Astrologia Medieval

Como se constitui o Saber Astrológico nas Cortes Ibéricas

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Simone Ferreira Gomes de Almeida

Na medida em que os corpos celestes significam as coisas existentes neste mundo através dos poderes do seu movimento natural, então qual a vantagem de ser ignorante deste conhecimento?

(Lemay)

Como destacamos com a citação acima, o interesse pelos astros, mais especificamente, sua influência nas ações e no destino humano, intrigaram os homens do passado e intrigam ainda os do presente. A forma como esta curiosidade ou inquietação se manifestou, entretanto, sofreu relevantes alterações com o passar do tempo, acompanhada, apesar da longa duração, pela pejorativa marca da superstição1. Qual seria então a especificidade da astrologia na Península Ibérica dos séculos XIII, XIV e XV? (foco desta pesquisa). Neste capítulo apresentamos um dos aspectos desta particularidade, que diz respeito ao tratamento de ciência, saber ou arte para o entendimento de certas “manifestações” astrais, no âmbito cortês e universitário. Antes, contudo, de desdobrarmos como os ibéricos destes séculos determinaram este saber, bem como sobre o que escolheram para dar prioridade na escrita sobre ele, daremos uma breve explanação sobre a crença partilhada acerca de determinadas combinações astrais, crença esta que se manteve como base da astrologia, quando posteriormente, esta foi desvinculada da ciência astronômica2.

1 Segundo Jean Claude Schmitt a definição de superstitio é romana e significa uma forma pervertida de religio, “muitas vezes manchada pelo exagero, segundo um outro sentido do prefixo super: o que é supérfluo”. SCHMITT, Jean-Claude. História das Superstições, Trad. Luís Serrão, Publicações Europa-América, Portugal, 1997, p. 16.

2 García faz uma introdução em seu estudo onde trata dos arquétipos astrológicos, ou como se dá a dinâmica dos astros que resultam nas previsões. GARCÍA, Luis Miguel Vicente. Estrellas y astrólogos en la literatura medieval española. Ed. Del Laberinto S. L., Madri, 2006, p.15.

Embora o foco deste trabalho não seja a astrologia propriamente dita, ou seja, o desdobramento das formas de interpretar os astros no passado, e sim, as interrogações dos medievais acerca de um futuro mundano, que não foi relatado como algo virtuoso pelos filósofos daquele tempo, mas encontrou um espaço amplo nos escritos; julgamos ser relevante uma breve explanação de como o céu foi entendido e estudado para que fosse possível então, responder algumas daquelas inquietações dos homens da baixa idade média. A lógica do funcionamento dos céus pautou-se na criação divina e na conjunção dos planetas, esta conjunção teria sido prefeita apenas no momento da criação e a mudança na configuração astral ou desconjunção favoreceria, então, determinado planeta ou signo em um período específico, tornando possíveis as previsões:

(…) ca dizem alguus que des o primeiro tempo que começou o mundo, no qual começo juntamente mouerom estas pranetas, que depois nunca assi em conjunçom forom como entom: tanto a cada hua o seu correr em desuayrados mouimentos, e por esto non quedam ellas fazer sobre os corpos e tempos as cousas que fazem, ca ellas entram cada hum dia, e cada tempo em estes signos, e alguas horas estam em tal signo, que afortalecem a sua força, e em tal signo entram que lhes faz perder a sua força.

(Almeida)

Acreditou-se ainda que haviam, sete, oito ou nove céus, chamados também de esferas. Em virtude da correspondência numérica, o oito se associava com o universo, isto é, as sete esferas planetárias (as dos cinco planetas e as dos iluminados, Sol e Lua) e a esfera celestial (a das estrelas fixas), essa última esfera, a das estrelas fixas, correspondia a vontade divina e ao destino das almas, aparecendo inúmeras vezes nos textos sobre astrologia, acreditava-se ainda em um nono céu, onde estava apenas Deus, o oitavo, portanto, seria o mais nobre por estar mais próximo a Deus e por suas estrelas que representavam todas as figuras que poderiam existir na terra, as quais possibilitavam a formação dos horóscopos, ou seja, o zodíaco.

