Astrologia na Medicina e Psicologia

A Jornada do Herói e os Ciclos Astrológicos

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Ana Maria Mendez González

Mestre em Literatura Portuguesa pela USP

Origem do Texto: História, imagem e narrativas – Nº 10, abril/2010 – Edição Especial – ISSN 1808-9895

Resumo

Abordagens interdisciplinares possibilitam a aproximação de linguagens variadas e também análises que mesclam diferentes áreas da cultura. Assim, partimos do conceito da jornada do herói de Joseph Campbell, que de forma cíclica, indica um caminho de aprendizagem e transformação do ser humano. Daí, vamos à área dos símbolos astrológicos e observamos as semelhanças que existem no conceito de ciclos temporais com o da jornada do herói. Mais do que simples semelhanças, encontramos nessa aproximação uma contribuição para a compreensão deste mundo e da vida humana. A mesma grandeza pode ser percebida nas duas abordagens elevam a vida, fecundam-na de símbolos e de significados.

No mundo contemporâneo, as linguagens se misturam e constroem um novo conceito de cultura que é agora interdisciplinar. É por essa perspectiva que alguns estudiosos de astrologia observam a teoria de Joseph Campbell: pela possibilidade de diálogo entre áreas. Assim, as relações entre o conceito da jornada do herói e do ciclo temporal no contexto astrológico formam a base de sustentação deste estudo. Embora esta abordagem não seja nova, ainda não foi elaborada do ponto de vista da teoria do imaginário, aspecto que me interessa de forma particular.

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1. A jornada do herói

Este importante conceito na obra de Joseph Campbell está descrito no livro O herói de mil faces. O herói seria alguém que “conseguiu vencer suas limitações históricas, pessoais e locais e alcançou formas normalmente válidas, humanas.” (2007, p.28)

Tal idéia mostra-se importante no mundo contemporâneo. Não se pode mais duvidar da decadência do mundo contemporâneo que foi apontada pelo mesmo Campbell já no livro citado que saiu pela primeira vez em 1949. Porém, ainda segundo ele, o herói seria aquele através do qual a sociedade pode renascer. O herói, esse homem exemplar, seria aquele que poderia trazer alguma nova idéia ou ação capaz de elevar a qualidade de vida e de percepção do mundo para todos, identificando-se não com uma comunidade específica, mas com a humanidade eterna e universal. Tendo empreendido uma viagem especialmente caracterizada, ele teria forjado em si essa capacidade maior, porque os heróis “falam com eloqüência, não da sociedade e da psique atuais, em estado de desintegração, mas da fonte inesgotável por intermédio da qual a sociedade renasce.” (Campbell, 2007, p. 28).

Tal jornada se constituiria por algumas fases que se repetem com variações nas muitas sociedades estudadas por Campbell. De acordo com um percurso padrão, o herói se depararia com três etapas básicas. Na primeira, haveria uma separação do seu lugar de origem. O indivíduo se lançaria ao desconhecido e se colocaria á mercê de situações-limite tais como provas, desafios e perigos inomináveis. Tais situações serão responsáveis por uma iniciação, uma transformação formidável do herói. A partir daí, o indivíduo promoveria o retorno ao lugar de origem com um presente para seus pares, um benefício para a comunidade. Na verdade, parafraseando o autor, o herói passaria por dificuldades para sair das “regiões causais da psique” e chegaria no “domínio das imagens arquetípicas”, alcançando o “conhecimento dessa unidade” (Campbell, 2007, p. 27). Ele estaria, então, fora da dualidade causa e efeito e seria portador de um presente especial para seus pares, a vivência da unidade. A aquisição desse conhecimento permitiria ao ser humano uma perspectiva menos instável da vida.

Uma circularidade se expressa quando o herói volta à origem, transformado. Um ciclo se desenvolve e um determinado crescimento humano acontece. Além disso, esse trabalho pessoal com a intenção de uma melhoria coletiva mostra-se essencial para que se possa ultrapassar a materialidade da concepção de vida urbana, contemporânea, faltosa de valores e esquecida daquilo que justifica a existência humana.

Esta concepção da jornada do herói, assim apresentada com elementos formadores de um ser humano consistente e capaz de uma ação de âmbito universal é inspiradora de abordagens astrológicas.

2. Os heróis e o percurso do tempo na astrologia

A jornada do herói, acima descrita de forma elementar, pode ser aplicada na perspectiva astrológica. Jornadas são também cantadas popularmente em prosa e verso. São caminhos que percorremos na vida. Estradas a serem trilhadas. Uma viagem que tem um fim certeiro. Um ponto de partida e uma chegada, um destino inexorável. Uma trajetória no tempo de vida.

