Astrologia e Inquisição em Portugal nos séculos XVI e XVII

Ζωδιακος Κυκλος Χαρακτικο του Δημητρη Γαλανη
Gianriccardo Grassia Pastore
Dissertação de Mestrado em História e Filosofia das Ciências
Universidade de Lisboa
Faculdade de Ciências
Secção Autônoma de História e Filosofia das Ciências
Resumo
Este trabalho procura contribuir com novas reflexões sobre a atuação da Inquisição com relação aos livros científicos e com um tipo de astrologia, a judiciária, ou seja, aquela que fazia previsões, em Portugal durante os séculos XVI e XVII. Para tal, foram consultados os índices do período em questão e observamos que, na maioria dos casos, a preocupação se dava muito mais com os livros de conteúdo teológico ou com relação a arte divinatória, pois essa última atentava contra o livre-arbítrio, tão defendido pela Igreja de Roma, principalmente em meio as contendas contra os protestantes, defensores da predestinação.
Introdução
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A ideia para essa dissertação de mestrado surgiu após uma das aulas do Professor Doutor Henrique Leitão, ao afirmar que faltavam estudos com a temática sobre a relação entre a Inquisição e os livros científicos em Portugal nos séculos XVI e XVII. Durante muitos anos a tradição historiográfica tendeu a afirmar que a presença da Inquisição, ou da própria Igreja, fora fator fundamental para a inibição do desenvolvimento das ciências nos países católicos (no nosso caso específico, Portugal).
Contudo, nos últimos anos, muitos estudos de grande valor começavam a apontar para a direção oposta e não só: em muitos casos a Igreja não apenas foi responsável pelo ensino, mas também não era seu objeto de preocupação “novidades” ou, mais especificamente, as ciências.
A partir da leitura dos índices dos livros proibidos, o que encontramos era o que era esperado: a Igreja concentrou-se muito mais seus esforços no impedimento do avanço do protestantismo do que em qualquer tema científico.
É nesse contexto que a polêmica anti-astrológica surgirá. Na conjuntura das Reformas Protestantes, da defesa do livre-arbítrio contra a predestinação, tão defendida pelos protestantes, que a Inquisição irá concentrar-se contra um tipo de astrologia. Das subdivisões da astrologia que acabaram por ficar mais conhecidas foram a da astrologia natural – aquela utilizada por médicos e para a agricultura, por exemplo – e a judiciária – a que fazia previsões. Reside aqui justamente a questão introduzida há pouco: se é possível fazer previsões com relação ao futuro, como seria o homem livre para fazer suas decisões? Isso explica aquilo que tentaremos desenvolver nesse trabalho. As proibições da Igreja concentraram-se muito mais na arte divinatória por abalar sua ortodoxia do que, até mesmo, o outro tipo de astrologia, como veremos nas páginas seguintes. E menos ainda os esforços concentram-se contra as ciências, conforme poderemos observar a partir da leitura dos índices portugueses.
Até chegarmos nessa parte final – da transcrição de parte índices -, procuramos desenvolver e contextualizar o que fora a astrologia, sua história, seu “encontro” com o “pensamento grego”, sua importância através dos séculos e entender os motivos que levam a Igreja a persegui-la em Portugal (assim como nos demais países católicos). Era o encontro de duas razões diversas. Um futuro já escrito pelos astros versus um futuro a ser escrito pelo próprio homem. É justamente nesse tópico de tentamos explicar o pensamento da arte divinatória e da Igreja e procuraremos desenvolver ao longo desse trabalho os motivos do conflito que serão acirrados a partir do século XVI, segundo os processos históricos por nós observados.
Esta arte milenar encontrará justamente no pensamento aristotélico-ptolomaico a sua base filosófica, se assim quisermos entender. Como veremos no primeiro capítulo, é a partir do entendimento da existência de um “mundo perfeito” (supralunar) e de um mundo da geração e da corrupção (sublunar), que aquele exercerá influência neste.
Mais adiante teremos a oportunidade de estudarmos o período no qual nos concentramos, os séculos XVI e XVII. A importância da astrologia nas universidades, os debates realizados não apenas entre astrólogos, mas, principalmente entre os defensores do livre-arbítrio, que tanto atacaram a astrologia. O caso mais famoso: a contenda de Giovanni Pico della Mirandola, seus reflexos em Portugal e o caso específico português, a chegada a uma “via de meio” através do molinismo.
Também o entendimento de como funcionava a prática astrológica, que acaba por desmistificar a separação entre uma “cultura popular” de uma “cultura erudita”, visto que quem procurava um astrólogo provinha das mais diversas camadas sociais, bem como o paradoxo de uma arte “rebelde”, pois perseguida e, por outro lado, presença constante nas cortes, chegando ao ponto de um rei não tomar decisões sem a consulta de um astrólogo.
Alguns dos capítulos de maior importância para esse trabalho são da análise da bula de Sisto V, do ano de 1586, com a qual ficar-nos-a mais claro os motivos da proibição católica a essa arte divinatória. Da mesma maneira o entendimento da defesa do livre-arbítrio e a posição anti-astrológica de Santo Agostinho. A análise da famosa Regra tridentina IX também é de capital importância, pois nos ajuda a compreender que a Igreja não era obscurantista, que teria procurado perseguir as ciências ou também a astrologia sem motivos aparentes, simplesmente pelo “gosto pela perseguição”.
Todos esses pontos ficar-nos-ão ainda mais elucidados quando, finalmente, chegarmos à leitura dos Índices. Nesse ponto podemos observar que a preocupação da Igreja não eram os livros científicos, ou “novidades”, mas, sim, livros de conteúdo teológico ou tudo aquilo que pudesse comprometer sua ortodoxia, tais como livros oriundos de países protestantes ou, como no caso de nosso estudo, a astrologia judiciária. O que encontramos, de fato, são autores protestantes, livros proibidos pela bula referida e pela Regra IX.
Uma “surpresa” ainda nos é reservada para o final, quando da análise do único índice português do século XVII, o de 1624, principalmente após o magistral e revelador estudo de Maria Teresa P. Martins.
Por fim, é preciso dizer que o português adotado nesse trabalho é o da vertente brasileira (salvo algumas palavras consideradas muito diferentes), sob a autorização do coordenador do curso e orientador desse trabalho, o já citado Professor Doutor Henrique Leitão.
1. Da prática astrológica
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 Segundo afirma Grafton, assim como nos dias de hoje, quando vamos ao consultório do dentista, ou em um médico em geral, ou até mesmo em um escritório de um advogado, nos deparamos com aparatos que os identificam; no início da Modernidade, os que recorriam aos serviços de um astrólogo também se deparavam com uma série de símbolos e equipamentos, que serviam igualmente para estabelecer sua autoridade profissional, além de auxiliá-lo no exercício de sua profissão. Iconografias do período retratam globos celestes para lembrar ao astrólogo, bem como ao seu cliente, da beleza das estrelas, mapeadas em suas constelações, livros, diagramas, tábuas, astrolábio, dentre outros. O astrolábio, por exemplo, permitiria ao astrólogo fazer medições ou observações precisas.
