Astrologia na História e na Mitologia

O Significado Astrológico da Estrela de Belém

O que era a Estrela de Belém?

 Nuno Crato

 Na Bíblia, há apenas uma referência ao episódio da famosa Estrela de Belém, que terá guiado os reis magos até ao Menino Jesus. Aparece no Evangelho de Mateus (2:1–16): «Tendo, pois, nascido Jesus em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos chegaram do Oriente a Jerusalém, dizendo: Onde está o rei dos judeus, porque nós vimos a sua estrela no Oriente, e viemos adorá-lo.» O rei Herodes terá ficado apreensivo, pois sabia-se pouco amado pelo seu povo e temia que a nova despertasse um movimento libertador entre os que esperavam a chegada do Messias. Terá dito aos magos para procurarem o menino e regressarem com as novas. «Eles, tendo ouvido as palavras do rei, partiram; e eis que a estrela que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até que, chegando sobre onde estava o menino, parou. Vendo a estrela, ficaram possuídos de grandíssima alegria».

A imaginação popular transformou os magos em reis, imaginou que seriam três e batizou-os. Estes magos do Oriente terão provavelmente vindo da Babilônia, atual Iraque, onde viviam algumas comunidades judias, ou da Pérsia, atual Irão, onde residiam também algumas comunidades judias, menos numerosas e interpenetradas estas com os seguidores de Zoroastro. Os magos eram homens sábios, mágicos e astrólogos, altamente respeitados por todo o Médio Oriente, pelo que chamá-los reis apenas reflete a sua importância na sociedade do tempo.

A imaginação popular tem retratado o episódio das mais variadas formas. Por vezes, aparece uma estrela por cima da manjedoura; outras vezes, um cometa, como no célebre quadro de Giotto existente em Pádua, pintado nos inícios do século XIV, pouco depois de uma espetacular passagem do cometa Halley. A cena é sugestiva, e imaginam-se os magos seguindo uma estrela que, pouco a pouco, lhes indicava o caminho. Outra imagem curiosa é a da «Adoração dos Magos» da oficina de Vasco Fernandes, pintada no início dos anos 1500, pouco depois da descoberta do Brasil. Um dos magos é um índio brasileiro, com o seu traje de penas. Vale a pena ir ao Museu de Grão Vasco, em Viseu, para observar a pintura.

 Em 1603, Johannes Kepler, à época astrônomo e astrólogo imperial, observou uma conjugação dos planetas Júpiter e Saturno, que apareceram no mesmo meridiano celeste, um por debaixo do outro, e foi seguida por um agrupamento de Marte, Júpiter e Saturno, que apareceram muito perto. Pouco depois, uma supernova brilhante, resultante da explosão de uma estrela, apareceu na mesma área do céu. Kepler supôs que a supernova teria sido criada pelos planetas, o que hoje se sabe ser impossível. Fez cuidadosamente as suas contas e reparou que no ano 4 a.C., data já então considerada provável para o nascimento de Cristo, se tinha verificado uma conjunção de planetas e um agrupamento. Imaginou que uma «estrela nova» tivesse também aparecido na altura e que ela tivesse guiado os magos a Belém. Sem o saber, Kepler originou uma polemica que ainda hoje perdura, originando anualmente dezenas de artigos científicos, livros e reflexões religiosas.

 O que terá sido, afinal, a estrela de Belém? Algumas respostas são muito simples. Foi um milagre, dizem alguns crentes, pelo que não há explicação possível. Não se deve tomar a Bíblia como verdade histórica, dizem outros, pelo que, naturalmente, nunca houve nenhuma estrela de Belém. Muitos astrônomos, contudo, ficaram fascinados com o problema. Todos os anos aparecem novas interpretações e novos dados científicos e históricos. A polemica persiste, contudo, e as explicações são variadas.

 Uma explicação antiga, surgida logo após as reflexões de Kepler, diz que os magos teriam visto uma conjugação de planetas, que se teria verificado no ano 4 a.C. É uma explicação plausível, mas que não consegue destacar nenhum fenômeno celeste verdadeiramente raro e espetacular, pois conjugações desse tipo são relativamente frequentes. Em particular, tinham-se verificado conjugações muito mais espetaculares poucas décadas antes. Outra explicação possível é que teria aparecido na altura uma supernova muito brilhante que teria chamado a atenção dos magos. É também uma explicação possível, mas pouco provável, pois não há registros seguros de nenhuma supernova espetacular por essa data. Há quem considere mais provável que se tenha tratado da passagem de um cometa. É uma explicação igualmente razoável, mas que não explica a razão por que não se encontram quaisquer registros desse cometa noutras culturas.

