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Um Fio de Ouro: A Transmissão da Astrologia Ocidental Através das Culturas

Sumer and the Anunnaki Ancient Code

Demetra George

Tradução:
Samanta Mello
Tradutora e Professora de Inglês
samattei2@gmail.com

 A maioria dos praticantes contemporâneos e adeptos da astrologia assumem que o tipo de astrologia geralmente ensinada e praticada hoje é o mesmo desde sempre. Nada poderia estar mais longe da verdade. A disciplina da astrologia ocidental passou por muitas transformações em seus quatro mil anos de história registrada enquanto o mesmo passou através das culturas da Babilônia, Índia, Pérsia, Egito, Grécia, Roma, Islã, Europa Medieval e Renascentista; Inglaterra Vitoriana no Século XVII e América no século XX.

Em cada etapa, essas várias culturas adaptaram as doutrinas da astrologia às visões do mundo de suas próprias sociedades e filosofias, e, neste processo, a traduziram de forma errônea, equivocada e lacunar, embora às vezes inovadora e melhorada sobre a que foi herdada de seus antecessores. Vamos fazer uma breve viagem através do tempo e seguir a trilha dessa antiga sabedoria que se recusa a ser negada e esquecida.

Origens Mesopotâmicas:

Tal como o vale dos rios Tigre e Eufrates, de 4.000 anos, é geralmente aceito como o berço da civilização, com a invenção da escrita, os primeiros textos cuneiformes são os presságios astrológicos, o canteiro da tradição astrológica Ocidental. Através das culturas da Babilônia e da Assíria (segundo e primeiro milênios a.C.), os planetas eram considerados uma das manifestações de seus deuses e imaginava-se que os seus movimentos e aparições serviam para revelar as suas intenções. Astrólogos-sacerdotes meticulosamente observavam e registravam os presságios dos deuses planetários e transmiam essas informações para seus reis para que eles pudessem governar a terra de acordo com as intenções divinas. Um exemplo de presságio da Babilônia (sempre expressos em prótase e apódose – uma declaração se/então) do Enuma Anu Enlil é:

Uma raposa está invadindo casas.

Se Marte se aproxima de Escorpião: haverá uma invasão no palácio do príncipe.

Se Marte se aproxima de Escorpião: a cidade será tomada por uma invasão1.

1 Enuma Anu Enlil, Tablets 50-51, translated by Erica Reiner with David Pingree. Malibu, CA: Undena Publications, 1981, p. 41.

Babylonian Planetary Omens – I

Babylonian Planetary Omens – III

Além disso, todos os fenômenos celestes e meteorológicos, como cometas, meteoros, halos, eclipses, trovões e relâmpagos eram considerados presságios do futuro. No entanto, este não era um futuro fixo, mas um futuro possível. Lá existiam muitos rituais apotropaicos, namburbis, como as imprecações para os deuses pedindo-los para alterar suas mentes e evitar o desastre pressagiado. Deste modo, a Astrologia mesopotâmica não era nem determinista nem fatalística2.

2 For an excellent discussion of Babylonian astrology, see Nicholas Campion, “Babylonian Astrology: Its Origin and Legacy in Europe”, in Astronomies Across Cultures, ed. Helaine Selin (Kluwer Academic Press, 2000).

No início do século VI a.C., os persas eram os senhores da Mesopotâmia e suas conquistas se estenderam pelo Vale do Indo, ao norte da Índia. Os primeiros textos sobre presságios na Índia parecem ter sido influenciados pelos textos babilônicos, enfatizando rituais de pacificação para apaziguar a ira dos deuses e incluía prótases similares às de Enuma Anu Enlil. Indícios destes presságios também são encontrados nos textos budistas deste período e foram levados por budistas missionários para a Ásia Central, China, Tibete, Japão e Sudeste Asiático3.

