Temas Transcendentais

Lilith e o Arquétipo do Feminino Contemporâneo

Cátia Cilene Lima Rodrigues

Resumo

 O trabalho tem por objetivo compreender a simbologia existente nos mito Judaico-Cristão de Lilith, primeira mulher de Adão, bem como relacioná-la com a experiência mítica da mulher em sua vida cotidiana. Para tal, utiliza-se de pesquisa teórica bibliográfica e método fenomenológico de observação com análise de referencial na abordagem da Psicologia Analítica. Uma vez que o estudo e análise dos mitos da cultura de um povo revela o universo simbólico deste, no que diz respeito às experiências e relacionamentos, e que o conteúdo mítico é arquetípico, inconsciente e coletivo, observa-se a atual relevância do papel social da mulher, e evidencia-se a importância da melhor compreensão do universo simbólico feminino. Lilith, como primeira companheira de Adão, feita do mesmo material que ele, cheia de sangue e saliva, possui sensualidade e força demoníacas, que perturbam Adão; mas também é aquela que lhe apresenta o prazer orgástico. O relacionamento é perturbado pela imposição do homem em permanecer por cima da mulher, ao que ela não aceita e por isto dele se afasta. Este mito simboliza, entre outros aspectos, a instintividade feminina manifestada em sua sensualidade, bem como a reivindicação por igualdade sexual e social contra o machismo. Desta forma, observa-se que o mito traça um panorama de controle, submissão, repressão sexual e luta por igualdade sexual e social femininas. A feminilidade é um todo, porém este mito enfatiza um pólo de uma cisão: o lado da mulher sensual, a prostituta, porém com a força da autonomia e dignidade, presentes na busca feminina contemporânea por equilíbrio nas relações afetivo-eróticas.

A mitológica personagem Lilith não é explicitamente apresentada nas escrituras Judaico-Cristãs, porém está presente na tradição popular e, conforme Vera Paiva, vem sendo estudada em textos da antigüidade, principalmente da Torah assírio-babilônica e hebraica, além de outros textos apócrifos.

 Lilith é a primeira companheira de Adão, criada do mesmo material que ele, igual a ele. Para melhor elucidar o mito, será apresentado aqui as lacunas bíblicas que permitem a hipótese da retirada desta personagem do texto, além do mito em si e as análises pertinentes à Psicologia.

“O mito de Lilith pertence à grande tradição dos testemunhos orais que estão reunidos nos textos da sabedoria rabínica definida na versão jeovística, que se colocada lado a lado, precedendo-a de alguns séculos, da versão bíblica dos sacerdotes (…) a lenda de Lilith, primeira companheira de Adão, foi perdida ou removida durante a época de transposição da versão jeovística para aquela sacerdotal, que logo após sofre as modificações dos pais da Igreja.”

(Sicuteri, 1998, p23)

Sendo assim, anterior na redação jeovística, o mito de Lilith é arcaico e precede o mito de Eva: Lilith é a primeira companheira de Adão. De acordo com Cavalcanti, tal mito possui grande conteúdo revolucionário, expressando a problemática feminina em busca da sua identidade, denunciando a necessidade da sociedade patriarcal de sujeitar e invalidar a presença da mulher. O grande mal em Lilith está em sua desobediência ao masculino.

A existência de tal mito no texto sagrado da tradição Judaico-Cristã se fortifica ao analisar-se mais atenciosamente seus trechos. Embora diversas culturas considerem o primeiro homem (ou o homem original) como um ser andrógino – o que pode significar um traço divino na natureza humana ou a completude entre macho e fêmea com princípios masculino e feminino no sexo oposto (Anima e Animus) – e esta possibilidade também exista na interpretação dos textos da referida cultura, partamos da verdade contida nos testemunhos orais que evidenciam a existência de um ser feminino anterior à Eva nas origens humana.

Em Gênesis I,27, verifica-se a criação do homem segundo à imagem divina, “homem e mulher” ou “macho e fêmea”, o que sugere a androginia de Adão ou a existência da entidade feminina junto a ele que não trata-se de Eva. Isto porque apenas no capítulo posterior, após ter sido concluída toda a criação, é que Adão solicita uma companheira e Deus irá produzir Eva da costela de Adão.

 Gênesis I, 26: Deus disse: façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança.

 Gênesis I, 27: Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou.

