Astrologia na Ciência e na Filosofia

Os Astros Ditam o Futuro. A História Impõe o Presente.

Artaud versus Cárdenas

Silviano Santiago

O colegial lê o abecedário, e o astrólogo o futuro contido nas estrelas.
No primeiro exemplo,
o ato de ler não se desdobra em seus dois componentes.
O mesmo não ocorre no segundo caso, que torna manifestos
os dois estratos da leitura: o astrólogo lê no céu a posição dos astros
e lê ao mesmo tempo, nessa posição, o futuro ou o destino.

Walter Benjamin, “A doutrina das semelhanças”

Dois estrangeiros no México

Em 1936, o poeta e crítico de arte guatemalteco Cardoza y Aragón, auto-exilado na Cidade do México, faz amizade com um outro auto-exilado, o poeta e dramaturgo francês Antonin Artaud. É definitiva a imagem que guardou do viajante europeu durante a sua estada de quase um ano naquele país:

Antonin Artaud igual a ‘El Desdichado’ de su hermano Nerval”. E carrega de tintas violentas o retrato do artista, parafraseando os célebres versos do soneto simbolista: “El viudo, el inconsolado, principe de Aquitania de la torre abolida. El tenebroso, cuya sola estrella está muerta y cuyo laúd constelado lleva el sol negro de la melancolia”. Antes observara: “(Artaud) Vino a México en busca de su esperanza. Expulsado de todas partes, vivió dcsangrándose, vivió atrozmente, la cabeza en llamas, gran senor de la miseria”.

Os dois artistas são irmãos no exílio. Depois de viver nas metrópoles européias e viajar pelo mundo, o latino-americano voltará ao continente de origem para se instalar definitivamente, não na pátria, mas em país ao norte do seu. Desesperançado com a decadência por que passa o velho mundo, o europeu sai em busca de diálogo com os homens políticos mexicanos, e não com os artistas, para regenerar o Ocidente1. Depois de tentativas frustradas, acaba por adotar um outro país europeu, a Irlanda, de onde sairá expulso definitivamente para a pátria e, já nesta, para o hospício. Num misto de ironia pelas viagens dos artistas de vanguarda e de apatia pelos grandes e simbólicos gestos de boa-vontade supracontinentais que elas querem representar e deixam entrever, Cardoza dirá de Artaud e, indiretamente, de si mesmo: “Confundió, por desesperación, el Nuevo Continente con un nuevo contenido. Algo hay de ello, pero no bastaba a su exigencia absoluta. También mucho de Europa se moría en nosotros”.

1 “Lettre ouverte aux Gouverneurs des Etats du Mexique”: “Pour moi la culture de l’Europe a fait faillite et j’estime que dans le développement sans frein de ses machines l’Europe a trahi la véritable culture: et moi, à mon tour, je me veux traitre à la conception européenne du progrès.”

O novo continente não segreda novos conteúdos para o velho continente. Por sua vez, no coração e na mente dos vanguardistas europeus e latino-americanos, o velho continente agoniza. “Les tropiques sont moins exotiques que démodés”, dirá o antropólogo Lévi-Strauss depois de longa estada no Brasil dos anos 30. Já o velho continente sobrevive como pode às sucessivas mortes anunciadas. O surrealista Philippe Soupault responde a um questionário sobre o papel da Europa na década de 30 rezando uma prece à beira do túmulo: “Sou dos que não têm medo em afirmar que o espetáculo oferecido atualmente pela Europa é o de total decadência. Pelos meus escritos, palavras e gestos, tenho me esforçado por sinalizar a morte, aliás bastante vergonhosa, que toma conta dessa nossa península inútil. Deles também me sirvo agora para preparar um belo enterro para da. A Europa agoniza suavemente, soluçando, babando, fanfarronando, amém …”

