Temas Transcendentais

Coagulatio et Sublimatio

prayer-alquimia_org

Luiz Roberto Delvaux de Matos

Centro Brasileiro de Psicologia Analítica

 “Como foi dito que você é meu gêmeo e meu verdadeiro companheiro, examine-se a si mesmo para compreender quem você é. Eu sou o conhecimento da verdade. Se você me acompanhar, ainda que não compreenda, já passou a conhecer, e será chamado ‘aquele que conhece a si mesmo’. Pois quem não se conheceu, nada conheceu; mas quem se conheceu alcançou ao mesmo tempo conhecimento sobre as profundezas de todas as coisas”.

Book of Thomas the Contender

Introdução

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Existe uma interessante inter-relação entre a alquimia, a psicologia e o simbolismo astrológico. C. G. Jung no final de seu livro “Misterium Coniunctionis” resume a alquimia: “… todo procedimento alquímico pode muito bem representar o processo de individuação num indivíduo particular, embora com a diferença não desprovida de importância de que nenhum indivíduo particular abarca a riqueza e o alcance do simbolismo alquímico. Este tem a seu favor o fato de ter sido construído ao longo dos séculos”. 1

1 Anatomia da Psique, p. 22

Podemos assim entender que as imagens alquímicas descrevem o processo de individuação. Na mesma linha de raciocínio, a astrologia, através de seus simbolismos planetários, nos dá uma imagem potencial do indivíduo no exato momento de seu nascimento – seu mapa natal.

Na “Tábua da Esmeralda de Hermes” se diz: “Aquilo que está em baixo é igual àquilo que está em cima, e aquilo que está em cima é igual àquilo que está em baixo, para realizar os milagres de uma só coisa”. Os luminares e planetas astrológicos correspondem aos metais na Terra:

Sol = ouro
Lua = prata
Mercúrio = mercúrio
Vênus = cobre
Marte = ferro
Júpiter = estanho
Saturno = chumbo

Para os alquimistas, à medida que estas esferas giram em torno da Terra, derramam seus metais correspondentes no seu interior, podendo-se extraí-los através de procedimentos alquímicos.

Na psicologia, podemos interpretar estas imagens como os componentes arquetípicos do ego.

Para exemplificarmos o acima exposto, tomemos o planeta Vênus, também encontrado na Terra como cobre e no simbolismo do corpo humano como estômago. Ontologicamente, o alimento que ingerimos é da mesma natureza que o casamento, ele é prazer. “Depois da queda, o Homem separado Pai-esposo dá-se ao falso esposo Satanás que o come e do qual ele se torna o prazer”. 2

2 O Simbolismo do Corpo Humano, p. 179

Psicologicamente Vênus representa a capacidade de apreciar e valorizar através da percepção e dos sentimentos. Significa também, a disposição de dar ou receber o amor.

Noutro exemplo, temos Saturno que, além de planeta e do elemento chumbo, representa o esqueleto humano e os dentes. Psicologicamente significa a tendência a desenvolver a autodisciplina, a consciência de si mesmo, através da lógica e da concentração.

O trabalho alquímico foi chamado de opus que significa obra. Nesse sentido, quando dizemos o magnum opus de Vivaldi, falamos de sua obra prima, considerando “As Quatro Estações”, como exemplo. Opus é também citado como a arte. Esse opus era entendido como uma tarefa sagrada ou divina que valia o esforço de toda uma vida. A imagem central da alquimia é, portanto a idéia de opus.

O opus também possuía um caráter secreto. Os alquimistas eram responsáveis por um mistério, vedado aos que consideravam que não possuíam o verdadeiro valor:

“Portanto, deves testar e examinar com cuidado a vida, o caráter e a atitude mental de toda a pessoa iniciada nesta Arte, em seguida deves comprometê-la, por meio de um julgamento sagrado, a não permitir que o nosso Magistério seja conhecido comumente ou de modo vulgar”. 3

3 Anatomia da Psique, p. 27

Na psicologia, o opus é um trabalho individual, em diversas fases ou operações, objetivando uma cuidadosa consciência do nível transpessoal da psique.

Isso nos mostra que devemos estar voltados para o Si-mesmo e não para o ego. Na alquimia, o objetivo maior é a Pedra Filosofal. Na psicologia analítica, o objetivo é o processo de individuação.

O opus alquímico apresentava na sua origem um processo iniciado pela natureza, mas que exigia esforço e arte conscientes de um ser humano para ser completada. É num certo sentido, contrária à Natureza, mas noutro, o alquimista auxiliava esta a fazer aquilo que não podia fazer por si mesma. Na psicologia analítica, embora o objetivo natural seja o de atingir a consciência – no interior da psique inconsciente – é necessário um ego para trabalhar esta realização.