A compreensão dos ciclos temporais é relevante no saber astrológico, a respeito do qual cabe aqui fazer uma ressalva. A astrologia não será entendida como uma técnica previsiva – maneira pela qual ela é popularmente conhecida – mas como uma das manifestações culturais humanas, tais como as religiões, filosofias, artes, formas sociais do homem primitivo e histórico, ciência e tecnologia, manifestações que “surgem do ciclo básico e mágico do mito” (Campbell, 2007, p.15). Ela também faz parte do grupo de criações culturais do ser humano, que é um ser histórico.

A astrologia nos oferece desde suas raízes uma interpretação da relação do ser humano com a natureza, expressando assim uma concepção da vida. Desde então ela lida com a matéria prima da vida, o tempo. O homem primitivo quando olhou para o céu, viu uma seqüência temporal. O tempo apareceu então na percepção daquele ser primitivo. Desde então, o homem sempre se deparou com a observação do movimento da lua, do sol e dos planetas. A percepção inicial pôde ser ampliada: a natureza humana se expressa em ciclos temporais. Essa aliança com a astronomia sempre esteve presente na astrologia, resguardada ao longo dos séculos.

Na verdade, há mais do que um simples percurso temporal. Alexander Ruperti, estudioso da abordagem humanística da astrologia, nos diz que “A astronomia nos fornece os dados e a astrologia interpreta-os com referência aos processos de vida na Terra e, particularmente, dentro do indivíduo.” (1986, p.19) Ou seja, tais ciclos observáveis astronomicamente são passíveis de representação simbólica e astrológica. Basta que o indivíduo utilize de sua capacidade representativa para entrar em contato com seus percursos temporais significativos.

O ciclo, que segundo ele é “uma estrutura-forma de tempo” (Ruperti, 1986, p.17) pode ser geral, quando se refere a todos os indivíduos em certas épocas de vida, e também pessoal, medido a partir de mapas individuais.

Essa representação dos ciclos temporais possibilitou o estabelecimento de relações da astrologia com a teoria de Campbell, com os conceitos de arquétipo de Jung e com os mitos. Alguns astrólogos desenvolveram suas reflexões utilizando esses conceitos.

Erin Sullivan, professora e astróloga, desenvolve uma abordagem bastante estruturada, elegendo os trânsitos de Saturno como elemento primordial para a relação que estabelece com a jornada do herói. Justifica a escolha desse planeta por ele significar os limites entre o pessoal e o social, o dentro e o fora, entre cultura e natureza pessoal. Ela justifica sua escolha por ser ele “o planeta que nos liga à encarnação, que representa o guardião do portal entre o mundo das formas e o âmbito do imaginário”. (1994, p.19) Saturno seria a interface entre o óbvio e o oculto. Entre os oito planetas (Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno, Plutão) e os dois luminares (Sol e Lua) ele seria o que nos oferece o limite de nossa humanidade. Ele força o ego ao confronto com o desenvolvimento, possibilita que se efetue o processo civilizador da consciência. Erin Sullivan sabia, com certeza, que Campbell identifica (2007, p.230) o herói como o senhor dos dois mundos, o que tem “a liberdade de ir e vir pela linha que divide os mundos.”

Cumpre apresentar neste ponto algumas considerações a respeito da teoria astrológica, para que se possa compreender como tal relação se torna possível. A astrologia apresenta o zodíaco formado pela roda dos signos, que significam genericamente qualidades humanas. Os quadrantes, formados pelas casas, definem aspectos da experiência humana no mapa pessoal. Os planetas, por sua vez, caminham pelos quadrantes – e pelos signos – de acordo com seu passo astronômico físico.

A astróloga utiliza o trânsito de Saturno por esses quadrantes para explicar a jornada do herói. Assim o indivíduo, quando tivesse tal planeta em determinado ponto de seu mapa natal, viveria a experiência do chamado á aventura, que é o ponto de partida da jornada do herói segundo Campbell.

Tal quadrante seria o do Meio do Céu, escolhido por ser aquele “onde a pessoa oferece suas habilidades combinadas á sociedade, refinando-as ao grau máximo. A combinação de autoconsciência e de envolvimento ativo com o mundo e a sociedade constituem o estágio inicial do chamado á aventura.” (1994, p.212). No Meio do Céu, o indivíduo viveria a vocação, de caráter intensamente pessoal e não o que a família ou as instituições sociais designaram para ele. Daí, o paralelo que se pode fazer em relação ao chamado à aventura de Campbell, que também inclui um movimento particular e intencional.