Segundo Sacrobosco o zodíaco é um círculo que corta a oitava esfera e, pelo movimento dos planetas debaixo dele, é a vida nas coisas que debaixo do céu estão. Pode também vir este nome zodíaco de zodion que quer dizer animal, porquanto este círculo se parte em doze partes iguais, das quais cada uma se chama signo e tem nome de algum animal, e isto por alguma propriedade que convêm ao signo e ao animal, ou porque as estrelas fixas daquelas partes fazem figura do tal animal.

(Sacrobosco)

Assim a astrologia foi determinada pelo posicionamento dos planetas, das estrelas e constelações da oitava esfera e de subdivisões nos doze signos chamadas de casas ou graus. Para cada pessoa que quisesse fazer o horóscopo, prever seu futuro, seria necessário cálculos que considerassem todos os aspectos descritos acima. As constelações zodiacais foram ainda vinculadas aos quatro elementos (fogo, ar, água e terra), e os planetas às qualidades elementares, seco, úmido, quente e frio. Além disso, os planetas recebiam características humanas, uma herança da astrologia grega que os relacionou com a personalidade da sua divindade homônima, assim, Marte foi associado com a guerra, as rivalidades e disputas, enquanto Vênus, presidiu os jogos, os divertimentos, os amores e Mercúrio governou o que foi relacionado ao conhecimento; também as estrelas errantes reagiam como os homens ao alegrar-se em sua casa (exaltação) e experimentando o oposto quando repelidas de suas casas. Os planetas ainda foram divididos em planetas favoráveis ou não, dependendo do seu grau de calor e umidade, exceto mercúrio, considerado neutro, pois poderia ser um ou outro.

Portanto, podemos afirmar que até a promulgação da lei da gravitação universal de Newton em 1687, se aceitou uma lei universal natural astrológica, que exigiu dedicação de seus estudiosos para todos os detalhes acercas dos céus e seus elementos, pois se acreditou que o mundo da natureza foi governado e dirigido pelo movimento dos céus e dos corpos celestiais, e o homem, como animal gerado naturalmente e vivendo no mundo da natureza, estava também sujeito a essas leis, de forma que esse seria o significado mais amplo da astrologia. O significado mais restrito seria o que dizia respeito as previsões; nos textos medievais sobre astrologia, esses dois sentidos se conjugam, para que certas temáticas que atestariam as curiosidades mais presentes no período, pudessem ser esclarecidas. Exemplarmente, Raimundo Lúlio faz uma descrição que contempla o significado da previsão ao dizer todas as frentes de interesse para a astrologia no período,

“(…) coisas que pertencem ao julgamento da astronomia, como a saúde, a enfermidade, a vida, a morte, a alegria, a ira, a riqueza, a pobreza, a abundancia, o repouso, o trabalho, o empreendimento de uma viagem, o matrimônio, a procura de uma casa, o vento, a chuva, o gelo, o latrocínio, a guerra, a paz, o lucro, a perda, a vitória, a derrota, ir a uma terra e não a outra, buscar uma determinada coisa de um homem e não outro ou em um tempo e não em outro, banhar-se, fazer uma sangria, tomar um remédio, empregar-se em um ofício e não em outro, ou em um ofício mais do que em outro, pedir ou não pedir, o conselho, a segurança, o perigo, dar, falar, silenciar, ir, ficar, aprender e ensinar; e assim com as demais coisas que dizem respeito ao acaso e ao favorecimento ou ao desfavorecimento.

(Lúlio)

Para que textos como o de Lúlio circulassem na Península Ibérica, os textos árabes foram fundamentais, perpetuando os estudos astronômicos e astrológicos dos gregos, foram reunidos na corte do monarca Afonso X, que teve um papel fundamental na tradução de textos árabes e judeus, detentores da tradição clássica, sobretudo com a fundação Escola de Tradutores de Toledo. Desdobraremos então, como se deu a retomada do saber astrológico nas cortes ibéricas, não só na de Afonso X que teve um destaque maior, focando-nos tanto nas escolhas das principais temáticas sobre astrologia pelos homens de saber, quanto nas balizas que estes textos corteses consolidaram para o saber astrológico.