Era preciso se desvencilhar não de um cadáver, mas de dois. O “melhor” da América Latina era uma cópia degradada da Europa. Em linguagem telegráfica, anunciando a grande decepção final que significará a premência da viagem de volta, Artaud associa a barbárie européia ao seu cadáver no Novo Mundo: “Venu au Mexique fuir civilisation & culture Europe qui nous ramènent tous à la Barbarie et je trouve devant moi le cadavre de la civilisation et de la culture de l’Europe…” A Guatemala de Cardoza y Aragón é a metáfora das ditaduras que, na defesa do conservadorismo econômico e político, tomam conta das repúblicas, pequenas e grandes, da América Latina, ao mesmo tempo em que expulsam os oposicionistas para a Europa, quando não os matam. A França de Antonin Artaud é a metáfora do país que, entre as demais nações européias, tenta rechaçar a tomada de poder pelos regimes totalitários. Ditadura aqui, totalitarismo lá. Cara de um, focinho do outro. Por isso, se na França se ergue o trampolim da Europa para o Novo Mundo, resta saber se o Novo Mundo poderá acolher os europeus, apresentando-lhes os caminhos mágicos que desbloqueariam o beco-sem-saída da civilização ocidental.

No México dos anos 30, o guatemalteco e o francês sào exemplos vivos desse troca-troca trágico, esperançoso e nostálgico. Seria o México índio de Emiliano Zapata, agora sob as rédeas curtas do general Lázaro Cárdenas, seria o México revolucionário agora nas mãos burocratizadas do Partido Revolucionário Nacional (o futuro PRI) um lugar predestinado para os vanguardistas de todo colorido que saíam da Europa em busca da esperança de novos caminhos para o Ocidente moribundo? Seria o México o lugar de onde retirar, para nele reimplantar, uma idéia autóctone e não-ocidental de cultura que, por sua vez, serviria como modelo político universal? Nesse lugar predestinado, velho país jovem, não seria o mais violento contra-senso encontrar um vanguardista europeu vagando sem destino pelas ruas da capital, entregue à própria sorte, um “desdichado”, sem a proteção da sua “buena dicha”? Não seria exemplo da mais doce ironia moderna que dois auto-exilados, dois artistas “desdichados”, um europeu e o outro latino-americano, se encontrem, o primeiro nas drogas e o segundo na embriaguez?2

2 Para uma compreensão do papel da embriaguez no universo de Cardoza y Aragón, recomenda-se a leitura do seu extraordinário Elogio de la Embriaguez (1931).

Irmãos no exílio e artistas de vanguarda, o guatemalteco europeizado e o francês mexicanizado tentam e querem atravessar, com a combustão da cultura, fronteiras nacionais e intercontinentais, aboli-las. Como norte, o enorme sonho de um mundo melhor inventado pela imaginação poética. Entregando-se a profundas reflexões políticas – inspiradas pelo “sonho”, diz Artaud; inspiradas pela não-existência do sonho, mas pela presença do “sobrenatural”, diz Cardoza -, os dois supervalorizam o lugar e o papel da cultura na condução do destino do Homem, vale dizer da Vida, como mediadora na busca da Utopia sócio-econômica.

Escreve Artaud, querendo domesticar e domiciliar as hipóteses civilizatórias do sonho: “Nous ne savons rien de la civilisation mexicaine. Belle occasion sans doute pour rêver hypothétiquement”3. Escreve Cardoza, afirmando o primado da Vida, negando o pragmatismo e assegurando o poder infinito das forças sobrenaturais: “No existe el sueño. Yo puedo afirmarlo porque nadie puede curarme de la vida. Nadie ni nada. Lo sobrenatural es mi mundo, el mundo del hombre y su sola razón. Y su sola alegria”. Mediando os dois quereres, outras palavras proféticas de Gérard de Nerval, agora tomadas de empréstimo à novela Aurélia, e que servem de epígrafe para a Pequeña Sinfonia del Nuevo Mundo, de Cardoza y Aragón: “mais je n’ai jamais éprouvé que le sommeil fût un repos. Après un engourdissement de quelques minutes, une vie nouvelle commence, affranchie des conditions du temps et de l’espace, et pareille sans doute à celle qui nous attend après la mort”.

3 “La culture “éternelle du Mexique”, “Je connais presque tout ce qu’enseigne l’Histoire sur les diverses races du Mexique et j’avoue m’être permis de rêver en poète sur ce qu’elle n’enseigne pas. Entre les faits historiques connus et la vie réelle de l’âme mexicaine il y a une marge immense où l’imagination – et j’oserai même dire l’intuition personnelle – peut se donner libre cours”.

