Astrologia na Arte

Shakespeare e a Astronomia

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A Visão de sua Época

Dra. Cristiane Busato Smith

Universidade Tuiuti do Paraná – UTP – UNIANDRADE

Há mais coisas entre o céu e a
terra, Horácio, do que possa
julgar a nossa filosofia.

Hamlet

Introdução

Na ocasião da comemoração do Ano Internacional da Astronomia estabelecido pela UNESCO e pela International Astronomical Union (IAU), que contribuição poderia a literatura trazer? Afinal, que relações poderia o texto literário ter com a ciência que “trata da constituição, da posição relativa e dos movimentos dos astros”? Ainda que num primeiro momento a resposta não seja tão óbvia, a literatura, desde seus primórdios, reflete tanto o maravilhamento quanto os anseios do homem frente à beleza e mistérios do cosmos e, portanto, pode ser um veículo adequado para pensarmos os fenômenos celestes.

Com essa questão em mente, quem melhor do que William Shakespeare (1564-1616) para estabelecer a relação entre as estrelas e a literatura? O poeta inglês demonstra um verdadeiro fascínio com o céu e seus fenômenos. A palavra “céu”, por exemplo, aparece mais de oitocentas1 vezes em sua obra, enquanto que “estrela”, cento e dezessete. O vocábulo “planeta” ocorre dezenove vezes e as referências diretas aos planetas que haviam sido descobertos até a época, quais sejam, a Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno e o Sol – este último, uma estrela, mas, na época considerado um planeta – são também impressionantemente numerosas. A Lua figura como campeã do acervo planetário shakespeariano em termos de menções, com cento e sessenta e uma referências. A popular tragédia, Romeu e Julieta (1594), faz trinta e duas alusões aos céus, oito às estrelas, seis à Lua e uma ao universo. Vários personagens de Shakespeare afirmam que nasceram sob a influência de determinados planetas. Muitos deles mostram-se temerosos quanto ao poder dos céus sobre seus destinos; outros, em contrapartida, ridicularizam o pretenso domínio dos astros. A constelação Ursa Maior é mencionada em algumas das peças a fim de que os personagens possam se certificar da hora da noite. Há, também, menção específica ao número do grupo de estrelas que ficam na constelação do Touro, as Plêiades. Em Shakespeare, eclipses solares e lunares são observados e temidos, cometas se vingam, estrelas brilham, outras “ardem” no céu e o curso do amor mais puro do mundo é cortado por uma estrela.

1 A contagem da incidência das palavras ligadas à astronomia na obra shakespeariana foi feita por meio do mecanismo de busca RhymeZone.

Neste ensaio, em um primeiro momento, apresento um breve panorama do que já foi publicado sobre Shakespeare e a astronomia; depois, delineio o contexto histórico-social da cosmologia e da astronomia na época de Shakespeare, e, em seguida, averiguo como o autor ao mesmo tempo reflete e subverte a visão cosmológica vigente em sua época. Em específico, realizo uma investigação mais detida sobre Rei Lear e Romeu e Julieta a fim de destacar a interseção da astronomia com a astrologia. Menções ocasionais a outras peças serão feitas para complementar minha análise.

Uma breve revisão bibliográfica

O primeiro dado que constatei na minha pesquisa bibliográfica foi que os estudiosos da área da astronomia se debruçam com mais frequência na literatura de Shakespeare do que os estudiosos de literatura se debruçam na área da astronomia. Ou seja, a grande maioria da produção acadêmica que tive em mãos é da autoria de astrônomos e físicos norte-americanos ligados a instituições universitárias e ao Centro de Estudos da NASA, com a eventual contribuição de um especialista da área da literatura inglesa. No Brasil, ao me que consta, não há ainda nenhum artigo publicado que aborde esta temática.

Alguns estudos recuperam as menções astronômicas da obra de Shakespeare e as associam aos fenômenos que aconteceram na época fornecendo ainda dados históricos e científicos que ao mesmo tempo em que contribuem para o nosso entendimento da obra de Shakespeare, auxiliam nos registros da história da astronomia.

