Astrologia na Arte

Fernando Pessoa e o seu Duplo Astrológico

 Maria Antónia Jardim

Faculdade de Ciências Humanas e Sociais

Resumo

 É um texto que focaliza o perfil esotérico de Fernando Pessoa e que ao mesmo tempo o analisa do ponto de vista astrológico. Pretende-se dar a conhecer a duplicidade do signo Gêmeos que o próprio Pessoa vivenciou.

Fernando Antônio Nogueira Pessoa

Fernando Antônio Nogueira Pessoa

Fernando Antônio Nogueira Pessoa (13/6/1888, Lisboa – 30/11/1935 – Lisboa) manifestou desde cedo uma atração e interesse especiais pelos temas ocultos. No seu poema “The Circle” (“O circulo”- assinado por uma das suas personalidades literárias inglesas, Alexander Search), afirma profeticamente que o seu pensamento esta condenado ao “símbolo e a analogia”:

 Tracei um círculo por sobre a terra

Era uma estranha, mística forma (…)

Julguei que o circulo encerrasse inteiro

Em calma a violência do mistério.

E assim, em cabalístico jeito,

Ali tracei um circulo curioso;

O circulo traçado era imperfeito,

Embora, em sua forma, cuidadoso.

Profundamente, da magia, ao falhar,

Lição tirei que me fez suspirar

 É um poema surpreendente porque se percebe o significado profundo da mandala: o circulo mágico que re-liga o cosmos ao eu mais intimo. Todavia, não nos esqueçamos que a nossa primeira mandala é a astrológica com a sua linguagem sagrada. Fernando Pessoa percebia e falava com a vontade da sua magia, hermeticamente e esotericamente, como podemos verificar através do seu Ensaio sobre a Iniciação:

 O Adepto, se conseguir a unidade entre a consciência e a consciência de todas as coisas, se conseguir transformá-la numa inconsciência (ou inconsciência de si próprio) que é consciente, repete dentro de si o Ato Divino que é a conversão da consciência plural de Deus em indivíduos.

 Este é o fim último de qualquer mandala astrológica: perceber o nosso tema natal, o nosso céu de nascimento, de onde vimos e para onde vamos nesta existência. Todos começamos o nosso caminho iniciático atravessando o nosso Sol, a nossa Lua e todos os planetas do Zodíaco, com todos os seus respectivos regentes esotéricos.

 Neste sentido a Astrologia não é apenas uma arte divinatória, mas, sobretudo uma doutrina esotérica que permite conhecer o Homem e a sua condição, a Natureza e o Cosmos. Fernando Pessoa conhecia bem esta ciência, que aplicou não só na Mensagem, mas também na realização dos horóscopos dos seus heterônimos. Mesmo aquilo que escreve no seu Ensaio sobre a Iniciação:

O significado real da iniciação é que este mundo visível em que vivemos é um símbolo e uma sombra, que esta vida que conhecemos através dos sentidos e uma morte e um sono, ou, por outras palavras, que o que vemos e uma ilusão. A iniciação é o dissipar -um dissipar gradual e parcial dessa ilusão- tem que ver com a ciência iniciática que se esconde por detrás da linguagem sagrada da astrologia. O dissipar gradual da ilusão tem que ver com a travessia zodiacal que cada um de nos terá que fazer. Consciencializar o nosso Sol através do vazio que a lua em nós faz sentir. Alimentar essa insatisfação e vazio através de uma gradual consciência do que é fazer morrer em nos variadíssimas ilusões.

 Impõe-se o quebrar dos espelhos e o sair do labirinto da saudade do que e ilusório. Há que fechar portas para abrir outras portas. E como diz Pessoa “…quem tiver as chaves herméticas, em qualquer forma de um ritual encontrara sob mais ou menos véus, as mesmas fechaduras…”.

 Voltamos a sentir a temática astrológica quando relemos os seguintes passos Pessoanos: “…viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo, quando o homem se ergue a este píncaro está livre, como em todos os píncaros esta só, como em todos os píncaros esta unido ao céu…”.

