Astrologia e Astrólogos

A Roda da Fortuna

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Dane Rudhyar

O Ciclo de Lunação

A Roda da Fortuna como um Indicador do Relacionamento sol-lunar em Desenvolvimento

A origem exata do sistema das Rodas, também conhecido como Partes Árabes não parece ser muito conhecida. Presumivelmente, o sistema foi desenvolvido durante a Idade Média pelos árabes, cuja grande cultura enfatizava então os conceitos matemáticos e a arte geométrica. Na Europa, foi adotado pelos astrólogos da era clássica, especialmente por John Gadbury. Seu uso, porém, sempre foi um tanto limitado e, de todo o vasto número de rodas classificadas por John Gadbury, somente a Roda da Fortuna sempre foi comumente aceita pelos astrólogos europeus. Na maioria dos casos, ela tem sido usada com pouquíssima compreensão a respeito do seu verdadeiro significado e da sua função numa abordagem “orgânica”, na interpretação de um mapa de nascimento. E apenas o seu nome – e, de um modo geral, o termo “Roda” – revela quão limitada tem sido essa compreensão.

John Gadbury

De fato, o conceito das Rodas Astrológicas tem uma significação muito pequena, a menos que seja visto como um auxiliar de grande valor para a teoria dos “ciclos de relacionamento”. Uma Roda é simplesmente, um meio prático de avaliar, em qualquer instante de um ciclo criado pelos movimentos de dois corpos celestes, a condição e o propósito desse relacionamento. É um indicador que se move registrando o progresso do relacionamento, um indicador bastante semelhante a qualquer outro usado hoje em dia no processo de levantar gráficos de equilíbrio, que está sempre mudando, entre dois ou mais tipos de atividades em constante aumento e diminuição. É uma expressão matemática do relacionamento dinâmico entre dois corpos que se movem; e as coordenadas, que servem de referência para o gráfico projetado no papel, são o horizonte e o meridiano.

 O horizonte e o meridiano são os indicadores fundamentais da posição de um observador situado na superfície da terra. Pode-se dizer que eles constituem um ponto de referências para todas as experiências individuais. (…) Qualquer ciclo de relacionamento entre dois corpos pressupõe um terceiro fator, a terra, que originalmente condiciona o objetivo do relacionamento; logo, este ponto de referência composto pelo horizonte e pelo meridiano indica, explicitamente, o caráter deste terceiro fator. Por exemplo, o ciclo de lunação só tem significação em termos dos poderes de percepção das criaturas da terra que presenciam o seu desenvolvimento no céu noturno; e o impulso solar ou tom, que é liberado na lua nova e tem permissão para exercer seu poder através da intermediação das estruturas lunares concretas, tem como propósito essencial a satisfação das necessidades destes organismos nascidos na terra.

Deste modo, o astrólogo toma como ponto de referência o horizonte e o meridiano do local do nascimento e registra o progresso do relacionamento sol-lunar em relação a esse ponto. A técnica para fazer isso é extremamente simples. Em simbolismo astrológico, o relacionamento sol-lunar é medido pela distância angular (em longitude) entre os dois “luminares” (sol e lua) que se movem. Este valor angular é 0º por ocasião da lua nova e 180º por ocasião da lua cheia. Tudo o que é necessário, portanto, é tomar o valor angular do relacionamento sol-lunar, em qualquer momento da lunação e subtrair ou somar esse valor à longitude do ponto final oriental do horizonte, o Ascendente. (…)

A Roda da Fortuna como um Indicador de Personalidade e Felicidade

Goddess of ASTROLOGY_

 Neste ponto, uma ilustração tirada do campo da acústica pode nos oferecer uma nova abordagem da Roda da Fortuna, que poderá fornecer muitas indicações valiosas. Um som musical, tal como é produzido por um trombone ou um violino, contém o som “fundamental” e mais um grande número de “sons harmônicos”. O número, a posição, a intensidade relativa desses sons harmônicos e seu relacionamento com o som fundamental são os principais fatores responsáveis pelo “timbre”, ou qualidade sonora dos tons instrumentais. Eles diferenciam um Dó médio tocado num violino da nota produzida por um trombone. Além disso, o som instrumental, como um todo, constitui uma liberação de energia, que se espalha de uma forma desigual entre o som fundamental e os harmônicos. Podemos então dizer que se cria um padrão de distribuição de energia caracterizando o timbre ou a qualidade instrumental do som.

