Astrologia na História e na Mitologia

O Padre António Vieira e os “Sinais (na Mentira Azul) do Céu”

The Aristotelian Cosmos in Giovanni di Paolo's The Creation of the World and the Expulsion from Paradise (1445)-

Joaquim Fernandes

 Resumo

 Na pluralidade de intervenções do padre Antonio Vieira uma das zonas mais obscurecidas tem sido a sua faceta de astrólogo, apêndice forçoso do seu pendor profético, da sua insana busca pelos prognósticos de fundo político-messiânico que os astros pudessem augurar a lusa pátria. Enumeramos nesta recolha, não exaustiva, um conjunto de testemunhos do autor da “Historia do Futuro” que o transformam num astrônomo, no conceito moderno de um observador atento e mesmo único de eventos celestes com assento nos anais da disciplina.

Introdução

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De profecia e Inquisição

Uma visão otimista e linear do progresso humano, a Condorcet, pretenderia, por certo, uma sucessão de etapas uniformes, sincrônicas, dos modos de sentir e pensar do escol científico e filosófico, dos “fazedores de opinião” e públicos receptores de novas idéias e informações paradoxais. Sabe-se quão frágil e ilusória foi sempre esta cronografia mental unívoca sobre o mundo e o lugar da espécie humana nele e perante o céu polvilhado de interrogações silenciosas. Que sinais de mudança e/ou resistência poderemos localizar no quadro cognitivo e gnosiológico da segunda metade de Seiscentos na realidade cultura portuguesa?

Entre uma astronomia nova, de observação direta, em gestação nos círculos laicos e religiosos europeus, e as raízes arcaicas da antiga sabedoria das “esferas”, não se haviam exorcizado os milenares temores que ligavam terra e céu, como laços inextrincáveis. Como impassível era ainda a atitude humana para com a realidade exterior e a autonomia da ciência face a filosofia.1 Os prognósticos das configurações celestes mantinham perturbados os espíritos inquietos, e a velha imago mundi resistia nos debates entre sumidades da Sorbonne. No entanto, essa foi uma contradição permanente na negociação entre continuidade e ruptura, tradição e inovação, ontem e hoje. O certo e que a sombra de Kepler, astrólogo e cristão sincero, se mantinha viva, caucionando os manuais de astrologia e adivinhação, fazendo cúmplices, umbilicais, constelações e seres humanos, ao longo do século XVII.2

1 De assinalar que o primeiro ensino publico da moderna filosofia natural, com demonstrações experimentais, teve inicio na Universidade de Utreque em 1672, ou seja, uma geração depois das primeiras discussões da filosofia de Descartes ali se terem iniciado. A “exportação” das novas idéias desmultiplicou, por certo, o diferimento da sua recepção externa. Cf. HALL, Rupert, A Revolução na Ciência (1500-1750). Lisboa, Edições 70, 1988, p. 247-8.

2 Recorde-se que Kepler acreditava na astrologia no mesmo sentido em que as configurações planetárias influíam sobre o organismo humano tal como as condições atmosféricas agiriam sobre a terra. On the more certain foundations of astrology (1601) e The Intervening Third Man, or a warning to theologians, physicians and philosophers (1610), representam alguns dos seus escritos. Matemático da corte de Rudolf II, o astrônomo fez estudos divinatórios acerca do conflito entre a República de Veneza e Paulo V. Anteviu ainda a conversão da America, a queda do Islão e o regresso de Cristo, a partir da analise da nova estrela surgida em 1604. A sua obra De cometis libelli tres (1619) esta repleta de predições astrológicas. Cf. NORT H, John, The Fontana History of Astronomy and Cosmology, London 1994, pp. 309-26.

