Astrologia na História e na Mitologia

Qual a Origem dos Decanatos

espelho do céu

Artigo extraído do site Jornal Livre

Na astrologia contemporânea, o sistema de divisão por decanatos tem sido utilizado, em termos práticos, por um número reduzido de astrólogos, apesar do revival promovido por entusiastas da astrologia antiga e medieval nas duas últimas décadas do século XX. Não há, porém, uma tradição empírica confiável que demonstre, de alguma forma, que essa subdivisão de cada signo zodiacal em três segmentos de 10 graus de arco indique correlações válidas com o comportamento humano e com fatos sociais de ordem política, econômica ou relacionados a fenômenos naturais de grande impacto. Infelizmente, como é costume entre certos profissionais, a avaliação sistemática de uma determinada técnica é o que menos conta, é o que menos importa. Basta que seja fascinante.

Embora estando fora do mainstream da astrologia praticada atualmente, nem por isso o sistema de decanatos deixa de ser um tema importante, especialmente pelo significado histórico que possui e pelas lições que dele podemos extrair. Em suas origens encontramos implicações das mais relevantes para a astronomia e para o modo como organizamos o tempo. Se hoje dividimos o dia em 24 horas, devemos este método aos egípcios e aos seus decanos (de onde veio a palavra decanato), ou seja, a um determinado tipo de calendário, ou de sistema hemerológico, em que se utilizavam algumas constelações ou asterismos como referência para o cômputo das horas. Vejamos como tudo isso começou.

Em 1997, pesquisadores descobriram em pleno deserto do Saara, mil quilômetros ao sul da cidade do Cairo, numa depressão conhecida como Nabta Playa, alinhamentos megalíticos e círculos de pedra erguidos aproximadamente há 7.000 anos. Essas estruturas passam, portanto a ser o mais antigo complexo astronômico-cerimonial da pré-história. Aqui, o que mais nos interessa é que, em cálculos efetuados recentemente pelo astrônomo J.M. Malville, um dos descobridores desse sítio arqueológico, o alinhamento mais longo de Nabta Playa aponta para o nascer helíaco da estrela Sirius, ou seja, o ponto no horizonte leste onde ela aparecia pouco antes do nascer do sol.

E por que estariam os proto-egípcios interessados nesse tal de nascer helíaco?  Simplesmente porque esse fenômeno indicava a primeira aparição anual de Sirius acima do horizonte oriental. Este momento coincidia, aproximadamente, com o solstício de verão e a inundação provocada pelas cheias do rio Nilo. Era o início do Ano Novo egípcio, marcado por festividades que celebravam a fertilidade da terra e a renovação, portanto base para um calendário agrícola e tudo que isto significa em termos de sobrevivência para a população. O ciclo anual era dividido em três estações: Inundação, de julho a novembro; Semeadura, de novembro a março; e Colheita, de março a julho.

Além desse calendário havia outros: lunar, solar e lunisolar.  O primeiro povo a dividir o ano em 365 dias, com12 meses de 30 dias e mais 5 dias extras (epagômenos), foram os egípcios, já por volta de 2900 a.C. A partir do Novo Império, conhecemos até os nomes desses meses: Thoth, Phaophi, Athyr, Choiak, Tybi, Méchir, Phamenoth, Pharmouthi, Pachons, Payni, Epiphi e Mesore. A princípio, os egípcios não levaram em conta, porém, a pequena diferença de um quarto de dia que, com o decorrer do tempo, acaba gerando distorções em relação às estações do ano solar verdadeiro, daí este calendário civil ser chamado de ano vago. Observamos que o nascer helíaco de Sirius coincidia exatamente com o começo do ano civil somente uma vez a cada 1460 anos (ciclo sótico) e, portanto, correspondia a um ciclo diferenciado e mais antigo, como já vimos.  Mesmo assim, o ano civil egípcio seria adotado, e adaptado, mais tarde pelo imperador romano Júlio César, passando então a ser usado em todo o Ocidente.

Os Decanos Egípcios

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É no período da Décima Dinastia, por volta de 2100 a.C., que encontramos a primeira referência aos decanos em tampas de sarcófagos. Dos 365 dias do ano, 360 eram divididos em 36 semanas de 10 dias. Cada uma dessas semanas ou décadas começava com o nascer helíaco de uma determinada constelação ou decano, que podia ser observada sucessivamente até que no décimo primeiro dia outro decano surgisse pouco antes do nascer do sol, marcando o início da próxima década ou período de 10 dias.

Os decanos serviam também como uma espécie de “relógio estelar”. Observando o surgimento no horizonte oriental de cada uma dessas constelações, logo após o ocaso do sol, o nascer acrônico (momento em que o nascer de um astro coincide com o pôr do sol) do primeiro decano correspondia à primeira hora da noite. Aproximadamente uma hora depois aparecia outra constelação identificada como o decano seguinte, início da segunda hora da noite, e assim por diante. Esta dinâmica noturna permitiu a elaboração de um calendário diagonal organizado em 36 colunas de 12 linhas cada. Neugebauer explica como funcionava essa tabela.

decanos estelares

Cada coluna vertical serve como um relógio estelar durante uma determinada década período de dez dias, cujo primeiro dia é citado no topo da coluna. Por exemplo, o nascer do decano S3 indica, durante a primeira década, a terceira hora da noite; na segunda década, a segunda hora, etc. Quando um decano surgia na primeira hora da noite, estava, obviamente, próximo de seu ocaso acrônico dez dias depois.

