Astrologia na Arte

Quem tem Ouvidos que Ouça

Elementos para uma Leitura de “O Astrólogo” de Gomes Leal

Henrique Marques Samyn

 Comecemos com uma evocação algo anedótica, mas que está intrinsecamente relacionada ao tema deste trabalho: a confiarmos no que sugere Vitorino Nemésio num ensaio definitivo, e que Fernando Pessoa ressoou num soneto1, Gomes Leal seria um poeta predestinado. Marcado pela má sorte, entregue por Apolo a Saturno − segundo o soneto pessoano −, Gomes Leal conheceria, primeiro, a fama dos rebeldes, o que acabaria por granjear-lhe a dúbia glória dos iconoclastas e uma visita à prisão do Limoeiro; depois, já converso à religião que anteriormente anatematizara, viveria em seus últimos dias a miséria dos poetas malditos, valendo-se de favores e servindo como alvo fácil para as zombarias de adolescentes pelas ruas.

1 “Gomes Leal”, editado em: Pessoa (1997, p. 145).

Essa lembrança nos é útil por implicar uma observação, no mínimo, instigante: o fato de que vários daqueles que se dedicaram a avaliar a obra de Gomes Leal se viram tentados a percebê-la como vinculada a uma errática trajetória que, por sua vez, fora determinada por forças ocultas. Trata-se de um recurso útil, aliás, para explicar o motivo de ser esse um poeta obcecado pelo desconhecido, algo nítido já em seu primeiro livro, Claridades do Sul (1875), e que de algum modo se faria presente mesmo numa obra tão tributária do naturalismo quanto O Anticristo (1884-1886) − poema que não recusaria criticar a própria razão que lhe servia como sustentáculo para a emancipação irreligiosa. Se suposições de ordem psicológica podem ser eventualmente úteis para o exame de uma produção literária, no caso de Gomes Leal parece determinante a inquietação intelectual que, amplificada por uma exacerbada sensibilidade, parece haver contribuído decisivamente para a inconstância perceptível tanto em sua vida quanto em sua obra − sobretudo por determinar uma visão de mundo sempre cambiante, instável pela recorrente disposição a contestá-la em seus pressupostos.

Não é meu propósito nem enveredar pelo psicologismo, nem sustentar hipóteses deterministas ou metafísicas; contudo, se evoco as apreciações de Nemésio e de Pessoa, não o faço de forma gratuita. Parece-me plausível a hipótese de que a trajetória de Gomes Leal estaria, se não previamente traçada, ao menos já esboçada em sua juventude − não por quaisquer forças ocultas, mas pelo mero fato de ser ele alguém plenamente disposto a absorver as contradições de seu tempo. Nas próximas páginas, desenvolverei esse postulado, guiado, sobretudo, pela leitura que proporei para um soneto de Claridades do Sul“O Astrólogo”:

O Astrólogo

 Quem tem ouvidos que ouça.

Quem tem ouvidos que ouça, e o velho mundo
Que o aprenda de cor, pois que o que digo
É fruto dum estudo egrégio e fundo,
Como a ciência dum Caldeu antigo.

A Terra há muito que é um charco imundo,
Vencida eternamente do Inimigo,
E há muito lhe prevejo um fim profundo,
E um tremendo e trágico castigo.

Ora, ontem à noite, fui a um monte
Muito alto − e eis que avisto no horizonte
Dez signos, como em longa procissão…

E esses signos, a mim que sou vidente,
Tinham formas de letras, claramente:
− E nessas letras li DESTRUIÇÃO.

Se o dizer literário inevitavelmente pressupõe, em algum nível, um afastamento da linguagem comum; se, em particular, o dizer poético visa à enunciação de uma verdade que se esquiva ao olhar cotidiano, já à primeira vista assoma o fato de estarmos diante de alguém que explicitamente assume essas especificidades em seu discurso. Mais que poética, a subjetividade lírica se pretende profética: “Quem tem ouvidos que ouça”, é o que brada já de início (e duas vezes: na epígrafe e no primeiro verso, no qual, aliás, faz coincidir a sentença com o primeiro hemistíquio), exortação em que transparece o tom bíblico2. Há aí, evidentemente, alguma encenação, sustentada pela retórica artificiosa; não obstante, assim se efetiva o deslocamento mediante o qual o poeta se atribui uma função superior, jamais concebida pelo homem ordinário, e que diz respeito a uma relação particular com o tempo: proclama-se detentor de uma sabedoria que se assemelha à dos antigos, mas que desvela o presente e antevê o futuro.

