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Astrologia e Astronomia: das Origens ao Renascimento

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Juan Vernet

Astrología y Astronomía en el Renacimiento

Tradução

Virgínia Soares Pereira

Reúnem-se no volume em apreço dez trabalhos que estiveram na base do programa de um Curso realizado na Universidade de Málaga, em Setembro de 1988, sobre o tema “La astronomía y la astrologia en su tradición desde el Mundo Antiguo”. Segundo o editor, este conjunto de contribuições, procedentes de investigadores de várias universidades, teve como objetivo indagar a forma como surgiu e se processou a relação polêmica entre astronomia e astrologia – tão estreitamente vinculadas, duas partes de uma mesma ciência, como disse Ptolomeu – desde os tempos mais recuados (pré e proto-históricos), passando pela Grécia, Roma, Árabes, Bizâncio e Ocidente. O referido Curso integrou-se no Projeto intitulado Instituto Universitário de Investigación sobre el Mediterráneo Antiguo, da Universidade de Málaga, um projeto que teve neste livro a sua primeira realização.

O primeiro estudo, da responsabilidade do editor do volume, Aurélio Pérez Jiménez (da U. Málaga), intitula-se “La doctrina de las estrellas: tradición histórica de una ciência” (pp. 1-42) e pretendeu traçar uma panorâmica geral e diacrônica das milenares relações entre astrologia e astronomia. A leitura deste capítulo vem confirmar uma impressão generalizada: a de que, quando decresce o interesse pela astronomia, ganha terreno a astrologia. Por isso se pode afirmar que a história da doutrina das estrelas tende a transformar-se na história da astrologia, dos seus defensores e dos seus detratores. O artigo começa por evocar o grande nome da astronomia antiga, Ptolomeu de Alexandria (que viveu no séc. II d. C., no tempo dos Antoninos), remetendo para o Tetrabiblos I, onde se afirma que a ciência dos corpos celestes se divide em duas partes: compreensão das formas que adquirem os movimentos dos astros (astronomia) e observação das mudanças que as suas características naturais produzem nas coisas (astrologia).

De seguida, e acompanhando a tendência atual, atribui-se aos Caldeus os primeiros estudos no domínio da “ciência das estrelas”; passa-se depois ao tipo de observação do céu feita pelos Gregos, sobretudo a partir do momento em que entraram em contacto mais assíduo com o Oriente (isto é, depois das conquistas de Alexandre Magno): exploraram por um lado a astronomia, através da racionalização e geometrização do céu, e por outro a astrologia, com a mitificação do céu e a insistência teórica na horoscopia individual, típica do helenismo tardio, embora uma e outra tendam a fundir-se e a confundir- se (como virá a acontecer com a astrologia médica, que tanto êxito alcançou entre Romanos e Árabes). Nesta área de investigação, relevam-se como principais expoentes Pitágoras (séc. VI-V) e os Pitagóricos, com o seu culto dos números e seus reflexos na astrologia, astronomia e música, Aristarco de Samos (séc. III a.C.), Hiparco (séc. II a.C.) e, sobretudo Ptolomeu de Alexandria (séc. II d.C.), cuja Megale Syntaxis, Grande Coleção, conhecida entre os Árabes por Almagesto (uma obra na qual se expõe de forma sistematizada a astrologia matemática), se converterá em manual de estudos imprescindível na Idade Média e no Renascimento.

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Mais especificamente no processo de mitificação do céu, desempenham particular papel um cientista, Eratóstenes, e, mais tarde, Arato, um poeta de formação estóica que, com o seu poema intitulado Phaenomena (Aparências), “cubrió formalmente el cielo com dioses y semidioses” (p.19), fixando definitivamente para a cultura ocidental os nomes míticos das estrelas, graças às traduções para latim de Cícero, Germânico e Avieno.

Em Roma, a astrologia domina largamente, apesar da forte oposição de figuras como Catão, Cícero ou Lucrécio, “que não admitem o fatalismo implícito na doutrina astrológica” (p. 27). Ninguém se aventura a realizar qualquer ação sem saber de antemão qual o veredicto das estrelas; na esfera política ou pessoal, a astrologia não deixará de fazer sentir a sua influência até ao final do Império Romano. E na história da Igreja podem ver-se reflexos dessa influência ainda no I Concílio de Braga, de 561, que postula que: “se alguém afirma, ao modo de Prisciliano, que os doze signos do Zodíaco influem nas diversas partes do corpo e estão assinalados com nomes dos patriarcas, seja anátema” (pp. 31-32). Na Idade Média, serão os Árabes e Bizantinos (herdeiros do patrimônio cultural grego) a salvar os conhecimentos sobre as estrelas. Estas são as principais linhas de exposição do artigo.