As horas decanais tinham, na verdade, a duração de 40 minutos. Teoricamente, seriam 18 decanos para o período de uma noite, mas na prática, descontando o tempo dos crepúsculos matutino e vespertino, apenas 12 eram considerados. A princípio, as horas eram sazonais, isto é, variavam conforme a estação do ano; no inverno, como as noites são mais longas, o primeiro e o último decano tinham maior duração. Mais tarde, no período helenista, foram introduzidas as horas equinociais, isto é, todas de igual duração, e também o sistema sexagesimal dos babilônios. Chegamos assim ao dia de 24 horas, cada hora com 60 minutos.

As constelações decanais também tinham uma função religiosa e mágica. No século IX a.C. já estavam associadas a divindades protetoras que exerciam influência sobre os homens e igualmente sobre a natureza. Nos monumentos de Seti I e Ramsés IV (1300 a.C e 1700 a.C.), os decanos são representados no corpo de Nut, a deusa do céu. Essas constelações ou asterismos situavam-se ao sul da eclíptica – o plano da órbita aparente do sol na esfera celeste – e apenas duas foram identificadas, Sirius, a estrela alfa de Canis Major, a mais brilhante do céu, que os gregos chamavam de Sothis e os egípcios de Sepdt, e a constelação de Órion.

Além de que as estrelas de alguma forma estavam associadas a deuses e deusas – Sirius, por exemplo, estava relacionada a Ísis -, os egípcios também construíram um calendário no qual atribuíam a cada dia do ano um caráter favorável ou desfavorável, seu significado mítico e o comportamento indicado para aquele dia específico.

Os 36 decanos, a intervenção de divindades celestes na vida da terra e a crença em dias favoráveis e desfavoráveis era tudo que os egípcios podiam oferecer como elementos para uma futura astrologia. Aqui não temos sequer uma proto-astrologia, como na Babilônia, com a utilização de eclipses como presságios; aliás, não há sequer registro de antecipação de eclipses, nem tampouco zodíaco. Foi provavelmente no século IV a.C. que apareceu o primeiro documento egípcio – o Papiro de Viena – que trata de presságios envolvendo a lua. Nessa época, porém, o Egito já vinha recebendo inegáveis influências da Babilônia.

Propuesta de atribución de dos fragmentos del papiro de Viena

Pouco depois de 729 a.C., o Império Assírio invadiu e anexou o Egito. É o primeiro contato sistemático entre essas duas civilizações. Em 539 a.C., a Pérsia, sob o comando do rei Ciro, conquista  a  Babilônia e o Egito, e mais uma vez as duas culturas se aproximam. Alexandre da Macedônia invade o Egito em 332 a.C. Na primavera do ano 331 funda a cidade de Alexandria e em seguida, em outubro do mesmo ano, derrota Dario III, dominando toda a Pérsia e a Mesopotâmia. Alexandria viria a ser um ponto de encontro entre várias culturas: a matemática, a astronomia e a astrologia da Babilônia; a ciência, a filosofia, a mitologia e a astrologia dos gregos; e a religião, o calendário e a modesta ciência egípcia. O país das pirâmides ainda não conhecia a astrologia, mas foi palco de uma criativa fusão de doutrinas que daria novo alento à ciência dos astros e, particularmente, introduziria a subdivisão dos decanatos no zodíaco babilônico.

Antes de passarmos para a evolução da astrologia na Babilônia, é interessante mencionar um esquema mitológico-astronômico encontrado na Mesopotâmia e que parece guardar uma certa semelhança com os decanos egípcios.

As 36 Constelações da Babilônia

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Alguns textos astronômico-astrológicos da Mesopotâmia antiga indicam a existência de um sistema de 36 estrelas ou constelações do tipo que havia no Egito, talvez até mesmo com funções hemerológicas semelhantes.  Traduções mal-elaboradas e associações apressadas acabaram, porém, criando certa confusão em torno desses asterismos.

Tudo começa com o texto que dá origem à crença na existência de um zodíaco já no terceiro milênio a.C.: o Enuma Elish, o Épico da Criação babilônico, escrito por volta de 1200 a.C., mas cujos mitos têm origens bem mais antigas, remontando à época dos sumérios. Trata-se de uma narrativa cosmogônica que exalta, principalmente, a figura do deus Marduk, que logrou derrotar Tiamat, o dragão representante do Caos primordial. Depois de vencê-lo, ele separa o céu da terra, organiza os corpos celestes e cria o homem.  Pois bem, a confusão se inicia quando, segundo a narrativa, Marduk cria o calendário lunar de 12 meses. Nesta passagem, que aparece logo no começo da tabuinha de número, alguns autores pressupõem uma referência ao zodíaco. Como veremos mais adiante, esta referência é precoce e sem qualquer fundamento. Examinemos primeiro a tradução de Leonard W. King.

Ele (Marduk) estabeleceu locais para os grandes deuses;
As estrelas, as imagens delas, como as estrelas do Zodíaco, ele fixou.
Decretou a existência do ano e em partes o dividiu;
Para os doze meses, ele fixou três estrelas.

the seven tablets

E-book: The Seven Tablets of Creation.

 Outro autor, Stephen Langdon, chegou a utilizar a expressão “signos do zodíaco” onde King se refere a “partes” do ano.  Em seguida, apresentamos duas outras traduções para o mesmo trecho. Lembrando que se trata do começo da 5ª tabuinha. Os tradutores são Stephanie Dalley e N. K. Sandars respectivamente.