 Na astrologia, a posição zodiacal do sol natal simboliza o “som fundamental” do caráter, do destino e do propósito de um homem, sendo o sol também a fonte do potencial dinâmico que sustenta todos os órgãos e funções da personalidade total do homem; desse modo, na nossa analogia acústica, ele é a energia muscular projetada  no som por aquele que toca o instrumento. Por outro lado, a lua representa a força responsável pela construção dessas determinadas estruturas orgânicas (o padrão de “sons harmônicos”), através das quais o potencial solar é distribuído e colocado em operação. Como resultado o produto do relacionamento sol-lunar, a “vida” é o próprio som instrumental, em sua forma completa, ao passo que o instrumento concreto (a madeira e as cordas do violino, o metal do trombone) corresponde à soma total dos materiais terrenos que um ser humano herda dos seus pais e assimila do seu alimento e do ar que respira.

O padrão de distribuição da energia sonora, que caracteriza o timbre do som instrumental, pode ser realmente visto como a trilha sonora de um filme. Pode ser visto como um complexo padrão ondulado. E pode-se dizer que este padrão ondulado corresponde àquele ciclo completo descrito pelo indicador do relacionamento sol-lunar – a Roda da Fortuna -, na medida em que ele registra o progresso do ciclo de lunação ao longo da circunferência da roda astrológica.

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 A Roda da Fortuna sintetiza os três fatores com os quais temos que lidar, se vamos ter uma compreensão clara e completa do ciclo de relacionamento sol-lunar: sol, lua e localidade na terra. Do mesmo modo, o fator de “personalidade” é uma expressão da relação de todas as funções, órgão e faculdades, no reino da “vida”, que são necessárias para criar uma pessoa completa. Neste sentido, a personalidade é a qualidade do som e do timbre da pessoa como um todo. Ela é, também, a maneira como a pessoa total vibra ante a “vida” e os confrontos internos e externos que são desafios para um viver mais elevado.

 Agora, se considerarmos a Roda da Fortuna do ponto de vista da ação, podemos defini-la como o ponto focal para a expressão da força gerada pelo relacionamento sol-lunar. Conforme já dissemos, esta força se manifesta de várias maneiras: como sexo, como amor, como magnetismo pessoal, como saúde irradiante; em suma, como todo e qualquer tipo de expressão pessoal pertencente ao nível de atividade humana onde o dualismo da “vida” reina absoluto. E porque é também neste nível que podemos descobrir a raiz daquilo que os homens chamam de “felicidade”, torna-se explicável a conexão entre a Roda da Fortuna e a capacidade que o indivíduo tem de ser feliz e a natureza especial dessa felicidade.

 A felicidade é um estado de existência ou de consciência que depende da facilidade com que a “vida” opera dentro do organismo total (corpo e psique). A facilidade traz felicidade; a o perturbação resulta em dor, aflição e infelicidade, e qualquer obstáculo ao fluxo das energias vitais através das glândulas, dos músculos, dos nervos ou das funções psico mentais produz uma condição de perturbação, por mais leve ou temporária que possa ser. A congestão e, depois, a inflamação resultam do entupimento no fluxo de energias vitais; e o oposto da congestão, a vitalização imprópria de tecidos ou estruturas psíquicas, leva à deterioração e à desintegração, à infecção e ao apodrecimento.

 Se a felicidade depende da facilidade de funcionamento, deveria ser muito importante, para a pessoa, ser capaz de determinar o tipo de atividade na qual suas energias vitais podem fluir com mais facilidade. Tal determinação seria instintiva e espontânea se os homens vivessem num “estado natural”, com um mínimo de pecados hereditários para perverter o ritmo normal do seu desenvolvimento pessoal. Os homens, porém, vivem em sociedade e, como coletividade, têm assombrosa habilidade para lembrar o passado de sua raça, para “aprisionar o tempo” e condensar a lembrança de conquistas humanas na textura de uma civilização. Este dom é a glória do homem e a maldição de cada pessoa. Ele significa que a força acumulada da tradição, da memória da raça e do carma da raça desafia, desde o nascimento e especialmente através dos anos de desenvolvimento do jovem, todos os instintos vitais naturais que um ser humano tem dentro de si. Este desafio poderá significar um crescimento acelerado e super normal, e o desenvolvimento de faculdades de grande importância mental e espiritual; mas também poderá acabar em repressões, frustrações e doenças praticamente incuráveis do corpo ou da psique. Ele poderá ter em qualquer um desses resultados, ou ambos ao mesmo tempo, um ponto que jamais deverá ser inteiramente esquecido.

