Astrologia e Astrólogos

Aspectos Astrológicos entre os Planetas

Um Estudo Comparativo Tempo-Espaço

Clélia Romano

 Os aspectos entre os planetas foram vistos de forma totalmente diferente pela Astrologia Helenista e pela Árabe Medieval.

 Na Astrologia Helenística, os mesmos eram feitos geralmente de signo para signo, mas também há indícios de que eram usados quando exatos, aplicando-se ou separando-se. Orbes não eram usados e eram considerados em aspecto os planetas que distassem entre si um máximo de três graus.

 A questão dos orbes dados a cada planeta é uma questão própria da Astrologia Medieval. Houve muita controvérsia sobre quantos graus o raio de luz de cada planeta atingiria. Se notarmos, foi dado maior orbe para planetas com maior visibilidade, tais como o Sol e a Lua. Por vezes observamos que o orbe não dependia só da visibilidade, mas também do tamanho do planeta.

 Tanto a Astrologia Helenística como a Medieval têm em comum o uso dos aspectos ptolomaicos, os quais na verdade não foram inventados por Ptolomeu, mas sempre existiram na astrologia Helenística. Tais aspectos são: oposição, trígono, sêxtil e quadratura. A razão de tais aspectos serem considerados válidos repousa no conceito muito enfatizado pelos gregos de que a relação entre planetas existe sempre que um signo “enxerga” o outro. Signos em aspecto se enxergam, enquanto que signos ao lada um do outro, por exemplo, não o fazem.

 Devido à invisibilidade a conjunção não é um aspecto, pois você não pode olhar para si mesmo, a não ser através de um espelho, e no caso estaria se olhando através de uma oposição.

Já o contrário é verdadeiro: um aspecto é uma conjunção. Dois planetas em aspecto estão “con iuntio” conforme o termo latino, palavra esta que pode significar inclusive a conjunção carnal. Portanto todos os aspectos são conjunções; uns são conjunções corporais ou por corpo e outros são conjunções por aspecto.

 A idéia de estar junto é muito importante e quando o orbe de um planeta, que é um orbe de luz, encosta no de outro, há algo como um casamento o qual pode ser harmonioso ou não.

 Ptolomeu deu uma explicação um pouco confusa para a existência desses aspectos em seu Tetrabiblos, cujo nome verdadeiro era Apothelesmatics,ou seja: a razão do que sucede.

 Ptolomeu era um grande estudioso e dominava inúmeras matérias. Teve a oportunidade de conviver intimamente com os preciosos volumes da biblioteca de Alexandria, que depois se incendiou e levou consigo os escritos sobre os primórdios não só da astrologia como da história e de grande parte do saber humano até aquela data.

 Ptolomeu escreveu, entre outros, um livro sobre musica, especificamente sobre harmonia, e tal livro não sobreviveu a não ser fragmentariamente. O fato interessante é que a parte que falta é justamente a parte referente a harmônicas e especialmente no ponto em que se referem à astrologia. Provavelmente a mão da Igreja Católica teve influência neste específico desaparecimento, por não querer ver divulgada a noção da harmonia de seus cânticos sagrados que, como qualquer musica, obedece aos mesmos princípios harmônicos que a astrologia.

 Quem conhece um pouco de teoria musical sabe que a mais básica harmonia se baseia na 3ª nota a partir da primeira e na 5ª e a essa tríade composta pela primeira, terceira e quinta nota chama-se “acorde perfeito”. Ora, é harmônica a distancia do primeiro ao terceiro (sêxtil) e do primeiro ao quinto (trígono). Já a 7ª nota a partir da primeira é dissonante e representa a oposição. Se você tomar duas notas musicais uma em seguida à outra e tocá-las em conjunto, como, por exemplo, e , obterá uma grande e desagradável dissonância. Isto porque e são notas que estão juntas como Áries e Touro. Já se tocarmos e mi teremos harmonia e se tocarmos do+mi+sol, teremos um acorde perfeito, como se tem entre as tríades de água, terra, fogo e ar. Hipoteticamente a explicação dos aspectos dada por Ptolomeu se basearia em algo exatamente assim.

Vamos agora ver o que é orbe na visão tradicional, isto é a adotada até o século XVII.

 A idéia moderna de orbe é bem diferente da tradicional. Os orbes são atualmente relacionados a aspectos, por exemplo, a orbe da quadratura e da oposição são maiores que a de um sêxtil.

