Astrologia na Medicina e Psicologia

Os Quatro Elementos, Os Astros, As Doenças e o Homem

Kosmos zodiac human body element temperament

A Visão de Amato Lusitano

Maria Adelaide Neto Salvado

Cadernos de Cultura no. XIV Novembro de 2000

“Todas as coisas foram ajustadas e constituídas pelos elementos; por eles, os homens pensam e encontram prazer e dor”.

Empédocles, Fragmentos

É com palavras de Amato Lusitano, retiradas do prefácio da 1ª Centúria, publicada em Ferrara e dedicada a Cosme de Médicis, que vou começar:

“O número sete compreende a alma e o corpo. O corpo consta dos quatro elementos e é dotado de outras tantas qualidades. À alma pertence o número três, por causa da sua tríplice força, isto é, a racional, a irascível e a concupiscível. Deste modo podemos dizer que o número sete une a alma ao corpo”.

Nestas palavras estão contidos, de forma clara, todos os subtis e complexos laços que teciam a mentalidade de um médico do Renascimento: a adesão à concepção do Universo e do Homem alicerçada na teoria dos quatro elementos; e as ressonâncias repassadas por um neoplatonismo, marcadas pela mística pitagórica em torno do número sete. Como uma onda de fundo, esta mística agitou a Europa nesse século de Quinhentos. Sete eram os planetas conhecidos no mundo antigo, sete as cores primárias, sete as notas musicais, sete os metais considerados na Antiguidade, sete os órgãos ou partes do corpo do Homem.

Unidas pelo traço comum que o número sete constituía, escondidas mas contínuas relações, ligavam entre si estas díspares partes do Universo. Acreditava-se que os laços tecidos por uma estreita interdependência uniam o Homem, entendido como Universo em miniatura, ao Macrocosmo, o vasto e largo Universo, formado pelo conjunto da Terra e do Céu.

Partindo-se da concepção geocêntrica do Cosmos herdada de Ptolomeu e Aristóteles e difundida na Europa medieval pelos árabes, tudo o que existia na parte do Cosmos situada abaixo da esfera da Lua, o chamado mundo sub-lunar, estava sujeito à corrupção e à morte, e era constituído pela combinação de quatro elementos: a Terra, a Água, o Ar e o Fogo.

Esta concepção, que remonta a Empédocles (490-430) a. C., foi retomada e divulgada por Aristóteles (384- 322) a. C., que acrescentou a cada elemento determinadas propriedades específicas. Assim a Terra era fria e seca, o Fogo quente e seco, a Água, fria e húmida, o Ar frio e seco. Marcas profundas na cultura e na medicina da Antiguidade greco-romana deixou esta concepção do Homem e da Natureza.

Com base nestes princípios, Hipócrates e, depois, Galeno defenderam que no corpo do Homem circulavam fluidos, os chamados quatro humores: o sangue, o fleugma, a bílis e a melancolia. Cada um deles possuía as qualidades específicas de um dos elementos. Deste modo, e tal como o Ar, o sangue era quente e húmido; o fleuma era frio e húmido, como a Água, como o Fogo, quente e seca, era a bílis; a melancolia era fria e seca como o elemento Terra. Profundamente enraizada na cultura europeia, esta concepção dominou fortemente o pensamento medieval até ao Renascimento.

Apenas, e a título de exemplo, sirvam as palavras de Santo Antônio de Lisboa, escritas no século XII, para evidenciar a força desta teoria que defendia a união do homem ao resto da criação:

“Todo o homem, que tem algo de comum a toda a criatura: aos Anjos, aos animais, às árvores, às pedras, ao fogo e à água, ao frio e ao quente, ao húmido e ao seco, porque o homem se chama «microcosmos», é um mundo em miniatura. Assim como todo o mundo consta de 4 elementos, os antigos disseram que o homem, um mundo em miniatura consta de 4 humores, misturado num só temperamento.1

1 Santo António de Lisboa, .2° Sermão da Ascensão do Senhor., Obras completas, vol. III, Lisboa, Sociedade de Língua Portuguesa, 1970, p. 357.