2 São diversas as passagens neotestamentárias semelhantes; cf.: Mt 11,15; Mt 13,9; Mc 4,9; Mc 4,23; Lc 8,8; Lc 14,35; Ap 2,7; Ap 2,11; Ap 2,17, entre outros trechos (exemplos colhidos na versão da CNBB).

É enquanto portador dessa perene sabedoria que o poeta se impõe como autoridade. Valendo-se dessa posição, desfere, sem meias palavras, um implacável juízo sobre o mundo − este “charco imundo”, entregue ao “Inimigo”, destinado a sofrer um castigo “tremendo e trágico”. Nessas palavras entrevemos não tanto a previsão de um vidente quanto a imprecação de um moralista, que busca intervir no errôneo curso das coisas por meio de ameaças − e, aos olhos contemporâneos, é justamente o tom exaltado em que são proferidas essas palavras o que mais suscita dúvidas acerca de sua seriedade. A desconfiança é, por um lado, legítima: no âmbito textual, o poeta se vale de uma máscara, no que vai um passo além do “fingimento” inerente à atividade poética − uma vez que desempenha um personagem cuja função demanda algum alarde. Por outro lado, os artifícios estilísticos que emprega não são muito diferentes daqueles que tantas vezes flagramos em Guerra Junqueiro, ou mesmo em Antero de Quental, o que significa dizer: há neles as marcas de uma época − e, se pretendemos evitar o anacronismo, cabe não desacreditar o que, em seu tempo, mediu-se pela eficácia.

Nos tercetos finais, percebe-se uma mudança fundamental no discurso: as imprecações generalizantes dão lugar à narração de um episódio específico, o que encerra também uma restrição temporal ao pretérito. “Ontem à noite, fui a um monte”, afirma o verso inicial do primeiro terceto, sendo mais adequado lê-lo a partir de uma clave simbólica: o “ontem” aqui se estende indefinidamente, fundindo-se com o passado mítico; a “noite” é a evocação metafórica do sono e do sonho enquanto obscuridade da razão, em oposto à luminosa lucidez cotidiana; o “monte” (“muito alto”, aliás) é o lugar reservado à revelação, inacessível aos homens comuns. É nesse espaço, de acesso facultado apenas ao vate-profeta, que decorre a contemplação descrita no verso que encerra o primeiro terceto: a visão, no horizonte − não geográfico, mas existencial − de “dez signos” (que, por não serem doze, não se confundem com aqueles do zodíaco, embora isso não implique um esvaziamento de ordem alegórica, sobretudo no que diz respeito à tradição judaico-cristã: evoquem-se os dez mandamentos revelados a Moisés, as dez sefirot cabalísticas, as dez pragas do Egito ou as dez tribos perdidas de Israel).

Se é pertinente a leitura que propomos, o terceto final se revela desprovido de qualquer dimensão fantasiosa − conquanto não se despoje, por inteiro, do conteúdo metafísico. Se o poeta é “vidente”, é por estar apto a perceber o que ultrapassa as estreitas limitações impostas pela ordem racional; e é precisamente por habitar a noite da consciência, na qual se exacerba a intuição, que percebe o sentido daqueles dez signos que avultam no horizonte do possível − conformando as letras que compõem a palavra DESTRUIÇÃO, aliás grafada em maiúsculas, de modo a enfatizar sua significação totalizante.

Com efeito, se Gomes Leal não explicita o alcance da “destruição” que intui, enquanto vate e vidente, isso ocorre porque a referência seria demasiado extensa para ser especificada − e a omissão tem o efeito de sugerir essa amplitude. Trata-se da destruição de todo um mundo, enquanto conjunto de significações composto pelas múltiplas perspectivações humanas; em outras palavras, trata-se de uma antevisão da derrocada dos sentidos e da falência dos valores, condicionada por elementos do contexto histórico e cultural em que o poema foi composto.