Daí em diante, a estudiosa vai relacionando a passagem de Saturno pelos quadrantes estabelecendo relações com as fases da jornada do herói. A pessoa, segundo essa interpretação, teria a oportunidade de experimentar todas as fases da jornada do herói: a descida para o desconhecido, o contato com os requisitos primários para a sobrevivência; as ações são primárias e instintivas. Depois, a preparação inconsciente para a relação com o mundo exterior e o desenvolvimento de outras habilidades para a sua relação com os outros, da expiação inicial à recuperação do tesouro perdido. As habilidades sociais e pessoais do indivíduo seriam desenvolvidas e levadas adiante como dádivas. E haveria enfim, o encontro com os outros de maneira significativa e a observação de sua utilidade para a sociedade.

A autora expõe casos práticos dessa leitura simbólica e mítica, procurando enfatizar a relevância da experiência de crescimento do indivíduo.

Liz Greene, diretora do Centro de Astrologia Psicológica em Londres, de maneira talvez um pouco menos organizada, também se utiliza dos conceitos de mito e da jornada de Campbell em seu trabalho. Para ela, “os mitos são um auto-retrato criativo e imaginativo da psique descrevendo sua própria evolução – seu próprio destino.” (1989, p.153). Ela transita entre os campos da imaginação, dos arquétipos e dos mitos, identificando a teoria da jornada de Campbell como “um mapa do desenvolvimento da cultura e da viagem psíquica da pessoa pela vida” (1989, p. 157).

Da teoria astrológica, escolhe o conceito de signo para expressar sua compreensão. Ela julga que o signo é mais do que uma simples lista de qualidades de comportamento. Mais do que essa interpretação popularmente conhecida, cada signo seria um mythos (1989, p.156), um esquema ou plano retratado numa história, um padrão arquetípico, habitado por um ou vários personagens míticos. Cada signo conteria um herói, uma possibilidade de jornada dentro de uma história particular.

Mas, faz algumas ressalvas interessantes em suas reflexões sobre essa aproximação entre os conceitos de mito e de astrologia. Segundo ela, “o mito não é um sistema estruturado e ordenado de símbolos como a astrologia” (1989 p.158/9). São dinâmicos e fluidos e, portanto, alguns mitos podem se aproximar mais de alguns signos do que com outros. Não há um enquadramento único possível, e “alguns mitos são tão universais que se aplicam a todos /signos/: um deles é a saga do herói.” (1989, p.159). Assim, na seqüência de signos, e em cada um deles, se aplicaria essa representação simbólica e mítica.

Seja na abordagem de Liz Greene, com a possibilidade de uma ou múltiplas histórias míticas, seja na de Erin Sullivan, com o acompanhamento do trânsito de Saturno, faz-se a incorporação imaginativa do mundo dos arquétipos, dos mitos e da jornada do herói. O saber astrológico abre-se para interpretações inspiradoras de uma percepção da vida humana plena de significados.

Mas ainda cabem outras observações a esse respeito.

3. Leituras, limites do imponderável

O conceito de jornada do herói e o saber astrológico são manifestações culturais e simbólicas. São frutos do caldeirão mítico. Justifica-se tal aproximação porque podem contribuir para a compreensão deste mundo, para o entendimento da vida humana. A mesma grandeza pode ser percebida nas duas abordagens. Elevam a vida, fecundam-na de símbolos e de significados.

Campbell apresenta o ser humano passando de um padrão local para o universal, de um padrão temporal para outro atemporal. Ele identifica essa trajetória e constrói passo a passo uma seqüência que é transformadora. Enquanto o ser humano passa pelas fases dessa jornada, ele se transforma a cada nova paisagem de sua experiência, ele se caracterizaria como um ser heróico. Liz Greene também percorre os terrenos do mito e abarca a concepção de Campbell, dando-lhe definições dentro do espaço astrológico. Erin Sullivan corrobora nessa linha de observação, dando contornos bem definidos para a aplicação de uma teoria na outra.