 Gênesis I, 28: Deus os abençoou e Deus lhes disse: crescei e multiplicai-vos.

 Assim, nestas três fases, vemos aparecer o homem com indivíduo composto de duas partes. O pronome que muda do singular ao plural é revelador do conceito de hermafroditismo ou androginia, ou então se deve, com certeza, pensar que se tratava nem mais nem menos do verdadeiro casal distinto, Adão e a primeira companheira, isto é, Lilith.

(Sicuteri,1998, p 20)

Em Gênesis II, entre os versos 7 e 20, observa-se que primeiro Deus modelou o homem a partir do pó, soprando-lhe a vida e, após a criação total e completa, verifica-se a solidão do homem e, então, deseja-lhe criar uma companheira, fazendo-o depois que o homem conhecera todos os animais e não encontrara nenhum conveniente a si.

“Nesta passagem bíblica é reconfirmado que Adão estava só e tinha dado nome aos animais, isto é, os havia conhecido no acasalamento. Somente de tal modo havia compreendido a necessidade da diferenciação (…) É neste ponto exato do mito que Adão abandona o caráter de identificação com o divino exprimido pela androginia e supera a sexualidade animal como ser vivente. É o momento no qual é pedido a Deus a companheira mulher.”

(Sicuteri, 1998, p 20)

O fato de o mito de Lilith ser encontrado em textos da Torah e Midrash (O ensinamento e A Procura para os Judeus), textos repletos de fé, mas também de testemunhos, sagas, lendas mitos e folclore, fortifica mais a expressão arquetípica no mito religioso: Lilith nasce, segundo Sicuteri, “de uma necessidade ou fantasia coletiva”.

 Assim, nas lacunas em Gênesis, pode-se dizer que a própria cultura harmonizou as duas versões, pois Deus criou o homem e os abençoou, macho e fêmea, e depois criou Eva para a solidão de Adão. De modo que, excluindo a androginia como arquétipo celeste refletido no ser terrestre, logo se pensa na existência de dois seres diferentes, mas com a mesma natureza feminina. Outro trecho bíblico que remete a uma experiência de Adão com o universo feminino precedente à Eva encontra-se em Gênesis II. 22-25, quando ele expressa alegria com uma mulher que derive dele, ou seja, que ele conheça e que domine, ao invés de alguém como ele.

R. Jehudah em nome de Rabi disse: no princípio a criou, mas quando o homem a viu cheia de saliva e de sangue afastou-se dela, tornou a criá-la uma segunda vez, como está escrito: Desta vez. Esta e aquela da primeira vez.”

(Bresit-Rabbá apud Sicuteri, 1998, p 27)

A mulher da primeira vez é Lilith, que provoca em Adão uma sensação angustiante, que lhe amedronta. O sangue mencionado na citação acima sugere a menstruação, uma característica carnal e instintiva da mulher, além da ausência de pudor e tabus de Lilith, que apresenta-se livremente ao homem, disposta também à experiência sexual no ciclo menstrual. A saliva reforça o caráter sexual simbólico, remetendo a uma idéia de secreções eróticas. Deste modo, fica evidente a condição sensual e libertada dos preconceitos dentro do universo simbólico feminino em Lilith; é essa atuação sexual, que leva o homem ao êxtase e fora do controle sobre si mesmo, o que amedronta o universo simbólico masculino expressado em Adão: por isto, ele se afasta e busca uma companheira adequada – ou seja, submissa, obediente, que se sinta inferior.

De acordo com Sicuteri, a lenda da criação de Lilith relata que ela fora criada “assim como Adão”, porém sendo utilizado por Deus fezes ao pó. Deste modo, a mulher buscava a igualdade junto ao homem, rejeitando a condição de submissão ao masculino, pois nascera impura, porém das mãos divinas como Adão.

Nos relatos não citados no texto sagrado, e de acordo com Sicuteri, desde o início Lilith fora chamada demônio, seja por sua força instintual, seja por ter sido criada logo após Adão nas últimas horas do sexto dia, juntamente com os demônios no início das trevas. A criação se finda no sexto dia, pois no sétimo dia Deus descansara.

“Os dois protagonistas estão no palco do mundo. Adão e Lilith, aquela que primeiro exprimia a seu homem algo de importante, de fundamental no que diz respeito à sua relação de criaturas viventes; de homem e mulher.”

