Astrologia e Astrólogos

As Casas Astrológicas

astronomical clock

O Espectro da Experiência Individual

Dane Rudhyar

 Por que Casas?

A maioria dos astrólogos provavelmente concordaria com o enunciado genérico de que a astrologia é o estudo das correlações que se podem estabelecer entre as posições dos corpos celestes em redor da Terra e os acontecimentos físicos e as mudanças psicológicas ou sociais na consciência do homem. Os movimentos dos corpos celestes, com poucas exceções, são cíclicos e previsíveis. Tanto quanto podemos ver, o nosso universo é bem ordenado, muito embora essa ordem não seja tão visível de perto, já que, devido à nossa posição na Terra, em meio aos acontecimentos, envolvidos com esses acontecimentos e reagindo emocionalmente a eles, estamos impossibilitados de perceber o grande quadro da existência cósmica. Mas quando consideramos os acontecimentos celestes que ocorrem a uma distância imensa de nós, podemos de imediato experimentar os ritmos majestosos traçados nos bastidores do céu: o nascimento e o ocaso do Sol, da Lua e das estrelas, a lua nova e a lua cheia, a conjunção dos planetas e outros fenômenos periódicos. Assim é que a astrologia, ao relacionar as experiências aparentemente imprevisíveis e aleatórias do homem em seu ambiente terrestre com as alterações rítmicas e previsíveis da posição e das inter-relações dos corpos celestes, deu à humanidade um valioso sentido de ordem que, por sua vez, produziu uma sensação de segurança, ainda que transcendental.

Há muitas maneiras de reagir à idéia de que se podem estabelecer correlações definidas e ao menos relativamente confiáveis entre o que acontece no universo em torno da Terra, de um lado, e as alterações externas e internas nas vidas humanas, de outro, como há também muitas maneiras de interpretar essa idéia. É óbvio que essas reações e interpretações dependem basicamente do estágio da evolução da pessoa, em termos de sua capacidade sensória de perceber o que acontece nos céus, e do estado de desenvolvimento de sua consciência, de suas faculdades psíquicas e de seu equipamento intelectual e físico, para medir e interpretar o que experimenta. Isso tudo encontra expressão no ambiente social, religioso e cultural, que proporciona ao observador dos astros um certo tipo de linguagem, suas crenças básicas e um modo de viver sócio-cultural.

Dissociar a astrologia do estado da cultura e da sociedade na qual o astrólogo vive e efetua seus cálculos e interpretações não tem sentido. Todo sistema conceituai tem de ser compreendido em termos das condições de vida – sociais e pessoais, além de geográficas – de pessoas que agem, sentem e pensam. A “verdade” ou, antes, a validade de uma ação ou de um pensamento só pode ser aferida em função do quadro sócio-cultural mais amplo e, mais profundamente, com referência a uma fase específica da evolução da humanidade ou, pelo menos, de parte da humanidade.

Como em geral isso não se faz, ou só é feito com a distorção resultante de se projetar nosso presente estado de consciência sobre as mentes e os sentimentos dos homens antigos e de outras raças, daí resulta muita confusão. A astrologia é um campo particularmente fértil para a confusão e a proliferação de opiniões dogmáticas, seja sob a forma de análises supostamente científicas e de erudita compilação de textos ou de palpites psíquicos ou “comunicações”. Muitas teorias complexas e interpretações confusas se desenvolveram em razão de se conceber a astrologia como uma coisa em si mesma, uma “ciência” misteriosa dotada de uma terminologia intrigante e inalterada desde os antigos caldeus e presumivelmente ainda válida até hoje. Entretanto, essa terminologia obviamente não tem levado em conta as mudanças radicais ocorridas na consciência humana e em sua percepção da posição da Terra e de sua própria posição no universo durante muitos séculos.

Em conseqüência disso, a atual onda de interesse pela astrologia está se defrontando com toda sorte de obstáculos e se escoando confusamente para vários canais. Em grande parte isto significa que se perdeu de vista a função básica da astrologia, que é a de levar um sentido de ordem e de desdobramento harmonioso e rítmico aos seres humanos – não a seres humanos como eram no velho Egito ou na antiga civilização chinesa, mas tais quais são hoje, com todos os atuais problemas emocionais, mentais e sociais.

A Astrologia Centrada numa Localidade nos Tempos Antigos

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Até o fim da era “antiga”, no século VI a.C, quando Gautama Buda viveu e ensinou na índia e Pitágoras no mundo helênico, a consciência das pessoas – talvez com raras exceções – girava fundamentalmente ao redor de uma localidade. Grupos relativamente pequenos de seres humanos viviam, sentiam e pensavam em termos do que melhor se poderia definir como valores “tribais”. Agrupamentos tribais, que eram os elementos básicos da sociedade humana na época, estavam tão ligados à terra da qual tiravam sua subsistência quanto um embrião está ligado ao útero materno. A tribo constituía um organismo; todos os seus membros estavam totalmente integrados nesse organismo multicelular. Cada membro da tribo era dominado psiquicamente pelo modo de vida, pela cultura, pelas crenças e pelos símbolos do grupo, cujos tabus não podiam ser desobedecidos. Não havia verdadeiros “indivíduos” nessa fase da evolução humana; todos os valores em que a cultura e as crenças do grupo se baseavam eram expressões de condições geográficas e climáticas específicas e de um tipo racial particular. A comunidade tribal buscava no passado o símbolo, se não o fato, de sua unidade; ou seja, um ancestral comum ou algum rei divino que lhe tinha dado uma espécie de conhecimento revelado e uma coesão psíquica especial.

