Astrologia na Ciência e na Filosofia

Popper, a Demarcação da Ciência e a Astrologia

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Cristina de Amorim Machado

Veremos como a astrologia se insere numa das principais questões da filosofia da ciência, a saber: o que e ciência? Para isso, será preciso desdobrar o problema da demarcação, formulado na década de 1930 por Karl Popper, já na primeira versão do seu livro A lógica da pesquisa cientifica. De modo esquemático, abordaremos os critérios estabelecidos para fazer a distinção entre ciência e não-ciência, como verificabilidade, falseabilidade e ciência normal, propostos, respectivamente, pelo Circulo de Viena, por Karl Popper e por Thomas Kuhn. Ademais, essas três concepções foram questionadas nos anos 1970 por Paul Thagard, que propôs seu próprio critério no artigo “Why astrology is a pseudoscience?”. Sendo assim, partindo da filosofia da ciência popperiana, o objetivo deste capítulo é apresentar o problema da demarcação, que produz o conceito de pseudociência, e analisar a pertinência da atribuição desse estatuto a astrologia.

A Concepção de Ciência de Popper

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O filosofo austríaco Karl Popper (1902-1994) considerava inadequado o critério de demarcação proposto pelo Círculo de Viena1 – a verificabilidade –, que, por ser indutivista, era demasiado restritivo em alguns aspectos e amplo em outros2. Popper propôs, então, a falseabilidade como princípio de distinção da racionalidade cientifica, tendo em vista que, para ele, não ha indução em ciência, pois o principio de indução não se baseia na experiência, e qualquer tentativa de fazê-lo leva a um regresso infinito, como já havia sido esclarecido duzentos anos antes pelos argumentos de Hume acerca do principio de indução.

1 O Circulo de Viena (anos 1920 a 1930) formou-se por filósofos e cientistas, sob a orientação intelectual do filosofo alemão Moritz Schlick. O que os reuniu foi o interesse comum por certos tipos de problemas e a mesma abordagem positivista empirista para resolvê-los. Vale lembrar que a preocupação principal dos membros do Círculo de Viena era com a linguagem científica, que, para eles, deveria ser neutra e livre das ambiguidades típicas da metafísica, de maneira que a ciência pudesse garantir seus procedimentos uniformes e intersubjetivos. Para isso, era necessário estabelecer um critério de demarcação entre enunciados significativos e não significativos. Os significativos poderiam ser de dois tipos: 1) lógico-matemáticos, sem compromisso com o fornecimento de informações acerca do mundo e, portanto, com a experiência; e 2) verificáveis, ou seja, os que pretendessem fornecer informações acerca do mundo e que pudessem ser verificados empiricamente. Se o enunciado não fosse lógico-matemático nem verificável empiricamente, seria considerado não significativo e, portanto, não cientifico (MAGEE, 1973, p. 49).

2 Amplo, porque incluiria formas de conhecimento como a astrologia, a psicanálise e o marxismo, que contem proposições verificáveis empiricamente; e restritivo, pois excluiria boa parte da ciência contemporânea, cuja verificação empírica é problemática.

Com seu critério – a falseabilidade –, Popper transfere para o momento da crítica da teoria a possibilidade de identificá-la como científica ou não, ou seja, se uma teoria não fornece os meios para um possível falseamento empírico, se não há experiência capaz de falseá-la, ela deve ser reconhecida como um mito, explicação pseudocientífica do real. Uma teoria científica deve ser falseável empiricamente, ou seja, se as proposições observacionais dela deduzidas forem falseadas, a teoria será considerada falsa.

Para Popper, o falseamento se da por intermédio dos falseadores potenciais, ou seja, os resultados experimentais previstos pela teoria que, se ocorrerem, a falsearão. Em outras palavras, por uma questão de honestidade intelectual, ao propor uma teoria, o cientista também deve explicitar em que condições abriria mão dela. A classe dos falseadores potenciais constitui o conteúdo empírico de uma teoria. Quanto maior o conteúdo empírico de uma teoria, mais ela é falseável. Chalmers critica essa noção, pois ela nada diz sobre o mundo fora das situações experimentais: o domínio da aplicabilidade da teoria equivale ao domínio de suas situações de teste. Logo, para comparar teorias rivais, não bastaria comparar suas classes de falseadores potenciais.