 O que a astrologia pode fazer é ajudar-nos a descobrir conscientemente aquilo que os nossos instintos deformados muitas vezes já não conseguem revelar, com convincente clareza, para o nosso ego confuso. Pode mostrar-nos também, de forma conclusiva, as razões básicas por que, no nosso caso particular, as forças vitais já não fluem com facilidade, portanto, as causas que determinam a ausência de felicidade vibrante e total em nossa vida. Se seremos ou não capazes de remover essas causas, isso já é uma outra questão. Do ponto de vista do espírito, sempre é possível que elas sirvam a um propósito útil, pelo menos por algum tempo. Não obstante, é privilégio do homem palmilhar o “caminho consciente”; e a astrologia, se adequadamente manejada, pode nos fornecer a substância da compreensão consciente. Ela pode trazer a iluminação da lua cheia para todo o homem que está preparado, a iluminação que transfigura as energias instintivas da “vida” e de tudo o que pertence ao reino da dualidade, transformando-as na força de significação criativa.

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An-Allegory-Of-Astrology - Giovanni Andrea Sirani_

 A Roda da Fortuna nas Casas

Primeira Casa: esta posição se refere normalmente a um tipo de pessoa da lua nova. A posição, portanto, encarna as características do tipo. Falando de um modo geral, o sucesso e a felicidade deveriam vir para o indivíduo que coloca a si e as suas conquistas sem paralelo (por mais irrelevantes que possam parecer aos outros) na própria base do seu ajustamento à sociedade e ao seu meio. Isto não é, necessariamente, uma indicação de orgulho, mas antes de uma maneira fortemente individual e pessoalmente responsável de enfrentar as situações da vida. Indica autoafirmação, mas também a vontade de satisfazer a uma necessidade do destino e de fazer isso de maneira nova, revelada por uma avaliação pessoal dos problemas que devem ser encarados. O perigo está em o indivíduo isolar-se dentro de si mesmo e/ou em sentir-se separado dos outros seres humanos.

 Segunda Casa: aqui, muito depende do fato de estar envolvido um tipo da lua nova ou um tipo da lua crescente, e até mesmo poderia ser um tipo do primeiro quarto. A pessoa devera sentir a ânsia de atrair “substância social” para si mesma – dinheiro, propriedade, valores culturais herdados etc. – e de sentir-se feliz ao fazer isso, especialmente se precisa disso para tornar mais concreto e eficaz o seu senso de ser um “indivíduo”. Ele poderá e deverá procurar apoio e sustento no seu esforço para deixar sua marca no seu meio. Ele poderá ser um bom administrador, especialmente se o seu sol e a sua lua formam um aspecto sextil (60 graus). Uma ilustração notável desta posição da Roda foi a grande educadora Dra. Maria Montessori, que desenvolveu uma nova abordagem da criança e da maneira de cuidar do seu desenvolvimento individual.

Terceira Casa: esta posição normalmente assinala capacidade para enfrentar os obstáculos encontrados no ambiente imediato da pessoa e para lidar eficazmente com o problema de avaliar e assimilar, de uma forma inteligente, os valores intelectuais e culturais que cercam o adolescente em processo de crescimento. Esforçando-se para alcançar estes fins e para comunicar suas ideias ou sentimentos aos outros, o indivíduo normalmente encontrara felicidade. Em certos casos, quando esta tendência natural é frustrada pelas circunstancias, a mente poderá ficar tensa e tornar-se impiedosa e destrutiva. Tudo está centralizado em torno de uma luta de vontades ou de ideologias. Nos primeiros anos de vida a tendência é procurar um “Exemplo” e seguir seu curso de ação, para depois tentar ir um passo adiante. No mapa de nascimento do compositor-pianista Franz Listz, que será estudado mais tarde neste livro, a Roda da Fortuna esta na terceira casa, não muito distante do sol. Ele passou grande parte da sua vida dando concertos de país em país, deixando a impressão dos seus novos ideais nos musicistas da sua época.