Foi no século XII que a astrologia atingiu seu auge, em grande parte graças às traduções das fontes árabes e a uma manipulação consciente dos clérigos da alta Idade Média, fundada na ideia de boa astrologia (ciência divina) e má astrologia (supersticiosa). A astrologia judiciária, que vinha sendo cultivada com grande fervor pelos povos do oriente, sem que chegasse à Península Ibérica, mostrou seus primeiros indícios quando Santo Isidoro pretendeu recompilar nas Etimologias os conhecimentos humanos. Contudo, nem na escola isidoriana nem nas escolas monásticas imediatamente posteriores, encontrou a astrologia terreno adequado para seu pleno desenvolvimento. Após a conquista muçulmana, quando estes acreditaram estarem seguros, favoreceram então o acesso a cultura árabe e hebreia na nova pátria. Por isso, a partir do século X, vemos como floresce a cultura arábico-espanhola e com ela começa a abrir-se espaço para a superstição astrológica, tanto nos domínios muçulmanos, como nas regiões espanholas que continuavam sob o poder cristão.

O desejo de traduzir as obras dos sábios do oriente cresce de tal forma que, graças ao grupo de tradutores do século XII, chamado “escola de tradutores”, deu-se um grande passo para a cultura espanhola em todas as esferas, incluindo entre essas a astrologia. Os testemunhos escritos se multiplicam, assim, nos séculos XII e XIII,3 os textos traduzidos em Toledo circulam e servem a funções diversas, a orientação nas cortes, ao ensino nas Universidades e aparecem em compilações diversas como nos textos portugueses.

3 El Libro Conplido En Los Iudizios de las Estrellas. Introducción y edición Gerold Hilty. Real Academia Española, MAdri, 1954).

Em Portugal, a temática relacionada à astrologia tornou-se merecedora de mais interesse graças à ascensão ao poder da dinastia de Avis4 (1385), contudo, antes disso, alguns textos sobre astrologia tinham sido lidos e compilados: o Almagesto, de Cláudio Ptolomeu, o Tratado da Esfera, de João de Sacrobosco, a Teórica dos planetas, de Gerardo de Cremona, o Grande livro de Astronomia, de João Gil e o Livro dos juízos das estrelas de Ali ben Ragel. O Almanaque Perdurável, datado do segundo quartel do século XIV, reinado de D. Dinis, é o documento português mais antigo referente à astronomia. Notamos, porém, uma diferenciação fundamental em comparação à produção castelhana, onde tratados astrológicos foram produzidos de forma mais sistemática, tendo sido, provavelmente, os textos castelhanos que tornaram acessível aos portugueses a matéria astrológica, sem a necessidade por parte dos últimos de uma árdua dedicação ao assunto, o próprio D. Duarte registra sobre Afonso X, “e aquel honrado Rey estrollogo quantas multidões fez de leituras”. Dessa forma, foi apenas posteriormente, no reinado de D. Duarte (1433-1438), que encontraremos em Portugal significativas referências às temáticas de âmbito astrológico, em textos bem diversos dos tratados castelhanos, como o Leal Conselheiro5 e a compilação conhecida por Livro dos Conselhos (1423-1437), também designada por Livro da Cartuxa. Esses escritos de outros gêneros enquadram-se no projeto – se assim se pode dizer – da corte portuguesa de estimular a produção de uma literatura voltada para a edificação dos príncipes, a qual ganhou um significativo impulso a partir do século XV, através do estímulo às traduções, bem como um conjunto de iniciativas para estimular novas produções.

4 Como especificaremos adiante a partir da inserção da matéria astrológica nos textos pedagógicos estimulados pelos monarcas desta dinastia.

5 Texto que discutiu sobre a validade ética e cristã dos prenúncios astrais, concluindo por sua recusa. O Livro dos Conselhos (1423-1437) ou Livro da Cartuxa contém trechos diversos reveladores de seu interesse pelos mistérios astrológico.