Tão efetivo e impressivo terá sido o exemplo de Kepler, que chegou para instigar algumas intervenções públicas do afamado padre Antonio Vieira (1608-1697), cujos créditos oratórios recorreram, com alguma freqüência, ao repertorio dos céus, mormente a pretexto da observação de cometas. Como observa Ronaldo Mourão, numa resenha sobre as notificações astronômicas do pregador jesuíta, este conceitualizava a manifestação desses corpos celestes do mesmo modo que alguns dos seus mais considerados coetâneos, como o astrônomo Johannes Kepler, o matemático suíço Jacques Bernouilli ou o filosofo italiano Tommaso Campanella:3 se acalentava, sem equívocos, uma figuração ideal dos cometas para uso teológico, como “avisos de Deus”, por outro lado procurou distanciar-se da astrologia judiciária. O jesuíta descobre no grande astrônomo alemão o justificativo maior da sua interpretação cometário-prognóstica:

“O grande matemático Kepler no livro que escreveu da Estrela Nova, que apareceu na era de 1604, dela prognosticou duas coisas memoráveis. A primeira, que na cristandade se levantaria uma nova monarquia, a qual crescendo com a idade, viria a formar a seu tempo um império universal, debaixo de cuja obediência todos os reinos do mundo, que ao presente tumultuavam ferozmente em guerras, deporiam as armas (…) a segunda cousa que prognosticou, (…) considerando o sítio em que a estrela nova se achava com o sol e Júpiter, que eles dizem favorece os cristãos, e com Marte, que também dizem que favorece os turcos, se conclui e convence astrologicamente a vitória total da religião cristã contra a seita maometana”.4

3 MOURÃO , Ronaldo Rogério de Freitas, “A contribuição do Padre Antonio Vieira a historia da astronomia”, Separata da Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no. 403. Rio de Janeiro, 1999.

4 VIEIRA, Antonio, “Discurso em que se prova a vinda do senhor Rei D. Sebastião”, in Obras inéditas. Lisboa, Editores J-MC. Seabra & T.Q. Antunes, 1856, tomo I, pp. 224-5. A obra referida por Vieira intitula-se De stella nova in pede Serpentarii. Praga, 1606. Nela, o autor coloca o problema de saber se este fenômeno espantoso e notável não implica a infinidade do mundo. Este cenário e rejeitado por Kepler que, como sabemos, contestava Giordano Bruno nesta matéria. Cf. KOYRE, Alexandre, Do mundo fechado ao universo infinito. Lisboa, Gradiva,, s/d. (tradução da edição francesa, Paris, 1961), p. 66. De resto, as leituras keplerianas de Antonio Vieira, incluindo a Physiologia, igualmente citada, reduzem-se as configurações dos corpos celestes que importam ao mitema sebastianista-restauracionista.

No seu “juízo do cometa” – de que era freqüente e atento observador – o orador considerava, judiciosamente, as diferenças entre “juízo astronômico” e “juízo astrológico”,

“porque não é nosso intento examinar ou definir a natureza, a matéria, o nascimento, o lugar, as estâncias, os aspectos, os movimentos, nem algumas das outras circunstâncias em que curiosamente se empregam as observações da astronomia; e muito menos a duração e ocaso deste prodigioso meteoro, pois estão ainda pendentes. Também se não chama astrológico este juízo, porque reputando nós com os mais sábios e prudentes professores da mesma arte, quão inútil, infrutuosa e vã seja aquela parte da astrologia, que com o nome de judiciária costuma entreter os discursos e enganar as esperanças ou fantasias dos homens, não só seria crime contra a providência do Altíssimo, mas desprezo de seus avisos tão manifestos, diverti-los a considerações ociosas em que se confundam e percam os efeitos próprios e saudáveis, que deve e pode produzir em nós uma causa tão notável e tão notória”.5

5 Cf. “Voz de Deus ao mundo, a Portugal e a Baia. Juízo do cometa que nela foi visto em 27 de Outubro de 1695 e continua ate hoje, 9 de Novembro do mesmo ano”, in Obras várias do padre António Vieira. Lisboa, J.M.C. Seabra & T.Q. Antunes, 1857, tomo II, p. 3.