 A astrologia que se desenvolveu nesse estágio também girava em torno dessa localidade, muito mais do que ao redor da Terra em geral. Toda aldeia tribal tinha um centro que era considerado o próprio centro do mundo ou o limiar de um caminho secreto que levava a esse centro. O que hoje chamamos de horizonte era o que definia os limites da vida. Acima dele, o céu era a morada das grandes hierarquias criativas dos deuses. A região escura abaixo do horizonte constituía o misterioso mundo subterrâneo para onde o Sol se retirava todas as noites a fim de recobrar as energias necessárias para tornar a trazer a luz ao mundo horizontal do homem. É bem possível que alguns sacerdotes iniciados estivessem cientes de que a Terra era um globo a girar em volta do Sol; mas se havia uma tradição secreta comunicada oralmente através de ritos de iniciação, o certo é que tal fato aparentemente nada tinha que ver com a astrologia.

 Para o homem tribal primitivo, a astrologia era parte integrante do simbolismo religioso, bem como um meio de predizer as ocorrências naturais periódicas que afetavam a vida da comunidade e em especial suas atividades agrícolas ou o cruzamento de seus rebanhos. Em tais condições de vida e com a consciência humana focalizada no solo e no bem-estar total da comunidade orgânica, a astrologia era bastante simples. Ela se baseava essencialmente no aparecimento, culminação e ocaso de todos os corpos celestes – as “estrelas” e os dois “luminares”, Sol e Lua. Duas categorias de “estrelas” foram prontamente diferenciadas. A maioria das estrelas no seu nascimento e ocaso mantinha inalterada suas relações mútuas; isto é, ao viajarem pelo céu, a ordem configurada por esses pontos de luz permanecia “fixa”. Outros corpos celestes, ao contrário, se moviam independentemente uns dos outros e às vezes pareciam regredir; foram chamados de “errantes”, e é isto o que a palavra planeta significava originalmente. Alguns desses planetas pareciam ao observador adestrado pequenos discos, e não pontos de luz, e pensava-se que constituíam uma categoria de objetos celestes muito diferentes das estrelas. Suas conjunções periódicas eram observadas, e seu movimento cartografado, de modo a poderem ser medidos e suas conjunções, preditas.

astrologer

 Cartografado em relação a quê? O fundo ou quadro de referência óbvio era a configuração permanente das estrelas distantes. Mas precisamos entender que para a mente antiga as estrelas não eram fixas. Seu nascimento e ocaso eram observados. A única coisa realmente fixa era o horizonte. Não obstante, a ordem geométrica geral que as estrelas compunham no fundo escuro do céu claro das regiões subtropicais e desérticas permanecia a mesma durante séculos. Podia, portanto, servir de quadro de referência, se fosse subdividida para maior conveniência das medições.

 Para compreender como o conceito de constelação zodiacal apareceu e que forma simbólica assumiu, só precisamos entender que todas as sociedades tribais, ao que saibamos, usavam totens. Esses totens estavam associados a clãs da tribo; e esses clãs, de certo modo, representavam órgãos funcionais do organismo total da tribo. Com mais freqüência, os totens eram animais com que os membros de um clã se sentiam especialmente relacionados. Mas também podiam ser objetos naturais, como plantas, por exemplo.

 Quando os homens das eras pretéritas quiseram imprimir uma forma mais definida e permanente à sua sociedade, procuraram modelá-la sobre princípios de uma ordem orgânica funcional. Eles achavam que o cosmo era um todo orgânico animado por uma força vital bipolar universal, simbolizada na astrologia pelos dois luminares; na filosofia chinesa, pelos princípios yang e yin, ativos em todas as formas de existência. Na verdade, o Céu e a Terra eram concebidos como duas polaridades; o primeiro, criativo e divino; a outra, receptiva e fértil, mas cheia de energias contraditórias que tinham de ser integradas e domesticadas – de domus, que significa “casa”. O homem sábio – o “celeste” na China – situava-se, por assim dizer, no meio dessas polaridades, participando tanto do Céu como da Terra. Sua tarefa era imprimir uma ordem criativa na natureza terrena e organizar a sociedade de acordo com os ritmos e princípios cósmicos. Em alguns casos, operava também o processo inverso, e se projetavam totens no céu a fim de acentuar a íntima conexão que o clã acreditava ter com seus equivalentes celestes. Assim, as constelações receberam nomes de acordo com os vários totens tribais. Mais tarde, o símbolo do Grande Homem no Céu, cada órgão do qual correspondia a uma constelação, foi estabelecido.

 Esse tipo de pensamento prevaleceu na Grécia, onde os heróis eram transferidos para o céu após a morte, e seus nomes dados às constelações. Posteriormente, na Europa medieval, nos círculos alquímicos e ocultistas, passou-se a referir ao Céu como Natura naturans e à Natureza terrestre como natura naturataas polaridades criativa e receptiva da vida.

 Em regiões como o Egito e a Mesopotâmia, o fator sazonal não é tão óbvio, como nas regiões mais setentrionais da Europa; mas as inundações do Nilo assinalavam o momento mais decisivo do ciclo anual. Ali, os astrólogos eram antes de mais nada observadores de estrelas, e é seguro presumir que seu zodíaco se referisse às constelações. Volto a insistir em que a astrologia, a essa altura, estava concentrada na localidade muito mais do que na Terra em geral. Nenhum astrólogo egípcio se preocupava com o que pudesse ser observado no céu das regiões polares ou do hemisfério sul. Esses problemas inquietantes só começaram a aparecer quando se soube que a Terra era um globo girando em torno do Sol, de par com os outros planetas – quando os ocidentais passaram a viajar e a contemplar céus muito diferentes dos da Europa.

 Quando isso aconteceu, a velha astrologia tornou-se, se não de todo obsoleta, pelo menos carregada de conceitos obsoletos e de uma terminologia arcaica que em muitos casos já não faz sentido. Na verdade, grande número de correlações longamente observadas e tabuladas entre ocorrências no céu e acontecimentos na biosfera terrestre permaneceu válido. Essa validez, entretanto, pertence agora a uma nova ordem de realidade humana. A consciência de pessoas que pensam em termos de sistema heliocêntrico e que viajam por todo o globo perdeu pelo menos boa parte de sua estrita relação com uma determinada localidade geográfica, e a sociedade já não opera em nível local ou tribal. Os homens ficaram livres da tribo, “individualizados” e desenraizados, e mesmo que alguns ainda estejam ligados à sua localidade, em teoria e em termos das novas religiões universalistas – budismo, cristianismo, islamismo -, eles se sentem e são considerados “indivíduos”.