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Como já adiantamos, a Escola de Tradutores de Toledo teve o papel mais fundamental na Península Ibérica no que diz respeito às traduções e compilações dos textos árabes, e em menor grau, judeus. A rigor, com estas traduções criou-se a própria prosa literária em castelhano, formando-se uma relação mútua criadora entre a expressão e o expressado. Deste modo, considerando o estímulo do monarca Afonso X às traduções, questionamo-nos qual sentido teria a astrologia no aprimoramento da cultura do Rei sábio e consequentemente qual seria sua contribuição para os monarcas em geral. Posto que os textos castelhanos mesclaram astronomia e astrologia muitas vezes, designando-as apenas como ciência astrológica ou ciência das estrelas, na introdução do Libro de las Cruces, os comentaristas esclarecem que o cultivo da astrologia requer conhecimentos, não escassos, de astronomia e, consequentemente, é possível que existam astrônomos que não sejam astrólogos, mas não pode existir um astrólogo que previamente não seja astrônomo, assim, questionaram se Afonso X foi entusiasta puramente dos estudos astronômicos ou estava contagiado também com a superstição astrológica. A conclusão é de que, como a totalidade dos estudiosos, o rei aceitou francamente a astrologia.

Outra questão acerca do rei sábio é a possível autoria das obras feitas em sua corte, ou sua participação nas compilações isto porque alguns dos textos apresentam miniaturas, nas quais o rei aparece ditando para os compiladores, que estão ao seu lado escrevendo em pergaminhos ou livros, acredita-se, portanto, que o rei foi autor ou participou dos prólogos destes livros. Na General Estoria esta esclarecida qual seria a participação do rei sábio nos textos de sua corte:

“…el Rey faze un libro, non porque él escriba com sus manos, más porque compone las razones dél, e las emienda, et yegua, e inderesça, e muestra la manera de cómo se deben fazer, desi escribelas qui el manda, pero dezimos por esta razón: el Rey faze el libro. Otrossí quando dezimos: el Rey faze un palacio e alguna obra, non es dicho por que lo él fiziere com sus manos, más por quél mandó fazer a dió las cosas que fueron menester para ella…”.

(Afonso X)

A relevância da autoria ou não do rei sábio não é apenas uma curiosidade acerca da vida de uma figura marcante, mas sim destaca para nós o papel que a astrologia desempenhou para as pessoas relacionadas ao poder. Aproximar-se do domínio das estrelas implicou, primeiramente, o conhecimento de uma das disciplinas do quadrivium, de modo que com a astrologia o rei assegurou as relações cortesãs com o tecido, discursivo e conceitual, que proporcionaram as artes liberais, demonstrando como a corte pôde reconhecer e transmitir conteúdos intelectuais, que, por serem também morais, alcançaram um valor político. Dentro desse quadro maior a chamada astrologia judiciária serviu para orientar o futuro dos nobres, atestando a influência dos astros nas almas e estimulando o estudo da ciência astrológica. No Libro de las Cruces, estão claras estas suposições, a interpretação que o Rei faz de Aristóteles aparece como fundamental para o entendimento da relação entre os corpos celestiais e os homens, um conteúdo relevante para as cortes, pois tem o propósito de reunir unicamente os argumentos da astrologia que mais possa afetar a pessoa de um rei e a política do seu reino:

Rey Don Alfonso (…), leyendo por diuersos libros de sabios, por alumbramiento que ouo de la gracia de Dyos de quien uienen todos los bienes, siempre se esforço de alumbrar et de abuiar los saberes que eran perdidos al tyempo que Dyos le mando regnar en la tierra. Et por que el leyera, et cada un sabio lo affirma, el dicho de Aristotil que dize que los cuerpos de yuso, que son los terrenales, se mantenen e se gouiernan por los mouementos de los corpos de suso, que son los celestiales, por uoluntat de Dyos entendio et connocio que la sciencia et el saber en conocer las significationes destos corpos celestiales sobredichos sobre los corpos terrenales era muy necessaria a los homnes.