Tais teorias são leituras em que o ser humano tem desvendadas novas possibilidades para a compreensão de sua vida, a mesma vida que, de repente, é outra, é mais ampla, é mais. Há incorporação de significados na teoria de Campbell, há incorporação também na leitura astrológica que pode se aproveitar dessa metáfora inspiradora. Faz-se nas duas linguagens o enriquecimento de um mundo empobrecido de significados, apesar de tantos signos o habitarem. Permitem o resgate do que se perdeu ao longo do tempo pelo caminho da civilização. Campbell diz “Ele (o homem) e/ou o mundo em que se encontra sofrem de uma deficiência simbólica.” (p.41).

Nunca se viu tanta abundância de signos (e imagens) como na civilização contemporânea. Mas, não há garantias de que eles sejam vividos para inspirar a experiência humana. Há que se encantar o homem e o mundo em que ele vive com possibilidades de leitura e de significação. As leituras não são absolutas, elas dependem da capacidade de significar. Diz o poeta Manoel de Oliveira: “O olho vê, a memória revê, e a imaginação transvê. É preciso transver o mundo.” Para além de todas as realidades se encontra o mundo do simbólico. O poeta sabe que há necessidade de se ir em direção ao imaginário.

Há que se descobrir um herói numa jornada mágica, há que se alinhar ao passo de Saturno ultrapassando o limite do óbvio para o oculto, quem sabe, também descobrir as histórias míticas de cada signo. Todas essas leituras nos exigem a imaginação criativa, o vôo no abstrato, atravessar a ponte entre o visível e o invisível. Entrar por uma janela na direção da vocação de nossa alma.

Aí se encontra a intersecção em que podemos ultrapassar a realidade concreta. Nesse nível intermediário de percepção e de imaginação encontramos a capacidade de interpretar além das aparências do sensível em direção aos significados simbólicos. É, portanto com a experiência do imaginário que essa inspiração pode acontecer. Nesse momento, a comunicação com a alma também poderá ocorrer.

E se o imaginário não entreabrir o espaço privilegiado de significados nos indivíduos, para promover o encantamento, o encontro com a alma, nada terá acontecido. E o simbólico inexistirá e o estéril do mundo continuará a ocupar o espaço em que tem se expandido.

O simbólico fecunda a jornada do herói e a leitura do ciclo astrológico. Cumpre desejar que essa fertilização seja cada vez mais o caminho. Que o diálogo com a alma seja o caminho.

Referências Bibliográficas

CAMPBELL, JosephO heroi de mil faces. SP: Cultrix/Pensamento, 2007.

DURAND, Gilbert O imaginário ensaio acerca das ciências e da filosofia da imagem. RJ: Difel, 1998.

GREENE, LizA Astrologia do destino. SP: Cultrix/Pensamento, 1989.

SULLIVAN, ErinSaturno em trânsito. 2ª. Ed.SP: Edit Siciliano, 1994.

RUPERTI, Alexander Ciclos de evolução. Modelos planetários de desenvolvimento. SP: Pensamento, 1986.

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Shiva

Joseph Campbell

O herói de Mil Faces

 O Herói e o Deus

 O percurso padrão da aventura mitológica do herói é uma magnificação da fórmula representada nos rituais de passagem: separação-iniciação-retorno — que podem ser considerados a unidade nuclear do monomito.1

 1 O termo “monomito” é de James Joyce, Finnegans wake, Nova York, Viking Press, Inc., 1939, p. 581.

 Um herói vindo do mundo cotidiano se aventura numa região de prodígios sobrenaturais; ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva; o herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios aos seus semelhantes.

 Prometeu foi aos céus, roubou o fogo dos deuses e voltou à terra. Jasão navegou por entre as rochas em colisão para chegar a um mar de prodígios, evitou o dragão que guardava o Velocino de Ouro e retornou com o Velocino e com o poder de recuperar o trono, que lhe pertencia por direito, de um usurpador. Enéias desceu ao mundo inferior, cruzou o horrendo rio dos mortos, atirou um bocado de comida embebida em uma substância calmante ao cão de guarda de três cabeças, Cérbero, e finalmente conversou com a sombra do seu falecido pai. Tudo lhe foi revelado: o destino dos espíritos e o de Roma, que ele estava por descobrir: “e, com essa sabedoria, ele poderia evitar ou enfrentar todas as provações”2. Retornou, passando pelo portão de marfim, ao seu trabalho no mundo.