Admitindo esta estreita interdependência entre o Homem e o macrocosmos, a tradição astrológica defendia que os planetas e as constelações (signos) do zodíaco projectavam os seus influxos sobre os órgãos e as partes do corpo humano.

Assim, cada humor era regido por um planeta determinado: o sangue era movido por Júpiter, Saturno movia a melancolia, a bílis sofria as influências do planeta Marte e o fleuma era regido pela Lua.

De igual modo, cada uma das constelações zodiacais regia o funcionamento de uma parte do corpo do Homem. É a doutrina da simpatia universal, que em si contém a ideia de destino, de fado, isto é, a ideia de que os acontecimentos bons e maus, que marcam a vida do Homem, se encontram predestinados desde o momento do seu nascimento. Esta ideia perpassa como um sopro em vários segmentos da cultura peninsular, mesmo no mundo actual.

From the MacKinney Collection of Medieval Medical Illustration

“Ninguém foge ao seu destino,
Nem para o que está guardado.
É preciso ser-se forte,
Ser-se forte e não ter medo,
Porque na verdade a sorte
Como a morte chega sempre tarde ou cedo”

– cantava Amália Rodrigues num dos seus fados.

Enraizando em todo este conjunto de concepções assenta a medicina astrológica, ou iatromatemática. Baseava-se esta prática médica na observação atenta dos ciclos da Natureza e do curso dos astros, procurando a partir deles descobrir a sua influência sobre o Homem e encontrar indicações e caminhos que norteassem uma prática médica coerente e eficaz. Cláudio Ptolomeu (85-160), no seu livro intitulado Tetrabilos, que constituiu o manual clássico das doutrinas do Geocentrismo em toda a Idade Média expressa deste modo a influência astral sobre o corpo do Homem:

“O grau do signo afetado pelo dano indica o orgão do corpo em que ocorre o dito acidente; ou se aquilo que ocorre no orgão é infecção ou enfermidade ou ambas. Porém, a qualidade do planeta indica o modo da sua influência.

Organicamente Saturno governa o ouvido direito, o baço, a bexiga. Júpiter o tacto, o pulmão e as costelas. O Sol a vista, o coração e o ombro. Marte o ouvido esquerdo, os rins e os membros viris. Vénus o olfacto e o fígado. Mercúrio a fala, o pensamento e a língua. A Lua, o gosto, o estômago, as partes femininas e todos os orgãos do lado esquerdo”.

Traduzidas para árabe e por eles difundidas por todo o mundo islâmico, as obras de Cláudio Ptolomeu marcaram fortemente a vida e a cultura da Europa até meados do século XVI. Por essas obras se orientaram o pensamento e a prática dos médicos do mundo islâmico entre os quais Ibn Sina (Avicena), cuja obra, o Canon, modelou a formação dos médicos europeus até ao Renascimento. Assim, segundo o professor Sanchez Grangel, entre meados do século XV a meados do século XVI a formação médica ministrada na Universidade de Salamanca tinha por base o Canon de Avicena. Para além desta obra, constituía leitura obrigatória a tradução medieval dos textos de Galeno.

Diogo de Torres, professor da Universidade de Salamanca durante a segunda metade do século XVI, é o exemplo típico do médico astrólogo, leccionando retórica, filosofia natural, medicina e astrologia.

Vários autores são unânimes em salientar a influência exercida na Universidade de Salamanca por Abraão Zacuto, que, a pedido de Juan de Zurniga chega a escrever uma obra intitulada Os eclipses do Sol e da Lua, onde releva a importância da astrologia para um profissional da medicina.

José Vizinho, discípulo de Zacuto, foi amigo e privou de perto com Amato Lusitano. Medicina e Astrologia andavam, pois, estreitamente ligadas na Universidade de Salamanca na época de Amato Lusitano.

