Astrologia na Ciência e na Filosofia

Os Signos do Zodíaco como um Sistema de Classificação

Maria Elisabeth de Andrade Costa

Doutora em Antropologia Cultural

 Resumo

 Parte das objeções que os astrônomos levantam contra a astrologia incide sobre a concepção de céu que os astrólogos adotam, cuja refutação invalidaria a tipologia astrológica nela inspirada. Foi daí que partimos, apoiados na análise lévistraussiana dos sistemas mágicos e míticos, para buscar a coerência interna do sistema astrológico, admitindo que o pensamento astrológico manipula os astros para se significar por meio deles. Procuramos demonstrar que os signos do Zodíaco constituem um sistema de classificação similar aos sistemas ditos totêmicos, de modo que a relação céu/terra aceita pelos astrólogos pode ser abordada como uma linguagem capaz de converter o discurso astrológico em um discurso sobre o eu e sobre o mundo.

Os Signos e suas Interpretações

No dia 22 de setembro de 2003, às seis horas da tarde, o Planetário da Gávea promoveu uma mesa-redonda sobre o tema “Sob o Signo da Ciência – a astrologia vista na perspectiva astronômica”. No palco, um biólogo e um astrônomo como debatedores e um físico como mediador. No auditório lotado um número expressivo de astrólogos, claramente ressentidos por não terem um representante à mesa.

O clima acalorado não poderia ter sido menos propício ao debate. As apresentações dos debatedores foram interrompidas repetidamente por exclamações da platéia em tom acusatório. “Não se aprende astrologia pela internet”, exclamavam alguns. “Não é nada disso”, gritavam outros. Em contrapartida, não faltaram entonações desdenhosas e comentários irônicos por parte da mesa. Houve tamanho constrangimento que o diretor do Planetário chegou a subir ao palco e tomar a palavra, na tentativa de acalmar os ânimos. O embate dramaticamente sustentado girava em torno da pretensa cientificidade da astrologia.

O astrônomo se deteve especificamente na configuração astronômica de que os astrólogos se valem para descrever o estado do céu no momento do nascimento. Como é possível, argumentava ele, sustentar um sistema baseado em um trajeto do Sol ao redor da Terra quando todo mundo sabe que a Terra gira em torno do Sol? Como defender uma divisão arbitrária da eclíptica que confere homogeneidade aos signos, cada qual com 30º de extensão, quando as constelações correspondentes são de extensão, luminosidade e número de estrelas completamente diferentes? Como admitir uma caracterologia baseada em constelações que já não se encontram mais nos signos correspondentes, pois a precessão dos equinócios rompeu a justaposição entre signos e constelações?

Em suma, como aceitar uma concepção do estado do céu que qualquer pessoa minimamente informada sobre o sistema solar reconhece como falseada, deformada e refutada?

Contudo, a faceta especulativa do pensamento humano, capaz de gerar sistemas de classificação e tipologias intrigantes e, por vezes, incongruentes, é justamente o que nos interessa.

Ao descrever o sistema astrológico chinês como um sistema classificatório, Durkheim e Mauss salientam que ele não deriva da morfologia social, como ocorre com os demais sistemas totêmicos que eles discutem, embora mantenha os mesmos princípios gerais, agrupando os seres em classes e espécies a partir de afinidades sociais. Esses autores atribuem aos sistemas divinatórios da China, da Grécia e da Índia um lugar intermediário entre as classificações totêmicas australianas e as taxonomias científicas modernas. Ressaltam, porém, que as classificações primitivas guardam semelhança com as taxonomias científicas na medida em que constituem sistemas de noções não só agrupadas, mas também hierarquizadas, com o objetivo de tornar inteligíveis as relações existentes entre os seres.

O que a ciência herda desses sistemas primitivos é a própria possibilidade de classificar, distinguindo-se deles, contudo, pela crescente independência com relação ao contexto e pelo crescente enfraquecimento de atitudes afetivas para com as noções. Nos sistemas primitivos, as coisas não são simplesmente objeto de conhecimento, mas assumem valores sentimentais em função da maneira como afetam a sensibilidade social. Para Durkheim e Mauss, a maior implicação dessa tonalidade afetiva é a dificuldade de estabelecer contornos nítidos para as classes1.