 Quarta Casa: o sentimento do lar e das raízes e a procura de uma base adequada para a integração da personalidade, sobre a qual construir a ambição pessoal, deverá ser da maior importância. A felicidade exigira uma sensação de estabilidade, uma sensação de estar em contato com valores permanentes e conceitos sólidos, e de não ser o único que tem tal percepção. Em alguns indivíduos notáveis (Walt Whitman é um exemplo) a estabilidade poderá ser encontrada totalmente dentro; contudo, a necessidade de descobrir outros que partilham esta maneira de ser ainda é básica. “Lar” requer um outro; e a verdadeira   integração da personalidade requer um quadro de referencias, uma comunidade que de sentido e propósito aos esforços do indivíduo. O Ponto de iluminação está, então, na décima casa e representa a possibilidade de encontrar satisfação de uma forma mais ampla, através da identificação com um todo social, profissional ou nacional. O Presidente Kennedy é uma ilustração significativa desta posição da Roda da Fortuna na quarta casa.

Quinta Casa: o impulso de crescimento pessoal é alto e as energias criativas ou emocionais da pessoa tendem a transbordar, de uma forma ou de outra. A felicidade parece ser o resultado desse derramamento instintivo ou egocêntrico de si mesmo dentro da comunidade a que o indivíduo pertence. A exultação emocional poderá ser encontrada na atividade artística criativa (George Gershwin e Charles Ives – dois compositores notáveis), ou no desejo de poder (Charles de Gaulle). A vontade de jogar normalmente está presente, de uma forma ou de outra.

Sexta Casa: na maioria dos casos, isto indica um nascimento bastante próximo da lua cheia. O impulso original do ciclo está atingindo o seu ápice e a pessoa está chegando perto da crista de uma onda; com frequência, ela está tentando completar, aperfeiçoar ou compreender a fundo, rapidamente, qualquer coisa que tenha sido iniciada no passado. Deste modo, a felicidade pode ser encontrada no trabalho, no auto-aperfeiçoamento, na autodisciplina e na excelência técnica da formulação. Consciente ou não consciente disso, uma pessoa com tal posição da Roda da Fortuna normalmente é inspirada por um passado social, cultural ou político, no qual encontra felicidade. Quer não só trazer para uma conclusão, mas também transformar esse passado, de modo a torná-lo sensível a uma nova visão da qual ele sente que é o arauto. Este tipo normalmente é bem-sucedido em períodos de crise, quando as tradições estão sendo desafiadas por uma sociedade inquieta.

Sétima Casa: isto indica um nascimento logo depois da lua cheia, embora também possa incluir indivíduos do tipo propagador. No caso positivo, a felicidade é encontrada na colocação dos relacionamentos importantes sob a luz mais clara possível, e no caso negativo, é encontrado na fuga daqueles “casamentos” (em qualquer nível) ou alianças, que não trouxeram nem satisfação, nem uma percepção mais ampla da existência.   Em qualquer dos casos, o relacionamento humano é o fator que determina toda a grande iluminação individual. No sentido negativo, portanto, a pessoa pode ficar excessivamente preocupada com o fato de experimentar um relacionamento ou pode passar a depender dele. Sentindo ser este o caso, ela poderá focalizar a sua ânsia de relacionamento em algum “Tu” absoluto e transcendente.

Oitava Casa: esta casa se refere tradicionalmente a morte e ao renascimento, ou regeneração. Mas ela também está muito ligada ao uso que está sendo feito das energias que nascem de todos os tipos de relacionamento, particularmente daquelas que resultam dos acordos contratuais – sendo estas últimas a própria substancia dos “negócios”. Nosso mundo moderno está basicamente apoiado em contratos feitos por indivíduos e/ou grupos; mas estes contratos mudam com muita frequência – são feitos, desfeitos e refeitos. Isto se aplica até mesmo aos casamentos e àquelas associações de trabalho que, no passado, tinham um caráter permanente. O indivíduo com a Roda da Fortuna na oitava casa poderá se envolver demais em problemas administrativos; mas este termo, administração, conquistou um imenso campo de aplicação. Um guru indiano, como Meher Baba, que seus seguidores consideram uma “encarnação divina”, também se ocupa com a administração adequada das energias devocionais, que são colocadas a sua disposição por seus chelas; e o Mikado-Mutsu Hito, que foi o fundador do Japão moderno, administrou com eficiência o poder depositado sobre ele por sua tradição.