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Amato Lusitano – um homem do seu tempo

“A história é a ciência dos Homens nos tempos”.

Lucien Fevre

Parece-me que Amato foi fortemente sensível a esta sua formação de base. Nas suas palavras com que iniciei esta comunicação, tenta ele expressar uma opinião muito própria, opinião que não segue “qualquer coisa já escogitada”, acerca das razões pelas quais o julgamento das doenças era feito no 7º dia ou no dia 14º a contar, do aparecimento da doença. A palavra julgamento possui neste contexto um sentido muito preciso. Estabelecer um julgamento era prever, através de sinais revelados pelo estado do doente nesses dias, a duração e evolução da doença. Por isso se lhes chamava também dias decisivos. Para Amato Lusitano, os dias decisivos possuem a mesma natureza dos números e da música.

Estabelecendo um paralelismo entre a dissonância e consonância que ocorre entre os números e a música, Amato Lusitano conclui que igual relação existe entre os números dos dias da doença e a própria doença. Assim, defende que, tal como o 7 e o 14 (7+7) são discordes e dissonantes com o número 1, o 7º dia da doença será (como ele próprio escreveu): “o dia marcado para o duelo”. E esclarece:

“Ora, como ninguém pode cantar triunfo antes de vencer assim também a Natureza não poderá voltar ao anterior estado e origem da saúde, a não ser que tenha vencido e subjugado, previamente, o inimigo, isto é, a doença. E isto sabemos que acontece quase sempre no 7º dia”.

Mas adverte Amato:

“(…) Na minha opinião, o médico, quando tentar calcular os dias da doença, contará os dias completos, não desprezando nenhuma fracção deles”.

É, no entanto, seguindo Galeno, que Amato clarifica o seu conceito de dia decisivo. Escreveu ele:

Galeno diz muitas vezes: «quando me refiro a dia, entenda-se na acepção do período que abrange tanto a luz como a noite. Chamo dia, agora, ao intervalo de 24 horas”.

Como homem tão fortemente marcado pela influência de Galeno, (que largas vezes cita e a quem se refere nestes termos “vasto e rico oceano da medicina, onde têm origem todas as correntes médicas, ribeiros, rios e fontes”, e, na cura 44 da 3ª Centúria, dizendo: “Segui-lo, agarrar-se-lhe obstinadamente e interpretá-lo eis a melhor acção de um médico”) natural seria que Amato perfilhasse de igual modo a visão de Galeno relativamente à influência dos astros sobre o homem.

Seria a prática médica de Amato fortemente guiada e orientada pelo curso dos astros? Ou, no seu espírito de homem do Renascimento, aberto ao estudo e à reflexão, que dúvidas lhe levantaram as esclarecidas opiniões de Paracelso2 ou de Pico della Mirandola3? Que estremecimento provocaram no pensamento de Amato Lusitano as dúvidas de Pico della Mirandola, desse humanista que iluminou com o brilho do seu pensamento a Europa do seu tempo?

2 Filipe Teophato de Hohenheim (Paracelso).

3 Giovani Pico della Mirandola, conde da Concórdia, nasceu na Itália do norte, a 24 de Fevereiro de 1463 e morre em Florença em 17 de Novembro de 1463.

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Embora admitindo a existência de uma estreita ligação entre os seres e o Universo, Pico della Mirandola recusa, no entanto, a tese de que os astros pudessem, de forma directa, exercer uma influência determinante nos acontecimentos e interferir, por qualquer modo, na vida do Homem. Considerando que a liberdade é algo de essencial ao ser humano, Pico della Mirandola, publica, em 1493, em livro polémico – Disputationes Adversus Astrologiam Divinatrice – onde expressa total oposição à visão de um determinismo de vida determinado pelos astros.