Os astros entre o teólogo e o político

antónio vieira

Esta justificação integral permite avaliar o entendimento que Vieira fazia das aparições cometárias, espécie de res inexplicata volans dos nossos dias, na expressão de Gonzalo Gil.6 A interpretação vieiriana situa-o numa perspectiva mista de físico natural e teólogo: os registros astronômicos do jesuíta, sobretudo no hemisfério sul, no decurso da sua missão no Brasil, vão constituir testemunhos únicos nos anais científicos da época, não deixando, porem, essas irrupções celestes, de ser lidas como advertências divinas – a “voz de Deus”, como lhes chama – face aos distúrbios humanos e naturais.7 Porque, para o pregador, só um “entendimento tão rude e contumaz não se persuade que um monstro de tão prodigiosa grandeza não foi criado sem algum fim”, reagindo contra os que “chamam aos cometas causas naturais e não reconhecem neles outro mistério ou documento mais alto”. Aos que os interpretam como “efeitos de causas segunda”, contrapõe Antonio Vieira a definição de “vozes da primeira causa”. 8

6 GIL, Gonzalo, Formas de proyección y representación del conocimiento en los Siglos de Oro. Madrid, 2002. Comunicação pessoal, Maio de 2003. Estes velhos prodígios aéreos da Modernidade, poderiam equivaler, na proposta deste autor, a uma espécie de “hipertextos”, decompostos e relidos nas suas partes, polissêmicos nas leituras que propiciam ao longo das épocas.

7 A relação dos coevos seiscentistas de Vieira com a sinalética celeste e cometária foi analisada pelo cônego e astrônomo francês Alexandre Guy Pingre (1711-1796) na obra Cometographie ou Traité Historique et Théorique des Comètes, Paris, 1783. Referindo-se aquilo que designava de “cometomancia”, Pingre divide os cultores dos cometas em três grupos, de crenças ou filosofias freqüentemente opostas: os teólogos, os astrólogos e os físicos. Estes últimos, na sua generalidade submissos aos fundamentos aristotélicos, consideravam os cometas enquanto fenômenos naturais, conotados com a atmosfera terrestre, associando-os as secas, inundações, terremotos e mesmo as calamidades humanas, como as fomes e as guerras. Cf. Espasa, Enciclopédia Universal Ilustrada Europeo-americana. Barcelona, Hijos de J. Espasa, Editores, 1925, tomo XLIV, p. 1023. Entretanto, já em 1576, recorde-se, Tycho Brahe propusera que os cometas eram autênticos corpos celestes, podendo surgir inesperadamente nos céus, aparentemente estanques e invioláveis das “esferas”, porque “incorruptíveis”, segundo a teologia/filosofia predominantes. Cf. HALL, Rupert, ob. cit., p. 178-9.

8 Cf. “Voz de Deus ao mundo, a Portugal e a Baia”, ob. cit., p. 18.

Essa “voz” divina e, pois, um “modo de linguagem”, como Vieira a designa, modalidade comunicacional entre o céu e a terra, adaptada as diferentes etapas civilizacionais. “Não foram criados no principio do mundo”, mas produzidos por Deus de novo, como “sinais decretórios”, específicos de uma nova variante da historia humana e da sua relação com a imensidade celeste: de inicio, “falava Deus aos homens por si mesmo”, aos seus diletos – de Adão a Moises e outros patriarcas; depois, instalados os reinados, passou a revelar-se aos reis “por visões e figuras, em sonhos ou acordados”; mais adiante, passou a pronunciar-se através dos profetas, “por meio de oráculos”, anunciando as calamidades que os haveriam de punir; finalmente, “depois que os profetas cessaram, começou Deus a falar pelos cometas, que e a linguagem universal de maior majestade e horror de que usa extraordinariamente a seus tempos, e em casos graves, como se não pode duvidar seja o presente”.

