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As Virtudes de Giotto

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Glenn W. Erickson

Traduzido por Tassos Lycurgo

La Cappela degli Scrovegni

Pintado, provavelmente, em algum momento entre 1303 e 1306 e dedicado à Virgem Anunciada, a obra-prima de Giotto di Bondone é o interior, em afresco, da Capela Arena, a qual, em Pádua, encontra-se no mesmo lugar de um antigo anfiteatro romano, de sorte que é desta feita que se dá a sua denominação. O patrono foi o mercador Enrico Scrovegni, sobre cujo túmulo, na capela, encontra-se a seguinte inscrição: “Este lugar, chamado de Arena pelos Antigos, / Torna-se um nobre altar para Deus, extremamente preenchido pela majestade divina. /… lugares preenchidos com maldade são designados ao uso honesto. / E vejam, este que foi o lar dos pagãos, construído por uma grande multidão, / Foi demolido com grande ira / E agora está miraculosamente abandonado… / Virtudes divinas substituem os vícios profanos, / Os regozijos celestes, que são superiores, substituem os terrenos”1. O intento do presente trabalho é o de sugerir uma explicação para o método a partir do qual Giotto (1266?-1337) organizou as virtudes divinas no seu projeto para a Capela Arena.

1 Citado em: ONIANS, John. Bearers of Meanings: The Classical Orders in Antiquity, the Middle Ages, and the Renaissance. Princeton: Princeton UP, 1988, p. 114.

O projeto inclui três fileiras de afrescos, que, somados, totalizam trinta e quatro, os quais se distribuem ao longo das paredes do meio e superior. A fileira acima de todas mostra cenas do início da vida da Virgem; a fileira do meio, cenas da vida de Cristo; e, a fileira mais abaixo, cenas da Sua Paixão. Um afresco do Julgamento Final reveste a parede da entrada2. Ao longo da parte mais baixa das paredes, encontram-se figuras alegóricas dos vícios profanos e das virtudes divinas, com seus nomes, em latim, escritos sobre eles. Na esquerda de quem entra e olha para o amaldiçoado no Julgamento Final, estão os vícios; na direita, as virtudes. Pintados monocromicamente sobre um fundo que é colorido de tal forma a assemelharem-se ao mármore, essas figuras mais parecem ser altos-relevos do que representações bidimensionais.

2 Além disso, defronte, sobre o vão que leva ao santuário, encontra-se Deus, o Pai, enviando São Gabriel em sua missão; e, abaixo dessa cena, encontram-se quatro afrescos, dois dos quais mostram a Anunciação. Em cima, o teto abobadado é enfeitado com dez medalhões de Jesus, Maria e dos profetas.

A Loucura é um jovem abobalhado com uma clava, usando um chapéu emplumado; a Prudência é convencionalmente retratada como uma mulher madura que está sentada em uma escrivaninha sobre a qual repousa um livro; ela olha fixamente para um espelho e o perfil de um homem barbado aparece atrás de sua cabeça, representando uma segunda face. A Inconstância esforça-se para manter-se equilibrada enquanto encontra-se sentada em uma roda oscilante sobre um solo inclinado; a Coragem, revestida da pele de um leão, segura uma haste ornada com um leão e um escudo contra o qual, sem efeito, golpeiam-se flechas.

A Ira é uma mulher desguedelhada rasgando a roupa na altura de seu tórax, refletindo um gesto padrão de raiva3; a Temperança encontra-se serenamente segurando a bainha de uma espada.

3 Há também o gesto de Caifás em relação a Cristo, em um afresco localizado acima.

No centro, abaixo do parapeito, encontram-se os dois maiores afrescos (120 x 60 cm contra 120 x 55 cm dos demais), quais sejam, os da Injustiça e da Justiça4.

4 Orians vê essas figuras como exemplos do contraste entre o vício romano e a virtude cristã, mencionado pela inscrição citada a seguir: “A Injustiça é mostrada sentada abaixo de uma abóbada maciça e circular, já dividida por uma rachadura. A falha prova que o prédio é romano e não romanesco, pois alude diretamente à arena demolida pela fúria divina. A Justiça, por outro lado, é entronizada em um nicho gótico elegante, que é feito de abóbadas pontudas, que recordam o estilo da capela” (op.cit., p. 116).

A Idolatria é enrolada com uma corda por um pequeno ídolo, o qual se encontra seguro por uma de suas mãos; seu elmo cobre suas orelhas, de sorte que ela fica surda às palavras de Deus, de cima provenientes; a Fé se encontra em atitude hierática, segurando um pergaminho e uma cruz latina, montada sobre um bastão.

A Inveja, de cuja boca emerge uma serpente, aperta uma bolsa e é consumida por chamas; a Caridade, com um vaso de frutas, dá uma pêra a uma figura masculina, que desce do céu.

O Desespero enforcou-se; a Esperança levanta-se para a sua coroa no céu.