(Afonso X)

O escritor afirma que a astrologia é uma ciência muito necessária para os homens, e embora preveja coisas mundanas, recebe a graça de Deus. É notória a preocupação tanto em legitimar a tradição (guardar a sabedoria dos antigos)6, como a de aprimorar as ciências que importam à vida do homem virtuoso. Para isso, primeiro é necessário o entendimento de Deus, que fez e ordenou todas as coisas, em segundo plano, está a natureza, onde Deus colocou todo o bem, e por último, a alma que ordena o mundo dos céus e estrelas. Lembrando destes postulados, para se estudar a astrologia ainda é necessário tanto o conhecimento do céu (astronomia no seu sentido atual) quanto a interpretação correta do seu efeito na terra (presságios astrológicos). Ainda no Libro de las Cruces, há um trecho onde ficam mais esclarecidas as habilidades necessárias para se conhecer a ciência da astrologia:

Et esto todo deparlyan lo por grandes sotilezas et de muchas carreras desta scientia de cuemo dan las planetas las fuerzas una a otras, et de cuemo las reciben unas de otras, et como reciben unas a otras, et de las otras cosas et de las otras carreras que se tyenen con estas, et de los estados de las planetas, et de sus accidentes segund que todo esto es departido en los libros de los sabios orientales, et de los de Babilonia, el de los egiptios, et de los persios et de los griegos, que todos estos sonsacauan los iudizios et las significationes desta sciencia de todas estas carreras sobredichas.

(Afonso X)

6 “Tudo indica que o desenho do horóscopo, com o zodíaco tropical e divisão de casas, emergiu e estabilizou-se na Mesopotâmia, por volta do século IV a. C. Os gregos chamavam os astrólogos usualmente de caldeus e os mais antigos Tratados datam da época do Império Romano e muito devem ao desenvolvimento da Geometria em Alexandria.” (LÚLIO, Raimundo. Astrologia Medieval (o novo Tratado de Astronomia de Raimundo Lúlio), Trad. Esteve Jaulent, Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”, São Paulo, 2011, p.9).

Parece trabalhoso tanto reproduzir um saber que passou de geração a geração (pelos babilônios, egípcios, persas e gregos até chegar ao ocidente, quanto aprender as sutilezas da ciência das estrelas, mas no Libros del Saber de Astronomía está justificado o porquê deste esforço:

Porque la ciencia de la astrología es cosa que non se puede averiguar sino por rectificamientos. Et los rectificamientos que tienen los sabios que cumplen esta cosa non los peude complir un ombre, porque non se puede complir en vida de un ombre, mas cuando se cumple, cúmplese por obras de muchos ombres, obrando uno en pos doutro en luengos tiempos. Esto es porque en los movimientos de los cielos ay algunos movimientos que son tardios, de manera que non cunplen una circunferencia sino en millares de anos.

(Afonso X)

O trabalho de retomar o conhecimento astrológico se creditaria ao interesse judeu nessas obras, isso porque foram eles os responsáveis pelo gênero de obras que foram redigidas em língua vulgar, formado pelas: bíblicas, morais, didáticas, jurídicas, astronômicas e astrológicas, enquanto há um desinteresse pelas de caráter teológico e filosófico, tão representativas da baixa Idade Média cristã. Conjuga-se então o interesse judeu com a direção do pensamento do Rei sábio, que não foi pautado em teorias abstratas, mas na história (reter e guardar o passado como foi) e em como deve ser a moral e a justiça em seu reino. Portanto, a astrologia seria mais um fator para ajudar a pensar o homem moral e juridicamente. Outro fator que daria maior relevância a astrologia foi um caráter universal, isto porque acreditava-se que a observação das estrelas não era afetada pelo local do observador bem como a apreensão dos cálculos, “empero que las significationes destas constellationes son comunales por toda la tierra, o en la mayor patida della”. Entretanto, acreditou-se que cada local tem sua própria configuração astral o que interfere na vida das pessoas em determinado território ou reino, “(…) encuentras los arquetipos y el troquel de casi todo el mundo y captas la impronta del país en que están (…) y los caracteres de las personas están en consonancia com el país de que proceden”.