Dentre esses estudos, destaca-se “The Stars of Hamlet” (Olson, Olson e Doescher, 1998) que analisa a estrela “que arde” / burns2 mencionada pelo guarda Bernardo na cena inicial de Hamlet (1601) e compila evidências científicas minuciosas para propor que se trata da famosa supernova3 que apareceu na constelação de Cassiopéia em novembro do ano de 1572, quando o autor tinha apenas oito anos. Chamada de a “Supernova de Thycho”, em homenagem ao astrônomo holandês Tycho Brahe (1546-1601), que lhe dedicou um estudo detalhado. Há outros dois relatos de estudiosos elisabetanos que reportam o evento, um4 deles fonte frequente para as obras de Shakespeare: as Chronicles de Raphael Holinshed (Olson, Olson e Doescher, 1998, p. 69).

2 “Ontem à noite,/ Aquela mesma estrela ali a oeste,/Tendo feito o seu curso e iluminado / Esta parte do céu onde arde agora, / Marcelo e eu, ao badalar uma hora…” (I.1 Hamlet, p. 30)

3 Supernova é uma explosão estelar. As supernovas são extremamente luminosas e emitem uma radiação que muitas vezes excede em brilho uma galáxia inteira, até sumir gradativamente de visão. Durante este intervalo curto, que pode durar várias semanas ou meses, uma supernova pode irradiar tanta energia quanto o Sol pode emitir durante toda a sua vida.

4 Hollinshed reportando a ocorrência da “nova estrela” conclui que “… the signification [of this event] thereof is directed purposelie and speciallie to some matter, not naturall, but celestiall, or rather supercelestiall, so strange, as from the beginning of the world never was the like.” (o significado {deste evento} é direcionado e com o propósito especial a um assunto tão estranho, não natural, porém celestial ou ainda supercelestial, que, desde seu início, o mundo nunca viu nada igual, tradução da autora).

A “descoberta” de Olson, Olson e Doescher em “The Stars of Hamlet” foi recebida com grande estímulo no meio científico e ganhou destaque nos jornais da Texas State University (1998) e no Austin American Stateman (1998). O artigo gerou interesse em outros pesquisadores e levou Lewin Altschuler a afirmar em “Searching for Shakespeare in the Stars” (1998), baseado na idade de Shakespeare e também no fato de que Shakespeare não teria registrado os eventos celestes importantes de 1606, 1609 e 1610, que a teoria de Olson, Olson e Doescher corroboraria a suposição de que o autor das peças de Shakespeare não seria Shakespeare e sim o Conde de Oxford (1550-1604). À parte o estéril debate sobre a autoria5 das obras de Shakespeare, já sem nenhuma relevância entre pesquisadores sérios, Altschuler aparentemente não leva em consideração o fascínio que o aparecimento da supernova pode ter exercido no imaginário do menino William, o que o teria levado a descrevê-lo mais tarde, em 1601.

5 Há amplas e explícitas evidências da época que um homem chamado “William Shakespeare” escreveu as peças e poemas de “William Shakespeare”, ou das outras seis variações de assinatura que o escritor usava (a ortografia não estava ainda fixada na época). Muitos documentos vêm de fontes públicas, tais como as primeiras páginas de peças e poemas publicados durante a sua vida. Há, também, referências sobre ele feitas por outros escritores como Francis Meres (1565-1647) que, em 1598, atribuiu a autoria de doze peças a Shakespeare, e John Weever (1576-1632), que lhe dedicou um poema em 1599. Outras referências vêm de manuscritos que descrevem encenações na corte e vários registros no Stationers’ Register (livro em que autores deviam registrar as obras a serem publicadas). Apesar das incontestáveis evidências, alguns alimentam a hipótese que Shakespeare nunca existiu ou que ele não foi o autor das peças, inventando candidatos para substituí-lo. Os nomes mais absurdos da lista vão desde a rainha Elisabete I até o escritor Daniel Defoe. Mais recentemente, os substitutos seriam Francis Bacon, Christopher Marlowe, o conde de Oxford e o conde de Essex. Esse fenômeno, conhecido como anti-stratfordiano, emergiu no final do século XVIII e aumentou no século seguinte com um certo esnobismo vitoriano que revela a descrença de que um ator de classe média e que não freqüentou a universidade possa ter sido o maior poeta inglês. A teoria de que Shakespeare nunca existiu ou de que não foi o autor de suas peças hoje não possui nenhuma importância para os estudiosos, e surge apenas entre curiosos e oportunistas que nada conhecem dele e da sua época, e se valem de sua fama para polemizar.