 Este é o caminho da serpente astrológica, uma metamorfose transformativa, evolutiva. O caminho do escorpião que se quer metamorfoseado em águia, que voa mais alto depois de se ter atravessado profundamente nas suas águas mais íntimas e infradimensionais. É um caminho fraterno. Vejamos o porquê: “ A fórmula da Fraternidade é esta: cada homem é ele só; qualquer caminho que siga, tem de buscá-lo em si mesmo…”.

 Todos os seus heterônimos são, conscientemente ou não, a sua própria forma de afirmação e a sua incessante procura do utópico, da diferença.

 Gêmeos, signo sob o qual nasceu, e regido por Mercúrio, planeta associado às diversas formas de comunicação. Nele encontram-se o Sol, Vênus, Netuno e Plutão. Mercúrio, esse, está em Câncer, signo de água, forma do sentimento, da emoção e do sonho. Planeta comunicativo e mensageiro, deixa que emoções, sentimentos, sonhos e desejos fluam através da mente receptiva que possui e ganhem forma através de Urano, planeta espiritual e criativo, associado ao vanguardismo e ao incomum.

 Segundo o astrólogo Carlos de Oliveira “ Entre os dois – Mercúrio e Urano – forma-se uma quadratura, aspecto símbolo de energia dinâmica, ativa, mas também tensa e de fricção”. Daqui surgem as suas múltiplas personagens e tudo o que inspirou e inspira gerações.

 Gêmeos é o signo da dualidade, do confronto da Alma com a Personalidade, segundo a expressão esotérica. Na mitologia antiga, Mercúrio é chamado de “mensageiro alado dos deuses”, aquele que leva e traz as mensagens entre os deuses e a Humanidade com a velocidade da luz. No homem, Mercúrio gera a relação entre os dois pólos da personalidade, Deus e animal, para um estagio mais agudo e, mais tarde, funde a Alma com a Personalidade.

 O regente esotérico de Gêmeos e Vênus, que com a sua qualidade unificadora desfaz a dualidade, transformando-a em “ síntese fluida”. A fusão dos pares de opostos ocorre na consciência, através do amor que tudo abraça.

 Todavia, o seu ascendente é o signo Escorpião, que é regido por Marte, esotérica e exotericamente. Assim, a força sexual é transformada em força de vontade criativa. Marte, como regente duplo, põe em movimento toda a natureza mais baixa, fazendo da vida uma eterna provação, uma constante batalha entre forcas superiores e inferiores, a permanente exigência psicológica e espiritual do morrer e do renascer.

 A metamorfose transformativa é um caminho iniciático e difícil, mas necessário para quem, como Pessoa, quer ser um discípulo triunfante. Dai, não podermos estranhar este seu poema que revela todo o seu itinerário astrológico consciente de um perpétuo renascimento:

 Tu, porém, Sol, cujo ouro me foi presa,

Tu, Lua, cuja prata converti,

Se já não podeis dar-me essa beleza

Que tantas vezes tive por querer,

Ao menos meu ser findo dividi-

Meu ser essencial se perca em si,

 Só meu corpo sem mim fique alma e ser!

“ Converta-me a minha última magia

Numa estatua de mim em corpo vivo!

Morra quem sou, mas quem me fiz e havia,

Anônima presença que se beija,

Carne do meu abstrato amor cativo,

Seja a morte de mim em que revivo;

E tal qual fui, não sendo nada, eu seja!”

 (Publicado: Presença, nº 29, Coimbra, Dezembro de 1930)

 Percebemos facilmente, a partir deste poema, que Fernando Pessoa compreendeu que era preciso matar um dos Gêmeos, o Gêmeo curioso pela luz, pela diferença, pela arte, mas que se dispersa e nada atinge, para fazer viver plenamente o Outro dele Mesmo, o Gêmeo cujo Vênus o leva ao Amor Maiúsculo, humanitário, ao serviço dos outros e do próximo e cuja Mensagem é universal e particular ao mesmo tempo, porque simbólica e mítica, porque cósmica e humana.

Referências Bibliográficas

 ANES, Jose Manuel. (2004). Fernando Pessoa e os mundos esotéricos. Lisboa. Esquilo.

 CENTENO,Y. (1978). Fernando Pessoa e a filosofia hermética. Lisboa.Editorial Presença.

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