3 David Pingree, From Astral Omens to Astrology (Rome: Istituto Italiano Per Africa E Oriente, 1997), pp. 30-31.

Durante o governo dos Persas Aquemênidas no século seguinte, o primeiro horóscopo do nascimento de um indivíduo foi documentado. Durante os 1500 anos anteriores, todos os presságios astrológicos eram de natureza geral (o termo usado hoje é mundano), isto é, expressos na forma de declarações simples se/então, relativas ao bem-estar do rei e da terra. Até 410 a.C. não se encontram provas de um novo tipo de astrologia, genealógica ou natal: olhando para as posições dos planetas nos signos ou no horizonte no momento do nascimento de uma criança, afim defazer uma afirmação sobre o caráter e o destino dessa pessoa. No entanto, os textos interpretativos deste período revelam um formato semelhante simples de presságio, não mais complexo do que o nascer e o poente dos planetas. Se uma criança nasce quando Vênus surge e Júpiter se põe, sua esposa será mais forte do que ele4.

4 Abraham Sachs, “Babylonian Horoscopes”, in Journal of Cuneiform Studies 6 (1952), p. 69.

Efusão Helenística:

Analemma na antiga Nemea

As extensas conquistas de Alexandre, o Grande, no século IV, sua morte precoce, e divisão de seu reino entre seus generais abriram caminho para a colonização grega da Mesopotâmia e Egito. Quando os gregos e Macedônios chegaram às terras do Antigo Oriente Próximo, eles encontraram uma Tradição astrológica de 2.000 anos com base em uma rica teologia astral. Embora os gregos do período clássico – como Platão e seu aluno, o astrônomo Eudoxo – certamente estivessem cientes da Astrologia Caldéia (astrologia babilônica do sexto século a.C.), não há nenhuma evidência de sua prática na Grécia continental5. No entanto, os filósofos gregos estavam desenvolvendo teorias sobre o mundo natural, tais como a relação entre o macrocosmo e o microcosmo, os quatro elementos, os significados metafísicos de números e formas geométricas, e a alternância de polaridades; estas teorias iriam estabelecer uma base filosófica para a eventual aceitação da astrologia no mundo greco-romano. Beroso, sacerdote babilônico de Bel e contemporâneo de Alexandre, o Grande, levou o seu conhecimento astrológico para a ilha grega de Kos, onde abriu a primeira escola de astrologia para os gregos em 290 a.C. A partir daí, a Astrologia Caldéia fez o seu caminho para as cidades vizinhas da Ásia Menor e de Roma.

5 For a discussion of the awareness of astrology in Greece, see Robin Waterfield, “The Evidence for Astrology in Classical Greece”, Culture and Cosmos, Vol. 3 no. 2, Autumn-Winter 1999, pp. 3-15.

Ainda mais significativo para a tradição ocidental foi a importação da Astrologia Caldéia ao reino grego de Ptolomeu no Egito, onde a noção de que a posição dos astros no momento do nascimento indica o destino de uma pessoa serviu para precipitar uma formulação inteiramente nova da disciplina astrológica. Lá, em meados do segundo século a.C., uma súbita explosão do pensamento astrológico ocorreu. Alexandria era a nova capital cosmopolita do mundo helenístico e o Museu e a Biblioteca atraíram intelectuais de muitas culturas cujo idioma comum era o grego.

Um livro abrangente da astrologia horoscópica – supostamente escrito por Nechepso e Petosris, um faraó egípcio e seu sacerdote, o qual atribuiu os ensinamentos a uma revelação divina por Hermes – continha um corpo altamente complexo e sofisticado de doutrinas astrológicas, radicalmente diferentes do material babilônico anterior. Ele foi escrito no idioma grego, com base em conceitos filosóficos e astronômicos gregos, e incluía elementos da cultura, religião e astronomia egípcias. Dentro de um período de menos de cem anos, a astrologia tinha sido transformada de simples afirmações se/então em um sistema integrado que incluía as seguintes inovações: Vários tipos de regência planetária; signos classificados de acordo com o gênero, quadruplicidade e triplicidade; significados tópicos das casas, com ascendente específico e graus culminantes; aspectos; lotes; métodos para determinar as condições de longevidade, casamento, saúde, filhos, pais, irmãos, finanças, reputação, profissão e uma grande variedade de técnicas e senhores do tempo.

