Astrologia na Arte

O Inventário Astrológico de Caio Fernando Abreu

Uma Literatura de Epifanias

Amanda Lacerda Costa

 Resumo

 O interesse pela metafísica, pelo esoterismo, pelas filosofias orientais e pela Astrologia integrava a experiência pessoal do escritor Caio Fernando Abreu. O escritor utiliza elementos simbólicos, mitológicos e principalmente astrológicos em seu trabalho, ora como simples referência, ora como vetor na construção ficcional, de forma deliberada.

Ao percorrermos a obra de Caio Fernando Abreu ao longo da linha de tempo, observa-se uma trajetória ascendente na utilização da linguagem astrológica. Desde os momentos iniciais, nas obras publicadas na década de 1970, o escritor utiliza os termos desta tradição, contextualizando as configurações astrais em seus enredos e perfis de personagens. Esse procedimento é definitivamente incorporado e ampliado nas obras da década de 1980, sendo aprofundado de forma diferenciada em Triângulo das águas, um livro inteiramente baseado em arquétipos astrológicos, segundo afirma o próprio autor. Essa abordagem é presente também nos livros publicados na década de 1990, inclusive nas edições póstumas.

A dissertação analisa a hermenêutica simbólica em Triângulo das águas, buscando elucidar os sentidos profundos evocados pelas imagens arquetípicas ligadas à tradição da Astrologia presentes nos textos que constituem o livro e, assim, ampliar a sua compreensão. Intenta, também, a partir de uma revisão da obra completa de Caio Fernando Abreu – romances, contos, crônicas, peças teatrais -, identificar os traços do simbolismo astrológico ao longo de sua produção literária e os pontos de contato com Triângulo das águas, de modo a revelar novos significados. Ainda, a partir de depoimentos e entrevistas do escritor, enfoca a utilização da Astrologia como um procedimento intencional no seu processo de criação. Ao traçar uma breve revisão da fortuna crítica do autor, com ênfase na crítica e historiografia especializada e de fundo acadêmico, confirma-se a originalidade da abordagem empreendida neste trabalho. Como referencial teórico, foi utilizada a bibliografia específica da área da Astrologia, complementada por obras relativas à Mitologia, ao Símbolo, à História das Religiões e ao Imaginário.

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Os Arquétipos Astrológicos em Triângulo das Águas

A Linguagem do Cosmos

O que está em cima é como o que está embaixo.
Como o exterior o interior.
Como o micro é o macro.

 Hermes Trismegisto, A Tábua de Esmeralda

A observação dos astros e sua relação com os acontecimentos e a vida na Terra é uma sabedoria herdada de povos ancestrais, tão antiga quanto o homem. A essa acumulação de conhecimento denominou-se Astrologia. Através das eras, essa ciência-mãe vem acompanhando a evolução da humanidade, orientando, esclarecendo e apoiando o indivíduo no conhecimento de si mesmo, daquilo que o cerca e de sua ligação íntima com o universo.

A Astrologia é uma linguagem simbólica. Opera através de imagens primordiais, comuns a todos nós, os arquétipos do inconsciente coletivo. Configura um sistema de integração entre o homem e o cosmos, orientado geometricamente e expresso através dos signos do zodíaco e dos planetas. A Astrologia reúne astronomia, geometria, matemática, psicologia e religião. É ciência, arte, filosofia e metafísica, trazendo a compreensão da inseparabilidade do mental, do físico, do psíquico e do etéreo.

A linguagem astrológica tem um aspecto universal, se expressa através de símbolos, imagens que são compreensíveis por todos. Eis por que os símbolos têm tanto poder: não importa a cultura, o lugar ou a época, ele sempre traz uma idéia básica, um fundamento comum. As interpretações podem variar, mas há sempre um significado essencial que permanece. O zodíaco nos toca não somente pelo simbolismo dos signos e dos planetas, mas também pelo fato de constituir uma unidade, um todo estruturado por símbolos cujos significados emergem das relações que eles mantêm entre si. Os símbolos se reforçam e se esclarecem uns aos outros, há uma relação de analogia entre as imagens simbólicas que compõem o círculo zodiacal, ligadas não somente aos signos, mas também aos planetas, casas e ângulos entre os astros. Na Astrologia atua o princípio de correspondência, ou seja, a noção de harmonia e correlação entre diferentes planos de manifestação, vida e existência, pois tudo que há no universo emana da mesma fonte.

