Temas Transcendentais

O Curandeiro Cientista

Anita Helena Schlesener

Departamento de Filosofia

Universidade Federal do Paraná

Resumo

O objetivo desse trabalho é analisar o papel do intelectual moderno, relacionado com a formação do médico nas condições da modernidade. Para tanto, recorremos à filosofia crítica e às reflexões de Walter Benjamin sobre a experiência moderna.

Curandeiro-Cientista: Esboço de uma História

O astrônomo determina a posição dos astros; o astrólogo lê o futuro contido nas estrelas. Apesar de toda a precisão de seus instrumentos de observação, o astrônomo nunca conseguirá igual resultado.

Há questões que são recorrentes na filosofia e, entre elas, a pergunta sobre o homem. E, conforme a época, mereceu respostas diferentes, que supunham a formação do homem no contexto de sua sociedade. O tema que abordamos nos faz retomar a pergunta sobre o homem para compreender o papel do intelectual moderno e, mais especificamente, do médico na atual sociedade.

Começamos por rememorar um tempo em que o curandeiro-cientista existia concretamente e cumpria sua função na sociedade: esse tempo foi o da aurora do capitalismo, que os historiadores costumam chamar Renascimento. Trata-se de um período em que se constituem as novas relações de produção, base da nova sociedade capitalista, no bojo da qual se elabora também um novo conceito de homem. O Renascimento designa um processo social total, que abarca tanto a esfera econômica e social quanto o domínio da cultura, estendendo-se à vida e aos modos de pensar cotidianos, às práticas morais, aos ideais éticos, estéticos e científicos. Um tempo de transição em que as antigas formas ainda não se haviam dissolvido e as novas formas já se encontravam em formação.

Nesse período de profundas mudanças, de ebulição social, de valorização do humano e da vida natural, a figura do curandeiro cientista era a de um homem especial, que se dedicava à prática da cura fazendo interagir razão e sensibilidade na produção do conhecimento. E este não era um privilégio do médico, mas vários intelectuais produziam arte e cultura relacionando saberes e práticas. Leonardo da Vinci e Giordano Bruno foram figuras exemplares desse intelectual que procurava interligar os saberes a partir de uma concepção integral de homem.

Tamanha era a riqueza dessa experiência que qualquer tentativa de explicá-la se revela precária e simplificadora. Basta lembrar que esses homens desempenhavam uma função política e social à qual integravam a sua investigação científica: eram médicos e políticos, artesãos e visionários, que acreditavam na plena realização humana por meio do conhecimento.

A questão que se levanta é sobre como se produziu, na história da modernidade, a fragmentação do homem e a redução do mundo ao controle meticuloso da razão, isto é, como o mundo dos sentidos, que se identifica com o mundo natural e que permitia a conciliação do homem com a natureza, agora é domesticado, submetido, para cumprir os objetivos do mundo do trabalho.

É difícil identificar um momento em que ocorreu a transformação: trata-se de um processo em que o novo se engendra no interior do sistema social há muito instituído, algo indefinido, fugaz, evanescente, um sinal ou uma vibração que anuncia o novo, enquanto o velho se esvai, mas ainda não desapareceu.

É preciso salientar ainda que o intelectual é um produto histórico e desempenha sua função de acordo com a sua inserção no corpo social. Determinar o que é ou não de sua competência implica entender o seu papel e a sua inscrição no contexto da divisão social do trabalho e dos poderes estabelecidos. Salientamos três fatores (entre vários outros) que serviram para fragmentar a nossa concepção moderna de homem e para delimitar a função do intelectual moderno: 1) uma idéia de razão, a princípio emancipadora e que, depois, assumiu uma função instrumental, 2) a separação entre o saber teórico e o prático, resultado dos desdobramentos da estrutura econômica capitalista e do desenvolvimento da técnica, 3) a estrutura acadêmica como espaço de formação.

A Racionalidade Moderna

A noção moderna de razão se delineia no século XVII: Copérnico, Bacon, Galileu, foram precursores. Com Descartes abre-se efetivamente a fase da história que denominamos moderna, concomitante com o advento do capitalismo industrial, cuja característica principal se apresenta na formação de uma nova imagem do homem fundada na confiança no poder da razão. Descartes dizia que graças à técnica o homem se tornaria mestre e senhor da natureza. O objetivo cartesiano era desvendar os mecanismos dos céus a tal ponto que o homem não encontrasse mais motivo de admiração. A ciência concretizou tal projeto ao transformar o mundo em objeto do pensamento, no sentido de conhecer para controlar.