 (Sicuteri, 1998, p 29)

 Deste modo, Adão e Lilith consumaram sua relação nas trevas, na escuridão do Sábado, o sétimo dia, em que Deus descansou: dia sagrado aos hebreus. O homem sente a potência feminino-demoníaca, que provoca o prazer e o descontrole da situação. Lilith lhe apresenta isto. Para Sicuteri, “Neste ponto, digamos que o mito de Lilith representa certamente o arquétipo da relação homem-mulher, ao nível mais primitivo no sentido evolucionista”.

 Lilith apresenta-se, então, cheia de desejo e sensualidade, sedutora, gemendo e oferecendo um ofuscamento de consciência, um orgasmo ao homem: é uma mulher que é demônio. É o sonho erótico que perturba a noite do homem-Adão, apresentando-lhe a “potência da energia vital”1.

 1 Sicuteri, 1998.

 A relação entre o casal original indica ser total, intensa, um amor que foge ao controle, muito bom, de dimensão divina. É uma união alquímica que não é uma oposição, mas uma perfeita complementação. Nisto se dá a perturbação ao universo masculino: o macho perde o controle na relação e sua grande intimidade com o Criador é ferida, uma vez que a mulher lhe apresenta um amor de intensidade e dimensão semelhante.

 Deste modo, a união carnal/sexual de Lilith e Adão, a princípio tão prazerosa, perturba-se. Adão busca uma união carnal sobre a mulher, e Lilith torna-se descontente. De acordo com Sicuteri:

“todos os seres praticam o ato sexual com a cara de um voltada para as costas do outro, afora dois que se unem dorso a dorso: camelo e cão, e afora três, que se unem cara a cara, porque a Presença divina lhes falou, e são o homem, a serpente e o peixe.”

 Assim, Adão a procura sexualmente numa posição em que os parceiros, de frente, permaneçam ele em cima e ela por baixo.

Tal trecho do mito exprime o desejo de controle, não só sexual, mas social do macho, bem como seu receio quanto à instintividade da fêmea. Ficar por cima dela significa dominá-la e submetê-la a seu controle; porém, a primeira mulher não aceita tal condição.

“Assim perguntava a Adão: – Por que devo deitar-me embaixo de ti? Por que abrir-me sob teu corpo? Talvez aqui houvesse uma resposta feita de silêncio ou perplexidade por parte do companheiro. Mas Lilith insiste: – Por que ser dominada por você? Contudo eu também fui feita do pó e por isto sou tua igual. Ela pede para inverter as posições sexuais para estabelecer uma paridade, uma harmonia que deve significar a igualdade entre os dois corpos e as duas almas. Malgrado este pedido, ainda úmido de calor súplice, Adão responde com uma recusa seca: Lilith é submetida a ele, ela deve estar simbolicamente sob ele, suportar seu corpo. Portanto: existe um imperativo, uma ordem que não é lícito transgredir. A mulher não aceita esta imposição e se rebela contra Adão. É a ruptura do equilíbrio.Qual é a ordem e a regra do equilíbrio? Está escrito: o homem é obrigado à reprodução, não a mulher”.

(Sicuteri, 1998, p 35)

Deste modo, a primeira companheira de Adão afasta-se após sua recusa, provocando nele a sensação de abandono ao descer das trevas do sétimo dia. Não encontrando Lilith, Adão sente desespero e amargor pela perda, recorrendo ao Pai: ao desafiar o homem, a mulher desafia o Divino – assim, Lilith afirma-se um demônio, pois profana o nome do Pai. Torna-se a serpente-demônio, veículo do pecado e da transgressão, numa busca instintual pela igualdade sexual. Eva, também de natureza feminina, tenta ato semelhante, porém o desfecho de cada ato as diferencia miticamente.

“Em Lilith há o pedido da inversão das posições sexuais equivalentes aos papéis, enquanto em Eva há o ato de transgressão da árvore, em obediência à serpente (…) Lilith pede para ser considerada igual, Eva pensa que não há morte ao assumir a sabedoria proibida. Lilith desobedece à supremacia de Adão, Eva desobedece à proibição. Ambas assumem um risco, mediante um ato”.

