Temas Transcendentais

Os Instantes, a Eternidade do Mundo e a Consulta aos Astros segundo Tomás de Aquino

 Prof. Dr. Paulo Faitanin

 Os Instantes

 §. 1. Definição

 A palavra instante deriva do latim instans, antis (pret. perfeito de insto), cujo significado original é: o que aperta, que insta, que persegue, iminente, próximo. Dentre os muitos significados abrangidos nos léxicos, nos interessa o que assim elucida: espaço de tempo indeterminado, ponto determinado do tempo. Em seu sentido filosófico, a noção de instante é correlata à de duração e pode referir-se à duração muito curta que a consciência capta como um todo. Tradicionalmente, também foi definido como ponto determinado e indivisível da duração.

§. 2. Uso filosófico

 O conceito de instante em Platão (Parmênides, 156D), entendido como a inserção súbita da eternidade no tempo, coloca a dimensão original do instante numa esfera sobrenatural, do mundo das idéias, e seu desdobramento relacionado ao mundo físico. Esta concepção influenciou amplamente o pensamento agostiniano.

 Na história do pensamento cristão ninguém se aprofundou mais na noção de tempo que S. Agostinho, que entende o tempo como o que serve para medir o movimento dos corpos(Confissões, XI, 23, 30), estabelece que o instante pertenceria à esfera da eternidade, pois nela somente há um presente incorruptível(Tratados Sobre o Evangelho de São João, 38,10).

 Esta mesma concepção também influenciou amplamente o existencialismo (Kierkegaard, Jaspers e Heidegger). Abstraindo as diferenças, entenderam o instante como o vivido, a totalidade do real e única coisa verdadeira e concreta.

 Neste contexto filosófico o instante aboliu a concepção de tempo, enquanto duração contínua, porque, como em Platão, o instante é a presença do eterno. Por isso, o instante atrelado à eternidade é visto como o presente autênticoe o agora, atrelado ao tempo, como o presente inautêntico da vida cotidiana. Isso culmina com a definição de instante em Heidegger como a decisão antecipadora da morte, isto é, do nada da existência (Sein und Zeit, §68, 81).

 Aristóteles, referindo-se à noção de instante afirma: é impossível que exista ou que seja pensado um tempo sem o instante(Física, VIII, 251b 19-20). O instante não é uma parte constitutiva do tempo, pois para o Estagirita, parece que o tempo não é constituído por instantes(Física, IV, 218ª e 220b 18-19). Aristóteles coloca a dimensão original do instante numa esfera natural, do mundo físico, mas dimensiona o seu desdobramento relacionado ao mundo metafísico. Esta concepção influenciou amplamente o pensamento tomista.

§. 3. O instante em Tomás de Aquino

Tomás de Aquinoseguindo a doutrina aristotélica também afirma que o instante não é parte do tempo(In I De Caelo, lect. 12). É o indivisível do tempo. É sinônimo de nunc(agora). O agora ou nuncé um tempo indeterminado e o tunc(então), ao qual se opõe o nunc, é um tempo determinado, mas pode também receber o nome de instans signatum(instante determinado: In IV Physic., lect. 15).

No tempo são duas coisas, o passado e o futuro, mas ambas são medidas pelo mesmo instante, pois o mesmo instante é princípio do futuro e fim do passado(C.Gen., II, 36). Nenhum movimento local de um corpo é instantâneo (In II De anima, lect. 14), somente o dos Anjos, que não possuem corpo, o é (S. Theo. I, q.53, a.3,c.). No homem, a operação do intelecto e da vontade, por causa da sua imaterialidade, pode ser no instante (S. Theo. I, q.63, a.5,c.).

A Eternidade, o evo e o tempo medem a ação da coisa, o seu ser operando, mas o instante mede o próprio ser da coisa (In I Sent., d.19, q.2, a.2, c.). Por isso dirá que o instante do evo difere realmente do agora no tempo, porque o primeiro mede o que se move segundo a essência, e o segundo é idêntico em todo o movimento.

Deste modo, Tomás de Aquinopropõe uma distinção da noção de instante segundo a natureza da duração a que se aplica:

1. O instans nunc(o instante agora) pode ser entendido como o agora da eternidade no tempo, e deve ser entendido como o princípio e o fim do tempo, enquanto supõe a eternidade do tempo (S. Theo. I, q.46, a.1,ad.7).

