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A Dança dos Signos

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Ciro Marchetti
Aos Filhos dos Signos
O espetáculo musical a “Dança dos Signos”, de Oswaldo Montenegro, entrou em cartaz pela primeira vez em 1982, no Rio de Janeiro.
Desde então, tem uma história de sucesso tanto de público como de crítica. Mais de um milhão de pessoas, por todo o Brasil, já assistiram “A Dança dos Signos”.
Dentro de um universo de luz, sombras e poesia, o espetáculo passeia pelos doze signos do zodíaco.
Oswaldo Montenegro
Zoe
Aos Filhos de Áries
Áries, o primeiro signo, do carneiro apaixonado
Tem em Marte seu designo e no fogo seu reinado
Nas estrelas seu delírio, seu amor enciumado
Nos limites, seu martírio, seu mistério revelado
Louco signo das correntes e emoções arrebatadas
Ariana dos repentes e explosões descontroladas
Ariana, como o fogo, nunca será dominada
Decisiva como o jogo, e a primeira namorada
Signo da sinceridade, da vermelha cor do dia
Signo da velocidade, da impulsão e eu nem sabia
Que era tanta madrugada a derramar no coração
Como a rosa serenada se transforma e pinga ao chão
Derretendo ao fogo da paixão.
Aos Filhos de Touro
Mas eu topei
com a estrela bailarina na rua dançando rock
de frente uma vitrine toda sexy
vidrada num anúncio de baton no vidro
preso com durex
(dura lex – sed lex)
um carro, um vestido e um brinco de ouro
presente de um rico industrial do signo de touro
(dura lex – sed lex)
quando é touro
é um meio fecundo
em cada semente plantada
um sorriso de gratidão
haja bom tempo ou não.
Aos Filhos de Gêmeos
Curioso, dispersivo, você sempre tem algo a dizer
Signo dos opostos, signo dos vizinhos gêmeos, há de ser
Cada planeta, cada riso em cada esquina que houver
Cada extremo reunido, cada homem gêmeo da mulher.
Gêmeos como a luz do dia é vizinha do anoitecer
Gêmeos chuva e, quem diria, o sol que brilhará, dor e prazer
Cada planeta, cada riso em cada esquina que houver
Cada extremo reunido, cada homem gêmeo da mulher.
Aos Filhos de Câncer
Caranguejo, signo da última estação do segundo lugar
Do primeiro desejo que não há
Como dissimulando se esconder no porão
Caranguejo da canceriana, solidão de horizontalizar
No canteiro de beijos que não dá
Como dissimulando se esconder no porão do ser
Caranguejo cada vez que a gente se encontrar no cio
Pode ser que não, mas eu quase adivinho
que no coração alguém vai batucar
Caranguejo é o signo de quem só me chama de filho
E do meu coração, e do Gilberto Gil,
Caetano é leão e sempre vai reinar
Pois é
Caranguejo, símbolo da réplica fusão do que não caberá
Mas no primeiro ensejo brilhará como volatizando
Se acender um balão.
Aos Filhos de Leão
Cada diamante ama o sândalo e o cravo
ama o ouro, e alaranjado
o globo azul rodeia o sol
cada diamante imita a mágica
das tropicais florestas
onde reina o leão, Deus dos animais
cada brilho seu reflete o coração dourado
o fogo, o poder, a vitalidade, o pai
cada raio seu forma uma rua
que vai dar na luz da lua
doces caminhos astrais.
Aos Filhos de Virgem
Virgem como a natureza do desconhecido
virgem como quem se muda e como quem virá
virgem como a fruta esperando a tal mordida
virgem como o garoto que espera atento a hora do jantar
virgem como a nuvem que ainda não choveu e o guia
e como é virgem toda noite enquanto o dia não pintar
virgem como a tela branca da pintora linda ainda é virgem
como a lua antes do sol iluminar
virgem como o olho de quem não dormiu e o guia
virgem como a planta do pé de quem não andar
virgem como o pássaro desvirginou o dia
quando desenhou no céu o mapa de onde o sol pode brilhar
virgem como a música do cantor que era mudo
e como o passarinho é virgem quando não puder voar
virgem como a bailarina sem coreografia
e como a pérola azulada que ainda não saiu do mar.
Aos Filhos de Libra
Era de libra como a lua vista assim é de cor de sal
era de libra como a luz das sete estrelas
forma algum sinal
era de libra quando dá um passo atrás
pra caminhar legal
era a balança universal
era harmonia como o ritmo da vida e o carnaval
era de libra como a brisa quando passa
e ondula o trigal
mas tinha medo de saber que o jogo da verdade
era fatal
era a balança universal
era de libra e amava a paz e a justiça natural
era de libra pra poder unir a idéia
ao seu material
o simbolismo da figura da mulher
paixão arterial
era a balança universal
era de libra como a valsa, o antigo Egito e afinal
era de libra e tem a crença da beleza
e do encanto geral
a natureza da firmeza e oscilação
a simpatia e tal
era a balança universal.
Aos Filhos de Escorpião
É o reino da força
vermelho é a cor do teu coração
ferro em brasa na casa da morte
é o escorpião
a força criadora que habita o mundo
o animal da auto-regeneração
o homem que renova, signo fecundo
o fim planta o início
é a transmutação
cabala do grande sinal
cabala da força do ….
Aos Filhos de Sagitário
Era claro e sábio
Era manso metade animal
E livre como ancião
Que já não teme o final.
Eu amava e amava
Adormecia com gosto de sal
Na boca
E amava assim
Com a devoção natural
Dos deuses, dos animais
Ah, quanto tempo atrás
Ah, quantas noites passei
A galopar em você, doce centauro
Amo você, doce centauro.
Aos Filhos de Capricórnio
Madrepérola de cor
a teimosia tá no ar
signo da terra, da percussão
a dúvida não tem lugar
signo de capricórnio, ser
ser como se fosse escalar
a montanha negra do dia a dia
não saberia sonhar
signo da segurança total
signo da persistência, e afinal
na versão mais infinita do ser
capricórnio inda precisa aprender
que da estranha forma do caracol
foi que se inventou a clave de sol
simbolismo do prazer
tudo mágica ser.