 2 Virgílio, Eneida, VI, 892.

 Uma majestosa representação das dificuldades envolvidas na tarefa do herói, assim como da sublime importância que ela assume quando compreendida profundamente e realizada com solenidade, é apresentada na lenda tradicional da Grande Luta do Buda. O jovem príncipe Gautama Sakyamuni escapou secretamente do palácio de seu pai no principesco cavalo Kantaka, passou miraculosamente pela porta guarnecida, cavalgou noite adentro guiado pela tochas de quatro vezes sessenta mil divindades (Devas), cruzou sem problemas um majestoso rio de mil cento e vinte e oito cúbitos (Antiga medida de comprimento equivalente a cerca de cinqüenta centímetros) de largura e então, com um único golpe de espada, cortou suas próprias mechas reais — com isso, o cabelo restante, de dois dedos de comprimento, se inclinou para a direita e ficou rente à sua cabeça. Vestindo roupas de monge, viveu como um mendigo pelo mundo e, no decorrer desses anos em que vagou aparentemente sem destino, alcançou e transcendeu os oito estágios da meditação. Retirou-se para um eremitério, aplicou seus poderes durante mais seis anos, à grande luta, levou a austeridade ao extremo e caiu num estado de morte aparente, mas terminou por recuperar-se. E então retornou à vida menos rigorosa do caminhante ascético.

 Num certo dia, ele se sentou sob uma árvore, contemplando a face voltada para o leste, e a árvore se iluminou com a luz que irradiava. Uma jovenzinha chamada Sujata foi até ele e lhe deu arroz numa tigela de ouro; quando ele atirou a tigela vazia num rio, esta ficou flutuando sobre as águas. Esse foi o sinal de que o momento do seu triunfo estava próximo. Ele se levantou e seguiu por uma estrada demarcada pelos deuses, que tinha mil cento e vinte e oito cúbitos de largura. As cobras, os pássaros e as divindades das florestas e campos lhe fizeram homenagem com flores e perfumes celestiais, cantaram coros divinos, e os dez mil mundos se encheram de perfumes, guirlandas, harmonias e gritos de aclamação; pois ele estava a caminho da grande Árvore da Iluminação, a Árvore Bo, debaixo da qual iria redimir o universo. Ele se colocou, com firme determinação, sob a Árvore Bo, no Ponto Imóvel, e imediatamente foi abordado por Kama-Mara, o deus do amor e da morte.

 O perigoso deus surgiu montado num elefante, portando armas em suas mil mãos. Estava cercado pelo seu exército, que se estendia a doze léguas diante dele, doze para a direita, doze para a esquerda e, na retaguarda, até os confins do mundo; tinha nove léguas de altura. As divindades protetoras do universo fugiram, mas o Futuro Buda permaneceu imóvel sob a árvore. E o deus investiu violentamente contra ele, tentando quebrar-lhe a concentração.

 Furacões, rochas, relâmpagos e chamas, armas fumegantes, de gumes afiados, carvões em brasa, cinzas quentes, lama fervente, areias escaldantes e a escuridão absoluta — tudo isso foi jogado pelo Antagonista contra o Salvador, mas foi transformado em flores e ungüentos celestiais pelo poder das dez perfeições de Gautama. Mara, então, enviou suas irmãs, Desejo, Dissipação e Luxúria, cercadas por voluptuosos servos, mas a mente do Grande Ser não se distraiu. Por fim, o deus contestou seu direito de sentar-se no Ponto Imóvel, arremessou raivosamente seu afiadíssimo disco e ordenou ao seu enorme exército que atirasse pedras sobre o Futuro Buda. Mas este último apenas moveu a mão para tocar o solo com as pontas dos dedos e pediu à deusa Terra que desse testemunho do seu direito de sentar-se no local em que estava. Ela o fez com uma centena, um milhar, uma centena de milhar de bramidos, de modo que o elefante do Antagonista ficasse de joelhos em obediência ao Futuro Buda. O exército foi imediatamente dispersado, e os deuses de todos os mundos espalharam guirlandas.

 Tendo obtido essa vitória preliminar antes do pôr-do-sol, o conquistador obteve, na primeira vigília noturna, o conhecimento de suas existências precedentes; na segunda vigília, conheceu o divino olho da visão onisciente; e, na última, a compreensão da cadeia de causalidade. Experimentou a perfeita iluminação na alvorada.3

 3 Trata-se do mais importante momento da mitologia oriental, uma contraparte da Crucifixão do Ocidente. Buda sob a Árvore da Iluminação (a Árvore Bo) e Cristo na Sagrada Cruz (a Árvore da Redenção) são figuras análogas que incorporam um motivo arquetípico do Salvador do Mundo e da Árvore do Mundo, cuja origem vem da antigüidade imemorial. Muitas outras variantes do tema serão encontradas entre os episódios a seguir. O Ponto Imóvel e o Monte Calvário são imagens do Centro do Mundo ou Eixo do Mundo. O apelo à Terra como testemunha é representado, na arte budista tradicional, por imagens do Buda, na postura clássica de Buda, com a mão direita repousando sobre o joelho direito e com os dedos tocando ligeiramente o solo.

