Astrologia Medieval

Sob a Égide de Saturno

Medicina e Astrologia no Discurso de Manoel Gomez Galhano Lourosa

Carlos Henrique Vólaro C. Mota

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 Introdução

 Quando, pela primeira vez, o primeiro homem explorou seus sentidos físicos, percebeu um mundo de cores, odores, sons e texturas que revelaram um problema. Precisava organizar essas informações em um contexto inteligível, para que pudesse interagir com esse mundo. Traçou o primeiro esboço de modelo interpretativo da realidade, mas este pouco durou. Provavelmente este primeiro modelo daria conta das questões mais comuns que se levantavam, mas às mais abstratas – ou pelo menos às mais incomuns – não satisfaria. Antes de erguer o primeiro dólmen, questões acerca de suas origens e de seu porvir, após o derradeiro suspiro, inquietavam essas mentes que dominariam o mundo. Vários modelos similares foram sendo paulatinamente criados, experimentados e abandonados, enquanto a inquietude os incitava a construir mais e mais. O primeiro passo considerável para a ordenação da existência humana ocorre após a criação das primeiras divindades, hoje esquecidas. As religiões, ao arregimentar um número significativo de seguidores, acabam por imiscuir seus dogmas na sociedade, moldando assim um paradigma.

 Interessa ao presente estudo a ordenação construída em um contexto hebraico-cristão, cujo sentido teleológico insere o homem em uma ordem linear da passagem do tempo. Esta ordenação, existente antes da ordenação hebraica, organiza em uma linha reta a experiência do presente, a memória de um passado e a garantia de um futuro. Como em outras ordenações, este futuro estende-se inclusive a um ponto situado no infinito, após a morte do indivíduo. Mais que isso, insere a existência humana em uma hierarquia de entidades cujo poder sobre essa mesma existência se dá por vários meios: desde a ação direta de uma divindade-causa primeira por meio da providência divina até a utilização por parte desta “causa primeira” de instrumentos para aferir o funcionamento da máquina universal – as “causas segundas”. Desta forma, a astrologia aristotélico-ptolomaica insere-se sem maiores problemas – pelo menos superficialmente – em um contexto cristão, como uma scientia que possibilita ao homem a interlocução com as entidades etéreas que, como “causas segundas”, influenciariam o mundo sublunar.

 Aristóteles define as bases sobre as quais se sustentará a diferença fundamental entre o mundo sublunar e os céus em sua obra De caelo et mundo. Define dois movimentos simples – o retilíneo e o circular – e associa tais movimentos às substâncias simples, a saber, os elementos dos quais todas as coisas seriam formadas. Os quatro elementos, devido às suas qualidades de leveza e peso, são prontamente associados ao movimento retilíneo. Mas se existe um movimento simples restante – o circular – este deve obrigatoriamente ser associado a um elemento. Mas a qual? Qual elemento descreveria um movimento circular, atestado por suas qualidades? Perante essas questões, Aristóteles imagina um quinto elemento, a se juntar à água, ao fogo, à terra e ao ar, perfeito porque descreve um movimento perfeito: o éter. Esta quinta essência seria formadora dos céus e corpos celestes, sendo os últimos nada mais que maiores concentrações de tal elemento.

 Assim, os corpos celestes descreveriam movimentos regulares nos céus, portanto passíveis de cálculo. Facilmente se poderia conceber um conjunto de práticas que determinaria que posição um determinado corpo celeste ocuparia em um determinado tempo futuro. Dessa forma, o saber astronômico se insere perfeitamente na teleologia intrínseca à ordenação judaico-cristã. Sendo os céus perfeitos e o mundo sublunar imperfeito, não seria estranho subjugar este mundo sublunar ao celeste. Desta forma, o saber astrológico aparece como que submetido ao saber astronômico: “Mas a primeira é na realidade uma ciência autônoma, com um método demonstrativo seu, por si só desejável para lá de qualquer resultado prático (…). A segunda, depende da primeira, menos rigorosa nos seus procedimentos, diz respeito, pelo contrário, ao complexo dos acontecimentos sublunares”. Cabe notar que nos séculos XVI e XVII, Astrologia e Astronomia ainda não estavam dissociadas. Para efeitos de narrativa, chamaremos aqui este saber de “astrologia”.