O círculo astrológico representa a unidade entre a diversidade de energias na totalidade do universo, sintetiza a relação indissociável entre o macrocosmo e o microcosmo. O zodíaco, etimologicamente “roda da vida”, configura o ciclo da vida, sendo cada signo uma etapa sucessiva do processo evolutivo através do tempo. Ali estão contextualizadas todas as fases da existência, não só do processo de crescimento do ser humano (no nível físico, mental, emocional, espiritual), dos animais e da natureza, mas também de toda a evolução cósmica, da Terra, dos ciclos históricos e da criação de qualquer objeto ou evento.

Os signos são padrões dinâmicos de energia, doze modelos distintos com identidade própria reunidos em um todo interdependente, em que cada signo ou fase procede do anterior e prepara a fase seguinte. Psicologicamente, o ciclo astrológico relaciona-se ao desenvolvimento da consciência individual. O número doze faz parte das estruturas arquetípicas da psique humana, presentes nas mitologias e religiões de diferentes tradições. Temos, por exemplo, os doze adityasou doze aspectos do deus do caminho solar na Índia, as doze tribos de Israel (lideradas pelos doze filhos de Jacó), os doze apóstolos de Cristo, os doze trabalhos de Hércules da mitologia grega. Na literatura astrológica e esotérica, há estudos profundos como os de Alice Bailey e Liz Greene, que interpretam a jornada mítica de Hércules como um processo de iniciação e desenvolvimento, relacionando os doze trabalhos com as doze etapas do trajeto evolutivo dos doze signos astrológicos. São encontrados também vários estudos estabelecendo ligações entre os apóstolos de Cristo e os signos, entre os quais se destaca o notável trabalho da astróloga Emma de Mascheville, que analisa no quadro A Santa Ceiade Leonardo da Vinci a representação dos tipos físicos, gestos e expressões dos doze signos nas figuras dos doze apóstolos.

O zodíaco se inicia com Áries, o despertar, o primeiro impulso dado pela consciência individual fora do oceano indiferenciado do inconsciente e para afirmação do eu. Em Touro é dada uma direção ao impulso inicial, através de uma energia formativa e materializadora. Em Gêmeos essa energia se divide, é a fase evolutiva do reconhecimento e interação com o ambiente através do movimento, do intelecto e da comunicação. Na etapa de Câncer o externo se volta para o interno sob a forma de sentimentos. A energia se move para fora novamente com Leão e a consciência de estar no mundo se dá através da auto-expressão. Na etapa evolutiva de Virgem, a diferenciação e a discriminação são desenvolvidas com base na análise crítica e a energia se focaliza no aperfeiçoamento. Libra representa o momento crucial de encontro com o outro e o balanceamento dos opostos através do pensamento. Escorpião configura a intensa experiência emocional após a experiência mental da etapa anterior e o mergulho nos profundos recessos da psique em busca do significado da existência e da autotransformação. Com Sagitário a energia se direciona para propósitos universais, para a busca de uma filosofia de vida e da transcendência através das coisas do espírito. Em Capricórnio, as forças abstratas desenvolvidas na etapa anterior são experimentadas de forma prática e se voltam para concretizar, consolidar e construir uma estrutura sólida. Com Aquário há um esforço no sentido de uma libertação das formas e limites, de elevar-se além das aparências e de participar de estruturas coletivas e sociais. Peixes, o último signo, representa a fusão e dissolução no todo, a vivência emocional do contato com a condição humana num cenário universal e a gestação de um novo ciclo que se iniciará novamente com Áries.

A divisão duodenária do zodíaco inclui quatro grandes estruturas que contribuem para enriquecer o simbolismo de cada signo: binária, ternária, quaternária e senária.