2. O instans signatum(o instante determinado) pode ser entendido como o agora do presente no tempo, e deve ser entendido como o princípio e o fim de alguma ação no tempo, enquanto supõe a continuidade do tempo (DePot., 5, a.5, obj.10), sendo o indivisível do tempo (S. Theo. I, q.42, a.2, ad.4).

Ferrater Mora, brilhantemente, exaure as possíveis dificuldades quanto a essa distinção, dizendo: Em todo caso, o conceito de agora não é o mesmo quando se refere ao tempo ou à eternidade. No primeiro caso trata-se do nunctemporis sive fluens; no segundo caso, do nuncaeternitatis sive stans. O agora do tempo é uma res fluens; o agora da eternidade, em compensação, não flui. Por isso, esse último agora é como o presente eterno1.

1 FERRATER MORA, J. Instante , em: Dicionário de Filosofia. Tomo II: EJ. São Paulo: Loyola, 2001, pp. 1521-1523.

A Eternidade do Mundo

§. 1. Estado da questão antes de Tomás de Aquino

Os gregos entenderam a eternidade como a duração infinita ou aquilo que é desde sempre. Platão (Fédon, 103E) aplica esta categoria de duração às formas. Aristóteles também o admite como duração infinita do movimento circular (Física, VIII, 8, 263ª 3). Denomina o existir desde o princípio das coisas eternas (Metafísica, IX, 9, 1051ª 20). Ela é tempo que perdura sempre, que carece de princípio e de fim, e inclui todo o tempo e é duração imortal e divina (De caelo, I, 9, 279ª 22-9).

Neste sentido, tudo que é material, corpóreo, sujeito ao movimento, teve um início no tempo e no espaço; portanto, não poderia ser eterno. Para Platão, eternas somente seriam as formas, e, para Aristóteles, as substâncias separadas, que por causa da imaterialidade não estariam sujeitas ao movimento. Deste modo, o mundo material visível e sensível não seria eterno.

Os romanos cristãos, S. Agostinho e Boécio, em razão da Revelação, entenderam a eternidade como o que é imensurável pelo tempo e somente pertence a Deus (Confissões, XII, 11,11). S. Agostinho acentua a plenitude do eterno diante da indefinição do meramente perdurável e diante da abstração do simplesmente presente em um momento. É o agora de Deus (Confissões, XII, 13,16). Boécio entende a eternidade como a posse inteira, simultânea e perfeita, de uma vida interminável (A Consolação da Filosofia, V). Nestes termos, segue-se a tradição grega de aplicar-se somente a eternidade ao divino e ao imaterial.

§. 2. Estado da questão em Tomás de Aquino

Entre as proposições condenadas por Estevão Tempier em 1270, encontrava-se a seguinte: Quod mundus est aeternus et quod nunquam fuit primus homo(o mundo é eterno e que nunca existiu o primeiro homem). Tomás de Aquino, já nos comentários das Sentenças de Pedro Lombardo, sustentara que Deus poderia produzir algo eterno(In II Sent., d.1,q.1,a.5,c.), e com esta afirmação, ao retornar a Paris, Tomás de Aquinose encontrava no olho do furacão. Antes que Tomás de Aquinoretornasse a Paris (1269), S. Boaventura tornou-se Ministro Geral de sua Ordem.

Durante os anos de 1267 e 1268, denunciara com vigor em suas pregações os erros que emanavam da Faculdade de Artes, sobretudo a doutrina da eternidade do mundo, como uma perversão da Sagrada Escritura. O foco da polêmica era a doutrina propalada pelo averroista Siger de Brabant, o qual, possivelmente apoiado na interpretação de Averróis, afirmava que Aristóteles defendera a eternidade do mundo.

Motivado possivelmente pela solicitação de alguns irmãos da Ordem, S. Boaventura promoveu uma intervenção pública sobre o tema, na exposição da tese, à qual seguiam franciscanos como Guilherme de la Mar, com a premissa de que Deus não poderia ter criado algo desde a eternidade (Super Sent., II, d.1).