Aqui está um trecho da Antologia6 de Vettius Valens para ilustrar o grau de complexidade que se desenvolveu nos procedimentos astrológicos dentro de um período de cem anos a partir daqueles vindos da Mesopotâmia para os que estavam sendo disseminados no Egito.

Sobre Irmãos

Quando o Sol está marcando a hora, o faz para alguns irmãos ou pela falta de irmãos.

Quando Kronos se pondo, o faz pela falta de alguns irmãos ou poucos irmãos. Zeus e Hermes e Afrodite, além de pivôs são doadores de irmãos, mas quando Kronos é contrário, destrói um irmão mais velho. Quando acontece de Kronos estar junto a Ares, ele mata irmãos ou os torna fracos. Quando Afrodite e a Lua estão familiarizadas com a terceira posição do marcador de horas (que é a posição dos irmãos), eles darão irmãs, especialmente se o zoidion (signo) é feminino. E se o Sol, Zeus, Hermes, estão em um zoidion (signo) masculino, familiares com o terceiro lugar, eles dão irmãos masculinos. Quando os destruidores testemunham o lugar dos irmãos, eles destroem os irmãos já nascidos, ou pela falta de irmãos ou poucos irmãos – se eles são mal situados. Quando benfeitores testemunham o lugar dos irmãos, eles não só dão irmãos, mas os torna bons (para o nativo). Quando a estrela de Ares está ocupada com o lugar de irmãos e está bem situada – especialmente quando ela está sendo testemunhada por um benéfico e especialmente quando se olha sobre a Lua – torna-se um doador de irmãos. E alguns tomam o lugar dos irmãos como muitos: por dia (intervalo) de Kronos a Zeus, por noite, o inverso, e em igual quantidade (projetada) do marcador de horas.

(II.40)

6 Vettius Valens, The Anthology, trans. Robert Schmidt (Berkeley Springs, WV: The Golden Hind Press, 1994), II.40.

O corpo da astrologia helenística contém em si todos os princípios e técnicas fundamentais do Arábico e Latim medievais, tradições Clássica e Moderna. Alguns dos nomes dos antepassados históricos que moldaram a disciplina nos primeiros quatro séculos a.C. são Doroteu de Sidon, Teucer da Babilônia, Vettius Valens da Antioquia, Cláudio Ptolomeu – um egípcio nato e cidadão romano, Antíoco de Atenas, Paulus de Alexandria, Hephaistio de Tebas e Firmicus Maternus. Enquanto apenas um desses astrólogos era etnicamente grego, todos os textos, com a exceção do Mathesis de Firmicus Maternus, foram escritos em grego, a língua literária do Império Romano. Com a conquista romana do Egito, no primeiro século a.C, esta astrologia helenística foi difundida por toda a vastidão do Império, incluindo as áreas da Síria e Palestina. A antiga cidade de Harran, em particular, a qual havia sido um local sagrado do Deus da Lua Sin, e onde Abraão foi para encontrar sua esposa, era conhecido há séculos como a fortaleza de misteriosos cultos herméticos pagãos e forneceu grande quantidade de astrólogos para as cortes Persa e Árabe.

Compatível com a influente filosofia estóica, com sua crença na possibilidade de adivinhação, a astrologia tornou-se aceita pela sociedade intelectual romana e foi extensivamente usada pelos primeiros imperadores romanos7.