Nona Casa: tal posição da Roda da Fortuna acentua a tendência de procurar a felicidade em processos de auto-engrandecimento. Tais processos, porém, podem ser fundamentados sobre uma ambição egocêntrica, obstinada, ou sobre um estudo profundo do significado das leis sociais e psicológicas. Poderá indicar um forte desejo de viagens a lugares distantes, de descobrir “como vivem outras pessoas”. Poderá levar a uma vontade ardente de perder o próprio ego num vasto movimento religioso, num reino de existência transcendente. Estadistas tais como Jefferson, Bismarck, Lenin, Hitler e Nehru acharam “fácil” identificar-se com a vida arquetípica dos seus países, conforme estes estavam sendo construídos ou reconstruídos. Carl Jung encontrou a sua “felicidade” no estudo profundo dos processos psicológicos nos períodos de crise e reorientação.

Décima Casa: aqui lidamos com o “homem profissional” no sentido mais profundo. O indivíduo com a Roda da Fortuna nesta casa aceita cumprir o seu papel na sociedade – um papel que normalmente foi formulado pelas gerações passadas. Nos casos de Victor Hugo e Dante, estes dois homens se sentiram felizes cumprindo a sua função de poeta. Num tipo de pessoa como Trotsky, o indivíduo age, decididamente, como o revolucionário. No caso de um Mussolini, ele aceita encarnar o arquétipo César. Em Einstein vemos a nova espécie de místico-vidente no campo da matemática superior que, embora aparentemente tão remota, pode ter as aplicações mais concretas. Esta identificação com uma função social ou “destino” nunca é totalmente significativa e criativa, a menos que o ser humano também seja uma “pessoa” real, profundamente enraizada no próprio terreno da personalidade individual (ponto de iluminação na quarta casa).

Décima Primeira Casa: no seu aspecto positivo, esta casa poderia ser interpretada como o “verão indiano” do ciclo – a transfiguração da consciência pessoal não somente permitiu a percepção de grandes questões coletivas, mas também trouxe a capacidade de participar em empreendimentos importantes destinados a renovar e transformar instituições e valores tradicionais. Num sentido mais negativo, esta casa se refere a meros sonhos ou a ideais que não estão em harmonia com o ritmo da humanidade. A pessoa nascida com a Roda da Fortuna nesta área de espaço ao redor do seu nascimento poderá procurar a felicidade nos sonhos, ou poderá procurar uma compensação para seus complexos em atividades revolucionarias ou anarquistas que não vão de encontro “as necessidades da época”. Pode, também, ser um pioneiro e um reformador de valores sociais, culturais ou espirituais. Darwin, o pai da teoria moderna da evolução das espécies, e Mahatma Gandhi – ao mesmo tempo sonhador, profeta e estadista – são exemplos significativos.

Décima Segunda Casa: esta casa se refere, basicamente, aos produtos finais de um ciclo de atividade. Falando num sentido social, tais produtos são representados por instituições e tradições, por todos os “fantasmas” psicológicos coletivos da cultura da sociedade e também pelos frutos dos esforços de muitas gerações. A Roda da Fortuna nesta casa poderá indicar a capacidade que o indivíduo tem para saborear ou sofrer significativamente por causa desses produtos finais do seu ciclo de cultura. Ele também poderá encontrar felicidade aceitando e, deste modo, transformando ou dissolvendo o seu próprio carma. Ele também poderá condensar dentro de si mesmo, por assim dizer, esses frutos de um ciclo e tornar-se uma “semente”; em outras palavras, suas realizações poderão transformar-se na base de um novo ciclo. No sentido “oculto”, poderá até mesmo alcançar a imortalidade pessoal, de maneira que aquilo que ele é, como uma mente formada, é capaz de sobreviver a desintegração do corpo físico. Muitas, mas não todas, das personalidades pertencentes ao tipo balsâmico têm a sua Roda da Fortuna na décima segunda casa; outras a tem na décima primeira. Å primeira categoria pertencem Lutero, Thomas Paine, Washington, Kant, William James e o papa Paulo VI.

A Roda da Fortuna nos Signos Zodiacais

Paul Howard Manship

Armillary Sphere

Pelo que foi dito anteriormente, já deve ter ficado evidente que a posição da Roda da Fortuna nos signos do zodíaco depende, em principio, da posição zodiacal do Ascendente – consequentemente, da hora e minutos exatos do nascimento. A posição zodiacal do Ascendente (sua longitude) muda rapidamente, cobrindo todo o círculo zodiacal em mais ou menos um dia; do mesmo modo, a Roda da Fortuna passa através de todos os signos do zodíaco em menos de vinte e quatro horas, pois a sua longitude, em qualquer momento, é aquela do Ascendente mais a da lua e menos a do sol.