Num outro livro, Discurso sobre a Dignidade do Homem, escreveu ele:

“Ó Suma liberalidade de Deus pai , ó suma e admirável felicidade do homem! ao qual é concedido obter o que deseja, ser aquilo que quer”.4

4 Pico della Mirandola, Discurso sobre a Dignidade do Homem, Lisboa, Edições 70, 1995, p.51.

Ora, bom conhecedor da obra de Pico della Mirandola era Amato Lusitano. No entanto, as vezes que o cita é para pôr de lado as suas opiniões e para dar conta das antigas concepções galénicas. Assim, no prefácio à I Centúria, e ao referir-se às causas dos julgamentos, escreveu Amato:

“Não falando no que disse Pico della Mirandola e muitos outros que lançam suspeições às ordens de Galeno que exorta os médicos a não se distraírem das causas dos julgamentos (…)”.

Outra referência a Pico della Mirandola surge na Cura 72 da IV Centúria. Intitulada «De mulheres parturientes», nela conta Amato estranhos casos ocorridos em Dezembro de 1552 e no mês de Janeiro de 1553. Aí se lê:

“Todas as mulheres que deram à luz em Ancona no mês de Dezembro tiveram meninos. Se alguma teve uma menina, logo esta morreu. Pelo contrário no mês de Janeiro, a seguir, do ano de 1553, aconteceu que todas deram à luz meninas; se era menino este morria logo ou apresentava-se delgadinho e fraco. Algumas mulheres de oito meses abortaram de rapazes durante o referido mês”.

Nos comentários a esta Cura, não encontra Amato Lusitano causa que consiga cabalmente explicar estes estranhos casos. Escreveu ele, parecendo acertar a opinião mais corrente: “Talvez se creia que tal é de atribuir ao influxo dos céus“. Mas, na explicação das razões da não sobrevivência de um bébé de oito meses, entre muitas opiniões refere a de Pico della Mirandola nestes termos:

Pico della Mirandola largamente anota contra os astrólogos”.

E, sem quaisquer outros comentários, conclui:

“A razão é que as mulheres sofrem sempre aflição no 8º mês e por consequência as crianças são afligidas no estado uterino. Por isso, se as crianças tomadas por esta aflição, forem afligidas pela outra que sobrevem no momento do parto, necessariamente morrem”.

É, no entanto, a interpretação dada pela Astrologia que merece a Amato Lusitano uma referência mais desenvolvida. Escreveu Amato:

“Os astrólogos ajuntam a estas outra razão tirada dos planetas. Dizem eles: Saturno, o supremo e primeiro dos planetas favorece, primeiramente, o nascimento, condensando-o por meio do seu aspecto e secura e dando-lhe forma corpórea; depois dele, no segundo mês, Júpiter olha com atenção o próprio feto; no terceiro mês Marte; no quarto o Sol; no quinto Vénus; no sexto Mercúrio; no sétimo a Lua; e no oitavo novamente Saturno que, em virtude de ser hostil à vida pela sua frigidez e secura, é contrário ao feto e não consente que ele tenha vitalidade”.

E Amato, termina deste modo:

“E basta isto para esclarecimento de qualquer dúvida”. Parece-me, pois, que, embora de forma não tão explícita como acontece a partir da I Centúria, um olhar atento sobre a posição dos astros, onde ressalta um ligeiro temor das suas nefastas influências sobre o Homem, perpassa em várias Curas de todas as Centúrias. Apesar de tudo, contraditória se me afigura a posição de Amato em relação quer à prática da medicina astrológica, quer à crença no poder dos astros sobre o destino dos Homens.

Assim, uma clara oposição à Astrologia adivinhatória expressa Amato no prefácio da II Centúria, dedicada a Hipólito de Este, Cardeal de Ferrara, e datada de Roma de 1 de Maio de 1551.

Depois de enaltecer a tolerância e humanidade deste Príncipe da Igreja, Amato termina deste modo:

“Eis porque ouso profetizar-vos para algum dia a dignidade do Pontificado uma vez chamado à bem aventurança (mas longe venha o tempo) o Pontífice Júlio”.