Esse procedimento, ao contrario do critério de verificabilidade do Circulo de Viena, nada tem a ver com o problema do significado, como ressalta Magee, dado que muitas teorias cientificas resultam de desenvolvimentos baseados em mitos, e não faria sentido que, como mitos, carecessem de significado. Parece mais adequado distinguir entre conhecimento crítico (científico) e dogmático (não científico). Para Popper, o fato de uma teoria não ser considerada científica não quer dizer que seja desprovida de significado ou importância, muito pelo contrário, ela pode ser desenvolvida para vir a ser testável.

Segundo Alan Chalmers, Popper chama a atenção para o permanente caráter hipotético das teorias cientificas, ou seja, não há base segura para a ciência, cujas teorias nunca podem ser provadas. Ao contrário dos positivistas, cujo apreço pela ciência causou a ênfase na geração e verificação de teorias com base no método indutivo, Popper enfatiza a falseabilidade da ciência; no entanto, assim como eles, acredita num método característico de todas as ciências para demarcar a fronteira entre ciência e pseudociência. E esse método, no caso popperiano, é hipotético-dedutivo.

Alem disso, o conhecimento, em Popper, é um produto da cultura humana, resultante da modificação do conhecimento anterior, estabelecido num embate com o mundo físico, muito embora Popper ressalte o chamado “problema da base empírica”. Grosso modo, o problema da base empírica decorre do fato de todos os testes serem dependentes de teorias que, como afirma o próprio Popper, são falíveis. Consequentemente, os testes não constituem uma base empírica sólida para confirmação ou falseamento, e a “base empírica” é colocada entre aspas, sendo necessário admitir que o mundo pode ser diferente do que diz a teoria. Do ponto de vista metodológico, as teorias devem ser expostas a críticas e não devem ser modificadas de maneira ad hoc com a introdução de acréscimos impossíveis de testar para resolver evidências problemáticas.

A Concepção de Ciência de Kuhn

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O físico, filósofo e historiador da ciência norte-americano Thomas Kuhn interessou-se por uma “concepção de ciência historicamente orientada”, especialmente pelo que há de ordinário e extraordinário em ciência. Afastou-se da tradição epistemológica, adotando um discurso metacientifico e interdisciplinar. Sua ênfase está na comunidade científica e nas questões psicossociais, políticas, econômicas e éticas envolvidas com a produção científica.

Em sua principal obra, Estrutura das revoluções científicas, publicada em 1962, e que acabou por se tornar o best-seller da filosofia da ciência, Kuhn caracteriza a ciência como um processo cíclico3 que alterna períodos de ciência normal, nos quais o paradigma vigente é cumprido por meio da solução de quebra-cabecas4, e períodos de crise, que podem culminar com a emergência das descobertas científicas e a quebra do paradigma, o que constitui uma revolução científica. Ao mudar de paradigma, o pensamento muda de lugar, pois a imagem de mundo é outra, e o que era considerado verdade ou erro talvez não o seja mais.

3 Entenda-se “processo cíclico” como a alternância entre ciência normal e revolução científica, o que não implica uma repetição de conteúdo, apenas de forma. O que esta em jogo aqui é uma concepção de ciência historicamente orientada, que se caracteriza por um modelo circular, em contraposição, por exemplo, a um modelo linear e cumulativo. Nesse modelo circular, é possível recontar uma historia a partir de outra perspectiva, de outra imagem de mundo, ou seja, de outro paradigma.

4 Os quebra-cabeças são os problemas típicos da ciência normal, pois são previstos pelo paradigma. Segundo Kuhn, eles não são os problemas mais importantes, tendo em vista que os mais importantes, por exemplo, a paz duradoura, talvez não tenham solução, mas os quebra-cabeças, ao contrário, certamente têm solução, porque são compatíveis com o paradigma. Constituem, dessa maneira, os únicos problemas aceitos como científicos pela comunidade e caracterizam-se por regras bem definidas, enunciados reconhecidos e limitação de soluções aceitáveis.