 Se os astrólogos não levarem em consideração esses fatos históricos, espirituais, intelectuais e sócio-culturais, permanecendo cegos para as realidades básicas, a confusão decorrente do uso de termos e de conceitos obsoletos se perpetuará, e as questões mais fundamentais permanecerão mal compreendidas.

 Os parágrafos precedentes formam uma base indispensável para o estudante que começa a se familiarizar com o conceito de Casas astrológicas. Para que servem essas Casas? Como nasceu esse conceito e o que foi feito dele na moderna astrologia? Quantas Casas deve haver e quais são os complexos problemas com que nos defrontamos ao determinar os limites, ou as “cúspides”, dessas Casas?

 Responder essas questões em detalhe está além de nosso propósito neste livro. Mas alguns pontos básicos precisam ser enunciados com a maior clareza e simplicidade possíveis antes de passarmos ao estudo dos quatro ângulos nos mapas astrológicos e dos diferentes níveis de significação que se deve atribuir às doze Casas, como são usadas atualmente.

 The 12 astrology houses in astrology

The twelve astrological house

Cartes Postales_

  Zodíaco e Casas

Do ponto de vista da astrologia arcaica, o conceito de Casa é muito simples e suscita poucos problemas. Como vimos anteriormente, o astrólogo precisava de um quadro de referência ou de uma base em que pudesse marcar com exatidão a posição do Sol, da Lua e dos planetas, e a distância angular entre uns e outros quando vistos de uma determinada área em que o agrupamento tribal vivesse. Mas o astrólogo provavelmente compreendeu, mais cedo ou mais tarde, que havia duas bases de referência possíveis. Uma delas eram as configurações inalteradas compostas por aqueles grupos de estrelas – as constelações – que se encontram próximas da eclíptica, isto é, próximas da faixa estreita do céu ao longo da qual o Sol, a Lua e os planetas se movem. Essa base de referência é obviamente espacial: corpos celestes movendo-se ao longo de formas espacialmente extensas das constelações zodiacais.

 A outra base de referência era mais especificamente duracional, pois definia o tempo levado pelos corpos celestes para surgirem no Oriente, alcançarem o zênite, ou ponto de culminância, e desaparecerem no Ocidente. Tudo o que está envolvido nesse tipo de medição é, em termos modernos, a rotação diária da esfera celeste acima e abaixo do horizonte. Essa rotação sugeriu ao antigo astrólogo o conceito de horas e igualmente o de relógios, pois, especialmente durante a noite, os homens tinham de estar vigilantes contra possíveis intrusões, fosse de animais predatórios ou de inimigos humanos. As sentinelas vigiavam em períodos de duas ou três horas.

 Durante o dia, o fator básico era o movimento do Sol em torno do céu visível, pois sua elevação variável produzia alterações de temperatura, que por sua vez influíam em todas ou em quase todas as atividades humanas das sociedades agrícolas. As alterações da elevação solar podiam facilmente ser reduzidas ao cruzamento, por parte do Sol, de várias seções, em seu caminho diário em torno do céu visível; assim, o fator tempo podia também ser analisado como fator espacial – o que, aliás, é a base do relógio de sol, que mede o tempo em termos de espaço.

 Mas esse tipo de espaço podia ser interpretado como estritamente “terrestre”, ao passo que o espaço definido pelas constelações era “celeste”; essa diferenciação era, sem dúvida, muito importante numa época em que a polaridade Céu-Terra constituía a base de um vasto número de conceitos com infinitas aplicações. Essa diferença ainda é importante para muitos astrólogos, como logo veremos.

 Quando o astrólogo moderno fala dessas duas bases de referência para medir o movimento do Sol, da Lua e dos planetas, menciona desde logo que a primeira se refere ao movimento anual aparente do Sol em torno do zodíaco – que hoje compreendemos ser na verdade a revolução da Terra em sua órbita, a eclíptica -, e a segunda se refere à rotação diária de nosso globo em torno de seu eixo polar; mas, evidentemente, não era assim que os antigos concebiam as coisas. E o que importa não são os chamados fatos – como os vemos hoje em dia – mas o significado que o homem atribuía a suas experiências imediatas e diretas. A astronomia trata dos fatos observáveis, ao passo que a astrologia é o estudo das reações significativas, racionais ou irracionais, que a pessoa tem a esses fatos em termos de sua concepção da natureza e do caráter do universo.

 Mas, voltando às duas bases de referência utilizadas para medir as posições, as relações angulares e os ciclos do Sol, da Lua e dos planetas: a primeira é o que hoje chamamos zodíaco; a segunda, o círculo das Casas astrológicas. Mas esses termos e o modo como são definidos e usados são muito ambíguos. Pode-se conceber qualquer número de “zodíacos”, dependendo do que queiramos medir; da mesma forma, nossas Casas astrológicas modernas e as “vigílias” da astrologia antiga são muito diferentes – diferentes no número, no tamanho e na significação. Tentaremos esclarecer essas ambigüidades e definir a posição assumida pela astrologia no mundo ocidental.