Aos Filhos de Aquário
Brilho do signo do novo
do futuro – aquário
silfos da magia – ar virão
serpentina da revolução
brilho do signo do novo
do futuro – aquário.
Aos Filhos de Peixes
É peixe quando pula e descortina
A clara possibilidade de mudar de opinião
É peixe quando sem ligar a seta muda o rumo
Inverte a coisa, embola o pensamento e então
É peixe quando o germe da loucura
Se transforma em claridade e anda pela contramão
É peixe quando anda no oceano de quarenta correntezas
Sem nenhuma embarcação
É peixe quando salta o precipício da responsabilidade
E tem uma queda pra ilusão
É peixe quando anda contra o vento, desafia o sofrimento
E carrega o mundo com a mão
É peixe quando a luz do misticismo
Se transforma na procura do princípio e da razão
É peixe quando anda no oceano de quarenta correntezas
Sem nenhuma embarcação.
Oswaldo Viveiros Montenegro (Rio de Janeiro, 15 de março de 1956) é um músico brasileiro. Além de cantor, compõe trilhas sonoras para peças teatrais, balés, cinema e televisão. Foi casado com a atriz Paloma Duarte. Tem uma das parcerias mais sólidas da MPB ao lado de Madalena Salles, que o acompanha com suas flautas.
Biografia
“Ainda em 82, escrevi para o Núcleo Artístico de Belo Horizonte, A Dança dos Signos. Nessa época, Roberto Menescal era diretor artístico da Polygram e comprou os direitos do Cristal. Arquivou o projeto e lançou o disco A Dança dos Signos, com doze canções do ballet, cada uma sobre um signo do zodíaco.”
Zoe
marcadágua
logolaranja

Ciência Astral Babilônica no Mundo Helenístico: Recepção e Transmissão

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NGC 2170 is a reflection nebula in the constellation Monoceros
Francesca Rochberg
rochberg@berkeley.edu
Ludwig-Maximilians-Universität München
Tradução:
Samanta Mello
Tradutora e Professora de Inglês
samattei2@gmail.com
Em seu trabalho astrológico, o Tetrabiblos, o astrônomo Ptolomeu descreve os efeitos da geografia sobre as características étnicas alegando, por exemplo, que devido à sua localização geográfica específica “Os Caldeus e Orquinianos têm familiaridade com Leo e com o sol, de modo que são mais simples, gentis, adictos em astrologia”. Ptolomeu estava correto em colocar os Caldeus e Orquinianos juntos geograficamente, uma vez que os Caldeus – ou Kaldayu – foram, um dia, grupos tribais semitas orientais localizados nas partes do sul e oeste da Babilônia conhecidos como Kaldu (Caldeus), e os Orquinianos – ou Urukayu – foram habitantes da cidade de Uruk, ao sul da Babilônia. Ele também foi correto a respeito de que ele estava transmitindo uma tradição dos próprios babilônicos que, de acordo com uma tábua helenística de Uruk (VAT 7847), associou cidades e terras com signos zodiacais, e, em particular, ligadas ao signo de Leo, à terra de Akkad, outro termo para a parte sul da Mesopotâmia.
Os Orquinianos de Ptolomeu, os quais eram “adictos”, juntamente com os Caldeus, também aparecem em outros relatos gregos, como na Geografia de Estrabão, bem como em um texto astronômico de Oxyrhynchus do segundo século de nossa era relativamente contemporâneo a Ptolomeu. Este fragmento de papiro astronômico refere-se aos Orchenoi – ou Urukeans – em conexão direta com um parâmetro lunar identificável como um período babilônico de anomalia lunar preservado em tabuletas cuneiformes de Uruk. Os Babilônicos ou Caldeus literatos, incluindo os de Uruk, foram famosos justamente pela astronomia e astrologia, “adictos”, como Ptolomeu descreveu e, eventualmente, em obras greco-romanas, o termo “caldeu” passou a ser sinônimo de “astrólogo”.
VAT 7847
VAT 7847
Escritores gregos-helênicos que procuram reivindicar uma fonte oficial sobre astrologia ou outro esoterismo frequentemente citavam fontes genéricas, como “caldéias” ou “egípcias”, e Arnaldo Momigliano disse uma vez que “a massa de textos que afirmam serem traduções de idiomas Orientais ​​eram, principalmente, falsificações de escritores em grego”. “O que circulava em grego, continuou ele, sob os nomes de ZoroastroHystaspes, Thoth, e mesmo Abraão foi falsificado de forma relativamente simples, embora, sem dúvida, alguns dos textos possuíssem uma pequena quantidade de pensamentos “orientais” combinados a ideias gregas”. Dentro da massa de atribuições pouco confiáveis ​​e, por vezes, totalmente erradas aos sábios do Oriente, no entanto, são legítimas as traduções gregas da literatura de fonte egípcia e são especialmente rastreáveis evidências significativas da absorção da tradição científica astral babilônica no Ocidente após a conquista Macedônica. De fato, as ciências Babilônicas parecem ser a única parte da cultura escriba Mesopotâmica que penetrou no mundo grego, sobrevivendo até o final da Antiguidade, apesar do fim da própria cultura cuneiforme.
A história da transmissão helenística das ciências astrais Babilônicas possui dois relatos bem diferentes, o greco-romano helenístico, que conta com toda a sua falta de fiabilidade como os escritores gregos e romanos viram sua herança astronômica e astrológica vinda do Oriente, e uma revisão moderna, baseada em textos cuneiformes. O próprio relato moderno tem dois aspectos distintos, ou fases talvez. Na primeira fase, a recuperação e exposição dos textos astronômicos e astrológicos cuneiformes permitiram estudiosos modernos aferirem, pela primeira vez, as reivindicações dos antigos Gregos e Romanos sobre os Caldeus contra fontes originais. Mais dramática foi a descoberta de certos parâmetros numéricos já conhecidos da muito mais tardia astronomia grega. F.X. Kugler estabeleceu pela primeira vez as origens da Babilônia, por exemplo, do parâmetro para o mês sinódico em Almagesto de Ptolomeu. Mais tarde, este parâmetro foi identificado em De revolutionibus de Copérnico e Otto Neugebauer mostrou o uso deste mesmo valor nos calendários Europeus durante o Renascimento, como atestado no Livro de Horas do Duque de Berry, do século XV.