A divisão binária pode ser facilmente compreendida se pensarmos em uma roda cujo movimento depende da integração dos eixos que a compõem. A roda astrológica funciona com a união dos eixos formados pelos seis pares de signos: Áries-Libra, Touro-Escorpião, Gêmeos-Sagitário, Câncer-Capricórnio, Leão-Aquário e Virgem-Peixes. Os pares de opostos formam um eixo e representam polaridades de uma mesma energia, são complementares. Ao mesmo tempo diferentes e semelhantes, podem se relacionar ora de forma harmoniosa, num diálogo pacífico, ora em desarmonia, manifestando conflito e tensão. Embora se expressem de maneira diferente, os opostos têm características em comum e costumam mostrar traços menos evidentes ou inconscientes um do outro.

Pela divisão ternária do zodíaco, temos como resultantes três cruzes, as chamadas modalidades de expressão: a Cruz Cardinal, relacionada aos pontos cardeais e ao início das estações tem força centrífuga, voltada para a ação e é composta por Áries, Libra, Câncer e Capricórnio; a Cruz Fixa corresponde ao meio das estações, tem força centrípeta, busca a estabilização e a fixação e é composta por Touro, Escorpião, Leão e Aquário; a Cruz Mutável, ligada ao final e mudança das estações e ao padrão espiralado de energia, que busca a mudança e a interação, é composta por Gêmeos, Sagitário, Virgem e Peixes.

Pela divisão quaternária, temos os quatro elementos – Fogo, Terra, Ar e Água – a cada um dos quais correspondem três signos. Os signos de Fogo representam a energia universal radiante, são empreendedores e têm a ação como regra: Áries, Leão, Sagitário. Os signos de Terra representam o mundo material, das formas e dos sentidos, são dotados de senso prático e voltados para a concretização: Touro, Virgem, Capricórnio. Os signos de Ar representam a respiração da vida e estão ligados ao plano mental, às interações e relacionamentos: Gêmeos, Libra, Aquário. Os signos de Água representam o mundo dos sentimentos e emoções profundas, a atividade psíquica e a inspiração: Câncer, Escorpião e Peixes.

Finalmente, pela divisão senária, compõem-se dois hexágonos entrelaçados e cada um deles associa signos de mesma polaridade. O primeiro liga os signos de elemento Fogo e Ar, de polaridade masculina, positiva e privilegia valores quentes e extrovertidos (yang para os chineses); o segundo liga os signos de elemento Terra e Água, de polaridade feminina, negativa e privilegia valores frios e introvertidos (yin para os chineses).

A cada signo zodiacal corresponde um planeta ou luminar que é seu astro regente. A regência é a associação dos planetas com os signos, através da analogia entre suas forças de atuação. Também se utiliza a expressão planeta regente para um conjunto de objetos, atividades, partes do corpo e outras noções, por exemplo: Mercúrio rege a palavra oral e escrita, os estudos, as atividades e meios de comunicação, os deslocamentos e viagens, o sistema nervoso, os pulmões, braços e órgãos duplos, etc. Signos e regentes: Áries – Marte; Touro – Vênus; Gêmeos – Mercúrio; Câncer – Lua; Leão – Sol; Virgem – Mercúrio; Libra – Vênus; Escorpião – Plutão; Sagitário – Júpiter; Capricórnio – Saturno; Aquário – Urano; Peixes – Netuno. Cada planeta, assim como os signos, tem seus atributos e correspondências com outras energias e atividades e se expressará conforme o signo que se localiza por trânsito ou no mapa astrológico de um indivíduo e também de acordo com os ângulos que forma com outros astros, os aspectos. As casas astrológicas, junto com os signos e os planetas são os ingredientes básicos que compõem o mapa astrológico. As doze casas são a parte terrestre do mapa, são subdivisões da rotação diária da Terra sobre seu eixo. As casas representam os diferentes setores da vida, são áreas de atuação. De forma bem simplificada, os planetas são o “que”, a ação; os signos são “como”, de que forma se expressa; as casas são “onde” essa ação se manifesta. Existe uma correspondência entre os doze signos e as doze casas: Áries rege a primeira casa, Touro rege a segunda e assim por diante, até Peixes. O mesmo ocorre com os planetas que regem os signos e a associação de ambos com as casas.