Viajante contumaz, Cardoza y Aragón por duas vezes deixou o país natal. É primeiro levado a deixar a Guatemala em 1921, indo morar em sucessivas capitais européias. O primeiro auto-exilio europeu é conseqüência das perseguições políticas sofridas pelo pai – um advogado liberal que fazia oposição cerrada ao ditador Manuel Estrada Cabrera (1898-1920), “el senor Presidente” retratado por Miguel Angel Asturias. Alguns anos depois, quando se implanta no seu país a ditadura de Jorge Ubico (1931-1944), renuncia ao posto que tinha no Consulado geral guatemalteco em Nova Iorque, entregando-se de novo a viagens por países europeus, até se auto-exilar defmitivamente no México em fins de 1932. Pouco a pouco, ele se converterá “en el más mexicano de los extranjeros y el más extranjero de los mexicanos” (José Emilio Pacheco). Artaud estava certo quando detectava dois filões na cultura mexicana: “um que deseja assimilar a cultura e a civilização européia, emprestando-lhe uma forma mexicana, e o outro que, prolongando a tradição secular, permanece obstinadamente rebelde a todo progresso”. O guatemalteco Cardoza se sente melhor na primeira corrente; Artaud situa a si próprio na segunda corrente: “pour mince que ce soit ce demier courant, c’est en lui que se trouve toute la force du Mexique…”

A ambigüidade que reveste a definição dada a Cardoza y Aragón por José Emilio Pacheco – o mais estrangeiro dos mexicanos, o mais mexicano dos estrangeiros – significa também o recalque mexicano da origem guatemalteca e justifica ainda a sobrevivência econômica do auto-exilado. Corpo no México, cabeça na Europa, corpo na Europa, cabeça no México, Cardoza quase nunca está de corpo presente na sua Guatemala. Talvez seja por isso que os amigos do grupo “Contemporâneos” assinalem, a favor dele, o temperamento também ambíguo, ou pelo menos duplo. Dele dirá Jorge Acuesta: “Por debajo de una apariencia pacífica, amable y benevolente, Cardoza y Aragón atiza un incendio en su alma. Su temperatura interior es el rojo blanco; su temperatura exterior es la del hielo”.

Muitas vezes ambíguo, será por isso que Cardoza se adapta com cordialidade à nova era da institucionalização do PRN? A favor, ainda, da sua adaptação, o fato de ter sido por duas vezes expulso do país de origem por ditaduras militares duradouras, que defendiam os direitos de propriedade da multinacional United Fruit. Cardoza y Aragón será bem recebido tanto pelos escritores neoconservadores do grupo “Contemporâneos” (em particular Salvador Novo e Xavier Villaurrutia), quanto pelos pintores simpatizantes do Partido Comunista, recentemente proscrito (em particular Rivera, Siqueiros e Orozco, sendo este o artista da sua preferência). Irmãos em letras, irmãos em armas, Cardoza ganha, no entanto, a sua vida no jornal governista El Nacional, onde também Artaud publicará as traduções dos seus poucos e minguados textos propriamente mexicanos.

A Astrologia dita o Futuro

O retrato nítido e preciso de homem “delgado, eléctrico y centelleante”, pintado por Cardoza y Aragón, d’après “El Desdichado”, de Gérard de Nerval, contrasta escandalosamente com o auto-retrato otimista que Artaud esboça em carta datada de 7 de fevereiro do mesmo ano e endereçada ao doutor Allendy. Trata-se, possivelmente, da primeira carta que escreve já na capital mexicana. Tracemos os antecedentes desta carta para melhor compreender o descompasso entre o retrato sofrido e o auto-retrato iluminado, bem como o contraste entre os dois.