Segundo Kuhn, a ciência normal é a prática científica tradicional com a qual os cientistas ocupam a maior parte do seu tempo. Ela é condicionada por uma educação profissional que tenta submeter a natureza a esquemas conceituais. A ciência normal pressupõe o comprometimento e o consenso da comunidade cientifica:

A ciência normal, atividade que consiste em solucionar quebra-cabeças, é um empreendimento altamente cumulativo, extremamente bem-sucedido no que toca ao seu objetivo, a ampliação contínua do alcance e da precisão do conhecimento cientifico. (…) A ciência normal não se propõe descobrir novidades no terreno dos fatos ou da teoria; quando é bem-sucedida, não as encontra.

(Kuhn)

O conceito de paradigma aparece com várias definições diferentes. A primeira delas, logo no prefácio, considerada pelo próprio autor como circular, estabelece que o paradigma é constituído de “realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência”. A última definição de paradigma, no fim do livro, “os paradigmas determinam ao mesmo tempo grandes áreas da experiência”, ainda se segue uma mais abrangente no posfácio:

De um lado, indica toda a constelação de crenças, valores, técnicas, etc., partilhadas pelos membros de uma comunidade determinada. De outro, denota um tipo de elemento dessa constelação: as soluções concretas de quebra-cabeças que, empregadas como modelos ou exemplos, podem substituir regras explicitas como base para a solução dos restantes quebra-cabeças da ciência normal.

(Kunh)

Segundo Margareth Masterman, é possível classificar todas essas definições de paradigmas em três: metafísicos, sociológicos e de constructos. Os metafísicos seriam aqueles definidos como mitos ou conjuntos de crenças; os sociológicos seriam os que Kuhn definiu como conjuntos de instituições políticas ou realizações científicas concretas; e os de constructo seriam aqueles concebidos como ferramentas ou analogia. Além disso, ela afirma que apenas os metafísicos foram criticados pelos filósofos.

Outro conceito importante na obra de Kuhn é o de anomalia. A anomalia é uma violação de expectativa paradigmática que pode gerar uma crise aguda, causando a perda de confiança no paradigma vigente. A ciência normal é ameaçada pela anomalia, suas regras são reavaliadas e há um esforço para tentar ajustar a anomalia. Ela pode dar origem a um período de revisão extremamente conturbado em função da insegurança profissional. Por outro lado, a descoberta começa com a anomalia, ou seja, é nessa crise que amadurecem as condições para uma revolução cientifica, na qual o anômalo torna-se o esperado.

As Críticas de Popper a Kuhn e Vice-Versa

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A concepção de ciência normal de Kuhn foi criticada por Popper não por discordar da existência daquilo que Kuhn descreve como tal, mas pelo fato de Kuhn considera-la “normal”. Para Popper, a ciência normal é um perigo para a ciência, pois resulta do espírito dogmático, típico de quem aprende uma técnica e a aplica sem perguntar por que. Por esse motivo, ele distingue o cientista aplicado do cientista puro. O cientista aplicado é esse que resolve quebra-cabeças, que seriam nada mais do que problemas rotineiros, referentes a aplicação de uma teoria dominante, o paradigma. O cientista puro, ao contrário, dedica-se a situações “cheias de problemas, problemas genuínos, novos e fundamentais, e de conjecturas engenhosas – conjecturas que frequentemente competem umas com as outras – sobre possíveis soluções”.

Popper enfatiza que discorda de Kuhn no que diz respeito as diferentes concepções de ciência, mas admite que talvez Kuhn use o termo “quebra-cabeça” no mesmo sentido em que ele usa “problema”. Ainda assim, o conceito de ciência normal, segundo Popper, exige critica. Para ele, as noções de paradigma e revolução científica também são problemáticas, porque são apropriadas para a astronomia, mas não se aplicam a outras ciências. Propõe uma concepção de paradigma diferente, com o sentido de “programa de pesquisa – um modo de explicação que é considerado tão satisfatório por alguns cientistas que eles precisam da sua aceitação geral”, em vez do sentido de teoria dominante, como em Kuhn.