Segundo Dane Rudhyar, a astrologia utilizada como técnica para a compreensão básica da natureza é o “resultado do esforço que o homem faz para compreender o caos e a confusão aparente das experiências de sua vida, relacionando-as com um padrão organizado, de atividade cíclica, que ele descobre no céu”. 4

4 A Prática da Astrologia, p. 2

Na psicologia analítica e na astrologia, seus profissionais são também responsáveis pelo caráter “secreto” do seu desenvolvimento. Os conhecimentos que adquirem durante sua formação (a vida toda) conferem poder e responsabilidade pelas informações (misterium) recebidas.

A base para um trabalho de transformação (opus) é teoricamente simples. É necessário em primeiro lugar descobrir o material adequado, a “prima matéria”, submetendo-a posteriormente a uma série de operações objetivando transformá-la na Pedra Filosofal.

Antigos pensadores possuíam uma imagem arquetípica na qual o mundo seria gerado a partir de uma matéria única original. Imaginava-se que esta passara por um processo de diferenciação onde fora decomposta em quatro elementos: terra, ar, fogo e água.

Na psicologia analítica, a imagem acima se refere à criação do ego, a partir de uma diferenciação do inconsciente indiferenciado. Teríamos como resultante as quatro funções: sensação, sentimento, pensamento e intuição.

Na astrologia, a origem seria a Dimensão Zero, de onde tudo provém. Esta dimensão é uma circunferência de 360 graus, “um meio indefinido, onde tudo existe em possibilidade potencial”. 5 Ali não há realização efetiva, nem existe qualquer tipo de mensuração. O que existe nesta dimensão é uma distinção tão pequena quanto possível: o PONTO. Este ponto é um elemento abstrato, um potencial elementar, uma manifestação da Força em via de se tornar individualizada.

5 Dimensões Metafísicas da Astrologia, p. 17

No processo de diferenciação (nascimento), a decomposição se faz através dos signos localizados nos pontos cardeais: Áries, Câncer, Libra e Capricórnio.

“No início era o caos”. De acordo com o “Diálogo do Salvador”, quem não compreender os elementos do universo e de si mesmo, está fadado ao aniquilamento:

“… quem não compreender como o fogo veio a existir, há de arder nele, pois desconhece sua raiz. Quem antes não compreender a água, nada conhece… Quem não compreender como o vento que sopra veio a existir, há de ser varrido por ele. Quem não compreender como o corpo que veste veio a existir, há de parecer com ele. Quem não compreender como veio, não há de compreender como irá…” 6

6 Os Evangelhos Gnósticos, p. 147

A matéria prima é o nosso estado irrefletido de ser. São os afetos, compulsões ou irrupções irracionais. A criança também é considerada a “prima matéria” do adulto, assim como, a sua inocência corresponde ao seu estado de indiferenciação.

A descoberta da “prima matéria” é um processo fundamental na psicoterapia junguiana. Ela está situada na parte da personalidade mais desprezível, nossa sombra. Os aspectos mais dolorosos e humilhantes de nós mesmos são aqueles que devem ser trazidos à luz e trabalhados.

Nos ensina um texto gnóstico encontrado em Nag Hammadi: “ponham um fim ao sono que tanto lhe pesa. Apartem-se do domínio do esquecimento que os enche de trevas… Por que buscam as trevas, se a luz lhes é acessível? …A sabedoria os chama; vocês, todavia, desejam a insensatez …ó homem insensato …segue os rumos dos desejos de cada paixão. Ele nada em meio aos desejos da vida. E ei-lô soçobrando … Esse homem é uma embarcação que o vento joga de cá para lá, como um cavalo solto sem cavaleiro, que é a razão … acima de tudo … conheçam a si mesmos …” 7

7 Ibid., p. 148

De acordo com os artigos escritos por Edward Edinger publicados em revista de psicologia analítica de Nova York 8, o autor afirma que a “prima mater” é o sintoma que leva o paciente à análise. Podemos considerar que o mesmo fato acontece na astrologia. O mapa natal, assim como os aspectos planetários (ângulos que os planetas e luminares fazem entre si) fornecem o potencial diferenciado de cada indivíduo. A sombra ou “prima mater” está também disponível para análise (especialmente na relação das casas de água e terra).