Cancer in Andreas Cellarius, Harmonia macrocosmica, 1661_

 Primeiro, é preciso compreender que os primeiros zodíacos foram provavelmente lunares, divididos em 27 ou 28 seções, geralmente chamadas asterismos ou Casas lunares. Obviamente, não se pode ver, normalmente, os grupos de estrelas pelas quais o Sol passa em qualquer época do ano; tem-se de deduzir essa posição solar com base nas estrelas que nascem ou se põem logo após o ocaso do Sol. É muitíssimo mais simples aferir a posição da Lua à noite em relação às estrelas. Assim, um quadro de referência estelar para o ciclo mensal da Lua é realmente o mais lógico, sobretudo para tribos nômades que criavam rebanhos que precisavam ser vigiados durante a noite.*

 * Os zodíacos lunares parecem ter sido divididos em 27 ou 28 seções evidentemente, porque a Lua leva ± 27 dias para percorrer a esfera celeste das “estrelas fixas”. O dia é a medida básica de tempo porque se refere à alternância de luz e escuridão, de consciência desperta e de sono – o fato mais fundamental da experiência humana. Os zodíacos lunares se referem a um tipo de consciência humana em que tudo quanto a Lua simboliza é básico – uma consciência que encontrou expressão no matriarcado e que depende de fatores biológico-psíquicos e de respostas sensoriais. O zodíaco solar presumivelmente ganhou proeminência quando os tipos patriarcais de organização suplantaram os sistemas matriarcais. Na antiga índia, houve longas guerras entre dinastias solares e lunares. O desenvolvimento do teísmo no tempo do Bhagavad-Gita na índia, depois com Akhnaton no Egito e finalmente com Moisés, estava indubitavelmente relacionado com a ascendência de um tipo “solar” de consciência, e posteriormente com o desenvolvimento do individualismo.

 Também é preciso considerar que o ciclo anual do Sol pelas constelações podia, igualmente, ser medido de outro modo. Falamos hoje do movimento anual do Sol em longitude ao longo do caminho do zodíaco; mas ele também pode ser medido igualmente bem em termos das alterações de declinação. O que isto significa é simplesmente que os ocasos do Sol nunca ocorrem exatamente no mesmo ponto no horizonte ocidental. Só por ocasião dos equinócios de primavera e de outono é que o Sol se põe em linha reta para o Ocidente. No solstício de verão, ele se põe cerca de 23 graus e meio a noroeste; no solstício de inverno, cerca de igual número de graus a sudoeste. De mais a mais, há também alterações na elevação do Sol no céu ao longo do ano, fato que determina o ângulo sempre variável em que os raios solares incidem sobre a superfície da Terra e, conseqüentemente, as mudanças sazonais de clima e temperatura.

 Houve grandes culturas que erigiram grandes pedras no horizonte ocidental para medir a posição do Sol em seu ciclo anual de mudanças de declinação – o que por sua vez estava relacionado a mudanças sazonais. A questão de saber se essas culturas também usavam um zodíaco de constelações pode não ser muito fácil de determinar, embora ambos os tipos de medição possam ter sido conhecidos – o tipo zodiacal referindo-se principalmente à Lua, o da declinação ou tipo sazonal, ao Sol.

 O conceito de zodíaco tornou-se ambíguo e prestou-se a muita confusão quando os astrólogos tomaram plena consciência do movimento chamado precessão dos equinócios, que introduziu uma discrepância sempre crescente entre a medida sazonal e a estrelar. Com o reaparecimento do zodíaco sideral (constelações) na tradição astrológica ocidental, que por muitos séculos usou exclusivamente o zodíaco tropical de signos referentes à configuração fixa de equinócios e solstícios, essa confusão se acentuou ainda mais.

 Não tratarei aqui em detalhe os valores desses dois zodíacos solares, que infelizmente usam os mesmos termos – Áries, Touro, Gêmeos etc. – para indicar os dois conjuntos diferentes de fatores. Direi apenas que enquanto o zodíaco sideral divide a faixa das doze constelações cujos limites são muito incertos e já foram alterados por várias vezes – a última alteração há uns quarenta anos -, o zodíaco tropical se refere a um fator bom conhecido e já mensurado com precisão: a órbita terrestre: Ele depende também de fatores igualmente claros, como, por exemplo, os equinócios e solstícios, com implicações sazonais definidas e muito significativas na vida dos seres humanos que habitam as regiões temperadas do hemisfério norte – é nossa civilização ocidental que hoje em dia domina o mundo inteiro.*

 * Para uma análise dos dois zodíacos, das épocas precessionais e do início da chamada Era de Aquário, ver meu livro Birth Patterns for a New Humanity(1969).

 Ao que parece, há pouca dúvida de que as antigas civilizações de que possuímos registros usassem zodíacos – lunar e/ou solar – que eram “siderais”, ou seja, baseados nas constelações; mas essas civilizações não concebiam ou imaginavam o universo como nós o temos feito desde o período helênico e, sobretudo desde o princípio da Renascença européia. Além do mais, essas civilizações primitivas se encontram em regiões um tanto diferentes do globo e sob condições climáticas diferentes. E nunca é demais acentuar a importância básica desses fatos quando se trata de discutir e avaliar dados e técnicas de astrologia.

As Oito “Vigílias”

The Antikythera Mechanism

The Antikythera Mechanism

Consideremos agora a segunda base de referência que pode ser e realmente foi usada para medir as posições do Sol, da Lua e dos planetas, ou seja, o círculo das Casas astrológicas.

 É, com efeito, muito provável, como o falecido Cyril Fagan assinalou ainda recentemente, que na astrologia antiga o que hoje chamamos Casas fossem períodos de tempo – “vigílias” – que se baseassem no levante, na culminação e no ocaso do Sol. Assim, se dividia o dia solar em quatro períodos básicos, postulando-se o quarto momento significativo do ciclo como uma contraparte da culminação do Sol ao meio-dia, ou seja, à meia-noite.

 É preciso entender o sentido filosófico-psicológico, tanto quanto o cosmológico, desse modelo quádruplo que domina o pensamento astrológico. A divisão quádrupla de qualquer ciclo repousa na compreensão do dualismo inerente a toda existência e à consciência humana. Já mencionei a polaridade de dia e noite, luz e escuridão, atividade consciente e sono, yang e yin. Nas filosofias da índia encontramos constantes referências aos estados de “manifestação” e “não-manifestação”. No Bhagavad-Gita, Krishna como encarnação do Ser universal (Brahman) declara que ele é o começo, o meio e o fim de todos os ciclos. Mas esses ciclos existenciais são apenas “meios-ciclos”, pois todo período de manifestação cósmica (manvantara) écontrabalançado por um período de não-manifestação (pralaya) – um dia cósmico por uma noite metacósmica.