Outro ponto de atrito entre os dois filósofos é que Popper considera Kuhn um relativista, já que ele pressupõe que a racionalidade depende de uma linguagem comum e de um acordo sobre os fundamentos, ao passo que Popper afirma acreditar numa verdade absoluta e objetiva, apesar de não ser ingênuo de achar que ela se encontre no “bolso de alguém”.

Ademais, a tese da incomensurabilidade5 entre paradigmas também é negada por Popper, que a considera um dogma perigoso. Para ele, trata-se de uma dificuldade, por sinal muito frutífera, e não de uma impossibilidade de tradução dos elementos de um paradigma a outro. Apesar de concordar com a ideia de desenvolvimento revolucionário do conhecimento, com uma nova teoria contradizendo a antiga e corrigindo-a, Popper insiste que há uma continuidade nesse processo e que a nova teoria deve explicar por que a teoria antiga foi bem-sucedida.

5 Este é mais um dos conceitos importantes da obra de Kuhn, já problematizado por diversos autores, que diz respeito a impossibilidade de tradução dos conceitos de um paradigma para outro. Nesse sentido, os termos de um certo paradigma não fazem sentido para os adeptos de outro paradigma.

Além dessas diferenças, há muitas semelhanças entre as concepções de Popper e Kuhn, como estas que o próprio Kuhn lista em seu texto Logic of discovery or psycology of research?:

1) preocupam-se com o processo dinâmico pelo qual o conhecimento científico é adquirido, em vez de com a estrutura lógica dos produtos da pesquisa cientifica;

2) enfatizam os dados legitimados, os fatos e o espírito da vida cientifica real;

3) retornam a história para encontrar os dados necessários;

4) rejeitam a idéia de progresso cumulativo da ciência e muitas outras teses positivistas;

5) realçam o processo revolucionário pelo qual uma teoria mais antiga é rejeitada e substituída por uma teoria nova incompatível;

6) destacam o papel da falha ocasional da teoria mais antiga em atender aos desafios impostos pela lógica, experimentação ou observação;

7) consideram a observação e a teoria científica íntima e inevitavelmente relacionadas;

8) duvidam dos esforços para produzir uma linguagem de observação neutra;

9) insistem que os cientistas podem desejar inventar teorias que expliquem o fenômeno observado e que fazem isso em termos de objetos reais.

Apesar dessas e de outras concordâncias, há muitas outras diferenças entre os dois pensadores, alem das que já vimos anteriormente. É importante ressaltar aqui a discordância de ambos, ou “diferença de intenção”, como prefere Kuhn, em termos de demarcação de ciência. Apesar dos resultados semelhantes, os processos são muito diferentes, já que trabalham com aspectos distintos do problema. Assim como Popper, que elaborou o seu critério com base nos casos do marxismo e da psicanálise, Kuhn concorda que ambos são pseudociências, mas afirma que “chegou a essa conclusão por um caminho muito mais seguro e mais direto que o dele”. Kuhn considera o seu critério de solução de quebra-cabeças menos equivoco e mais fundamental que o de Popper.

Kuhn enfatiza a importância do compromisso com a tradição científica, evita a noção de verdade e não gosta do termo “falsificação”. Ele afirma também que Popper “caracterizou o empreendimento cientifico inteiro em termos que se aplicam apenas as suas partes revolucionarias ocasionais”, tendo em vista que ele só se refere aos procedimentos por meio dos quais a ciência se desenvolve, substituindo uma teoria aceita por outra melhor. Dessa maneira, Popper estaria ignorando justamente a parte da ciência na qual se encontraria, segundo Kuhn, um critério de demarcação, ou seja, a ciência normal, onde também ocorreria o progresso da ciência.

Bryan Magee sintetiza as diferenças entre Popper e Kuhn da seguinte maneira:

Popper sempre se mostrou preocupado, antes de tudo, com a descoberta e a inovação e, por conseguinte, com o teste de teorias e com a expansão do conhecimento; Kuhn preocupa-se com a maneira como os que aplicam essas teorias e esse conhecimento orientam seu trabalho. (…) A teoria de Kuhn é, em verdade, uma teoria sociológica acerca das atividades do cientista em nossa sociedade. Essa teoria não é incompatível com as idéias de Popper e, mais ainda, Kuhn modificou-a sensivelmente na direção do pensamento popperiano, desde que, pela primeira vez, a apresentou.