Ele Marduk construiu estâncias para os grandes deuses.
Para as estrelas, formou constelações que lhes correspondessem.
Designou o ano e demarcou-lhe as divisões.
Distribuiu três estrelas para cada um dos doze meses.

Ele Marduk projetou notáveis posições no céu para os Grandes Deuses,
Deu-lhes aspecto de estrelas como constelações;
Fez a medida do ano, dando-lhe começo e fim,
E para cada um dos doze meses, três estrelas nascentes.

 Podemos ver como esses dois últimos autores, além de não incluírem o zodíaco, evitam a “cilada” de interpretar “ano” como ano solar e “doze meses” como os doze meses do ano solar. Como já dissemos, o deus Marduk aqui está elaborando o calendário lunar referente ao ano lunar de 12 meses sinódicos, ou seja, o mês de 29,5 dias, que corresponde ao intervalo entre duas luas novas. Esta é a verdadeira divisão do ano citada no Enuma Elish. O zodíaco ainda não tinha sido inventado. Mas do suposto zodíaco aos decanos ou decanatos foi uma inferência bem fácil, pois o texto em seguida fala de “três estrelas” para cada um dos “doze meses”. Ora, 3 x 12 = 36. Pronto, temos aqui três “decanos” para cada um dos doze “signos zodiacais”, à semelhança do sistema construído no Egito helenista. Mas se não há um zodíaco, pois não é o sol que está em jogo, de qualquer forma é óbvio que 36 constelações ou estrelas formavam algum sistema astronômico que para alguma coisa deveria servir.

 A resposta parece estar nos Astrolábios (1100 a.C.), cartas estelares que correlacionavam o nascer helíaco de certas estrelas com datas do calendário (não confundir com o instrumento de mesmo nome). Três estrelas eram designadas para cada mês, que por sua vez dividia-se em três partes, o que faz lembrar as proezas de Marduk na divisão do céu, quando atribuiu três estrelas a cada um dos doze meses. O esquema, em essência, é muito semelhante ao das constelações decânicas do Egito, mas a etapa seguinte, a da divisão do próprio zodíaco, mais tarde, em 36 partes, não sabemos se realmente ocorreu. Havia, sim, outras divisões, como veremos no próximo segmento.

Neugebauer menciona textos muito antigos, possivelmente da dinastia cassita (1595-1153 a.C.),  que apresentam  o céu dividido em três zonas de 12 partes cada, contendo o nome de constelações e de planetas. Mais uma vez, esses 12 segmentos representam os 12 meses lunares e não os signos do zodíaco. Esse tipo de divisão do céu em três faixas aparecerá posteriormente num dos mais importantes textos astronômicos da Babilônia, as tabuinhas MUL.APIN.

Babilônia – Onde Tudo Começou

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Os textos mais antigos da Babilônia, que remontam ao começo do segundo milênio a.C., mencionam métodos bastante primitivos de adivinhação, como o exame das vísceras de uma ovelha sacrificada, o movimento das nuvens, a direção dos ventos e outros fenômenos atmosféricos. Esses “presságios” era o que havia de mais importante para que os sacerdotes barus pudessem adivinhar eventos futuros. Os eclipses lunares também eram utilizados, mas secundariamente, e acreditava-se que as estrelas fossem divindades propiciatórias que podiam de algum modo interferir na vida aqui na terra. Apesar disso, não há nada que indique uma sistemática observação dos astros nessa época.

Nos arquivos reais de Nínive foram encontradas cerca de setenta tabuinhas com inscrições cuneiformes que constituem uma compilação de presságios e previsões. Esse verdadeiro manual de adivinhação, denominado Enuma Anu Enlil, foi escrito no século VI a.C. e faz referência a um material bem mais antigo, do tempo da dinastia de Hamurabi, por volta de 1700 a.C. Seu conteúdo inclui presságios lunares, solares e meteorológicos, além de indicações sobre o nascer e o ocaso de planetas e estrelas. Vejamos alguns exemplos:

Se, no dia de seu desaparecimento, o deus Sin (Lua) diminuir seu passo no céu em vez de desaparecer de repente, haverá seca e fome no país.

Se no oitavo mês, no décimo primeiro dia, Ishtar (Vênus) desapareceu no Leste e esteve ausente do céu por dois meses e… dias, e tornou-se visível novamente no Oeste no décimo mês, no… dia, a colheita será próspera.

Se a estrela da Dignidade, o vizir de Tispak, aproximar-se do Escorpião – durante três dias haverá resfriado grave; tosse e fleuma se manifestarão.

Outro texto de grande importância para entender o desenvolvimento da astronomia/astrologia dos babilônios é o MUL.APIN, elaborado em 700 a.C., embora sua forma final talvez já existisse por volta de 1000 a.C. Aqui o céu é dividido em três faixas paralelas por onde se distribuem as várias constelações. Cada faixa ou banda é o Caminho de um deus: 33 estrelas formam o Caminho de Enlil; 23, o de Anu; e 15, o de Ea . São dezessete ou dezoito constelações que se encontram no curso da Lua, entre as quais nove daquelas que seriam futuramente as constelações zodiacais: Touro, Caranguejo, Leão, Balança, Escorpião, Peixe-Cabra (Capricórnio), As Caudas (Peixes), Talo de Cevada (Virgem) e os Grandes Gêmeos. A eclíptica é dividida em quatro partes, cada uma correspondendo a uma estação do ano, além de constar a data em que o sol entra nas quatro estações, passando de um “Caminho” para outro.