7 Frederick Cramer, Astrology in Roman Law and Politics (Philadelphia: The American Philosophical Society, 1954.

A noção estóica de que cada pessoa nasce com um destino certo foi incorporada na visão astrológica em que os planetas se tornaram os agentes da sorte irrevogável do destino humano. Religiões Astrais, como o Mitraísmo, filosofias espiritualizantes como o Hermetismo e o Gnosticismo, e o desenvolvimento de um corpo de magia astral foram todos tentativas de ajudar a fuga do indivíduo ou de libertá-lo deste destino decretado pelas estrelas após a morte.

Além disso, no final do primeiro século a.C., com rotas comerciais diretas pelo mar abertas entre o Egito e a Índia e com as colônias comerciais gregos na Índia e as colônias comerciais Índicas em Alexandria, é muito provável que a transmissão da astronomia e da astrologia ocorreu em ambos os sentidos no Egito e Índia greco-romanos8. Lá existem transliterações de muitos termos astrológicos técnicos gregos em sânscrito que não têm etimologia independente na língua sânscrita9. É muito possível que os astrólogos indianos incorporaram elementos da astrologia helenística em sua própria tradição, a qual já havia também recebido um influxo da adivinhação do presságio celeste Babilônico.

8 Pingree, Astral Omens, p. 33.

9 See David Pingree, ed., trans., and commentator on The Yavanajayaka of Sphujidhvaja (Cambridge: Harvard University Press, 1978).

A astrologia helenística foi também transmitida para as cortes Persas sob os Governantes Sassânidas (226-632 d.C.), a partir do terceiro século d.C. Os governantes gregos antecessores da Mesopotâmia, bem como os Persas Partos que os precederam como senhores desta área, permitiram os astrólogos caldeus a continuarem praticando sua arte, embora os astrólogos não tenham sido utilizados como conselheiros dos reis, como haviam sido durante os períodos Babilônico e Assírio. No entanto, os Sassânidas, outra tribo da Pérsia, que restaurou o antigo Zoroastrismo, tinham grande interesse em usar a astrologia para fins políticos. Segundo seus próprios registros, os primeiros reis possuíam traduções das obras astrológicas de Hermes, Doroteu, Ptolomeu, Qidrus o grego, e Farmasab o Indiano10. Também existem evidências de traduções de Valens e Teucer.

10 David Pingree, The Thousands of Abu Ma’Shar (London: The Warburg Institute University of London, 1968), pp. 7-10.

Breve Passagem no Mundo Islâmico

artefact in the history of islamic and technology museum

Artefact in the History of Islamic

Por volta do século IV d.C., o cristianismo havia sido declarado a religião oficial do Império Romano; uma onda de polêmicas anti-pagãs pelos Pais da Igreja e legisladores condenando a prática da astrologia resultou na supressão gradual da disciplina. Com a queda do Império Romano do Ocidente pelas tribos germânicas, o conhecimento da língua grega foi perdido e, com ele, a capacidade de ter acesso a qualquer uma das obras astrológicas. No Império Bizantino Oriental, o grego ainda foi mantido e os textos astrológicos foram preservados nas bibliotecas monásticas e imperiais, mas a lei secular e a Igreja tornaram cada vez mais proibido para qualquer um ler os textos. O decreto do imperador Justiniano em 529 d.C., o qual fechou as escolas filosóficas, levou muitos estudiosos pagãos a encontrarem refúgio na corte intelectual liberal do rei sassânida Khusro Anushirwan (531-78) em Jundishapur na Pérsia.

Muitas obras científicas e filosóficas foram traduzidas para o idioma persa (Pahlavi) por uma comunidade internacional de estudiosos, incluindo os heréticos Cristãos Nestorianos, Judeus, Gregos, Sírios, Egípcios, Romanos, Chineses e Indianos. Houve uma revisão maciça de textos astrológicos durante este período, e foram realizadas diversas inovações na disciplina por astrólogos persas que combinaram elementos de sua própria base Zoroastro com ambas as tradições helenísticas e indianas; esta última havia adaptado a astrologia helenística para a filosofia védica, religião e sistema de castas sociais indianos.