No dia 10 de janeiro de 1936, antes de tomar no porto de Antuérpia o navio que o levaria ao México, Artaud escrevera e enviara carta ao doutor Allendy, em que lamentava não poder ter-se despedido, como desejava, dos amigos parisienses e, ao mesmo tempo, solicitava um favor ao doutor e também astrólogo. “‘Vous me feriez un immense plaisir, et c’est un service de la dernière utilité que je vous demande, si vous pouviez consulter mon ciel et tirer de mon horoscope quelques précisions détaillées sur ce qui m’arrivera là-bas (no México). Puisqu’une partie de vos prédictions s’est déjà réalisée. Je pense que cela doit vous donner une indication précieuse concernant la façon d’interpréter le reste. Si vous voyez un événement saillant en tant que fait, évidemment je serai heureux de l’apprendre” – interrompo a frase e a citação e retomo-as em seguida, pois nesta segunda parte delas Artaud define o modo como compreende a astrologia: – “mais en général vous savez comment je considere l’astrologie: non comme un moyen de basse divination analytique et objective. Mais comme une série d’indications intérieures. Des trajets et des modifications affectives. Une orientation synthétique des vertus des astres. Ce sont ces mouvements me concernant que j’aimerais apprendre en fonction d’un départ qui s’est effectué.” Ao final da carta, fornece a data prevista para o desembarque no México, 8 de fevereiro, e pede ao correspondente para endereçar a resposta aos cuidados da Légation de France, onde irá buscar o correio.

Não é de todo artificioso indicar que as previsões astrológicas4 do doutor Allendy estão por detrás da forte carga de otimismo que alicerça tanto o auto-retrato iluminado quanto o projeto político-cultural de viagem ao México. Em anotações do dia 14 de novembro de 1935, precedidas e seguidas por notas e esquemas didáticos sobre várias religiões e vários sistemas esotéricos5, Artaud transcreve previsões feitas pelo citado doutor (“Dicté par Allendy“, eis o que está escrito no cabeçalho da entrada): “Mercure concerne voyage qui répondra à espèce d’intuition et sentiment occultes prêmonitions. Le voyage se fait à travers difficultés grâce à un effort. Grande puissance éloquence et persuasion”. Essas anotações otimistas sobre a necessidade da viagem ao México, e outras mais, substantivam o papel da astrologia (e o ocultismo de maneira geral) na condução da vida de Artaud naqueles anos decisivos.

4 Para uma reprodução do tema astrológico de Artaud e sua leitura, consultar Obliques, 10-11, p. 246-248.
5 “Pages de Camet. Notes Intimes”, Oeuvres Complètes, v. VIII.

Poucas folhas depois da passagem citada, Artaud escreve: “si un homme n’a pas la notion de Vénus, peu importe de savoir quand Vénus entre dans telle ou telle maison et passe à tel dégré du Zodiaque, etc./Révolution des astres est un fait d’une cardinale précision.” Depois de uma leitura dos astros, anota no mesmo maço de folhas soltas: “Ceci ne règle pas mon tempérament, mais me donne des possibilités d’agir d’aprés ce signe, j’absorbe, j’ai des intuitions…

Apesar de não se ter o texto da carta enviada por Allendy aos cuidados da Légation de France no México, a resposta de Artaud à mesma, datada de 7 de fevereiro, não deixa dúvidas de que ela continha bons fluidos. Basta ler as palavras iniciais: “Votre lettre me bouleverse par son amitié attentive et par l’émouvante clarté de ses vues, qui rejoint tout ce merveilleux qui m’entoure étonnament. Pas une de vos pareles qui ne corrobore ce qui m’arrive.” Com o apoio espiritual das palavras do médico e astrólogo, o poeta está pronto para enfrentar galhardamente os percalços da viagem a um país estrangeiro onde pretende operar uma urgente transmutaçào dos valores ocidentais. O maravilhoso otimismo reinante é tanto mais afirmativo porque, durante a curta estadia do navio no porto de Havana6, Artaud conhecera um “sorcier noir” que lhe tinha oferecido uma espada mágica, ensinando-lhe, ao mesmo tempo, o que ele devia compreender da vida “pour que le monde d’images qui est en (lui) se décide dans un certa in sens”. Em outra carta, Artaud reafirma o poder dos ritos dos negros cubanos como auspicioso fio condutor da sua vida futura: “Je ne vais pas au hasard, mais j’ai depuis Cuba un étrange filon. J’ai une chose précieuse à trouver…” acrescentando: “Je suis venu au Méxique pour rétablir l’équilibre et briser la malchance”. Finalmente, ainda na citada carta ao doutor Allendy, não pode passar despercebido o fato de Artaud afirmar que tinha-se “desintoxicado”7 durante a travessia do Atlântico.