 Se por um lado a astrologia parece se inserir no contexto cristão de ordenação do mundo sem grandes dificuldades em seu senso mais superficial, por outro uma vigorosa guerra se delineia no campo intelectual europeu desde o medievo, acerca da forma como o mundo celeste influenciaria o mundo sublunar. De acordo com a física aristotélico-tomista, a ação dos corpos celestes sobre os terrestres deve efetivar-se por uma relação direta, pela qual os astros alterariam as proporções das quatro qualidades primárias – quente, frio, seco e úmido – nos corpos terrestres, logo, nos quatro elementos que compõem toda a existência sublunar. Que meios as entidades etéreas possuiriam para que tal influência pudesse existir? Tinha-se que pensar então algum tipo de agente intermediário entre os corpos celestes e a Terra que pudesse provocar as alterações no equilíbrio das quatro qualidades primárias. Dois desses agentes eram evidentes: identificaram logo características visíveis dos planetas, como a luz e o movimento. Paralelamente, visto a necessidade de explicar certos fenômenos incompreensíveis à luz da filosofia aristotélica, pensou-se em um terceiro veículo da ação dos corpos celestes: uma terceira causa, oculta. A esta chamaram simplesmente influentia, ou influxo. Assim como o magnetismo, tal veículo existiria substancialmente, mas longe da percepção dos sentidos humanos. Como não poderia ser observada, a ação deste terceiro veículo só poderia ser percebida pelos seus efeitos. Assim a luz, movimento e influxos seriam os instrumentos com os quais os corpos celestes atuariam no mundo sublunar.

 O mundo elementar estava então submetido às influências dos corpos celestes. Existiam limites, sempre discutidos, desta submissão: mas a certeza da influência celeste sobre o mundo sublunar era opinião da maioria. Os astrólogos-astrônomos eram então parte integrante e necessária desta sociedade que, enquanto preocupada com a vida cotidiana, olhava para os céus. As previsões do tempo, os acontecimentos políticos, enfim, uma gama vastíssima de assuntos estavam no escopo do ofício destes intelectuais.

A teoria da incorruptibilidade celeste seria, então, o pilar fundamental sobre o qual estaria sustentada a teoria da ação dos corpos celestes sobre os corpos elementares. A perfeição dos céus contrastava com a efemeridade do mundo sublunar. Como explicar então os fenômenos celestes que não descreviam movimentos regulares? Como enquadrar nesse cosmos perfeito um cometa?

A Cometografia de Lourosa

 Veremos a seguir a solução utilizada por Manoel Gomez Galhano Lourosa, astrólogo e médico português, em sua Polymathia Exemplar, obra publicada em 1666. Ao se deparar com a questão que tange a origem dos cometas – tema bastante controverso em meados do século XVII, e exclusivo objeto de discussão desta obra – busca “saber” a natureza dos mesmos. Cabe dizer que “saber”, para os aristotélicos, é conhecer as causas e princípios do objeto que se quer alcançar.

 O autor inicia sua investigação buscando definir o que seria um cometa. A definição do que se pretende conhecer é uma premissa cara aos Aristotélicos. Tal discussão organiza-se, na Polymathia Exemplar de Lourosa, a partir da apresentação de algumas das teorias contemporâneas ao autor – o mesmo as expunha e logo depois as refutava – sendo o texto ordenado de acordo a deixar uma única saída para definir o que seria um cometa, a saber, a definição aristotélica: “Cometa pois he multidaõ de exhalações (…) pingues e crassas, e bem juntas, que se acendem cõ o fogo”.

 Definido o cometa, o autor estabelece a causa – ou causas – do fenômeno. Inserido no paradigma aristotélico-tomista, o astrólogo português segue as premissas de Aristóteles na investigação em torno dos cometas. Aristóteles, em sua Physica, define quatro causas para todo fenômeno físico: a causa material, a causa formal, a causa eficiente e a causa final. Adequando sua investigação a tal sistema de causas, Lourosa afirma que a causa material dos cometas – ou seja, a matéria da qual é formado o próprio – seriam as exalações e vapores que subiriam até a terceira região do ar. A causa formal – a essência do que foi criado – seriam exalações fracas, embora formidáveis, que seriam atraídas até a terceira região do ar, sendo incendiadas. A causa eficiente – a causa que iniciaria o processo de formação do cometa – seriam os influxos celestes que atrairiam tais exalações e vapores, cito: “A natureza pois dos Cometas he o adjuncto das qualidades dos Planetas, que os fazem e geraõ impressas nos meteoros, effeitos manifestos das estrellas errantes, que com suas influencias (causalidades influentes dos Astros superiores e celestes) obraõ em propinquo, e em remoto, mediante seus influxos e qualidades occultas”. A causa final – o objetivo com o qual os cometas se formam – seria dado pela divindade “porque nada faz Deos de balde, & tudo permite para terror dos maos, aviso dos bons, & emmenda de todos, cautella salutifera de quem nos aviza, & amoesta”.