Praticamente falando, isto significa que todos os dias a Roda da Fortuna entra em conjunção com cada planeta em algum momento do dia. Já vimos que ela esta em conjunção com a lua todas as manhas, por ocasião do nascer do sol; portanto, ela também esta em oposição à lua quando o sol se põe no lado oeste do horizonte (o Descendente) – o que significa, também, que aquilo que chamamos de Ponto de iluminação está em conjunção com a lua no pôr do sol.

É amplamente conhecido o significado tradicional de cada signo do zodíaco na astrologia, e uma reformulação desses significados, na luz do pensamento do século vinte, foi dada no meu livro The Pulse of Life. O que deve ser enfatizado, com referencia a presente abordagem, é que cada signo e grau do zodíaco é simplesmente uma caracterização simbólica de um determinado tipo de orientação e reação ao constante derramamento de potencial-vida vindo do sol. Acredito que nem o signo nem o grau do zodíaco tem nada a ver com estrelas ou constelações (exceto no sentido de correspondência estrutural entre todos os ciclos completos). O zodíaco é um “quadro de referências” simbólico para a interpretação do ajustamento dinâmico das estações de uma terra receptiva com um sol doador. Ele simboliza a série anual de ângulos de incidência dos raios solares – portanto, o caráter da fecundação da terra (com todos os organismos que estão vivendo nela) pelo sol.

Se, então, descobrimos que a Roda da Fortuna esta localizada, digamos, em Áries, isto significa que a capacidade de irradiação da personalidade, de felicidade e de facilidade no funcionamento social do indivíduo é modelada pelo impulso característico (a “tonalidade”) do sol – ou, mais exatamente, pela reação característica da terra ao sol – durante o começo da primavera. Por outro lado, como nos casos de Lenin e de Keyserling, se a Roda da Fortuna está em Leão, então as tendências típicas de Leão nos ajudarão a definir o caminho de facilidade e de felicidade pessoal para estes indivíduos. Lenin provou ser um grande estadista e um condutor de homens; o conde Keyserling gostava de funcionar como um supremo senhor mental, como o diretor de um grupo de mentes aristocráticas – assim como fez Victor Hugo, que tinha a mesma configuração.

No caso de Franklin D. Roosevelt, a Roda da Fortuna está localizada em Aquário e na quinta casa; enquanto que no mapa de Richard Wagner ela também está em Aquário, mas na décima casa, e no mapa de Stalin encontra-se na cúspide da quarta casa. As lunações de aniversário desses homens diferem, mas a substância zodiacal da felicidade deles e as emanações magnéticas das suas personalidades revelam a qualidade aquariana associada a uma visão sociocultural, e a um ardente e autoconfiante desejo de reformar. As características aquarianas estabelecem uma importante ligação astrologia entre estas três pessoas, muito embora seus mapas sejam completamente diferentes. Para muitos estudiosos da astrologia, aquilo que este tipo de ligação indica poderá parecer que é um sutil fator pessoal; contudo, por mais sutil que possa ser, ele define a “tonalidade” da procura, de um indivíduo, da felicidade e da liberdade e facilidade de operação.   

Por causa do fato de que o homem que atinge o objeto da sua busca irradia, realmente, alguma coisa misteriosa atraindo o sucesso para ele, é que foi dado o nome de “Roda da Fortuna” ao indicador do relacionamento sol-lunar. Pois, como o Novo Pensamento nos ensinou (mesmo que com uma grande dose de fervor juvenil) a riqueza, o sucesso, a saúde e a felicidade são os vários resultados de um profundo senso de facilidade, que por seu turno indica um fluxo rítmico de energia vital. Não pode haver um tal fluxo onde não ha uma fé vibrante, constante e inabalável (instintiva ou consciente) na abundância desse infinito potencial de vida que, para o astrólogo é o sol e para o religioso, Deus.