Diálogo entre Popper e Kuhn acerca da Astrologia

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Partindo do principio de que Popper faz oito referências a astrologia só no seu Conjecturas e Refutações, Kuhn também optou por tomá-la como exemplo no artigo “Logic of discovery or psycology of research?”6, considerando-se a recorrência do caso da astrologia como exemplo de pseudociência.

6 E importante lembrar que Kuhn também menciona o problema da astrologia tanto em Estrutura das revoluções cientificas (KUHN, 1996) quanto em A revolução copernicana (KUHN, 1957).

Segundo Popper, as interpretações dos astrólogos são muito vagas e explicam qualquer coisa, inclusive os falseadores potenciais da teoria astrológica. Para fugir da falsificação, os astrólogos impossibilitaram a testabilidade da astrologia. Kuhn concorda com o que ele chama de “generalizações” sobre a testabilidade da astrologia e a postura dos astrólogos, mas não acha possível basear-se nelas para identificar um critério de demarcação. Seu argumento baseia-se na própria historia da astrologia, que registra diversas previsões que falharam. Dessa maneira, para Kuhn, “a astrologia não pode ser excluída das ciências devido a forma com que suas previsões foram elaboradas”.

Além disso, ele também não aceita a exclusão da astrologia com base nas explicações que os astrólogos oferecem para as falhas. Segundo Kuhn, “não há nada de não cientifico nas explicações dos astrólogos sobre as falhas”. Lembra, inclusive, que argumentos similares são usados hoje em dia para explicar falhas na medicina ou na meteorologia. No entanto, ele afirma que a astrologia não é uma ciência, mas uma “arte pratica”, como a engenharia e a medicina de um século e meio atrás, e a psicanálise hoje em dia.

Eu acho que a semelhança com uma medicina mais antiga e a psicanálise contemporânea é particularmente próxima. Em cada um desses campos, a teoria compartilhada era adequada apenas para estabelecer a plausibilidade da disciplina e fornecer um fundamento para as varias regras que controlam a pratica.

(Kuhn)

Essas regras praticas, apesar de úteis, não foram suficientes para evitar as falhas recorrentes. Mas ainda assim não faria sentido abandonar essas disciplinas plausíveis, necessárias e relativamente bem-sucedidas porque ainda não se elaborou uma teoria melhor. E justamente nessa ausência de uma teoria melhor, que impede a pesquisa, que Kuhn identifica o problema da pseudocientificidade da astrologia: “embora houvesse regras para aplicar, eles não tinham quebra-cabeças para resolver e, portanto, nenhuma ciência para praticar”.

Ao comparar as atividades de astrônomos e astrólogos, Kuhn afirma que, ao contrario dos astrônomos, com suas atividades de medição, cálculo, correção de erro etc., atividades tipicamente de solução de quebra-cabeças, os astrólogos não teriam tais desafios. Eles explicam a ocorrência de falhas, mas tais falhas não suscitam os quebra-cabeças que caracterizam a pesquisa científica. Com isso, “a astrologia não pode tornar-se uma ciência, ainda que as estrelas, de fato, controlassem o destino humano”.

Ao afirmar que os astrólogos fazem predições testáveis e reconhecem que essas predições às vezes falham, Kuhn finaliza sua crítica ao critério de demarcação de Popper, apesar de concordar com a exclusão da astrologia do conjunto das ciências. Para ele, Popper teria se concentrado demais nas revoluções ocasionais da ciência, o que o teria impedido de perceber o real motivo dessa exclusão: “testes não são requisitos para as revoluções por meio das quais a ciência avança, mas isso não é verdade para os quebra-cabeças”.

Uma distinção interessante é apresentada por John Watkins. Ele sugere que os astrólogos são, de alguma maneira, cientistas normais, na mais perfeita acepção kuhniana. Eles resolvem quebra-cabeças no nível dos horóscopos individuais, despreocupados com os fundamentos da sua teoria geral, ou paradigma.