Mas acentua e esclarece o modo como elaborou este prognóstico:

“(…) não porque eu me considere profeta, mas guiado apenas pela verdadeira razão. Tais prognósticos também os não faço pela observação dos astros ou augúrios, mas apoiado numa avisada prudência”.

É, pois, uma clara demarcação de qualquer ligação à Astrologia adivinhatória aquela que estas palavras encerram. É na III Centúria, Cura 81, que as palavras de Amato expressam nítido afastamento de uma vinculação cega às práticas médicas baseadas numa orientação astrológica, tecendo Amato duras críticas aos médicos cuja actuação se pauta mais em conformidade com a posição dos astros do que com o estado dos doentes. Conta Amato, nesta Cura, o caso de um rapaz, grande jogador que perdera ao jogo todo o dinheiro que possuía. Atacado de febre, que lhe provocara grandes dores de cabeça e muita sede, caiu em delírio, recordando situações de grande tensão vividas no jogo. Chamado um médico para o observar preceituou este, apenas, uma aplicação de ventosas. Passados três dias chamaram Amato. Os sintomas da doença tinham-se agravado. Amato prescreveu-lhe de imediato uma sangria, não sem formular críticas pouco lisongeiras à actuação do seu colega que anteriormente tratara o doente. Escreveu Amato Lusitano:

“Receava nessa altura, dizia ele, a sangria por incisão da veia porque a Lua estava em oposição ao diâmetro do Sol”.

Estava, pois, a Lua em fase de Lua-cheia. E acrescenta: “Devem considerar-se dignos de compaixão aqueles médicos que reparam para as conjunções da Lua, estando os doentes mal, receando ou sangrá-los ou purgá-los quando necessário”.

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Amato e a medicina astrológica – um retorno?

“Quem duvidará de que o homem, a quem a Natureza outorgou o dom da palavra, pode experimentar a influência do céu com a sua inteligência poderosa, a sua alma espiritual, (…).”

Marco Manilio, Astronomicon

Acontece, no entanto, que, a partir da V Centúria, das palavras escritas por Amato se desprendem afirmações que apontam para um renascer da crença nos valores da Astrologia e que traduzem práticas estreitamente ligadas à medicina astrológica.

Como explicar esta mudança de atitude?

Talvez que esta viragem se deva a acontecimentos trágicos que envolveram, nesta época, a vida de Amato. É uma hipótese. A intolerância religiosa que o pontificado de Paulo IV fizera abater sobre a Europa, levou a que as perseguições aos judeus se estendessem às tolerantes e abertas cidades italianas. Temendo ser preso, dada a sua condição de judeu, Amato Lusitano foge de Pesaro para Ragusa. Na saída apressada de Pesaro, perde todos os seus bens e, entre eles, uma arca onde guardava os comentários ao livro 1º de Avicena e uma grande parte do texto que constituía a V Centúria. Renunciando a todos os bens materiais, Amato Lusitano tenta apenas recuperar o conteúdo da arca, escrevendo para isso a um tal Navio de Bolonha, por certo pessoa influente. Consegue, que apenas lhe devolvam o texto da V Centúria, que acabará por completar em Pesaro.

Ora, no final da Cura C, que termina essa V Centúria, a propósito da pulsação irregular do conde Júlio de Montevecchio, a quem esta Cura diz respeito, Amato recorda ser este o tipo de pulsação de Antônio de Nebrixa. Esta lembrança traz-lhe à memória uma injustiça de que foi vítima este «homem sábio». E Amato conta que António de Nebrixa tinha um discípulo de nome Castillo. Aberto concurso público para um lugar na Universidade de Salamanca cuja remuneração era tentadora (300 peças de ouro, por ano), ambos concorreram com a interpretação de uma mesma obra – Arte de la lengua castellana, da autoria do próprio Antônio de Nebrixa. Foi Castillo quem ganhou o concurso.