1 “É que uma classificação lógica é uma classificação de conceitos. Ora, o conceito é a noção de um grupo de seres claramente determinado; seus limites podem ser marcados com precisão. Ao contrário, a emoção é uma coisa essencialmente vaporosa e inconsciente. Sua essência contagiosa brilha muito além de seu ponto de origem, estende-se a tudo aquilo que a cerca, sem que se possa dizer onde se detém sua potência de propagação. Os estados de natureza emocional participam necessariamente do mesmo caráter. Não se pode dizer nem onde começam nem onde acabam; perdem-se uns nos outros, misturam suas propriedades de modo que não se pode categorizá-los com rigor”.

Seguindo a hipótese de Durkheim e Mauss, segundo a qual os sistemas divinatórios podem ser analisados como formas de classificação, Lévi-Strauss deteve-se particularmente nos operadores de classificação. Estabeleceu uma distinção entre “signo” e “conceito”, enfatizando que o conceito, como unidade básica de uma construção lógica e categórica, constitui um operador context-free, que fabrica estruturas para criar acontecimentos. Já o signo, a meio caminho entre o percepto e o conceito, busca uma organização sistemática dos eventos, para atribuir-lhes significado a partir dessa ordenação.

Portanto, ambos, signo e conceito, produzem, embora por meios radicalmente diferentes, uma modelização do real que não só investiga as conexões entre os eventos, mas também coloca em pauta categorias fundamentais do pensamento, tais como uno/múltiplo, igual/diferente, todo/parte, e assim por diante.

Há, então, duas estratégias de pensamento frente à experiência, que são diferentemente objetivadas. Enquanto que o pensamento científico opera basicamente por meio de unidades conceituais decalcadas do plano sensível, o pensamento que Lévi-Strauss chama de selvagem opera por meio de unidades sígnicas que mantêm uma espécie de aderência às coisas, configurando o que esse autor caracteriza como “uma ciência do concreto”.

Muito embora Lévi-Strauss tenha admitido que o pensamento selvagem ainda persista nas sociedades modernas, ele o restringe a alguns nichos2. Em La Pensée Bourgeoise, porém, Sahlins argumenta que a sociedade burguesa apresenta vários sistemas passíveis de serem tratados como sistemas totêmicos, entre eles a comida e o vestuário. Estudando o consumo, Everardo Rocha detecta, na publicidade, o modelo lógico do totemismo. Ao operar diferenças entre os produtos manufaturados, a lógica do consumo instaura um sistema de classificação por meio do qual se pode efetivar uma leitura do mundo e da sociedade. O caráter totêmico não se deve a resíduos de sistemas mágicos e míticos que sobrevivem, mas sim ao estabelecimento de uma lógica de diferenças e semelhanças que engenhosamente liga séries descontínuas. É esta mesma lógica que DaMatta analisa com relação ao jogo de bicho na sociedade brasileira.

2 “…conhecem-se ainda zonas onde o pensamento selvagem, tal como as espécies selvagens, acha-se relativamente protegido: é o caso da arte, à qual nossa civilização concede o estatuto de parque nacional, com todas as vantagens e os inconvenientes relacionados com essa fórmula tão artificial; e é sobretudo o caso de tantos setores da vida social ainda não desbravados onde, por indiferença ou impotência e sem que o mais das vezes saibamos porque, o pensamento selvagem continua a prosperar.”

Em vista disso, é razoável adotar a hipótese de que o sistema astrológico compartilha as características que definem os sistemas totêmicos como sistemas classificatórios – a coerência interna e a capacidade ilimitada de extensão.

Considerando que é impossível, nos limites deste trabalho, discutir as classificações operadas pelo sistema astrológico, vamos nos deter particularmente nos signos do Zodíaco.

Ao contrário do que o astrônomo afirmava, no debate organizado pelo Planetário da Gávea, os signos do Zodíaco não são demarcados em função das constelações que interceptam a eclíptica. Ptolomeu, no século I da era cristã, já justificava a marcação dos signos a partir dos equinócios e solstícios3, e não em função do espaço ocupado pelas constelações.

3 Os dois equinócios, o de primavera e o de outono, são pontos de interseção do círculo da eclíptica com o círculo do equador celeste. Quando o Sol, no seu aparente movimento ao redor da Terra cruza esses pontos, o dia e a noite têm a mesma duração. Nos solstícios, o Sol se encontra em sua maior declinação boreal ou austral em relação ao equador celeste. No solstício de inverno, a noite tem sua maior duração e no solstício de verão a maior duração é a do dia.