Para compreender a linguagem da Astrologia, temos que considerar a totalidade das várias forças em constante interação. Além dos signos e sua correspondência planetária, deve-se levar em conta as características do elemento, as modalidades, polaridades, a mitologia, a disposição dos planetas nas casas, os ângulos que os planetas formam entre si. Os símbolos astrológicos portam riquezas insuspeitadas, revelam a unidade entre o homem e o cosmos e dão acesso, a quem souber ouvir sua mensagem, à nossa dimensão celeste.

O Triângulo das Águas

 Da água vem toda a vida.

 (O Alcorão)

Triângulo das águasapresenta uma construção narrativa estruturada em princípios astrológicos. Através dos três signos de elemento Água – Câncer, Escorpião, Peixes -, é representado o processo de transformação interior de seus personagens: seres em busca da verdade, de um sentido para suas existências sufocadas pela pressão urbana e fragmentadas pela solidão. O elemento Água simboliza os sentimentos e os estados inconscientes e anímicos.

O livro é composto por três textos, que o autor denominou “noturnos”, expressão que aparece logo abaixo do título1. O termo “noturno” é normalmente utilizado para peças musicais, designando um tipo de poema sinfônico de ritmo vagaroso e tom melancólico2. Essas características estão presentes nestes textos que, sem dúvida, poderiam ser chamados de poemas sinfônicos, dado o estilo de prosa poética do escritor, marcado pela sonoridade na seleção vocabular e no ritmo narrativo e, ainda, pelas freqüentes alusões musicais. É noturno também o tempo em que ocorrem, pois as três histórias se desenrolam no período de uma noite, terminando ao amanhecer, com a luz que traz a redenção e liberta da angústia e do medo, salvando os seres perdidos na escuridão.

1 Nas edições posteriores o termo foi suprimido.

2 O Dicionário Houaiss eletrônico apresenta as seguintes rubricas de música para o termo noturno: “composição vocal ou instrumental de cunho melancólico destinado às serenatas, em voga no século XVIII; composição vocal breve, feita para duas ou mais vozes, em cuja estrutura se pode notar a influência da romança; composição instrumental, ger. para piano, de caráter programático, sem forma definida; espécie de poema sinfônico que revive no século XX a essência das serenatas setecentistas.”

Do ponto de vista simbólico, há afinidade entre água/noite/música, cujas imagens simbolizam o inconsciente, o tempo imemorial, a reminiscência, a fonte e origem da vida, a fecundidade e a energia feminina3.

3 ELIADE, Mircea. Tratado de história das religiões. Lisboa: Cosmos, 1977. p.195 a 258.

Os noturnos Dodecaedro, O marinheiroe Pela noitetêm suas narrativas baseadas na trilogia dos signos de Água e estão relacionados, respectivamente, a Peixes, Escorpião e Câncer. O simbolismo aquático é representado diferentemente nos três signos: a água de Câncer é a água original, a água mãe como os líquidos do ventre feminino; a água de Escorpião é a água imóvel e fétida dos pântanos e charcos, a lava vulcânica, as águas subterrâneas e escondidas embaixo da superfície e Peixes representa as águas primordiais e toda a imensidão oceânica. A água está sempre presente nos textos, de forma subjetiva, por sua relação com o psiquismo das personagens, pelos enredos das situações narradas e pelas ligações do simbolismo astrológico com esse elemento e também objetivamente: em Dodecaedroa ação se dá nas proximidades de um rio; em O marinheiro, chove em vários momentos e em Pela noitea chuva é incessante.

 Triângulo das Águasé um mergulho, uma imersão na pauta dos sentimentos.

Dodecaedro: O Signo de Peixes

 No conto Dodecaedro, doze amigos passam os dias de Carnaval em uma casa fora da cidade e são expostos a uma situação insólita que desperta seus medos e angústias pessoais.

