referencial de transformação e superação da morte. O ente reptiliano dessas construções vinculado ao acesso ao Conhecimento e à Unidade é comparável às serpentes que se encontram no Caduceu de Hermes: o réptil longilíneo, em sua estrutura imaginária, mantém-se como referência para símbolos de morte e renascimento, ciclos renováveis, geração e re-generação, transição de um estado a outro e a correspondência de um com o outro.

Os gnósticos da vertente ophita pressupunham o antigo sistema cosmológico, mas nele introduziram alguns detalhes diferentes. A Terra, além de ser o centro das camadas planetárias, também encontrar-se-ia envolta pelo ar (Behemot)51. A oitava esfera, como no sistema ptolomaico, é a das estrelas fixas, que é sucedida pelo “reino do Deus desconhecido”, o Pleroma (a totalidade), com suas próprias subdivisões ou aeons. Para a Gnosis, o reino dos sete planetas seria um poder anti-divino, normalmente concebido como tirania e imposição das condições terrenas difíceis aos homens. Essas esferas eram habitadas por ou eram elas mesmas espíritos ou deuses maléficos a quem se dava o nome de “arcontes”. O “arconte líder” e regente supremo do mundo posicionava-se entre a sétima e a oitava esferas, onde, no céu em camadas, encontramos Saturno e o zodíaco. Geralmente o supremo arconte é associado ao criador do mundo, o Demiurgo53, mas, de modo diverso do omni-benevolente modelo platônico, o olhar gnóstico coloca o Demiurgo como uma barreira ao reino de luz que lhe é posterior. O Cosmo e sua fisicalidade, afinal, seria “inimigo do Homem”, em sua função de distanciá-lo e mantê-lo subjugado às condições terrenas ou materiais. Cabe lembrar que em Promethea o corpo e a materialidade não são os vilões e sim a percepção que circunscreve a realidade a um só nível. Atingir a revelação ali é lidar com múltiplos níveis de realidade, interagir com eles e ainda ter o corpo físico como foco concentrador e promotor da consciência.

51 Nome derivado do “monstro primevo da tradição judaica extra-bíblica ou a atmosfera”. Numa tradução direta do hebraico o termo alude a “animais”. O singular é “behemah”. A esfera que envolve a Terra, imediatamente após sua superfície, é aquela compartilhada por todos os seres viventes e animados. Por outro lado, é também a esfera sublunar de animalidade, que pode ser compreendida, dependendo da tradição na qual o estudioso se baseia, como um plano de consciência em que a animalidade consiste de forças telúricas, nocivas ou incompatíveis com a condição humana e seu trajeto ascensional, representando, ainda, uma espécie de mundo dos instintos.

53 No Evangelho Apócrifo de João, o demiurgo Yaldabaoth tem a aparência de uma cobra com rosto de leão e seus olhos são como relâmpagos faiscantes.

A serpente mordendo a própria cauda, na imagem levando o nome “Leviathan” é tanto a representação do “senhor do mundo” e do caráter “malevolente” do Cosmo quanto, em seu equivalente gráfico da Alquimia, da etapa de realização da tarefa de “retorno” à fonte divina55. A serpente mordendo a própria cauda é o Ouroboros (Oroboro, Uróboro), símbolo do tempo cíclico e também da totalidade. Do mesmo modo, o espírito (“pneuma”) ou a alma, como fagulha divina (parte microcósmica do Grande Homem cósmico), precisa superar essa “prisão” a fim de atingir a plenitude (Pleroma) de sua verdadeira natureza. De modo análogo, para o simbolismo astrológico, Saturno representa tanto o aspecto estruturador e organizador do universo e da vida mundana quanto as barreiras, as provas difíceis e a deterioração causada pelo tempo. É preciso, então, superar o tempo, estar acima dele. Em compensação, é através do negrume (Nigredo), da reflexão, contração e do esforço que ele representa que a alma dá início à sua ascensão na escala divina até o ouro cósmico que os alquimistas encontram no estágio da Rubedo. É ali que a Gnosis tem início, que o Mercurius (em seu aspecto de busca pelo conhecimento e pela síntese dos opostos) se vincula ao símbolo saturnino. É importante ressaltar que na série Promethea ela é tanto Mercúrio quanto Saturno, o que fica evidente a partir da edição número 21.