Tabela 1

As sete virtudes e suas qualidades opostas estão dispostas na ordem apresentada pela Tabela 1. Essa ordem é altamente problemática e, ao que parece, ninguém foi capaz de explicar a concepção subjacente a ela. Muitas questões concernentes à organização vem imediatamente à mente. Em primeiro lugar, por que estão as três virtudes teológicas, dadas pela revelação divina, mais longe do altar do que as quatro virtudes naturais, disponíveis à luz da razão natural? Em outras palavras, por que é dado às virtudes pagãs o orgulho de seu lugar em detrimento das cristãs?

Em segundo lugar, por que as três virtudes teológicas são dadas na ordem Fé, Caridade e Esperança, enquanto na fonte bíblica (I Coríntios, 13:13) tal ordem é dada como Fé, Esperança e Caridade, sendo a última dessas nomeada como a maior de todas?

Em terceiro lugar, por que as quatro virtudes naturais aparecem na ordem Prudência, Coragem, Temperança e Justiça enquanto na fonte clássica (República, IV, 427e) Platão as explica como tendo uma ordem ascendente de prioridade, que se dá por Temperança, Coragem, Prudência e Justiça? Até mesmo no Comentáriode Macrobius, as quatro virtudes são dadas em uma ordem neoplatônica (Prudência, Temperança, Coragem e Justiça)5.

5 MACROBIUS. Commentary on the Dream of Scipio. Trans. by William Haris Stahl. Record of Civilization, Sources and Studies 48. New York: Columbia UP, 1952.

Em quarto lugar, por que os sete vícios não correspondem de maneira óbvia aos sete pecados mortais (ou capitais), tais como se encontram, diga-se, no Infernode Dante (em ordem decrescente de importância: orgulho, inveja, ira, preguiça, ganância, gula, luxúria)?

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Para que sejam explicadas tais anomalias, faz-se mister que se entenda algo da teoria de correspondências, de acordo com a qual, uns conjuntos quaisquer de coisas, desde que provenham de diferentes reinos de seres, são vistos como participantes uns do outros, graças à mediação do número de coisas que cada conjunto contém. Em outras palavras, coisas que aparecem em um grupo de — diga-se — sete ou doze elementos desfrutam de uma íntima relação com outro grupo de sete ou doze elementos. Essa doutrina origina-se da anterior doutrina das concordâncias, por meio da qual, pessoas, lugares e coisas no Velho Testamento são vistos como antecipações de pessoas, lugares e coisas no Novo Testamento e estes, por suas vezes, são vistos como realizações, cumprimentos daqueles. Assim, os sete dias da criação são tidos como o modelo e a semana santa (Domingo de Ramos, Segunda-feira Santa, Terça-feira Santa, Quarta-feira de Trevas, Quinta-feira Santa, Sexta-feira da Paixão, Sábado de Aleluia) como o seu antimodelo, apresentado no Novo Testamento. Ao se manter a tradição gótica de se traçarem paralelos entre o Velho e o Novo Testamento, as faixas decorativas nas paredes da Capela Arena contêm bustos de santos e profetas, assim como cenas do Velho Testamento falqueando aquelas do Novo Testamento que as completam.

Desde os tempos patrísticos, houve uma tentativa paralela de sincretizar a bíblia com a estrutura do cosmos, tal qual determinada pela ciência helênica. Os dias da semana, por exemplo, são nomeados em função de sete divindades clássicas, as quais também oferecem seus nomes aos sete planetas.

Tabela 2

As ordens dos planetas e das esferas planetárias são dadas de forma variável nas fontes antigas. A Tabela 2 exibe ordens de importância especial para a tradição ocidental: 1) a ordem encontrada em Eratosthenes (Theo Smyrnaeus, 142; Chalcidius, LXXIII) e que Macrobius chamou “egípcia” e atribuiu a Platão; 2) a ordem da astronomia grega tardia (Ptolomeu), chamada por Macrobius de “caldéia” e sobre a qual Ptolomeu clama ser mais antiga que a primeira ordem apresentada; e 3) a ordem dos dias da semana, que, de acordo com a etimologia dos seus nomes, está presente na maioria das línguas latinas6.

6 Esta é também a ordem da astrologia hindu; a identificação da semana santa hebraica com divindades planetárias gregas específicas talvez foi baseada em uma fonte (zoroástrica) comum para a ciência indiana antiga.

Concernindo aos sete pecados mortais (primeiramente mencionados por Horácio, Ep. 1.1, 33ff), S. J. Tester cita o comentário de Servius no Aeneid, VI 714: “os astrólogos alegam que quando as almas descem, elas arrastam consigo a preguiça de Saturno, a ira de Marte, a luxúria de Vênus, o desejo de riqueza de Mercúrio, o desejo de poder de Júpiter”7. Tester continua e concorda com a opinião de Zielinski de que os dois pecados mortais restantes, quais sejam, a gula e a inveja, devem ser respectivamente correlacionados com “o sol que se autoconsome, e com a lua pálida.”