 (Sicuteri, 1998, p 37/38)

 Após o afastamento de Lilith, Deus lhe ordena que volte para Adão, porém ela não o deseja mais e se nega a realizar a ordem divina, neste ponto do mito, Lilith definitivamente transforma-se, preferindo permanecer na região dos demônios do Mar Vermelho. Torna-se ela também um ser demoníaco, lascivo, sedutor.

Há uma tentativa no mito de resgate da mulher por parte dos anjos de Deus, mas sem sucesso eles a ameaçam de morte; porém ela os desafia, posicionando-se em seu papel: “E como poderei morrer, se Deus mesmo me encarregou de me ocupar de todas as crianças nascidas homens, até o oitavo dia de vida, a data da circuncisão, e das mulheres até os seus vinte anos?”2. Assim, por vontade divina, assume o papel de serpente-demônio; mas Deus a pune, exterminando seus filhos da face da terra.

2 Ibidem, p 39

“Não há uma conclusão. Lilith permanece na própria liberdade endemoniada, quem sabe rainha no palácio do Demônio, com o seu espírito feminino. Do momento em que declara guerra ao Pai, e o Pai a sujeita ao papel, desencadeia sua força destrutiva e desde aquele dia não há paz para o homem.”

(Sicuteri, 1998, p 40)

A conclusão do mito não ocorre, pois o próprio mito está ocorrendo até os dias atuais. Toda energia libidinosa e sensual de Lilith transforma-se em volúpia.

O mito simboliza a força sexual e psíquica feminina, que amedronta o universo masculino pela sensação de impotência que tal força lhes gera. Na tradição sumério-acadiana, Lilith é descrita como principal demônio feminino, sensual, caracterizada por sua “vagina vibrante”, “seios rutilantes”, “ventre e coxas iminentes”, “um vampiro que suga os fluídos vitais”3. Desta forma, Sicuteri descreve que ela causa aos homens a “sensação de impotência absoluta, onde os indivíduos não se sentiam livres, pelo contrário, percebiam logo a ameaça de uma feitiçaria”.

3 Ibidem, p 47/48.

Lilith está por trás dos fenômenos histéricos, a partir da repressão da sexualidade, que origina somatizações e enfermidades. É ela a responsável pela desunião da família, seja projetada em uma amante sedutora que tira e rouba o marido da esposa, seja projetada na rebeldia da esposa que não suporta o “não” de seu marido-Adão. Esse mito representa toda a irracionalidade gerada quando as proibições sociais são colocadas como barreiras à realização dos desejos.

Contudo, também representa uma cisão do arquétipo da Grande mãe, uma vez que Lilith é também projetada na lua, sendo o lado negro do satélite: assim, é demônio terrestre e divindade celeste. Na antigüidade egípcia e greco-romana, Lilith não aparece como demônio, mas é identificada com divindades destas culturas: é o momento da história humana ocidental em que a sexualidade não é considerada um perigo, mas fonte de prazer.

Deste modo, associa-se as fases lunares ao ciclo de fertilidade da mulher, em que a projeção assume um caráter numinoso e religioso a partir da ferocidade das divindades femininas. Sem cisão do arquétipo, a Lua-Lilith pode ser simultaneamente boa ou má, cheia ou negra.

Desta maneira, o mito simboliza também a fertilidade e produtividade femininas, mesmo que haja na sua natureza humana um mal implícito, um demônio noturno, voraz e insaciável: o instinto. Se Lilith expressa força sensual e mistério, também denota a angústia, o medo da morte, prazeres histéricos; o instinto pode gerar prazer do pólo saudável , como também através da luxúria, perversão e imoderação sexual. Lilith simboliza todas estas possibilidades.

“Entre a Lua cheia e a Lua negra não há um salto: Lilith permanece no exílio, mas para a alma grega a potência do instintual negado se manifesta com toda a evidência na cisão e chega a sobrepujar o Eu.”

 (Sicuteri, 1998, p 90)

 A obscuridade e mistério que geram a incompreensão de Adão em relação a Lilith nada mais simbolizam que o temor ao mistério da feminilidade para o macho e, conseqüentemente, tal incompreensão gerou superstições nas quais o mito fora projetado (amazonas, bruxas, sereias).

“Por que a feminilidade conhece de dentro; quase nunca a partir de fora, pois traz em si, no próprio ventre – em sentido estrito e metafórico – a mais profunda experiência vital, e permanece numa perene, indissolúvel união com sua criatura.”