 Cabe aqui uma explicação mais aprofundada. Que fogo seria esse que acenderia essa quantidade enorme de exalações e vapores? Como já foi dito anteriormente, o sistema astronômico aristotélico-ptolomaico tem como alicerce a separação entre céu e terra, o primeiro composto por éter, a segunda pelos quatro elementos. O próprio mundo sublunar contém esses quatro elementos. No centro do cosmos, a Terra – composta pelo elemento homônimo a si. A atmosfera seria composta de ar, mas em três regiões distintas, de acordo com a leveza de cada elemento. A camada mais próxima da Terra seria a “primeira região do ar”, composta de ar em ato e potência. Acima desta, a “segunda região do ar” seria composta de ar, em ato, mas seria potencialmente água. A “terceira região do ar”, mais próxima ao céu da Lua, seria composta de ar, em ato, e fogo, em potência. É exatamente nesta região que se formariam os cometas – as exalações e vapores que porventura subissem até esta região seriam inflamados pelo fogo aí contido.

 Conclui-se então que a solução utilizada por Lourosa – e partilhada pela maior parte dos astrônomos-astrólogos do século XVII – é a de que os cometas seriam fenômenos meteorológicos, e não celestes. Para validar sua opinião, o autor utiliza uma série de argumentos já apresentados por outros estudiosos.

Em primeiro lugar, o astrólogo afirma serem os cometas fenômenos de curta duração. De acordo com o modelo aristotélico-ptolomaico, é exatamente o mundo sublunar o lugar do efêmero, do transitório. Acima deste limite, nada se cria, nada se perde. Não pode haver alteração alguma nos céus. Justifica da mesma forma a impossibilidade de alteração nas dimensões dos cometas – fenômeno visível pelo autor em questão – caso fossem fenômenos celestes. Outro argumento utilizado por Lourosa seria a coincidência entre a aparição dos cometas e ventanias. Ao formar-se, na mais alta região do ar, o cometa excitaria uma grande quantidade de ar.

 Como era de costume nos tratados acerca dos cometas, a última parte da obra é destinada aos prognósticos. Não cabe neste texto discutí-los. Afirmamos apenas que o autor acredita no fato de que os efeitos malévolos derivados da passagem de um cometa fazem-se sentir com mais intensidade em terras onde o Sagrado Evangelho não foi propagado e/ou aceito. No que tange aos prognósticos sobre a política e a sociedade, Lourosa afirma ser contra a Astrologia Judiciária: “E senam le a Alexander de Angelis, que elle te dirà o que passa nesta materia, no douto livro que fez contra os astrólogos supersticiosos (…) Elle se ri, & zomba de seus embelecos. Este Iesuita douto falla dos supersticiosos que como Siganos dizem mil delirios, & com elles enganaõ os ignorantes”. Em uma tentativa de redimir a astrologia, diz: “O mais desta sciencia he solida verdade em quanto se nam mete em actos livres, & em cousas que tocaõ os secretos de Deos, verdadeiro Sabio, que como tal zomba de tudo”.

 Os Contágios

O corpo humano, constituído pelos mesmos elementos que formam o mundo abaixo do céu da Lua, seria também passível desta influência celeste. Logo, a Medicina também estava intimamente ligada à astrologia. Neste sentido, Lourosa iniciava assim seu Discurso Médico: Appendis de Contágios ao Tratado do Cometa, apêndice de sua Polymathia Exemplar: “Tem obrigaçaõ o Medico de saber tudo, pois lhe coube o titulo de Physico que he o mesmo que saber todas as cousas naturaes, donde tem origem as enfermidades do corpo humano. (…). O Medico pois tem obrigação precisa de conhecer a causa da enfermidade, quando não seja específica (…) ao menos causa generica”.

Tal empreendimento é considerado pelo autor por demais árduo, no que é necessária a escolha de um guia, uma referência. Neste sentido Lourosa opta por buscar suas referências em Hipócrates. Obviamente, ao citar tal autor no campo da medicina, Lourosa acabar por creditar maior autoridade ao seu próprio discurso. Este tipo de estratégia será comum ao longo dos séculos XVI e XVII. Segundo o astrólogo português, Hipócrates declara que o Ar seria a causa universal de todas as doenças, pois se faria presente sua ligação com o corpo humano não só pela respiração, mas por acompanhar todas as coisas que o Homem usa, assim como tudo o que é ingerido. “Todas as alterações, & mudanças, que ha neste mundo inferior que todos habitamos, nascem do Ar, & com o Ar os ventos, que alteraõ os corpos dos humanos”. Mais que isso, o Ar seria o meio pelo qual os astros comunicariam seus influxos, luzes e movimentos à Terra. Portanto será o Ar, ou melhor, a alteração do mesmo, o agente causador dos “contágios”, segundo Lourosa.