55 Enfrentar o Leviathan seria análogo ao enfrentamento de dragões ou serpentes gigantes em mitos como o do já citado Marduk, mas também Apolo e a serpente Píton, quando da fundação do Oráculo de Delfos. Este, afinal, promovia um acesso indireto ao mundo dos deuses, o que inclui a inscrição em sua entrada: “Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”.

Nas características estruturais do gnosticismo, afinal, a natureza material decorre de um “erro”, portanto, deve ser depurada, enquanto enfrenta o reino (etapa) de cada arconte e suas provas até atingir o estado celestial. Segundo o tratado anônimo “Sobre a origem do mundo”, Sophia (Sabedoria), também conhecida como “Pistis” (Fé – a fé com fundamento) desejou criar sozinha, sem seu consorte. Sua criação tornou-se uma imagem do céu, gerando por isso uma espécie de véu dividindo o mundo celestial e as regiões inferiores (camadas planetárias, aeons). Assim, uma sombra surgiu sob o véu, tornando-se a matéria.

Eis uma das muitas interconexões entre o gnosticismo e as concepções adotadas pelos alquimistas: ainda que exteriormente sejam visíveis as diferenças contextuais, os elementos estruturais permanecem, são adaptados e reapropriados a uma época e sociedade. Note-se que quando mencionamos “fim”, trata-se do “Tempo”, colocando-se este em proporção direta com a materialidade e a deterioração que as coisas materiais sofrem. Assim, Tempo = Mundo. Tal analogia, de acordo com o olhar gnóstico mais comum, refere-se aos Éons (Æons), sendo estes simultaneamente os “arcontes”, as camadas planetárias, os períodos de tempo. Também são as etapas iniciáticas ou “perigos” na jornada da alma em direção ao Pleroma, perigos esses criados pelos arcontes de cada etapa, contra os quais a alma em ascensão pode se utilizar de magia, com o uso de selos (sigillum) e dizeres mágicos. Libertar-se do jugo dos arcontes, tanto quanto, no sentido hindu da libertação da ilusão de Maya58, é encerrar a relação com o mundo material criado pelo Demiurgo, é o “fim do mundo” gerado pelo retorno à Origem. Por fim, o conceito de arcontes se encontra ainda em meio ao pensamento hermético, segundo Stuckrad:

Os planetas já não são apenas forças concretas do destino, mas sim – como em Plotino – símbolos de ideias transcendentes e princípios cósmicos. (…) Essa ideia não está completamente afastada do mundo, já que os “arcontes” participam dela, mas em primeiro plano está o elo de correspondência entre planetas, arcontes e regentes espirituais, característico da variante hermética do platonismo.

Stuckrad

58 O conceito de Maya, quando transcodificado diretamente de sua origem sânscrita, costuma ser entendido como “ilusão”. A acepção, no entanto é superficial. Maya, entre outras coisas, representa as possíveis distorções causadas pela percepção, a “realidade perceptiva”, em contraposição à “realidade conceitual”. Por exemplo, percebemos as coisas como sólidas, quando na física quântica se demonstra que a realidade é um campo de energia e subpartículas entre as quais há muito mais espaço vazio do que matéria. Nossos condicionamentos culturais e psicológicos igualmente podem distorcer a percepção. Nesse caso, Maya também é compatível com a natureza das percepções e crenças ligadas ao mundo material, sendo parte do mecanismo que mantém a alma distante da Origem. Alterando-se a percepção e os conceitos, alterar-se-á a realidade experimentada. Para a Sociedade Teosófica, “a ilusão não está no fato em si nem nos aglomerados de matéria que produziram esses efeitos. Está na maneira com que esses eventos foram registrados pela consciência dos participantes”. A relação entre duas tão diferentes contextualizações (Maya e Arcontes) se estabelece por vias indiretas, isto é, pela estrutura ou interseção da qual ambos partilham, que é a busca por libertar-se do tempo, da materialidade e das armadilhas da percepção. Se pensarmos de acordo com Campbell, é admissível que concepções e narrativas semelhantes tenham-se difundido nas trocas culturais e comerciais ocorridas na expansão do helenismo, envolvendo, inclusive, regiões da Índia e China.