 (Sicuteri, 1998, p 108)

 O perigo psicológico vivido pelo homem em relação à feminilidade está no domínio a que ele se submete quando frente aos poderes da sedução da mulher que, seduzindo-lhe, fica por cima dele, o que é insuportável ao macho. Explica Sicuteri,

 “É ainda repetitiva e reforçada, a rejeição agressiva de Lilith. Em conseqüência, a mulher opera na imaginação a mais cruel desforra. Combatida com a exasperada sublimação religiosa e com a desdenhosa razão do homem, a Anima enquanto mulher e totalidade instintiva e criativa, volta a representar o conto, a protestar, a exigir resposta a sua dolorosa pergunta: Por que me dizes não? Não somos iguais? Não sou eu igual a ti?

 Neste contexto, inúmeras mulheres sofrendo de conflitos sexuais, histéricas, ou com mania de perseguição, foram a personificação de Lilith para a obsessão masculina durante a Idade Média. De modo que, a “caça às bruxas” nada mais significou que a concretização do desejo de controle masculino, com o domínio do macho sobre a crença da inferioridade da mulher. A sensualidade, que gera tanto prazer, gera também o temor ao universo simbólico masculino; assim, o objeto de sensualidade ao homem, a Mulher-Lilith, deve ser exterminada.

“Retorna ao pecado original, a Eva, para preparar o processo contra a sensualidade feminina e, no Malleus Maleficarum, sustenta-se que o pecado que começou com a mulher é um inimigo branco e oculto cuja concupiscência carnal é insaciável.”

 (Sicuteri, 1998, p 114)

 A sensualidade feminina tem, para o universo simbólico masculino, poder equivalente ao poder do falo e, quando exercida, o homem perde sua condição de poder e controle sobre si e sobre a relação, entregando-se. Ao se entregar ao prazer promovido pela mulher, o homem sente-se dominado por ela, necessitando destruir tal sensualidade para comprovar seu poder fálico. Assim sendo, reprimir a feminilidade significa afirmar o poder masculino.

De acordo com Sicuteri, a figura da bruxa certamente é um símbolo sexual:

“O ungüento, o bastão, o cavalo, o vôo, levam-no a pensar no frenesi sexual, a ereção, o esfregar os genitais, as posições animais do coito, o voar como símbolo do êxtase do orgasmo, de poluções ou de masturbação.”

Frente ao medo que a sensualidade feminina que era socialmente repudiada pelo homem, mas desejada inconscientemente por ele, surge o sadismo e as milhares de mortes que ocorreram contra as bruxas, a pior personificação de Lilith que a história já conheceu.

Na atualidade Lilith ainda se manifesta, sombria e negativa, interrogando o homem quanto sua igualdade: “e já Lilith retorna como amplificação dos mitos lunares em conexão com as temáticas sexuais”4.

4 Ibidem p 139.

Nos protestos por igualdade sexual, na emancipação da mulher, na Astrologia, ainda aponta-se para a cisão do arquétipo da Grande Mãe, refletindo a repressão instintual e sexual da mulher. Os movimentos femininos que marcaram o século que se finda indicam o despertar e a amplificação da consciência feminina e o questionamento que a mitológica Lilith faz: Por que ficar embaixo de ti?

Lilith é o lado sombrio de Eva, pois não se submete, porque conhece seu poder; De acordo com Cavalcanti, “nenhuma deusa jamais se submete ou está sob o comando do masculino porque conhece sua força e seu poder”.

Após a revolução sexual feminina, com auge nos anos 70, o mitologema de Lilith não é mais encarado como símbolo de repressão, mas como denúncia, numa busca de integração dos instintos na psique.

Começa-se a considerar a mitologia do feminino como testemunha de uma incansável luta que o homem trava contra o instintivo, e sua conseqüente repressão (…) E, constantemente, se repete o não ao gozo, ao prazer pulsional. A criatividade reflui. O objeto do desejo, o ato de desejar e ser desejado são danificados pela censura e pela repressão e, para conseguir este resultado – na véspera das grandes descobertas sobre o inconsciente – ainda se atribuem às várias personificações da anima atributos, qualidades e formas as mais desagradáveis ou destrutivas, a fim de conseguir a repulsa e a rejeição da experiência”.