Talvez o resultado mais conhecido dos estudos Assiriológicos do início do século 20 foi o de que a Mesopotâmia veio a ser conhecida como o berço da Civilização (ocidental), o local das origens do urbanismo, alfabetização e política. Um pouco menos divulgado foi a percepção de que a Babilônia era o local de fundação e origem da astronomia ocidental. Esta percepção foi baseada na descoberta tanto de uma longa tradição de observação celeste empírica, na cidade da Babilônia, (a partir de cerca do século 8 a.C. até os primeiros séculos a.C.), e o desenvolvimento de uma astronomia totalmente teorizada matematicamente preditiva, surgindo no 6º século, aproximadamente, e continuando até o Período Helenístico. Apesar de ocupar tal posição na Criação (do Ocidente), a astronomia babilônica em sua recepção inicial na história da ciência era vista como uma espécie de milagre científico dentro de um outro sistema de crença primitiva não-científico que consistia de adivinhação e astrologia. Este relato foi baseado na tendência a unificar quando se trata de ciência (isto é, trata-se de natureza e não de cultura) e de deixar outros aspectos culturais intelectuais do Berço para assumir uma característica mais “indígena”.
ciclo lunar
 Ainda assim, houve estudiosos no início do século 20, tais como Carl Bezold e Franz Boll, que exploraram então textos cuneiformes astrológicos recém-editados para paralelos em grego helenístico. David Pingree, mais tarde, expandiu a investigação da transmissão das ciências astrais do Oriente Próximo e incluiu literaturas astrológicas e presságios não só em grego e latim, mas também em aramaico, hebraico, siríaco, árabe, persa, demótico e em sânscrito. Apesar destes esforços e os dos estudiosos associados ao Instituto Warburg, por exemplo, para promover o estudo da astrologia como uma dimensão importante da arte e da ciência no Ocidente, a natureza interdependente destas disciplinas no material de escrita cuneiforme não foi enfatizada até recentemente. Esta última fase do relato moderno do legado da ciência antiga da Mesopotâmia para os mundos grego e greco-romano é baseada em uma concepção expandida de ciência na antiguidade, que já não vê a ciência em corpos descontextualizados de conhecimento ou como um processo de descoberta das verdades da natureza, mas na prática cultural de investigação e como um engajamento das comunidades históricas específicas, com o mundo físico como eles viram. Esta concepção desenha a distinção entre astronomia e astrologia de uma forma diferente da que vê a primeira como a ciência e a última como não-ciência, concentrando-se, por exemplo, na natureza de seus objetivos preditivos como critério de diferença.
Pode-se afirmar que a base da tradição da ciência astral babilônica que mais tarde veio a ser significativa para a escrita científica grega do período helenístico começou com os escribas assírio-babilônicos do 7º século AC e com os seus homólogos posteriores, os escribas profissionais dos templos da Babilônia e de Uruk. Estes escribas profissionais se preocuparam enormemente com listas detalhadas de signos com os eventos correlatos de natureza pública ou privada. O corpo de signos celestiais correspondia em grande parte, mas não exclusivamente, a fenômenos visíveis no céu, ou seja, a Lua, Sol, planetas e estrelas. Ambos os grupos se autodenominaram guardiões dessa tradição da ciência astral que, em textos existentes, lidam com presságios de eclipses lunares e solares atribuídos ao final do segundo milênio. Os escribas, no entanto, imaginaram que a tradição de adivinhação celestial emergiria através dos tempos, do próprio deus da sabedoria e dos sábios antediluvianos, que passaram a tradição da adivinhação celestial e outras divinações adiante para futuras gerações de escribas. Dentro desta comunidade erudita antiga e ao longo de muitos séculos, surgiram diversas evoluções como a astronomia preditiva e a genetlialogia, ou astrologia do nascimento, mas sempre em relação dinâmica com a existente tradição de presságios celestes conhecidos como Enuma Anu Enlil. Mesmo os escribas babilônicos helênicos, que produziram textos astronômicos, viam a si mesmos e seu trabalho como parte dessa tradição textual divinatória, como mostrado neste cólofon de uma efeméride (calendário) de eclipses lunares, escrito em 191 a.C.:
Sobre eclipses da lua.
Tabuleta de Anu-bel-sunu, sacerdote da lamentação de Anu, filho de Nidintu-Anu, descendente de Sin-Leqi-unninni de Uruk. Mão de Anu- [aba-utêr, seu filho, escriba de Enuma Anu Enlil de Uruk. Uruk, mês I, ano 12 (1?)] Antíoco III (O Grande) [e Antíoco, seu filho, eram reis].
Quem reverencia Anu e Antu [não irá removê-lo (da tabuleta) em um ato de roubo.]
Tabela calculada. A sabedoria da mais alta ordem (lit: de Anu-rank), conhecimento exclusivo a respeito do céu e da terra, um segredo dos mestres escribas. Um especialista pode mostrá-la a outro especialista.
Um leigo não pode vê-la.  Trata-se de uma restrição de Anu, Enlil [e dos grandes deuses].
[Hunger, 1968, n º 98]
Na base desta e de outras provas a serem sugeridas aqui, eu gostaria de salientar que na antiga Mesopotâmia, bem como no Ocidente Helenístico, embora de maneiras diferentes, a astronomia era parte de uma ampla cultura intelectual em que a adivinhação celestial , astrologia e até mesmo a teologia astral (por falta de um termo melhor), não só coexistiram como também foram interligadas. A importância dos fenômenos celestiais nas Antiguidades greco-romana e do Oriente Próximo e a centralidade das ciências astrais para o desenvolvimento do que hoje chamamos de “investigação científica ” é uma questão muito mais profunda do que o simples cálculo de aparências planetárias ou lunares somente. Como James Evans e Len Berggren disseram no prefácio de sua edição do tratado helenístico sobre astronomia, Geminus – Introdução ao ‘Phaenomena’, a astronomia tinha “ligações vitais com quase todos os outros aspectos da cultura” e que “tinha ligações com a antiga religião, em que os planetas foram amplamente considerados divinos e os fenômenos celestes comandavam a atenção dos poetas, que desde a época de Hesíodo haviam cantado sobre os sinais celestes e sobre ano rotativo”. Mais recentemente, Reviel Netz comentou, em relação às obras Hermes de Eratóstenes e a versão poética do Êxodo de Arato, ‘Phaenomena’, sobre o “papel especial do céu” na ciência helenística e que “este, afinal, servia, ao mesmo tempo, como depositário de referências míticas e como objeto científico literal”.