Um dos personagens avisa que haviam soltado cachorros loucos, o que conseqüentemente os isolava dentro da casa. A ameaça dos cães raivosos precipita reações, atitudes e emoções imprevistas e confusas, narradas por cada um deles, apresentando a sua visão particular da situação, de si mesmos e dos amigos. As doze narrações são antecedidas e intercaladas por uma décima terceira voz narrativa dividida em doze partes distintas, denominadas fragmentos, que antecipa seu conteúdo; essa voz atua também como um personagem e conta uma história paralela, a sua própria, entretecida com a história dos outros doze.

Na trilogia dos signos de elemento Água, Dodecaedro corresponde ao signo de Peixes. O conto tem doze personagens e cada um representa um dos signos do zodíaco. A música tem importância fundamental neste texto que, logo abaixo do título, apresenta entre parênteses a indicação Possível coreografia verbal para “Köln Concert”, de Keith Jarrett4. Como o dodecaedro com suas doze faces, as doze vozes de seus personagens compõem uma dança, desenham movimentos e se articulam formando uma unidade, partitura musical que é a escrita narrativa e a geometria zodiacal.

4 The Köln Concert, do pianista de jazz norte-americano Keith Jarrett, de 1975.

Do ponto de vista simbólico, o dodecaedro, o signo de Peixes e o número doze encerram um sentido comum: a idéia de totalidade, da unidade que contém em si a multiplicidade e a diversidade. O dodecaedro é um sólido geométrico convexo composto de doze faces pentagonais; Peixes é o décimo segundo signo do zodíaco. O número doze simboliza o universo em sua complexidade interna e seu desenvolvimento cíclico no espaço-tempo. Caracteriza o ciclo anual e a marcha do Sol através do zodíaco e “representa também a multiplicação dos quatro elementos, terra, água, ar, fogo, pelos três princípios alquímicos (enxofre, sal, mercúrio); ou, ainda os três estados de cada elemento em suas fases sucessivas de evolução, de culminação e de involução”5. Dentre os cinco sólidos platônicos, o dodecaedro é o que exprime a síntese mais perfeita:

(…) não é só a imagem do Cosmo, o seu número, a sua fórmula, a sua Idéia. (…) É a realidade profunda do Cosmo, a sua essência. Pode-se dizer, sem que isso implique força de expressão, que o dodecaedro é o próprio Cosmo. (…) Símbolo geométrico de valor insigne, o dodecaedro, construído segundo as proporções da razão áurea ou número áureo (e a partir do pentagrama6, cujo valor benéfico é conhecido), é das formas a mais rica em ensinamentos eurrítmicos, cosmogônicos e metafísicos. Lembra, com efeito, o mistério das evoluções do físico-químico para o vital, do fisiológico para o espiritual, em que se resumem a história e o sentido do universo7.

5 CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1990. p.348.

6 O pentagrama simboliza um microcosmo e representa casamento, felicidade e realização. Sua simbologia fundamenta-se no número cinco, como união de opostos e síntese de forças complementares, resultante da soma dos números dois e três, princípios feminino e masculino, respectivamente. Cf. CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Op.cit. p.706-7

7 CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Op.cit. p.345

Peixes é o último signo do círculo zodiacal e, de certa forma, acumula, funde e sintetiza a experiência de todos os outros signos. Representa a conclusão de um ciclo e a matriz para o início de outro ciclo, como o símbolo da serpente ourobórica que devora a própria cauda.