A dissociação das constelações e dos signos é crucial para a interpretação astrológica do tema de nascimento. Ter nascido sob o signo de Virgem, por exemplo, implica ter o Sol localizado em um dos trinta graus desse signo. A constelação de Virgem, entretanto, se estende desde o 20º do signo de Virgem até o 6º do signo de Escorpião. Sua estrela mais brilhante, Spica, localizada hoje no 23º do signo de Libra, é tida como uma das estrelas mais benéficas. Confere êxito, renome e progresso acima das capacidades do nativo. Isso significa que nascer sob o signo de Virgem não implica usufruir dos benefícios concedidos pela estrela Spica da constelação de Virgem.

Os signos correspondem a divisões da eclíptica, que constitui um cinturão virtual onde ocorre o observado trajeto do Sol ao redor da Terra. Para a astrologia, essa faixa, como um todo, manifesta o poder gerador solar e foi decomposta em doze setores distintos – os signos – que passaram a figurar como manifestações particulares desse poder solar.

Considerando que toda significação emerge de um processo de discretização, logo, de descontinuidades, é a fragmentação que transforma um todo contínuo, como o Zodíaco, em um conjunto ordenado de unidades significativas.

 A classificação dos signos aciona um conjunto de oposições organizadas em torno de quatro códigos.

O primeiro é um código sexual que divide os signos em masculinos e femininos. O grupo dos signos masculinos inclui Áries, Gêmeos, Leão, Libra, Sagitário e Aquário. O grupo dos signos femininos inclui Touro, Câncer, Virgem, Escorpião, Capricórnio e Peixes.

 A seguir, aciona-se um código baseado nos quatro elementos da Antiguidade: fogo, terra, ar e água. Os doze signos são divididos em quatro grupos, cada um dos quais corresponde a um dos elementos. Os signos de fogo são Áries, Leão e Sagitário. Os de terra são Touro, Virgem e Capricórnio. Os de ar são Gêmeos, Libra e Aquário. Os de água são Câncer, Escorpião e Peixes.

 O terceiro código, conhecido como “ritmos”4, está baseado na periodicidade das estações do ano e divide os signos em cardinais, fixos e mutáveis, associando-os, respectivamente, ao início, ao meio e ao fim de cada estação. O primeiro grupo, o dos cardinais, engloba os signos nos quais as estações do ano têm início. Assim, Áries está associado à deflagração da primavera; Câncer, do verão; Libra, do outono e Capricórnio, do inverno. O segundo grupo, o dos fixos, reúne os signos associados ao período em que cada estação se mostra mais firmemente estabelecida: Touro (primavera), Leão (verão), Escorpião (outono) e Aquário (inverno). O terceiro grupo inclui os signos associados ao período em que cada estação vai perdendo sua força e apresentando os sinais da próxima estação. Esse período de transição, que apresenta características da estação que está terminando e da que está se aproximando, confere a Gêmeos, Virgem, Sagitário e Peixes um caráter oscilante, pelo qual eles são tidos como signos mutáveis.

 4 Na literatura astrológica, o código sexual é conhecido como “polaridades”, dividindo os doze signos em dois grupos; o código dos quatro elementos, como “triplicidades”, dividindo os doze signos em grupos de três; o código das estações, conhecido tanto por “ritmos” como por “quadruplicidades”, dividindo os doze signos em grupos de quatro.

 Apresentamos, na Tabela 1, a classificação geral dos signos com base nos três primeiros códigos.

Percebe-se então que cada termo da polaridade masculino/feminino é desdobrável em dois elementos e cada elemento, em três ritmos. Em outras palavras, não há dois signos com os mesmos atributos: Áries é tão masculino e cardinal quanto Libra, mas Áries é de fogo e Libra é um signo de ar. Capricórnio é um signo feminino e de terra, assim como Virgem, mas Capricórnio é cardinal e Virgem é mutável.

Finalmente, o quarto código que norteia a classificação dos signos se baseia nos detalhes iconográficos das figuras míticas desenhadas no céu e associadas aos signos. Por meio desse código, os signos se dividem em humanos e animais.