 A posição zodiacal da Roda da Fortuna não é um fator tão óbvio quanto a sua posição nas casas ou a lunação de aniversario. É menos óbvio porque não pode ser determinada sem que se saiba o grau exato que estava ascendendo por ocasião do nascimento. Justamente por causa disso, ele trata – como o Ascendente – das características mais profundas do ser em expressão. De fato, saber exatamente a substancia da felicidade de uma pessoa é quase como saber a maneira ímpar e característica (Ascendente) na qual ela pode realizar o propósito do seu destino. Um tal conhecimento deveria, preferivelmente, permanecer secreto – e, sendo assim, o costume habitual de deixar que todos   saibam o momento exato do nosso nascimento é, psicologicamente, muito imprudente – embora muito conveniente para os   astrólogos. Portanto, o que deveria permanecer sempre um mistério não se refere tanto aos signos, onde o Ascendente e a Roda da Fortuna estão localizados, porém mais aos graus exatos onde estão colocados. Os símbolos desses graus dão a chave para a natureza do núcleo ativo da identidade espiritual de um homem, do modo como ela é expressa através do e no caráter e identidade de uma pessoa.

relógio solar

A Roda da Fortuna em Áries

A facilidade de funcionamento e a felicidade vêm com o exercício do poder de iniciativa e com um confiante mergulho na experiência. O indivíduo deverá deixar-se guiar pela intuição e deverá ver-se como um ativador de novos impulsos sociais e culturais, tendendo a identificar a sua personalidade com tal impulso criativo, ou então se sentirá frustrado e infeliz se for impedido de agir assim. Exemplos: Francis Bacon, George Washington, Clara Barton, Isaac Newton, Louis Pasteur, Albert Einstein, Frederic Chopin, Will Levington Comfort.

A Roda da Fortuna em Touro

As características ardentes da primavera também são encontradas aqui, mas o indivíduo tem um tipo de personalidade firme, autoconfiante e até mesmo obstinada, adorando, conscientemente ou não, lidar com o poder oculto, social ou coletivo, e tendo que ver resultados materiais definidos para poder ser feliz. O desejo fundamental é trazer qualquer coisa, que tenha existido no passado, para um novo nível de evolução em resposta as necessidades da época. É tornar-se um agente de forças de evolução ou, poderíamos dizer, a “mãe” do amanhã. Exemplos: Martinho Lutero, Goethe, Thomas Paine, Benjamin Franklin, Príncipe Bismarck, Leon Trotsky.

A Roda da Fortuna em Gêmeos

A mente aprende rapidamente e é ávida de conhecimentos. A felicidade resulta da capacidade que o indivíduo tem de se expandir e entrar em contato com tudo. A iluminação mais profunda vem através de estudos filosóficos ou religiosos, ou por meio da identificação com uma causa grandiosa ou com uma organização social. A infelicidade resulta principalmente de uma sensação de confinamento e de confusão intelectual. Exemplos: Rainha Vitoria, a Duquesa de Windsor, Rudolph Steiner, Henry Wallace, Dmitri Shostakovich.

A Roda da Fortuna em Câncer

A felicidade é, essencialmente, alcançada no lar ou em qualquer campo de atividade bem definida e focalizada. Mas, o sentimento de lar poderá ser estendido para uma nação, para uma classe social ou para uma organização religiosa. A satisfação normal e a facilidade de operação encontram-se onde são seguidos pontos de vista pessoais e particulares; a iluminação, porém, é alcançada por meio da identificação pessoal com algum todo maior, social ou espiritual. Exemplos: Karl Marx, Mary B. Eddy, Shelley, o czar Nicolau II, Adolph Hither – e os mapas nacionais da Inglaterra e dos Estados Unidos (mapa com Sagitário ascendendo).

A Roda da Fortuna em Leão

Para se sentir a vontade, irradiante e feliz, o indivíduo deve-se expressar emocionalmente e projetar seus sentimentos pessoais em tudo o que toca. Deve ter também um outro alguém a quem impressionar. A felicidade transforma-se em alegria criativa a medida que a pessoa serve a grandes ideais e a energia criativa é canalizada e sublimada em criações, invenções ou visões que têm importância coletiva. Exemplos: Oliver Cromwell, Victor   Hugo, Sigmund Freud, Pierre Curie, Adolf Shoenberg, Keyserling, Lenin, Benes, Presidente Johnson.

A Roda da Fortuna em Virgem

A busca pessoal da felicidade e da autorrealização opera através da analise intelectual, da autocrítica, da introversão e do uso de crises na superação de obstáculos. A confiança na técnica e em processos fixos de trabalho e também a exclusão, talvez impiedosa, de tudo o que não se enquadra perfeitamente parecem ser necessárias para a conquista da integração e do sucesso pessoal. Em outros casos, a devoção absoluta e a auto-submissão parecem constituir a única chave para a realização e a felicidade. Exemplos: Jacob Boehme, Mahatma Gandhi, Benito Mussolini, Wendell Wilkie.