 O ‘Phaenomena’ teve multivalência similar na ciência babilônica, ou seja, eles foram objetos de investigação empírica e análise matemática e eram sinais, objetos de interpretação, que vieram de uma crença em um modo de comunicação com o divino através de tais sinais. Em ambos os casos, fenômenos celestes eram objetos científicos.
In 679 B.C. Esarhaddon
 Durante o período Neo-Assírio (7º século AC), a adivinhação celestial era uma profissão acadêmica de grande distinção, com as categorias de estudiosos adivinhos sendo preenchidas, em grande parte, por membros de famílias de elite letradas, como a do venerável Nabu-zuqup-kena, que trabalhou na corte de Sargão II em Nimrud. A serviço das cortes reais de Esarhaddon e Assurbanipal, tais estudiosos, que haviam alcançado o domínio do repertório de presságios celestes, interpretaram fenômenos astronômicos ameaçadores em benefício desses reis. A maioria dos presságios de Enuma Anu Enlil pressagiava eventos de consequências geralmente catastróficas para o rei, seu país, sua economia, e seus inimigos. Por exemplo:
Se um eclipse ocorre no dia 14 de Abu, começa no sul e termina no leste; começa na vigília da noite ou na vigília da manhã, e termina e desaparece. Você observa o seu (do deus da lua) eclipse tem em mente o sul (vento). A decisão (dos deuses) é dada pelo rei de Eshnunna: Haverá uma revolta do Ummanmanda ou do meu exército. Batalha irá assolar. Um homem vai matar outro homem em batalha.
[EAE 21 § V.1, Rochberg, 1988, 239]
 Enuma Anu Enlil formou um extenso repertório, somando 70 tábuas e milhares de presságios. O uso deste repertório é bem atestado em uma correspondência entre os estudiosos e os monarcas Neo-Assírios, repletos de insistências dos escribas para os reis “não se preocuparem”, porque os rituais necessários contra maus presságios seriam realizados.
Em algum momento no século V, após a conquista persa, os literatos sacerdotais vieram a ser apoiados dentro das instituições dos grandes templos ao invés de na corte. Lá, um novo tipo de prognóstico celeste, não para os reis, mas para os indivíduos, foi desenvolvido na forma de genetlialogia ou astrologia do nascimento, produzindo horóscopos em que a situação dos céus no momento do nascimento seria lida mais ou menos como um presságio. Por exemplo:
Ano 92 [(SE) 220 a.C], Antíoco (III) era rei. Tasritu 30, noite do 1 [2ª (?), primeira parte da noite] a lua estava abaixo “da estrela atrás da cabeça do homem Assalariado [=α Áries]. A lua passou a meio côvado a leste [de α Áries]. [...] A criança nasceu, na [sua] hora, [a lua em Áries (?)], o sol estava em Escorpião, Júpiter estava em Áries, Vênus e Saturno em Sagitário, Mercúrio e Marte [que haviam se posto e não eram visíveis].” E assim por diante. Muito ocasionalmente, o estilo do presságio será incluído nesses horóscopos, como “O lugar de Mercúrio: O valente será o primeiro na classificação, ele será mais importante do que seus irmãos; ele vai assumir a casa de seu pai “.
[Rochberg de 1998, n º 10 r. 1-3]
A fim de dar as posições de todos os planetas, que são os cinco planetas vistos a olho nu, além do sol e da lua, a astrologia genetlialógica, ao contrário da adivinhação celestial, era dependente de métodos astronômicos preditivos e foi no período em que astrologia horoscópica surgiu, que foram desenvolvidos um número de tais métodos. De acordo com tabuletas datadas de 308 AC a 43 a.C., datas e posições de fenômenos lunares e planetários tabulados, tais como listas de luas novas e cheias, eclipses solares e lunares e aparições planetárias, existiram nas cidades helenísticas da Babilônia e Uruk.
A mais recente destas tabelas é datável do ano 43 da Era Comum, mas outros textos matemáticos astronômicos não tabulares, foram também produzidos no primeiro século de nossa era, sendo o mais recente texto datado de 75 a.C.  Testemunhos oculares da existência dos astrônomos babilônios nesta época vêm do Plínio, o Velho, que afirma tê-los visto na Babilônia no “Templo de Júpiter-Bel” e como a cidade tinha se desintegrado em ruínas em torno dele. Muito depois, Pausânias, no 2º século de nossa Era ecoa o relato sobre a existência do templo de Bel no meio de uma cidade deserta.
fig 2
Fig. 2: Tabela de luas novas e cheias S.E. 263 dos séculos 49-48 AC e denominado “tersetu de Naburimannu “, publicado em O. Neugebauer, Textos Astronômicos cuneiformes (1955), No18.