(Sicuteri, 1998, p 140)

Considerações Finais

O mito de Lilith, exatamente por possuir conteúdos arquetípicos (sobretudo dentro do mundo de cultura ocidental), conta histórias de todas as mulheres, pois configura narrativa atemporal e impessoal, expressando características coletivas quanto ao universo simbólico feminino e a relação da mulher com sua feminilidade e com o outro.

Deste modo, narra a realidade feminina no que diz respeito a gestos, emoções, imagens simbólicas, etc., que estão no Inconsciente humano. Toda a contestação sobre a irracionalidade presente neste mito não importa, pois o mito não pode ser lógico: para abranger a totalidade do Real, precisa ser simbólico. Assim, a questão da existência efetiva da primeira esposa de Adão é irrelevante na área de Psicologia; antes diz respeito a uma questão teológica. À Psicologia compete justamente o estudo do que é irracional, sem lógica e simbólico na história, ou seja, a verdade última que ela contém e que expressa conteúdos psíquicos coletivos.

Além de espelhar o comportamento, sentimentos, imagens inconscientes comuns na cultura ocidental de tradição Judaico-Cristã, foi observado no presente trabalho que este mito também foi utilizado como modelo e influência para a manipulação de certos comportamentos, sobretudo no que diz respeito ao controle da sexualidade.

Neste sentido, simboliza diferentes manifestações da feminilidade na mulher (que por serem atemporais, abrangem a mulher atual também), especialmente quanto à vivência da sexualidade. Os principais conteúdos observados foram o controle, a submissão, e a repressão sexual feminina pelo universo simbólico masculino/machista, bem como a luta por igualdade sexual e social da mulher.

Expressam o “não” masculino quanto o pedido de igualdade da mulher, indicando que no machismo existe grande ansiedade e desejo de poder sobre o universo feminino, no que refere-se ao controle da instintividade, denotando o temor do homem em relação à força instintiva e a criatividade femininas, expressadas principalmente através da sexualidade.

Porém, embora temente em relação à instintividade, o universo simbólico masculino necessita da energia que lhe é contrária e que lhe completa, proporcionando-lhe o equilíbrio no processo de individuação, na relação Anima-Animus; deste modo, ainda que negando a satisfação do desejo de igualdade da mulher, o homem busca sua companhia. Entretanto, de um modo em que esteja por cima, ou seja, não considerando a mulher como sua igual, mas submetendo-a na condição de inferioridade, que então é aceita pela mulher. A sexualidade feminina, que expressa poder criativo e gerador, capaz de promover um estado de êxtase orgástico sem controle à sexualidade masculina, por ser sua complementação natural, é desejo de controle masculino.

A relevância do tema está na melhor compreensão dos conflitos sócio-sexuais da mulher moderna, o que poderia sugerir nova dinâmica de análise neste sentido. Tal hipótese continua sem comprovação, uma vez que seria necessária maior e mais aprofundada observação científica sobre o tema.

Para finalizar, Neumann reflete:

“Ora, à esquerda há uma série negativa de símbolos, a mãe da Morte, a Grande prostituta, a Bruxa, o Dragão, Maloch; à direita há uma série positiva, oposta, na qual encontramos a boa mãe que, como Sofia ou a Virgem, dá à luz e nutre, conduz ao renascimento e à salvação. Lá Lilith, aqui Maria. Lá o sapo, aqui a deusa, lá um pântano cruento e devorador, aqui o Eterno Feminino.”

(Neumann apud Sicuteri, 1998, p 141)

Deste modo, não trata-se de representações de mulheres diferentes mas, antes, de diferentes aspectos da sexualidade feminina como um todo. É possível que em toda a dinâmica psicológica feminina exista os caracteres destes mitologemas, por serem arquetípicos. A sensualidade, a instintividade, a rebeldia, a submissão, a criatividade e a repressão sexual, aspectos observados neste mito não se excluem ou são incompatíveis de simultaneidade; mas ao contrário, podem indicar as diferentes modalidades de manifestação do que é próprio ao universo simbólico feminino enquanto Psique Objetiva. Compreendê-las e analisá-las fazem parte do processo de integração entre o que é simbólico e coletivo no psiquismo e o Ego. Neste sentido, viabilizar-se-ia uma melhor elaboração dos aspectos arquetípicos, bem como a integração dos mesmos no contexto de relacionamentos interpessoais da mulher, facilitando a reflexão e a ocorrência do processo de individuação.

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