O segundo trabalho Astronomía pregriega, da autoria de Michael Hoskin, da Universidade de Cambridge, ocupa as pp. 43-58 e incide sobre três áreas de investigação: arqueoastronomia na região mediterrânica (centrada nas Taulas da ilha de Minorca), a astronomia no antigo Egito (associada ao calendário) e a astronomia babilônica. Segue-se (pp. 59-86), de José Luís Calvo Martínez, da Universidade de Granada, o trabalho intitulado “La Astrología como elemento del sincretismo religioso del helenismo tardio”. Aí se estabelece a distinção entre a astrolatria, a saber, a religião astral (os astros entendidos como deuses que podem interferir no destino de cada um), e astrologia, entendida já como forma de adivinhação muito popular. No entender deste autor, Astrolatria, Astrologia, Magia e Religiões constituem os elementos básicos do sistema de crenças da chamada época do sincretismo.

O artigo seguinte (“Astrología, Astronomía y Filosofía de los princípios en Platón”, de Francisco L. Lisi) começa por lembrar que “Astronomía y astrología designan para el hombre occidental contemporâneo dos conceptos antitéticos” (p. 87), como se se opusessem ciência e superstição. Mas não assim para os Antigos, para quem ambas procuram descobrir as relações matemáticas que sustentam o mundo e constituem uma unidade, ou duas partes de uma mesma ciência, como vimos. Relativamente a Platão, o autor realça a preocupação e o interesse do filósofo pela astronomia, evidente pelo lugar que ocupa no currículo da República (7, 528) e pelas implicações político-éticas (por exemplo, no Timeu e nas Leis). São tratados a descrição platônica do sistema celeste, com as suas órbitas astrais, e o movimento ordenado dos astros (pressuposto, para Platão, da teoria das idéias e dos princípios), as noções astrológicas associadas às leis do destino (que unem a existência humana com a ordem da natureza), a teoria da metempsicose, de raiz pitagórica, e o lugar da alma no Além, de acordo com o procedimento moral (no Hades, como castigo; num lugar celeste, como prêmio).

Particularmente interessante é o artigo de J. Luque Moreno, da Universidade de Granada, intitulado “Música celestial: Astronomia y psicologia en la teoria musical de los Romanos” (pp. 111-142). Nele é tratada a questão do papel importante da música no mundo antigo: na Grécia, já no séc. VII a.C. aparece “como factor cultural polivalente que abarca tanto funções recreativas, como ético-cognoscitivas, religiosas ou terapêuticas” (p. 111), sendo por isso considerada como elemento essencial na educação aristocrática. Papel determinante foi, neste domínio, desempenhado por Pitágoras de Samos (560-470), que desenvolveu a sua atividade na Magna Grécia (no seu círculo de Crotona), e encarou a música do ponto de vista da investigação e da experimentação acústica ou acústico-aritmética. A música é vista como eixo da especulação filosófica, com o seu conceito de harmonia, mais metafísico (unificação de contrários, harmonia do universo) que musical, pois que a alma, como o cosmos, é harmonia para os pitagóricos, e o número é a substância das coisas (pp. 113-114). Os Pitagóricos supuseram, em suma, que todo o universo era harmonia e número.

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Com Platão, assiste-se à fratura entre especulação e práxis musical, com prestígio da primeira, próxima da aritmética e da filosofia, e menorização da segunda, aparentada com os ofícios e profissões técnicas – o que terá levado à situação de termos tantos conhecimentos sobre a teoria musical antiga e tão poucos sobre a história real e concreta da música antiga. Já no período helenístico, acentua-se a tendência para uma concepção mais estética do que puramente ética da música, como acontece no Tratado de Harmonia do peripatético Aristóxeno de Tarento.