 Todas estas interpretações possuem duas falhas gritantes. Por um lado, não conseguem explicar o estranho movimento da estrela de Belém, que teria precedido os magos na sua viagem de oriente para ocidente, os teria depois orientado de norte para sul, ao viajarem de Jerusalém para Belém, e teria parado sobre o local onde se encontrava Jesus. Nenhum dos fenômenos celestes apontados poderia manifestar comportamento tão estranho. Por outro lado, e este será o argumento mais forte, nenhuma destas teorias permite explicar que apenas os magos tivessem visto um fenômeno espetacular no céu. Os judeus de Jerusalém deveriam ter igualmente visto o cometa ou a supernova, não se percebendo que uns tenham ficado impressionados com o fenômeno e outros o tenham ignorado.

 Dois livros recentes parecem lançar mais alguma luz sobre o problema. Um deles é de Mark Kidger, um astrônomo britânico que atualmente trabalha no Instituto de Astrofísica das Canárias. A obra intitulada The Star of Bethlehem: An Astronomer’s Point of View saiu sob a chancela da Princeton University Press. O outro é da autoria de Michael Molnar, um astrônomo norte-americano. Tem como título The Star of Bethlehem: The Legacy of the Magi e foi publicado pela Rutgers University Press.

 Ridger apresenta como explicação não uma, mas várias «estrelas de Belém». Segundo este astrônomo, o «primeiro sinal» terá sido uma tripla conjunção de Júpiter e Saturno, que se registrou no ano 7 a.C. na constelação Peixes. Argumentando que Peixes é o signo da Judéia, Ridger diz que qualquer fenômeno astronômico aí registrado seria seguido com atenção pelos magos, que esperavam por um sinal anunciador do nascimento do Messias. Ao contrário dos habitantes locais, que não se interessavam por fenômenos celestes nem por Astrologia, o alinhamento dos dois planetas no mesmo meridiano, passando um por debaixo do outro, seria seguido com interesse pelos magos da Babilônia ou da Pérsia que, apesar de terem origem judia, viviam sob influência da astrologia grega, romana e zoroastrista. O «segundo sinal» seria um agrupamento dos planetas Júpiter, Saturno e Marte, que se registrou em Fevereiro do ano seguinte, 6 a.C., igualmente em Peixes. O «terceiro sinal» seria uma conjugação de Júpiter e da Lua, que se realizou em Fevereiro de 5 a.C. na mesma constelação. Depois de todos estes acontecimentos celestes, os astrólogos magos ter-se-iam convencido da chegada do Messias e ter-se-iam preparado para a caminhada até Jerusalém. O «quarto sinal», ainda segundo Ridger, seria o aparecimento de uma explosão estelar, uma nova ou supernova, que o astrônomo britânico levanta como possibilidades, baseado em estudos de registros chineses. A «estrela nova» não seria tão espetacular que tivesse despertado grande interesse na Judéia, mas seria o sinal decisivo para astrólogos magos, que teriam passado os últimos anos a seguir os acontecimentos celestes. Os magos ter-se-iam posto a caminho para o local lógico de nascimento do novo rei dos judeus: a Judéia. Chegados a Jerusalém, pelo movimento natural dos céus, a nova, que teriam visto a oeste durante a madrugada, apareceria agora a sul, indicando o caminho para Belém.

A explicação de Ridger parece bastante plausível e vem trazer novos elementos a esta longa polemica. Mas Michael Molnar, o astrônomo que publicou o segundo livro sobre o tema apresenta um argumento que parece demolidor: não era Peixes, mas sim Carneiro o signo associado à Judéia. Molnar apresenta dezenas de autores e estudos da antiguidade, nomeadamente Ptolomeu, em apoio à sua tese, enquanto Ridger apenas se baseia no testemunho do rabi Abarbanel, um sefardita espanhol que viveu no século XV.