Assim, o Anthropos, como ente identificado com a totalidade, renasce, retorna, reinicia o tempo após seu fim, redime, traz de volta o aspecto original perdido. Fazer o tempo terminar é suplantar o movimento planetário – sendo os planetas subdivisões do tempo, Eons – é atingir o ponto em que não há mais movimento aparente. Chegar ao nível do Anthropos é chegar ao nível das constelações, mais precisamente as do zodíaco, cujos signos associam-se a cada parte do corpo do Anthropos, da cabeça (Áries) aos pés (Peixes)59.

rosacruz

Representação do corpo humano com suas partes identificadas aos signos do zodíaco. A imagem está presente na primeira página das Efemérides Rosacruzes, tradicionalmente utilizadas por astrólogos ao longo do século XX para o cálculo de mapas astrológicos. Desde a última década do século XX o uso das efemérides impressas vem sendo substituído por softwares de cálculo.

59 Numa sequência geral: Áries-cabeça/rosto, Touro-pescoço/ombros, Gêmeos-braços/pulmões, Câncer-peito/estômago, Leão-costas/coração, Virgem-abdômen/intestinos, Libra-rins/lombar, Escorpião-sexo/ânus, Sagitário-coxas/quadris, Capricórnio-joelhos/estrutura óssea, Aquário-tornozelos/circulação, Peixes-pés/linfa, retornando ao ponto original (Áries), numa contorção que leva os pés à cabeça. Annick de Souzenelle, em seu “O simbolismo do corpo humano”, traça um paralelo entre a representação do homem cósmico e as figuras que ela denomina “acrobatas” (mais assemelhados a contorcionistas), ornando pilares e estruturas de catedrais medievais, como, por exemplo, o “acrobata” da Catedral de Veselay, na França, ou de Monreale, na Sicília.

As linguagens alquímica e neoplatônica passam a integrar a cabalística através do intenso intercâmbio entre eruditos cristãos e judeus a partir do século XV e durante o século XVI. Um fenômeno de abertura mútua em que ambos os sistemas originaram um modelo eclético da Kabbalah, que posteriormente viríamos ressurgir ainda mais sincretizado no formato alquímico-cabalístico da Golden Dawn, no século XIX. É possível verificar isso em escritos como os do médico e filósofo alemão Heinrich Khunrath (1560-1605), um dos seguidores de Paracelso e uma referência para ocultistas como Eliphas Levi (1810-1875)61. Ele desenvolveu sua linha de pensamento em Alquimia já bastante influenciado por intercâmbios judaico-cristãos. Segundo Szulakowska:

De fato, a iconografia cristã (das representações gráficas de Alquimia) foi substituída por um novo tipo de imagens cabalísticas. (…) a teosofia de Kunrath fora amplificada pela Kabbalah de Johannes Reuchlin, na qual Cristo havia tomado a forma do “Ruach-Elohim”, o Espírito Criador em movimento do Gênesis.

Szulakowska

61 Pseudônimo de Alphonse Louis Constant, ocultista francês, autor de muitas obras referenciais no estudo de magia e ocultismo, entre elas “Dogma e Ritual de Alta Magia”. Levi é parte da corrente cultural de “reencantamento do mundo” do século XIX, contrapondo ao racionalismo científico o que então seria considerado a racionalidade ocultista.