Mas são as últimas considerações de Amato relativamente a este caso que se prendem com o assunto desta nossa comunicação. Declarou Amato:

“Escrevi isto para que os leitores entendam que em tudo e por tudo a sorte manda, pouco valendo os conhecimentos literários e a erudição se não fôr propícia a deusa Ramnúsia (Nemésis)!”

Estranhas e surpreendentes, as palavras de Amato. Acreditaria Amato na sorte, nas leis inexoráveis do destino, como a Astrologia da época defendia? Ou seria este o modo de subtil ironia que Amato encontrou para exteriorizar o seu desencanto pelas sucessivas injustiças de que fora vítima? Ou seria este ainda o meio de expressar o amargor dorido nascido do não reconhecimento das suas idéias, e isto por ser judeu?

Ou recomeçaria ele a acreditar nas leis implacáveis do destino e da sorte tecidas e comandadas pelo curso dos astros? Não o sabemos. Certo é que, a partir desta V Centúria, por algumas das Curas perpassa de forma palpável um assumir claro de uma ligação à medicina astrológica.

Assim, na Cura 22 desta V Centúria, conta Amato o caso de um rapaz, forte e robusto, canteiro de profissão, a quem uma infecção pelo morbo-gálico, havia enchido todo o corpo de pústulas. Tratado com um ungüento à base de mercúrio e submetido a um regime alimentar cuidado, recuperou a saúde. Ora, no desenvolvimento da explicação do procedimento da aplicação do ungüento, Amato revela a sua ligação à medicina astrológica. Escreveu ele:

“De igual modo tratamos com a Lua em oposição, doenças rebeldes e as que têm humores difíceis de erradicar”.

E justifica:

“De facto neste tempo os humores, resistentes por natureza aos remédios, são erguidos pela calidez da Lua, tornando-se rarefeitos, e, preparados pelos remédios obedecem à expulsão”.

Está, pois, nesta passagem claramente expressa a ligação de Amato Lusitano à prática de uma arte médica atenta à posição dos astros e, neste caso concreto, a sua aceitação da interferência da lua sobre os humores, interferência facilitadora da eficácia dos medicamentos preceituados para erradicar a doença. No comentário a esta Cura e nas considerações que formula em torno do mercúrio, chamado na época prata-viva (um dos elementos que entrava na composição do ungüento que utilizou no tratamento), ressalta a vinculação de Amato à teoria dos 4 elementos. Refutando a opinião de alguns autores que consideravam o mercúrio ou prata-viva fria, opina Amato: “Nós, porém, diremos que a prata-viva é fria e seca”. Tem, pois o mercúrio, na visão de Amato, as propriedades do elemento Ar (frio e seco) e, talvez por esse fato, Amato compara as propriedades do mercúrio às do frio vento boreal. Escreveu ele:

“(…) é inerente ao mercúrio viveza e facilidade de movimento a penetração, a acuidade e subtilezação dos humores, não pela calidez, mas sim pelas partículas agudas que lhe são aderentes. A estas classificam de frias e secas por serem semelhantes às que formam o frio vento boreal”. Eram, pois, na visão de Amato Lusitano as “partículas agudas” que rarefaziam os humores, auxiliadas pela “calidez” da Lua – Cheia.

Mas, se a fase de Lua-Cheia era para Amato o momento favorável para a aplicação de determinadas terapias, esta fase da Lua era igualmente, segundo ele, um momento temido na evolução das doenças.

Assim, na Cura 29 da VI Centúria, intitulada «De uma febre mortal», Amato relata o caso de um jovem patrício de Ragusa, de 25 anos. Chamava-se Estevão Arrio e, como quase todos os jovens de famílias abastadas da época, levava uma vida dissoluta. Adoeceu, por isso, gravemente. Amato descreveu a rápida evolução da doença e todos os desesperados esforços para lhe devolver a saúde. Tudo em vão. Na descrição do que foi o sofrimento dos últimos dias do jovem, Amato deixa transparecer a dor da Mãe, dor que muito possivelmente lhe tocou fundo. Escreveu ele:

“Finalmente, deitado abaixo toda a resistência física morreu ao amanhecer do 10º dia, não sem tristeza da Mãe. Era filho único e bastante rico”.