A explicação avançada por Molnar é completamente inovadora e baseia-se numa leitura das edições mais antigas do Evangelho de Mateus, escritas em grego. Molnar diz que a estrela não era mais do que o planeta Júpiter, que teve uma conjugação com a Lua em 17 de Abril de 6 a.C. na constelação Carneiro, o signo dos judeus. Essa conjugação não seria visível, pois registrou-se perto do Sol, e apenas astrólogos a poderiam ter calculado. Indo ao texto grego, Molnar interpreta os versículos de Mateus tal como eles seriam lidos por astrólogos magos da época. A frase «vimos a sua estrela no Oriente», depois de confrontada cuidadosamente com o texto grego, significa apenas «vimos a sua estrela (isto é, o planeta Júpiter) nascer a oriente do Sol» (logo antes do Sol, o chamado nascimento helíaco). Quando o texto bíblico afirma que a estrela «ia adiante» e «parou», isso apenas significa que a estrela (Júpiter) seguia o movimento de leste para oeste nos céus (hoje chamado retrógrado, para um planeta) e depois ficou estacionária, o que terá acontecido em 19 de Dezembro do mesmo ano, antes de recomeçar o seu movimento aparente normal, de oeste para leste, habitual nos planetas.

As datas, tanto de Ridger como de Molnar, são compatíveis com o que se admite ter sido o momento de nascimento de Cristo, situado em data incerta, entre 8 e 4 a.C., provavelmente num mês de Abril ou Maio. As explicações parecem igualmente credíveis, mas a obra de Molnar, com uma interpretação puramente astrológica da estrela de Belém, parece estar a despertar mais interesse entre os estudiosos. Owen Gingerich, astrônomo e historiador de Harvard, diz que o livro de Molnar é a contribuição recente mais importante na procura de uma explicação natural para a famosa Estrela de Belém. Talvez a explicação da Estrela de Belém não esteja, afinal, escrita na observação de um fenômeno celeste espetacular, mas sim no simbolismo da astrologia antiga.

Astrologia: A Evidência Científica

Percy Seymour

Aqui no Brasil, durante um simpósio promovido pelo Sindicato dos Astrólogos do Rio de Janeiro no início de 1997, pela primeira vez os astrônomos concordaram em participar de um debate com os astrólogos (…). Como astrólogo fundador do sindicato e editor da Nova Era, creio que seja minha obrigação tornar acessível ao público brasileiro este trabalho vital e corajoso do Dr. Seymour, esperando que ele represente uma nova etapa no relacionamento entre estas duas disciplinas co-irmãs.

Waldemar Falcão

A Estrela de Belém

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Com o passar dos anos, muitos autores e pensadores de diferentes esferas de atividades sugeriram que deveria haver alguma interpretação astrológica para a Estrela do Natal. Esta sugestão sofreu resistência por parte da Igreja e de muitos cientistas. Foi somente após a publicação da New English Bible que a Igreja finalmente abriu as portas a tal interpretação, ao admitir que os sábios foram astrólogos. Os cientistas, por outro lado, com muito poucas exceções, continuaram a rejeitá-la, por duas razões. Em primeiro lugar, quase todos os cientistas consideram a Astrologia uma coisa simplesmente sem sentido. Segundo, em função do primeiro erro, falharam em ver o significado simbólico dos eventos astronômicos que quase certamente marcaram o nascimento de Cristo.

A Estrela de Belém era Júpiter, que apareceu ao pôr-do-sol de terça-feira, 15 de setembro de 7 a.C. Esta foi a hora do nascimento de Cristo. Já vimos que o psicólogo e estatístico francês Michel Gauquelin encontrou provas convincentes de que a maioria dos políticos, chefes militares, executivos de alto nível, jornalistas, dramaturgos e atores nasceram logo depois que Júpiter ou apareceu no céu ou passou pelo zênite. Também vimos em capítulos anteriores que isto pode ser compreendido em termos científicos, que dizem que o cosmo ativa o momento preciso do nascimento, de tal modo que pessoas com determinado conjunto de características hereditárias terão nascido em um momento específico. Isto significa que é possível entender as qualidades de liderança de Cristo em termos científicos.