Os astrólogos persas haviam aplicado técnicas natais para a astrologia geral (mundana) e tentaram determinar a história passada e futura – os destinos de nações e dinastias – por métodos astrológicos como o ciclo Júpiter/Saturno, à partir do ingresso de Áries no zodíaco, os períodos planetários de larga escala e subperíodos adaptados dos períodos gregos e aplicados à teoria de Zoroastro dos milênios e a Teoria indiana dos yugas dos planetas. Estas técnicas fizeram da astrologia uma potencial fonte de propaganda política para prever as futuras vitórias ou derrotas dos governantes e dinastias – e justificar a legitimidade dos governantes atuais como ordenados pelas estrelas.

Em 632 d.C., a dinastia persa caiu pela conquista dos árabes que, naquela época eram simples povos nômades sem uma rica cultura literária própria. No entanto, eles logo viram o valor das realizações intelectuais e artísticas de seus novos súditos e as queriam para si. Assim começou um novo período de atividade de tradução, com um interesse particular na ciência, medicina, filosofia, entretanto textos astrológicos foram traduzidos em primeiro lugar11.

11 See Dimitri Gutas, Greek Thought, Arabic Culture (New York and London: Routledge, 1998).

O califa abássida Al- Mansur (754-75) empregou astrólogos persas, um dos quais era o jovem Masha’Allah , para determinar a tabela de fundação para sua nova capital Bagdá (31 de Julho de762, 02:40 LMT)12.  O califa e seus filhos instituíram um centro de pesquisa formal, a Casa da Sabedoria, onde uma multidão de obras dos antigos Gregos e Persas helenizados foi traduzida para o árabe e, assim, preservada. Mais uma vez, os governantes usavam a astrologia para legitimar a autoridade de sua nova dinastia, bem como cronometrar suas forças armadas e ações políticas.

12 See James H. Holden, “The Foundation Chart of Baghdad”.

As primeiras obras astrológicas que foram traduzidas da versão em persa Pahlavi e do grego para o árabe incluíam Hermes, Doroteu, Teucro, Almagesto de Ptolomeu e Valens. Quando as fontes Pahlavi foram esgotadas, grupos de saqueadores foram enviados a Bizâncio atrás de textos gregos e várias traduções do Tetrabiblos de Ptolomeu foram então feitas. Por causa da estatura de Ptolomeu em astronomia, ele logo passou a dominar a cena astrológica, com Doroteu em segundo lugar. Muitos textos astrológicos e astro-médicos indianos foram também traduzidos para o árabe.

Os séculos seguintes testemunharam a idade de ouro da astrologia árabe, com autores de todo o império islâmico, escrita em árabe. A astrologia dos Gregos, Persas e Indianos tornou-se amalgamado e elaboradas por astrólogos como Abu Ali Al-Khayat , Al- Kindi, Abu Ma’shar  e Al- Biruni13. A Teoria Neoplatônica das diversas fases de emanações do Uno e a Estrutura aristotélica do cosmos, com a suposição de que todas as mudanças terrestres foram causadas por movimentos celestes, foram enxertadas na astrologia para dar-lhe uma base filosófica e espiritual detalhando ascensão da alma de volta para a Fonte. No século XI, havia centenas de trabalhos árabes em astrologia por dezenas de autores. Muitas mudanças foram feitas para a doutrina, incluindo diferentes abordagens para sistemas de casas, aspectos e regências, além da adição de muitas partes árabes para o sistema grego de lotes e das 28 mansões lunares derivadas das 27 nakshratas indianas. O período árabe viu a ascensão e a popularidade da Astrologia Interrogativa (Horária), a qual foi especialmente influenciada pelos desenvolvimentos indianos nesta área.

13 For a discussion of Arabic astrologers, see James Herschel Holden, A History of Horoscopic Astrology (Tempe, AZ, American Federation of Astrologers, 1996), pp. 99-148.