 Se disséssemos uma coisa dessas a um astrólogo até o século XVII ele perguntaria do que se estava falando, pois os orbes se referem a planetas e não a aspectos!

 Essa é a principal diferença entre os orbes modernos e os medievais. Os ensinamentos pós século XIX, introduzidos por Alan Leo, foram responsáveis por orbes diferentes para aspectos diferentes. Talvez isso se deve ao fato de que ele começou a usar os chamados aspectos menores (semi-sêxtil, sesqui-quadratura, quintil, etc.) e basicamente reconhecia que tais aspectos eram pouco operativos: daí talvez ter estreitado a orbe para eles.

 A noção de orbe vem de orbe de luz e a visualização é a de um circulo de luz rodeando o corpo de um planeta. Tendo cada planeta um orbe há um momento em que dois planetas se tocam ou se sobrepõe. Quanto mais perto ou sobrepostas estiverem sua luzes mais forte é o aspecto. Não se pode esquecer que dentro do circulo de luz está o planeta e é ele que importa na questão de orbes.

 Outra palavra praticamente sinônima de “luz” é “raio” e é dito que um planeta envia seus raios a outro.

willian lilly

Em seu livro Astrologia Cristã, William Lilly diz que cada planeta tem seu próprio raio ou arco de combustão, isto é a quantos graus ele precisa estar do Sol para não estar combusto. O orbe de luz tem a ver com a aparente magnitude do planeta. Segundo ele o menor grau é 8 graus (Venus e Marte), 12 graus (Lua) e o maior de 17graus (Sol). É possível que a idéia de orbe tenha advindo de critérios de visibilidade.

 Por isso podemos considerar que, desde que os planetas além da órbita de Saturno não são visíveis, não cabe dar orbes a eles.

 Na época Helenística, o fato de planetas estarem em trigon (trígono), tetragon (quadraturas) ou hexagon (sêxtis) por signo, era já suficiente para mostrar uma relação entre eles.

 O que se observa na pratica é que embora a relação seja menos intensa, o aspecto por signo tem significância, tanto que os autores gregos dão grande importância negativa se o regente da casa não “aspectar” seu domicilio. No entanto, os aspectos por grau são mais efetivos.

 Como um parênteses, Lilly tem uma teoria complicada na qual diz que a quadratura se transforma num sêxtil em signos de curta ascensão. Neste caso poderíamos pensar que a diferença de 150 graus que torna um signo invisível ao outro se transforme em trígono, se usarmos o mesmo raciocínio. Ocorre que um aspecto pressupõe uma relação visual e através dessa relação os aspectos serão classificados com amistosos, o sêxtil e o trígono, que possuem qualidades elementares básicas em comum, ou inamistosos, como a quadratura, quando os signos possuem qualidades elementares diferentes. A teoria de Lilly pode transformar em amistosos signos com propriedades elementares díspares, o que não faz sentido.

 Aspectos Inter Signos – O Signo como Barreira

Há uma tendência na astrologia moderna de considerar aspectos fora de signo. Ora, aspecto vem de aspicio que significar olhar.

 Aspectos inter signos não são aceitos pela quase maioria dos autores tradicionais. Ibn Ezra e também Sahal consideram que um planeta no ultimo grau de um signo pode fazer aspecto com outro no signo seguinte, mas são vozes isoladas e assim mesmo só aceitam a conjunção.

 Para os Helenísticos os signos eram barreiras: não havia portas ou janelas para deixar passar a luz de um quarto para o outro.

 A teoria atual da física que fala em quantum é o equivalente moderno a esse conceito grego.

 Por exemplo, se dividirmos uma pedra, teremos duas pedras, mas se dividirmos uma pessoa teremos dois pedaços de carne, o esse, sua essência, foi perdido, sua qualidade e sua identidade já não existem. Um ser vivo não é dedutível a somatória de suas partes. Da mesma forma, os signos eram considerados como seres vivos possuidores de uma individualidade: eram um ser completo.

 Quando um planeta muda de signo ele faz exatamente o que elétron faz quando muda de nível de energia num átomo. Um planeta não está nunca entre signos e em dois signos ao mesmo tempo. Instantaneamente ele vai de um signo para o outro. Essa noção é totalmente estranha a nós e só a recuperamos com a mecânica quântica, que reabilitou a noção grega de unidade.