6 Apesar de pouco ou nada se saber da curta estada de Artaud em Cuba, deve-se assinalar, no tocante a esse encontro com um ‘sorcier noir’ e valendo-se de informações tomadas a Fernando Ortiz, que os estivadores de Havana, todos eles fiéis de Iemanjá, são conhecidos pelas suas práticas de santeria no outro lado da baía, em Regia. Sabe-se também que no dia 2 de fevereiro, dia em que certamente Artaud lá estava, se comemora o dia de Nossa Senhora da Candelária, dia de oferendas para os giri. Apoiado na descrição da espada feita por Artaud em carta a André Breton e levando em consideração o meio cubano onde ficou, tudo indica que o presente recebido foi uma espada de Ogum.

7 Nesse sentido, assinale-se que, desde setembro de 1935, Artaud escreve ao doutor Toulouse a fim de ser aceito de novo, agora por vontade própria, no Hospital Henri Rousselle a fim de se desintoxicar. Só em novembro do mesmo ano é que ele se interna.

Para o que nos interessa mais de perto, a primeira frase da carta enviada da Cidade do México é a mais definitiva de todas: J’arrive à Mexico un Vendredi et un 7 et nous sommes en février 1936″. Madeleine Turrell Rodack, na sua tese de doutorado Antonin Artaud et la Vision du Mexique, foi a primeira a descodificá-la, reiterando também o tom “otimista” da carta. Diz ela: “On peut trouver l’explication (da frase) dans le langage des nombres où ceci représente la combinaison de deux ‘trois’. Le cinquième jour de la semaine (sexta-feira) ajouté à la date (dia 7) donne 12=3, selon la réduction cabbalistique. Le deuxième mois (fevereiro) ajouté au chiffre de l’année (1936) donne 21=3. C’est ainsi un trois à rebours. On trouve de cette manière deux temaires qui peuvent se représenter par les deux triangles, l’un droit, l’autre renversé, qui forment l’hexagramme du Sceau de Salomon, bien connu d’Artaud et du docteur Allendy“.

Como informam os livros especializados, o selo de Salomão “totaliza, verdadeiramente, o pensamento hermético” e aparece “como a síntese dos opostos e a expressào da unidade cósmica, assim como a sua complexidade”. Nada há a temer. Na Cidade do México, o sonho do passado aguarda Antonin Artaud. A mise-en-scène da metamorfose do passado no futuro, da cultura nacional em utopia universal, será de sua responsabilidade.

A História impõe o Presente

Como o poeta e dramaturgo Antonin Artaud, tão consciente da difícil tarefa de persuasão das autoridades nacionais e tão seguro do caminho que deveria imprimir ao México índio e revolucionário, transforma-se no “desdichado” que perambula solitário e drogado pelas ruas da capital do México? Será que a posição que adota (a que prolonga a tradição secular dos índios e permanece rebelde a todo progresso), em meados da década de 30 é a menos rentável e a mais perigosa cultural e politicamente?

Os encontros interculturais proporcionados pelos artistas em viagem ao estrangeiro nem sempre são felizes. A história das letras e das artes tende a valorizar somente os encontros que dão certo. Nesses casos, existe de uma parte e da outra um campo aberto de possibilidades comuns que toma possível o congraçamento produtivo entre pares. Ocorre uma espécie de intercâmbio rentável, segundo princípios de uma economia primitiva, do escambo, onde os elementos de troca de uma e da outra cultura encontram atores simpáticos e carentes, flexíveis e permeáveis à outra cultura. Os elementos culturais heterogêneos se combinam, então, em produtos homogêneos e híbridos, originais e ricos de seiva que, por sua vez, servirão de combustão para outros e novos produtos.