8 A Dinâmica do Inconsciente, p. 197

A “prima mater” é indiferenciada, sem formas, limites ou fronteiras. Isso expõe o ego ao infinito, podendo provocar o medo (ou terror) da dissolução ou da falta de fronteiras. Em geral, o indivíduo é levado a contentar-se com seus limites de ego ao invés de arriscar-se a cair no infinito, ao tentar sua a ampliação de seus horizontes.

No texto gnóstico “O Evangelho de Tomé”, existe a seguinte advertência:

Jesus disse: “Que o que procura continue procurando até encontrar. Ao encontrar, ficará perturbado. Ao se perturbar, ficará maravilhado e então reinará sobre todas as coisas”.

Para transformarmos a “prima mater” encontrada é necessária submetê-la a uma ou mais operações alquímicas (psicológico-astrológicas).

As imagens (símbolos ou sonhos) devem ser organizadas em torno destas. O objetivo é a interpretação da psique objetiva.

As principais operações de transformação são: Calcinatio, Solutio, Coagulatio, Sublimatio, Mortificatio, Separatio e Coniunctio.

Calcinatio é uma operação realizada com o elemento fogo. Jung demonstrou que o fogo simboliza a libido. A Calcinatio é efetuada no lado primitivo da sombra, que possui o desejo faminto e instintivo e é contaminado pelo inconsciente. O fogo para o processo vem da frustração destes desejos instintivos. Psicologicamente, significa que o desenvolvimento será promovido pela frustração dos desejos de prazer e poder. O processo químico envolve o intenso aquecimento de um sólido para que se retire a água e outros elementos passíveis de volatização.

Solutio é uma operação com o elemento água. Transforma um sólido num líquido. É uma operação necessária quando aspectos fixos e estáticos da personalidade não admitem mudanças. Para que a transformação possa ocorrer, estes aspectos devem ser dissolvidos ou reduzidos à “prima mater”. A experiência da Solutio dissolve problemas psicológicos, fazendo a transferência da questão para o domínio dos sentimentos. Responde assim às questões através da desobstrução da libido.

Na alquimia o sólido desaparece no solvente, retorna da matéria diferenciada ao estado indiferenciado original. No trabalho astrológico, associa-se a imagem da Solutio à Lua e Netuno – símbolos de água e de ilusões.

Mortificatio é uma operação que não tem nenhuma referência química. Literalmente significa matar, tendo relação com a experiência de morte. É uma projeção integral de uma imagem psicológica. O alquimista redime a alma (anima mundi) de sua prisão na matéria por meio da morte da “prima mater”. Explosões de afeto, ressentimento, prazer e exigências de poder devem ser submetidas à Mortificatio para que a libido se liberte de suas formas primitivas e infantis.

Na astrologia, consideramos os planetas pessoais (Mercúrio, Vênus e Marte), além da oitava casa – da transformação, morte, amadurecimento, como elementos de análise da Mortificatio. Plutão como regente de Escorpião e da oitava casa nos revela o próprio deus do inferno – o mitológico Hades.

Na Separatio, os alquimistas consideravam a matéria prima como uma mistura confusa de componentes indiferenciados entre si. Portanto, requeria um processo de separação. O metal era extraído do minério puro por meio de aquecimento, pulverização ou de outros recursos químicos. O objetivo era produzir ordem a partir da confusão. Em termos psicológicos, o resultado da Separatio é a consciência dos contrários. É o ego primordial, divisor de opostos, que cria o espaço para a existência da consciência. O objetivo da Separatio é alcançar o indivisível, isto é, o indivíduo.

No estudo astrológico, é realizada a avaliação das relações entre os opostos. Sol e Lua – princípio masculino e feminino; Vênus e Marte – anima e animus; Júpiter e Saturno – darma e carma, entre outros. Estas relações devem ser entendidas através das particularidades de cada símbolo planetário. Ao término da Separatio, os opostos devem ser unificados na Coniunctio – alvo da opus alquímica.

A Coniunctio é o ponto culminante da opus. Nos laboratórios alquímicos registram-se a formação de amálgamas pela união de mercúrio com outros materiais. A imagem alquímica do Sol e da Lua entrando na fonte mercurial tem sua origem na dissolução do ouro e da prata no mercúrio.

No processo terapêutico, através da operação de Separatio, o indivíduo é jogado daqui para lá entre os opostos, de forma quase interminável. Mas lentamente surge um novo ponto de vista que permite a experiência dos opostos ao mesmo tempo. Este novo ponto de vista é a eficácia prática da sabedoria ou da consciência. O que nós chamamos de amor é fundamental na Coniunctio. O amor pelo objeto como aspecto extrovertido da individuação é um amor objetivo, purgado de desejo pessoal, que não é um dos lados de um par de opostos, mas se encontra além – um amor transpessoal. Suas bases estão na fidelidade ao que se acredita, no realizar. O aspecto extrovertido da Coniunctio promove o interesse social e a unidade da raça humana. O aspecto introvertido fornece a conexão com o Si-mesmo e a unidade da psique individual.