Por que a Astrologia não é uma Pseudociência?

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Em seu artigo Why astrology is a pseudoscience?, Paul Thagard critica os critérios existentes para distinguir as disciplinas pseudocientíficas, como a verificabilidade, a falseabilidade e a ciência normal. Ele considera que ha uma falta de preocupação com o avanço da ciência e com as questões éticas, gerada, entre outras coisas, pela popularidade das pseudociências. Dessa maneira, Thagard considera essa distinção necessária para poder superar a negligencia com a ciência genuína.

Assim como Popper, Thagard considera a astrologia verificável. Desdobrando um pouco mais a questão, diz que ela é verificável por meio de métodos estatísticos, como os utilizados por Michel Gauquelin*, por mais controvertidos que sejam seus resultados. Assim como Kuhn, Thagard não considera a falseabilidade como critério suficiente para rejeitar a astrologia, tendo em vista que ela é substituível. Como “a falsificação só ocorre quando surge uma teoria melhor (…), a astrologia não parece pior que as melhores teorias cientificas, que também resistem a falsificação ate que surjam teorias alternativas”. Ele considera que a falseabilidade é só uma questão de capacidade de substituição de uma teoria por outra melhor. Alem disso, ele afirma que os problemas não resolvidos, como resultados negativos, precessão dos equinócios, planetas novos, gêmeos e desastres, também não são suficientes para identificar a astrologia como pseudocientífica, dado que as melhores teorias lidam com problemas não resolvidos. Thagard propõe, então, um critério de demarcação entre ciência e pseudociência baseado em três elementos que, separados, seriam insuficientes: teoria, comunidade e contexto histórico:

Uma teoria ou disciplina que pretenda ser cientifica e pseudocientífica, se e somente se:

1) ela tem sido menos progressiva que as teorias alternativas há bastante tempo, enfrenta muitos problemas não resolvidos, mas

2) a comunidade de praticantes faz poucas tentativas de desenvolver a teoria no sentido das soluções dos problemas, não demonstra preocupação com as tentativas de avaliar a teoria em relação às outras e é seletiva ao considerar confirmações e negações.

* Se o que se pretende é buscar uma evidencia mensurável da premissa astrológica, ou seja, de que há uma relação entre um determinado conjunto de eventos celestes e certos eventos terrestres, dois caminhos são possíveis dentro da prática científica padrão: o controle clínico e a verificação estatística. Segundo Gauquelin, estatístico Frances responsável pela maior pesquisa astrológica do século XX, o controle clínico, utilizado também para avaliar a capacidade de diagnóstico de médicos e psicólogos, é interessante e deve ser examinado, mas é também insuficiente, pois coloca em questão a habilidade de determinado profissional e não a doutrina que ele professa. A falha de um médico, psicólogo ou astrólogo não serve para refutar a medicina, a psicologia ou a astrologia. Por outro lado, para Gauquelin, a verificação estatística constitui um método mais objetivo e rigoroso para avaliar a teoria astrológica, dado que “uma lei estatística é uma lei natural como qualquer outra”, e ele cita o exemplo de Mendel para corroborar essa afirmação. Dessa maneira, alinha-se com o que se pensa atualmente sobre o uso da estatística como ferramenta de destaque nas ciências naturais e sociais. Não é o caso aqui de nos estendermos numa digressão sobre os métodos estatísticos, mas é importante lembrar que, na prática científica, há também métodos qualitativos, alem dos quantitativos, especialmente nas ciências sociais, e que, em astrologia, há tanto configurações qualitativas quanto quantitativas. Segundo o astrólogo Andre Barbault, referindo-se aos resultados das pesquisas de Gauquelin, “ate hoje nota-se que a estatística tem proporcionado resultados convincentes quando o ‘quantitativo’ prevalece sobre o ‘qualitativo’: a passagem de um astro no horizonte e no meridiano constitui uma configuração puramente ‘quantitativa’ e representa até a configuração mais poderosamente valorizadora, a que da maior ‘destaque’ a uma tendência. Não ocorre o mesmo com as posições dos planetas nos signos. Neste caso, o ‘qualitativo’ prevalece sobre o ‘quantitativo’”. Para entender melhor essa citação, é importante saber que a pesquisa de Gauquelin apresentou alguns indícios de que há uma correlação entre certas posições planetárias no horizonte e no meridiano e certas profissões, o chamado “efeito-Marte”, mas, em relação as posições dos planetas nos signos, nenhuma frequência estatisticamente significativa foi encontrada.