BABYLONIAN CUNEIFORM ASTRONOMY TABLET (2)

Em 747 a.C começam a ser registradas observações datadas de eclipses. Agora os presságios celestes passam a predominar. Em meados do século VII a.C. surgem os “Diários” astronômicos, resumos mensais dos movimentos planetários, suas posições em relação às constelações e também as datas da primeira e da última visibilidade.  Provavelmente por volta do século VI a.C. é que ocorre a divisão da eclíptica em 12 partes iguais. O registro do primeiro zodíaco, uma elaboração genuinamente babilônica, é de 464 a.C. Não se conhece nenhum outro zodíaco anterior a este em qualquer parte do mundo, nem mesmo na Grécia, muito menos no Egito.

BABYLONIAN CUNEIFORM ASTRONOMY TABLET

Segundo datações de A. Sachs, as primeiras “cartas” astrológicas individuais ou temas natais remontam ao ano 410 a.C. Na mais antiga  (13 de janeiro), as posições dos planetas não são indicadas em relação ao zodíaco, nem ao dia de nascimento, mas com referência à aparição sinódica desses corpos celestes em torno da época do nascimento. Os dados são apresentados de forma semelhante ao conteúdo dos Diários:

Mês Tebetu, 24 para a manhã de 25, ano 13 de Dario II, a criança nasceu. Mês Kislimu, por volta do 15° dia, Mercúrio atrás de =a leste de Gêmeos, primeira visibilidade no leste. Mês Tebetu: Tebetu 9º solstício; o 26° última visibilidade lunar antes do nascer do sol; Mês Shabatu: Shabatu com densas nuvens, por volta do 2°, Mercúrio em Capricórnio ultima visibilidade no leste … Mês Tashritu, o 22°, Júpiter 2° ponto estacionário em frente a Aquário.

No segundo horóscopo, datado de 29 de abril do mesmo ano, já aparecem as posições dos planetas no dia em questão:

 Mês ? Nisan ?, noite ? do 14° ? …filho de Shuma-usur, filho de Shuma-iddina, descendente de Deke, nasceu. No momento em que a Lua estava abaixo do chifre do Escorpião, Júpiter em Peixes, Vênus em Touro, Saturno em Câncer, Marte em Gêmeos. Mercúrio, que havia se posto pela última vez, estava ainda invisível.  Mês Nisan, o 1° dia em seguida ao 30° dia do mês anterior o novo crescente tendo estado visível por 28 ush , a duração da visibilidade da Lua após o nascer do sol no 14° ? foi 4,40 ? ush; o 27° foi o dia em que a lua apareceu pela última vez. As coisas? ficarão boas para você. Mês Du’uz, ano 12, ano ? 8…

Os “horóscopos” subsequentes revelam uma continuidade em relação ao discurso tradicional. As interpretações, quando incluídas, lembram claramente as previsões individuais da literatura que trata dos presságios, além de prenunciarem a futura astrologia helenista. Mais uma vez, é Sachs quem nos dá a data de um “horóscopo” babilônico calculado para o dia 3 de junho de 235 a.C., já no período grego. As posições planetárias incluem os graus do zodíaco, embora sem citar o Ascendente.

Ano 77 da Era Selêucida, mês Siman, do 4° dia até? algum? tempo? na última parte da noite do quinto dia, nasceu Aristócrates. Nesse dia, Lua em Leão. Sol em 12; 30° em Gêmeos. … Júpiter… em 18 graus de Sagitário. O lugar de Júpiter significa: sua vida? Será normal, boa; ele ficará rico, chegará à velhice… Vênus em 4 graus de Touro. O lugar de Vênus significa: para aonde quer que vá, será favorável para ele; ele terá filhos e filhas.

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Existem ainda textos da época dos primeiros “horóscopos” que poderíamos chamar de teóricos, pois dão instruções para interpretação. Curiosamente, encontramos aqui uma subdivisão zodiacal. Cada um dos 12 signos é dividido em 12 partes de 2°30’ de arco. São, segundo a terminologia grega, as dodecatemorias de um dodecatemorium, ou seja, 1 doze avos dividido em 12 partes. Outro aspecto dessa proto-astrologia babilônica é que também leva em conta o momento da concepção e a possível utilização das triplicidades.

Pouco mais de um século antes de aparecerem esses “horóscopos”, algo em torno de 315 a.C., o astrólogo Kidinnu (Cidenas ou Kidenas, em grego) funda uma escola de astrologia na Babilônia, onde estudaram muitos gregos que foram para a Mesopotâmia após as conquistas de Alexandre. Consta que ele posicionava os equinócios e solstícios no oitavo grau dos signos cardeais, e que também, segundo Estrabão, teria influenciado o grande astrônomo (e provavelmente astrólogo) Hiparco. Este, aliás, posicionava o equinócio vernal em 0 grau de Áries, embora os calendários romanos geralmente usassem o oitavo grau, a exemplo dos antigos babilônios. Outro importante astrólogo babilônio, sem dúvida o mais célebre, foi Beroso. Por volta de 281 a.C., ele teria fundado uma escola de astrologia na ilha de Cos, na Grécia. Segundo Plínio, os atenienses chegaram a erguer uma estátua em sua homenagem.

Em horóscopos babilônicos não há nenhuma indicação sobre o Ascendente, cujo primeiro registro aparece num horóscopo grego feito em 22 a.C. e que se refere a um nascimento ocorrido em 27 de dezembro de 72 a.C.

Grécia

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Na há nada na história da Grécia antiga que sinalize a existência de uma prática proto-astrológica, nada que sequer lembre a astrolatria dos babilônios ou de outros povos. Os gregos não adoravam estrelas; Sol e Lua, sim, faziam parte de sua mitologia religiosa.  Hélios era um deus importante, mas Selene pouco significava.