Conforme o médico em nossos dias, o astrólogo também precisava armazenar os dados e dividi-los em categorias. Para determinar o impacto de um planeta em dado momento, o astrólogo não poderia simplesmente determinar sua posição no Zodíaco. Primeiramente, deveria dividir o Zodíaco para o momento no qual estava interessado, nas doze casas da genitura. Essas divisões, conforme explica-nos Grafton, começavam às nove horas, no caminho do Sol, ou da eclíptica, cruzando o horizonte de um observador no ponto em questão e continuar no sentido anti-horário. Esses são numerados e referenciados por nomes técnicos; por exemplo o primeiro, o quarto, o sétimo e o décimo eram chamados de “ângulos”. Na genitura, por exemplo, estes assumiam a direção de uma particularidade da vida do cliente. Para uma boa interpretação dos diagramas era necessário muito estudo por parte do astrólogo. O processo não era simples. A eclíptica cruza o equador celestial em um ângulo de aproximadamente vinte três graus e meio e as doze casas normalmente não coincidiam com os doze signos do Zodíaco. Dessa forma, o astrólogo deveria começar estabelecendo uma genitura elaborada; seja pela observação das estrelas, seja por tabelas; exatamente no ponto no qual o Zodíaco estivesse subindo em determinado momento e exatamente nos limites das doze casas. Existia uma variedade de sistemas esquemáticos que auxiliavam o astrólogo na sua tarefa. Os almanaques ofereciam tabelas das casas, elaborado com as latitudes, que poderiam ser usadas para explicar as casas da genitura do local em questão com relativa rapidez. Segundo Grafton, os métodos para dividir o Zodíaco em casas provocaram muitos debates e querelas.
Conforme fora dito, a astrologia tinha sua parte teórica e sua parte prática. Seu aspecto prático se assenta na construção e interpretação dos horóscopos; enquanto seu aspecto teórico requer uma complexa estrutura e depende muito do tipo de teoria a ser seguida.
Um astrólogo não poderia simplesmente escolher uma casa e tê-la como dominante, contudo deveria observar a posição do Sol, da Lua, dos cinco planetas, dentre outros, para o período no qual debruçava-se. Cada planeta, assim como cada casa da genitura, possuía uma característica, associada mais ou menos a um deus da Antiguidade ao qual tinha o nome associado. Cada qual também tinha sua propriedade, tais como quente ou frio, úmido ou seco, exercendo determinada influência nas criaturas mutáveis da Terra, conforme expusemos anteriormente. Ante essas características, era dever do astrólogo tê-las em conta em conjunto com as qualidades das doze casas e só assim começar a parte mais técnica de seu trabalho.
Primeiramente, o astrólogo deveria localizar os planetas no Zodíaco e nas doze casas da carta em questão. Para tal, devia, em muitos casos, observar o céu no momento estudado. Entretanto, alguns – ou todos os planetas – podem estar abaixo do horizonte, nas primeiras seis casas, no momento do nascimento. Geralmente, o astrólogo encontrava os dados que necessitava no almanaque. Um almanaque típico traçava o movimento dos planetas, do Sol e da Lua, dia após dia. Assim sendo, um astrólogo que, por exemplo, necessitasse consultar o mapa astral de anos e até décadas vindouras, poderia fazê-lo quase sem problemas, pois encontrava os dados para calcular difíceis genituras de forma bastante rápida. Contudo, era preciso estar bastante atento, pois os almanaques costumavam possuir imprecisões, devido à antiguidade dos dados nos quais assentavam-se. Não raro, astrônomos e astrólogos que utilizavam-se dos almanaques para fazerem previsões de grande importância, como eclipses solares ou a conjunção de planetas viam-se obrigados a admitir que a posição contida nos almanaques eram consideradas deslocadas em relação à posição em que se encontravam de fato. É neste ínterim que em fins do século XV e o início do XVI os astrônomos começam a demonstrar preocupação com a estabilidade e o valor dos almanaques.
Ainda que os almanaques possuíssem erros, isso não daria ao astrólogo álibi para defender-se de possíveis erros, pois era o próprio o responsável pelas escolhas e interpretações feitas durante o seu estudo, o que significa ser muito mais do que apenas simples associações entre os planetas e suas propriedades.
Wladyslaw Theodore Benda - The Earth with the Milky Way and moon, 1918
 Uma vez que os dados estavam organizados, deveria o astrólogo determinar como encaixá-los dentro das complexas regras de sua arte. A posição de um planeta em determinado signo do Zodíaco ou de uma casa da genitura poderia mudar substancialmente seus poderes. A relação das estrelas no Zodíaco era bastante específica, tendo, cada qual, significados e funções astrológicas. A relação da posição que cada planeta tinha com os demais era dada pela carta. Os “aspectos”, ou seja, a distância angular entre os planetas eram estabelecidos por: oposição (180º), trino (120º), quadratura (90º), sextil (60º) e, por fim, a conjunção.
A “oposição” e a “quadratura” eram considerados de relação hostil, enquanto o “trino” e o “sextil”, positivos. Já a conjuntura, por seu turno, era de particular importância, especialmente as mais raras, como a de Saturno e Júpiter, que ocorriam a cada vinte anos.
Era dever do astrólogo identificar e calcular os efeitos de cada aspecto da genitura. Mais uma vez, seria necessário recorrer ao almanaque, esse listaria não apenas a posição dos planetas, mas também os aspectos de cada qual, dia após dia. Assim como os gráficos, que revelam as relações entre os dados, os almanaques poderiam revelar um grande número de conjunções.
Contudo, como observa Grafton, o simples estudo de um almanaque ou de um manual não dava ao estudante de astrologia conhecimentos suficientes para praticá-la. Muitos acabavam por assistir as aulas de Medicina, outros, ainda, precisavam estudar com afinco fazendo e refazendo cálculos e mais cálculos até aprenderem as diferentes maneiras de resolverem os mais diversos problemas técnicos. Porém, engana-se quem pensa que existia apenas um só caminho para a observação, execução e interpretação dos mapas astrais.
Tommaso Campanella, por exemplo, durante a sua prisão em Nápoles, redigiu para Philibert Vernant uma genitura na qual a influência que cada planeta exercia sobre os demais era discutida em detalhes, os efeitos de cada casa do Zodíaco, o impacto causado pela mudança da posição dos planetas, dentre outros.
Com a genitura em mãos – a sua mesmo ou, talvez, a de um filho -, poderia o cliente evitar possíveis más influências e tentar conquistar efeitos positivos, uma vez já ciente de possíveis insucessos para sua vida futura.
Segundo atesta Grafton, Girolamo Cardano, inicia suas atividades de astrólogo em 1534, quando publica um prognóstico em forma de panfleto. Sua contribuição para a popularização do gênero se dá, inclusive também, pela escrita em língua vulgar, no caso, o italiano, com algumas passagens em latim. Procurava fazer previsões sobre o desenvolvimento das religiões e políticas mundiais, mas advertia seus leitores quanto à precisão de seus prognósticos:
“Não esperem que isso aconteça em vinte ou cinquenta anos. Contudo, eu tenho o verdadeiro conhecimento de que o mundo deve, muito em breve, submeter-se a uma renovação. Portanto, prestem atenção: As Sagradas Escrituras e a astrologia têm nos mostrado, sem dúvida, que a nossa voracidade insaciável deve em breve chegar ao fim. Se o mal está profetizado, não se sintam tristes, como os escritos de Salmista dizem: muitos são os açoites, mas por misericórdia protegerão aquele que espera o Senhor.”
Girolamo Cardano. Pronostico.
Cardano não faz nenhuma reivindicação por uma onisciência e ainda tenta evitar questões parciais em suas previsões. Entretanto, seus adversários falharam em vários momentos, seja em questões morais ou técnicas. Afirmavam aos príncipes não a verdade, mas aquilo que queriam ouvir. Suas previsões não tinham fundamento porque a maioria delas estavam “contaminando a nobre ciência da astrologia, pois mal sabiam utilizar as Tábuas Afonsinas”. Essas tábuas foram criadas sob o patrocínio de Afonso X, o sábio, de Castilha, por volta de 1272 e popularizada em sua forma latina, durante o século XIV.