Reintrodução no Ocidente

Old clock with zodiac elements and golden

Durante o brilho do período Árabe entre o sétimo e décimo séculos, o mundo ocidental estava na metade da Idade das Trevas. A maior parte do conhecimento das culturas greco-romana havia sido há muito tempo esquecida e astrologia sobreviveu em várias obras literárias apenas como uma memória distante de algo mal e agora proibido. No entanto, no século X Árabe, obras astrológicas começaram a vazar para o Império do Oriente em Bizâncio, onde foram traduzidas para o Grego – não apenas as obras helenísticas originais que foram traduzidas para o Persa e para o Árabe, como também as novas obras dos próprios astrólogos Árabes. Há relatos de que a astrologia floresceu nas cortes dos Imperadores Komnenoi. Manuel I (1118-1180) utilizou a astrologia extensivamente em seus assuntos políticos e compôs uma defesa Cristã da mesma, dirigida à Igreja Patriarcal14.

14 For a translation and commentary, see Demetra George, “Manuel I Komnenos and Michael Glykas: A Twelfth Century Defense and Refutation of Astrology”, in Culture and Cosmos, Vol. 5 no. 1 (Spring/Summer 2001); and 2 (Autumn/Winter 2001); Vol. 6. no. 1 (Spring/Summer 2002).

Esta defesa provocou uma refutação pelo teólogo Michael Glykas, e o debate sobre o “problema da astrologia” foi mais uma vez revivido, depois de ter estado adormecido por 700 anos, desde a propagação do Cristianismo no Império Romano.

Enquanto isso, no Ocidente, a riqueza da literatura astrológica Árabe tinha encontrado o seu caminho para as bibliotecas e livrarias mouras no sul da Espanha, a qual estava sob o domínio mouro. Quando a Cristandade latina conquistou a Espanha em 1085, foram abertas as portas para os estudiosos latinos participarem da herança clássica que havia sido preservada pelos Árabes – bem como a própria rica tradição intelectual Árabe. Mais uma vez, as primeiras obras a serem traduzidas foram os tratados astrológicos. Tradutores, como João de Sevilha, Hugo de Santella, Platão de Tivoli, Hermann da Dalmácia, Robert de Chester e muitos outros se reuniram na Espanha etraduziram dezenas de textos astrológicos árabes que citavam as obras de Doroteu, Ptolomeu, Hermes, etc, para o latim e, em seguida, começaram a escrever seu próprio compendia15.

15 Francis J. Carmody, Arabic Astronomical and Astrological Sciences in Latin Translation: A critical Bibliography (Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 1956).

Deve notar-se que não existia nenhuma tradução Árabe de Valens disponível para o latim, embora fontes árabes citem que ele havia sido traduzido para o Pahlavi e para o Árabe. Os grandes astrólogos helenísticos Paulus Alexandrinos, Antíoco de Atenas, e Hephaistio de Tebas não haviam sido transmitidos aos Árabes, assim suas obras eram desconhecidas pelos Latinistas Medievais. No entanto, cópias latinas de Firmicus Maternus haviam sobrevivido no subterrâneo da Europa durante a Idade Média.

No início do século XII, não havia praticamente nenhum conhecimento técnico da astrologia na Europa Ocidental. No entanto, no final do século, havia centenas de traduções e novas obras de astrólogos latinos. Todo o mundo estava falando sobre a próxima conjunção de planetas em Libra em 1186. Juntamente com a filosofia natural de Aristóteles, uma visão da astrologia emergiu como uma das ciências naturais, cujo estudo, por meio do intelecto racional, poderia levar ao entendimento do funcionamento divino dos cosmos.