Entretanto, esta faceta teológico-prognóstica cometária não minimiza a flagrante oportunidade do testemunho cientifico do pregador, exemplificado no enunciado das coordenadas espaciais e temporais do cometa de 1618, num relato oportunamente enxertado na discursividade profética de Bandarra.

“No ano de 618 apareceu em todo o mundo o último e famosíssimo cometa que viu a nossa idade, e a figura era de uma perfeitíssima palma, e a cor acesa, a grandeza como a sexta parte de todo o hemisfério, o sítio no oriente, o curso diante do sol, a duração por coisa de duas horas. Eu o vi na Baía, e vossa senhoria o devia ver. De então para cá não houve outro cometa, ao menos notável. Fala dele Causino o seu livro regno et domo em três partes, atribuindo-lhe os efeitos, principalmente em Espanha. Deste cometa que, por antonomásia, foi o cometa destas idades, entendo que fala Bandarra, pois foi o cometa do século de suas profecias”.9

9 VIEIRA, Antonio, “Esperança de Portugal, Quinto Império do Mundo, Primeira e Segunda vida de El-Rei D. João O Quarto escritas por Gonsalianes Bandarra e comentadas pelo padre A Veira”, in Obras Inéditas, ob. cit. pp.126-7. Esta missiva, endereçada ao padre Andre Fernandes, foi escrita em Camuta do Rio das Amazonas, em 29 de Abril de 1659, e apresenta variantes e omissões importantes relativamente a outras edições da mesma obra.

No plano mais vasto de todo o seu ideário sebástico-profético, esta atenção a dinâmica e a morfologia dos astros errantes subministra uma intencionalidade política, no contexto da Restauração portuguesa, em meados do século, cuja minuciosa analise, promovida por João Francisco Marques, evidenciou um amplo espectro de projeções psicológicas do maravilhoso celeste, cultivadas no ambiente de convulsão coletiva.10

10 MARQUES, João Francisco, A Parenética portuguesa e a Restauração 1640-1668. Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Cientifica/Centro de Historia da Universidade do Porto, 2 vols., 1989. Cf. em especial o vol. II, capitulo XIV, pp. 193-222, para a intervenção/recepção dos prodígios e sinais celestes.

Os textos de Antonio Vieira fornecem-nos a gênese da opinião do jesuíta quanto ao significado dos cometas, das suas origens e matéria constituinte, do aparecimento de novas estrelas, do posicionamento dos planetas da ordem ptolomaica, e dos vaticínios de ordem política que ele recolhe da emergência das diversas conjugações celestes. No opúsculo Voz de Deus ao mundo legou-nos um repositório de referencias, onde emergem – para alem dos contributos judaico-cristãos e dos clássicos greco-latinos – o obrigatório Kepler, ao lado de nomes da “filosofia moderna” como Julio Cesar Escaligero, medico e filólogo italiano que privou com Nostradumus, e Jerome Cardan, filosofo, matemático eminente.11 Mas, ressalva, “o nosso lusitano Bocarro resplandece entre todos”, no elencar das “causas intrínsecas das exaltações dos impérios”: as conjunções dos planetas Saturno e Júpiter; a mudança dos auges dos planetas, principalmente do Sol; a mudança da excentricidade; a obliqüidade do Zodíaco; o orbe magno”. 12

11 Julio Cesar Escaligero (1484-1558) reuniu em Agen, Franca, aonde viria a falecer, uma tertúlia de acadêmicos e pensadores que incluía Nostradamus, visita freqüente do seu circulo. Manteve acaloradas disputas com Erasmo sobre Cícero; por sua vez, Jerome Cardan, um dos homens mais sábios do Renascimento, juntava ao seu misticismo neoplatônico um enorme apego a teurgia e magia, alem da teosofia e cabala, desdobrando-se em cálculos astrológicos confortado numa enorme crença na cognição onírica. Assim, neste particular, alegava contar com a colaboração de um “gênio venusiano”, mistura de Mercúrio e de Saturno, que comunicava com ele por meio de sonhos. Menos controversos foram os seus contributos na Álgebra, com a “formula de Cardan” e na Geometria. Para as respectivas sumulas bio-bliográfica, cf. Espasa – Enciclopédia Universal Ilustrada, ob. cit., tomo XX, pp. 629-630 e tomo XI, pp. 824-826.