Na astrologia, a Coniunctio é observada potencialmente através do entendimento do simbolismo do mapa natal nos seus aspectos pessoais e transpessoais. É representada na sua característica-tempo na técnica de progressão por uma lua nova.

COAGULATIO

coagulatio

 A operação de Coagulatio pertence ao simbolismo do elemento terra. Na alquimia, quando os líquidos coagulam, começam a ficar sólidos. Na psicologia, o processo se dá quando imagens, intuições, idéias e sentimentos se concretizam na vida real (tornam-se ligados a um ego). Na astrologia, as imagens se referem à idéia básica de encarnação – o planeta Saturno.

A criação de qualquer idéia ou sentimento necessita do processo de coagulação. O dinheiro, o alimento e os prazeres são associados a este processo. Também a expulsão do paraíso, o peso, a ambição material. A Coagulatio traz a manifestação concreta, mas também implica em limitação ou prisão. Os mitos nos informam que a Coagulatio é promovida pela ação. Psicologicamente significa que a atividade e o movimento psíquico promovem o desenvolvimento do ego.

O “Turba Philosophorum” dá a receita alquímica da Coagulatio:

“Toma o Mercúrio, coagula-o no corpo do Magnésio, no Kuhul (chumbo) ou no Enxofre que não queima, etc.” 9

9 A Anatomia da Psique, p. 103

A substância que se pretende coagular é o mercúrio. É o espírito autônomo da psique arquetípica, a manifestação do si-mesmo transpessoal. É o ligar o ego com o Si-mesmo. A própria individuação.

Segundo o texto acima, existem três agentes da Coagulatio: magnésio, chumbo e enxofre. O magnésio representava para os alquimistas vários minérios metálicos crus ou misturas impuras. Na psicologia, pode-se considerá-lo como a união do espírito transpessoal com a realidade humana corrente. Na astrologia, o planeta Vênus representa os desejos ainda a realizar:

“Na alquimia existem Vênus e Cupido. A psique é, pois, o feminino. Cupido é o masculino que é tido como dragão. O ‘ad-rubeum’ (avermelhado) se realiza na segunda casa de Vênus (Libra)… Vênus (Magnésia) precede ao Sol…”. 10

10 Mysterium Coniunctionis, p. 53

O outro agente é o chumbo. É considerado pelos alquimistas como um elemento pesado, incômodo e sombrio. O espírito livre deve ligar-se à realidade pesada com suas limitações. Na psicologia, esta associação com o chumbo se dá quando o indivíduo assume a responsabilidade por suas idéias e fantasias através de sua expressão no cotidiano. Na astrologia tradicional, Saturno é conhecido como um planeta maléfico. Até mesmo suas virtudes são enfadonhas – autocontrole, cautela – e seus vícios desagradáveis, porque operam através do medo.

O terceiro agente é o enxofre. Possui cor amarela e é associado ao Sol pelo seu caráter inflamado. Seus vapores exalam mau cheiro e escurecem a maioria dos metais. Segundo Jung, “o enxofre constitui a substância ativa do Sol ou, em linguagem psicológica, a força impulsionadora da consciência: de um lado, a vontade, do outro, a compulsão. O dinamismo inconsciente corresponderia ao enxofre, porque a compulsão é o grande mistério da existência humana…”. 11

11 Anatomia da Psique, p. 105

Sintetizando, podemos afirmar: se a parte do desejo é enxofre, então o desejo é um elemento do Coagulatio.

Na astrologia, o enxofre está relacionado ao planeta Plutão (deus Hades). Este é o último planeta do sistema solar. Representa os nossos limites atuais e a possibilidade de transcendência para que possamos nos dirigir a uma realidade mais ampla.

Os desejos físicos são considerados sensuais e maléficos por muitas religiões e, portanto, alienados de Deus. A crucificação é um tema do Coagulatio. O espírito sofre por ter sido pregado à cruz da encarnação material. É aceitar a responsabilidade pela própria vida.

Na simbologia astrológica de Saturno, temos mostrando a cruz acima de um semicírculo; a matéria sobre o

espírito humano.

O planeta Vênus é simbolizado por

representando o espírito divino acima da matéria. A simbologia utilizada por Plutão

significa a alma criando o espírito fora da matéria.