7 TESTER, S. J. A History of Western Astrology. Wolfeboro, NH: Boydell, 1987, p.119.

As Sete Dádivas do Espírito Santo, por suas vezes, são correlacionadas com as Esferas Planetárias.

Victorius, Bispo de Pettau, que morreu na perseguição diocleciana de 304, uniu os Salmos 32:6 e Isaías 11:3, e teve os sete céus com os sete espíritos: “o mais alto céu, o da sabedoria; o segundo, o do entendimento; o terceiro, o do conselho; o quarto, o da virtude; o quinto, o do conhecimento; o sexto, o da piedade; e o sétimo, o do temor a Deus.” Santo Ambrósio fez a mesma conexão e as denominou “as sete principais virtudes do Espírito Santo” (Ep. XXXI.3) e, assim, passaram para o pensamento medieval os sete pecados mortais e as sete dádivas do Espírito Santo, ou seja, a associação da astrologia. (Tester, 1987, p. 119)

Na Idade Média tardia, os Livros das Horas correlacionaram as sete dádivas do Espírito Santo com as sete horas canônicas (matinas, prima, terça, sexta, nona, vésperas, completas), sendo elas mesmas anti-modelos dos sete momentos em que Davi rezou ao Senhor em Salmos 69.

O esquema de Giotto é diferente porque ele não está trabalhando com a oposição entre os sete pecados capitais e as sete dádivas do Espírito Santo, mas sim com as sete virtudes e seus opostos. Se, contudo, através da mediação dos sete pecados capitais, tivéssemos de correlacionar as sete virtudes com os sete planetas, chegaríamos às correlações apresentadas na Tabela 3.

Tabela 3

A lógica nessas correlações deve ser algo como o seguinte: a preguiça nos deixa inertes, a esperança nos estimula. O orgulho nos modela como falsos ídolos; a fé nos retorna a Deus. A ira é uma raiva com intemperança. A luxúria e a caridade são ambas formas de amor. A ganância nos faz injustos. A gula é uma imprudência. E a inveja se apropria do melhor de nós quando nos falta força de caráter. Desde que os sete pecados capitais não são claramente correlacionados com as sete virtudes, Giotto opõe-se às sete virtudes com vícios indicados acima, que são mais apropriadamente correspondentes. Mas ainda não nos dirigimos ao ponto principal: se Giotto tinha em mente uma certa correlação entre as virtudes e os planetas, o que ele quis dizer ao colocar os planetas na ordem em que ele os colocou? Não seria um sacrilégio se introduzirem planetas e, assim, deuses pagãos na igreja cristã?

No meio do hipódromo romano, havia altares para Saturno, Júpiter, Marte, seguidos, exatamente no centro, de uma pirâmide do Sol e, posteriormente, de mais altares para Vênus, Mercúrio e para a Lua. Os cavalos corriam dando sete voltas ao redor da pirâmide porque os planetas somam apenas sete8. Se a Arena na Pádua romana seguisse esse padrão, os deuses apareceriam ordenados na forma que Macrobius atribui aos caldeus.

8 Veja-se J. Laurentius Lydus, De MensibusI.12; citado em: SANTILLANA, Georgio de e VON DECHEND, Hertha. Hamlet’s Mill: An Essay on Myth and the Frame of Time. Cambridge: Macmillan, 1969, p. 206n5.

Tabela 4

Por contraste, se os planetas são combinados na ordem das virtudes de Giotto (Tabela 4), teríamos a ordenação dos sete planetas da astrologia hindu e a dos dias da semana (Tabela 2). Giotto organizou as sete virtudes de tal maneira que as séries conduzem ao senso alegórico da Semana Santa9. Virtudes divinas substituem as profanas.

9 R. Kapan menciona que Ronald Decker observou muitas conexões iconográficas entre as cartas de tarô e esses afrescos. KAPLAN, S. R. The Encyclopedia of Tarot. 2 vols. (New York: U. S. Games Systems, 1979-1986); II: 139, biblio. Kaplan continua e diz que a influência dos afrescos de Giotto no Tarô é desconhecida; nós mantemos que Giotto e o pintor do Tarô Visconti-Sforza estavam agindo a partir da concepção comum da relação das virtudes e dosdias da semana.

O oitavo dia na série seria o Domingo de Páscoa, correspondente ao afresco do Julgamento Final na parede de entrada. Há, circunstancialmente, uma doutrina mística medieval que diz que a matriz dos homens razoáveis é a de que suas semanas terão apenas sete dias. Se algum puder chegar ao oitavo dia, sem que este seja o primeiro dia da próxima semana, é que ele estará com Deus, na eternidade.

Pintura Italo-Gótica: Giotto, un Artista Innovador

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