O documento mais antigo em que se faz referência a dias favoráveis e desfavoráveis, bem como ao nascer e ao ocaso das constelações no horizonte e sua função agrícola, é O Trabalho e os Dias, de Hesíodo, escrito por volta de 700 a.C. Na Teogonia, do mesmo autor, aparecem provavelmente versões gregas de mitos babilônicos, e já no século VI a.C. nomes de estrelas e de constelações da Babilônia aparecem traduzidos para o grego. Só a partir do século V a.C. os planetas começam a ser diferenciados das estrelas.

Antes, portanto, da expansão do império de Alexandre, que abrangeria também a Mesopotâmia, houve contatos entre babilônios e gregos. Especula-se, por exemplo, sobre a possibilidade de Pitágoras, no século VI a.C., ter viajado para o Egito e para a Babilônia. Na reforma do calendário de Atenas, ao redor de 432 a.C., Meton e Euctemon, recorrem a técnicas desenvolvidas pelos babilônios. No século IV a.C., Eudoxo de Cnido introduz na Grécia o calendário anual de 365 dias, que conhecera no Egito. Segundo Cícero, Eudoxo rejeitava a doutrina dos caldeus sobre previsões baseadas no dia de nascimento de um indivíduo. Ainda neste século, Teofrasto fazia alusão à teoria que permitia aos caldeus prever os eventos da vida de uma pessoa e não apenas se o tempo seria bom ou mau. Demócrito de Abdera, o famoso atomista, discípulo de Leucipo, também é citado como introdutor de ideias orientais sobre o zodíaco, os planetas e as constelações.

Outros eruditos gregos como Epígenes de Bizâncio, Apolônio de Mindus e Artemidoro de Parium também diziam ser discípulos dos caldeus, tendo estudado em suas escolas sacerdotais. Um provável astrólogo da Babilônia, Sudines, trabalhou para o rei Atalus I, rei de Pérgamo, para quem fazia adivinhações por volta do ano 238 a.C.

Como vimos no segmento anterior, no começo do período helenista (pós-Alexandre), muitos gregos foram à Babilônia para aprender astrologia e astronomia. É quando tem início um intenso intercâmbio entre essas duas culturas, e a astrologia passa a atrair a atenção dos gregos.

O Egito Helenista

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O período helenista, no Egito, começa com o domínio grego em 331 a.C. e vai até o século VI d.C., já sob o controle dos romanos. As conquistas de Alexandre levam a filosofia, a ciência e a arte dos gregos a todas as partes do império. A cidade de Alexandria torna-se o grande pólo cultural da época, onde a cultura grega se mistura com a dos egípcios, babilônios, persas, judeus, gerando resultados interessantes e profícuos. Graças a essa combinação ocorrem novas especulações filosóficas, avanços científicos e o surgimento do hermetismo, em cujo contexto se desenvolvem a magia, a alquimia e também a astrologia. Aqui nasce a astrologia tal como a conhecemos hoje, ou pelo menos a sua estrutura e técnicas principais. É difícil, no entanto, saber o que é autenticamente egípcio e o que já existia na Babilônia, especialmente nas escolas de astrologia daquela região. Vimos que, no século IV a.C., os babilônios já faziam mapas natais com os planetas posicionados em graus do zodíaco. É até possível que já então usassem o Ascendente.

O que nos interessa nesta fase, digamos, grega da astrologia – pois já incluía contribuições gregas à ciência dos astros – é justamente o tema deste nosso artigo: os decanatos.  O que são decanatos?

Astronomicamente, o zodíaco babilônico era um círculo dividido em doze partes iguais, os chamados signos zodiacais, cada um com 30 graus de arco, perfazendo um total de 360 graus. Correspondia a uma representação esquemática da eclíptica, onde eram projetadas as órbitas dos planetas, do Sol e da Lua, e também de algumas estrelas. Para os que adotavam a teoria geocêntrica, todos esses corpos celestes giravam em torno da Terra.

Ora, não satisfeitos com essa divisão dodecatenária, e lembremos que já na Babilônia houve uma experiência de subdivisão de cada signo em mais doze partes iguais, ao que tudo indica os astrólogos helenistas aplicaram o sistema dos antigos decanos egípcios ao zodíaco. Como eram 36 constelações decanais, que se distribuíam num período de 360 dias, cada uma tinha a duração de 10 dias. No círculo, isso equivale exatamente a 10 graus de arco. Não foi necessário, portanto, um grande salto de imaginação para enxertar em cada signo do zodíaco três decanos. E assim chegamos àquilo que posteriormente passou a ser chamado de decanato. A cada decano egípcio estava associada, tradicionalmente, uma divindade, que passaria a presidir e influenciar aqueles 10 graus. Este era um dado importante em atividades que combinavam magia e astrologia.

Fragmentos de dois textos muito importantes destacam-se pela sua antiguidade. Provavelmente devem estar entre os primeiros manuais de astrologia produzidos no Egito helenista e que revelam uma evolução das técnicas puramente babilônicas. Ambos talvez tenham sido escritos no século II ou III a.C. São eles o Salmeschiniaka e o livro de Nechepso-Petosiris. O primeiro, que é citado pelo segundo e, portanto o antecede, aborda o tema dos decanos egípcios. Robert Schmidt cita o que seria um trecho do Salmeschiniaka mencionado por Hefaísto de Tebas:

“Os decanos devem ser examinados, visto que o primeiro do Horoskopos trata do nascimento; o 28° do Horoskopos, que culmina cedo, trata da subsistência; o 25°, que culmina ao meio-dia, trata da doença; o 9°, que nasce tarde no leste, trata dos ferimentos; o 17°, que nasce no oeste, trata do casamento e da esposa; o 8°, o portal de Hades, trata dos filhos; aquele no pivô subterrâneo trata da morte.”