12 Cf. “Discurso em que se prova a vinda do senhor Rei D. Sebastião”, ob. cit., p. 225-6.

Emerge dessa visão dos astros erráticos uma outra tese, partilhada por muitos pensadores do seu tempo: a de que os cometas, nos seus cursos, eram governados por anjos, prolongamento da idéia animista das estrelas, cara ao legado renascentista, como vimos. Vieira socorre-se das leituras de autores como “Tanero, Oviedo e Arriaga”, nomeando-os “todos insignes filósofos deste século”, julgando com tal asserto justificar os “movimentos irregulares dos cometas”.

Conceitos sobre a matéria dos cometas

Hans Burgkmair

No que toca a matéria e essência cometárias, o emérito jesuíta opta com clareza pelos modelos vigentes. Num dos seus sermões, em 1641, mostra a sua fidelidade as concepções do Estagirita, adotados pela generalidade dos autores, subscrevendo que “a matéria dos cometas são os vapores ou exalações da terra subidas ao céu”. 13 No ocaso da vida, quando descreve, aos 87 anos, as evoluções do cometa da Baia, o pregador retorna a Kepler para aditar uma curiosa e analógica “explicação”:

“Assim como os humores nocivos do corpo humano concorrem e se ajuntam em um lugar onde geram algum apostema; assim as exalações sublunares, viscosas, secas, crassas e pingues se ajuntam na parte onde se acende o cometa e daquele grande apostema saem os influxos de que se causam estes perniciosos efeitos”.14

13 Cf. “Sermão dos Bons Anos, pregado na Capela Real em Lisboa, 1641”, in Obras Completas do Padre António Vieira. Sermões. Prefaciado e revisto pelo Padre Gonçalo Alves. Porto, Lello & Irmão Editores, 1959, Volume I, tomo II, p. 316. No “Sermão Vigésimo Nono”, s/d, ob. cit., vol. IV, tomo XII, p. 404-5 volta a seguir Aristóteles na definição da matéria cometária como “exalações” terrestres. De fato, trata-se de opinião dominante entre os autores portugueses da época. A interpretação peripatética preconizava que os cometas resultavam de uma multidão de “exalações pingues e crassas e bem juntas que se acendem com o fogo”. Tratadistas, como Andre de Avelar e Pedro Mexia, corporizam essa escola, entretanto contestada, recordamos, pela precoce Nova Astronomia, do padre Cristovam Borri. O medico Manuel Gomes Galhano reconstitui, com algum sentido de equilíbrio, as posições adversas, relativamente a gênese e matéria-prima dos corpos comentários. Cf. Polimatia exemplar (…). Cometografia e Meteorologia do prodigioso e diuturno cometa que apareceu em Novembro do ano de 1664. Lisboa, Oficina de Antonio Craesbeck de Melo, 1666, pp. 10-11. Cf. SILVA, Inocêncio da, Dicionário Bibliográfico Português, tomo V, p. 444.

14 Cf. “A Voz de Deus ao Mundo…”, ob. cit., p. 24.

Contudo, no referido opúsculo da Baia, duvida que a explicação dominante, aristotélica, acerca do modo como são formados aqueles corpos celestes, seja a causa primeira para a ocorrência daqueles fenômenos celestes:

“Não sendo fácil de crer, nem de entender que os vapores da terra e exalações do mar, subindo de tão diversos lugares de um e outro elemento, sem causa superior que os disponha e ordenem, eles naturalmente e por si mesmos se ajuntem e se ajustem entre si, e se condensem e acendam em tal lugar e em tal composição e em tal figura, e que esta conserve ou varie com tal uniformidade como se vê nos cometas”.15