(Maslama)

A bem da verdade, a astrologia judiciária, especificamente, causou mais problemas para se adequar a certas regras cristãs, pois foi a forma onde o estudo da astrologia apareceu diretamente ligado a inquietações que diziam respeito a alma, ou seja, ao destino dos homens nobres. No Tratado de Astrología7 de Enrique de Villena vemos anunciada a preocupação com este tipo de astrologia, o Tratado, posteiror as obras afonsinas (1428), propagou muitos dos fundamentos desta escola e alerta sobre a inadequação da astrologia judiciária:

Et sobre aquésta (astrologia de elecçiones) es opinión si la podemos usar sin pecado o non; et por aquesta parte son conoçidos los naçimientos de los omnes e los morbos epimidios, guerras e muertes de los reyes, e otras muchas cosas, segúnt la sçiencia lo espone, lo qual repruevan algunos doctores de sancta Yglesia.

(Samsó)

7 É uma espécie de Suma ou manual para uso de estudiosos e homens cultos que embora não elaborado completamente, pode ser considerado como uma boa síntese do que se conhece com o nome de astrologia cristã. (ALBARES, Roberto A; CASTILLO, Pablo G; MIGUEL, Cirilo F. La Ciencia del Cielo. Europa artes gráficas, Salamanca, 1989, p. 27).

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Nesse sentido Raimundo Lúlio escreve um Tratado para garantir a veracidade das previsões deste tipo de astrologia, “queremos escrever este Tratado de Astronomia para os Príncipes e os Grandes, a fim de que saibam proteger-se de alguns astrônomos que os enganam com falsas predições que fazem a respeito dos corpos celestes”. Esta preocupação com os príncipes decorre do reconhecimento nos textos astrológicos de referências diretas ao modo de como se deve governar, bem como sobre as principais características dos monarcas, já delimitadas no céu. Estas considerações tiveram relação com uma necessidade do poder político em saber se seus governantes iriam tomar as decisões adequadas para a administração, de forma que os astrólogos que pudessem prever o futuro ofereceriam soluções legítimas para os problemas que por ventura atrapalhassem o bom andamento do reino, em questões pontuais como, “(…) se um cavaleiro, vassalo natural do rei da França e é soldado do rei da Inglaterra, se os dois reis começam uma guerra, abandonará ao rei da Inglaterra para ajudar ao rei da França, pois a natureza do seu signo o levará naturalmente a este último”. E ainda sobre o que dizia respeito as “significationes del pueblo, et de los aduersarios et de los enemigos”, e também a “buena andança de regnado o mala andança de regnado”. Assim essas previsões foram respostas diretas sobre o futuro de batalhas e sucessões dinásticas, dependendo apenas de empenho e tempo para realizar os cálculos adequados que dariam os prognósticos de vitória ou derrota, por exemplo.

Quando tu fallares el Sol en la casa de la uida, que es el ascendent, et fuere y apoderado seendo en su casa, que es Leon, o en su exaltation, que es Aries, et fuere y ayuntada com el alguna de las tres planetas altas, que son Saturnus, Jupiter, et Mars, significa que el rey uenera a sus enemigos, et apoderar sa dellos et matar los a; et esto sera si el signo fuere de los signos que significan aquel rey. Mas si fuere el signo de los signos que significan los enemigos, significa que aura y grandes batallas, et grandes lides et muchas matanças.

(Afonso X)

Nas obras de D. Duarte (1433-1438), encontram-se significativas referências astrológicas a perpetuação da dinastia real, no Leal Conselheiro, por exemplo, discorre-se sobre a validade ética e cristã dos prenúncios astrais, concluindo por sua recusa, em contrapartida, na compilação conhecida por Livro dos Conselhos (1423-1437/38), o rei incorporou textos que diziam sobre o seu interesse pela astrologia, entretanto, é na obra de Zurara, Crônica da Guiné, que se encontra a concepção de astrologia mais detalhada e livre de algum receio de pecado, para enaltecer Afonso Henriques, o cronista relata um fabuloso destino revelado pelos astros:

E isto he porque o seu ascendente foi Ayres, que he casa de Mars, e eixaltaçam do Sol (…). E porquanto o dito Mars foi em Aquaryo, que he casa de Saturno, e em casa desperança, senificou que este senhor se trabalhasse de conquistas altas e fortes, especyalmente de buscar as cousas que eram cobertas aos outros homens, e secretas, segundo a callydade de Saturno, em cuja casa elle he.