Fica evidente nesta passagem que os decanos funcionavam de modo análogo ao que seriam futuramente as Casas Terrestres. O Salmeschiniaka também trabalha com ideias babilônicas ao apresentar uma divisão baseada em intervalos de cinco dias, que configuram 72 imagens, e ao citar o deus babilônico Nebu.

O outro texto, os fragmentos do livro de Nechepso-Petosiris, é, sem dúvida, bem mais relevante e influenciou muitos autores, como Hefaísto de Tebas, Vettius Vallens e Firmicus Maternus, que frequentemente fazem uso de seu conteúdo. Nechepso foi um rei egípcio que viveu por volta de 600 a.C. e Petosiris, provavelmente um sacerdote de Thoth que teria vivido no final do século III a.C. A autoria certamente é apócrifa, aproveitando-se talvez da autoridade desses personagens, que segundo a tradição eram iniciados nos mistérios de Hermes Trismegisto , a quem se atribuíam conhecimentos esotéricos sobre metafísica, magia, alquimia e astrologia. Daí veio a palavra hermetismo, que diz respeito à doutrina de Hermes, ou Hermes-Thoth, de muito prestígio na época do Egito dos Lágidas e futuramente entre os europeus do Renascimento.

Esses fragmentos introduzem presságios a respeito de eclipses e cometas, semelhantes àqueles formulados na Babilônia, previsões baseadas no nascer helíaco de Sirius, a questão da data da concepção e o cálculo da Parte da Fortuna, também usada para computar a duração da vida; mencionam ainda visões em que  Nechepso, orientado por Petosiris, recebe conhecimentos astrológicos, incluem um tratado sobre astrologia botânica e médica, além de discorrer sobre decanos e numerologia.

Os fragmentos de Nechepso-Petosiris parecem sintetizar em si a frequente alusão que astrólogos e autores helenistas faziam aos “antigos egípcios” e à sabedoria de Hermes. Na verdade, tal referência configura os sacerdotes egípcios helenizados, versados em astrologia e hermetismo, mas que mesmo antes de Alexandre já vinham recebendo, talvez através dos persas, informações sobre a astronomia e a astrologia da Babilônia. A palavra “antigos” aqui é enganosa, pois nada tem a ver com o Egito antigo faraônico, embora alguns elementos da astrologia hermética fossem de fato nativos.

Os decanos aparecem constantemente na literatura hermética. Assim como na antiga mitologia egípcia, estão sempre associados a divindades estelares. Uma imagem bem viva do zodíaco de 12 signos circundado pelos 36 decanos é a do célebre zodíaco egípcio do Templo de Hathor, em Denderah, provavelmente elaborado no século I d.C.

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Quase todos os autores da época utilizavam os decanos ou citavam essa técnica, que como vimos fazia parte de uma tradição. Interessante notar que Cláudio Ptolomeu, o grande astrólogo e astrônomo de Alexandria, sequer a menciona em seu Tetrabiblos, obra que se tornaria uma verdadeira bíblia da astrologia ocidental.  Não é nossa intenção neste artigo comparar a obra de Ptolomeu com a de outros astrólogos contemporâneos, mas essa omissão talvez revele um grau de independência típico de uma pessoa com senso crítico apurado.

Astrólogos como os autores dos textos atribuídos a Nechepso e Petosiris (sec I/II a.C.), Marcus Manilius (10 d.C.), Doroteu de Sidon (50 d.C.), Firmicus Maternus (337 d.C.), Paulus Alexandrinus (378 d.C.), Hefaísto de Tebas (380 d.C.) e o(s) autor(es) do Livro de Hermes (Liber Hermetis, sec V d.C.)., todos utilizavam o sistema dos decanos, ou decanatos, como passariam a ser conhecidos futuramente. Sabemos também que os textos de Nechepso-Petosiris foram fundamentais para disseminar a divisão decânica na interpretação de mapas astrológicos. Desconhecemos, porém, qualquer obra anterior que já incluísse os decanos  no zodíaco.

Na Astronomica de Manilius, cada signo é dividido em três decanos, e cada decano, por sua vez, está associado a um signo, na sequência natural do zodíaco. Os três primeiros decanos de Áries têm a natureza de Áries, Touro e Gêmeos; os de Touro são Câncer, Leão e Virgem; os de Gêmeos, Libra, Escorpião e Sagitário; e assim por diante. A distribuição de Manilius é diferente da de outros autores. Nestes, os decanos estão ligados aos planetas, seguindo a ordem: Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e Lua. O primeiro decano de Áries, no entanto,  pertence a Marte, e daí continua com Sol e Vênus, e depois Mercúrio, Lua e Saturno para os três decanos de Touro.

Mas nenhum signo tem o controle exclusivo sobre si mesmo: todos compartilham sua natureza com certos signos em partes iguais, e, por assim dizer, num espírito de hospitalidade, formam uma fraternidade celeste e cedem suas partes constituintes para custódia de outros signos. Este aspecto de nossa arte os gregos denominaram sistema de decanos.