 Por “contágios” o autor entende as epidemias. Contágios não seriam doenças, mas qualidade de doenças. Para ser contágio, deve obedecer a quatro premissas: “termo a quo, termo ad quem, o espaço, ou caminho, por onde ha de passar (o ar). (…) Alem de que este vapor maligno ha de ser quente, porque assi apodrece e queima. Ha de ser tenue para penetrar. Ha de ser viscoso para pegar. Ha de ser maligno & pestilente, para corromper”. Ou seja, apenas os vapores de “malignas qualidades” podem contaminar o ar, tornando-o pestilento.

Mas como se alteraria o ar? Qual seria o agente causador de tal alteração? Diz Ponce de S. Cruz, citado por Lourosa, que “se as secretas actividades das estrellas saõ encontradas entre sy (…) se recebaõ no Ar primeiro, e de tal maneira se adjectivaõ em suas antypathias, e dispoziçoens natura iusitas, que corrõpem o mesmo Ar, e os vapores, e exalaçoens que nelle estão, fazem as fatalidades dos contagios”. O ar seria um elemento fácil de mudar-se, comparado pelo autor ao planeta Mercúrio. Os corpos celestes são dados pelo astrólogo como “causas segundas” e instrumentárias, pelas quais Deus – a “causa primeira” – governa esse mundo. Desta forma, Deus permite que ocorram males na Terra para tirar deles bens, a saber: punição dos maus e aviso aos bons. Lourosa assim reafirma a tese da influência do mundo celeste sobre o mundo sublunar: “Digo mais que não ha effeito algum natural por pequeno que seja nas cousas deste mundo inferior, que não dependa de alguma determinada virtude, ou influencia celeste”. Contudo, os céus “… não podem chegar a influir sobre as obras livres do homem”, diz o autor, refutando a Astrologia Judiciária.

 Lourosa cita ainda João de Soto ao enumerar as quatro grandes causas das enfermidades: a vontade de Deus, os Céus e suas influências, o ar, e o contágio ou seminário dele – a última causa não seria geral. Lourosa trata por causa geral a corrupção do ar. O papel de Deus nas coisas terrenas é bem claro para o autor: Aquele só obraria pelas causas segundas. Seriam os influxos astrais que corromperiam o ar. Dificilmente se curam as epidemias, pois embora seja natural, é incomum. E se a epidemia é vista como um castigo de Deus, pode até ter cura, mas é dificílima. Não se pode evitar o ar.

 A análise de Lourosa sobre os Contágios é permeada pela idéia de que existe um agente intermediário entre os astros e as mazelas do corpo. Não seria um determinado arranjo entre os astros que determinaria diretamente a doença, e sim a influência deste arranjo no ar – ar este que é respirado por todos os seres viventes e, portanto, veículo privilegiado para a eclosão de epidemias variadas.

Bibliografia

 Fontes Primárias

 ARISTOTLE. Physics.

 ARISTOTELES. “Del cielo”, in: Obras, trad.: Francisco de P. Samaranch. Madrid: Aguilar, 1967.

 ARISTÓTELES. Geração e Corrupção, trad.: Renata Maria Parreira Cordeiro. São Paulo: Landy, 2001.

 LOUROSA, Manoel Gomez Galhano. Polymathia Exemplar. Lisboa: Officina de Antonio Craesbeeck de Mello, 1666.

 Fontes Secundárias

 CAMENIETZKI, Carlos Ziller. “O Cometa, o Pregador e o Cientista: Antônio Vieira e Valentim Stancel observam o céu da Bahia no século XVII”, in: Revista da Sociedade Brasileira de História da Ciência. Rio de Janeiro, n.14, pp.37-52, 1995.

 CAROLINO, Luís Miguel. Ciência, Astrologia e Sociedade. A Teoria da Influência Celeste em Portugal (1593-1755). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.

 _____________________. A escrita celeste – almanaques astrológicos em Portugal nos séculos XVII e XVIII. Rio de Janeiro: Access, 2002.

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