 Os períodos de transição entre esses dias e noites – seja no cosmo ou na experiência humana – são os momentos mais significativos da existência. São simbolizados em termos humanos pelo horizonte, porque esse horizonte divide o movimento diário do Sol em dois períodos básicos, separados pelo seu nascimento e pelo seu ocaso. Nas regiões próximas aos trópicos, os crepúsculos são breves. O dia irrompe depressa e a noite cai rapidamente – fato que é de grande importância quando se deseja, a meu ver insensatamente, transferir certas idéias (como, por exemplo, o conceito de cúspide) pertinentes a uma astrologia subtropical para a astrologia válida em países da zona temperada e de grande latitude.

 O despertar da vida consciente – a alvorada, o ponto alfa do ciclo do dia – e a conclusão da atividade do dia por ocasião do poente – o ponto ômega – são e sempre foram básicos na astrologia, bem como no simbolismo religioso e cultural. O meio-dia é o ponto de culminância do esforço, levando – especialmente em climas quentes – a uma fase de nutrição e repouso. Em oposição polar a ele, a meia-noite é o tempo do mais profundo mistério, um tempo muito mágico.

 Uma outra divisão desse modelo quádruplo no tempo era lógica, especialmente quando associada à necessidade de definir a duração das vigílias noturnas. Um período de três horas é perfeitamente adequado a essas vigílias, e calcula-se facilmente o ângulo de 45 graus quando o avanço do Sol no céu é cartografado no plano horizontal do relógio de sol. Essa medida de 45 graus tem tido muita significação no ocultismo e aparentemente é muito significativa no atual estudo de campos de força eletromagnéticos.

The Antikythera Mechanism

 A divisão em oito também está provavelmente relacionada à atribuição desse número ao Sol. Na índia, o carro do deus Sol era puxado por oito cavalos brancos, e o símbolo numérico que os gnósticos atribuíam ao Cristo como Princípio Solar – Rudolph Steiner falou de Cristo como um grande “Arcanjo Solar” – era 888, ou 8 operando nos três níveis de consciência: biológico, mental e espiritual.*

 * Meu livro O Ciclo de lunação para um estudo ulterior dos padrões óctuplos em termos da lunação e dos oito tipos de personalidades solilunares. Uma série de artigos que escrevi há tempos para American Astrology, “The Technique of Phase Analysis”, também usa de um modo especial mapas divididos em oito setores.

 Cyril Fagan afirmou recentemente que a divisão óctupla de um mapa astrológico é a mais antiga de que se tem registro, e assinalou que essas oito “vigílias” adquiriam sentido em termos do progresso do Sol no céu em sentido horário – e também em termos dos tipos de atividades mais características das quatro vigílias decorridas entre o levante e o ocaso do Sol. Ele provavelmente está certo nessa afirmação, mas só no que diz respeito ao tipo de sociedade agrícola dos tempos antigos, muito embora evidentemente esse modelo de atividade ainda exista onde quer que o homem viva junto ao solo que cultiva ou a animais que cria. É um modelo vitalista, e o Sol deve sempre ser considerado na astrologia como a fonte da Força Vital. Mas, à proporção que o homem se divorcia, na verdade se aliena, do solo e dos ritmos instintivos sazonais da vida – à medida que ele desenvolve uma mente individualista e um ego ambicioso -, os modelos vitalistas perdem muito de sua significação. Desenvolve-se uma nova série de problemas, e hoje a solução desses novos problemas é que constitui a principal tarefa da astrologia. Por quê? Porque é nesse nível de individualização psicomental que as necessidades mais cruciais do ser humano moderno se situam. E tudo tem valor em termos de sua capacidade de responder à necessidade da humanidade – seja a astrologia, a medicina ou a ciência e o conhecimento em geral.

 O ritmo psicomental individualista do homem moderno opera em contraponto com os dos seres humanos ligados ao solo e centrados em sua localidade. Isto fica claramente demonstrado pelo fato de que, em termos de consciência contemporânea, é sabido que o planeta Terra gira sobre seu eixo, e não que o Sol se move diariamente em torno dela. Nessas condições, todo o quadro fica alterado, e vemos a seqüência das modernas Casas astrológicas numeradas e interpretadas em sentido anti-horário. A consciência, a mente e o sentido de identidade do indivíduo se desenvolvem e se desdobram a partir da potencialidade, por ocasião do nascimento, para um estado gradualmente mais completo de realização em oposição ao ritmo da Força Vital. Isso, inevitavelmente, causa problemas, conflitos e complexos psicológicos individuais. Mas representa o caminho do ser humano rumo à maturidade, à confiança própria e à realização criativa como “pessoa”.

Dois Enfoques Básicos do Sol

Scenographia Systematis Mundani Ptolemaici_

Do ponto de vista da antiga astrologia, a determinação das “vigílias” era bastante simples, pois não eram nada mais que divisões do tempo que o Sol levava para se movimentar pela abóbada celeste, do levante ao poente. Quando os astrólogos puderam definir a posição do Sol em qualquer momento com referência às estrelas e constelações zodiacais, foi relativamente fácil determinar as posições zodiacais aproximadas do início das oito vigílias com intervalos de três horas. Não havia nisso nenhum problema especial, e quanto mais próximo do equador se vivesse, mais harmonioso era esse quadro.

 Quando, porém, se considera a Terra como um globo a girar em torno de seu próprio eixo e em torno do Sol, e se procura construir um sistema astrológico que já não seja “localmente centrado”, mas “centrado no globo” e ainda seja relevante às pessoas individualmente consideradas que experimentem o universo de um ponto de vista particular sobre a superfície desse globo, aparece toda sorte de dificuldades. Ora, fatos tridimensionais precisam ser projetados de algum modo sobre uma folha de papel bidimensional. Ao menos três séries de coordenadas podem ser utilizadas: locais, equatoriais e eclípticas. Para piorar as coisas ainda mais, a atitude conservadora da maioria dos astrólogos, orientada segundo a tradição, os tem impelido a continuar usando muitos termos e figuras de linguagem ajustados à perspectiva que os antigos tinham do mundo, mas que já não fazem sentido hoje em dia em termos de nosso conhecimento astronômico. Os próprios astrônomos não se têm saído muito melhor, em certos casos, ao usar os mesmos termos para identificar dois conjuntos de fatos – por exemplo, longitude e latitude – e conservar os velhos nomes.