O signo de Peixes está em conexão com um reino cuja profundidade e cujos limites são insondáveis e imensuráveis. Em Peixes temos a Água Mutável8, que dissolve e ao mesmo tempo fecunda, que funde e mistura formando uma massa anônima e em constante movimento. Representa o ilimitado, o infinito, o global, o todo, o latente, o inefável, a fusão e a comunhão. É como oceano, fluido, complexo e misterioso, comparável à alma humana, onde está o segredo da fonte da vida, a chave do mundo dos sonhos, da imaginação e da fantasia, este reino que a psicologia chama de inconsciente9. Peixes é regido pelo planeta Netuno, relacionado ao deus Poseidon da mitologia grega, senhor das profundidades oceânicas. O Netuno astrológico simboliza a psique inconsciente, a expressão do inconsciente pessoal e coletivo, a imaginação, a fantasia, os sonhos, o princípio de extensão, o incorpóreo, aquilo que está abaixo da superfície, o invisível, a ampliação do campo de consciência, o que não tem limites fixos, a fusão e a dissolução, as metamorfoses, a transcendência. Em sua manifestação positiva, Netuno “pode produzir grandes realizações espirituais, novas com uma constante elevação, com amplitude afetiva”10 e favorecer as experiências místicas e artísticas. Em sua expressão negativa – como o deus Poseidon que se irrita, agita as águas e faz emergir os monstros dos abismos marinhos -, manifesta “as pressões do inconsciente, os pesadelos, os sonhos, as fantasias; emergem as neuroses, e os complexos estendem-se ao comportamento externo, manifestam-se as projeções dos delírios, as regressões ou as identificações: então Netuno penetra no campo da psicopatologia e põe a nu as tramas secretas dos estados crepusculares da consciência, faz emergir os arcaísmos esquizofrênicos nos quais reina a mais completa confusão, a treva dos abismos, onde o Eu se identifica com sombras e arquétipos num fantástico delírio auto-exultante ou destruidor11.” Os doze personagens de Dodecaedro, diante de uma situação de opressão, isolamento e forte pressão psicológica, têm diferentes reações, cada um conforme sua inclinação e temperamento, de acordo com o padrão do signo que representa. Alguns se comportam de forma agressiva e desagregadora e outros de maneira afetiva, amorosa e sexual, mas quase sempre predomina a confusão, estado semelhante aos maremotos abissais e o caos primordial, simbolizados por Peixes e por Netuno.

8 Este signo faz parte da classificação astrológica da Cruz Mutável, composta pelos signos de Peixes, Virgem, Gêmeos e Sagitário.

9 Pode-se observar uma relação entre as palavras Pisces (do latim, signo de Peixes), Psique e Psi, numa conexão com o mundo da alma e do inconsciente. A letra grega “psi”, usada como símbolo da psicologia, é quase idêntico ao glifo do símbolo astrológico de Netuno, o planeta regente de Peixes. A letra Psi e o glifo de Netuno se assemelham a um tridente, instrumento sempre presente nas mãos do Netuno mitológico e, entre outras funções, serve para salvar os náufragos de se afogarem e serem tragados pelas águas.

10 SICUTERI, Roberto. Astrologia e mito: símbolos e mitos do zodíaco na psicologia profunda. São Paulo: Pensamento, 1994. p.213

11Op.cit. p.213

Dodecaedro, como as narrativas míticas, apresenta uma estrutura circular e se dá em tempo e espaço sagrados, fora do contexto cotidiano e ordinário12. O tempo é a época do Carnaval, o espaço é a casa distante da cidade onde estão isolados. As ações narradas ocorrem entre o início da noite e o amanhecer, portanto durante período noturno. A Lua está na fase Cheia, momento de plenitude do ciclo lunar, em que uma das faces do satélite é totalmente visível da Terra, sob a forma esférica. A circularidade da narrativa, que remete à idéia de ciclo e à totalidade e unidade relacionada ao círculo, reiteram o simbolismo do signo de Peixes. A narrativa se inicia e termina com as mesmas palavras13, o que, além de configurar um sentido ritualístico e mágico, assemelhando-se a uma cantilena ou oração, evidencia, pela circularidade e pela repetição, a relação do ciclo com a noção de eternidade: ao mesmo tempo em que o círculo se fecha, abre-se outra vez, infinitamente. A casa, espaço onde se desenvolve a ação, pode ser comparada à décima segunda casa zodiacal, análoga ao décimo segundo signo, e que representa o isolamento, o interior, o escapismo, os lugares fechados, o inconsciente coletivo, etc. A casa é branca, cor que representa a luz e a soma de todas as outras cores, da mesma forma que Peixes, como último signo, sintetiza as experiências dos signos anteriores. O escritor situa a narrativa na época do ano em que o Sol transita na região do céu correspondente ao signo de Peixes, indicando que a ação transcorre durante o Carnaval, no fim do verão. O fim do verão é o fim do período pisciano no hemisfério sul, que antecede o ingresso do Sol na região da Eclíptica correspondente ao signo de Áries. Pela Astrologia, o ano solar e terrestre principia em março, quando o Sol, em seu movimento cíclico, ingressa no signo de Áries e assinala o equinócio de outono e início desta estação no hemisfério sul.