De forma semelhante a Altschuler, ainda que com menos sensacionalismo, muitos pesquisadores revelam-se surpresos com o fato de que o escritor não tenha feito menção ao sistema heliocêntrico nem à revolucionária invenção do telescópio (1608) por Hans Lippershey (1570–1619), que foi um ano depois desenvolvida por Galileu Galilei (1564-1642). Neste sentido, o livro de Peter Usher, Hamlet’s universe (2006), vai na contramão do discurso científico que afirma que Shakespeare ficou marginal à passagem da “Velha Astronomia” (a ptolomaica) para a chamada “Nova Astronomia” (a copernicana) nas suas peças. O autor, astrônomo e astrofísico, propõe eloqüentemente que a tragédia Hamlet seja um relato alegórico da luta para a aceitação da “Nova Astronomia”. De acordo com a elaborada e imaginativa análise de Usher, Shakespeare teria escrito Hamlet para expressar as suas reflexões sobre a teoria copernicana que o sol estaria no centro do universo. Como a Igreja considerava o heliocentrismo uma heresia e o Estado o entendia como traição, Shakespeare não poderia discutir suas idéias abertamente e, portanto teria “escondido” sua visão em vários elementos da peça.

Todos os estudos acima mencionados consistem em material valioso especialmente no sentido de iluminarem os eventos celestes da época. No entanto, algumas pesquisas incorrem no erro de analisar a obra do autor como se esta fosse uma espécie de almanaque de astronomia. Ora, Shakespeare de fato se ocupava da astronomia com conhecimento impressionante para o seu tempo, porém, os planetas, as estrelas, o firmamento e os eclipses são traduzidos na sua obra, sobretudo, pelos olhos do poeta e não do cientista. É natural que nem todos os principais fenômenos astronômicos da época tenham sido registrados pelo autor. Por exemplo, não há nenhuma menção específica ao cometa Halley de 1607, embora o evento tenha causado grande exaltação na época. Em benefício do fato de Shakespeare ter legitimado a visão geocêntrica em sua obra, podemos lembrar que o autor é, acima de tudo, um homem de sua época, como veremos a seguir.

O Cosmos: Ordem e Caos

O Renascimento foi, na sua essência, uma época de grandes transições e profundas transformações. Há o declínio de velhas visões que dão lugar às novas ordens emergentes. Shakespeare dá voz a esses dois mundos conflituosos em suas obras. Uma das visões contemporâneas presentes que o Bardo explora é a “Grande Corrente dos Seres”, um sistema que organizava o mundo e as pessoas hierarquicamente. Também conhecida por Scala Naturae (escada natural), a Grande Corrente dos Seres foi um conceito recuperado de Aristóteles durante a Idade Média pela Igreja Católica. Assim, Deus existia no topo da corrente, seguido dos anjos, dos homens, das mulheres, dos animais, das plantas e dos minerais. Como Tylliard sugere em The Elizabethan world picture (1934), a grande corrente afirma o lugar fixo de tudo e todos e, assim, legitima uma ordem social que já dava sinais de enfraquecimento.

A noção da Grande Corrente dos Seres espelha e reforça a visão cosmológica prevalente na época de Shakespeare. A crença vigente era a de que Deus havia criado o universo como um sistema de hierarquias múltiplas e correspondentes entre si. Tudo, tanto os elementos do céu, ou seja, os planetas e os anjos, quanto os elementos da terra, quais sejam: os reinos, as famílias, e, até mesmo o corpo humano, era constituído de elementos hierarquizados nos quais cada um se subordinava à categoria superior, exatamente como numa cadeia ou corrente, como podemos visualizar na imagem ao lado da época de Shakespeare.