Com isso é possível ver que o impacto das traduções de Ficcino não passou despercebido dos sábios de origem judaica: de modo similar ao da Idade Média européia, com a herança greco-babilônica das traduções dos sábios árabes, no Renascimento as traduções do hebraico para o latim e para as línguas vernáculas de textos de tradição cabalística acentuaram aquele ecletismo. Um grande número de eruditos cristãos envolveu-se nesses estudos com rabinos e judeus convertidos ao cristianismo. Entre esses cristãos vale destacar Giovanni Pico Della Mirandola (1463-1494), que estudou Kabbalah, hebraico e aramaico com Flavius Mithridates (1450-1483), tradutor judeu converso. Pico foi também discípulo de Yokhanan Alemanno (1435-1504), um dos expoentes da época nos estudos da Kabbalah, que bebera de fontes não cabalísticas (judaicas). Alemanno fora bastante influenciado pelo pensamento neoplatônico e hermético, tratando a Kabbalah de forma diversa da tradição rabínica medieval, assumindo que a mesma era uma espécie de “magia divina”62.

62 Quanto às divergências entre o pensamento cabalista judaico na Idade Média e o uso de magia, ver SCHOLEM, Gershom. As grandes correntes da mística judaica. São Paulo: Perspectiva, 1995. Ver também, do mesmo autor, Los orígenes de la Cábala. Barcelona: Ediciones Paidós Ibérica, 2001.

Outro nome importante no sincretismo judaico-cristão da Kabbalah é Cornelius Agrippa Von Nettesheim (1486–1535), juntamente com John Dee, cujo nome e importância foram frizados no capítulo 1 e ao qual retornaremos. Agrippa é muito conhecido hoje por suas contribuições no campo das “teorias de magia astrológica” e por seu tratado “Filosofia Oculta”, reunindo de modo enciclopédico os mais variados sistemas mágico-hermético-cabalísticos de seu tempo. Ali ele inclui tabelas de equivalência de caracteres em idiomas considerados sagrados, como o hebraico, aramaico, escritos em caracteres angélicos, a construção de sigillum e talismãs e maneiras similares às teúrgicas de trazer ao mundo aquilo que corresponde às potências planetárias.

Há uma razão para as tabelas de equivalência de caracteres serem frequentes em tratados sobre magia talismânica. O hebraico era visto (e ainda hoje o é, entre estudiosos da Kabbalah) como um idioma e escrita sagrados, passíveis de promover a mediação entre Deus (ou anjos e outras potências divinas) e a humanidade. O texto da Torá (o Pentateuco) é mais do que a descrição de eventos numa narrativa: ele é a própria divindade, sua descrição e sua imagem, corpo e natureza divinos. Seu uso e recitação (em hebraico) promoveria alterações na vida concreta de maneira similar à do uso de talismãs e práticas que fariam Deus “baixar” à Terra. De fato alguns cabalistas atribuem poderes mágicos à Torá justamente por ela ser considerada uma representação fiel da forma divina67.

67 Para Alemanno e para Pico, a Kabbalah seria superior à Astrologia na leitura dos desdobramentos futuros devido à relação direta entre a Torá e a “forma divina”. Os cabalistas, diferentemente dos astrólogos, segundo aqueles eruditos, acessariam as informações diretamente da divindade, enquanto os astrólogos teriam as estrelas como intermediárias. Já na opinião do Rabi Isaac Dieulosal, a Kabbalah e a Astrologia são compatíveis. Ainda assim, o esquema ascensional da Kabbalah se mantém correspondente com o sistema de estratificação do céu planetário astrológico e boa parte das práticas de linha hermética são realizados em dia e horário astrologicamente compatíveis com as características do ritual e seus objetivos.