12 Cf. ELIADE, Mircea. Mito y realidad. 2 ed. Madrid: Guadarrama, 1973.

13 “Alecrim, artemísia, absinto, boldo, manjericão, verbena, camomila: eu estava na cozinha fazendo chá de ervas do campo quando soltaram os cachorros loucos.” TA p. 18 e 57.

O simbolismo do Carnaval está relacionado ao signo de Peixes, embora no calendário arbitrário eventualmente ocorra durante o período de Aquário, que o antecede na ordem zodiacal. No círculo astrológico, a etapa evolutiva de Peixes, após a experiência mental aquariana, representa a vivência emocional do contato com a condição humana num cenário universal, a compreensão dos sentimentos e a união da natureza humana universal com a natureza pessoal. Como último signo, há a união de todas as formas numa única unidade, onde, por fim, toda forma individual é anulada, fundindo-se no Todo. Esta imersão na totalidade representa o fim de um ciclo, como uma incubação, gestando o novo ciclo que se abre quando o Sol ingressa em Áries, o primeiro signo do zodíaco.

O Carnaval14 faz parte dos ritos cosmogônicos e de Ano-Novo15. É uma celebração ritual que reatualiza e preserva ritos muito antigos de renovação das forças da natureza. Como nos antigos cultos pagãos, simboliza o final de um ciclo, um rito de passagem para outro ciclo. No fogo das festas, um velho ano/velho mundo é extinto e transmutado, para renascer, numa nova qualidade, na Quarta-feira de cinzas. É um bota-fora, um momento de purgação e purificação. Nas festividades do Carnaval são usadas máscaras e fantasias que funcionam como um meio para estabelecer um vínculo com uma entidade, animal, etc. O uso desses objetos expressa uma identificação com o poder e as qualidades da imagem representada e também um rompimento com um padrão anterior, o abandono de uma personalidade antiga para assumir uma nova. Nas festas carnavalescas atuais, assim como era feito nos ritos antigos, abolimos formas e regras do tempo e espaço cotidianos, misturando-nos uns aos outros, brincando no sem limite. Dá-se uma experiência coletiva de fusão, em que as pessoas formam uma espécie de massa única, participando juntas de uma “outra realidade” ou fantasia coletiva.

14 Cf. FRAZER, Sir James George. O ramo de ouro. Rio de Janeiro: Guanabara, 1982.

15 Cf. ELIADE, Mircea. Mito y realidad. 2 ed. Madrid: Guadarrama, 1973.

Pode-se comparar o grupo de Dodecaedroa um bloco que encena um ritual carnavalesco de renovação e transformação, cujas máscaras usadas por cada personagem configuram o padrão do signo astrológico que lhes corresponde. A máscara é um símbolo de identificação, um objeto de poder mágico que atua como um mediador entre forças distintas. Ao mesmo tempo em que esconde a identidade ligada ao mundo comum, ordinário e cotidiano, neste mundo “especial” ou sagrado, a máscara é uma personaescolhida por quem a utiliza, revelando a verdade, exteriorizando aquilo que se passa no domínio da psique. Outro elemento que faz parte das festas carnavalescas é a brincadeira, a piada e o chiste. No conto, todos foram vítimas de uma mentira inventada pelo personagem que representa Gêmeos, signo regido por Mercúrio. O deus Mercúrio, Hermes na mitologia grega, além de trabalhar na nobre função de mensageiro dos deuses, é conhecido também como mentiroso e trapaceiro. O grupo de amigos, com exceção do personagem enganador, vive uma espécie de ilusão coletiva.