Podemos encontrar esta mesma trilogia noutro agente de Coagulatio, o mel. Ele era considerado um remédio da imortalidade, pelas suas qualidades de preservação, tendo sido utilizado na Eucaristia por comunidades de cristãos primitivas.

“O atrativo do desejo é a doçura da realização”. 12 Segundo o alquimista Dorn, “um dos agentes necessários para a união do espírito com o corpo (unio mentalis) é o mel. 13 Jung comenta: “Por conseguinte, a mistura adquiriu a propriedade, não apenas de eliminar impurezas, mas também de transformar o espírito em corpo. Para dizer a verdade, a doçura da Terra não é isenta de perigos, o mel pode transformar-se num veneno mortal. Segundo Paracelso, o mel contém tartarum, o qual, como seu nome implica, vincula-se com Hades. Ademais, tartarum é um Saturno calcinado, tendo por isso mesmo afinidades com esse planeta maléfico.” 14

12 Ibid., p. 108

13 Ibid., p. 108

14 Ibid., p. 108

Por isso associa-se também Coagulatio com o mal. Prometeu, que roubou o fogo dos deuses para dá-lo ao homem foi punido e acorrentado a uma pedra, sofrendo um processo de Coagulatio. Psicologicamente, o homem associaria o desenvolvimento do ego à experiência do mal e da culpa, isto é – a consciência do mal em cada um. A percepção da sombra conduz ao processo de coagulação.

A identificação do corpo com a morte acontece porque tudo aquilo existente no plano espaço-tempo deve ter um ciclo de existência:

“Tais energias convivem, porém, uma na terceira dimensão – energia de espaço, e outra na quarta dimensão – energia de tempo. O que comumente se chama de energia de espaço é o EGO, e energia do tempo, o SELF.” 15

15 Dimensões Metafísicas da Astrologia, p.47

Realizada a plena Coagulatio, vem a PUTREFATIO. Aquilo que se concretizou, agora se acha sujeita à transformação:

“O leão, o sol inferior, pela carne se corrompe… Assim o leão tem corrompida a natureza por meio de sua carne, que segue os ritmos da lua, e é eclipsada. Porque a lua é a sombra do sol, e com corpos corruptíveis é consumida; e, por meio da destruição da lua, o leão é eclipsado com o auxílio da umidade de Mercúrio; o eclipse, não obstante, é transmutado, tornando-se útil e de melhor natureza, e ainda mais perfeito do que o primeiro.” 16

16 Anatomia da Psique, p. 113

Assim, podemos afirmar que a lua também realiza a Coagulatio. Associo aqui um princípio da Cabala hebraica na qual a energia divina ao descer a Malkuth (terra) utiliza o caminho de Binah (Saturno – compreensão), sendo então uma energia feminina. Para atingir a casa de Yesod (Lua – estabilidade) perfaz a trilha do Sol (arcano 19). Esta energia, no seu retorno, utiliza a Sephirah de Chokmah (Saturno – sabedoria) com polaridade masculina. Portanto, a Lua é o princípio feminino de Saturno (sol inferior).

Em função do exposto, se afirma que a Coagulatio é de natureza feminina. Só podemos encarnar por meio de um útero.

Toda forma ou manifestação que tornem sólidas nossas energias vitais de expressão é parte da natureza feminina: o país, a comunidade, a família, a vocação, a igreja, a relação pessoal. Podemos com isso dizer que também o relacionamento é uma forma de Coagulatio.

A coagulação não só atinge a relação exterior como a interior. As imagens formadas nos sonhos e na própria imaginação ativa coagulam. Há um vínculo do mundo exterior com o interior através das imagens análogas, coagulando o material vindo da alma. Os afetos e humores nos agitam até que possam formar algo visível e tangível. Na mesma linha de raciocínio, está a própria alquimia, assim como a religião e a mitologia.

Os antigos relacionavam a existência do homem como algo que não podiam controlar. Havia uma predeterminação que denominavam destino:

“Assim, o destino é imaginado como feminino porquanto é experenciado no corpo, e as predisposições inerentes ao corpo não podem ser alteradas malgrado a consciência que habita a carne – assim como Zeus não pode, em última análise, alterar Moira.” 17

17 A Astrologia do Destino, p. 29

A existência encarnada (Coagulatio) é vista como uma prisão. As roupas também são imagens da condição encarnada. É também associável o sonho referente a roupas, quando a morte está próxima. Parecem referir-se a Coagulatio final: a aquisição de um corpo imortal. Esta imagem corresponde ao símbolo da Pedra Filosofal ou alvo final da individualização.