(Crônica da Guiné)

Como no caso de Afonso Henriques, muitos textos exaltaram as qualidades de seus soberanos através das cartas natais, esta preocupação com a boa configuração astrológica para os nobres gerou uma série de questionamentos nos textos que se repetiram, todas preocupadas em precaver situações que ameaçassem o reino ou o Rei, afora isto, este ramo da astrologia determinou os lugares que cada um deveria ocupar na sociedade de acordo com sua carta natal, os nativos de marte, por exemplo, “têm tendência a serem ferreiros, pois o ferro é quente e seco como o fogo. Gostam de dar golpes de martelo, de espadas, de multidões, de lançar flechas, também são marceneiros, alfaiates, soldados”.

Esta tradição da astrologia judiciária se afasta da astrologia clássica, que se dedicou quase que exclusivamente a previsão do futuro de acordo com a posição das estrelas na hora do nascimento; a rigor, a astrologia judiciária foi praticada pelos árabes, que estabeleceram uma série de regras mediante as quais o astrólogo contesta as perguntas de um cliente, sobre aspectos diversos: identidade de um ladrão, paradeiro de um objeto perdido; e os momentos favoráveis para decisões políticas, batalhas, casamentos etc. As constelações predizem principalmente: “(…) accidentes del ayre, et en las guerras, et en las pazes, et en los reyes, et en camiamientos de los regnos et de los sennorios”.

Assim os textos ibéricos afirmam as possíveis governanças de acordo com as características correspondentes ao horóscopo dos monarcas:

E en todas la partes de Tauro es rey que da uoluntat de matanças e de batallas e de uencer e de fazer algaras e de conquerir. E en todas las parte de Gemini es rey de flaco espirito e de chico poder e de e guia’s por su uoluntat e por su sabor e faze cosas que’l auiltan e que’l abaxan. E en todas las partes de cancer es sennor que ama cantares e ioglerias e iuegos e oyr romances e fabliellas e amar afeytamientos e limpiedat e apartamiento e esquiuamiento de los omnes. E en todas las partes de Leon es rey que demuestra sus armas e desuayna sus espadas e guisa sos cauallos e sus cauallerias por uencer e lidiar los reyes sos uezinos (…)

(Aly Aben Ragel)

Esta descrição continua, pois contempla a previsão para todos os signos do zodíaco. Notamos que a astrologia judiciária possibilita que o reino esteja precavido tanto contra uma ameaça interna, a habilidade do futuro rei para governar, quanto no que diz repeito a ameaças externas, ao contemplar quais seriam as reais intenções de um visitante, ou se um determinado conselho é confiável, por exemplo:

Qvando alguno entrare a ti e quisieres saber com que uoluntat te uiene, dexa l’assentar como quisiere e despues para mientes: si s’assentare en parte de Jupiter o de Venus, sepa que te quiere bien e que’s loa de ti e que te es uerdadero e que te faz buena fama. E si’s assentare en la parte de Saturno, sab que te uiene com mala uoluntat e con sanna e que te quiere fazer mal por sus dichos e guarda-te d’el. E sis assentare en parte del Sol, sabe que te a mala uoluntat e dize de ty mala fama. E sis assentare en parte de Mercurio, sab que te tiene sanna encubierta e mostrar-t’a que te ama e te faz bien. E si’s assentare en parte de Mars, non as en el bien ninguno e guarda-te d’el muy fuerte, com el placer de Dios.

(Aly Aben Ragel)

E ainda:

Si alguno te uienne consejar e quisieres saber si el leal o engannoso, cata: si ouiere fortuna en medio cielo, su conseio es leal e uerdadero, e si infortuna y ouiere, es engannoso e mintroso. E yo digo que si el conseiador te uiniere, e fuere el ascendente de los signos comunes, o fuere el sennor del ascendente e la luna em signo comum, que es engannoso e que te quiere engannar, e no lo escuches.