Os eventos no conto Dodecaedrosão narrados na primeira pessoa, por cada um de seus doze personagens, com a intervenção de uma décima terceira narrativa, também em primeira pessoa, dividida em doze partes denominados “fragmentos da décima terceira voz”. São treze narrações, treze planos distintos que se sobrepõem e se interpenetram, monólogos interiores que fluem na correnteza das emoções e, como rios que deságuam no mar, compõem uma unidade narrativa. A décima terceira voz atua como um contraponto de todas as outras, antecedendo e intercalando cada uma, prenunciando o que será narrado. Essa voz pode ser interpretada como a voz do inconsciente em seu diálogo com o consciente — o inconsciente pessoal de cada personagem e também o inconsciente do grupo inteiro. Atua quase como um narrador onisciente, onipresente, mas que opera a partir da perspectiva interna, “por dentro” de cada uma das pessoas e também de si mesmo. Essa voz também pode ser vista como mais um personagem e, assim, a equação se completa: inconsciente = personagem. Tal personagem tem características próprias e todas as histórias (e a história toda) podem ser apenas fruto da imaginação (fantasiar, imaginar e projetar são características do signo de Peixes) deste “personagem-narrador”. A décima terceira voz se diz grávida dos doze personagens, o que reitera a idéia de matriz e fecundidade do elemento Água e da etapa zodiacal de Peixes, análoga ao final da gestação, antes do nascimento que se dará com o acender do Fogo de Áries, primeiro signo do zodíaco.

A unidade proposta por Dodecaedrorepresenta o círculo zodiacal como um todo. Em Dodecaedro, assistimos a uma coreografia cósmica, um bloco de cristal onde dançam doze feixes de luzes na representação do zodíaco. Cada personagem corresponde a um signo, de acordo com suas características comportamentais, maneira de pensar, traços físicos, formas de expressão, etc. Tais características podem ser observadas ao longo de todo o texto, a partir das narrativas de cada personagem e da décima terceira voz, compondo aos poucos o perfil astrológico de cada um. Os personagens se dão a conhecer a partir da sua subjetividade, através de seus sentimentos e emoções (simbolizados pelo elemento Água), identificados através do que é expresso em seus pensamentos, gestos, atitudes, relação com o grupo, visão pessoal de si mesmos e dos outros. O ponto de vista da narrativa vai se alterando, mostrando os fatos pela ótica de cada um dos doze personagens e da décima terceira voz, numa narrativa de várias vozes, como as múltiplas vozes do oceano, semelhante ao fluxo e refluxo das ondas e marés16. Os tempos verbais utilizados – presente e passado – criam um movimento de vaivém, como as ondas, e acentuam a relação com o elemento Água. Cada personagem/voz é introduzido pela décima terceira voz, que se apresenta através de doze fragmentos distintos, alternadamente, estrutura que reforça a sensação do movimento ondulatório das águas. A apresentação dos personagens propriamente dita e a indicação de sua correspondência com os signos astrológicos é feita logo no início da narrativa pelo personagem Raul que, como veremos, pertence ao signo de Câncer, primeiro signo da trilogia de elemento Água. A ordem em que os personagens aparecem não respeita a seqüência da roda zodiacal, nem parece seguir qualquer outra ordem lógica, o que reafirma a idéia de desordem e caos, comparado ao instante antes do Big Bang, ao momento antes do nascimento e ao caos primordial simbolizados por Peixes. A narrativa é circular e termina com as mesmas palavras com que se iniciou, e que, por sua vez, abrem o círculo novamente, recomeçando a história que está sendo contada e escrita pela personagem Anaís, do signo de Peixes, último signo da trilogia de Água.

16 No livro As ondas, de Virginia Woolf, é possível observar um procedimento narrativo semelhante.

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