Um dos aspectos desse processo de objetivação se apresenta na separação entre matéria e espírito, com uma precisa hierarquia de funções: na filosofia cartesiana o corpo, centro da sensibilidade, da sensualidade, do desejo, é relegado à esfera da incerteza porque não se reduz a uma construção racional: desejos e paixões obscurecem o pensamento e, portanto, não servem de base ao conhecimento.

O pensamento iluminista do século XVIII reforçou e ampliou o papel da racionalidade, mas em nova perspectiva, ao acentuar que a razão é o corolário da vida política, cujo fundamento é a liberdade de pensamento e expressão. O processo revolucionário colocou na ordem do dia a mudança de estruturas seculares e concretizou o desejo de reconstruir a estrutura política e social, cujos princípios racionais visavam ampliar a participação política. O indivíduo era convidado a munir-se de coragem e decisão para servir-se do próprio entendimento a fim de romper com todas as formas de tutela (política, intelectual e religiosa) e, desse modo, liberar-se da menoridade e da dominação, isto é, a tornar-se sujeito a partir de sua afirmação como autoconsciência e autodeterminação.

Tratava-se de um momento revolucionário em que a atividade humana era entendida como transformadora. Por meio dela, o homem moderno se configurou como aquele que recria o mundo e se reconhece na sua criação. Se Kant alertou seus contemporâneos para a necessidade de conquistar a autonomia por meio da razão, Goethe descreveu na figura de Fausto os sonhos ilimitados do homem moderno determinado a realizar-se na vida a qualquer preço e o modelo de sociedade a ser concretizado a partir desse objetivo. O caráter emancipador da razão e a capacidade de agir tornaram-se as bases da crença no desenvolvimento intelectual e na emancipação política na modernidade.

No bojo desse processo, a confiança no desenvolvimento prodigioso da ciência e da técnica tomaram expressão na exaltação do progresso e na possibilidade de domínio do desconhecido. Tais ideais se consolidam ao longo da era industrial: a crença na evolução das técnicas e no progresso contínuo e irreversível se firma como o caminho para a realização plena dos desejos de felicidade que impulsionam a humanidade. Ao longo dos anos, porém, se consolidou o poder da burguesia e o discurso emancipador se modificou: a racionalidade científica encontrou no modo de produção capitalista o meio ideal para estender-se a todas as relações sociais e políticas adquirindo, nesse contexto, a forma da administração racional, burocrática. O poder político se constituiu como instância reguladora, na figura do Estado.

O tempo e as práticas sociais se incumbiram de mostrar os limites do projeto iluminista, evidentes nos desequilíbrios sociais e naturais decorrentes do modelo de sociedade que dele se estruturou. O desvelamento dos mitos e ideologias, que já não conseguiam legitimar as relações opressivas e destruidoras da era industrial, levaram ao questionamento da racionalidade moderna.

No início do século XX, momento em que as ciências e as tecnologias se tornam o centro propulsor do modo de produção e se consolidam como a medida do conhecimento, alguns intelectuais começam a falar de crise da razão e a se perguntar sobre o significado do conhecimento científico para a existência humana. A crítica de Husserl, por exemplo, seguida mais tarde pela crítica frankfurtiana, mostrou os limites da racionalidade científica no âmbito da produção técnica e da divisão interna dos saberes, agora regidos pelo princípio de utilidade. A ciência, transformada em técnica, gerou um novo significado para a razão: reduzida ao puramente simbólico e mecânico, ao mero cálculo com objetivos pragmáticos, a razão deixou de ser normativa, pensamento preocupado em desvelar a verdade e, com isso, nada mais tem a dizer sobre o sentido da vida.

A crise das ciências surgiu como um dos aspectos da crise da cultura e da existência modernas. Uma crise que evidencia a contradição entre o discurso emancipador fundado na autonomia da razão e a lógica do sistema capitalista, lógica da razão instrumental geradora das novas relações de mercado. A razão moderna, submetida à lógica do capital, foi reduzida a uma mera função operadora, um procedimento eficaz regido pelo critério da calculabilidade e da utilidade, que classifica, infere, deduz, explica e submete tudo o que pode ser conhecido ao formalismo lógico. Ao reduzir o conhecimento à compreensão do dado imediato e renunciar a entendê-los como aspectos mediatizados do conceito, que só se realizam no desdobramento do seu sentido social, histórico, humano, a racionalidade objetiva abandona toda pretensão ao conhecimento.

