Temas Transcendentais

Maat & Silence

O Princípio da Verdade

Maat é a personificação da Verdade, da Justiça e da Harmonia Universal. Ela é a potência, o princípio metafísico, que mantém o mundo na sua regrada continuidade. O Cosmos, a Natureza, e a Sociedade, no fundo, a Ordem Universal, só se mantêm de forma duradoura exatamente pelo seu atento zelo.

Representada como uma mulher, de pé, sentada ou com um dos joelhos em terra, apresenta, fixada em uma fita da sua cabeleira, uma pluma de avestruz, que é o seu principal signo identificador. Em muitas representações, a simples figuração da pluma simboliza a sua presença e atuação.

É irmã de , o Deus-Sol e esposa de Thoth, o escriba dos deuses com cabeça de íbis.

Maat é equivalente à Têmis grega e, como esta, é explicitamente a representação divina da lei e da ordem cósmicas naturais. Como ordem cósmica, Maat é o alimento do Deus-Sol ; é também “o olho de ” e o Ka de . Segundo as crenças egípcias, o corpo do homem se compunha de dois elementos espirituais, o Ba, similar a alma e o Ka, uma espécie de réplica do corpo. A morte representava a separação do elemento corporal dos espirituais. Entretanto, Ka não poderia sobreviver sem a presença do corpo, foi daí que se desenvolveram técnicas precisas de conservação, conhecidas com embasamento. O processo de mumificação tinha como objetivo a manutenção do corpo para própria existência de Ka.

Maat é a Senhora do Céu, Rainha da Terra e amante do Mundo Inferior. O grande inimigo de Maat era Seth, a versão egípcia do Ares grego, Deus da desordem crassa, da injustiça e da ambição.

A atividade crucial de Maat ocorria no Palácio das Duas Verdades (Maati), aonde os mortos iam para o julgamento final. Primeiro, o falecido deveria proferir uma “confissão negativa” declarando que não cometera pecados ou más ações. Verificava-se então se estava sendo honesto a cada um dos 42 itens confessados. Depois seu coração era colocado em um prato de balança, enquanto no outro estava uma pena de avestruz simbolizando Maat (a verdade). Por vezes era ela mesma, a balança. Não se sabe com clareza de que forma o coração era pesado para que a alma do morto fosse considerada justa. Sabe-se somente, que se o coração tivesse o peso certo em contraste com o peso de Maat, a pessoa estava justificada.

O coração, portanto, é considerada a “voz” e somente ele dirá para onde deverá ser destinado. Caso não o tenha, a pessoa é lançada a um monstro híbrido temível composto de partes de crocodilo, leão e hipopótamo chamado Amut, comedor de mortos.

Para os egípcios, o coração não era tão somente um órgão vital do corpo, mas era também a consciência, ou o centro do pensamento. Ele representava a voz de Maat no ser humano, a voz oracular da Ordem Cósmica que rasga o véu e penetra no mundo humano. Entretanto, por essa razão, as palavras do coração tornaram-se um problema para os egípcios, pois ele testemunhava no Palácio das Duas Verdades contra a pessoa. Essa crença era tão forte, que existia até uma prece especial, dirigida ao coração, que era inscrita em um amuleto em forma de escaravelho e depositada no local do coração durante o ritual de embasamento. Tal prece suplicava que o coração não se levantasse “como testemunha contra mim”.

Para os antigos egípcios, o porta-voz oracular da lei da natureza, localizado no próprio corpo do indivíduo, estava muito mais próximo da consciência ordinária do que consideravam os gregos, para quem Gaia e Têmis haviam sido forçadas a retira-se do Delfos e a permanecer nos mundos inferiores, enviando de lá mensagens através dos sonhos. Muito embora Maat falasse em nome da ordem cósmica, ela também é “o olho de ” e os filhos de sentavam-se nos tronos dos faraós. Deste modo, a lei e a justiça estavam unidas, e os árbitros da ordem natural e da ordem social eram um só, unidos em Maat e no faraó. Por intermédio do oráculo da Deusa, o coração, as leis e os costumes da vida social eram confirmados por uma intuição mais profunda de justiça e integrados nesse nível.

Algumas vezes, Maat era representada infundindo o hálito da vida nos faraós. Para tanto, suspendia um ankh contra o seu nariz. Hator e outros deuses e deusas também se representavam da mesma maneira, porém só Maat infundia o alento da vida sobre o começo de todas as coisas.