Desta forma, a astrologia medieval dos séculos 13 e 14, articulada pelo grande Guido Bonatti e por Leopoldo da Áustria, era dependente das traduções dos tratados Árabes para o latim que, por sua vez, foram formuladas a partir de adaptações persas e indianas de alguns (mas não de todos) dos textos helenísticos ecritos mais de 1.000 anos antes. Enquanto isso, em Bizâncio, do décimo segundo século em diante, milhares de manuscritos astrológicos foram compilados e, no décimo quarto século, John Abramios e seu aluno Eleutherios Zebelanos revisaram muitos dos textos Clássicos e Bizantinos. Como os textos foram copiados e novamente copiados, eles foram preservados; porém, uma vez que foram revisados, partes da tradição original se tornaram obscuras.

Durante a Idade Média, com a proliferação das traduções árabes, a Igreja ficou alarmada com a influência de filósofos gregos e islâmicos sobre teologia, e tentou limpar o elemento árabe dos ensinamentos teológicos. Houve também debates entre os próprios astrólogos sobre os méritos relativos das doutrinas árabes que enfatizavam os Ciclos Júpiter-Saturno em detrimento às doutrinas gregas promovidas por Ptolomeu, em que eclipses eram usados em prognósticos; essa polêmica veio à tona nas previsões astrológicas sobre a Morte Negra16. Os árabes eram vistos também como uma ameaça política, mas a queda de Constantinopla pelos turcos em 1453 resultou no influxo de estudiosos gregos e de textos na  Itália, contribuindo para o renascimento do paganismo clássico, que caracterizou o Renascimento. O árabe Picatrix, um texto de magia astral, e tradução de Ficino de Corpus Hermeticum abriu o caminho para a proliferação de uma astrologia mágica hermética; esse movimento existia lado a lado com a prática de uma astrologia mais científica derivada diretamente da tradição grega clássica. Seguiu-se um movimento para purificar a astrologia a partir de suas afiliações mágicas e reformulá-la para uma forma mais científica.

16 For a discussion, see Levi ben Gerson’s Pronostication for the Conjunction of 1345, trans. Bernard R. Goldstein and David Pingree (Philadelphia: American Philosophical Society, 1990), Volume 80, Part 6.

A obra de Cláudio Ptolomeu, baseada na filosofia natural Aristotélica, foi defendida como uma tradição mais científica e, no século 16, manuscritos gregos que não haviam passado por traduções árabes tornaram-se disponíveis. É uma ironia da história que o próprio Ptolomeu, um egípcio nativo, foi provavelmente um astrólogo não praticante, mas sim um acadêmico que compilou todo o conhecimento de sua época e que o conteúdo dos Tetrabiblos não fazia parte das doutrinas astrológicas helenísticas principais. No entanto, a obra de Ptolomeu tornou-se uma referência tão importante para a tradição da Renascença Clássica que se tornou importante influência na obra de William Lilly e astrólogos do século 17, tanto na Inglaterra como no Continente.

Houve grandes debates sobre a legitimidade da astrologia como um objeto de estudo adequado dentro de uma visão de mundo cristã, mas ninguém questionou se influências celestes tiveram um impacto sobre os acontecimentos terrestres. Com a aceitação do Modelo heliocêntrico do cosmos, de Copérnico, a astrologia (que havia sido fundamentada na filosofia natural aristotélica) perdeu a sua fundamentação científica e caiu em descrédito ao longo dos séculos 18 e 19. Os círculos intelectuais já não consideravam a astrologia digna de ser tópico de discussão. A tradição mais uma vez foi enterrada e tornou-se diluída e difusa.

Do Outro Lado das Grandes Águas

Regulus and the Red Planet

Regulus and the Red Planet

O final do século XIX foi marcado por diversos movimentos que contribuíram para a ressurreição da astrologia, ainda que sob uma nova forma. A busca do movimento Espiritualista por causas ocultas por trás dos fenômenos manifestos, o movimento Teosófico, que trouxe as doutrinas orientais de carma e reencarnação para o Ocidente e a descoberta do inconsciente psicológico serviram todos para estimular um interesse renovado na astrologia como uma ferramenta de auto-realização e auto-entendimento. Os conceitos incorporados nestes sistemas de pensamento levariam a uma astrologia do século 20 humanista, psicológica e espiritual, onde o mapa de nascimento passou a ser visto como o mapa da psique e da alma, ao invés de eventos fadados a acontecer ao indivíduo. Esta reconstrução, iniciada no continente europeu, especialmente, na Inglaterra, iria fazer o seu caminho para a América e ser absorvida por uma outra cultura.