O termo zodíaco deriva do grego zodion, ligado à idéia de “vida” ou “seres vivos”. Porém, de acordo com a noção popular, ele significa um círculo de animais. No entanto, apenas seis das figuras representam animais: um carneiro, um touro, um caranguejo, um leão, um escorpião e um par de peixes. Três das figuras são humanas: um par de gêmeos, uma jovem segurando uma espiga na mão, um aguadeiro que derrama água de uma urna. Duas figuras retratam seres míticos: um centauro e uma cabra com rabo de peixe. E, por fim, uma figura retrata um artefato: a balança.

Conforme Lévi-Strauss, a escolha de uma figura para manifestar um determinado conteúdo depende do código mitologizado da cultura na qual ela surge. Se admitirmos que o léxico dos signos esteja, pelo menos em parte, calcado sobre o que se conhece a respeito dos atributos e ações das figuras míticas que os simbolizam, a classificação dos signos não pode excluir referências ao universo mítico, no caso, o da mitologia grega. A iconografia das figuras míticas elevadas ao céu sob a forma de constelações (catasterismos) gera critérios classificatórios segundo os quais os signos se dividem por pares de oposição.

A primeira oposição divide os signos em humanos e animais. Os signos humanos são aqueles simbolizados por figuras antropomórficas, como Gêmeos (um par de gêmeos), Virgem (uma figura feminina segurando uma espiga), Libra (a balança), a metade de Sagitário que corresponde à parte humana do centauro, Aquário (um aguadeiro). Os signos animais, por outro lado, são aqueles que remetem a figuras zoomórficas (o carneiro, o touro, o caranguejo, o leão, o escorpião, a cabra, os peixes).

Além disso, os signos também se dividem em simples (representados por uma única figura) ou duplos (representados por mais de uma figura, tais como os Gêmeos – um par de jovens abraçados –, a Virgem – uma virgem segurando uma espiga –, os Peixes – um par de peixes atados por um fio). Os duplos também incluem as figuras híbridas, como o centauro de Sagitário, metade homem e metade cavalo, além da cabra com rabo de peixe de Capricórnio.

O plantel de figuras míticas do zodíaco é interpretável em três instâncias distintas. Em primeira instância, a história mítica é acionada e a interpretação dos signos lança mão do episódio mítico correspondente. Áries, por exemplo, não é um carneiro, mas sim o carneiro de velo de ouro que ajudou os irmãos Frixo e Hele a fugirem de sua madrasta. Hele caiu no mar no meio da viagem, mas seu irmão Frixo conseguiu chegar ileso à Cólquida. Essa linha de interpretação é seguida desde os tratados clássicos até os manuais mais recentes da astrologia ocidental. Firmicus, autor do século IV d.C., comenta que o signo de Áries, quando se encontra no Ascendente, inclina o nativo para viagens por terras e mares distantes (como Frixo foi levado pelo carneiro voador para a terra de Cólquida) e não poupa a irmã de perigos, apesar de todos os cuidados (como Hele, que despencou do dorso do carneiro no meio da fuga).

Uma das astrólogas entrevistadas me confirma a separação dos irmãos:

É muito comum que um ariano, principalmente com Áries no Ascendente, não tenha irmãos ou se afaste deles. Eu não sei bem por quê, mas os irmãos acabam vivendo separados, tenham brigado ou não.

Em segunda instância, a espécie5 animal é acionada como chave interpretativa. Nesse plano de interpretação, os signos denotam características físicas, hábitos, atributos ou comportamentos típicos da espécie em pauta.

5 Segundo Lévi-Strauss, as espécies se situam em posição intermediária, a igual distância lógica entre as formas extremas de classificação – os gêneros e os exemplares.

Segundo Márcia Mattos, as sobrancelhas dos arianos são mais juntas, imitando a curva de um chifre e, tal como o carneiro selvagem, os arianos se arremetem contra seus alvos sem rodeios. Já os gestos e movimentos dos leoninos são lentos e elegantes como os dos felinos. Geralmente, eles têm porte ereto, peito largo, e gostam de sacudir os cabelos como uma juba.

Maria Eugênia Castro sugere que:

O canceriano, como o caranguejo, é dotado de verdadeiras antenas sensitivas; mas também é muito precavido. Dá suas voltas circulares no ambiente para então se decidir como deverá agir.

Finalmente, em terceira instância, os signos são interpretáveis de acordo com atividades relacionadas com as figuras. A influência do centauro Sagitário, por exemplo, inclina o nativo à equitação, enquanto que Libra, a balança, confere um espírito ordenador e legislador, dado a pesar e a contrabalançar sistematicamente antes de emitir juízos.