Segundo a Grande Corrente dos Seres, tudo o que fugisse às classificações desestabilizaria a ordem e traria o caos. O sistema de ordem, portanto, trazia a idéia de que tudo e todos estavam no “seu devido lugar” e promovia a sensação de ordem, paz e estabilidade, como se tudo estivesse “fixo” e permanente no universo, uma noção que retomaremos mais adiante neste estudo. Muito embora Shakespeare reproduza na sua obra a noção de ordem da sua época com recorrência, talvez nenhuma passagem a ilustra de maneira tão evidente quanto esta de Troilus e Cressida (1602):

O próprio céu, os astros e este centro
Observam grau, prioridade, escala,
E curso, e proporção, forma e rodízio,
Comando e posto, em toda a linha de ordem.

(1.3)

O “centro” se refere à Terra; “grau”, “prioridade” e “escala” indicam a ordem e subordinação do universo. Cada elemento do cosmos deveria ter um lugar próprio, definido por sua relação com os outros elementos. De maneira semelhante, todas as formas de organização social deveriam seguir o mesmo padrão, inclusive “Classes de escolas, ou comunidades, / Pacífico comércio entre as cidades”, assim como a “primogenitura e o nascimento” e “prerrogativas, cetros e coroas” devem obedecer prioridade e ordem (1.3.103-7).

Caso a ordem e “esses grau” sejam desrespeitados (“Take but degree away), Ulisses alerta que:

Removam-se esses graus, falhe essa nota,
E vejam que discórdia! As coisas entram
Em conflito gratuito: as águas, soltas,
Erguendo-se mais alto do que as praias,
Transformam em lama todo o globo sólido:
O mando entrega-se à imbecilidade,
E o rude filho fere e mata o pai.

(I.3)

As conseqüências, como vemos, podem ser severas. Muda-se apenas o “grau” e o mundo é virado às avessas, as praias são inundadas, o globo perde sua solidez, a imbecilidade reina e o filho mata o pai. Com efeito, a obra shakespeariana é rica de exemplos de como as ações que desafiam a ordem predeterminada levam ao caos e ao desastre. Para citar apenas outro exemplo, após Macbeth assassinar o Rei Duncan – desrespeitando, assim, as hierarquias e a noção de ordem – temos, em seguida, a descrição de imagens de escuridão invadindo o céu durante o dia: “o céu, aflito com o erro humano” enterra “em negror todo este mundo / quando a luz viva o devia beijar” (II.4). Outra imagem paralela que reflete o universo em desordem é a dos cavalos, animais tidos como “exemplos de beleza e agilidade”, mas que, “negando obediência”, entram em guerra e se comem para o espanto de todos (Macbeth, II.4).

A Visão Geocêntrica

Eu sou firme qual a estrela d’alva
Que, por seus muitos dotes de firmeza,
Não tem par nem igual no firmamento.

(Julio César)

 No ambiente exposto acima, não é difícil entendermos por que os contemporâneos de Shakespeare acreditavam na visão geocêntrica de Ptolomeu (cerca 90 – 161 d.C.) Astrônomo e intelectual oriundo de Alexandria, Ptolomeu afirmava que a Terra ficava no centro do universo e era cercada por nove anéis concêntricos, como mostra a ilustração ao lado. Os corpos celestiais circunavegavam a terra na seguinte ordem: a Lua, Mercúrio, Venus, o Sol, Marte, Júpiter, Saturno, e as estrelas. Os planetas Urano6, Netuno e Plutão ainda não haviam sido descobertos.

6 Urano tem vinte e sete luas e vinte delas são batizadas com nomes de personagens de Shakespeare. São eles: Ariel, Umbriel, Titania, Oberon, Miranda, Cordélia, Ofélia, Bianca, Cressida, Desdêmona, Julieta, Pórcia, Belinda, Rosalinda, Perdita, Cupido, Mab, Puck, Caliban, Stephano, Sycorax, Próspero, Setebos, Trínculo, Ferdinando, Margaret e Francisco.

A citação de César da peça Júlio César parcialmente citada na epígrafe acima faz um elogio à qualidade de “fixidez” e “firmeza” no homem e na natureza e ajuda-nos a ilustrar a visão fixa do universo que predominava na época de Shakespeare:

Eu sou firme qual a estrela d’alva
Que, por seus muitos dotes de firmeza,
Não tem par nem igual no firmamento.
Pintam os céus milhares de faíscas,
Todas de fogo, todas rebrilhando;
Porém são uma permanece fixa.