Jerôme_Cardan
Girolamo Cardano
Consejos para tener éxito en la Astrología
Cardano continua expressando seu descontentamento com aqueles que contribuíam para um difamação da astrologia em seu Pronostico:
“Esses charlatões aproveitavam-se da credulidade e incompetência de seus patronos: o homem de real valor e aprendizado não é recompensado por isto. Mais alguém sabe dizer coisas que agradam, mais crê-se na sua sabedoria.”
Na tentativa de melhor elucidar as bases de seu trabalho, Cardano começa revelando que muito em breve a Igreja passaria por uma mudança radical. A base na qual assentava-se era o longo período de mudanças das estrelas, que há muito era utilizado como suporte nas previsões astrológicas. Nas origens do cristianismo, Cardano argumenta, o primeiro grau da constelação de Áries na esfera das estrelas fixas (a oitava de nove esferas celestiais, contando a partir da Terra) estava em conjunção com o primeiro grau do signo de Áries na nona esfera, que continha os signos do zodíaco.
Essa esfera cristalina adicional, deslocada de seu eixo da oitava, foi postulada pelos astrônomos árabes medievais, que utilizaram seu movimento para dar conta da precessão dos equinócios – o fato do Sol não retornar ao final de cada ano tropical – o período entre um solstício ou equinócio e o mesmo solstício ou equinócio do ano seguinte – ao mesmo ponto das estrelas fixas. A perfeita correlação entre as duas esferas. Na interpretação de Cardano isso se dava pois: “era um sinal de grande igualdade, na qual eram produzidas nossa fé.”
As conjunções planetárias de 1524 e 25 nos signos de Peixes e Áries foram vistas por Cardano como um sinal de destruição da Igreja; já aquela de 1564 denotava uma renovação de todas as leis, tanto do Cristianismo quanto do Islamismo.
Como mencionado anteriormente, as contendas se davam também no que tange às interpretações astrológicas. Sinais surgidos nesse biênio em Alexandria e Milão foram suficientes para que alguns afirmassem eventos vindouros. Contudo, Cardano via justamente o oposto, evidências para denunciar a falsidade de tais afirmações. Recusou ter que fazer previsões de guerras ou outras catástrofes, pois “não há nenhuma parte da astrologia mais difícil do que essa e, ainda assim, a maior parte desses loucos falam com a maior ousadia, em suas bestialidades, a respeito de qualquer outra coisa”.
Além disso, também insistiu, contrariamente a Martinho Lutero, que nem todo evento celestial dramático significaria ou simbolizaria grandes mudanças na Terra. Lutero estava errado ao afirmar, por exemplo, que os eclipses que estavam acontecendo naquele período significariam a proximidade do fim do mundo. Eclipses eram naturais, não sobrenaturais; se esses significassem que o fim do mundo estaria próximo, qualquer um com uma boa tábua astronômica poderia afirmar a data precisa de tal evento. E mais: muitos eclipses solares permaneciam invisíveis para a maior parte da Terra. Cardano continuava sua defesa afirmando que quando o fim estivesse próximo, teriam eventos sobrenaturais e milagres já sinalizados no Cristianismo e na Lei Mosaica, designados pela Lua e pelo Sol. Em suas predições, Cardano coloca o fim do mundo em uma data muito posterior ao período no qual vivia. Cardano termina seu relato afirmando que teria muito a dizer sobre isso, contudo, por ora, bastava apenas dizer que o Apocalipse ainda não estava próximo.
Em síntese, o Pronostico de Cardano foi uma discussão sobre a possibilidade de predição dos movimentos do Sol, da Lua e dos planetas com uma interpretação ímpar. Além do mais, tocou em questões sobre possíveis mudanças – tanto positivas quanto negativas – na Igreja, advertências sobre a vida prática para agricultores, médicos e advertências teóricas sobre regras da Igreja e do Estado. O Pronostico acabava por ser uma mistura de elementos confusos, mas também, como afirma Grafton, uma obra prima corajosa para um estudioso sem nenhuma fama.
Cardano's Cosmos The Worlds and Works of a Renaissance Astrologer_
Cardano’s Cosmos: The Worlds and Works of a Renaissance Astrologer
O pequeno livro de Cardano seguiu à tradição em muitos aspectos, conforme afirma Grafton. No que tange à conjunção planetária – notadamente a de Saturno e Júpiter que ocorrera em 1524 e deveria ocorrer novamente em 1564 – fez, como expomos anteriormente, a previsão de mudanças na Igreja. Mais ambicioso ainda foi ao afirmar, através da precessão dos equinócios, e fazer previsões de longo prazo sobre o catolicismo. A forma com a qual sua interpretação astrológica sobre a oitava e nona esferas interagiram para moldar a história mundial, tanto em sua técnica, quanto em suas pretensões explicativas, remetem àquelas já estabelecidas pela tradição. Os autores das Tábuas Alfonsinas haviam estabelecido quando as duas esferas iriam coincidir de fato. A data estabelecida por Cardano seria quando o primeiro grau da constelação de Áries no Zodíaco correspondesse precisamente ao primeiro grau da constelação de Áries na oitava esfera, ou seja, 17 de maio do ano 15, datando exatamente na metade da encarnação de Jesus e sua crucificação, nos trinta primeiros anos da Era Cristã.
O Pronostico de Cardano possuía em seu frontispício uma xilografia de um profeta sentado e atrás a imagem de uma cidade com uma torre em ruínas incendiada. O profeta mede o céu com um compasso. Pode-se observar também que, no céu, há uma balança, simbolizando o advento do Juízo. O opúsculo possuía dez páginas, com o texto distribuído em breves parágrafos. Tanto a xilografia quanto a forma na qual se articulava o texto, demonstram que o livro pretendia alcançar um público amplo, inclusive aqueles que não tinham capacidade de compreender textos grandes. Sob o aspecto visual, pode-se dizer que o livro era mais agradável que os demais prognósticos italianos, pois as comuns seis ou oito páginas de texto não vinham acompanhadas de gravuras.
Este tipo de prognóstico não possuía nada de novo, visto que desde o século XII textos científicos islâmicos já abordavam essas questões. Também na Antiguidade, astrônomos viam na astrologia a possibilidade de aplicar suas teorias matemáticas em questões práticas. Um grande número de médicos – ao menos na teoria – afirmavam que o médico prudente não poderia prescrever um remédio ou efetuar uma operação cirúrgica sem verificar se aquele seria o momento astrológico mais adequado para tal. Tanto astrônomos quanto médicos acabaram por contribuir com a difusão deste tipo de opúsculo. Na metade dos Trezentos, com a aproximação da conjunção planetária, prevista para 14 de março de 1345, hebreus e cristãos fizeram previsões de guerras e epidemias. Até mesmo a elite mercantil lia este tipo de obra, manifestando reações que iam do ceticismo ao pânico.
Ao observar os mais proeminentes eventos ao longo dos anos, Cardano seguia as normas dos prognósticos. Grandes conjunções ou eclipses normalmente dominavam as sessões astronômicas dos almanaques italianos ou do norte da Europa. Achilles Pirmin Gasser, em um trabalho muito semelhante para o ano de 1544 na Alemanha, utilizou-se dos quatro eclipses que tomara conhecimento da sua realização entre 10 de janeiro e 29 de dezembro, para predizer o aparecimento de monstros marinhos, serpentes, relâmpagos, inundações, erupções de sangue e grandes transformações na conduta humana. Isso traria terríveis resultados para a religião Cristã. Da mesma forma, Pierre d’Ailly fez observações entre as grandes conjunções e e eventos históricos. Tais como o Dilúvio, a promulgação da Lei Mosaica, e o advento do Islã.