 Aqui não há espaço para entrarmos nos detalhes técnicos da geometria esférica e dos vários sistemas de divisão de Casas, isto é, a domificação. Mesmo assim, é importante que o moderno estudioso de astrologia compreenda que aquilo que ele normalmente trata como as Casas de um mapa astrológico está sujeito a várias interpretações basicamente diferentes. Cyril Fagan, que reintroduziu o conceito de zodíaco sideral, procurou não só promover a divisão de um mapa em oito Casas como também interpretar-lhes a seqüência em sentido horário. Essa era, provavelmente, a antiga prática, ao menos em algumas regiões. Mas o erro de Fagan, segundo creio, foi tentar impor crenças vitalistas arcaicas aos indivíduos modernos. Poderíamos igualmente aceitar a mitologia Caldaica como base para uma renovação no campo religioso! Cada época, cada cultura tem suas próprias necessidades características, e hoje necessitamos de uma astrologia que satisfaça às necessidades de egos psicologicamente orientados, confusos e alienados – e particularmente às necessidades de um grande número de jovens modernos que, talvez pela primeira vez na história, ficaram fascinados pela astrologia, e isso por razões muito definidas, ainda que muitas vezes, em grande parte, inconscientes.

 O significado das Casas astrológicas, como tem sido usado na cultura européia cristã, está intimamente relacionado com o zodíaco, e esta é pelo menos uma das razões pelas quais a astrologia de estilo ocidental tem usado um sistema de doze Casas. Portanto, devo novamente referir-me ao zodíaco.

 Analisando-se horóscopos registrados na Grécia, em Alexandria ou em Roma, pode-se apresentar uma boa defesa do argumento de que a mudança de um zodíaco sideral para um zodíaco tropical – isto é, de constelações para signos que representem divisões iguais de 30 graus da eclíptica – se deveu a um conhecimento imperfeito de fatos astronômicos, a uma confusão geral no espírito dos homens que viveram durante um período turbulento da história – período que, de certo modo, se equipara aproximadamente, em níveis diferentes, aos tempos atuais. Mas conclusões desse tipo costumam ser artificiais e não fornecem, acredito eu, as razões filosóficas mais profundas para a adoção desse zodíaco. Fica muita coisa por conta do acaso e dos enganos de um ou mais indivíduos. Algo muito mais profundo está em jogo, e continua sendo uma questão fundamental hoje em dia, conquanto de modo diferente. Essa questão é metafísica e cosmológica e diz respeito ao significado que se deve atribuir ao Sol.

 Atrás ficou dito que as constelações foram originalmente divididas para proporcionar um fundo conveniente sobre o qual se pudesse cartografar os movimentos do Sol, da Lua e dos planetas. Esse pode ter sido o modo pelo qual a relação do Sol com as constelações era concebida em certo período da história, mas há uma grande soma de indícios de que nos tempos antigos também se dava a essa relação um sentido diferente e quase dramaticamente oposto – um sentido que ainda tem muita importância em termos de um tipo de pensamento metafísico que desenvolvi alhures. Segundo esse enfoque, o Sol deve ser considerado apenas como um canal ou lente através da qual as energias do Espaço cósmico são focalizadas e dirigidas sobre a Terra e sobre todo organismo vivo nela existente.

 De um ponto de vista, o Sol é o fator dominante, e as constelações formam meramente um fundo para medir seu movimento e sua relação ciclicamente alterada com a Terra. No segundo caso, o fator ativo é o próprio espaçoe diríamos hoje espaço galáctico. O Sol é apenas um instrumento de focalização – alguns ocultistas falam numa “janela” através da qual emanam, dia e noite, as imensas energias de um espaço que é muito mais que tridimensional e físico.

 Esses dois conceitos da natureza fundamental da Força Vital podemos chamá-los, respectivamente, de monoteísta e panteísta. Qualquer estudioso de religião sabe quão ferozmente a igreja cristã tem combatido tudo o que se relacione com o panteísmo. Haja vista a condenação pela Igreja Católica Romana, alguns anos atrás, da perspectiva que Teilhard de Chardin teve do mundo, apesar de seus esforços no sentido de desmentir qualquer influência panteísta.

 Na antiga astrologia, ao menos em alguns países, as doze constelações eram compreendidas como corpos coletivos de “hierarquias criativas” pertencentes a um “Mundo de Formação” cósmico – o que, em sua totalidade, poderíamos hoje chamar de Mente Divina. Sob esse ponto de vista, o Sol – e de forma secundária a Lua e os planetas – era concebido como agência que mobilizava e liberava as energias criativas dessa Mente Divina. Outras constelações também poderiam ser aspectos criativos dessa Mente Divina, mas porque elas não tiveram no Sol e nos planetas canais diretos para derramar suas energias no plano das vibrações e da consciência humanas, só raramente foram eficazes num sentido humano. As doze hierarquias zodiacais foram, portanto as únicas verdadeiramente encarregadas do processo vital sobre a Terra.

 Tal quadro cósmico era essencialmente “panteísta”, ainda que o observador metafísico fosse capaz de obscuramente vislumbrar, para além dessa “esfera de estrelas fixas”, um plano ainda mais transcendente, o reino do Primum Mobile, ou em termos mais filosóficos, o reino do Absoluto eternamente incognoscível, o Ain Soph da Cabala. Em contraste com ele, temos o quadro “monoteísta” do mundo, em que o Único Deus manifestando-se vivida e pessoalmente ao homem é representado pelo Sol, o Eu Sou solar, o egípcio Aton.