Da mesma forma, a “Magia Enochiana” de Dee pautava-se pela comunicação com as potências divinas dos anjos. Isso dar-se-ia, entre outros fatores, pelo uso do alfabeto que os anjos ter-lhe-iam concedido por intermédio dos transes mediúnicos de Sir Edward Kelley (1555-1597). A Magia Enochiana é um sistema de teurgia, ou “magia angélica”. Teria sido transmitida psiquicamente ao vidente elizabetano Edward Kelley, por espíritos que viriam a ser chamado de “anjos enochianos”, enquanto Kelley utilizava uma bola de cristal e repetia o que “ouvia” para John Dee. Tais anjos teriam se identificado como os mesmos que instruíram Enoch, o único patriarca do Antigo Testamento a ser elevado aos céus enquanto ainda estava vivo, conforme algumas interpretações do Gênesis 5:24: “E Enoch caminhou com Deus: e ele não estava, pois Deus o levou”. Como na mística em torno do Livro de Raziel, a ser comentado adiante, Enoch seria o primeiro homem a receber o conhecimento da Qabalah.

É da autoria de Dee o tratado sobre a “Monada Hieroglífica”, muito presente nos estudos mágicos contemporâneos. O conceito de “mônada” para Dee encontra similaridade em Plotino, que o relaciona à unidade divina. Novamente a interconexão entre os sistemas de pensamento, mas em Dee há o acréscimo gráfico e pedagógico do glifo de Mercúrio associado ao Ignis, ali representada pelo glifo do signo de Áries (pertencente ao elemento Fogo) ao fundo, como na figura 4, abaixo:

Engraved title from John Dee, Monas hieroglyphica,

Monas Hieroglyphica

Eis, portanto, em Dee, outra associação entre o Mercúrio/Mercurius/Hermes e o “Fogo Prometeico” através da concepção da Mônada.

O sincretismo entre Kabbalah e magia hermética não ocorreu de maneira estanque durante o Renascimento. Todo um processo anterior já havia criado uma abertura suficientemente ampla que permitiria o amálgama que resultou na chamada Kabbalah Cristã e na Kabbalah Hermética, reiterando ainda que a Kabbalah Hebraica sofrera influência do neoplatonismo ao longo do mesmo processo. Moshe Idel chama a atenção para as contribuições das muitas vertentes e heranças do pensamento cabalístico, no excerto que se segue:

O impacto do material antigo e medieval derivado de fontes não judaicas – basicamente fontes de extração helenística, neoplatônica, hermética e neopitagórica – é significante e discernível em todos os tipos de Cabala, como é o caso da filosofia, gramática, literatura e ciência medieval judaicas. A maioria dessas fontes foi mediada, modificada e enriquecida por autores muçulmanos. Contudo, em acréscimo à contribuição desses tipos especulativos de material, cabalistas da Idade Média também desenvolveram alguns modos de pensamento encontrados em espécies mais antigas de literatura escrita, como a rabínica e as de caráter mágico, e também tiveram acesso a certas formas de temas mitológicos anteriores que apresentam paralelos em tempos antigos, e que só poderiam chegar até eles por via oral.

Idel

O autor continua, noutro texto, a estabelecer o nexo entre a Kabbalah e a magia renascentista com base nas matrizes culturais judaicas e as anteriormente citadas influências gnósticas e neoplatônicas que permearam a Antiguidade Tardia e a Idade Média. Assim, Idel apresenta concordância com o que aqui vem sendo abordado, o que podemos constatar pelo trecho a seguir:

É razoável pressupor que essa similaridade entre a Cabala e a magia não seja casual, e sim resultado da influência da magia judaica antiga que tratava de encantamento de anjos, e a combinação dessa magia com a tradição gnóstica e neoplatônica.

Idel

Tendo observado algumas das principais correntes herméticas, alquímico-astrológicas e cabalísticas até o Renascimento, passemos a uma reflexão sobre a Kabbalah e alguns de seus princípios. Com isso, estabelecer-se-á o nexo entre tais sistemas, suas apropriações nos séculos XIX e XX, com o advento da Sociedade Teosófica, da Ordem Hermética da Aurora Dourada, e a obra em quadrinhos deste estudo.

Tese Completa

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