A imaginação da crucificação, onde a cruz representa os quatro elementos alquímicos ou os quatro pontos cardinais, nos traz o simbolismo da Fixação (Fixatio) como um sinônimo de Coagulatio.

O espírito não coagulado é livre, porém pregado na cruz do mundo, porque não possui consciência. Necessita de um ego realizado de forma concreta para que possa fazer sua transcendência. Na alquimia, o valor a ser redimido é um aspecto da divindade. A formação do ego serve como função redentora de um valor perdido.

A assimilação pelo ego indica que algum conteúdo inconsciente está pronto para a Coagulatio. Comer alguma coisa significa incorporá-lo, torná-lo corpo. O alimento ingerido simboliza a necessidade de assimilar uma relação com o Si-mesmo. Torna-se o alimento da imortalidade. “Eu sou o pão da vida”, fala Cristo 18. O sacramento cristão da Comunhão é um rito de Coagulatio. O compartilhar do alimento eucarístico significa a incorporação, por parte do ego, de uma relação com o Si-mesmo.

18 Anatomia da Psique, p. 129

O Coagulatio é um processo que produz ouro. Através da cristalização, a individualidade se estabelece na vida real. O ouro alquímico é descoberto ao vivermos a vida, não ao extrapolarmos o seu limite.

SUBLIMATIO

sublimatio

 Assim como a Coagulatio pertence à terra, a Sublimatio pertence ao ar. No processo alquímico de sublimação, um sólido ao ser aquecido passa para o estado gasoso, subindo até a borda do recipiente onde assume novamente o estado sólido nesta região mais fria. A destilação é um exemplo deste processo. O termo “sublimação” significa “elevado”. Uma substância inferior se eleva mediante um movimento ascendente, obtendo uma forma superior. As imagens referentes a este movimento pertencem ao simbolismo do Sublimatio: escadas, elevadores, degraus, montanhas, voar, etc.

É um processo de transformação de um conteúdo instintivo em imagem, através de um exercício de imaginação orientada. É uma função psíquica espontânea.

Diz um texto alquímico: “o espírito, por conseguinte, com a ajuda da água e da alma, é retirado do próprio corpo, e o corpo, desse modo torna-se espiritual; para que, no mesmo instante de tempo, o espírito que contém a alma dos corpos, suba bastante para a parte superior, que é a perfeição da pedra, e se chama sublimação.” 19 Psicologicamente, corresponde a forma de se lidar com um problema concreto. Para que possamos vê-lo objetivamente precisamos nos colocar acima dele.

19 Ibid., p. 135

Na astrologia, a Sublimatio está associada aos planetas Júpiter, Mercúrio e, num nível transpessoal, à Urano. Júpiter, além de ser um planeta do elemento fogo, é o responsável pelo processo de “espiritualização”. Mercúrio, prima mater, é o elemento (ar) que é volatilizado e Urano (ar), no processo maior, é o responsável por nossa libertação, através da consciência.

No céu se localizam as imagens arquetípicas e as formas platônicas. Quando sonhamos ou realizamos, em nível de desejo, uma imagem (por exemplo, uma forte atração sexual por uma pessoa não disponível), estamos diante de um processo de Sublimatio.

Os alquimistas diziam que no final da Sublimação, através da mediação do espírito, surgia uma alma branca que voava para o céu com o espírito. Essa alma branca muitas vezes é representada por um pássaro branco (Espírito Santo).

Algumas correntes metafísicas interpretam esta imagem como a “quintessência” ou “guidance”. Sonhos com pássaros são associados à Sublimatio, assim como a fobia pode indicar um receio ao processo. O temor da morte – Sublimatio definitiva – onde a alma se separa do corpo, é outro exemplo.

A matéria e o espírito quando são misturados em estado inconsciente de contaminação devem ser separados para serem purificados. Assim, a Sublimatio é descrita como uma purificação. A história da evolução cultural da humanidade serve como exemplo, onde os seres humanos aprendem a ver com objetividade a si mesmos e ao mundo.

A habilidade em dissociar é a capacidade de estar acima das coisas e ver a si mesmo com objetividade. No entanto, quando levado a extremos, pode representar um sintoma patológico. Estão incluídas aqui as experiências com alucinógenos.