Alguns Pressupostos da Formação do Intelectual Moderno

Um pressuposto desse processo se constitui pela estrutura econômica e as formas que esta assumiu ao longo dos dois últimos séculos: uma das características dessa estrutura é o dilaceramento inerente à sociedade capitalista, a partir da divisão social do trabalho, gerada no processo de organização das relações de produção e da exaustiva exploração da força de trabalho. Trata-se de um modelo social que engendra a desigualdade e a dominação social e política, que se transforma internamente à medida do desenvolvimento tecnológico e da informatização em escala multinacional.

A partir desse conjunto de relações se redefine a função do intelectual: ao longo desse percurso, o curandeiro-cientista (e filósofo) do renascimento deu lugar ao especialista da pesquisa contemporâneo, recrutado em geral, das classes médias, isto é, não mais pertencente à classe burguesa, agora dominante, mas assimilado a partir de uma estrutura do trabalho que o condiciona.

Conforme uma interpretação de Sartre, tais especialistas são profissionais em determinada área do saber, na qual são “encarregados de transmitir os valores (remanejando-os, segundo as necessidades, para adaptá-los às exigências da atualidade)”, bem como de “combater, quando necessário, os argumentos e os valores” de outros grupos sociais, “argumentando com seus conhecimentos técnicos”, ou seja, mesmo sem um vínculo direto com o projeto político, os especialistas também exercem um papel ideológico, “fazendo passar por leis científicas o que de fato é apenas ideologia dominante”. Exemplos desse vínculo ideológico se pode encontrar no próprio trabalho científico. Sartre acentua: “No tempo das colônias, os psiquiatras fizeram trabalhos, tidos como rigorosos, para estabelecer a inferioridade dos africanos quanto à anatomia e à fisiologia de seus cérebros. Com isso contribuíram para manter o humanismo burguês: todos os homens são iguais, exceto os colonizados, que de homens só tinham a aparência. Outros trabalhos estabeleciam da mesma maneira a inferioridade das mulheres: a humanidade era feita de burgueses, brancos e homens”.

Outro fator que contribuiu para redefinir a situação do intelectual foi a expansão e o novo modelo de universidade, com a reformulação da vida acadêmica, que transforma em objetivo principal a profissionalização, por meio da qual se realiza a divisão de um espaço público essencial para o exercício do saber e a produção de conhecimento. Essa mudança se evidencia no início do século XX com as reformas implantadas na Europa, com as escolas do trabalho e nos Estados Unidos, com a nova estrutura universitária.

Trata-se, na verdade, de um processo que tem conseqüências políticas profundas em todas as áreas do conhecimento: tem-se a modificação de toda a estrutura de pesquisa, cujos interesses deixam de contemplar as necessidades do público e passam a se produzir como um trabalho que se volta para a especialização, negligenciando os problemas políticos que envolvem toda e qualquer pesquisa. Essa reconfiguração da produção científica, juntamente com a mudança do papel e da constituição da Universidade, teve conseqüências sérias na formação e na profissionalização do médico.

A fragmentação do conhecimento em áreas específicas e cada dia mais especializadas responde às necessidades postas pela estrutura econômica, que avança para uma complexa divisão do trabalho. Uma das conseqüências desse processo é a perda da dimensão política de todas as relações de trabalho, nas quais se inclui a atividade intelectual. A cientificidade, fundada numa idéia de razão despojada de qualquer conteúdo social e político, sustenta uma pesquisa voltada para um ideal de civilização, cada dia mais distante e desvinculado da realidade concreta.

E nessa sociedade, em que se acentuam as diferenças sociais, em que a fome e as guerras se disseminam pela maior parte do planeta (porque miséria e doença são irmãs gêmeas), o médico, que é o profissional que, mais do que qualquer outro, enfrenta diretamente tais problemas, não é adequadamente preparado para conhecer e agir em tal realidade.

Produto de uma sociedade despedaçada, o médico é sua testemunha. Vive, por isso, uma grande contradição, porque interiorizou esse despedaçamento e precisa conviver com ele no cotidiano de seu trabalho, que perdeu a dimensão do humano, reduzido a uma especialidade técnica.