 (III.1)

Ainda que os contemporâneos de Shakespeare entendessem o cosmos pelo modelo geocêntrico, a época testemunha verdadeiras revoluções no desenvolvimento da astronomia. Em 1543, Nicolau Copérnico (1473-1543) publica a obra Revolutionibus Orbium Coelestion onde expõe a hipótese de que o sol era o centro do universo. O modelo heliocêntrico foi confirmado pelo astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), cujo livro De Motibus Stellae Martis (1609) propunha leis para os movimentos dos planetas, e também por Galileu (1564-1642) que publicou as suas descobertas no livro Sidereus Nuncius (1610). Muito embora o Princípio Copernicano tenha sido considerado como responsável pela nova ordem na cosmologia, a verdadeira revolução fica a cargo de Galileu que, com suas observações celestes exatas e sistemáticas e com registros precisos feitos por meio dos telescópios que ele próprio construiu, matematiza a astronomia e lhe dá o caráter de ciência stricto sensu que viria a se instalar definitivamente na prática científica.

Note-se que tanto Galileu quanto Kepler eram contemporâneos de Shakespeare. Shakespeare esteve, pois, no centro de uma mudança de paradigmas que iria revolucionar o modo pelo qual o homem olha para o cosmos e para si mesmo.

Os eclipses de Rei Lear e as estrelas de Romeu e Julieta: astronomia ou astrologia?

Rei Lear (1606) é uma tragédia que narra a trajetória de um monarca de idade avançada cujo plano de dividir seu reino entre suas três filhas acaba numa catástrofe. O erro de Lear abrange várias esferas: a familiar, a política e a individual. A ruptura da ordem causada por Lear será refletida pela ruptura no macrocosmo em forma de imagens de vários elementos naturais em fúria, como nuvens contra nuvens, raios, vendavais e dilúvio. É como se a natureza estivesse respondendo diretamente as ações do herói trágico, uma visão característica da tragédia clássica.

Rei Lear é considerada a obra-prima de Shakespeare no que diz respeito à associação entre o homem e o cosmos, uma relação que engloba eventos astronômicos como os eclipses de 1598, 1601 e 1605, devidamente registrados em vários relatos na época. Como sabemos que a peça foi encenada para o Rei Jaime I em 26 de dezembro de 1606, presume-se que “estes últimos eclipses do sol e da lua” (I. ii) tenham sido inspirados nos eventos que o próprio dramaturgo tenha observado. Especificamente o eclipse solar do ano de 1605 pode ter causado um impacto maior no autor. Observado de Londres, no dia 12 de outubro, ao meio-dia, hora de sua máxima visibilidade, este eclipse teve 97% da área total do sol encoberta pela lua e foi registrado inclusive pelo próprio Rei Jaime.

Outra referência encontrada em Rei Lear relacionada especificamente à astronomia são as Plêiades (M45, também conhecidas como as “Sete Irmãs”), um aglomerado estelar situado na constelação de Touro que pode ser visto a olho nu, tanto do hemisfério norte quanto do hemisfério sul. A névoa azul que acompanha as estrelas se deve à fina poeira interestelar da região em que elas se encontram que reflete a luz azul das estrelas. Certamente Shakespeare deve ter se encantado com a beleza dessas estrelas que, com certeza, se destacavam nas noites escuras e impolutas do seu tempo. A referência é feita pelo Bobo:

Bobo: A razão por que as sete estrelas não são mais que sete é muito interessante.
Lear: É por que não são oito?
Bobo: Isso mesmo! Ah! Tu darias um bom Bobo.

No diálogo acima, temos a sugestão da inversão de papéis que terá lugar na peça: o Bobo vira a consciência de um Rei que havia violado a lei natural das coisas e que, por isso mesmo, vira Bobo. A charada proposta pelo Bobo faz menção às sete estrelas, ou seja, às Plêiades, e serve como metáfora irônica para um mundo desestruturado que já perdeu a organização natural. Ou seja, “as estrelas são sete por não serem oito” é a lógica natural que Lear deveria ter aplicado na sua vida, o que não ocorreu devido à sua arrogância.