15 Cf. “Voz de Deus ao mundo, a Portugal e a Baia”, ob. cit., p. 21

Assim, para o jesuíta, e “Deus e não a natureza o supremo artífice destas grandíssimas estátuas ou gigantes de fogo e lhes da matéria e forma como e quando e servido”. Essencial é entender o significado de tais astros, porque de “outra maneira seria ociosa e inútil a ostentação dos mesmos cometas”. Estes, assumem-se, deste modo, como significantes de um léxico celeste, graficamente atualizado, que os coevos de Vieira poderiam ler no ecrã do empíreo, a propósito das intenções do Criador relativamente as suas criaturas.

Ademais, o recurso a relação umbilical entre a terra e os céus e freqüente na didática parenética de Vieira. Por exemplo, a analogia cruzada “Cristo não e cometa e planeta; não e terra subida ao céu, e Céu descido a Terra”, e deduzida de forma espontânea pelo pregador. Numa outra intervenção, apresenta-se-lhe um dilema entre o seu fundo aristotélico e a confiança nos Evangelhos. O problema implica com uma das questões cosmológicas mais em voga: a incorruptibilidade dos céus, a pretexto da “queda das estrelas”, que solicita a exposição da tese dos que “supõem estando as estrelas fixas no céu e sendo o céu incorruptível não e possível caírem propriamente”. Todavia, não ilude a sua adesão aos modelo tradicional ptolomaico quando distribui os corpos celestes pelas clássicas e estáveis “esferas”: “a Lua esta no primeiro céu, o Sol no quarto, as estrelas no oitavo, que e dos que alcança a nossa vista o supremo”.

Nada disto observa, por experiência sensorial, o nosso orador sacro, simultaneamente descrente da arquitetura fabulosa dos signos do zodíaco, projetadas no firmamento, conquanto firmemente convicto dos “sinais” que dele deduz. De fato, Vieira assume um cepticismo perceptivo unilateral perante as aparências e “mentiras do céu”, impugnando as construções dos matemáticos e dos astrólogos face a “este céu cá de baixo”, o “céu da terra”, numa amostra de realismo súbito e paradoxal.

“Viram os matemáticos esse labirinto de luzes de que está semeada sem ordem toda a esfera celeste, tão diversa na grandeza, como vária no seu movimento, e infinitas no número. Repartiram o mesmo céu, e fingiram em todo ele grande multidão de figuras, umas naturais, outras fabulosas. Aqui puseram um touro, ali um leão (…). Tudo são estrelas resplandecentes e formosas. Mas foi necessário aos matemáticos fingir no céu estas mentiras e pôr lá estas fábulas para por meio delas se entenderem entre si”.16

16 Cf. “Sermao da Segunda Dominga da Quaresma, pregado na Capela Real, 1651”, ob. cit., vol. I, tomo III, p. 42-3.

Percebe-se qual o céu visado pelo pregador: o “lá de cima”, como diz. De resto, “cuida o vulgo que vê o Céu e engana-se, porque não chega lá a nossa vista. Isto que chamamos céu e uma mentira azul: e se as mentiras do céu da terra são tão formosas, quais serão as verdades do Céu”? O jesuíta recorre uma vez mais aos processos alegóricos, usando sucessivos contrastes, para fazer passar a sua mensagem teológica, procurando ordens de grandeza nas aparências celestes, servindo-se dos dois céus, o empíreo e o terrestre, em usufruto do seu magistério:

“O rústico, porque é ignorante, vê que a Lua é maior que as estrelas; mas o filósofo, porque é sábio, e mede as quantidades pelas distâncias, vê que as estrelas são maiores que a Lua; o rústico, porque é ignorante, vê que o céu é azul; mas o filósofo, porque é sábio, e distingue o verdadeiro do aparente, vê que aquilo que parece céu azul, nem é azul nem é céu”.17