Gomes Leal viveu naquele conturbado ambiente que foi a segunda metade do século XIX − e não foi o único a deixar-se dominar por uma sensação de que, em toda a parte, anunciava-se o declínio. Há certa obsessão pela idéia de decadência no pensamento europeu desta época; uma percepção que começa a emergir no ambiente cultural pós-romântico, e que ganha cada vez mais força ao longo dos anos. Embora isso não necessariamente determinasse uma valoração negativa da arte − com efeito, havia quem concebesse a decadência precisamente como um efeito da maturidade artística extrema, de modo que, nesse devastador cenário, ainda seria possível conceder a ela uma espécie de salvo-conduto −, suscitava uma questão fundamental: qual seria o sentido da arte num mundo em desagregação?

A combativa perspectiva advogada pelos entusiastas da nova estética realista não seria acolhida por Gomes Leal, que explicitamente recusa o Realismo no posfácio a Claridades do Sul; em suas palavras, trata-se de uma “vã retórica” que, sob a “aparência de análise, de crítica, de experiência, revela o sórdido e o obsceno”. E, se Gomes Leal rechaça desse modo a reação realista, é precisamente por ter uma visão ainda mais ambiciosa da arte enquanto instrumento construtivo. A poesia de Claridades do Sul, afirma, é uma poesia “sadia, forte e verdadeira”, que não despreza “o amor, nem a imaginação, nem a liberdade”, e que tem a pretensão de “estabelecer o verdadeiro equilíbrio entre o ideal e o real“, de modo a (“como a filosofia”, reitera) “melhorar a humanidade” e “alargar o ideal humano”, sendo assim “digna da nobre missão que nestes tempos lhe está confiada”. Mais que um instrumento para a transformação política e para a reforma da sociedade, a poesia seria a responsável pela construção de um novo homem.

Ao assumir essa difícil missão, Gomes Leal se depara com um fulcral dilema: onde procurar as referências para a renovação? Para um poeta que desconfia da razão e ousa contemplar o mistério, a política não poderia oferecer respostas capazes de saciar a sede metafísica, e a ciência não poderia constituir nada além de uma solução ilusória – percepção que, já mais extensamente desenvolvida, assomaria em O Anticristo, obra aliás já anunciada por um soneto presente no livro de 1875 (“O novo livro”). E está aí, a meu ver, a questão fundamental entrevista em “O Astrólogo”.

A marcha dos signos, anunciando a destruição, espelha a sensibilidade de Gomes Leal à crise vivenciada em sua época; não obstante, ao prever um “fim profundo” para o mundo, talvez não estivesse o poeta recorrendo à solução moralista que sua encenação permitia entrever, mas antevendo (como um profeta profano, poderíamos acrescentar) a impossibilidade de alcançar respostas definitivas. A pletora de influxos acolhidos pelo poeta, e revelados por uma leitura de Claridades do Sul – esse livro que não raro oscila para tendências antitéticas, e que anuncia a perplexidade de um temperamento que “não dispensava a amplidão onde coubessem os paradoxos, os júbilos, as invectivas e os desalentos”, como observam Francisco da Cunha Leão e Alexandre O’Neill −, permite-nos prenunciar as crises de uma personalidade que recusará o ceticismo em nome de uma moral cujo fundamento jamais será sedimentado, e em nome de uma razão cuja fragilidade será, ao longo do tempo, relutantemente acolhida.

Num monte muito alto, à noite, o vate-vidente contemplou dez signos que anunciavam a destruição de um mundo. “Quem tem ouvidos que ouça”, bradou, incitando os seus contemporâneos a perceber a terrível verdade que assim ousava revelar. Resta, contudo, a indagação: teria ele, nesse momento, ouvido o que previa para si mesmo?

Referências Bibliográficas

GOMES LEAL, A. D. Claridades do sul. Ed. José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Assírio & Alvim, 1998.

PESSOA, Fernando. Mensagem: poemas esotéricos. Edição crítica de José Augusto Seabra. Madrid, Paris etc.: ALLCA XX, 1997.

LEÃO, Francisco da Cunha; O’NEILL, Alexandre. Comentário. In: GOMES LEAL, A. D. Antologia poética. Escolha e comentários de Francisco da Cunha Leão e Alexandre O’Neill. 2. ed. Lisboa: Guimarães, 1999.

NEMÉSIO, Vitorino. Destino de Gomes Leal. 4. ed. Lisboa: Imprensa Nacional−Casa da Moeda, 2007.

Livro:

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