Esta prática especializada se diferencia radicalmente da atividade do curandeiro das sociedades pré-capitalistas: no dizer de Walter Benjamin, havia entre o curandeiro e o paciente um tipo de relação que se permeava pelo que Benjamin denomina “aura”, que se constituía do assegurar-se “do mais próximo e do mais distante e nunca de um sem o outro”.

O comportamento mágico que deposita as mãos sobre um doente para curá-lo, é distinto do comportamento do cirurgião, que realiza uma intervenção no seu corpo. O mágico preserva a distância natural entre ele e o paciente, ou antes, ele a diminui um pouco, graças à sua mão estendida, e a aumenta muito, graças à sua autoridade.

(Benjamin)

Isso não significa que o cirurgião não possua também autoridade: a diferença está na concepção de mundo que sustenta a prática do cirurgião, cuja autoridade provém do conhecimento científico especializado e de sua habilidade individual, enquanto na prática do curandeiro a autoridade era gerada pela tradição nascida do elo comunitário que integrava os homens entre si e com a natureza. Tradição no sentido de vida compartilhada e de experiência construída coletivamente que se concretizava no cotidiano e se preservava na memória. A magia se constituía em operar por semelhanças para liberar as energias curativas. Evocar os signos divinatórios supunha entender a complexidade do humano e a doença como a expressão final de um desequilíbrio a ser superado. Na modernidade, “diferentemente do mágico (do qual restam alguns traços no prático), o cirurgião renuncia, no momento decisivo, a relacionar-se com seu paciente de homem a homem e em vez disso intervém nele, pela operação”.

À Guisa de Conclusão

A Criação

A questão que se nos apresenta é: podemos retomar, nos dias atuais, a atividade curativa integral na figura do curandeiro-cientista? É possível uma nova prática que responda às exigências da realidade social contemporânea?

Tomar consciência desse fato já se constitui no primeiro passo para a sua modificação. Mas superar ou transformar esta realidade implica questionar a estrutura social que este modelo de universidade e de conhecimento representam. E, para isso, é necessário começar por algum lugar: o caminho mais conhecido é o da prática revolucionária dos trabalhadores, nas várias formas que tem assumido nos dias atuais. Para nós, na formação universitária, um dos caminhos é reformular a prática no interior da academia, assumindo uma atitude que questione a cisão do homem e considere a experiência que verdadeiramente funda o conhecimento médico, que é a experiência popular e o saber que se traduz na prática do curandeiro.

Precisamos entender que existe uma coincidência entre pensar e sentir, conhecer e desejar, que precisa ser reconhecida de antemão para que possamos renovar a nossa concepção de homem. A idéia e a prática renascentista de um homem integral, cientista, filósofo, engenheiro e político é utópica, mas os sonhos sempre ajudaram a renovar as práticas e a transformar a realidade. Fazer coincidir novamente a ciência e a filosofia seria uma verdadeira revolução.

A eficácia do saber médico depende, nos dias atuais, de recuperarmos a dimensão social e humana do indivíduo, não no sentido de resgatar a experiência do passado, mas de gerar condições de superação dos limites colocados pela produção de conhecimento na sua fase mais aguda de especialização. O médico, como todo intelectual, precisa conhecer a estrutura social e política da qual participa e aproveitar as contribuições que a tradição popular elaborou ao longo de séculos de experiência.

É necessário, para isso, reconstruir pressupostos e entender que o homem é um todo complexo e precisa ser abordado como tal. Entender que o conhecimento atual visa produzir respostas eficazes, afastando-se da sabedoria enquanto capacidade de agir e perceber a verdade que se produz nas mais diversas situações. Superar um saber individual e narcísico, olhar em torno e descobrir as riquezas que existem fora do saber puramente técnico e mecânico, este é o caminho para a formação de um novo cientista. Isso depende muito de compreendermos a nossa inserção social e a nossa dimensão humana.

Referências

ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Conceito de iluminismo. São Paulo: Abril Cultural, 1975.

BENJAMIN, W. Obras escolhidas II rua de Mão Única. São Paulo: Brasiliense, 1987.

_____. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Obras escolhidas I. Magia e técnica, arte e Política. São Paulo: Brasiliense,1987.

FRISBY, D. Frammenti di modernità. Bologna: II Mulino, 1992.

HORKHEIMER, M. Origens da filosofia burguesa da história. Lisboa : Presença, l984.

_____. Teoria crítica I. São Paulo: EDUSP/Perspectiva, 1990.

SARTRE, J.-P. Em defesa dos intelectuais. São Paulo: Ática, 1994.