(Aly Aben Ragel)

Outra preocupação acerca da astrologia judiciária foi da confiabilidade do astrólogo, no Picatrix, há uma queixa sobre a cobrança de eficiência dos astrólogos que “cuando acierta no se lo agradacen pero cuando yerra minimizan su capacidad”. Em outras palavras, a desconfiança das previsões serem feitas por um impostor no lugar de um sábio, nesse sentido Raimundo Lúlio alertou sobre os astrólogos que erram em seus juízos e abusam da boa-fé dos dirigentes e por isso mesmo Afonso X chegou a garantir nas Sete Partidas a proteção ao astrólogo douto:

Pierden a las vegadas los omes algunas cosas de sus casas, e van a los astronomeros, que caten por su arte, quales son aquellos que las tienen, e los astronomeros vsando de su sabiduria, dizen, e señalan algunos, que las tienen; en tal caso como este dezimos, que los que assi señalaron, non pueden demandar que les fagan emienda desto, assi como em manera de desonra; esto es, porque lo dizen faziendolo segun su arte, e no com intencion de los desonrrar. Pero como quier que non pueda demandar emienda dellos, como en manera de desonrra, com todo esso, si el adeuino fuere baratador, que faga muestra de saber lo que non sabe, bien lo puede acusar, que reciba la pena que mandan las leyes del titulo de los Adeuinos, e de los Encantadores.

(Las Siete Partidas)

Não só por isso, este rei recebeu o título de rei astrólogo, ou protetor da astrologia, o que trouxe também má fama ao rei, a conhecida blasfêmia8 ao rei sábio, encabeçada por seu filho Sancho IV, pautou-se tanto na acusação da promoção da astrologia (desejo de prever o futuro) como em uma suposta apelação a “racionalidade”. Portanto, aceitando a astrologia divinatória que para a maioria dos padres só era possível com a ajuda do diabo e como fruto do engano, como vemos na citação seguinte, para o monarca tratava-se de uma verdadeira arte, apreendida por homens sábios, ainda que árabes ou judeus. Sobre os escritos dos nãos cristãos há um posicionamento em um dos textos originário de sua corte:

Y aunque estos filósofos no fueron cristianos ni entendieron ni hablaron de los hechos del paraiso y del infierno, como nosostros entendemos y hablamos, sin embargo, su bien entendimiento y verdadera razón les hace entender que el que es sabio e inteligente sube a lo alto y el que carece de entendimiento y es tonto desciende al fondo.

(Rodríguez)

8 Segundo os Libros del Saber de Astronomía: “con el dicho injusto de que por contemplar las estrellas habia perdido las cosas de la tierra”. (ALFONSO X: Libros del Saber de Astronomía del Rey D. Alfonso de Castilla, copilados, anotados y comentados por Don Manuel Rico y Sinobas. Real Academia de Ciencias Exactas, Físicas y Naturales. Madrid, 1863-67, p. IX).

Assim, nos focamos em mostrar como nos primeiros anos da atividade do scriptorium afonsino houve uma forte presença de obras de conteúdo mágico e adivinhatório, onde a predição estava na ordem do dia, chegando ao extremo de ensinar a configuração astral para: “quando quisyeres saber quando morira qual quier homne que tu quisyeres saber”. Contudo, posteriormente, com a criação da cátedra de astrologia em Salamanca, e a cristianização definitiva da ciência das estrelas, dá-se inicio ao processo de eliminação da astrologia judiciária e seu uso passa a ser apenas como astrologia natural ou astronomia.

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Referências Bibliográficas

ALBARES, Roberto A; CASTILLO, Pablo G; MIGUEL, Cirilo F. La Ciencia del Cielo. Europa artes gráficas, Salamanca, 1989.

AFONSO X. General estoria, versión gallega del siglo XIV. Ed., introducción linguística, notas y vocabulário de Ramón Martínez-Lopes. Oviedo: Universidad de Oviedo, 1963. (Publicaciones de Archivum), Lib. XVI, cap XIII.

AFONSO X: Libros del Saber de Astronomía del Rey D. Alfonso de Castilla, copilados, anotados y comentados por Don Manuel Rico y Sinobas. Real Academia de Ciencias Exactas, Físicas y Naturales. Madrid, 1863-67.

AFONSO X el Sabio. Libro de las Cruzes, ed. Ll. A. Kasten & B. Kiddle. Madrid-Madison, 1961.

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