Antes de Alexandre entrar na Babilônia, há poucas evidências convincentes que apontem para o conhecimento grego da ciência astral babilônica. Após essa data, no entanto, escritores gregos helênicos deram prioridade explícita às ciências astronômicas da Babilônia e do Egito de forma vaga. Aristóteles disse que os Egípcios e Babilônios “fizeram observações durante um grande número de anos” e haviam fornecido “muitos dados fiáveis para a crença sobre cada um dos planetas”. Em sua Bibliotheca Historica, Diodoro da Sicília, no 1º século a.C., atribuiu um valor a este “grande número de anos”, dizendo que “quanto ao número de anos que, de acordo com as suas declarações, a ordem dos caldeus gastou no estudo dos corpos do universo, um homem mal pode acreditar neles; pois acho que, até Alexandre cruzar a Ásia, fazem 473 mil anos desde que começaram, nos primórdios, a fazer suas observações das estrelas.” Cerca de um século mais tarde, Plínio, em sua História Natural, invocou Epigenes como uma autoridade sobre a antiguidade das observações astronômicas babilônicas, dizendo que eles voltaram 720.000 anos no tempo. Ele (Plínio) também afirmou que Critodemus, um nome associado a horóscopos gregos do primeiro e segundo séculos de nossa era, tinha acesso direto a fontes babilônicas. No Livro sete da História Natural, ele erroneamente o situou no 3o século a.C., pressupondo que ele fosse um estudante de Beroso, o suposto sacerdote babilônico e autor da História da Babilônia em grego para Antíoco I. Plínio alega que Critodemus concordou com Beroso que as observações astronômicas babilônicas possuem 490.000 anos. Não é a imprecisão ou a natureza exagerada das figuras que necessitam comentários. É que os gregos acharam a ideia de manter muitos séculos de registros de observações celestiais nova e importante. Como fica clara a escassez de observações dos fenômenos astronômicos em textos gregos antes do segundo século a.C., antes de entrar em contato com a ciência da Babilônica, a astronomia Grega não era equipada de uma base empírica de observações lunares e planetárias datadas. Se, contudo, o material obliquamente se referir, nestas atribuições gregas, aos Babilônios, o arquivo lunar noturno e as posições planetárias foram, sem dúvida, compilados na Babilônia, de 746 a.C. até meados do primeiro século a.C., e que agora chamamos de “diários astronômicos”. O texto seguinte foi extraído de um diário datado no ano de 331 a.C., ano em que Alexandre o Grande derrotou Dario III e entrou na Babilônia:
Noite do 20o dia, última parte da noite, a lua estava em cúbito atrás da Estrela Gêmea (β Geminorum), estando a lua dois terços de côvado voltada para o oeste. Dia 21, equinócio; Eu não observei. Noite do dia 22, última parte da noite, [a lua estava a] 6 côvados [abaixo] da Cabeça de Leão (ε Leonis), tendo passado a meio côvado atrás de Regulus (α Leonis). Noite do dia 24, as nuvens estavam no céu.
[Sachs Hunger 1988, Vol.I, 177, No.-330]
O mesmo diário segue com o relato da derrota de Dario III em Gaugamela:
Naquele mês (Mês VI), 11º dia, o pânico ocorreu no acampamento diante do rei [... os Hanaeans (significando aqui macedônios)] acamparam em frente ao rei. No 24º dia, pela manhã, o rei do mundo (ou seja, Alexandre) [ergueu seu] estandarte [...] eles lutaram uns contra os outros, e infligiram uma pesada derrota nas tropas do rei (Dario); As tropas do rei abandonaram e desertaram para suas cidades, para a terra dos Gútios.
Os diários astronômicos são uma fonte notável de observações astronômicas contemporâneas datadas, da lua e dos planetas a respeito de tantos e tantos cúbitos de distância de uma série de estrelas eclípticas de referência, como na afirmação de que a lua se encontrava seis côvados abaixo de Leonis no exemplo que acabamos de citar. Dificilmente se pode culpar os gregos pelo seu espanto e admiração pela duração da tradição de observação celestial babilônica. Existem diários que abrangem cerca de 800 anos e que foram, sem dúvida, a fonte de algumas das observações utilizadas por Ptolomeu em Almagesto. As de Mercúrio, no Almagesto, por exemplo, são datadas “de acordo com os caldeus”, isto é, na Era Selêucida, uma convenção de datação astronômica babilônico, e eles também fazem uso do cúbito , bem como as estrelas eclípticas normatizadoras conhecidas, de acordo com a prática dos diários.
As referências mais específicas aos caldeus são aquelas mencionadas por Estrabão, que floresceram a partir de meados do primeiro século a.C. ao primeiro século d.C. Em sua Geografia, vários astrônomos babilônios (mathematikoi) são mencionados pelo nome: Sudines, Kidenas e Naburianus. Para a autenticidade de Sudines, que alegou ter estado na corte do rei Átalo I (Attalos Soter) de Pergamon, não existe nenhuma evidência escrita cuneiforme. Uma evidência de que Sudines escreveu sobre as propriedades das rochas vem da História Natural, de Plínio, onde este afirma que Sudines conhecia a proveniência do ônix, cristal de rocha e âmbar e comentou sobre a cor de pérolas e da “astroite” ou a “pedra estrela”.
babilônia
  Outra menção a Sudines é encontrada em História Natural como sendo um “astrólogo caldeu”. Consistente com esta designação é um fragmento de papiro posterior (3o século d.C.), supostamente resumindo um comentário sobre o Timeu pelo estóico Posidônio (2 º ou 1 º século a.C.). Aqui, as influências dos cinco planetas, sol e lua são enumerados em termos de qualidades aristotélicas (quente, úmido, seco) e outras indicações são dadas para os planetas Saturno, Júpiter, Marte e Vênus como os “destruidores” de homens e mulheres, jovens e velhos. O planeta Vênus como o destruidor das mulheres é dado “de acordo com Sudines“. O astrólogo Vettius Valens enumera os parâmetros para a duração do ano de acordo com a astronomia grega e babilônica. Lá, Sudines é associado a uma duração do ano um tanto arbitrária de 365 + 1/4 + 1/3 + 1/5 dias. Valens acrescenta que ele utilizou Sudines (Kidenas e Apolônio) para calcular os eclipses lunares e que ele normatizou os equinócios e solstícios em 8o (8 graus) de seus signos. Áries a 8o é, de fato, um ponto de normatização babilônico legítimo para o equinócio vernal em um horóscopo em que graus são contados dentro de signos zodiacais sideralmente fixos iniciando com Áries (ou “O Homem Assalariado” ou “O Trabalhador do Campo” no horóscopo Babilônico). A norma Áries a 8o como ponto vernal subjaz muitos textos astrológicos helenísticos e continuou em uso durante todo final da antiguidade.