Outro movimento que estava ocorrendo nos meios acadêmicos europeus no final do século 19 teria um impacto igualmente significativo no futuro da disciplina astrológica. Um pequeno grupo de estudiosos, liderado pelo belga Franz Cumont, historiador da astrologia, embarcou em um programa para coletar e editar todos os manuscritos gregos astrológicos que jaziam espalhados por todas as bibliotecas, mosteiros e coleções privadas na Europa e na Rússia. O resultado deste trabalho minucioso e trabalhoso foi o Catálogo de Códices Astrológicos Gregos (CCAG) de doze volumes, que levou 50 anos para ser montado. No entanto, até recentemente, não havia ninguém na comunidade acadêmica, fluente em grego antigo, interessado em traduzir esses textos para o Inglês.

Houve uma versão em Inglês de Manilius da Astronômica já em 1697, mas que funciona mais uma obra poética da literatura do que um manual técnico. Tetrabiblos de Ptolomeu recebeu uma tradução em Inglês em 1940 por F.E. Robbins, e Mathesis, o trabalho Latino de Firmicus Maternus, foi parcialmente traduzido para o Inglês por Jean Rhys Bram em 1975. David Pingree produziu uma versão em Inglês de Pentateuco de Doroteu, em 1976, mas esta foi feita diretamente da tradução árabe da tradução persa do original grego. Estes textos constituíram a medida do nosso conhecimento direto e limitado do conteúdo dos textos astrológicos helenísticos antigos até a última década do século 20.

Coube à comunidade astrológica recuperar a sua própria história. Em 1993, três homens proeminentes da comunidade astrológica – Robert Schmidt, Robert Hand e Robert Zoller – iniciaram um projeto para traduzir o corpo de material astrológico antigo do latim e do grego para o Inglês. Hand e Zoller traduziram muitas obras do Latim da tradição Medieval para o Inglês, e Schmidt traduziu a maioria dos trabalhos dos Astrólogos helenísticos17. Este trabalho é, talvez, a conquista mais monumental deste século.

17 Robert Schmidt has nearly completed The Book of Hermes, his reconstruction of Hellenistic astrology and The System of Hermes: A Basic Course in the Practice of Hellenistic Astrology (4890-minutes cassette tapes).

Pela primeira vez desde a sua composição na antiguidade, as obras de grandes astrólogos helenísticos – como Vettius Valens, Paulus Alexandrinus, Antíoco de Atenas, Hephaistio de Tebas, Anonymous 379, uma nova edição de Claudio Ptolomeu, e fragmentos de muitos outros autores menores, encontrados na CCAG – estão disponíveis para serem lidos, estudados e minados por seus insights sobre a construção da tradição original. A astrologia helenística gerou todas as tradições astrológicas ocidentais subsequentes, seja a dos persas, árabes, dos europeus medievais, do Renascimento clássico, ou a astrologia moderna.

Astrólogos contemporâneos estão à beira de um dos períodos mais emocionantes da história astrológica, pois eles estão na vanguarda dos tipos de renascimentos do pensamento astrológico que, historicamente, têm ocorrido sempre que os escritos dos gregos foram redescobertos e traduzidos.

A recuperação das fontes primárias da astrologia antiga servirá para reconhecer e restaurar a posição da astrologia como um dos principais componentes da história intelectual, religiosa, filosófica e científica da civilização.

Sumerian Zoroaster - Ahura Madza

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