Como princípio divino e como divindade do Equilíbrio Cósmico, Maat era uma força permanente ao lado do faraó aprovado e escolhido pelos deuses. Em última instância, o funcionamento regular e a própria existência e continuidade do faraonato como instituição fulcral da vida egípcia dependiam da atuação de Maat.

Em complemento, a função real devia estar conforme aos desígnios universais que a própria Deusa perseguia, ou seja, a promoção e a manutenção da fecundidade, da prosperidade, da solidariedade e da abastança das Duas Terras, sob todos os aspectos. O faraó devia honrar a Justiça, a Eqüidade, a Verdade, a Retidão, isto é, a Deusa Maat.

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 Sentado em seu trono, o faraó trazia em sua mão uma figura da Deusa, diminuta como uma boneca, também sentada, que se oferecia aos deuses como sinal de que o rei representava a ordem divina que não havia sido perturbada desde o dia de sua criação. De forma similar, os juízes levavam sobre o peito um emblema lápis-lazúli que representava Maat. Assim, a ordem social era um reflexo da ordem divina e o governo de cada dia representava o tempo primordial em que , o Sol, pôs a ordem (Maat) em lugar do caos.

Nessa linha de ideias, é compreensível que uma representação recorrente no âmbito da ideologia e da iconografia real seja a oferta de uma estatueta da Deusa Maat feita pelo faraó aos deuses. O rei assume e compromete-se perante as divindades mais elevadas do panteão a zelar “maaticamente” pela marcha harmoniosa do país, pelo estabelecimento e funcionamento da Justiça, da Paz, do Equilíbrio e da Solidariedade, nas suas vertentes social, ética e cósmica.

“A oferenda de Maat” resume-se, portanto, numa imagem carregada de significado: é o símbolo máximo da atividade litúrgica, que consiste, no fundo, numa sólida relação interativa entre o oficiante e o oficiado. A esfera humana, terrestre, reconhecendo a fragilidade da sua posição no Cosmos, louva e honra os deuses, a esfera divina, deles guardando, em resposta, a proteção, o auxílio, a benção. A Deusa Maat é, assim, a medida de toda a conduta humana. Sem ter culto local específico, ocupava um papel fundamental na vida dos egípcios.

Além da oferenda da efígie da Deusa perante divindades maiores, conscientes da importância significativa da relação com a Deusa Maat, muitos faraós, de vários períodos históricos, incorporaram nos seus nomes a nomenclatura da Deusa. A este propósito são de citar os casos de Amenemhat III, da XII dinastia, cujo nome de coroação era Nimaetré, ou seja, “Aquele que pertence à Maat/Justiça de ” Na XVIII dinastia, faraós como Hatchepsut (nome de coroação: Maetkaré, “A Maat/Justiça é o Ka de ) e Amenhotep III (nome de coroação: Nebmaetré,” é o senhor de Maat/Justiça“) levaram também em consideração este importante vetor na proclamação das suas titulaturas”.

Entretanto, muitos outros faraós seguintes denotam este reconhecimento pela ação conjugada que deviam assegurar com a Deusa Maat: Seti I e Ramsés XI (nomes de coroação: Menmaetré, “Estável é a Maat/Justiça de ); os Ramsés II, III, V, VII e VIII, que escolheram todos como uma das designações dos seus nomes de coroação Usermaetré, ou seja, “Poderosa é a Maat/Justiça de ); Merenptah usava um pujante Hotephermaet, “Aquele que está repleto de Maat/ Justiça” como epíteto associado ao seu nome de nascimento; Ramsés IV preferiu para nome de coroação Hekamaetré, “Soberano de Maat/Justiça como “, enquanto que Ramsés VI (como Amenemhat III) optou por Nebmaetré “ é o senhor de Maat/Justiça”.

Também no Terceiro Período Intermediário, faraós das XXII e XXIII dinastias continuaram a utilizar o mesmo processo (Takelot I, Osorkon II, Chechonk II, Petubastis I, Chechonk III). Até no Período Ptolomaico a tendência se verifica: Ptolomeu VI tinha como nome de coroação Irmaetenimenré, Aquele que faz reinar a Maat/ Justiça de Amon-(); os Ptolomeus VII e XII usavam como nome de coroação Irmaet. Aquele que faz reinar a Maat/Justiça; Ptolomeu XV (o filho de Cleópatra VII e de Júlio César) não se fez de rogado e adotou como nome de coroação Irmaetenré, proclamando-se assim como. Aquele que faz reinar a Maat/ (Justiça de ).