Em Mathesis, o astrólogo romano Firmicus Maternus afirma que a efetividade dos decanos, ou seja, sua influência, não se estende ao signo inteiro, mas apenas a certos graus, que ele chama de ocupados, ao contrário dos graus vazios, onde não operam os poderes de nenhum decano. Quanto mais planetas, e também o Ascendente e o Meio-do-Céu, nesses graus ocupados e, portanto sob a ação de decanos, melhor será a vida de uma pessoa. Maternus revela também que Nechepso utilizava os decanos para prever doenças e aflições, conhecendo a relação entre aqueles e as diversas enfermidades.

No Livro de Hermes (Liber Hermetis), escrito provavelmente no século V d.C., mas cujo conteúdo é bem mais antigo, encontramos mais uma vez os decanos associados a certas doenças e mesmo a partes do corpo. São ideias de origem egípcia, de um passado remoto, pré-helenista, que misturam magia, constelações e divindades decanais com a astrologia zodiacal greco-babilônica.

… o 3° decano de Gêmeos produz dores musculares; o 1° decano de Câncer, doenças das artérias; o 2° rege o pulmão; o 3° produz males cardíacos; o 1° decano de Leão rege o estômago; o 2° é causa de obstruções de vasos? e de abscessos; o 3°produz a diafrixis (?) do ventre; o 1° decano de Virgem, os males do ventre; o 2° rege o fígado; o 3°, o baço…

Outro exemplo extraído da literatura hermética são os Discursos de Hermes a Thot, que fazem parte da Anthologium, de Estobeu, uma compilação de autores gregos, entre os quais textos atribuídos ao lendário Hermes Trismegisto, elaborada no século V. No Excerto VI dessa obra, Hermes explica a seu filho Thot o que são os 36 decanos:

Eu lhe digo, meu filho, que há um corpo que envolve todas as coisas. Tu deves conceber sua forma como sendo circular, pois tal é a forma do universo. E entende que abaixo do círculo desse corpo estão os trinta e seis Decanos, entre o círculo do universo e o do zodíaco, separando um círculo do outro; eles sustentam, por assim dizer, o círculo do universo, e estão acima do zodíaco.

Em outra obra da tradição hermética, o Asclépio, há também referência aos decanos. Mais uma vez é Hermes Trismegisto quem passa ensinamento, agora para o discípulo Asclépio.

O ousiarches do céu é Júpiter, pois, através do céu, Júpiter concede a vida a todas as criaturas. A luz é o ousiarches do sol, pois a bênção da luz derrama-se sobre nós através do orbe do sol. As trinta e seis (o termo é “horóscopos”) estrelas sempre fixas no mesmo lugar, têm como regente ou ousiarches aquele cujo nome é Pantomorphos ou Omnimorfo, que constrói várias formas dentro de várias classes.

“Estou agora estudando os Platonistas do século XII e descobrindo que escreviam num latim muito difícil. Na obra de um deles, Bernardus Silvestris, há uma palavra sobre a qual gostaria de ter sua opinião – é a palavra Oyarses. Aparece na descrição de uma viagem através dos céus; e um Oyarses parece ser a “inteligência” ou espírito tutelar de uma esfera celeste, o que corresponde em nossa língua a um planeta. Falei com C. J. sobre isto e ele disse que deve ser Ousiarches, o que faria sentido. Não fiquei, porém, plenamente satisfeito com esta hipótese e gostaria de saber se já encontrou alguma palavra semelhante a Oyarses, ou se tem alguma ideia da língua a que possa pertencer”. C. S. Lewis – Além do Planeta Silencioso pág. 215

 Numa interpretação relativamente recente sobre o enigmático significado dos desenhos da famosa Tazza Farnese, uma sofisticada taça de libação feita de sardônica, presumivelmente originária de uma corte alexandrina do século I a.C., Dwyer identifica nessa extraordinária obra de arte correspondências entre planetas, constelações, zodíaco e decanos. Segundo este autor, as figuras que aparecem no interior da taça representam uma alegoria da criação de acordo com o tratado hermético Poimandres, o Livro I do Corpus Hermeticum.

Tazza Farnese

Desdobramentos e Conclusão

Durante a Idade Média e o Renascimento, os decanos ou decanatos foram  importantes não só na astrologia propriamente dita, mas também nas operações de magia. As divindades, ou por vezes demônios (daimons), que presidiam cada 10 graus do zodíaco eram invocados com frequência. Seguindo a tradição hermética, cada um dos decanos estava associado a certas plantas, flores, pedras, minerais e animais. Os ocultistas então invocavam esses 36 decanos pretendendo com isso manipular e controlar o destino.

Entre todas as referências feitas aos decanos nesse período, destaca-se aquele que é um dos mais importantes manuais de magia da Idade Média, o Ghayat al-Hakim, um manuscrito sobre magia astral redigido antes do século XIII por um hermetista árabe desconhecido que utiliza fontes anteriores ao século X. Traduzido para o espanhol em 1256 e depois para o latim, ficou mais conhecido no Ocidente como Picatrix.  Misterioso, confuso, um dos mais completos grimoires, o Picatrix foi leitura obrigatória para nomes como Cornelius Agrippa, Marsilio Ficino, William Lilly e Elias Ashmole. Trata-se de, na verdade, de uma compilação de obras antigas sobre hermetismo, neo-platonismo e de muitos autores árabes, entre os quais, o célebre Abu Ma’shar. E foi a partir da obra de Abu Ma’shar que os decanos chegaram ao Picatrix.