O nome Kidin(nu) aparece nos cólofons de duas tábuas de efemérides cuneiformes, onde são designados ” tersetu de Kidin(nu)” , onde tersetu é o termo para as tabelas cuneiformes de datas e posições da lua e planetas. Cada uma dessas tábuas citando Kidinnu se referem a luas novas e cheias, em um dos casos para os anos 104-102 a.C. Valens disse que usou “Hiparco para o sol, Sudines e Kidinnu e Apolônio para a lua”, embora ele não tenha feito especificações sobre os métodos associados a estes nomes. Kidenas também é mencionado por Plínio quando este apresenta valores para os elongamentos máximos dos planetas interiores a partir do sol. Ele diz que suas autoridades para estes valores são de Timeu para Vênus (46o) e Kidenas e Sosígenes para Mercúrio (22o), mas o que essas atribuições realmente querem dizer é impossível de determinar.
O terceiro babilônico nomeado por Estrabão, Naburianus,tem sido interpretado como a versão grega do nome babilônico Nabu-rimannu que aparece em um contexto quebrado no cólofon de uma tábua astronômica da Babilônia. O cólofon designa esta tábua também como um tersetu ou “tabela computada” e, assim como as tabelas de Kidinnu, contém datas e posições das luas novas e cheias para os anos de 49-48 a.C., colocando-a entre a mais jovem das efemérides lunares cuneiformes existentes (ver Fig. 2).
Os conteúdos e os métodos de cálculos específicos dessas tabelas astronômicas babilônicas eram também conhecidos pelos astrônomos gregos por volta, pelo menos, do primeiro século a.C. e estavam em uso durante o primeiro século de nossa Era, como Alexander Jones demonstrou nos papiros gregos de Oxyrhynchus no Egito Romano. O conhecimento grego dos métodos e conceitos inerentes às tabelas astronômicas babilônicas também é atestado no capítulo 18 de “Introdução aos Fenômenos”, onde ele discute as relações dos períodos “lunissolares”. Este trabalho pode ser datado do primeiro século a.C., contemporâneo, portanto, de algumas de nossas efemérides cuneiformes existentes. No capítulo 18,9 Geminus dá o valor exato do movimento médio (diário) da lua, “descoberto pelos Caldeus”. E, embora ele não identifique outros parâmetros lunares mencionados neste capítulo, como tal, eles também são parâmetros de uma função zigue-zague tipicamente babilônica do progresso da lua em graus por dia (= coluna F do Sistema B – teoria lunar na terminologia de O. Neugebauer). Neste mesmo capítulo, Geminus discute um ciclo lunar utilizado na previsão de eclipses chamados “exeligmos” ou “revolução”. O período governa o retorno da ocorrência de eclipses para um determinado momento. O valor Geminus para o período (669 meses sinódicos = 717 meses anomalísticos = 19.756 dias) é consistente com as relações de períodos babilônicos e toda a sua discussão dos exeligmos está na alinhada com a teoria lunar babilônica.
 Como sabemos a partir do Anaphorikos de Hipsicles – o tratado sobre os tempos de aparecimento dos signos zodiacais -, da Introdução de Geminus, do Almagesto de Ptolomeu e dos papiros Oxyrhynchus, detalhes das unidades babilônicas, seus parâmetros e métodos aparecem em trabalhos astronômicos gregos no segundo século a.C.  e continuam a aparecer até o final da antiguidade.
O côvado babilônico (Kus = ammatu) continuou a ser usado para medir distâncias no céu entre, por exemplo, estrelas fixas e o meridiano, ou entre planetas e estrelas próximas da eclíptica, e sua subdivisão “finger” ou dígitos (SU.SI = ubanu), foi utilizada na medição das magnitudes dos eclipses. Outra ferramenta de referência fundamental da astronomia grega adotada da Babilônia foi o zodíaco, que hoje associamos exclusivamente com astrologia. O zodíaco antigo, no entanto, começou como um padrão de matemática para o cálculo posições de corpos celestes. Os tratados de Autolycus e Euclides (cerca de 300 a.C.) já assumem o zodíaco, e uma referência na História Natural de Plínio afirma que Cleostratus foi responsável pela introdução do conceito para os gregos por volta de 500 a.C. Uma evidência consistente, no entanto, de um zodíaco de 360o na Grécia aparece apenas no segundo século com Hypsicles e Hiparco, o que significa, após o contato com a astronomia matemática babilônica.
Assim como a história da astronomia ocidental pode ser rastreada em textos astronômicos cuneiformes, as sementes da astrologia Ocidental também são claramente identificáveis ​​nos presságios celestiais cuneiformes e horóscopos, a começar pela própria idéia de prognósticos por fenômenos celestiais e incluindo “empréstimos” mais concretos, como aspectos planetários (especialmente o trígono, que se relaciona três corpos celestes encontrados em signos zodiacais a 120o de distância). Os dodekatemoria ou os 1/12 (um doze avos) dos signos zodiacais, o hypsomata ou exaltações dos planetas onde estes possuem maior influência astrológica, e a associação entre planetas e partes do corpo em estilo melotesia são outros empréstimos claros da tradição cuneiforme.
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 A natureza rica e detalhada da transmissão das Ciências Astrais da Babilônia para os gregos deve, no entanto, ser vista contra algumas diferenças fundamentais entre os sistemas dos mundos babilônico e grego. Por exemplo, o horoscopus, ou ponto alto da elíptica no momento do nascimento, como é conhecido a partir de horóscopos gregos e europeus, não era uma característica dos “horóscopos” cuneiformes. Nem era a base conceitual para o horoscopus, ou seja, a esfera e o grande círculo continuamente em movimento da eclíptica, na astronomia babilônica. A teoria física pela qual Ptolomeu explicou influência estelar em termos de raios planetários, ou o poder do éter que é “disperso através e permeia toda a região da terra” é igualmente ausente na Mesopotâmia. A influência física das estrelas pode estar implicada no corpus mágico da Babilônia, onde poções e medicamentos deveriam ser deixados do lado de fora durante a noite antes de serem usados, porém a irradiação estelar de substâncias não encontra o seu caminho para a adivinhação celestial, nem é o mesmo que a teoria física grega da influência astrológica, principal razão pela qual a substância física do éter está ausente na física babilônica. De fato, a adivinhação celestial na antiga Mesopotâmia parece ter funcionado sem o benefício de uma teoria física, estando sua causalidade vinculada à atuação e manifestação da vontade divina, e não à ação da matéria celeste sobre o mundano. Por volta do século II, os elementos das ciências astrais da Babilônia de interesse dos gregos, ou seja, os métodos quantitativos babilônicos e os conceitos astronômicos, bem como diversas tradições astrológicas, incluindo presságios, horóscopos, magia astral e medicina zodiacal, foram todos integrados dentro de vários sistemas do mundo, fundamentalmente diferentes na concepção da qual podemos grosseiramente reconstruir dos próprios babilônios.