Todos esses faraós “amados e amantes de Maat” a viam como uma autoridade suprema, cujo comportamento modelo tentavam, pelo menos ideologicamente e propagandisticamente, capitalizar na sua onomástica. O próprio faraó “herético” Akhenaton foi descrito como vivendo “de acordo com Maat“. Além disso, a maioria dos faraós que usaram o nome da Deusa (designadamente a partir de Ramsés VI) reinavam em períodos de esfacelamento e de decadência da própria civilização faraônica, até da própria instituição real, o que reforça ainda mais a importância e o significado político-mental que efetivamente a Deusa Maat detinha no seio da sociedade e da cultura egípcia.

Todas as religiões têm um conteúdo moral ao lado dos objetos de culto e a moral básica dos egípcios tinha o nome de Maat. Ela foi criada antes do mundo e através dela o mundo foi criado. É quase impossível traduzir a palavra com exatidão, mas ela envolvia uma combinação de ideias como “ordem”, “verdade”, “justiça” e “retidão”. Considerava-se Maat uma qualidade não dos homens, mas do mundo, infundida neste pelos deuses no momento da Criação. Assim sendo, representava a vontade dos deuses. A pessoa se esforçava para agir de acordo com a vontade divina porque essa era a única maneira de ficar em harmonia com os deuses.

Para o camponês egípcio, Maat significava trabalho árduo e honesto, já para o funcionário, significava agir com justiça.

Durante as amargas dificuldades e a desilusão que flagelaram o Primeiro Período Intermediário, surgiu por instante a idéia que Maat não era apenas uma qualidade passiva inerente ao mundo, mas que os súditos do rei-deus tinham o direito de esperar que fosse praticada. Isso representava um passo para o desenvolvimento de um conceito de justiça social.

Portanto, é mais importante “conservar Maat” (obedecer à lei) do que adorá-la. A própria Maat dá assistência nessa tarefa guiando, instruindo e inspirando os egípcios e após a morte ela é o princípio pela qual eles são julgados. Ela é a personificação da sabedoria!

No período helênico, os atributos de Maat foram absorvidos por Ísis.

Maat era, portanto, a Deusa da Justiça e da Verdade, ligada ao equilíbrio (Libra) necessário para a convivência pacífica entre todos os seres. Maat rege o primeiro signo social do zodíaco egípcio. Era filha de , o Sol, e de um passarinho que, apaixonando-se pelo calor e pela luminosidade dos raios solares, subiu por eles até morrer queimado. No momento em que foi incinerado, uma pena voou pelos ares. Essa era a nossa Deusa Maat. Ela também foi a responsável pela união do Alto e do Baixo Egito, simbolizando com isso a força da união e os benefícios da justiça. Sem Maat, a criação divina, que é a Terra e seus habitantes, não poderia existir, pois tudo se afundaria no caos inicial.

Maat toca todos os aspectos da vida: independência, situações familiares, amor, ódio, temor, enfermidade, morte, eternidade, solidão, propósito e eleições. Não há situação que não possa ser enquadrada no esquema da verdade.

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Maat como um Sistema Metafísico

Após alguns anos de estudo, pode-se começar a discernir padrões que atravessam a riquíssima variedade de especulações metafísicas do coletivo da humanidade. O contínuo de idéias que se apresenta reflete a nossa tentativa de dar algum tipo de sentido ao fato de que somos capazes de conceber um Praeternatural (Transcende a ordem natural ou material) altamente desenvolvido em torno de nós, mesmo quando vivemos em um mundo que é essencialmente material.

A metafísica é uma construção montada ao longo dos séculos por mestres da antiga arte da holografia. Seu holograma coletivo é universalmente reconhecido e claramente visível para todos os povos do mundo. Todas as culturas parecem concordar com as suas características mais notáveis: a origem do Universo é o caos, em forma no início por mãos alheias e ordenado em um mundo, o mundo é povoado por seres mortais, estes seres estão envolvidos em uma luta constante entre a moralidade e a banalidade. As culturas são definidas por suas próprias opiniões de quem ou o que aquelas mãos de criação foram, porque criou o mundo, e qual o destino dos seres mortais (humanos) pode, deve, ou será. Este holograma é evidente em todas as religiões do mundo, incluindo a ciência, e poderia muito bem ser o quadro em que sistemas como os sonhos, a teologia, a personalidade, e as chamadas memórias raciais são baseadas.