PRACTICA AUFF DAS M.D.XLVJ. JAR DURCH DOCTOREM ACHILLEM P. GASSER L. ZU FELDKIRCH GEMACHT
Autores italianos geralmente tinham por objeto uma combinação de eventos astronômicos de relevo que poderiam interessar muitas localidades do mundo, assim como eventos de interesses locais, para um grupo específico de leitores. Raramente o uso que faziam da astrologia necessitava de cálculos muito complexos, mais frequentemente citavam as grandes conjunções de Júpiter e Saturno e seu potente impacto na vida terrena ou até mesmo versavam sobre posições insólitas dos planetas para explicarem o surgimento da sífilis.
Um famoso libreto de Theodoricus Ulsenius do ano de 1496 trazia um homem coberto de lesões no rosto e nas pernas, sinais evidentes da sífilis, contudo a simplicidade com que era explicada a razão pela qual se dava esse tipo de fenômeno (no caso os planetas que se encontravam em conjunção com o signo de Escorpião) acabava por substituir análises mais complexas ou análises de temas natalícios relativos a indivíduos, dentre outros.
O mesmo se pode afirmar de predições mais precisas, mais facilmente refutáveis, como aquelas feitas por Cardano ou pela maior parte dos autores até Kepler, que continuou a dedicar-se seriamente a identificação de técnicas para a meteorologia mesmo após ter perdido a confiança em muitos aspectos da Astrologia tradicional.
Alberto Magno, em seu trabalho Speculum astronomiae (1260) sobre a distinção entre astrologia e Astronomia feita por Ptolomeu, descreve os diferentes tipos de práticas astrológicas:
a) Revoluções eram concernidas por larga escala de mudanças, principalmente com o tempo, mas também com relação à política. Essas predições geralmente diziam respeito a eventos astronômicos, tais como: eclipses, cometas e conjunções e eram feitas para países ou cidades para demonstrar a probabilidade de uma guerra, doença ou fome. A teoria da conjunção planetária provinha da astrologia árabe e foi das mais bem sucedidas teorias para a compreensão de eventos históricos e elaboração de suas respectivas previsões;
b) Natividade, também conhecida como genealogia, era o estudo astrológico sobre o nascimento de uma pessoa. O astrólogo normalmente explicava as consequências que esta pessoa poderia ter para sua saúde, finanças, casamento, viagens, morte, dentre outros. No caso das “natividades”, o termo “revoluções” também poderia referir-se às primeiras análises da posição dos planetas na data do nascimento e por um período de sessenta anos. A “natividade” poderia ser feita quando do nascimento do bebê e refeita (ou feita pela primeira vez) em idades mais avançadas, se caso necessitasse de correções nos detalhes de seu nascimento;
c) Eleições determinavam o momento mais propício para começar um empreendimento, uma atividade, iniciar a construção de uma obra importante, dentre outros;
d) Interrogações são as questões feitas sobre determinado assunto, incluindo-se questões pessoais, médicas ou relativas a negócios. São consideradas “questões horárias”, pois baseiam-se na configuração dos céus no momento no qual as questões são formuladas. O cliente também poderia perguntar ao astrólogo sobre eventos passados em sua vida também como forma de saber sobre o futuro.
Nos séculos XIV e XV a astrologia começa a fazer parte dos curricula das universidades que possuíam escolas médicas. Na Universidade de Bolonha, dentre outras, fazia parte das atribuições do professor fazer pequenas previsões. Na corte francesa, assim como em inúmeras outras também, a presença de astrólogos fazia-se importante no âmbito de períodos como os da Peste Negra e da sífilis. Ao longo dos anos, cada vez mais, a importância da astrologia foi sendo reconhecida. O número de autores de profecias que utilizavam-se da Astrologia aumentava a olhos vistos e começaram a valerem-se desta para obterem autoridade técnica em seus trabalhos.
Com a invenção da imprensa, a popularização dos textos astrológicos teve um aumento significativo, não apenas porque com as cópias foi possível a sua multiplicação, mas também porque os impressores passaram a plagiar muitos textos.
Não obstante características comuns que possuíam os prognósticos, algumas pequenas diferenças podem ser observadas devido às diferenças culturais entre os locais nos quais foram elaborados e também devido às técnicas utilizadas. Geralmente eram escritos em latim ou na própria língua vulgar. Contudo, não incomumente, versavam sobre a vida das casas reais, questões climáticas, dentre outros. É de notar previsões como a que se referia ao final do ano de 1537, afirmando que o rei da Turquia não atacaria os cristãos no sul da Itália. Também do mesmo autor, Luca Guarico, eminente rival de Cardano, a previsão de que Cosimo de Medici não teria um governo longo em Florença, ou de que o Papa Paulo III prepararia um Concílio. As previsões de Guarico, feitas em italiano e latim, possuíam mais precisão do que aquelas elaboradas por Cardano, mais gerais e banais, versando sobre a chuva ou a neve. Cada vez mais também as profecias utilizavam-se da astrologia para valerem-se de autoridade do ponto de vista técnico e a própria astrologia inseria em seus cálculos profecias de ruína e glória.
É também com a sua popularização que muitos humoristas começam a ridicularizar a prática astrológica. Muitas paródias ou sátiras são feitas a partir de então, tais como a de Rabelais no Prognóstico Pantagruelino e na Prática para o ano de 1565, emitido pelo doutor Hans Wyermann de Berna, “doutor nas sete artes liberais”, que previu que “a neve cairia mais nas montanhas em janeiro do que no lago de Genebra” e que o “gelo apareceria mais no inverno do que em agosto”.
Todavia, assim como a própria astrologia nesse período não era uma novidade, sua crítica também não o era. Já no mundo Antigo encontramos críticos à sua prática, tais como as considerações de Cícero quanto ao seu determinismo – algo que seria capital para as discussões travadas ao longo da Idade Moderna, principalmente as elaboradas pela Igreja Católica. Outras críticas observavam que os astrólogos eram incapazes de ver as diferenças entre gêmeos. Muitas dessas críticas não se dirigiam diretamente às práticas de astrólogos reais – a maioria das quais, longe de reivindicar acesso ao sistema casual único, universal, regularmente reconhecido.
A interpretação astrológica é o que dá à astrologia a sua coerência, contudo nem todos os tipos de interpretação possuíam a mesma reputação, conforme atesta Ana Avalos. As questões feitas suscitavam uma série de controvérsias, especialmente durante e após o período do Renascimento, momento que aumentavam as tendências de rejeição ao pensamento medieval e tentativa de retomada de uma espécie de “pureza” da ciência ptolomaica. Esses astrólogos propuseram uma nova e reformulada astrologia, baseada na autoridade de Ptolomeu, como alternativa a de Manilus.
No Livro III da obra Advacement of Learning, Francis Bacon clamou por uma “astrologia sana” (termo baconiano para a astrologia natural) para propósitos cívicos. Tratava-se da astrologia com fins agrícolas, com previsões de desastres naturais: cometas, meteoros, inundações, pragas, erupções, terremotos, guerras, fome, dentre outros. Por outro lado, Bacon negou a astrologia associada a fins mágicos e supersticiosos. Rejeitava os horóscopos, a doutrina da natividade, eleições e toda a sorte de “frivolidades”, pois não possuíam nada “certo ou sólido” e seriam facilmente refutadas por “convincentes razões físicas”. Negava ainda a “necessidade fatal das estrelas”. Como podemos observar, à exemplo da tradição astrológica, Francis Bacon também distinguira, ainda que com outra denominação, a astrologia natural da astrologia judiciária (a que chamava de “selvagem”), ponto que iremos discorrer melhor mais adiante para melhor compreendermos um dos problemas cruciais da sua relação com a Igreja Católica na Idade Moderna.