Júpiter nasce todos os dias num determinado intervalo de tempo, mas se estiver muito perto do Sol, como visto da Terra, nem sempre conseguimos vê-lo aparecer. O que fez com que o aparecimento em 15 de setembro de 7 a.C. tivesse tanto interesse para os magos astrólogos foram os eventos astronômicos associados. Júpiter estava muito próximo a Saturno, e ambos estavam na constelação de Peixes. Como vimos, o aparecimento de dois planetas muito próximos no céu é chamado de conjunção, e este aspecto entre Júpiter e Saturno acontece aproximadamente a cada vinte anos, logo, isto também não é muito comum.

O ano 7 a.C. foi de interesse especial porque naquele ano as conjunções ocorreram três vezes. Isto é chamado de conjunção tríplice e, para Júpiter e Saturno, acontece a cada 139 anos. Uma conjunção tríplice de Júpiter e Saturno em Peixes ocorre somente a cada novecentos anos, e esta constelação também tem um significado especial para os astrólogos.

Júpiter, na astrologia antiga, era identificado como o planeta dos reis. Isso concorda com a prova científica de Gauquelin, segundo a qual Júpiter está associado ao nascimento de grandes líderes militares e políticos. Como já vimos em um capítulo anterior, Saturno era o planeta regente do sábado, o Sabbath judeu, e então tornou-se conhecido como o protetor dos judeus. O mundo conhecido pela antiguidade era dividido em regiões geográficas, cada uma das quais associada a um signo do zodíaco. A região geográfica perto da Palestina era associada a Peixes. Este conjunto de simbolismos deve ter sido interpretado pelos magos como indicando que um rei de origem judia teria nascido na Palestina. Vemos, então, que para compreender o significado da Estrela de Belém devemos confiar no simbolismo astrológico.

Esta abordagem é válida? Acredito que esta maneira genérica é apoiada por vários líderes da Igreja.

Em seu livro The Sea of Faith, Don Cupitt, reitor do Emmanuel College, em Cambridge, afirma:

A proporção que as pessoas começam cada vez mais a sentir que a crítica puramente histórica da Bíblia está produzindo menos retornos, logo as veremos optar por uma abordagem mais literária. Existem aqueles que acreditam que a maneira empregada pelos antropólogos para interpretar mitos e símbolos consegue descobrir leis que regem o funcionamento da imaginação criativa e pode ser utilizada para esclarecer textos literários. Se estiverem certos, teremos uma compreensão mais perfeita sobre o significado dos escritos bíblicos e como funcionam, porque tornarão mais evidente que estes textos são produtos da psicologia religiosa humana operando sob determinadas condições históricas.

A Astrologia foi uma parte importante das “condições históricas” existentes no mundo antigo e também provocou alguns avanços em muitas considerações religiosas, ou seja, para nos afastarmos da interpretação astrológica da Estrela temos que impor sobre a antiguidade nossa visão científica atual.

A Astrologia também pode lançar alguma luz sobre outros aspectos da história do Natal. Uma destas é discutida por Hans Sandauer, antigo vice-presidente da Sociedade Astrológica Vienense, em seu livro History Controlled by the Stars. Baseado em suas próprias pesquisas sobre o nascimento de Cristo, Sandauer o estabelece em 17 de setembro de 7 a.C. Ele também assinala que neste dia o Sol estava na constelação de Virgem e sugere que esta circunstância – Cristo tinha seu Sol em Virgem – deve ter sido a origem da história de que Cristo foi filho de uma virgem. Em vista das declarações de alguns líderes da Igreja a respeito do nascimento virginal, isto parece ser bastante plausível, principalmente porque os Evangelhos foram escritos pelo menos uma geração após o nascimento de Cristo.

Um dos primeiros cientistas a sugerir que a conjunção Júpiter-Saturno de 7 a.C. pode ter tido relação com o nascimento de Cristo foi Kepler. Já vimos, num capítulo anterior, que Kepler tinha interesse tanto na astronomia quanto na Astrologia, mesmo que, de vez em quando, fizesse certas restrições a esta última. Em 17 de dezembro de 1603, alguns dias antes do Natal, Kepler viu, de seu observatório em Praga, a conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes. Esta conjunção o fascinou, no mínimo porque ele parecia conhecer o trabalho de Rabbi Abarbanel, que escrevera um comentário sobre o livro de Daniel no século XIV. Este comentarista judeu acreditava que as conjunções de Saturno-Júpiter em Peixes tinham um significado especial para Israel. Incentivado por estas circunstâncias, Kepler trabalhou em sentido inverso para descobrir se uma conjunção similar destes dois planetas poderia ter sido vista perto da época do nascimento de Cristo. Seus cálculos levaram-no à descoberta da conjunção tríplice de 7 a.C, que discutimos anteriormente neste capítulo, entretanto, Kepler estabeleceu sua própria opinião sobre a Astrologia, na qual o momento de concepção era mais importante que a hora do nascimento, de modo que ele determinou a concepção de Cristo em 7 a.C. e o nascimento em 6 a.C.