A evidência de uma diferença fundamental entre Mesopotâmia e na Grécia, em suas respectivas concepções sobre como a astrologia funciona, e também como a teoria astronômica se encaixa em uma imagem do mundo físico, sugere que a antiga história das ciências astrais é (um relato) tanto sobre a cultura quanto sobre a natureza. Um argumento mais geral neste sentido foi feito há muito tempo por Thomas Kuhn, no contexto de um argumento contra a noção de uniformidade da natureza. Em um dos primeiros desafios para a universalidade científica, Kuhn não considerou que os fenômenos naturais eram “o mesmo para todas as culturas” e não se convenceu com o argumento de que, porque a natureza se destaca da cultura humana, existindo independentemente de nossas ações e do nosso conhecimento, seus fenômenos são necessariamente ou categoricamente afetados pela cultura. Ele sugeriu que não apenas os conceitos (do mundo natural ou social) ou os patrimônios das comunidades (culturas ou subculturas), mas os conceitos sociais, bem como os conceitos do mundo natural “moldam o mundo ao qual elas são aplicadas”. Por meio de exemplos, ele observou que “os céus dos gregos eram irredutivelmente diferente do nosso”. E assim eles foram irredutivelmente diferentes daqueles dos babilônios.  Não se pode generalizar sobre a “realidade física” dentro de marcos históricos remotos, ou enxergar desdobramentos históricos contra um fundo universal da natureza.
Até onde uma concepção babilônica da natureza diz respeito, fenômenos físicos não ocupavam um reino separado do divino, apesar do fato óbvio de que os fenômenos celestes pudessem ser observados, analisados e previstos. Mas as atitudes gregas e romanas, apesar de Protágoras e Lucrécio, e apesar de um tipo diferente de envolvimento com a noção de natureza, bem com a noção do divino, não contestou a existência de deuses (ou o divino) enquanto no exercício da investigação científica. E ideias aparentemente contraditórias sobre a relação dos céus para com o divino eram obtidas dentro de um mesmo sistema. Por exemplo, em relação ao cosmos da Mesopotâmia, a ideia do mundo pressupõe uma noção do divino, porém parecia permitir contradições como a de divindades retiradas do mundo físico em uma espécie de relação de transcendência com o plano material ou visível e/ou como forças ativas de fenômenos físicos visíveis em uma relação mais próxima da imanência.
A ambiguidade inerente às fontes da Mesopotâmia pode muito bem ser refletida no relato da Astrologia Caldeia por Diodoro, que no primeiro século a.C. escreveu sobre os “caldeus” em sua História Universal. Diodoro não relatou com total precisão o que ele chamou de história e cultura “Bárbaras”, mas cada uma das duas possíveis relações entre Deus e corpos celestes são relatadas neste trabalho. Ele relata que os caldeus consideravam os planetas instrumentos na previsão do futuro e que os planetas, a quem ele se refere como “intérpretes”, em virtude de cada um seguir seu próprio curso, apontam eventos futuros, interpretando assim, para a humanidade, o desígnio dos deuses. Algumas vezes pelos seus nascimentos, algumas vezes pelos seus poentes e, novamente, pelas suas cores, os caldeus diziam que eles davam sinais de eventos que estavam por vir àqueles dispostos a observá-los de perto.
Por conta disto, os deuses estariam separados dos corpos celestes, os quais apareceriam por desígnio divino como sinais de eventos futuros. Por outro lado, no entanto, Diodoro  escreve as trinta estrelas (ou “decanos”, uma doutrina egípcia erroneamente atribuída ao sistema astrológico babilônico) como “deuses conselheiros” e que “doze desses deuses, dizem eles, possuem a autoridade de chefe e, para cada um destes, os caldeus atribuem um mês e um dos signos do zodíaco, como são chamados”. Aqui, a atribuição de Diodoro dos “decanos divinos” aos babilônios evoca corretamente a ideia babilônica de que fenômenos celestiais manifestariam os atributos e ação de certas divindades remotas, sendo estes fenômenos, ao mesmo tempo, muitas vezes considerados divindades.
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Esses tipos de considerações metafísicas sobre os fenômenos celestes e divinos são tão importantes como parte da ciência no período helenístico quanto às tabelas calculadas da lua e dos planetas. A transmissão e recepção da tradição científica astral babilônica no mundo grego não é, a meu ver, uma questão de saber se Hiparco foi para a Babilônia e aprendeu astronomia matemática (embora conexões entre os astrônomos babilônios e Hiparco possam ser rastreadas em textos cuneiformes, de acordo com D. Rawlins 1985 e Toomer 1988), mas de uma matriz cultural multifacetada que permitiu as várias partes dessas ciências inter-relacionadas serem compreendidas e tornarem-se importantes no Ocidente. Ideias babilônicas de natureza astroteológica eram parte integrante desta cultura científica e podemos observar uma associação geral difundida do céu com o divino através da antiga arena cultural do Oriente Médio e do Mediterrâneo durante este período, sem dúvida, representando a receptividade dos intelectuais gregos a ideias semelhantes às do Oriente Próximo. O livro 10 das Leis de Platão já expressava a crença de que corpos celestes são impulsionados por uma alma cuja natureza é sábia, verdadeira e boa e de que este é o divino na natureza que afeta todas as coisas, incluindo a humanidade. Aristóteles, também interessado na ideia da divindade dos céus, observou que “há uma tradição muito antiga, na forma de um mito, de que as estrelas são deuses e de que o divino abrange toda a natureza”. Nós não sabemos, é claro, se Aristóteles se referia à Babilônia antiga, mas a ligação entre os céus e o divino remonta dos primórdios de textos cuneiformes, onde oferendas de cultos encontrados no Nível IV de Uruk, ou seja, onde a escrita foi encontrada pela primeira vez, são feitas para Vênus tanto como Inana-húd (UD) ou “Inana da manhã”, que é a estrela da manhã como Inana-sig ou “Inana da noite”, a estrela da noite.