 Uma coisa a ser pesquisada, mas que parece pertinente, é que quando um planeta vai completar um aspecto com outro, mas para tal precisa mudar de signo, ocorre uma grande mudança de direção: há uma mudança total de qualidade, pois o planeta mudou de domicilio.

 Tudo isso porque, embora estejamos acostumados a pensar numa continuidade, há ao contrário, uma descontinuidade. Na verdade há grupos de entidades descontinuas. Por isso calculamos uma carta de ingresso do Sol em Áries a 0º 0’ 0’’. Essa precisão tem esse tipo de justificativa; um simples segundo no tempo muda totalmente o ser.

Por exemplo, se usarmos as dodecatemórias, procedimento que equivale a multiplicar por 12 cada grau, minuto e segundo de uma carta, e compararmos as cartas de gêmeos nascidos com segundos de diferença, notarão diferenças na posição dos planetas obtidos através desse método, que explicam importantes diferenças em seus destinos.

 O signo e o grau são uma das divisões quânticas. Moira em grego significa grau e em todas as línguas antigas grau tem uma raiz comum filológica que tem a ver com destino. Destino é a parte que toca a cada um, sua porção, pars, moyrae, nesta vida.

 Por isso dizemos que um aspecto é separativo quando um dos planetas muda de grau. Se dois planetas mudam juntos ainda estão moiriconou “partiles” em latim.

 Por isso não há aspectos inter signos, pois para tal seria valorizada a solução de continuidade e não de partes unitárias.

 Isso não significa que um planeta no ultimo grau não tenha expectativas: ele as tem, para melhor ou pior, mas a essência da questão mudará inteiramente. Em astrologia horária tal fato é visto muito claramente.

 Lua e Planetas Fora de Curso

Consideramos a Lua fora de curso, ou caminhando no vazio, na maneira grega de dizer, quando ela fez todos os aspectos que podia e vai mudar de signo sem fazer outro aspecto. A Lua efetivamente está fora de curso e é um impedimento até o ponto em que ela mudará seu esse, mudará de domínio e como significador ela já não possuirá as mesmas características. Se não for fazer aspecto no signo seguinte ela está como que isolada e só, mas se ela o fizer a situação é diferente: um acontecimento pode suceder, mas com intenções diferentes do que poderia ter sido no signo anterior. Isso é importante para a astrologia horária e eletiva, pois é um impedimento para o assunto, ainda que temporário. Em astrologia natal também significa um impedimento daquela área, mas se o próximo aspecto for um aspecto positivo, a situação após certo tempo se moverá.

 Nesse sentido acho bastante interessante a afirmação de Bonatti que um planeta no ultimo grau de um signo tenha pouco poder sobre esse signo e que o teria para o signo seguinte. Mas tenho algumas reservas. O planeta continua sendo um significador para o regente do signo em que se encontra e esse é seu destino, seu grau e moira, embora a direção que adotará será nova, pois mudará de casa, de signo e de dispositor.

 O Tempo e o Espaço

Tais mudanças no essede um planeta não podem ser atribuídas à permeabilidade entre signos, mas sim à questão de que os aspectos em astrologia tradicional são vistos mais no tempo do que no espaço.

 Na Mesopotâmia, por exemplo, a noção do tempo era a de um constante fluir, dai não possuírem horoskopus que é um ponto especial na primeira casa, um grau determinado.

 Os helenísticos também tinham a mesma idéia: o tempo fluía e era mais importante que o espaço. Então, se temos um planeta se aplicando a outro vale mais a noção temporal de quando se dará a aplicação, mesmo que em outro signo, do que a distancia espacial.

 Não se deve confundir essa idéia com a permeabilidade entre signos, que continuam sendo vistos como engrenagens separadas de qualidades diferentes que vão fluir em certo tempo, mas cada um com suas características.

 Heráclito aborda bem essa idéia. Platão diz de Heráclito: “Ele compara as coisas com a corrente de um rio – que não se pode entrar duas vezes na mesma água”; o rio corre e toca-se águas diferentes.

 Os sucessores de Heráclito dizem que até mesmo neste rio sequer se pode entrar, pois que imediatamente se transforma o rio e o banhista; o que é, ao mesmo tempo já novamente não é.