17 Cf. “Sermão da Quinta Quarta-feira da Quaresma, pregado na Misericórdia de Lisboa, 1669”, ob. cit., p. 107.

Representação genésico-mitológica do céu

Dürer's Apocalypse

Talvez a mais expressiva peca do imaginário celeste vieiriano seja a sua representação genésico-mitológica da Via Láctea, ministrada na sábia proporção do estilo de súbitos contrastastes e servindo de exemplum ao lugar doutrinal da Virgem Maria e do mistério do Rosário no contexto do catolicismo. Antonio Vieira começa por lembrar as referencias dos pitagóricos sobre a gênese da nossa nebulosa estelar:

“A estrada por onde os habitadores do Céu sobem aos altos palácios da grande Tonante; isto é, gentilicamente Júpiter; e cristãmente Deus. Pela cor os gregos lhe chamaram Galáxia, assim todos pela figura lhe chamam círculo; porque sendo onze os círculos em que os matemáticos cortam e dividem o céu, os dez todos são imaginados e só o círculo lácteo, real, é visível (…). S. João Damasceno com a sentença mais recebida nas escolas diz que a Via Láctea é no oitavo céu um agregado ou multidão de estrelas umas grandes e outras pequenas que por sua menoridade, número e distância se não podem ver nem contar”.

Pela aparência, parece entreabrir-se na percepção intelectual do orador uma imagem de infinidade do cosmos, ao arrepio do ainda predominante “mundo fechado”. Num discurso marcado por um realismo sensorial que nega os círculos zodiacais imaginados pelos sábios, as incontáveis e invisíveis estrelas persistem, paradoxalmente, contidas no “oitavo céu” das esferas ptolomaicas.

E nesse firmamento encerrado que o jesuíta, sempre atento aos vaticínios, evoca a aparição dos meteoros e o sentido que dele dava a gentilidade: a morte de alguma notável personagem, “como se viu na morte de Júlio César”. Por esse sinal, referindo Suetônio, sabia-se que “estava trasladado as estrelas e colocado entre os deuses”. Registra que a quantidade de estrelas novas surgidas no céu,

“como notou o doutíssimo Riccioli, foram vistas e no-las mostrou Deus dentro do círculo da Via Láctea, como se a mesma Via Láctea fosse o prontuário ou tesouro onde Deus tem depositados esses portentos de luz, para mostrá-los ao mundo, quando é servido”.

Assim, para o pregador, cada ponto luminoso da grande espiral de estrelas, corresponderia a cada um dos “santos que a Igreja colocou no céu”, graças a sua particular devoção do Rosário, de fato, a verdadeira Galáxia, a Via Láctea.

A menção de Riccioli vem a propósito para introduzir um outro tópico maior da cosmologia da época, tal como foi encarada pelo padre Antonio Vieira: o seu geocentrismo, sinal da impoluta estabilidade da sua cosmovisão. Não espanta a leitura do astrônomo, reformador do Almagesto, adversário de Galileu, ancoradouro certo de muitos dos pensadores coevos do nosso mestre jesuíta. Da sua parenética, colhemos dois excertos que nos esclarecem acerca do sistema do mundo vieiriano.

“Copérnico, insigne matemático do próximo século, inventou um novo sistema do mundo, em que demonstrou, ou quis demonstrar (posto que erradamente), que não era o Sol o que se movia e rodeava o mundo senão que esta mesma Terra em que vivemos, sem nós o sentirmos, é a que se move, e anda sempre à roda (…). E a maravilha deste novo invento, é que na suposição dele corre todo o governo do universo, e as proporções dos astros e medidas dos tempos, com a mesma pontualidade e certeza com que até agora se tinham observado e estabelecido na suposição contrária. Escolhei das duas opiniões qual quiserdes”.