E conclui do seguinte modo:

“Morreu num dia de plenilúnio, quando a Lua se opõe ao Sol e se chama Lua-Cheia”.

Uma outra posição da Lua era grandemente temida – a conjunção que corresponde à fase de Lua-Nova. Esse receio, expressa-o claramente Amato na Cura 45 da VI Centúria. Relata esta Cura o caso de um rapazinho de doze anos, filho de Dracon Cervim, patrício de Ragusa. Adoeceu a criança com um ataque de febre que se prolongou por 25 dias. Durante os primeiros tempos da doença, foi o jovem tratado por um “médico sabedor”, como o classificou Amato, e entrou em convalescença. No entanto, passados dias, a febre retornou com um forte carácter de malignidade. Amato foi então chamado a intervir. Na descrição da sintomatologia da doença e nos esforços que desenvolveu para devolver a saúde ao rapaz, escreveu Amato:

“O estado da doença precipitava-se. Por fim, quando estávamos em dúvida e tormento e as forças pareciam não resistir, aconteceu que no 7º dia da doença o Sol ficasse em conjunção com a Lua. Nesse dia tivemos grande receio por este rapaz, mas com a graça de Deus Omnipotente o jovem resistiu”.

Iguais receios se desprendem da Cura 52 da VII Centúria «De pleurite com terçã dupla que sofreu uma mulher grávida». Amato relata o caso da mulher de D. Guedelha Yahia, que no 6º mês da gravidez foi atacada por uma pleurite grave.

Chamado para tratar a jovem dois dias depois de desencadeada a doença pois os remédios a que se tinha recorrido haviam-se revelado ineficazes: aplicação de um saquinho de farelos misturados com sal nas costas, no local das dores e xarope de violetas, Amato determina-lhe uma sangria. E escreve Amato:

“Mas na noite a seguir, como a Lua estivesse em oposição ao Sol, mostrou-se ansiosa e houve uma grande confusão e paroxismo (…). Apesar de tudo no fim do 7º dia a doente recuperou a saúde”.

Mas para outros acontecimentos estava Amato atento ao curso dos astros.

Nos comentários à Cura 72 da VII Centúria, referindo-se à peste que grassava em Salonica, escreveu Amato:

“Esta besta fera entrou por contágio, embora houvesse um estádio de clima temperado. Deu-se isto em poucos dias, depois do nascer das Pleiades ou Vergilias, do ano de 1554”.

Encerravam estas palavras uma busca de compreensão das causas da peste entre os sinais do Céu?

Uma atenção especial aos efeitos do Sol sobre a Terra e as suas conseqüentes influências sobre a saúde dos homens encontra-se na Cura 46 da VI Centúria.

Trata esta Cura do caso de Simon Berusio, um nobre de Ragusa que fora embaixador em Constantinopla, na corte do Imperador Solimão. Regressado a Ragusa no tempo do verão, caiu doente, cansado pela longa viagem. Amato preceitua­lhe um bom regime alimentar e Simon recupera a saúde. Tornam-se amigos. Sofria, no entanto, o antigo embaixador de um contínuo mau estar, queixando-se com frequência. E conta Amato:

“Então começou a suspeitar que tais sintomas podiam vir de comer carne de chibato. E a minha ideia não me saiu errada e poderá ser considerada por muitos fantástico e incrível. Com efeito mudado o regime de alimentação e em vez de carne de chibato, concedida carne de aves, em breve recuperou a saúde perdida (…)”.

Mas é nos comentários que Amato faz aos acontecimentos que relata que ressalta a crença na influência indireta do sol na vida e saúde do Homem.