Mais recentemente, outro astrônomo, Ferrari d’Occhieppo, do Instituto Astronômico da Universidade de Viena, levou bem adiante as sugestões de Kepler, combinando modernos métodos de cálculos astronômicos com o que conhecemos da Astrologia e astronomia dos babilônios. Ele crê que os Magos foram astrônomos e astrólogos babilônios da religião de Zoroastro, consequentemente sugere que a Estrela deveria ser considerada sob os termos astrológicos discutidos antes.

D’Occhieppo desenvolve estas idéias em um livro chamado Der Stern der Weisen — Geschichte oder Legende?, publicado em Viena em 1977. Parte do trabalho que aparece neste livro ainda foi mais desenvolvido e levado ao mundo de língua inglesa pelo astrônomo inglês David Hughes, da Universidade de Sheffield, em seu livro The Star of Bethlehem Mystery,publicado em 1979. Meu próprio trabalho sobre o assunto é um desenvolvimento do trabalho destes dois homens. David Hughes relaciona em seu livro os eventos astronômicos mais importantes relativos à conjunção Júpiter-Saturno que ocorreu no ano de 7 a.C. Nem todos estes eventos têm a mesma importância para a hipótese apresentada, de modo que só discutirei as datas dos acontecimentos mais significativos.

A primeira conjunção de Júpiter com Saturno, na constelação de Peixes, aconteceu em 27 de março de 7 a.C, a segunda em 6 de outubro e a terceira em 1º de dezembro. Porém d’Occhieppo acredita que os Magos estavam bastante convencidos de que Jesus nasceu em 15 de setembro, então por que ele estabelece esta data? Porque neste dia, quando o Sol estava se pondo a oeste, Júpiter, com Saturno muito próximo, estava despontando no leste. Tal acontecimento é chamado de despontar acrônico e os magos-astrólogos devem ter considerado que, quando isso aconteceu, estes eram os efeitos mais importantes destes planetas.

Este ponto de vista tem apoio científico da minha teoria sobre a Astrologia. Segundo esta, Saturno, Júpiter e a Terra devem ter estado alinhados, como visto do Sol, e isso deve ter provocado um aumento na atividade solar, que por sua vez poderia ter intensificado a influência de marés de Júpiter sobre o campo magnético terrestre. Nesta época Júpiter e a Terra estariam no mesmo lado do Sol, consequentemente mais perto da Terra que em outras épocas, por isso estas circunstâncias significam que o efeito de Júpiter descoberto por Gauquelin deve ter sido mais eficiente. Como já assinalei, o efeito relaciona o despontar de Júpiter com o nascimento de grandes políticos e líderes militares.

Outra questão que precisa ser respondida é por que os Magos decidiram ir para Jerusalém. A resposta está nas profecias bíblicas do Velho Testamento. Herodes também as usou depois da visita dos sábios. Como ele ficou preocupado depois que lhe revelaram o nascimento de um rei dos judeus, mandou chamar os sumos sacerdotes e escribas e lhes perguntou onde Cristo poderia ter nascido. Sua resposta está em Mateus 2:5,6: “E eles lhe disseram: em Belém da Judéia; porque assim está escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és o menor dos distritos de Judá porque de ti sairá o Guia que apascentará o meu povo de Israel.” Penso que os sábios combinaram suas próprias previsões astrológicas com as profecias bíblicas para viajar para Belém.