  A natureza divina do céu veio a ser uma compreensão básica no mundo greco-romano. Cícero disse que “ao contemplar os corpos celestes, a mente chega a um conhecimento dos deuses”, e que “desse conhecimento surge a piedade, com seus companheiros justiça e as demais virtudes. O porquê de se imaginar que a contemplação dos corpos celestes tinha a intenção de conferir as virtudes de piedade e de felicidade foi muito mais tarde explicada por Ptolomeu na introdução de seu tratado sobre astronomia matemática. Nele, ele colocou os corpos celestes junto à eterna e imutável e, portanto, divina, parte do universo, e afirmou que “A partir da constância, da ordem, da simetria e da calma que estão associadas ao divino, ela (a astronomia) faz de seus seguidores amantes desta beleza divina, acostumando-os a reformar suas naturezas, por assim dizer, a um estado espiritual semelhante”.
No contexto cristão, o cosmos era considerado prova da existência do Criador divino, embora a noção do cosmos divino e, certamente, a veneração das estrelas ou do próprio cosmos, tenham sido explicitamente condenados. Porém, por trás dessa condenação encontra-se uma tradição Helenística, da qual a influência Babilônica não pôde ser removida, que é a da personificação dos corpos celestiais como divindades com poderes de pensamento, sentimento, juízo e conhecimento. Em oposição consciente ao que ele diz da “opinião caldéia”, significando a opinião dos astrólogos, Philo declarou que Deus “Não pode ser contido por este universo visível”, e ele “portanto, ordenou a humanidade a descer do céu”, porque o conhecimento do divino não deve ser buscado em “cada detalhe respeitando os movimentos do sol, e dos circuitos da lua, e das danças rítmicas gloriosas das outras constelações, mas em nossa própria mente (que é “espírito” – nous)”. Isto não quer dizer que o próprio Philo ou outros “platônicos orientais” da virada da Era Comum sabiam algo a respeito da tradição científica astral babilônica diretamente, muito menos da sua astronomia técnica. Porém, como membros letrados da Cultura de Alexandria, eles eram, sem dúvida, conscientes de sua existência. Sendo a astronomia babilônica ainda não circulante no primeiro século de nossa era, as ciências astrais Helenísticas e a filosofia já estavam indelevelmente marcadas por ideias e métodos babilônicos.
A questão da influência Babilônica tem sido sempre abordada através de referências específicas aos caldeus, encontradas em autores greco-romanos. Como já foi mencionado, tais referências estão disponíveis a partir de maior parte do Período Helenístico, ou seja, desde o primeiro século a.C. até o terceiro século de nossa era. São muitas para serem mencionadas aqui. Alguns encontram conexão dos caldeus em Vitruvius (1o século a.C.) em Beroso, em Theon de Esmirna (1o-2o século a.C.) em conexão com “Fenômenos”, ou Sexto Empírico (2o ou 3o século a.C.) em conexão com a astrologia.  Alguns desses caldeus, como foi dito anteriormente, são simplesmente astrólogos e podem não ter muito a ver com a tradição babilônica especificamente. Geralmente, não é mencionado, no entanto, o interesse helenístico nos signos. Arato, já em seu poético catálogo de estrelas, como Netz aponta “define o poema desde o seu início, nos termos mais gerais dos signos”, com Zeus sendo aquele que estabeleceu estes signos celestiais. O foco nos signos é ainda mais evidente entre os estóicos, cuja teoria dos signos no contexto de declarações condicionais sobre os eventos futuros é discutida em detalhe por Cícero, em seu tratado De Fato. Uma tradição de dois mil anos de tais declarações condicionais sobre eventos futuros, na forma de textos Babilônicos sobre presságios, é o pano de fundo deste tratado, sendo esta tradição bem conhecida por ele, de acordo com uma declaração em seu De Divinatione. Por causa de seu envolvimento com outros pensadores, especialmente os estóicos como Diógenes da Babilônia e Crisipo, cujas obras não foram preservadas, os tratados de Cícero sobre adivinhação dão uma maior atenção para a finalidade de compreender o impacto dessa preocupação babilônica sobre a filosofia greco-romana da ciência.
Na verdade, o discurso helenístico sobre adivinhação – a parte greco-romana – foi contemporânea a esta, ou seja, do 3º século e, mais tarde, a continuação da adivinhação babilônica, especialmente a astrologia. E é bom lembrar, como disse Netz, que “a filosofia helenística da ciência foi organizada em torno do problema da ‘inferência dos signos’“.
Para concluir, a transmissão de métodos quantitativos astronômicos babilônicos e seus parâmetros foram instrumentais e formativos para a astronomia e astrologia ocidentais, e a recuperação moderna deste material foi instrumental, se não revolucionária, para a história das ciências astrais antigas. Porém, a história da transmissão e recepção de ciência astral Babilônica no Mundo Helenístico não se limita à marca de conceitos e métodos astronômicos na astronomia posterior.
Visto em um contexto mais amplo, a transmissão de astronomia quantitativa veio como parte de um complexo conjunto de ideias, incluindo a natureza divina dos corpos celestes ou a ideia de que a reciprocidade entre o céu e a terra era manifesta em sinais celestiais. De um ponto de vista cultural, as ciências astrais Babilônicas, suas ideias circundantes e seu sistema mundial, incluindo astronomia matemática babilônica, astrologia e pensamento teológico astral, passaram a ser de interesse agudo dentro de uma cultura intelectual e religiosa helenística com a sua própria multiplicidade de ideias sobre o cosmos, especialmente suas regiões celestiais, seus astros e sua relação com o divino. Neste clima cultural, as ciências astrais da Mesopotâmia antiga não só penetraram nas fronteiras linguísticas e culturais do helenismo, mas também encontraram solos férteis para a sua aceitação.
The Heavenly WritingFrancesca Rochberg
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