Outro aspecto da “Sublimatio – ascensão” é o tema do caminho para a eternidade. Na Cabala existem doze caminhos conjugados com dez esferas (Sephiroth). Formam as figuras dos vinte e dois Arcanos Maiores do Tarô. “Na esfera lunar, adquire a função de moldar e aumentar corpos; na de Mercúrio, a capacidade de falar e de interpretar; na de Vênus, o impulso da paixão; na esfera do Sol, sentidos – percepção e imaginação; na de Marte, um espírito forte; na de Júpiter, o poder de agir; na de Saturno, adquire a razão e no de Urano, entendimento e compreensão.” 20 A alma purificada pode subir os degraus das esferas planetárias. O estado de ligação com Deus deve ser obtido através de orações. Toda esta simbologia está intrinsecamente ligada à imagem da escada.

20 Ibid., p. 152

No simbolismo cristão, a escada é a analogia da cruz: “… Cristo surgiu sobre a terra como uma escada de muitos degraus, e se elevou bem alto de maneira que todos pudessem ser exaltados por seu intermédio…”. 21

21 Ibid., p. 156

Existem aqui dois aspectos a considerar: uma Sublimatio superior e outra inferior. A inferior deve ser seguida por uma descida. A superior é um processo de culminância, o translado para a eternidade. A consciência individual é o produto psicológico do processo temporal da individuação. O tornar-se eterno implica na transformação da consciência adquirida pelo indivíduo num permanente acréscimo da psique arquetípica. A Sublimatio inferior pode nos indicar o surgimento de um processo de Coagulatio.

O movimento ascendente eterniza, o movimento descendente personaliza. Quando ocorre uma combinação destes, forma-se outro processo alquímico, a Circulatio. Na química encontramos a Circulatio no processo onde se aquece uma substância num frasco de refluxo. Os vapores sobem e se condensam, o fluido condensado é realimentado na sua base e o ciclo se repete. A Sublimatio e a Coagulatio se alternam repetidamente. Psicologicamente ocorre uma repetição dos aspectos do ser, um trânsito pelos opostos, experimentados em alternância, até que se verifique uma reconciliação – a personalidade unificada que une a psique pessoal (embaixo) com a psique arquetípica (em cima).

O “filius philosophorum” alquímico começa e termina na Terra. É importante a realidade concreta espaço-temporal do ego. A realização do homem com suas limitações deve ser colocada acima dos ideais de perfeição.

 Conclusão

 Na mandala astrológica existem seis eixos de energia formados por signos em oposição – Áries/Libra; Touro/Escorpião; Gêmeos/Sagitário; Câncer/Capricórnio e Virgem/Peixes. O sétimo eixo é o círculo, a mandala. Cada eixo representa uma operação alquímica ou função psicológica.

A obra de Leonardo da Vinci – A Última Ceia – nos revela toda a complexidade teórica. Da Vinci foi um alquimista das cores, astrólogo e, com certeza, um homem com profundos conhecimentos psicológicos. As linhas diagonais no quadro citado cruzam-se no coração de Cristo. O centro do círculo do arco da porta está na testa de Cristo, e isso expressa a luz do mundo, a unidade e a fonte da vida rodeada por doze tipos humanos, sendo cada apóstolo um receptor das doze forças básicas originadas pela trindade da luz e seu espectro, que formam os doze pólos e os seis eixos.

No primeiro eixo, temos Áries e Libra ou a primeira/sétima casas astrológicas. Encontramos a figura de Simão, líder que usa a energia, incentivando à decisão e à luta, sentado à testa da mesa, impondo pelas suas mãos, a diretiva a tomas. É Áries que mostra franco a sua personalidade combativa.

No outro lado do eixo, encontramos São João. Possui um semblante com harmonia e justiça, aquele que medita e mede. Libra é o coordenador, o colaborador.

Separatio é o processo alquímico e psicológico observado neste eixo.

No segundo eixo temos Touro e Escorpião ou a segunda/oitava casas astrológicas. Touro é o signo da fecundidade física, das operações da função sexual natural e biologicamente compulsiva, ao passo que em Escorpião, as compulsões são psicológicas, mais do que glandulares e instintivas. Estes dois pólos dependem um do outro e Leonardo deu-lhes as figuras dos apóstolos São Judas Tadeu (Touro) e Judas Iscariotes (Escorpião). Enquanto Tadeu aceita e executa com o gesto da mão, Judas Iscariotes enfrenta e mostra sua decisão batendo na mesa.

Neste eixo encontramos a Mortificatio como operação alquímica e psicológica.

O terceiro eixo – Gêmeos e Sagitário ou a terceira/nona casas astrológicas – é a Sublimatio.