Em suma, na caracterologia baseada na iconografia dos signos, supõe-se que o nativo:

– parece com o animal;

– age como o animal;

– lida e se envolve em negócios relacionados com o animal; e/ou

– vive uma experiência semelhante ao episódio mítico protagonizado pelo animal.

A combinatória de atributos de cada signo propicia diferentes feixes de relações, podendo assim servir a diversas categorizações comparáveis. São assim construídas relações lógicas de conectividade que acabam por demarcar um domínio de significação para cada signo.

Os domínios de significação dos signos se expressam por meio de múltiplos códigos. São esses códigos que promovem as ligações entre séries descontínuas: a série dos signos e a série dos seres, objetos e eventos empíricos.

– Código geográfico, vinculando os signos a direções do espaço e a regiões geográficas;

– Código espacial, vinculando-os a locais dentro e fora das casas;

– Código meteorológico, vinculando-os a fenômenos climáticos, tais como chuvas, secas, ventos;

– Código anatômico, vinculando-os a partes do corpo e, por extensão, a marcas corporais e a patologias;

– Código sociológico, vinculando-os a figuras e a estatutos sociais;

– Código moral e psicológico, vinculando-os a tendências psíquicas e comportamentais.

Portanto, a referência de um signo astrológico precisa ser construída a cada instância, na medida em que o mesmo signo pode assumir diversos valores referenciais dependendo de um recorte semântico sempre determinado pelo código escolhido.

O ponto relevante para o debate promovido no Planetário da Gávea é que, embora tanto a astronomia quanto a astrologia possam localizar os planetas no céu por meio de coordenadas zodiacais, o Zodíaco constitui um espaço propriamente astrológico quando é concebido como um espaço qualitativo e heterogêneo. Cada região desse espaço, isto é, cada signo, possui qualidades distintivas singulares que supostamente informam os planetas quando estes por ali transitam.

A eficácia dessa configuração celeste, para emprestar significação aos acontecimentos no mundo sensível, depende de um código de simpatias que supõe relações fixas entre os signos e tudo aquilo no mundo que encarne suas respectivas qualidades, caindo assim sob sua jurisdição. Trata-se de uma partição, em domínios astrológicos, de todas as coisas existentes no mundo, desde os seres animados ou inanimados, até as cores, os odores, os sons, os sabores, as texturas e as formas.

O código astrológico de simpatias parece oferecer um operador multidimensional para a investigação de qualquer problema. Cada conteúdo empírico é avaliado como extensão coerente de categorias astrológicas fundamentais, cuja lógica é causa e efeito da estrutura do próprio sistema astrológico.

O sistema astrológico, essa espécie de lógica combinatória, erigiu um vasto sistema de conexões que serve de base para a classificação das partes do corpo humano e dos humores, passando por minerais, vegetais e animais, até a classificação das artes liberais, dos vícios e das virtudes, dos dias da semana, das direções do espaço e das condições meteorológicas. Assim, todas as áreas de conhecimento, não apenas a cosmologia, mas também a botânica, a fisiologia, a anatomia, a geografia, a mineralogia, a ética, a psicologia, a sociologia, são abarcadas por esse sistema totalizante.

Original

Referências Bibliográficas

 CASTRO, Maria Eugênia. O livro dos signos. Rio de Janeiro: Campus, 2000.

 DAMATTA, Roberto. Águias, burros e borboletas: um estudo antropológico do jogo do bicho. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

 GETTINGS, Fred. The Arkana dictionary of Astrology. Londres: Arkana, 1990.

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 ______. O pensamento selvagem. Campinas: Papirus, 1989.

 MATERNUS, Firmicus. Matheseos Libri VIII. Park Ridge, New Jersey: Noyes Press, 1975. (original do século IV D.C.)

 MAUSS, Marcel. Ensaios de sociologia. São Paulo: Perspectiva, 2001.

 PTOLOMEU, Claudio. Tetrabiblos. Paris: Philippe Lebaud Éditeur, 1986.

 ROBSON, Vivian. Las estrellas fijas y las constelaciones. Málaga: Editorial Sirio S.A., 1988.

 ROCHA, Everardo. Magia e capitalismo: um estudo antropológico da publicidade. Rio de Janeiro: Mauad Editora, 1995.

 SAHLINS, Marshall: Cultura e razão prática. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.