Das mais notáveis e ferrenhas críticas contra a astrologia foram feitas em finais do século XV. Elaborada por Giovanni Pico della Mirandola na obra Disputationes adversus astrologiam divinatricem, assentavam-se não em um esforço empírico para discutir as pretensas correspondências entre o movimento planetário e os eventos históricos, mas o seu contrário: astrólogos como Abu Ma’sar e Pierre d’Ailly estavam convencidos de que as grandes conjunções determinavam eventos importantes, impuseram esse padrão, mesmo quando esses acabavam por contradizer-se. Em seus escritos, Pico afirma ser a astrologia um conjunto de saltos lógicos e erros técnicos, desprovidos de embasamento científico – o produto natural dos caldeus supersticiosos, os primeiros a valerem-se desta arte. Ainda expôs a astrologia enquanto “fundamentalmente arte anti-religiosa”. Para Pico, os praticantes dessa arte divinatória colocavam suas almas sujeitas aos corpos celestes, esses mesmos não possuidores de alma.
As ideias de Pico logo ganharam entusiasmado apoio de Savonarola, que para a língua vulgar traduziu parte da obra daquele. A fúria dos astrólogos logo foi atiçada. Luca Bellanti, por exemplo, refutou Pico afirmando que este morrera exatamente no ano previsto por um astrólogo.
De certa maneira, Pico acabou por tornar-se referência para todos aqueles que debruçavam-se sobre a astrologia. Negativa ou positivamente era citado, tal como fizera o próprio Cardano.
O debate ganha contornos ainda mais acalorados quando, de Leipzig, o professor Simon Pistoris argumentou que “ainda que a astrologia não fosse parte da Medicina, mostrou-se bastante necessária para o médico”. Citando o paduano do início do século XIV Pietro dAlbano enquanto autoridade, Pistoris insiste que os “médicos podem fazer prognósticos de possíveis futuras doenças, assim como o astrólogo o pode fazer com relação às estrelas”.
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Contudo, é de Nuremberg que vem outra oposição nesta contenda, Polich de Mellerstadt fará uma réplica detalhada sobre a discussão. Pico della Mirandola, argumenta Mellerstadt, havia deixado a astrologia em tal estado de ridicularização que nada mais havia sobrado para ser dito. Em sua réplica faz toda uma revisão da técnica e da crítica histórica da astrologia efetuada por Pico com grande entusiasmo e descarta que um médico, ao invés de um astrólogo, que deveria utilizar-se do conhecimento das doenças de Regiomontanus, acrescentando que tudo aquilo que produziam servia muito mais para “latrinas” do que para as escolas médicas.
Já o filósofo, médico e astrólogo Agostino Nifo acreditava piamente que os médicos precisavam levar em consideração as influências celestes, contudo concordava com Pico sobre a necessidade da astrologia de seu tempo passar por reformas.
Os chamados “conjuncionistas” não seguiam a clássica astrologia de Ptolomeu, mas os mais recentes estudos de Abu Ma’sar, atribuindo muito mais poder aos planetas e as suas posições e bem menos aos eclipses do Sol e da Lua. Pico, com todos os seus exageros, estava correto ao afirmar que o Sol e a Lua eram corpos celestes mais proeminentes.
O matemático e teólogo Albertus Pighius compartilhava essa afirmação. Deplorava a divulgação desta ignorância e o consumo anual dos Prognostica e atribuía todas essas mentiras e superstições à astrologia. Segundo afirmava, toda essa moda prejudicava a arte da medicina.
 Como afirmamos anteriormente, desde Hipócrates até o século XVII, a astrologia era um estudo que fazia parte da vida dos médicos e físicos. O princípio básico que unia as duas artes era a influência que os corpos celestes tinham sobre tudo que pudesse existir sobre a Terra, incluindo plantas e pedras. Conforme atesta Ana Avalos, o corolário para essa teoria era a influência sofrida pelos corpos humanos a partir dos diferentes signos do zodíaco e pelos planetas. Muito provavelmente essas teorias viriam ganhar ainda força maior com o desenvolvimento das ideias neoplatônicas durante o Renascimento. A astrologia médica baseava-se na teoria
hipocrático-galênica dos humores e da correspondência entre micro e macrocosmos, símbolo da unidade da criação. De acordo com essa teoria, o homem era considerado a ligação entre o reino do espiritual e do material, composto pelo corpo físico e a alma imaterial. O homem era o espelho do universo e as leis cósmicas projetavam-se e governavam a natureza humana. Cada parte do corpo humano corresponderia a um diferente signo do zodíaco: o coração representaria o sol; a cabeça (lugar da alma e da faculdade da razão), os céus empíricos; o baixo ventre (local do ânus e das genitálias), a Terra (que era o lugar da geração e da corrupção). Cada planeta tinha uma determinada influência em alguma parte do corpo, cada parte do corpo e suas doenças eram distribuídas de acordo com as casas do zodíaco.
Essas teorias, como afirma a autora, apareciam em textos medievais e renascentistas referindo-se ao “homem zodíaco”, ou ao “homem microcosmo”. Teorias da influência eram particularmente significantes para a prática da flebotomia e para a administração de medicamentos. A constituição dos medicamentos era de ervas e minerais, dessa maneira a influência dos signos do zodíaco e dos planetas era um fator a ser considerado quando feito o tratamento. Outro aspecto levado em consideração pela medicina astrológica era a teoria dos “dias críticos”, relacionados com os ciclos lunar e solar. Creditava-se a esses ciclos a responsabilidade da ocorrência de crises e de doenças, por esta razão, continua Avalos, a manifestação de certos sintomas em dias específicos permitia aos físicos fazer um prognóstico mais acurado.
 De acordo com a teoria dos humores, os homens são formados por quatro humores (a bile amarela, a bile negra ou melancólica, o sangue e a fleuma) e cada qual possuía seu próprio temperamento, tais como quente e frio, úmido e seco e eram regulados por diferentes planetas de acordo com a natureza de suas simpatias. Todas as doenças com sintomas de Saturno (frio, rigidez, etc.), por exemplo, deveriam ser tratadas com remédios regulados pelo planeta oposto, o sol (associado ao calor e a virtudes relaxantes).
 Baseada nesse tipo de correspondência, a medicina astrológica determinava cada estágio do tratamento (diagnóstico, prescrição e prognosticação) relacionando-o com a posição celeste. O primeiro passo para diagnosticar a doença era observar o tempo que o doente permanecia no leito, que é o exato momento que a doença começa. Esse momento é de mais fácil identificação quando se trata de epilepsia, apoplexia ou hemorragias do que nos momentos de febre. Em geral, isso era aceito como o momento no qual os primeiros sintomas da doença eram sentidos no corpo.
 Após fazer as figuras e diagnosticar a doença, o físico poderia escolher o momento mais propício para a correta administração do remédio e decidir quando seria feita a sangria ou a operação cirúrgica seria realizada. Conhecidos como “dias eletivos”, essa prática baseava-se na ideia de conjunção (eclipses ou conjunções planetárias) que não seriam benéficas para tais práticas. Muito controversa dentre os físicos, mas também muito difundida, era uma das razões pelas quais tantos almanaques indicavam mês a mês os dias eletivos.
 Depois do preparo do horóscopo, o físico-astrólogo deveria estar apto para predizer qualquer tipo de eventual doença. Estas subdividiam-se, por seu turno, em dois grupos, segundo Ana Avalos: agudas, que nunca ultrapassavam uma semana; e as crônicas, que poderiam ultrapassar um mês. As doenças agudas deveriam sempre ser julgadas de acordo com os aspectos e posições da lua, enquanto as crônicas dependeriam do sol. Os dias críticos eram marcados pela lua passando pela extremidade das casas.