Ao comparar o seu critério de demarcação com o de Kuhn, Thagard afirma que são totalmente diferentes. Para ele, a atividade da ciência normal não é capaz de distinguir ciência de pseudociência, tendo em vista que, assim como vimos anteriormente em Watkins, a atividade dos astrólogos se parece muito com a típica ciência normal no sentido de Kuhn:

O que torna a astrologia pseudocientífica não é a ausência dos períodos da ciência normal kuhniana, mas o fato de seus proponentes adotarem as atitudes acríticas dos cientistas ‘normais’, independentemente da existência de teorias alternativas mais progressivas.

Com base nesse critério, Thagard relaciona quatro características da astrologia que ele considera mais importantes para classificá-la como pseudociência: 1) a astrologia não e progressiva, de maneira que mudou pouco e nada foi adicionado a sua capacidade explicativa desde os tempos de Ptolomeu; 2) problemas como a precessão dos equinocios7 estão pendentes; 3) há teorias alternativas de personalidade e comportamento disponíveis desde o século XIX, que explicam em termos psicológicos o que a astrologia atribui as influencias celestes. Independentemente de essas teorias psicológicas serem verdadeiras, elas seriam alternativas mais progressivas à astrologia; e 4) a comunidade de astrólogos geralmente não se preocupa com o tratamento dos problemas pendentes ou com a avaliação da sua teoria em relação às outras.

7 Um dos três movimentos básicos do nosso planeta, o movimento do eixo de rotação da Terra, que se assemelha ao movimento de um pião parando se dá em um período de 26 mil anos aproximadamente, define um circulo no céu dos polos. Assim como a rotação e a translação são percebidas da Terra de maneira diferente, definindo respectivamente o dia e o ano terrestres (temos a impressão de que a esfera celeste gira de leste para oeste diariamente e acompanhamos o movimento aparente anual do Sol em meio as constelações), o movimento do eixo de rotação é percebido na Terra como a precessão dos equinócios, ou seja, um fenômeno contínuo de deslocamento do ponto equinocial vernal (1 grau a cada 72 anos), no sentido contrário a ordem das constelações, ou seja, a cada 2 mil anos, aproximadamente, há um movimento aparente de retrogradarão de 30 graus do ponto equinocial vernal em relação às constelações. Com isso, signos e constelações só se encontram sobrepostos a cada 26 mil anos, aproximadamente, o que não afeta em nada a astrologia ocidental, já que esse sistema astrológico baseia-se nos signos (12 divisões de exatamente 30 graus da eclíptica), e não nas constelações. Cf. Machado, 2006, p. 71-3.

No entanto essas características também podem ser questionadas, a saber:

1) O que Thagard entende por “mudou pouco”? Embora essa afirmação seja vaga, não parece plausível que a astrologia tenha “mudado pouco” desde os tempos de Ptolomeu, ou que nada tenha sido adicionado a sua capacidade explicativa. Alem da contribuição árabe, é possível citar também as pesquisas de Gauquelin, só para ficarmos em dois exemplos. Ha que se notar também que o potencial interpretativo8 da astrologia é um fator cultural, resultando do contexto no qual se insere o astrólogo e a entidade representada no mapa; portanto este talvez seja o elemento que “mais muda” no âmbito da astrologia, pois acompanha as mudanças dos sistemas de pensamento;

8 Entenda-se “potencial interpretativo” como as diversas possibilidades de se interpretar um mapa astrológico, tendo em vista as variáveis em jogo: trata-se de um sistema simbólico que, por ser traduzido por um ser humano, depende da experiência, da capacidade e da disposição afetiva do astrólogo, além da própria circunstância histórica e existencial em que isso se dá.