São Mateus e São Pedro representam Gêmeos e Sagitário respectivamente. Mateus é o repórter da vida de Cristo, o que viu e conviveu. No quadro, ele estende a cabeça em direção a Simão (Áries) e os braços em direção à Cristo, o que simboliza a dispersão do movimento para todos os lados, querendo falar para várias direções ao mesmo tempo. Gêmeos rege, no corpo humano, os braços e pulmões, o que é dividido em dois. Rege também a comunicação entre as pessoas.

Sagitário representa a lei, a religião e a filosofia. É o pensamento fixo no alto, simbolizado pela figura de Pedro – aquele que “edificou a Igreja”. Com a faca na mão direita representa também a fera, o animal que está no homem. A parte superior, inclinada sobre Judas, é o ser humano em busca do Divino.

A Sublimatio nos sugere que busquemos ideais e, tanto quanto possível, coloquemos em prática nossa imperfeição.

O quarto eixo – Câncer e Capricórnio ou quarta/décima casas – também é objeto deste trabalho: a operação de Coagulatio.

Os antigos simbolizavam no Caranguejo (Câncer) a sensibilidade e a visão do amanhã, assim como, a conservação emocional do ontem. Os passos para frente e para trás representam a fé e a gratidão. Ao se olhar Felipe, veremos o encantamento pela fé, pela visão em Cristo, e que ele conserva esta visão, interiorizando-se pelos gestos das mãos, que fazem o sinal que representa o signo de Câncer.

Capricórnio, a cabra montanhesa, é a expressão da segurança e da prudência. É a razão, a confiança, o raciocínio. A figura de André representa a confiança de hoje.

Capricórnio está relacionado com a conquista da integração, enquanto Câncer diz respeito à estreita unidade biopsíquica de uma situação pessoal. O processo de desenvolvimento do ego inclui a encarnação do Si-mesmo que é paulatinamente assimilada pela consciência do indivíduo, buscando o processo final de individuação.

No quinto eixo temos Leão e Aquário ou a quinta/décima primeira casas astrológicas. Leão significa o rei, o que exerce o magnetismo e a disciplina. As pessoas de Aquário são as pioneiras, precursoras do futuro. São pessoas originais. Leão é a atração, Aquário é irradiação. Leão é o coração e Aquário são as veias.

Da Vinci dá ao gesto de Tiago Menor, com os braços abertos, a significação de que o Leão atinge tudo o que está ao seu redor, mas que ele visa o seu próprio coração. Este gesto dá a entender que ninguém pode duvidar de sua autoridade.

Tiago Maior (Aquário), o irmão de maior idade, visualiza toda a mesa. Ele tem a sua experiência, forma a sua própria idéia, mas sua mão nas costas de São Pedro pergunta: “Meu irmão, o que tu achas?”

A Calcinatio se realiza no lado primitivo da sombra, que engloba o desejo instintivo (Leão) e sofre a contaminação do inconsciente (Aquário). O produto da Calcinatio é a cinza ou “corpo glorificado” que sobreviveu a prova purificadora.

No sexto e último eixo, encontramos os signos de Virgem e Peixes ou a sexta/décima segunda casas. Virgem é a natureza constante em movimento, a vida manifestada. Peixes é a síntese da essência da vida. Simboliza a calma, onde a serpente morde a própria calda, mostrando que no círculo, não há princípio e nem fim. Virgem é o observar, girar, aperfeiçoar; Peixes é o radar, o sentir a perfeição.

De um lado temos Tomé (Virgem), a ansiedade e a inquietação, na procura de querer aprender mais, de acordo com o que vê, analisando tudo minuciosamente. Até diante de Cristo ele levanta o dedo, querendo averiguar e contestar.

Bartolomeu (Peixes), no pólo oposto, tem seus pés situados na luz (Peixes rege os pés no corpo humano). Sua compreensão da alma, da visão ampla por cima de toda a balbúrdia da mesa, procurando sentir, penetrar pacificamente na razão de tudo e de todos.

A Solutio vem do Si-mesmo. O que vale a pena salvar no ego é salvo. O que não vale é dissolvido a fim de ser renovado. A limpeza psicológica é a consciência da própria sujeira que há no indivíduo.

O sétimo eixo ou círculo é a própria mandala astrológica ou ponto culminante do opus. É a operação de Coniunctio ou alvo do opus, a suprema realização. O ego necessita da orientação e da direção do inconsciente para que tenha uma expressão significativa de vida. A Pedra Filosofal, prisioneira da prima mater, necessita dos esforços do ego consciente para atualizar-se. Juntos, trabalham no grande misterium objetivando criarem uma consciência cada vez maior no Universo.

Bibliografia

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