Como vemos, em Rei Lear, Shakespeare reporta-se a alguns eventos celestes que aconteceram pouco tempo antes de ter escrito a peça contribuindo, assim, para registrá-los. Por outro lado, cabe observar que a astronomia, para a maioria das pessoas da época de Shakespeare, inclusive para a própria Rainha Elisabete I, andava de mãos dadas com a astrologia. Basta lembrar que o próprio Johannes Kepler (1571 –1630) que nos legou a lei dos movimentos planetários, ainda usada hoje em dia, também exercia a função de astrólogo para seu sustento! A Rainha Elisabete I tinha seu próprio astrólogo, John Dee7 (1527-1608), que também era astrônomo, mágico e matemático. Além de mostrar a influência dos astros na vida e nas decisões da Rainha, Dee também a aconselhava ocasionalmente nas suas decisões políticas. Como vemos, a astrologia fazia parte da tessitura da existência das pessoas naquela época.

7 Alguns críticos sugerem que Shakespeare se inspirou em John Dee na criação de Próspero, de A Tempestade.

A astrologia, enquanto “ciência” que estuda a influência dos astros sobre o destino das pessoas, é trazida à tona na seguinte fala de Gloster em Rei Lear:

Estes últimos eclipses do sol e da lua não prenunciam nada de bom; Embora o conhecimento da Natureza possa explicá-los de um ou outro modo, Contudo a Natureza mesma sente-se castigada por seus efeitos. O amor esfria, As amizades se desfazem, os irmãos se dividem; são os motins nas cidades, discórdias no campo, Traição nos palácios; e os laços rompidos entre pais e filhos. (I.2)

Nesta passagem, Gloster dá voz ao determinismo astrológico ao ligar os acontecimentos caóticos no reino aos fenômenos da natureza, fazendo menção específica aos “eclipses do sol e da lua”. Cabe ressaltar que os eclipses eram tidos por muitos como fenômenos sobrenaturais. Os eclipses solares, em particular, podiam ser amedrontadores uma vez que traziam a noite em pleno dia, invertendo a ordem natural do universo. No entanto, logo após Gloster sair de cena, seu filho Edmundo ridiculariza as idéias do pai:

Aí está o cúmulo da estupidez humana; quando não vamos bem De sorte, geralmente por excessos em nossa própria conduta, culpamos de nossos Desastres o sol, a lua e as estrelas; é como se fossemos patifes por fatalidade, Tolos por compulsão celeste, velhacos, ladrões, traidores, de acordo com a predominância de uma outra esfera. (…)

Que excelente escusa para o devasso, por a culpa de suas lúbricas tendências num planeta! (I.2)

Para Edmundo, um dos grandes vilões da peça, a visão determinista do pai que atribui culpa aos desastres celestes pelos problemas deve ser tida como “estúpida”. Segundo ele, nós é que somos responsáveis por nossas ações e por nossos destinos.

Deste modo, Shakespeare, em Rei Lear, dá margem a interpretações ambivalentes no que diz respeito ao determinismo astrológico. Estaria o Bardo condenando a crença na astrologia e a tendência da época de culpar os astros por nossos próprios erros? Estaria Shakespeare sugerindo que devemos enxergar os eclipses do Sol e da Lua pelo que eles são, ou seja, tais quais fenômenos celestes apenas? Estaria Shakespeare favorecendo, portanto, a astronomia? Talvez seja um tanto arriscado sustentar uma hipótese em detrimento da outra, uma vez que a obra do autor nos fornece exemplos abundantes que relativizam a questão.

Para mencionar outro exemplo semelhante ao de Edmundo em Rei Lear, Cassius, em Julio César (1599), repudia a crença na astrologia quando afirma: “A culpa, Brutus, não está nas estrelas / Mas em nós mesmos” (I. ii). No entanto, cabe ressaltar que, em termos quantitativos, as alusões à influência das estrelas e dos planetas sobre os eventos humanos na obra shakespeariana superam a visão contrária. Como afirma L. McCormick-Goodhart, apenas levando em consideração a palavra “estrela”, consta-se que cerca de 50% se referem ao determinismo astrológico. Observemos os seguintes exemplos de peças diferentes: Hermione: “Algum nefasto planeta domina / Serei paciente até que os céus se /Mostrem favoráveis”. (Conto de Inverno II.i, p. 81); Kent: “ São as estrelas, / As estrelas Lá em cima que nos regem” (Rei Lear IV. I. ii); e, “Lá havia uma estrela, e sob ela eu nasci” (Muito barulho por nada, II.i).