 Com o desenvolvimento da anatomia, através de dissecações e operações, as hipóteses médicas puderam ser verificadas, enquanto os aspectos “ocultos” da astrologia permaneciam no campo especulatório. Devido às posições da Igreja contra a mágica e arte divinatórias, os físicos passam a ter algum cuidado com os prognósticos. Contudo o “fim da relação” entre a astrologia e a prática médica só se dará nas primeiras décadas do século XVIII. Entretanto, a relação entre os dois mudaria consideravelmente desde o século XVI até fins do XVII. A partir da metade do século XVII a astrologia passa a ser considerada como uma das muitas condições externas que influenciariam a saúde humana. Além disso, as considerações astrológicas começam a desaparecer para caso individuais e apenas permanecem para casos epidêmicos.
 III. 3 Santo Agostinho e o primado do livre-arbítrio
Sandro_Botticelli_Santo Agostinho
Talvez da mais significativa crítica contra a astrologia judiciária é a questão do livre-arbítrio, conforme temos tentado desenvolver em várias oportunidades ao longo desse texto. Sem dúvida alguma não é possível falar desse debate sem, ao menos, fazermos uma discussão, singela que seja, sobre seu ponto inicial, em Santo Agostinho, ainda no início da Idade Média (século V d. C.). Muito daquilo que moveu esse bispo da Igreja para a escrita dizia respeito a problemas concretos que preocupavam essa instituição, conforme pode ser observado ao longo da sua extensa obra e quase todas acabam por assumir caráter polêmico, em decorrência dos diversos conflitos que teve que enfrentar. Seu amigo e também primeiro biógrafo, São Posídio, chegou a enumerar a quem dirigiam-se os ataques perpetrados pelo bispo: pagãos, judeus, maniqueus, priscilanistas, donatistas, pelagianos, arianos, apolinaristas e, por fim, astrólogos.
Nesses quatro séculos de existência, o cristianismo modificara-se bruscamente. Inicialmente, conforme o Novo Testamento, tratava-se de uma doutrina simples, constituída de algumas regras de conteúdo moral e pela crença através do sacrifício de Cristo. Sem possuir um conjunto de ideias produzidas e sistematizadas pela “razão”. Tratava-se de uma “religião revelada” e não de “filosofia”, conforme a diferenciação feita por José Américo Motta Pessanha. Contudo, enquanto religião que servia para contestar o Império Romano, precisou de instrumentos para justamente defender-se desse; advém daí a necessidade de buscar apoio na filosofia pagã grega, helenística e romana. Esse esforço de conciliação foi aquilo que ficará conhecido como filosofia Patrística. Não chegando a formular sistemas completos de filosofia cristã, os primeiros padres da Igreja limitaram-se a elaborações parciais de alguns problemas apologéticos e teológicos; em outras palavras, são escritos de elogio ao cristianismo e tentativas de mostrá-lo como doutrina não-oposta às verdades racionais do pensamento helênico, tão respeitado pelas autoridades romanas. Opondo-se a isto, os apologistas latinos irão defender a originalidade da revelação cristã, fundada exclusivamente na fé, não tendo nada a ver, dessa maneira, com a “especulação racional”.
Todavia, foi justamente a submissão da filosofia em relação à teologia que se verificou durante alguns séculos no cristianismo e é justamente nessa corrente que filia-se Santo Agostinho, bispo de Hipona. Para ele, confluíam as tendências conflitantes da Patrística e sua função histórica foi de sintetizar seus componentes. A esta “síntese” o próprio denominou de “filosofia cristã”.
No que concerne ao homem, este se encontra como criação de Deus privilegiada. Feito à imagem e semelhança de Deus, desdobra-se em correspondência com as três pessoas da Trindade. As expressões dessa correspondência, segundo Motta Pessanha, nas três faculdades da alma: a memória, enquanto persistência de imagens produzidas pela percepção sensível, corresponde à essência (Deus Pai), aquilo que nunca deixa de ser; a inteligência seria o correlato do verbo, razão ou verdade (Filho); por fim, a vontade constituiria a expressão humana do amor (Espírito Santo), responsável pela criação do mundo.
Dentre todas essas faculdades, a mais importante é a vontade, intervindo em todos os atos do espírito e constituindo o centro da personalidade humana. A vontade seria essencialmente criadora e livre e, nela, o homem teria a possibilidade de se afastar do caminho do bem, ou seja, Deus. Isso seria afastar-se do ser, tornar-se não-ser, aproximando-se, assim, do mal. Reside aqui a essência do pecado, que não é necessário, mas fruto apenas da vontade do homem, responsável indelével de seus atos.
O pecado é, segundo o bispo de Hipona, uma transgressão da lei divina, pois sendo a alma criada por Ele para reger o corpo e o homem, fazendo mau uso do livre-arbítrio, inverte essa relação, obedecendo as vontades corporais e submetendo a alma. Voltada para a matéria, a alma acaba por secar-se pelo contato com o mundo sensível, esvaindo-se no não-ser, pervertendo-se como um corpo ela mesma:
“Nada pode escravizar-se a mente lascívia, a não ser pela sua própria vontade. Na verdade, a mente não pode ser constrangida a esse aviltamento nem por um agente superior ou igual, pois isso é iníquo, nem por um inferior, pois este não tem poder (para isto). Resta, pois que seja dela própria esse impulso, pelo qual dirige para as criaturas o seu desejo de gozar, afastando-o do Criador. (…) o espírito (…), desde que não o quer, não é impelido de tal modo que tenha de amar os bens inferiores, abandonando os superiores.”
O livre-arbítrio começa com uma simples questão colocada por Evódio se Deus não é o autor do mal, conceito este que é desdobrado em dois por Agostinho: o de quem o pratica e de quem o sofre. Agostinho afirma ser Deus bom e justo, por isso confere prêmios aos bons e castigos aos maus e ninguém é injustamente punido, pois o universo é regido pela providência divina. Sendo assim, Deus é autor do segundo gênero de males. Segue-se nova pergunta de Evódio sobre quem seria então o autor do mal, eis que a resposta de Agostinho é reveladora:
“… se pergunta quem ele é, não se pode dizê-lo. Com efeito, não se trata de uma pessoa exclusiva, pois cada prevaricante é o autor da sua má ação (…) as más ações são castigadas pela justiça de Deus; ora não seriam castigadas com justiça se não fossem praticadas por (livre) vontade (de cada um).”
Ainda que a queda para o pecado, a tomada do caminho do não-ser, seja de inteira responsabilidade do homem, visto que é possuidor do livre-arbítrio, não é por si mesmo que será feita sua salvação. O livre-arbítrio, para Agostinho de Hipona, não era suficiente para fazê-lo retornar às origens divinas. Este poder é privilégio único e exclusivo de Deus. É assim que Santo Agostinho começa a desenvolver a outra parte deste tema, a doutrina da predestinação, da graça divina, origem de incessantes debates entre católicos e protestantes na Idade Moderna.
A graça é necessária para que o homem possa lutar eficazmente contra as tentações da concupiscência. Sem ela, o livre-arbítrio pode identificar o certo e o errado, porém não pode tornar o bem um fato concreto. A graça precede todos os esforços para a salvação e é seu instrumento necessário, segundo Motta Pessanha. Contudo, a existência da graça não nega o livre-arbítrio, apenas soma-se a este; corrige-o, mas sem aniquilá-lo. Sem o auxílio da graça, o livre-arbítrio elegeria o mal; com ela, dirige-se para o bem eterno.
Essas questões são desenvolvidas por Agostinho neste famoso diálogo estabelecido com Evódio, conterrâneo seu que igualmente se cristianizara. É o último dos seus nove diálogos filosóficos. Na obra Revisões explica melhor sua intenção e a motivação de sua escrita:
“Estanciando nós ainda em Roma, resolvemos investigar de onde vinha o mal. Fizemo-lo de maneira que, se fosse possível, as provas consideradas e discutidas nos fizessem também chegar, quanto raciocinando e com a ajuda de Deus pudéssemos conseguir, à compreensão racional daquilo que sobre esta matéria acreditávamos, por aceitação do testemunho divino. Tornou-se evidente para nós, uma vez ponderadas diligentemente as razões, que o mal não procedia senão do livre-arbítrio.”