 Depois disso, Gautama — agora o Buda, o Iluminado — permaneceu durante sete dias imóvel, em êxtase; durante sete dias, manteve-se afastado e observou o ponto no qual havia recebido a iluminação; durante sete dias, ficou entre o local de sentar-se e o local de estar de pé; durante sete dias, residiu num pavilhão fornecido pelos deuses e revisou toda a doutrina da causalidade e da libertação; durante sete dias, ficou sentado sob a árvore em que a jovem Sujata lhe havia dado o arroz numa tigela de ouro, e ali meditou sobre a doutrina da doçura do Nirvana; passou para outra á árvore, e uma grande tempestade rugiu durante sete dias, mas o Rei das Serpentes saiu das raízes e protegeu Buda com seu amplo capelo; por fim, o Buda ficou sentado durante sete dias sob uma quarta árvore, saboreando ainda a doçura da libertação. Depois, duvidou que sua mensagem pudesse ser comunicada e pensou em reter a sabedoria que obtivera só para si; mas o deus Brahma desceu do zênite para implorar-lhe que se tornasse mestre dos deuses e dos homens. Assim, o Buda foi convencido a proclamar o Caminho4. E retornou às cidades dos homens, onde caminhou entre os cidadãos do mundo, distribuindo o benefício inestimável do conhecimento do Caminho.5

 4 Isso significa que apenas o caminho da Iluminação, e não a Condição de Buda, Iluminação, pode ser comunicado. Essa doutrina da incomunicabilidade da Verdade, que está além dos nomes e das formas, é básica para as grandes tradições oriental e platônica. Enquanto as verdades da ciência são comunicáveis, em sua condição de hipóteses demonstráveis racionalmente, fundadas em fatos observáveis, o ritual, a mitologia e a metafísica são apenas guias para a via de uma iluminação transcendente, cujo último trecho deve ser percorrido individualmente, na própria experiência silenciosa de cada um. Eis porque uma das palavras sânscritas para sábio é muni, “o silencioso”. Sãkyamüní (um dos títulos de Gautama Buda) significa “o silencioso ou sábio (muni) do clã Sakya“. Embora o Buda seja fundador de uma religião mundial amplamente ensinada, o núcleo último de sua doutrina permanece oculto, necessariamente, no silêncio.

 5 Amplamente resumido de Jataka, Introdução, i, 58-75 (tradução de Henry Clarke Warren, Buddhism in translations, Harvard Oriental Series, n.° 3), Cambridge, Massachusetts, Harvard University Press, 1896, pp. 56-87, e do Lalitavistara conforme a versão de Ananda K. Coomaraswamy, Buddha and the gospel of buddhism, Nova York, G. P. Putnam’s Sons, 1916, pp. 24-38.

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 O Antigo Testamento registra uma façanha comparável na lenda de Moisés, que, no terceiro mês de sua partida de Israel, em viagem para a terra do Egito, chegou com seu povo ao deserto do Sinai; ali o povo de Israel armou suas tendas junto à montanha. E Moisés foi até a presença de Deus, e o Senhor falou com ele da montanha, deu-lhe as Tábuas da Lei e lhe ordenou que retornasse com elas para junto do povo de Israel, o povo do Senhor.6

 6 Êxodo, 19:3-5.

 A lenda judaica afirma que, no decorrer do dia da revelação, diversos estrondos vindos do monte Sinai se fizeram ouvir. “Relâmpagos, acompanhados do som cada vez mais alto de trompas, provocavam no povo um medo e um tremor irresistíveis. Deus inclinou os céus, moveu a terra e fez tremer os limites do mundo, de modo que as profundezas se abalaram e os céus se assustaram. Seu esplendor passou pelos quatro portais de fogo, terremoto, tempestade e granizo. Os reis da terra estremeceram em seus palácios. A própria terra pensou que a ressurreição dos mortos estava prestes a ocorrer e achou que havia chegado o momento de responder pelo sangue dos assassinados, que havia absorvido, e pelos corpos das vítimas de homicídio, que havia encoberto. A terra só se acalmou quando ouviu as primeiras palavras do Decálogo.