Com relação aos planetas, cabe lembrar que a platéia de Shakespeare era bem versada na linguagem da astrologia e compreendia com facilidade o simbolismo das passagens que podem não ser óbvias para as audiências de hoje. Cada planeta exercia uma influência especial nos assuntos humanos. A Lua, responsável por controlar as marés e as precipitações é aludida por Shakespeare como o “astro das marés” (Conto do inverno, I.2 e Ricardo III, II.2) e o “túmido astro” (Hamlet, I.1). Ligada à inconstância do amor (Romeu e Julieta, II.2), a Lua é também tida como culpada pela loucura que leva um homem a matar sua esposa por ciúmes (Otelo, V.2). O adjetivo derivado de Lua, lunático, no sentido de louco ou enlouquecido, ocorre treze vezes na obra do dramaturgo.

Como podemos observar, temos, de fato, uma riqueza de material para abordarmos a questão astronomia x astrologia na obra do dramaturgo inglês. Não poderíamos, no entanto, prescindir de nos referirmos ao exemplo provavelmente mais popular do cânone shakespeariano: Romeu e Julieta (1595). Shakespeare adorna a peça com várias referências aos céus, à Lua e mais particularmente às estrelas. No soneto que abre a peça, Romeu e Julieta são chamados de star-crossed lovers, ou seja, amantes cortados em sua trajetória pelas estrelas:

Duas casas, iguais em seu valor,
Em Verona, que a nossa cena ostenta,
Brigam de novo, com velho rancor,
Pondo guerra civil em mão sangrenta.
Dos fatais ventres desses inimigos
Nasce, com má estrela, um par de amantes,
Cuja derrota em trágicos perigos
Com sua morte enterra a luta de antes.
A triste história desse amor marcado
E de seus pais o ódio permanente,
Só com a morte dos filhos terminado,
Duas horas em cena está presente.
Se tiverem paciência para ouvir-nos,
Havemos de lutar para corrigir-nos.

A descrição dos star-crossed lovers – os amantes que nasceram com “má estrela” – é apenas mais uma referência ao repertório estrelar do cânone shakespeariano e é claramente mais astrológica do que astronômica. Há duas maneiras pelas quais podemos considerar a intervenção das estrelas no curso do amor de Romeu e Julieta. A primeira é que, muito embora os jovens pertencessem a famílias inimigas que representavam a desintegração da ordem social em Verona, eles acabam se encontrando, como se este encontro “mal fadado” já estivesse “escrito nas estrelas”. A segunda maneira é que, uma vez que os jovens se apaixonam e selam seu amor com o casamento, eles estariam decididamente desafiando a “ordem natural das coisas” no que diz respeito à esfera social, à esfera familiar e à esfera individual, de forma análoga ao monarca Lear.

Em vários momentos da peça, os jovens amantes pressentem a sua má estrela. Romeu reconhece-se como “o bobo da fortuna” (III.1) e imediatamente antes de conhecer Julieta, pressente: “Algo que, ainda preso nas estrelas, / Vai começar um dia malfadado / Com a festa desta noite, e ver vencido / O termo desta miserável / Com a pena vil da morte inesperada” (I.4). Já Julieta, sob a influência da mesma má estrela observa: “Meu leito nupcial é minha tumba” (I.5). No final da peça, quando Romeu pensa que Julieta está morta, presenciamos uma mudança radical em Romeu no que diz respeito à sua apreensão de mundo como algo pré-destinado. Romeu, agora, afirma “desafiar as estrelas” (V.1). Mal sabia ele, no entanto, que as estrelas estavam conjurando o golpe mais algoz: consumido pela dor, Romeu compra um frasco de veneno e vai até ao jazigo onde se encontra Julieta para morrer ao lado da amada. Já dentro do jazigo, Romeu bebe o veneno e morre. Momentos depois, Julieta acorda e vê a seu lado, o corpo morto de seu marido. Julieta pega o punhal de Romeu e mata-se, pois já não tem motivos para viver. Vemos, portanto, que o universo de becos sem saída de Romeu e Julieta não tolera “desafios” ao destino, diferentemente de outras peças que deixam a questão ambivalente. O destino, ou seja, a “má estrela” (I.1) põe fim ao amor dos jovens e às suas vidas. Porém, há também a clara sugestão de que as mortes de Romeu e Julieta tenham um caráter compensatório8, isto é, elas poriam fim ao “ódio permanente” (I.1), sugerindo que haveria a volta ao equilíbrio e a ordem na comunidade.