É o abandono definitivo de uma das primeiras filosofias na qual se filiara, o maniqueísmo. Segundo essa teoria, existiam duas divindades supremas presidindo o universo, uma para o bem e a outra para o mal. O homem seria constituído por duas almas e cada uma sofreria o efeito desses princípios. Dessa maneira, o homem não seria livre e nem responsável pelas suas ações, já que, ao praticar o mal, esse justificar-se-ia pelo princípio que era regida uma de suas almas. Contudo, restavam uma série de questões, tais como: como poderia a existência do mal conciliar-se com a bondade de Deus e a liberdade humana com a presciência divina?
“É que, se não me engano, não se segue que tu forçarias a pecar aquele que tinhas previsto que havia de pecar; nem a tua mesma presciência o forçaria a pecar, pois de contrário tu não terias tido a presciência de que isso ia suceder. Por conseguinte, assim como não incompatíveis entre si estes dois fatos, (a saber), que tu conheças pela tua presciência o que outrem vai fazer por sua (própria) vontade, assim Deus, não forçando ninguém a pecar, prevê, contudo os que por sua própria vontade vão pecar”.
Conforme havíamos adiantado há pouco, chegamos a um ponto fulcral da obra do filósofo, origem e razão para os debates que colocarão em liça no campo teológico protestantes e católicos séculos depois: Segundo Agostinho, nem todos os homens recebem a graça das mãos de Deus; apenas alguns são eleitos, predestinados à salvação. Com relação a esta temática, foi fruto de polêmica com o monge Pelágio (c. 360 – c. 420 d. C.) e seus seguidores, os pelagianistas. Estes insistiam no esforço que o homem deveria dispender para obter a salvação e encareciam a eficácia do livre-arbítrio, minimizando, assim, a graça divina, quando não a negavam, o que não era incomum.
Entretanto, era em sua própria experiência pessoal que Agostinho de Hipona baseava-se. A controvérsia jamais chegara a um fim e essa divisão seria, como afirmamos anteriormente, explorada às últimas consequências por Calvino séculos depois: depois do pecado original, afirmava, o homem está totalmente corrompido pela concupiscência e depende exclusiva e absolutamente da vontade divina a concessão da graça para a salvação:
“Desta maneira (Deus) torna-se-lhe mais querido, já que (a alma) é levada a ser venturosa não pelas suas próprias forças, mas pela misericórdia d’Aquele por cuja bondade tem a existência.”
Outros teólogos viriam a aproximar-se de Pelágio, na tentativa de defender o primado do livre-arbítrio. Aurelius Augustinus – esse era o seu nome na forma latina – fez de tudo para conciliar pensamentos que podem soar opostos. O homem é livre pra decidir pecar ou não e Deus não interfere nisso, ficando a responsabilidade inteiramente nas mãos humanas. Por outro lado e, ao mesmo tempo, o homem não pode desprezar que, agindo segundo o bem divino, sua vontade ocorre devido a obra de Deus. Graça e liberdade não são auto-excludentes, ao contrário, são complementares. Este é o cerne da Antropologia agostiniana.
Claro nos está que não é a nenhuma outra razão, senão ao próprio livre-arbítrio que, segundo Agostinho de Hipona, o homem escolhe os seus caminhos, mas que, sem a ajuda divina, em caso de desvirtuar-se, não seria possível reencontrar seu caminho.
III. 4 Santo Agostinho e a astrologia
matemáticos
 Conforme afirma Lynn Thorndike, Aurelius Augustinus diferenciava a mágica da astrologia e, diante da necessidade cristã do V século, tentava defender a religião dessas falsas crenças. Neste período, surgiam muitos escritos que afirmavam ser Cristo um mágico, enquanto seus milagres tratar-se-iam de encantos. Naquilo que tange a astrologia, que é a nossa intenção nesse trabalho, Agostinho afirma que os “gentílicos” ou “matemáticos”, como referia-se aos astrólogos, a partir do momento que escravizavam o destino do homem sob a predestinação das estrelas, tolhia-o do livre-arbítrio. Tratava-se de uma falaciosa e presunçosa invenção humana e, ainda que, porventura, a previsão fosse realizada, devia-se a isto culpa do demônio que incorria a humanidade em seu erro.
Na juventude, quando seguidor dos maniqueus, cria na astrologia, com a sua conversão passa a adotar nova postura diante desta arte e a atacá-la ferozmente, tal como o fez nos capítulos iniciais de A Cidade de Deus. Afirmava que na opinião de homens não medíocres as estrelas seriam sinais, mais do que eventos, quase uma linguagem que anunciaria o futuro, mas o realizava. Porém, os astrólogos não conseguiam compreender isto e não afirmavam, por exemplo, que determinada posição de Marte indicaria um homicídio, mas sim que esta posição é a própria causa do homicídio. Esta é uma posição que Agostinho aprendera de Plotino, na qual distinguia-se anúncio e realização, salvaguardando, assim, o livre-arbítrio.
Não obstante seus argumentos não fossem inéditos, conforme Thorndike afirma, pois eram muito difundidos durante a Idade Média, eram, no entanto, melhor elaborados pelo bispo de Hipona. A objeção à astrologia enquanto fatalista não vem com benevolência de Agostinho. O grande defensor da presciência divina e da predestinação sustenta que o mundo não é governado pelo acaso ou pelo destino, palavra esta que, para a maioria dos homens significa a força das constelações, mas é a divina providência a responsável. Acusa os astrólogos de atribuírem as estrelas ou a Deus a quem obedientemente essas obedeceriam a razão do mal. Para Agostinho, Deus apenas possui a presciência, todavia não é ele o responsável pelos pecados humanos.
Frustrado em sua tentativa de argumentação de que a astrologia escravizava os homens com relação ao seu livre-arbítrio, Agostinho procura seguir outra linha de argumentação. Seu novo argumento – ainda que nada inédito para os demais críticos da astrologia – versa sobre os gêmeos, isto é, como pessoas que nascem ao mesmo tempo podem ser tão diferentes e viverem de forma tão diferentes. Para tal, vale-se do exemplo de Esaú e Jacó, parte do primeiro Livro da Bíblia, Gênesis, que trata dos filhos gêmeos de Isaac e Rebeca. Essa passagem bíblica retrata a rivalidade entre gêmeos. O mais novo, Jacó, com ajuda de sua mãe, passa-se pelo mais velho a fim de roubar seu pai.
Em Confissões revela que abandona seu estudo do livro dos astrólogos quando depara com o argumento de Vindicianus, um velho astuto, e Nebridus, jovem de notável inteligência fracassaram em tentar convencê-lo, ao ouvirem de um outro homem que seu pai, homem rico e de posição social, nasceu no exato momento de um miserável escravo e eram possuidores de horóscopos iguais, porém a sorte de ambos fora completamente diferente. Fora seu amigo Firmino que, quando encontravam-se em Milão, lhe contara esta história, fazendo-lhe chegar a conclusão de que todas as conclusões astrológicas derivavam da sorte e não de um suposto estudo.
A réplica dos astrólogos refere-se ao fato de que gêmeos não nascem no mesmo preciso instante e, por isso, seus horóscopos não são os mesmos; nasceram sob constelações diferentes, tão rápida é a revolução celeste. Quando a esfera celeste é examinada, observa-se que os pontos encontram-se distantes.