Como foram guiados ao estábulo onde Cristo nasceu? O evangelho de Mateus diz que a estrela os guiou ao lugar certo. Pelo que se sabe hoje, isso é pouco provável. Durante séculos os navegadores determinavam suas posições no mar através das estrelas, por isso, à primeira vista, pode parecer que os sábios teriam feito algo similar, entretanto, até mesmo hoje, só uma estrela não pode ser usada para fixar a posição do navio no mar. São necessárias pelo menos duas para isso, melhor se forem três e, mesmo assim, empregando os mais modernos equipamentos e técnicas, com uma precisão de menos de 4 a 6 quilômetros. Os métodos usados pelos marinheiros atuais não estavam disponíveis aos magos, então de modo algum, na verdade, os astrólogos poderiam ter usado técnicas astronômicas de navegação para guiá-los até o menino Jesus. Acredito que a estrela os tenha orientado, mas em um sentido menos direto.

Em Mateus 2:7 vemos que: “Herodes chamou, então, secretamente os magos e informou-se com eles cuidadosamente sobre o dia e a hora em que aparecera a estrela.” Este versículo fornece a chave sobre como os magos encontraram Jesus. Eles estavam em busca de um menino, nascido em Belém quando o Sol estava se pondo e Júpiter e Saturno despontando, em 15 de setembro de 7 a.C. Isso não era como procurar uma agulha em um palheiro. Numa cidade como Plymouth, com uma população de 250.000 pessoas, o máximo de nascimentos por dia é de, aproximadamente, vinte e quatro. Isso significa que, em média, nasce uma criança a cada hora, e metade destas, provavelmente, é do sexo feminino. A população atual de Belém é em torno de 17.000 habitantes, então, mesmo que sejam ignorados os efeitos dos modernos métodos de contracepção nos números de Plymouth, é pouco provável que em Belém tenha havido um nascimento por hora na época de Cristo. Também sabemos pela Bíblia que por ocasião no nascimento de Cristo estava havendo um censo – esta era a razão pela qual José e Maria estavam indo para Belém -, logo, é bastante provável que os Magos tenham solicitado o auxílio das pessoas envolvidas com o censo em sua busca por Jesus. É fato bem conhecido que o povo tibetano escolhe como dalai-lama o bebê nascido próximo à hora do falecimento do anterior. Penso que os Magos usaram sua interpretação astrológica dos eventos astronômicos de modo similar, para ajudá-los a encontrar o novo “Rei dos Judeus”.

Como cientista, não acredito em nascimentos virginais, nem que um anjo do Senhor tenha aparecido para Maria, mas que o primeiro pensamento sobre Cristo ter um destino especial veio quando os Magos disseram a Maria que seu filho havia nascido para ser o “Rei dos Judeus”. Quando Jesus cresceu, Maria lhe falou sobre a visita dos sábios, e Cristo juntou sua crença em seu próprio destino com suas habilidades naturais, reveladas pela sua hora de nascimento, e viveu sua vida de um modo que, segundo acreditava, ajudaria no cumprimento do seu destino.

Albert Schweitzer, grande humanista, filósofo e músico, trabalhando com as obras de muitos grandes teólogos alemães, fez sua contribuição aos estudos históricos sobre a vida de Cristo em seu livro The Quest of the Historical Jesus. Nesta obra, ele tenta separar o mito e a lenda dos fatos históricos dos Evangelhos. Seu trabalho foi reavaliado há alguns anos por Don Cupitt, reitor do Emmanuel College, em Cambridge, em The Sea of Faith, livro que serviu de base para uma série de televisão de mesmo nome. Cupitt diz o seguinte: “Schweitzer pensou que Jesus conhecia seu louvável destino. O segredo agora precisa ser mantido oculto, mas quando o Reino chegar, Jesus será revelado em toda a Sua glória como o Messias e Filho do Homem.”

Acredito ser bastante provável que a mensagem dos Magos, revelada a Cristo por sua própria mãe, foi a origem desta crença em seu próprio destino. Em um capítulo anterior vimos que muitas vezes as pessoas que sabem alguma coisa sobre Astrologia responderam a perguntas a respeito delas mesmas e às vezes se comportavam da maneira que acreditavam estar de acordo com seus mapas natais. Estes são os chamados efeitos de auto-atribuição e podem, como já vimos, interferir em algumas experiências destinadas a testar a Astrologia. Se isso é verdadeiro hoje, quando a Astrologia não tem para as pessoas a mesma importância que tinha na antiguidade, quanto deve ter sido considerado verdade no mundo em que Cristo nasceu.

As Estrelas de Belém