2) O “problema” da precessão dos equinócios já esta resolvido, tendo sido erroneamente considerado como tal em função da confusão conceitual entre signo e constelação. No entanto, ainda que consideremos a precessão dos equinócios um problema, as melhores teorias cientificas lidam com problemas não resolvidos, como o próprio Thagard reconhece;

3) Ao tratar a astrologia como uma teoria de personalidade e comportamento, Thagard a compara com a psicologia, que seria uma teoria rival e mais bem-sucedida. Alem de podermos questionar se de fato astrologia e psicologia são teorias rivais, essa definição restringe o escopo da astrologia, excluindo outras aplicações que nada tem a ver com personalidade e comportamento, como meteorologia, economia e política, só para citar algumas. Portanto não faz sentido comparar a astrologia com a psicologia, tendo em vista que são disciplinas distintas, cada qual com seus objetos de estudo, métodos e problemas;

4) O argumento da comunidade astrológica toma como modelo uma comunidade científica institucionalizada, que conta com apoio, incentivo e patrocínio público e privado para tratar seus problemas e fazer avaliações, o que não ocorre com a comunidade astrológica. Contudo, apesar dessa “não institucionalização”, os problemas da astrologia têm sido investigados em vários trabalhos, tanto no meio acadêmico-científico quanto no astrológico.

Considerações Finais

René Bord.

Com base no estudo apresentado neste capitulo, percebe-se a limitação do modelo normativo de filosofia da ciência defendido não só por Popper, mas também pelo Circulo de Viena, que pretendiam dizer como a ciência deveria ser. Além disso, ainda que Kuhn não estivesse propriamente propondo um critério de demarcação nos mesmos moldes, a sua concepção do que é ciência ou não também pode ser criticada. O critério de Thagard, por sua vez, que pretende dar conta do problema da demarcação, mostrando as limitações dos critérios anteriores para definir o estatuto da astrologia, parece igualmente insuficiente para estabelecê-la como pseudociência. O próprio Thagard reconhece, posteriormente, que a forma lógica que ele utilizou é imprópria, apesar de não abrir Mao da idéia de que ainda seja possível definir um “perfil de pseudociência”.

As perguntas que se podem fazer são: para que? Afinal, o que há de tão especial sobre a ciência que demande esse tipo de diferenciação? Não seria ela um tipo de conhecimento como outro qualquer? Ou será que é realmente mais verdadeira, melhor ou superior a outros saberes?

Uma reflexão importante, que talvez seja a principal justificativa para o estudo aqui proposto é: será que a filosofia da ciência pode realmente demarcar o domínio cientifico? Porque, se não pode definir o que é ciência, também não pode definir o que não é. Tal situação de impasse, revelada pelo estudo do caso da astrologia, indica o esvaziamento dos modelos normativos de filosofia da ciência, que tentaram conceber uma ciência independentemente da sua circunstância, formulando critérios e métodos que se aplicassem sempre. Esta é uma concepção idealizada de ciência, considerada neutra, universal, apolítica e uniforme, por meio da qual se poderia distingui-la de outros conhecimentos a fim de legitima-la como o lugar da verdade.

A partir da década de 1960, a filosofia da ciência poskuhniana passa a conceber a ciência como tributaria de uma história e, portanto, o conceito de pseudociência também. Essas noções são construídas na narrativa histórica, tornando-se aceitável a idéia de que algo que é considerado ciência ou pseudociência hoje possa vir a não ser mais amanhã, e vice versa.

O problema da demarcação, num sentido definitivo e exclusivamente metodológico, como o proposto inicialmente pela filosofia da ciência, torna-se, então, impróprio e, junto com ele, o seu vocabulário. Os interesses voltam-se para a prática cientifica, que, além de questões epistemológicas, implica também questões psicossociais, políticas e econômicas. E por isso que, nos dias de hoje, chamar a astrologia ou qualquer outra disciplina de pseudociência parece um anacronismo.

El reloj de la fachada del ayuntamiento de Praga tiene encima de las esferas dos torretas_

Referências

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