A tréplica agostiniana não tarda, seu gosto pelo debate, sua luta contra aquilo que considerava contra os princípios cristãos, levavam-no a escrever contra essas falsas artes, por exemplo, conforme já afirmamos acima. Para o bispo, se os astrólogos fossem levar em consideração tão pequenos intervalos de tempo, suas observações e conclusões nunca seriam suficientemente seguras; se um breve intervalo de tempo fosse assim tão significativo para a alteração do horóscopo, gêmeos não poderiam ser tão parecidos ou ter coisas em comum. A resposta dos astrólogos quanto a semelhança dos gêmeos versa sobre a concepção de ambos, feita no mesmo instante, entretanto diferentes ao longo da vida devido ao intervalo de tempo na hora do nascimento. Novamente Agostinho insiste neste ponto, afirmando que se pessoas que nascem do mesmo ventre, concebidos no mesmo instante, mas nascidos em pequenos intervalos de tempo de diferença, possuem caracteres diferentes ao longo de suas vidas; não há razão para crer que pessoas que nasçam de mães diferentes, no mesmo instante, com o mesmo horóscopo não apenas possam morrer em datas diferentes, mas também terem vidas diferentes.
Sobre este tema, Agostinho de Hipona ainda iria indagar, referindo-se à história do sábio que, na tentativa de obedecer as teorias astrológicas, irá escolher o melhor momento para ter relações com a sua esposa. Agostinho defende a inconsistência desta prática, visto que a crença na natividade supostamente determinaria o destino dos indivíduos. Ele também questiona o motivo que levaria aos homens a plantarem árvores escolhendo determinados dias, se os próprios homens sozinhos são objeto das constelações. Neste ponto dirige seus ataques à crença de que as estrelas também poderiam reger a natureza em geral. Se uma planta ou qualquer animal estaria sob determinação astrológica no momento de seu nascimento. Isto dever-se-ia ao fato, atesta Agostinho, da difusão entre os homens de testar as habilidades de um astrólogo, submetendo-os aos horóscopos de animais e que os melhores astrólogos seriam capazes de reconhecer as constelações que marcariam o nascimento de um animal, mas caso também tratar-se-iam de um cavalo, vaca, cão ou ovelha. Agostinho reduz, assim, a arte de fazer horóscopos a um absurdo, assumindo que plantas e animais nascem simultaneamente, assim como ocorre com os seres humanos. Além do mais, o cultivo de plantas que são semeadas simultaneamente dá-se de forma dessemelhante no final. Dessa forma, o bispo crê que seu argumento irá constranger os astrólogos a reconhecer que os homens sozinhos são objeto das estrelas e, assim, triunfalmente questionaria como isso se daria, visto que Deus dotou o homem como única criatura possuidora do livre-arbítrio.
Segundo Lynn Thorndike, as refutações agostinianas contra a astrologia não são novidades em seu tempo, como vimos anteriormente. Sua atenção volta-se apenas para a questão da influência celeste sobre o mundo inferior, principalmente no que tange a superstição de que o tempo e o local de nascimento determinariam matematicamente a vida das pessoas. Todavia, é bastante provável que Santo Agostinho não tenha estudado o Tetrabiblos de Ptolomeu, conforme afirma Thorndike. Seu ataque a astrologia, segundo esse autor, é “estreito, parcial e inadequado” e não preveniria o homem medieval em acreditar nesta matéria, ainda que ele se concentre na influência celeste sobre o livre-arbítrio humano. Porém, ressalva Torndike, é provável que ele tenha admitido o controle do mundo natural pelas estrelas. Aparentemente teria afirmado que não seria um absurdo que a influência das estrelas poderia produzir mudanças em coisas materiais, como na variação das estações do ano, causadas pelo sol e a variação das marés, de acordo com as fases da lua.
A conclusão de seu argumento encontra-se na sua famosa obra A Cidade de Deus, afirmando que, se o astrólogo, por ventura, conseguiria fazer maravilhosas predições, o faria por inspiração demoníaca e não pela arte dos horóscopos.
No tempo do bispo de Hipona houve a crença que o próprio Cristo teria nascido sob o signo das estrelas, pois, segundo o Evangelho de Mateus, os reis magos avistaram uma estrela para encontrar o local de Seu nascimento. Sobre este assunto Agostinho irá tratar em várias de suas obras dentre as quais destacamos: De Genesi ad litteram e Contra Academicos. Agostinho nega essa possibilidade, pois isso seria, conforme observamos a sua avaliação sobre a astrologia, negar o livre-arbítrio. Ele afirma que esta estrela específica não se tratou de um planeta ou uma estrela comum, mas uma criação especial, que não possuía um curso regular ou órbita específica, mas aparecera para o nascimento do Cristo. Ante ao questionamento de como os reis magos saberiam de como se tratava da estrela que os guiaria ao local do nascimento do menino Jesus se não fosse a astrologia, sugere que seria revelação dos espíritos. Agostinho ainda afirma que a estrela não significava que Cristo teria uma vida de maravilhas, mas fora o próprio Cristo o causador dessa aparição maravilhosa. Contudo, assevera Thorndike, que é apenas com um jogo de palavras que Agostinho de Hipona tenta resolver a questão da estrela guia, não finalizando a contenda de maneira satisfatória.
Igualmente não resolvido permaneceu o problema da natureza das estrelas na obra de Santo Agostinho. Ainda que fosse um tema que por vezes apareceu na sua obra, não fica claro se tratavam-se de corpos lúcidos ou, como afirmara Platão, possuíam alma inteligente; se eram classificáveis com base, domínios, princípios e poder ou eram regulamentadas e animadas por espíritos. Todas essas são questões apresentadas por Agostinho, contudo jamais respondidas.
É nas correspondências trocadas com seus discípulo Orosius que podemos encontrar um pouco mais da sua postura sobre a astrologia. Nestas são apontadas os erros que, segundo Agostinho, os priscilanistas e origenistas cometiam quando afirmavam que a alma era uma criação divina e instruída pelos anjos, contudo, descendendo por círculos dos céus até serem capturados por princípios maus, permanecendo objeto da Mathesis ou leis astrológicas até que Cristo concedeu-lhes liberdade na cruz.
Assim como os astrólogos, diz Orosius, os priscilanistas associavam os signos do zodíaco a diferentes partes do corpo, tais como áries, a cabeça; touro, o pesoço, dentre outros. Na réplica de Agostinho a esta carta, afirma que pode-se atestar que o sol, a lua e as estrelas são corpos celestes, mas não que sejam animados. Concorda com São Paulo de que possuem lugar, domínio, princípios e poder nos céus, mas não sabe afirmar exatamente o que são ou a diferença entre eles.
Da passagem do Livro de Jó na qual versa sobre o quanto o homem poderia ser justo diante dos olhos de Deus, ou de quão o homem poderia ser podre, assim como o ser por ele gerado, e da pureza que possuíam as estrelas antes do Criador, foi interpretada pelos priscilianistas como se a Bíblia afirmasse terem as estrelas espíritos racionais e não serem livres de pecado. Agostinho critica essa interpretação, afirmando que essas palavras não saíram da boca de , que este pecado não teria cometido com sua própria boca.
Como podemos observar, ainda que seus ataques contra a astrologia não sejam tão bem elaborados, conforme afirmara Thorndike, sua preocupação central versa na defesa do livre-arbítrio. Este princípio sim lhe era tão caro e a astrologia judiciária nitidamente representava uma ameaça a tal princípio. Ainda que na juventude cria nessa arte, sua mudança de postura leva-o a afirmar que tratava-se de uma doutrina que isentava o homem do pecado, já que tudo lhe subjugava ao poder dos astros. Se o homem já estava destinado a algo, segundo apenas a posição dos astros quando se dá seu nascimento, isso seria um convite ao pecado, afirmara.
Aquarius, from a Book of Hours, Italy, circa 1475
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