O essencial é exclusivamente a luta humana entre a moralidade e a banalidade, é provavelmente a maneira mais fácil de abordar o holograma metafísico. Muitas pesquisas têm se dedicado a provar essa luta que está no centro dos fantasmas do bem e do mal, com que preenche nossas mitologias pessoais e culturais. Sabemos que nenhum outro mundo que o nosso, não está fora de nós mesmos e, portanto, somos incapazes de manter uma visão de mundo que não reflita a luta que nos define. Neste contexto somos o universo da quintessência.

Assim, parece que o conceito de moralidade, a mais importante característica distintiva da humanidade, está no cerne da identidade pessoal e cultural. Nós construímos grandes sistemas para definir moralidade e governar a nós mesmos em seu nome. Os povos do Oriente desenvolvido Dharma e Karma para lidar com o dilema da moralidade; a raça hebraica, o Torah e a Kaballa; os cristãos, um sistema de salvação e danação regido pela Igreja. Para os antigos egípcios, no entanto, foi simplesmente Maat.

Nos tempos mais remotos Maat, como todas as outras conceituações extra-humanas, tomou a forma de uma encarnação divina. Até nesta cultura coletiva que podia atingir o nível de sofisticação capaz de perseguir matematicamente abstrações, era necessário manipular conceitos morais e Praeternatural através da personificação e das histórias. Assim, os deuses começaram como as figuras de ação divina na infância cultural do Egito, só mais tarde se tornaram capaz de suportar o peso, tanto de culto e de experimentação metafísica. O panteão do Egito foi especialmente útil como um vocabulário para a especulação algébrica sobre a física do Universo, formada numa língua sagrada, que escapou de ser embotada pelo uso diário.

Maat, na maioria das vezes descrita como uma mulher com a pena da verdade e, por vezes, de olhos vendados, foi universalmente adorada e aceita pelo povo do Egito, não importa a religião ou a política da época. Enquanto outros deuses e deusas apreciavam o aumento de seus favores apenas em determinadas linhas Faraônicas ou quando templos poderosos estavam no poder, Maat sempre foi reconhecida como uma das grandes potências e verdade da natureza.

O fato de Maat ser facilmente venerada como uma deusa é facilmente compreensível na verdade subjacente que faz uma existência de valor. A verdade de Maat atingia um nível de saturação no interior da psique egípcia que só aumentou com a maturação da cultura, permeando todos os estratos pessoais e culturais.

Considerando que a Kaballa permaneceu um segredo muito bem guardado passado somente de pai para filho, e mesmo as doutrinas bíblicas da Bíblia cristã foram cuidadosamente dispensadas pela Igreja nos dias antes da imprensa. Maat, no entanto, era um diálogo espiritual que foi enraizado no âmago da sociedade egípcia. Ela tocou cada aspecto da vida e da civilização, incluindo o direito, a família, o sistema de castas, a ética do trabalho, a esfera política, o comércio, e, claro, a maquiagem metafísica e existencial do povo.

Seu âmbito de aplicação universal e a facilidade com que seus princípios podem ser aplicados à vida distinguem o conceito de Maat das escolas de seus irmãos de moralidade em outros tempos e lugares. Não há nenhuma evidência existente nos cultos de mistério dos sacerdócios a restrição de Maat dos olhos do profano. Aliás, foi em grande medida, tão universalmente aceita que era praticamente um dado adquirido para a justificação essencial de todos os modelos de comportamento.

Como tal, pode ser difícil diante da nossa perspectiva cronológica montar uma impressão clara do que realmente Maat implica.

Poetic Lake

Silence

Silence stood in the rear of the large, dusty room.

Ancient Silence; from before Time.

Silent. Standing. Listening.

No voices are heard but our own.

Still Silence watches and listens;

Hears our words, nods, and hears.

No sound is heard from the rear of the room.

Silence; like a tomb.

Dignity, she stands like a woman, or a proud man.

Beside her stands Righteousness;

Justice, kneeling at her feet.

Equality encircles the world.

Imagination breeds fear.

A voice raised is not heard; an idea presented may be seen as blurred.

And in the rear of the room, Silence, like a tomb.

Silence speaks not a word.