A Roda da Fortuna em Libra

Neste caso, a felicidade é profundamente afetada pelo curso das associações intimas, por fatores sociais ou pela intrusão de forças espirituais na personalidade. Há um anseio de personificar grandes ideais, ou até mesmo Deus – muitas vezes em consequência de uma sensibilidade exagerada ou de uma indecisão psicológica quando frente a frente com a sociedade. A tendência para dramatizar-se ou assumir atitudes sociais com a finalidade de alcançar os próprios objetivos e a segurança interior, frequentemente está em evidência. Exemplos: o profeta persa Bab; o Mikado Mutsu-Hito, Franz Lizt, Meher Baba, o Duque de Windsor.

A Roda da Fortuna em Escorpião

A busca da felicidade e de integração da personalidade está interligada com o problema do uso adequado do poder. Aqui,  poder pode significar poder sexual ou o poder derivado de uma profunda identificação com energias humanas coletivas (ou “ocultas”). Ele sempre se relaciona com os frutos finais de algum tipo de associação. A iluminação vem em consequência de uma fecundação interior por algum poder espiritual definido. Exemplos: Lord Byron, Jay Gould, Walt Whitman, papa Pio XI, Carl Jung.

A Roda da Fortuna em Sagitário

Esta posição indica um forte desejo de vastos horizontes mentais, assim como de uma vida livre de limitações e tradições particulares. A tendência é de lidar com questões grandes, muitas vezes com algum grau de fanatismo ou então em termos de princípios gerais, puramente abstratos, talvez sem um senso adequado de perspectiva e realismo. Nos casos mais elevados, porém, a alegria é experimentada quando o indivíduo da uma forma criativa a abstrações na literatura, na formulação intelectual e na investigação cientifica. Exemplos: o grande astrólogo John Gadbury; o gênio literário e rebelde social (a mulher romântica de muitos amores famosos) George Sand; o poeta Baudelaire; o construtor do império britânico sul-africano, Cecil Rhodes.

A Roda da Fortuna em Capricórnio

Aqui ha profundidade e, às vezes, austeridade e transcendência na busca da felicidade realizada pelo indivíduo. A vida pessoal tende a fluir em profundidade, melhor do que em amplitude, mas muitas vezes com uma qualidade exaltada. O senso de responsabilidade social ou espiritual poderá ser dominante. Poderá levar a pessoa a acreditar na sua missão ímpar e na sua capacidade de encarnar um novo tipo de ser humano em qualquer esfera onde ela possa atuar, sendo um exemplo no sentido mais pessoal do termo. Exemplos: Baha’u’llah, que muitos consideram ter sido uma Encarnação Divina; Nostradamus, o vidente; Annie Besant, Ralph Waldo Emerson; J. P. Morgan, o velho – e (provavelmente) Abraham Lincoln.

A Roda da Fortuna em Aquário

O idealismo social e o zelo reformador do tipo aquariano são bem conhecidos. A Roda da Fortuna traz estas qualidades para um foco muito pessoal. Por baixo de todas as diferenças de posição, profissão, temperamento individual e destino, ela escolhe a pessoa, que tem tal característica natal, para atuar como um contribuinte para o progresso da civilização – por mais modesta, por mais construtiva ou destrutiva que seja essa contribuição. Exemplos: Dante, Emmanuel Kant, Robespierre, Ramakrishna, Havelock Ellis, Richard Wagner, Maria Montessori, Franklin D. Roosevelt, Joseph Stalin.

A Roda da Fortuna em Peixes

Peixes é um signo indefinível, que por um lado produz generais e pelo outro produz místicos e musicistas. Ele indica um processo de dissolução coletiva, um estado de crise social e cultural no qual velhas formas são destruídas para deixar lugar às novas. O índice de personalidade e felicidade localizado aqui mostra a força de vida operando quase que contra si mesmo, a fim de superar-se. A pessoa despreza as coisas menos importantes e deseja avidamente conquistar mundos novos. Poderá alcançar o objetivo da sua vida através de crises pessoais ou sociais – através daquilo que as outras pessoas têm a impressão de que são milagres. Exemplos: o cientista místico Swedenborg, Napoleão I, Robert Schumann.

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