S. Boaventura promoveu uma intervenção pública nas disputas quodlibetais, atividade acadêmica característica da Universidade Medieval, ocorrida sempre durante a Quaresma precedente (antes da Páscoa) ou Advento precedente (antes do Natal), e mediante a qual se estudava qualquer questão de interesse ou polêmica; neste caso, a da eternidade do mundo.

A tese de Boaventura retoma o que já anteriormente defendia em Super II Sent., 1,1,2. Para ele, o mundo foi criado por Deus no tempo e não desde a eternidade. Pois, o conceito de mundo criado do nada e existente ab aeterno contém tão grosseira contradição, que não se pode conceber que algum filósofo por medíocre que fosse, possa ter afirmado semelhante coisa.

Tomás de Aquinotratou deste tema diversas vezes, e em diferentes épocas e obras. Como dissemos nos comentários aos Livros das Sentenças, escrito entre os anos 1252-1254, ele havia considerado o tema da eternidade do mundo, afirmando a hipótese de que não contraria a fé católica a idéia da criação ab aeterno(In II Sent. d.1, q.1, a.5, c.). Em 1262 dedicaria na Suma Contra os Gentiosum capítulo à questão da eternidade do mundo, onde sustenta que, além de Deus, não há nada eterno (C.Gen., II, c.38).

Em seguida, em 1268 consideraria o assunto no De Potentia, onde afirma que não é impossível que, à parte de Deus possa existir algo eterno, se considerada a potência ativa de Deus (De Potentia, q.3, a.14, c.). Posteriormente, em 1268 trataria do tema na Primeira Parte da Suma Teológica, onde afirma que somente pela fé se sustenta que o mundo não existiu sempre e nem é possível demonstrar este dado pela razão natural. Daí que não se pode demonstrar que o homem, o céu ou a pedra não existiram sempre (Sum. Theo., q. 46, a.2,c).

E, possivelmente, antes do Natal de 1270, tratou brevemente da questão num dos Quodlibetos, no qual sustentou, sem se referir a posições anteriores, que o mundo não é eterno segundo a fé católica (Quodlibeto. 12, a.7). E, finalmente, a sua última contribuição deu-se no De aeternitate mundi. Neste breve e polêmico opúsculo, Tomás de Aquinosintetiza a sua doutrina.

Tomás de Aquinosabe muito bem que Aristóteles não rejeita completamente a hipótese da eternidade do mundo. Por isso, procura guardar a maior fidelidade possível ao aristotelismo, traçando, ao mesmo tempo, uma distinção bem definida entre o aristotelismo por ele defendido e o averroismo latino, propalado sobretudo na Faculdade de Artes de Paris.

Por esse motivo, ele prova inicialmente a inconclusividade dos argumentos em favor da eternidade do mundo; e assim abre espaço para o dogma e separa-se do averroismo. Em seguida, passa a demonstrar que os argumentos favoráveis à temporalidade do mundo são igualmente inconclusivos; e assim, abre lugar ao aristotelismo, distanciando-se do agnosticismo.

A Consulta aos Astros

§1. A Astrologia na Antigüidade.

A observação dos astros desde a antiguidade sempre foi atestada na raiz das diversas culturas: a semítica, a egípcia, a hindu, a chinesa, a grega e a romana etc2. A feitura de mapas astrais de horóscopos e zodíacos teve o seu ápice durante este período antigo. As observações tinham diferentes propósitos, mas, sobretudo, os de prognosticar o tempo favorável ou desfavorável ao plantio, às colheitas, às viagens, ao tratamento médico, etc. É fato, também, que a maioria destas culturas cultuava e consultava os astros como se o fizesse a seres divinos. Na maioria das vezes, se consultava acerca do conhecimento do destino humano, da prosperidade da vida no amor, na riqueza, na milícia e no poder.

2 Sobre isso vejam: BOUCHÉ-LECLERCQ, A. L Astrologie grecque. Paris, 1899; CUMONT, F. Astrology and Religion among the Greeks and the Romans. New York, 1912 e FESTUGIÈRE, A.J. L astrologie et les sciences occultes. Paris, 1950.