 Sob esse ponto de vista monoteísta, o que é básico à existência humana é a relação entre o homem como criatura e seu Criador, entre o humano e o divino. Essa relação, em termos de simbolismo astrológico, torna-se a relação entre a Terra e o Sol; e essa relação é expressa na órbita da Terra. Cada mês do ano – o ponto alto do mês é a lua cheia ou, para alguns povos, a lua nova – representa o desenvolvimento de uma de doze respostas básicas da natureza humana a seus doze tipos essenciais de consciência anímica, doze canais através dos quais a única Vida divina pode encontrar meio de expressão.

 Desse ponto de vista, portanto, o zodíaco é lógica e inevitavelmente um fator “orbital”. É a órbita da Terra, a que continuamos dando o nome antigo e não muito revelador de eclípticaum nome que pouco tem que ver com o que ela representa, tanto concreta como simbolicamente. As estrelas, portanto, constituem um fundo sobre o qual se leva a cabo o grande “diálogo” entre os tipos básicos de seres humanos e o único Deus. Elas representam o maravilhoso cenário cósmico no palco do universo. Não obstante, algumas estrelas individuais podem ficar significativamente envolvidas nos assuntos humanos, mas se o fazem referem-se a Visitações supranormais que, com mais freqüência, se imiscuem procurando perturbar o diálogo entre o homem terrestre e seu Criador – ou seja, o Sol.

Andreas Cellarius Scenographia Systematis Copernicani

Como os planetas, sob esse ponto de vista orbital e heliocêntrico, também são criações do Sol, e como a luz ou os raios que refletem sobre a Terra têm sua fonte no Sol, eles simplesmente diferenciam ou modulam o Poder solar original, o poder divino de criação. É, portanto, lógico interpretar suas posições e relações mútuas em termos da órbita da Terra. Na verdade, as órbitas dos planetas – algumas interiores, outras exteriores à órbita da Terra – podem ser consideradas campos de força que atuam sobre a relação existente entre a Terra e o Sol. Assim, a Lua é especialmente significativa porque, ao girar todo mês em torno da Terra, ela distribui – ao menos simbolicamente – as energias liberadas pelo Sol por ocasião da lua nova e sempre refletidas pelos planetas.

 Devido à enorme importância da relação entre a Terra e o Sol, era quase inevitável que se aplicasse ao círculo das Casas a classificação duodécupla básica dos principais aspectos da ordem cíclica anual de mudanças nessa relação. Acreditava-se que doze Casas correspondessem e estivessem intimamente relacionadas aos doze signosnão constelações – do zodíaco. Mas é preciso entender claramente como isso se fazia.

 A velha perspectiva astrológica centrada localmente tornou-se geocêntrica – centrada no globo. A relação orbital-zodiacal Terra-Sol transferiu-se para todo o globo terrestre, não se limitando mais aos horizontes de uma localidade específica. Podemos ver isto claramente no fato de que aquilo a que chamamos hoje em astrologia horizonte – o horizonte “racional” da astronomia – é um grande círculo que passa pelo centro do globo. Não é o horizonte local da região para a qual se faz um mapa; é unicamente paralelo ao horizonte local.

 Esse horizonte local deve ser compreendido como um “horizonte médio”, que não leva em consideração se uma pessoa nasceu num vale profundo ou no cimo de uma montanha – diferença que, afinal, é ínfima em comparação com as dimensões do globo, de forma que quando se vê a superfície da Terra a vários milhares de milhas acima dela, até as montanhas mais altas parecem insignificantes. Além disso, toda a astrologia de hoje lida com “posições médias” e não com posições reais, o que faz sentido desde que consideremos a astrologia como uma linguagem composta de símbolos arquetípicos e como essencialmente “numerológica” na atribuição de significados específicos aos fatores separados que constituem uma série cíclica – isto é, a série dos signos zodiacais, das Casas, e até dos planetas em termos de sua distância em relação ao Sol.

 Mas, voltando à relação entre os doze signos do zodíaco e as doze Casas, o que está subentendido na maneira segundo a qual o tipo europeu de astrologia tradicional ou clássico interpreta essa relação é a idéia de que os signos zodiacais se referem à substância de energia do processo vital, ao passo que as Casas dizem respeito aos meios existenciais, concretos e circunstanciais em que esses processos operam durante o período de vida de um indivíduo ou de uma entidade social coletiva. Pelo menos para alguns astrólogos europeus de hoje, o zodíaco – dos “signos” – é o campo de força positivo do qual fluem todas as energias que operam na biosfera terrestre; o círculo das Casas, por conseguinte, representa o plano terrestre receptivo e sensível. Isto, em termos mais modernos, é a diferenciação teísta de Deus criador e homem criatura.

 As duas polaridades, a divina e a humana, são simétricas, em princípio. O “destino” da pessoa está escrito não nas estrelas, mas sim no zodíaco tropical, que se refere à natureza dinâmica celestial do homem, natura naturans. As verdadeiras “circunstâncias”, segundo as quais esse destino celeste opera no cotidiano do indivíduo, são indicadas nas Casas e pela posição dos planetas, do Sol e da Lua nessas Casas. As duas séries cíclicas, os signos e as Casas, estão portanto progredindo na mesma direção, ou seja, na direção anti-horária.

 Essa tem sido a atitude básica da astrologia ocidental que ainda encontramos ensinada – com variações individuais – na maioria dos compêndios. Infelizmente, a terminologia usada costuma ser desconcertante, porque muitos conceitos “panteístas” arcaicos ainda estão em evidência. A divulgação da “astrologia sideral” está piorando essa confusão. Do ponto de vista histórico, o Sr. Fagan e seus seguidores talvez estejam certos, desde que falem do passado arcaico – um passado que ainda está influindo sobre as múltiplas e conflitantes escolas de astrologia na índia, terra de tradições espiritualistas. Mas do ponto de vista psicológico eles não entenderam a profunda mudança ocorrida na mentalidade humana durante parte do período greco-latino e ainda mais durante a Renascença européia. Eles não compreendem, a meu ver, a necessidade crucial dos seres humanos de hoje; e seu envolvimento em técnicas científicas e sua declaração de que a astrologia tem valor como uma entidade em si mesma – isto é, como um sistema que precisa ser reconhecido pela “comunidade científica” – parecem irrelevantes em termos das atuais necessidades de nossa sociedade em crise – a não ser, é claro, que creiamos que o futuro da humanidade será determinado por uma dependência ainda maior em relação à tecnologia e ao intelecto analítico e seus processos.