Em Roma, já no séc. III a.C. há sinais claros de um ensino musical na classe dominante (p. 118). Mas é Varrão Reatino quem tem o principal papel na aclimatação das doutrinas gregas e ponto de partida de toda a erudição musical romana posterior. O Livro VII das suas Disciplinae era dedicado a um tratado de música e dele ficaram reflexos em Plínio, Quintiliano, Aulo Gélio, Censorino, Santo Agostinho (no seu De Musica), Macróbio (no seu amplo e precioso comentário ao Somnium Scipionis de Cícero), Marciano Capela, Boécio, Cassiodoro e Santo Isidoro. Lucrécio prestou atenção ao fenômeno da audição, do eco, da propagação do som, ocupando-se igualmente de outros aspectos culturais ou psicológicos da música (p. 120). Quanto a Cícero, na esteira de Filodemo de Gádara e da sua estética musical epicurista, considera a música como algo destinado ao prazer e à diversão, como se pode ver no De finibus ou nas Tusculanae Disputationes. Diferente é o seu pensamento no Somnium Scipionis, quando se eleva à contemplação e consideração da música, da música sideral, celestial, a respeito da harmonia das esferas, segundo uma teoria de proveniência pitagórico-platônica. Outros autores dedicaram atenção à música, como: Marciano Capela, que consagra o Livro IX do seu De Nuptiis Mercurii et Philologiae (Bodas de Mercúrio e Filologia, sobre as sete artes liberais) à música; Boécio, De Institutione Musica, importantíssima história da música elaborada em começos do séc. VI, que fala da musicalidade natural, da harmonia da anima mundi (na linha do Timeu de Platão), da relação da música com os diversos estados de alma ou caracteres, da sua importância na educação e na organização do Estado. Censorino é também recordado, pois no séc. III compôs o De die natali, no qual pretende estabelecer os fatos astrológicos, musicais e matemáticos que influem na data de nascimento de cada ser humano.

E o autor conclui este interessantíssimo artigo afirmando: “Em resumo, a doutrina pitagórico-platônica acerca da organização musical do cosmos e do próprio homem impregna as páginas dos escritores latinos tardios, técnicos e não técnicos, cristãos e pagãos” (p. 138).

O artigo “Astronomia y Astrologia en Roma” (pp. 143-160) é da autoria de José Martínez Gásquez, da Universidade Autónoma de Barcelona, e tem alguns pontos de contato com o anterior, pois analisa com algum pormenor a relação entre astronomia e literatura em Roma procurando deste modo revelar o gosto dos Romanos pela astronomia (visível em alusões esparsas, digressões ou desenvolvimentos de matéria astronômica), não sem antes evocar também as suas relações com a filosofia (concepções cosmológicas e físicas) e a relação entre astronomia e astrologia. Para os Romanos, a astronomia-astrologia tem interesse no seu reflexo na agronomia (visível nos tratados agrícolas de Varrão ou Columela e na obra de Plínio, o Velho). Vitrúvio, por sua vez, estudou as relações entre astronomia – astrologia e arquitetura.

No capítulo da relação entre astronomia e literatura latina (tema que outros, como A. Le Boeuffle e J. Soubiran, já estudaram), o elenco dos autores referidos (e comentados) é vasto: Varrão, Lucrécio, Cícero (Somnium Scipionis, De diuinatione), Virgílio (Georgica), Nigídio Fígulo (senador contemporâneo de Pompeio e versado em ocultismo), Ovídio (Metamorphoseon Libri), Germânico (Phaenomena), Higino (Astronomica), Manílio (Astronomica), Vitrúvio (livro IX do De Architectura), Plínio o Velho, Séneca (Naturales Quaestiones, VII), Censorino (De die natali), Fírmico Materno (Matheseos Libri VIII), Avieno, Macróbio (comentário minucioso ao Somnium Scipionis), Marciano Capela (De Nuptiis Mercurii et Philologiae, VIII).

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Sobre a astrologia em Roma, é recordada a afirmação satírica de Juvenal segundo a qual a vida dos habitantes da capital do Lácio e do Império se rege pelos ditames dos astrólogos: nada se empreende no âmbito da vida pessoal, familiar ou social sem a sua opinião. É o sinal do impacto da astrologia na vida pública (“Com la llegada de Augusto y el inicio del Imperio, la astrologia domina la vida pública”, p. 158) e na vida privada também. Nada se faz sem que o momento seja considerado oportuno e propício. Havia um tempo para cortar as unhas, outro para a barba, outro para o cabelo… (como lembra Franz Cumont em “Las religiones orientales y el paganismo romano”, Madrid, ediciones Akal, 1987, p. 145).

O trabalho seguinte (pp. 161-178), de J. Vernet, da Universidade Autónoma de Barcelona, sobre “Astrologia árabe”, apresenta uma panorâmica dos principais astrólogos árabes – alguns dos quais de conhecido renome – e da sua influência na Península Ibérica.