Aqui os decanos estão associados aos planetas. O primeiro decano de cada signo pertence ao planeta regente do signo. Os dois decanos seguintes são atribuídos aos planetas regentes dos signos seguintes da mesma triplicidade, na sequência zodiacal. Assim, o primeiro decano de Áries pertence a Marte; o segundo, ao Sol e o terceiro, a Júpiter. O primeiro decano de Touro está associado a Vênus; o segundo, a  Mercúrio e o terceiro, a Saturno. O primeiro decano de Gêmeos vincula-se a Mercúrio; o segundo, a Vênus e o terceiro, a Saturno; e assim por diante. Além disso, a cada decano são atribuídos dois talismãs e uma cor.

Por outro lado, vivendo no final do século XVI e começo do século XVII, o matemático e astrólogo Jean-Baptiste Morin, também conhecido como Morin de Villefranche, era um ferrenho seguidor de Ptolomeu, e como este, desprezava o sistema dos decanos. Diferentemente, porém, do autor do Tetrabiblos, Morin não se contenta com o silêncio e atribui às proezas do Demônio algumas das subdivisões impostas ao zodíaco, entre elas a decânica. Mas que esta citação do tão difamado Satanás não nos leve a pensar que Morin fosse um autor ingênuo ou coisa parecida. Muito pelo contrário, ele desenvolveu uma verdadeira sintaxe para a leitura do mapa astrológico, sem a qual a astrologia não pode ser considerada uma linguagem, mas apenas uma salada de signos, no sentido semiótico do termo.

Um século depois, no sistema de dignidades utilizado por William Lilly (século XVII), que serve para aferir a força de um planeta enquanto agente promissor, a face, que é a última das dignidades, a de menor peso, constitui uma divisão ternária em cada signo do zodíaco, semelhante aos decanos. Como estes, as faces são subdivisões iguais de 10 graus de arco. Também neste esquema, cada face está associada a um planeta. A sequência, começando em Áries, é a da astrologia helenista: Marte – Sol – Vênus- Mercúrio – Lua – Saturno – Júpiter. É a chamada ordem dos caldeus.

Na astrologia moderna, com exceção daqueles que seguem as técnicas de William Lilly ou insistem em fazer “magia”, os astrólogos distribuem os decanatos segundo a ordem das triplicidades: o primeiro decanato pertence ao próprio signo e os dois outros, na ordem de sequência, aos dois signos (mais do que aos planetas) seguintes da mesma triplicidade, como vimos no Picatrix. Mas aqui o que vale são os signos, o que torna mais diversificada a leitura do mapa. Observa-se, no entanto, que mesmo levando em consideração a validade dos decanatos, os próprios astrólogos que fazem uso deles não se entusiasmam muito com sua importância (dos decanatos, é claro). Serviriam para dar um maior detalhamento à análise, embora não se explique como articular, na interpretação, esses significados com as outras variáveis do mapa. Na verdade fica valendo aquela velha história: mistura e manda! Ou seja, na há nenhum ordenamento, nenhum método para a interpretação, é tudo um caos onde se embaralham e se entrechocam um sem-número de componentes, resultando em leituras contraditórias, desnecessariamente complexas  e não raro disparatadas.

Primeiramente vimos que os decanos egípcios e seus significados mítico-religiosos foram enxertados num sistema que lhes era estranho, qual seja, o zodíaco babilônico. Este verdadeiro sincretismo de culturas que foi o ambiente cultural de Alexandria também foi o ambiente onde nasceu o hermetismo e a astrologia hermética, que incluía contribuições gregas, babilônicas e egípcias. Na astrologia hermética, os decanos eram utilizados num contexto mágico-metafísico, como podemos inferir dos fragmentos de Nechepso-Petosiris e do Livro de Hermes, no caso da magia, e de alguns textos que fazem parte da Hermetica Corpus Hermeticum, Asclépio e os Excertos de Estobeu -, no caso da metafísica.

As atribuições de cada decanato e, portanto seu significado, variaram consideravelmente no decorrer dos séculos, e muito, muito mais do que a natureza dos signos, planetas e Casas Terrestres. Só este aspecto já é mais do que suficiente para colocá-lo no mínimo sob suspeita. Soma-se a essa irregularidade o fato de ser usado sem muito destaque mesmo no sistema de William Lilly. Astrólogos têm uma tendência a acumular indiscriminadamente toda e qualquer  técnica que lhes seja apresentada. Nos dias de hoje, muitos se perdem num cipoal de sistemas, novos e antigos, sem se preocupar em construir um método de análise, pensando ingenuamente tratar-se de um artista exercitando a liberdade criativa, pensando estar utilizando uma linguagem, quando na verdade não existe linguagem sem sintaxe, sem ordenamento ou marcação de função.

Embora a astrologia moderna não se tenha despegado totalmente do espírito esotérico, já é possível observar uma tímida, porém detectável, tendência em direção ao método científico. Creio que não é com pouca resistência que tentaremos levar adiante a proposta de uma astrologia construída a partir da observação sistemática das correlações entre a mecânica celeste e os fenômenos naturais e humanos. Entendemos que o método científico é quem faz a leitura mais profunda e eficiente do cosmo, desse todo ordenado que é o universo e as entidades biológicas, conhecidas ou não, que nele nascem, vivem e morrem; é esse mesmo método que tem construído os modelos mais consequentes que conhecemos. Provavelmente não deve ser o único válido, deve haver outros caminhos. Sabemos, porém, por experiência histórica, que discursos pomposos e malabarismos linguísticos são áridos como o deserto. No final das contas, o que eles têm para nos mostrar é absolutamente nada.

denderapic4