 Aristóteles diz que Heráclito afirma que apenas o Um permanece (e comparo o Um à unidade do signo em que temos os planetas); todo o resto é formado, modificado, transformado; todo o resto fora deste Um flui, nada é firme e nada se demora.

 A verdade é que somente após o século XIX e XX houve uma retomada filosófica ao nível do que ocorreu na época helenística.

 Na astrologia Persa-Árabe e Medieval também a importância dada era no fator tempo: daí as proibições, as frustrações, e outros acidentes tão bem descritos em obras como as de Abu Mashar, Alchabitius e Bonatti.

 Já a Astrologia Moderna se concentra mais na proximidade espacial entre planetas e isto é mais uma importante diferença entre os dois tipos de astrologia.

Dessa forma podemos entender que a Lua ou qualquer planeta fora de curso não estão impedidos se fizerem aspecto no signo seguinte. Mas o regente do signo em que estavam, sim, fica impedido, pois o planeta muda de significador. Além disso, se um terceiro planeta se interpuser e aspectar o próximo planeta antes (uma questão de tempo) ele proíbe o primeiro planeta de realizar a conjunção buscada.

Por exemplo, na seguinte carta horária, na qual Marte é o significador do emprego da querente.

mapa2

Marte está prestes a mudar de signo. A Lua, significando a querente, vai se aplicar primeiro a Júpiter, mas podemos dizer que Júpiter recebe a Lua por domicilio e é um grande benéfico, por isso ele não impede que a Lua siga seu rumo em direção a Marte, o emprego.

No entanto, quando a Lua chegar a Marte, os dois, Lua e Marte estarão mudando de signo e entrando em Capricórnio. A Lua perderá o “patrocínio” de Júpiter e Marte, o emprego, mudará de objetivos: com certeza não acolherá a Lua, que tem seu detrimento em Capricórnio. Este é um típico exemplo de como um planeta em final de signo pode negar um resultado positivo.

Em Astrologia Horária tais coisas são sobejamente observadas e pode-se prever o resultado de uma questão usando-se as efemérides, que nos dão o tempo em que os planetas se movem, se tomam o movimento retrógrado, se estão lentos ou se movem rapidamente, etc. Já em astrologia Natal o tempo depende não só das efemérides, mas das chamadas direções.

As diferenças entre aspectos aplicativos e separativos é justamente o tempo: um deles já aconteceu e o outro vai acontecer.

Em Astrologia Horária os aspectos passados ajudam a identificar a veracidade e radicalidade da carta. Já em astrologia Natal, aspectos que se fizeram identificam influências pré-natais importantes, tanto no ambiente familiar como no útero e que podem influir no nativo de forma positiva ou negativa.

Os aspectos começam a se separar quando passam um grau da conjunção exata; mais uma vez vemos a importância da unidade grau como representando a individualidade de pedaço do signo.

Portanto aspectos separativos e mudança de signo trazem grande desunião entre os primitivos significadores.

Veremos outro exemplo de consulta Horária.

A consulente vinha tentando se separar do namorado no ultimo mês por não amá-lo, mas não conseguia efetivar a separação: voltava atrás por medo da solidão e porque o namorado implorava para não romperem.

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Vênus, almuten do ASC ficou retrógrada por um bom tempo, no signo de sua queda, Escorpião e Mercúrio, significador do namorado também ficou retrógrado por um bom tempo em Sagitário, onde tem seu detrimento. Esses dois não tinham muito em comum e ligavam-se porque Júpiter em Peixes recebe Vênus por exaltação e Mercúrio por domicilio.

Vênus mudou de signo no dia anterior à pergunta, e Mercúrio não.

Vênus diminuiu sua debilidade celestial, embora ainda seja peregrina. Já o significador do parceiro, estando em movimento direto, mostra que o parceiro não pedirá para que ela volte atrás. Mercúrio, fortemente amparado por Júpiter, aplica-se a seu protetor dentro de alguns poucos graus. E Júpiter está na Casa 1, a querente.

Isto indica que ainda que com conflitos a querente receberá Mercúrio e não haverá o rompimento.

Convido-os agora a pensar em termos de tempo: Mercúrio vai mudar de signo e passará a ser regido por Saturno. Vênus recebe Saturno por domicilio: será que esse namoro vai terminar?

Só o tempo dirá, mas em minha opinião não vai. Pelo menos por enquanto.

Los Aspectos Astrológicos - Charles Carter

Los Aspectos Astrológicos

Charles Carter