 ”Os céus se abriram e o monte Sinai, liberto da terra, se elevou no ar, de modo que o seu topo atingiu os céus, enquanto uma espessa nuvem lhe cobria os flancos, e tocou os pés do Divino Trono. Acompanhando Deus, de um lado, surgiram vinte e dois mil anjos com as coroas dos levitas, a única tribo que permaneceu fiel a Deus, enquanto as demais adoraram o Bezerro de Ouro. Do outro lado de Deus, havia sessenta miríades, três mil quinhentos e cinqüenta anjos, cada um deles portando uma coroa de fogo para cada um dos israelitas. Do terceiro lado de Deus, havia o dobro desse número, enquanto no quarto lado eram simplesmente inumeráveis. Pois Deus não surgiu de uma única direção, mas de todas as direções ao mesmo tempo, o que, todavia, não evitava Sua glória de ocupar todos os cantos dos céus e da terra. Apesar dessas hostes inumeráveis, não havia uma aglomeração no monte Sinai, nenhuma multidão; havia espaço para todos.”7

 7 Louis Ginzberg, The legends of the Jews, Filadélfia, The Jewish Publication Society of America, 1911, vol. III, pp. 90-94.

 Como vamos ver, dentro em breve, quer se apresente nos termos das vastas imagens, quase abismais, do Oriente, nas vigorosas narrativas dos gregos ou nas lendas majestosas da Bíblia, a aventura do herói costuma seguir o padrão da unidade nuclear acima descrita: um afastamento do mundo, uma penetração em alguma fonte de poder e um retorno que enriquece a vida. Todo o Oriente foi abençoado pela dádiva que Gautama Buda trouxe consigo — seu maravilhoso ensinamento da Boa Lei —, tal como o Ocidente o foi pelo Decálogo de Moisés.

Os gregos atribuíram o fogo, o primeiro apoio de toda cultura humana, à façanha, que transcendeu o mundo, do seu Prometeu, e os romanos atribuíram a fundação da sua cidade, suporte do mundo, a Enéias, realizada após sua partida da decadente Tróia e de sua visita ao lúgubre mundo inferior dos mortos. Em todos os lugares, pouco importando a esfera do interesse (religioso, político ou pessoal), os atos verdadeiramente criadores são representados como atos gerados por alguma espécie de morte para o mundo; e aquilo que acontece no intervalo durante o qual o herói deixa de existir — necessário para que ele volte renascido, grandioso e pleno de poder criador — também recebe da humanidade um relato unânime. Assim sendo, temos apenas que seguir uma multidão de figuras heróicas, ao longo dos estágios clássicos da aventura universal, para ver outra vez o que sempre foi revelado. Isso nos auxiliará a compreender, não apenas o significado dessas imagens para a vida contemporânea, mas também a unidade do espírito humano em termos de aspirações, poderes, vicissitudes e sabedoria.

 O retorno e reintegração à sociedade, que é indispensável à contínua circulação da energia espiritual no mundo e que, do ponto de vista da comunidade, é a justificativa do longo afastamento, pode se afigurar ao próprio herói como o requisito mais difícil. Pois se ele conseguiu alcançar, tal como o Buda, o profundo repouso da iluminação completa, há perigo de que a bem-aventurança de sua experiência aniquile toda lembrança, interesse ou esperança ligados aos sofrimentos do mundo; do contrário, o problema de tornar conhecido o caminho da iluminação junto a pessoas envolvidas com problemas econômicos pode parecer muito difícil de resolver. Por outro lado, se o herói, em lugar de submeter-se a todos os testes da iniciação, tiver simplesmente, tal como Prometeu, alcançado seu alvo (pela violência, pelo engenho ou pela sorte) e levado a graça obtida para o mundo que ele desejou, então os poderes que desequilibrou podem reagir tão violentamente que ele será destruído tanto a partir de dentro como de fora — crucificado, tal como Prometeu, no rochedo do próprio inconsciente violado. Ou, se o herói, em terceiro lugar, fizer um voluntário e seguro retorno, poderá deparar-se com uma tal incompreensão e desconsideração por parte daqueles a quem foi auxiliar que sua carreira entrará em colapso.

 O herói composto do monomito é uma personagem dotada de dons excepcionais. Freqüentemente honrado pela sociedade de que faz parte, também costuma não receber reconhecimento ou ser objeto de desdém. Ele e/ou o mundo em que se encontra sofrem de uma deficiência simbólica. Nos contos de fadas, essa deficiência pode ser tão insignificante como a falta de um certo anel de ouro, ao passo que, na visão apocalíptica, a vida física e espiritual de toda a terra pode ser representada em ruínas ou a ponto de se arruinar.