Deixa o pregador ao livre-arbítrio dos seus ouvintes a escolha do modo como queiram representar a sua relação com o Sol, não sem antes ter deixado vincada a sua postura, que sublinhamos no texto. Reconhecendo que a versão heliocêntrica nem sequer era inédita, lembra-nos, num outra peca do seu sermonário, que:

“Opinião foi antiga de muitos filósofos, que não era o Sol o que se movia e dava volta ao mundo, senão que permanecendo sempre fixo e imóvel, esta Terra em que estamos é que sem nós o sentirmos se move e nos leva consigo (…). Mas esta opinião ou imaginação matemática, assim como ressuscitou em nossos tempos, assim foi condenada como errônea, por ser expressamente encontrada com as Escrituras divinas”.

Em defesa dos juízos eclesiais, o orador jesuíta socorre-se das recorrentes passagens do Ecclesiastes para asseverar a imobilidade intransigente do orbe terrestre. E por isso questiona:

“Não vedes como neste imenso globo do Universo só a Terra, como centro dele, coube o último lugar do mundo?” De resto, “viam” os olhos e a mente de Vieira que “todos os lugares, mais ou menos altos, são naturalmente inquietos, e só o ínfimo, o ultimo e mais baixo de todos e o assento firme e o centro imóvel da segura e perpetua quietação”. Diante de si, imperava, pois, “o curso e a revolução sempre inquieta do Sol, da Lua e das estrelas e a continua batalha dos elementos”. Como poderia Copérnico ter lugar nesta centralidade imperscrutável, única e aceitável, na lógica religiosa centrípeta do “mundo” de Antonio Vieira?

O observador de eventos celestes

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Um derradeiro relance pelas Cartas do pregador jesuíta confirmam-nos a sua proficiente catalogação de eventos astronômicos a que procedeu, mormente no decurso da sua estada em Coimbra e, mais tarde, na Baia.18 Típica desta permanente atenção aos céus e uma missiva endereçada ao cônego Francisco Barreto:

“Cá apareceu um cometa aos 6 de Dezembro, dia em que foi coroado El-Rei, muito maior que o grandíssimo que lá vimos no ano de oitenta, em figura de palma, que se estendia desde o horizonte até ao zênite e levava o curso para a parte austral tão arrebatado qual nunca se viu em outro”.

18 Particularmente sugestivas são as suas trocas epistolares com D. Rodrigo de Meneses e o Marques de Gouveia, em que Antonio Vieira denota a sua acuidade face a todos os episódios astronômicos e também o cuidado rastreio de todo a a espécie prodígios celestes e atmosféricos que remete invariavelmente para a sua “cometomancia” político-messiânica. Cf. Cartas do Padre António Vieira. Coordenadas e anotadas por Jose Lucio d’Azevedo. Coimbra, Imprensa da Universidade, 1926.

Se as finalidades últimas do seu empenho se desviam dos intentos dos atuais critérios de uma genuína observação astronômica, isenta de leituras prognosticas, certo e que não podemos desinserir o indivíduo do seu nicho sociocultural e isolá-lo dos fundamentos ideológicos que, neste caso, validavam o uso de uma “para-ciência” dos astros, sedimentada na fusão entre os domínios das ciências naturais e o território da exegese bíblica.

Bibliografia

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Vieira , António (1856), “Discurso em que se prova a vinda do senhor Rei D. Sebastião”, in Obras inéditas. Lisboa, Editores J-M-C. Seabra & T.Q. Antunes, tomo I. Vieira , António (1857), “Voz de Deus ao mundo, a Portugal e a Baia. Juízo do cometa que nela foi visto em 27 de Outubro de 1695 e continua ate hoje, 9 de Novembro do mesmo ano”, in Obras várias do padre António Vieira. Lisboa, J.M.C. Seabra & T.Q. Antunes.

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Vieira , António (1959), “Sermão da Dominga Décima Sexta (depois do Pentecostes), s/d, in Obras Completas do Padre António Vieira. Sermões, Prefaciado e revisto pelo Padre Gonçalo Alves. Porto, Lello & Irmão Editores.