8 Analisado dessa perspectiva, o sacrifício de Romeu e Julieta torna-se central à tragédia, pois é por meio de suas mortes que haverá redenção para a guerra civil que assola Verona. Nesta leitura, Romeu e Julieta funcionariam como “bodes expiatórios” e teriam a função de purgar a violência e os pecados dos outros. Para um estudo aprofundado sobre o mecanismo da vítima sacrificial ver GIRARD, René. A violência e o sagrado. São Paulo: Ed. Universidade Estadual Paulista, 1990.

À guisa de conclusão

Como vimos, a astronomia de Shakespeare muitas vezes se confunde com a astrologia. No entanto, é interessante sublinhar que por meio de alguns personagens Shakespeare contesta a visão do determinismo astrológico vigente na época. Ao mesmo tempo, o autor demonstra uma grande afinidade com a astronomia de rigueur, notadamente no que diz respeito às referências a fenômenos celestes específicos de seu tempo. Quanto ao argumento de que Shakespeare parece favorecer a “Velha Astronomia” em detrimento da “Nova Astronomia”, penso que seria de fato um tanto arriscado sustentar que o autor tinha em mente pintar um quadro da astronomia da época orientado pelas novas teorias e descobertas. No entanto, é pouco provável que o autor não tivesse tido conhecimento da teoria heliocêntrica uma vez que havia uma dinâmica troca de informação entre os astrônomos do continente europeu e os da Inglaterra. Prova disso é o astrônomo inglês Thomas Digges (1546-195) que, já em 1576 (ou seja, 33 anos antes de Kepler e 34 anos antes de Galileu), publicou um diagrama do universo sustentando o sistema heliocêntrico. Apesar de não termos provas de que Shakespeare tenha freqüentado o meio científico de Londres, imagina-se que ele, poeta de sucesso, agraciado pela própria Rainha Elisabete I e posteriormente pelo Rei Jaime I, tenha cruzado o caminho com Digges, ainda mais quando se leva em consideração que os dois moravam na mesma área de. Um dos motivos que pode ter levado Shakespeare a não refletir sobre o universo heliocêntrico em suas obras pode muito bem ter sido a censura, pois, como informa Marlene Santos, a obra de Shakespeare estava sujeita a censura do Master of Revels (Mestre de Cerimônia), do Arcebispo de Canterbury e do Bispo de Londres. Janet Clare sustenta que várias peças do autor sofreram interferências da censura, fato que explica que a escrita naquela época era, como alerta o grande poeta no Soneto 66, uma art made tongue-tied by authority (arte amordaçada pela autoridade).

A astronomia está presente no nosso cotidiano de várias maneiras: seja na contagem do tempo, na determinação dos calendários, no clima, na orientação à navegação ou na evolução da vida. Mesmo a olho nu, a observação de fenômenos celestes tais como uma estrela cadente, um eclipse ou um cometa desperta o fascínio de qualquer um de nós. Shakespeare dramatiza esse fascínio na sua obra, nos legando um repertório estelar que nos convida a visualizar os céus com os olhos do seu tempo.

Ocultismo e Esoterismo na Obra de William Shakespeare

Referências

 ALTSCHULER, Lewin. “Searching for Shakespeare in the Stars” in: Physics, University of California, San Diego, 1998.

FRANCES, Peter (Ed.) Universe. The definitive visual guide. London: Dorling Kindersley Limited, 2007.

FERREIRA, Marina; ANJOS, Margarida (Cords. e Eds.). Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. Curitiba: Positivo, 2004.

GIRARD, René. A violência e o sagrado. São Paulo: Ed. Universidade Estadual Paulista, 1990.

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