Isso não quer dizer que não haja validade no enfoque sideralista, ou que as técnicas clássicas da astrologia européia sejam, de muitas formas, desconcertantes e obsoletas. Nunca há um questionamento nítido entre “bom” ou “mau” em assuntos sócio-culturais, religiosos ou científicos, pela simples razão de que todas as mentes humanas não operam todo o tempo com um único comprimento de onda. No mundo ainda existe um grande número de pessoas arcaicas, centradas em sua própria localidade, limitadas pelos horizontes de sua própria raça, e indivíduos nacionalistas que veneram mais ou menos dogmaticamente a “grande herança” de seu país específico e/ou de sua cultura. A demanda de leitura de sorte em termos de acontecimentos específicos é tão grande quanto sempre foi, se não ainda maior; e a busca de conforto, de felicidade egocêntrica, de prazer sensual e de prestígio social ainda constitui o impulso a acionar a maioria dos seres humanos e nossa sociedade rica, neurótica e profundamente polarizada.

 A astrologia se ajusta à mentalidade e às expectativas emocionais da pessoa que a ela vem como praticante ou cliente – tanto quanto o fazem a psicologia e a própria medicina. A pessoa obtém aquilo que ela dá. Conforme a pergunta que fizer, assim será a resposta. Aquilo que desejamos saber e, em situações mais construtivas, o que precisamos saber condicionam – se não determinam totalmente – o tipo de conhecimento que obteremos.

 A Astrologia Centrada na Pessoa

astronomical clock zodiac

Estamos vivendo numa era de extremo individualismo, e o enfoque “humanista” da astrologia que venho formulando durante muitos anos busca levar as pessoas a adquirir uma compreensão mais consciente do significado mais profundo de suas experiências, de modo que possam ser capazes tanto de cumprir sua individualidade essencial como seu destino, ou seja, seu lugar e sua função no universo. Nesse tipo de astrologia, o ser humano não é concebido como sendo exterior ao seu mapa astrológico; ele não é tido como “gestor” desse mapa, empenhado em reprimir seus “maus” aspectos e tirar proveito dos “bons”. O mapa astrológico é encarado como a fórmula estruturalmente definidora da “natureza fundamental” de uma pessoa. É um complexo símbolo cósmico – uma palavra ou logos revelador do que a pessoa potencialmente é. É o “nome celeste” de uma pessoa e também um conjunto de instruções sobre como ela pode realizar melhor aquilo que por ocasião de seu nascimento era potencial puro – “potencialidade germinal”. O mapa astrológico é uma mandala,um meio para alcançar uma integração todo-abrangente da personalidade.

 Desenvolvi essas idéias extensamente em muitos livros e num grande número de artigos. Uma vez que elas sejam bem entendidas e assimiladas, tanto emocional como intelectualmente, tornar-se-á óbvio que todo o enfoque da interpretação dos fatores básicos em astrologia tem inevitavelmente que mudar – do contrário os resultados psicológicos para o cliente, e para o astrólogo, podem ser infelizes ou mesmo desastrosos. Essencialmente, o enfoque não deve ser “ético”, isto é, baseado numa atitude dualista – bom-mau, feliz-infeliz. Nenhum mapa astrológico deve ser considerado “melhor” que qualquer outro, mesmo que obviamente alguns mapas indiquem vidas “mais fáceis” que outras – mas as pessoas grandes e criativas bem raramente têm existência fácil, seja interior ou exteriormente.

 Tal tipo de astrologia, visando atender às necessidades de homens, mulheres e adolescentes em nossa sociedade individualista, precisa lançar uma nova luz sobre a maioria dos velhos conceitos astrológicos, sobretudo quando a juventude inconformista procura construir um novo modo de viver. Uma astrologia humanista deve centralizar-se na pessoa porque sua preocupação básica é o desenvolvimento da pessoa como indivíduo – desenvolvimento no campo da consciência e dos sentimentos tanto quanto desenvolvimento através das ações externas. E essa centralização tem implicações muito definidas e conseqüências técnicas e práticas, pois o que uma astrologia desse tipo busca definir e interpretar é a relação direta da pessoa como indivíduo com todo o universo, o que, em termos práticos, significa sua relação com nossa galáxia considerada como “organismo” cósmico.

 A astrologia antiga era, como já disse, centrada na localidade. A astrologia européia em sua forma clássica centrava-se na Terra, sendo esta estudada como um globo. O que precisamos agora, num sentido mais definido e consistente do que o que foi tentado durante as décadas passadas deste século de orientação psicológica, é um enfoque, centrado na pessoa, de todo o conteúdo de nosso universo galáctico. Esse enfoque, de certo modo, está talvez mais próximo da antiga astrologia centralizada na localidade do que da astrologia centrada no globo de algum tempo atrás; mas o papel da localidade – cujo caráter afeta um grupamento tribal de seres humanos ainda não individualizados, movidos por impulsos vitalistas – deve agora ser assumido pela pessoa como indivíduo, ao menos parcialmente capaz de desenvolver um enfoque independente, totalmente aberto, criativo e consciente de seu ambiente total, tanto cósmico quanto biosférico e social.

 Ainda temos muito que aprender com relação à galáxia e a seus milhões de estrelas. Ainda assim, podemos começar a reorientar nossas interpretações no sentido daquilo que se deverá desenvolver plenamente nos séculos vindouros.

Antikythera Mechanism to Quantum Telepathology

Fragmentary Knowledge

The Cosmos in the Antikythera Mechanism

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