Afirma Amato:

“A carne de borrego, húmida por natureza e temperatura, deve comer-se só quando o ar está quente, pois que ela tem quase sempre o sabor natural das ervas ainda não iluminadas pelo Sol, das quais se alimentam os mesmos borregos. Por isso um certo suco verde, lento e mucilaginoso, sujeito a corrupção costuma originar-se no estômago e nas veias. Por consequência, há uma jubulação de febres que trazem consigo malignidade (…)”.

E adverte:

“Portanto tenham cuidado os que desejam olhar pela sua saúde, não se alimentando de semelhantes carnes antes de meados de Abril”.

E refere Amato que radica neste cuidado e no cumprimento desta sua advertência a proibição existente entre os turcos de Constantinopla, que, embora consumindo largamente carne de borrego, têm como regra não permitir a venda pública destas carnes antes de meados do mês de Abril. O curso do astro Rei determinava, pois, a alimentação dos homens de Constantinopla no século XVI.

O homem e os astros no limiar do século XXI

“Somos a encarnação local de um Cosmos que toma consciência de si-próprio. Começamos a contemplar as nossas origens: pó de estrelas meditando acerca das estrelas (…)”.

Carl Sagan, Cosmos

Nestes tempos de fins de milênio, uma onda de interesse pela Astrologia estende-se avassaladoramente pelo mundo.

Edgar Morin chama a este fenômeno “o retorno dos astrólogos”5, fenômeno que tem sido objeto de estudos vários por parte do Grupo de Altos Estudos de Paris.

5 Edgar Morin e outros, O retorno dos astrólogos, Lisboa, Moraes editores,1971.

O desencanto e a angústia que dominam o Homem, num mundo sem margem para o Sonho, o Amor e a Paz, são apontados como uma das causas deste retorno aos sinais dos astros, numa busca de respostas à inquietação que domina a alma.

Por outro lado, o grande desenvolvimento da Astronomia e a busca da origem da Vida têm despertado um interesse renovado pelos astros.

É no coração das estrelas que se situa a fonte dos elementos, descoberta primordial da Astronomia moderna. “Somos poeira de estrelas” – afirmava Carl Sagan, ao constatar que os mesmos elementos que brotam no coração das estrelas constituem os elementos bases da constituição do corpo humano.

Novos ramos de investigação, entre os quais se conta a Cronobiologia e a Cronoterapêutica, alicerçados na observação de que o organismo humano, tal como o de todos os seres vivos, varia de forma periódica ao longo das 24 horas, falam de um ritmo circadiano. Estudos pioneiros realizados em 1981 pelo Dr. Martin Moare-Ede6 diretor do Instituto para a Fisiologia Circadiana ligada à Universidade de Harward nos Estados Unidos, concluíram que o ritmo circadiano natural do homem corresponde ao ciclo do dia lunar de 24 horas e 50 minutos, que é o do ritmo das marés, os movimentos cíclicos das águas dos oceanos provocados pela atração da Lua. Estes estudos demonstraram as vantagens da organização de um horário de trabalho, nas empresas que laboram por turnos, respeitando esse ritmo interno do Homem. Se essa regra fôr seguida e o ritmo natural respeitado, referem os estudos, verificar-se-á um aumento de produtividade. Caso isso não aconteça, ocorrerá quer uma perda de ritmo na produção, quer graves anomalias de saúde que começarão a verificar-se entre os trabalhadores.

6 Alexandre Dorozynski, «Vivons- nous au rythme de Ia Lune?» in Science et Vie, Abril de 1993,pp. 43-48.

Embora não existam certezas de que o ritmo biológico seja um ritmo lunar, certo é que tal, como o ciclo da ovulação da mulher se aproxima da lunação, também o ritmo biológico humano se aproxima da marcha diurna da Lua.

E termino com esta questão: ajudará, na verdade, a Lua-Cheia a potenciar a ação de alguns medicamentos como afirmava Amato Lusitano no século XVI?

Amato Lusitano e as Perturbações Sexuais

epitome

Epitome das noticias astrologicas para a medicina

Bibliografia

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