Tipicamente, o herói do conto de fadas obtém um triunfo microcósmico, doméstico, e o herói do mito, um triunfo macrocósmico, histórico-universais. Enquanto o primeiro — o filho mais novo ou desprezado que se transforma em senhor de poderes extraordinários — vence os opressores pessoais, este último traz de sua aventura os meios de regeneração de sua sociedade como um todo. Os heróis tribais ou locais, tais como o imperador Huang-ti, Moisés ou o asteca Tezcatlipoca, comprometem as bênçãos que obtêm com um único povo; os heróis universais — Maomé, Jesus, Gautama Buda — trazem uma mensagem para o mundo inteiro.

Seja o herói ridículo ou sublime, grego ou bárbaro, gentio ou judeu, sua jornada sofre poucas variações no plano essencial. Os contos populares representam a ação heróica do ponto de vista físico; as religiões mais elevadas a apresentam do ponto de vista moral. Não obstante, serão encontradas variações surpreendentemente pequenas na morfologia da aventura, nos papéis envolvidos, nas vitórias obtidas. Caso um ou outro dos elementos básicos do padrão arquetípico seja omitido de um conto de fadas, uma lenda, um ritual ou um mito particulares, é provável que esteja, de uma ou de outra maneira, implícito — e a própria omissão pode dizer muito sobre a história e a patologia do exemplo.

O ciclo cosmogônico é apresentado com surpreendente consistência nos escritos sagrados de todos os continentes8 e dá à aventura do herói uma nova e interessante conotação — pois agora parece que a perigosa jornada não foi um trabalho de obtenção, mas de reobtenção, não de descoberta, mas de redescoberta. Os poderes divinos, procurados e perigosamente obtidos, segundo nos é revelado, sempre estiveram presentes no coração do herói. Ele é “o filho do rei” que veio para saber quem é e, assim, passou a exercitar o poder que lhe cabe — “filho de Deus”, que aprendeu a saber o quanto esse título significa. A partir desse ponto de vista, o herói simboliza aquela divina imagem redentora e criadora, que se encontra escondida dentro de todos nós e apenas espera ser conhecida e transformada em vida.

 8 Este livro não se preocupa com a discussão histórica dessa circunstância. Essa tarefa está reservada para um trabalho em preparação. Este livro faz um estudo comparativo, e não um estudo genético. Seu propósito é demonstrar a existência de paralelos essenciais entre os próprios mitos, assim como entre as interpretações e aplicações que os sábios anunciaram para eles.

 “Pois o Uno que se tornou muitos permanece o Uno indivisível, mas cada parte é totalmente de Cristo”, lemos nos escritos de São Simão, o jovem (949-1022 d.C). “Vi-o em minha casa”, prossegue o santo. “Entre todas aquelas coisas cotidianas, Ele apareceu inesperadamente e se uniu e se fundiu comigo de forma indescritível; e Ele saltou sobre mim sem que nada se interpusesse entre nós, tal como o fogo sobre o ferro e a luz sobre o vidro. E Ele me fez como fogo e como luz. E eu me tornei aquilo que vira antes e que contemplara de longe. Não sei como contar-vos esse milagre. . . Sou homem pela natureza e Deus pela graça de Deus.”9

9 Traduzido por Dom Ansgar Nelson, O.S.B., em The soul afire, Nova York, Pantheon Books, 1944, p. 303.

 Uma visão comparável é descrita no “Evangelho de Eva”, apócrifo. “Fiquei ao lado de uma elevada montanha e vi um gigante e um anão; e ouvi algo como a voz do trovão, e me aproximei para ouvir; e Ele falou comigo e disse: Sou vós e vós sois Eu; e onde quer que possais estar aí estarei. Estou em todos os lugares e sempre que o desejardes Me encontrareis; e, Me encontrando, encontrar-Vos-eis.”10

 10 Citado por Epifânio, Adversus haereses, xxvi, 3.

 Os dois — o herói e seu deus último, aquele que busca e aquele que é encontrado — são entendidos, por conseguinte, como a parte externa e interna de um único mistério autorefletido, mistério idêntico ao do mundo manifesto. A grande façanha do herói supremo é alcançar o conhecimento dessa unidade na multiplicidade e, em seguida, torná-la conhecida.

E-book: O Segredo da Flor de Ouro

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