Dois artistas conterrâneos, vivendo na mesma cidade estrangeira, convivendo diariamente no mesmo local de trabalho, interessados em princípio por uma mesma estética, já que são e continuarão sendo parceiros em trabalhos artísticos, não reagem, não se interessam e não se intrometem no novo meio sócio-culrural da mesma forma. Haja vista o caso do poeta e dramarurgo Paul Claudel e do compositor e músico Darius Milhaud. O primeiro foi embaixador da França no Brasil durante dois anos (1917-1918) e o segundo foi seu secretário durante o mesmo período. Claudel considera o país como “un paradis de tristesse” e só encontra companhia entre os colegas diplomatas, como os ingleses, ou entre as grandes figuras da arte européia que se apresentam na cidade do Rio de Janeiro (como Nijinski e os balés russos, Anna Pavlova, Arthur Rubinstein, etc.). Por demais eurocêntrico e elitista, por demais católico e conservador, Claudel não consegue enxergar nem ouvir a riqueza desse outro Brasil presente na música popular, negro e pouco contaminado pela arte européia. Depois de ter participado duma noitada no Assyrio, anota no Journal “(…) les femmes qui dansent convulsivement, et de l’orchestre partent tout à coup des chants et des rires de damnés (grifo nosso) qui vous donnent froid dans le dos”.

Darius Milhaud conviverá no Rio de Janeiro tanto com músicos eruditos, quanto com músicos negros, anônimos ou quase. Deixar-se-á impregnar tão totalmente pela música erudita e popular brasileira que de algumas composiçôes destas extrairá temas que farão parte das suas próprias composiçôes. É o caso, por exemplo, de Le boeuf sur le toit, ou da suíte Saudades do Brasil em que cada peça leva um nome de bairro do Rio de Janeiro.

Não falta a Artaud a curiosidade pela história e pela vida cotidiana na cidade do México. Não falta a Artaud o desejo de chegar sem nada em cima ao México. Não falta a Artaud o desejo de conhecer políticos e artistas mexicanos para melhor dialogar com eles e se integrar ao seu modo de vida. Chega a escrever e publicar uma petulante “Carta aberta aos Governadores dos Estados”. Cardoza y Aragón surpreende com rara felicidade o papel e o peso que o real tinha no seu dia-a-dia: “Vivía tanto en el mundo que se ahogaba de realidad”. Sem ouvidos para as suas palavras, Artaud se aproxima do povo anônimo e conversa com qualquer um nas ruas boêmias e malandras ao redor da praça Garibaldi; entrega-se como nunca às drogas, chegando a constantes humilhaçôes para obter o indispensável, e pouco convive com artistas e figuras da elite mexicana. Desiludido com a pobreza da vida culrural metropolitana, não falta a Artaud o interesse de conhecer aquilo do México que escapa à influência européia. A almejada e desesperada viagem que fará, ao final da sua estada, ao país dos Tarahumaras confirma o seu interesse. O melhor amigo de Artaud, Cardoza y Aragón não nos desmente: “No soy testigo de Artaud en México, calcinado por la droga y el sufrimiento. No hubo testigo alguno de su perenne vigia, de su afasia tantálica”. As únicas testemunhas serão os distantes índios Tarahumaras. Deles, nos resta o silêncio.

Falta a Cardoza y Aragón, sobra a Artaud o interesse em intervir na realidade mexicana. Ele quer transformá-la segundo uma direção utópica que reanimaria de vida o glorioso passado indígena numa espécie de redençào da grande destruiçào feita pelos colonizadores europeus. Aos olhos dos donos do poder, essa direção parecia contraproducente e perigosa. No México dos anos 30 o futuro pertence ao presente, e o presente pertence ao PRN, então sob as ordens do presidente general Lázaro Cárdenas. Depois da Revolução Russa e da crise mundial instaurada pela Depressão de 1929, os países periféricos tomam a dianteira na reforma agrária e comandam o processo econômico nacional, alicerçando o futuro e robusto Estado-Nação. Implantam políticas de desenvolvimento próprio e soluçôes a curto prazo para os problemas sociais. O protecionismo econômico se alia ao paternalismo social. Os indios tarascos deram o apelido correto para Cárdenas: Tata (Papai) Lázaro.