Pautado no anterior, podemos dizer que a astrologia, de um modo geral para os que creram nos astros como deuses, era uma disciplina pela qual se presumia deduzir dados inerentes ao conhecimento do destino humano, tendo como base a observação dos astros, seus movimentos, respectivas posições e influências sobre os corpos. Por isso, dentre os povos que a cultivaram, os astros foram considerados de natureza divina: corpos celestes.

Este fato muda predominantemente com a ascensão da religião judaica entre os hebreus e a sua influência sobre outras culturas. A crença num Deus espiritual subjuga a ordem do universo material à Vontade do Deus único. A Lei Mosaica, em sua essência, abomina a consulta aos astros. O destino do homem é a Vontade de Deus.

Isto ficará mais evidente no Cristianismo. Os escritores cristãos dos primeiros séculos criticaram e combateram veementemente a concepção dos influxos astrais na determinação do destino, expresso às vezes nas formas de um autêntico fatalismo e, ao mesmo tempo, no recurso a práticas adivinhatórias e mágicas, no intuito de conhecer esse destino.

De modo geral, os grandes pensadores do período patrístico derrocaram esta prática: Taciano atribui tal consultismo à atividade demoníaca; Inácio de Antioquia e Tertuliano interpretaram o episódio evangélico dos Reis Magos no sentido de que, com o nascimento de Jesus, a astrologia foi derrotada, perdendo toda a eficácia a consulta aos astros3. S. Agostinho denomina a astrologia como a arte dos horóscopos (Confissões, IV, 3,4); sendo uma arte inútil e falsa, pois a consulta às estrelas é perfeitamente inútil para conhecer o destino da vida (De Doctrina Cristiana, II, 22,23), porque a vontade humana não se subordina à posição dos astros (DeCiv. Dei, V, 6). Deve ser repudiada esta pseudociência (De Doctrina Cristiana, II, 23,35).

3 GASPARRO, G.S. Astrologia , em: Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs. Rio de Janeiro: Vozes, 2002, p. 188.

§2. A Astrologia em Tomás de Aquino

Recentemente, muitos autores fiéis à idéia de uma astrologia interventora do destino humano, contra inclusive o livre-arbítrio do ser humano, se equivocaram ao citar Tomás de Aquinocomo defensor da Astrologia, assim considerada. Para Tomás de Aquinoastrologia, é sinônimo de astronomia. Por isso afirma como objeto da astrologia o que hoje em dia consideramos o objeto da astronomia: o movimento e a localização dos astros (In I Anal., lect. 25; In II Physic. lect 3; In III Metaph., lect. 7). Considera a astrologia como uma das ciências matemáticas (In II Physic. lect 3).

Tomás de Aquinoadmite que o astrólogo pode prognosticar o futuro determinado, como um eclipse solar ou lunar, pela análise das causas físicas, pela observação do movimento dos astros e da influência que estes causam nos corpos físicos (S. Theo. I, q.115, a.4, ad3; II-II, q.95, a.1). Mas isso não significa que os astros possam influenciar a vontade e a liberdade do homem, ou que os astrólogos possam prever isso. Assim, o Aquinate estabelece que nem mesmo os prognósticos dos astrônomos são necessariamente verdadeiros (In II De caelo, lect. 17; S. Theo., I, q.32, a.2, ad.2).

Como dissemos, a maioria dos cristãos medievais via a consulta aos astros no que se refere ao prognóstico do destino e da vontade humanas, um pecado gravíssimo, embora, nos últimos tempos da Idade Média, os não-cristãos propalaram com força a sua crença na influência dos astros sobre as suas vidas, na determinação dos seus destinos4.

4 Hallam, E.M. Astrologia , em: Dicionário da Idade Média. Editado por H.R. Lyon. Rio de Janeiro: Zahar, 1990, pp. 34-35.

Tomás de Aquinonão considerava pecado a consulta aos astros, enquanto prognóstico para o plantio, para a colheita, etc. Não negava, segundo esse último propósito, a influência dos astros sobre os corpos. Não obstante, negava veementemente a influência dos astros sobre o que é de matéria da razão, da vontade e da liberdade humanas. Por isso, seguindo a tradição cristã, Tomás de Aquinoconsidera pecado grave a consulta aos astros sobre o que é de matéria da razão, da vontade e da liberdade.