Segue-se, de Júlio Samsó (Universidade Central de Barcelona), um estudo sobre “La trepidación en Al-Andaluz en el siglo XI” (pp. 179-210). Aborda a teoria da trepidação dos equinócios, um tema que da Antiguidade passou à astronomia medieval; refere-se em particular a Picatrix, uma obra de magia talismânica escrita no Al-Andaluz no século XI, e ao Tratado sobre el movimiento de las estrellas fijas, de Azarquiel, escrito em Córdova, em finais do século XI. Trabalho de acentuado pendor científico-técnico, apresenta métodos de cálculo dos modelos de trepidação de Azarquiel, ilustrados com dez figuras geométricas.

Anne Tihon, da Universidade de Lovaina, escreve sobre “La Astronomia en el mundo bizantino” (pp. 211-236), acompanhando a exposição com gravuras ilustrativas. A sua visão histórica começa com a obra de Cláudio Ptolomeu, o grande astrônomo de Alexandria, e do seu comentador Téon, de Alexandria, mas é com Tribónio (a quem se atribui um comentário, em verso, à Tábua de Ptolomeu, listas cronológicas dedicadas a Juliano, um texto sobre o calendário e alguns textos sobre astrologia, p. 212) que surge o primeiro nome relacionado com a astronomia em Constantinopla, no séc. VI, pertencendo já ao século seguinte o primeiro tratado bizantino de astronomia, da autoria de Estêvão de Alexandria. Com o avançar do tempo, a astronomia bizantina refletirá, além de gregas, influências árabes e persas. Apesar do que ocorreu no ano de 1204, ano da tomada de Constantinopla na quarta Cruzada, no qual desapareceram muitas obras de arte e manuscritos, a produção dos astrônomos bizantinos é vasta e pode consultar-se no Corpus dos Astrônomos bizantinos.

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Quanto à astrologia, textos bizantinos podem consultar-se nos 20 volumes do Catalogus astrologorum Graecorum, editado em Bruxelas de 1898-1936. Uma pormenorizada e elucidativa lista bibliográfica, acompanhada de notas, preenche as páginas 226 a 236 deste bem informado artigo.

Registre-se, por último, o estudo que encerra o volume. É da autoria de Santiago Sebastián López, da Universidad Literária de Valência, e intitula-se “La tradición astrológica en la España del Renacimiento”. Depois de uma breve síntese sobre a astrologia em Espanha, o estudo prossegue com a análise de três obras iconográficas, começando pelo estudo da abóbada da Biblioteca da Universidade de Salamanca, cuja iconografia participa plenamente do espírito do Proto-Renascimento. Lúcio Marineo Sículo falou dessa obra artística que é a abóbada no seu De Hispaniae Laudibus, editado em 1493, dizendo dela que causava agrado aos espectadores ver um céu estrelado com os planetas e os demais signos. Dois anos depois visitou a Universidade o alemão Münzer, que considerou que nessa abóbada estavam representados os signos do Zodíaco e as artes liberais. Uma pormenorizada descrição da decoração que ainda existe, hoje musealizada, pode ler-se nas pp. 243-247 do volume.

Analisa-se de seguida a relação arquitetura e astrologia na orientação do Mosteiro do Escorial (pp. 247-249). Finalmente, procede-se ao estudo da igreja El Salvador de Úbeda, uma construção funerária: é analisada a iconografia da sua fachada principal e a sua simbologia (alusão à imortalidade da alma e visão do Além).

Em suma: Trata-se de dez trabalhos que se complementam e são, simultaneamente, diversificados nos seus objetivos e propósitos. Percorrem, além disso, um arco temporal dilatado, pois partem das origens pré-históricas da astrologia e vão até ao Renascimento espanhol. O primeiro artigo, de âmbito geral, apresenta o essencial da evolução histórica da astrologia e astronomia; o segundo é dedicado à astrologia pré-grega; seguem-se dois trabalhos consagrados ao pensamento grego, sendo os dois seguintes relativos aos contributos do período romano; segue-se um artigo sobre astrologia árabe, outro sobre a trepidação no Al-Andaluz no século XI, outro sobre a astronomia no mundo bizantino e, finalmente, um sobre a tradição astrológica em três registros iconográficos da Espanha do Renascimento. Todos os estudos vêm acompanhados da necessária e, por vezes, abundante bibliografia.

Assim, o volume recomenda-se pela qualidade e variedade das abordagens sobre a “doutrina das estrelas” e qualquer leitor encontrará nele motivos de interesse. Se algo há a lamentar, é, sem dúvida, a ausência de índice final, temático ou onomástico, o que dificulta ou empobrece a consulta de uma obra que é tão rica e variada em informação.

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