Não há dúvidas de que Artaud sabe que está na terra do historiador e humanista José Vasconcelos, criador dos professores “saltimbanquis” que, em missões culturais pelo interior abandonado, falavam aos índios da Ilíada e dos Diálogos de Platão. Artaud sabe disso e quixotescamente contra-ataca, combatendo a europeização do índio pela lavagem cerebral.

Essas questões, de maneira implícita e explícita, estão presentes na sua primeira apresentação pública. Na conferência “El Hombre contra el Destino”, proferida no Anfiteatro Bolívar da Escuela Nacional Preparatoria, Artaud fala primeiro do desconhecimento que o homem moderno tem do saber. Em seguida afirma que se alguém falasse, entre cientistas mecanizados às voltas com os seus microscópios, de um determinismo secreto baseado em leis superiores do mundo, despertaria risadas. Artaud é esse alguém. Continua ele: “Quand on parle aujourd’hui de culture les gouvernements pensent à ouvrir des écoles, à faire marcher les presses à livres, couler l’encre d’imprimerie, alors que pour faire mûrir la culture il faudrait fermer les écoles, brûler les musées, détruire les livres, briser les rotatives des imprimeries”. Continua ele: pensamento e razão, quando querem dar conta de Deus, da natureza, do homem, da vida, da morte e do destino, contribuem para a “perda do conhecimento”.

Na capital do México, Artaud queria modelar um Império do saber esotérico. No Palácio de los Pinos, Cárdenas cuidava, com zelos de pai dos pobres, de um país periférico. Para isso, mandara instalar um telégrafo no próprio gabinete. Seria a maneira de todo e qualquer um se comunicar diretamente com o presidente.

“El Hombre contra el Destino” parece ter sido escrito por alguém que conhecia de cor a biografia do presidente Cárdenas (e do historiador José Vasconcelos) e estava disposto a contrariá-la. Desde a época em que era governador de Michoacán, Cárdenas tinha transformado as missões culturais, criadas por José Vasconcelos, em algo bem menos literário e filosófico e muito mais prático e palpável. Segundo Enrique Krause, “su cometido principal era ‘desfanatizar’ y ‘desalcoholizar’ (os camponeses e os índios). Lo intentaban como los curas, mediante pequenas representaciones teatrales. Esta obra se complementaba con clases de jabonería, conservación de frutas y fomento deportivo”. Nessa mesma época, a Conferederación Revolucionaria Michoacana del Trabajo, ainda segundo o mesmo autor, “decidió llevar a cabo una depuración ideológica dentro del ámbito normalista para excluir a todos los maestros que carecían de una ideologia avanzada”. Por outro lado, como bom discípulo do presidente Calles, Cárdenas media “el progreso en metros lineares, cuadrados y cúbicos”.

Artaud talvez tenha tido a “buena dicha” de se beneficiar de um período pacífico na administração Cárdenas. Em 8 de fevereiro, dia seguinte ao dia mágico em que Artaud chega à Cidade do México, o presidente anota no seu Diário: “Hoy expedí la Ley de Indulto para todos los procesados políticos, civiles y militares, cuyo número pasa de diez mil personas, que han tomado parte en rebeliones o motines en administraciones pasadas”. Logo depois da chegada de Artaud, regressam ao país as grandes figuras da oposição. Se Artaud se beneficiou da “paz”, foi minimamente, apenas a aceitação de alguns poucos escritos seus traduzidos aqui e ali no jornal governista.

Na verdade, Artaud era pouco perigoso e facilmente neutralizável. O mesmo não ocorria com o antigo mestre do presidente, o general Plutarco Elías Calles. Este, no dia 9 de abril de 1936, contrariando o texto da “Ley de Indulto”, é obrigado a partir para o exílio nos Estados Unidos.

Plutarco Elías Calles sabotava o poder presidencial. Antonin Artaud, “el desdichado”, deixava definitivamente a metrópole para se embrenhar no distante país dos Tarahumaras na condição semi-oficial de “saltimbanco” às avessas. Este fora praticamente o único pedaço do país que Cárdenas não visitou durante a viagem a todos os cantos da República antes da sua escolha como presidente. Onde o presidente não pôs os pés, ali Artaud reinou.