A Astrologia como Campo Profissional em Formação

Car of History
Adriana Venuto
Resumo
O artigo estuda o processo de institucionalização da profissão de astrólogo, com base na análise da luta de diferentes grupos profissionais para legitimar novas formas de pensar e de organizar seu campo. Dois grupos se destacaram: o grupo moderno, cuja proposta para o campo é baseado no modelo organizacional das profissões modernas e do grupo de elite, que visa a reverter para um modelo tradicional profissional. A pesquisa foi realizada entre os “profissionais” astrólogos nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, e São Paulo. Aqueles a serem entrevistados foram selecionados inicialmente a partir de jornais especializados e, em seguida, uma vez que os grupos haviam sido mapeados, o método de amostragem intencional foi aplicada. Este artigo busca entender se e como estes astrólogos estão criando estratégias para a sua participação no campo profissional e mecanismos institucionais que têm contribuído para a criação de uma base cognitiva unificada, que irá permitir que esses “profissionais” de exercer controle exclusivo sobre um determinado domínio de especialização.
Sindicato dos Astrólogos do Estado de São Paulo
Astrologia como Profissão
Aos Astrólogos
O Lugar do Conhecimento Científico na Constituição dos Grupos Profissionais
Grande parte das análises desenvolvidas na área da Sociologia das Profissões tem destacado a importância do conhecimento científico enquanto elemento estruturador das profissões modernas e recurso indispensável para a legitimação da autoridade profissional. Tendo como referência o papel funcional que o saber profissional desempenha nas sociedades modernas ou o grau de abstração do conhecimento, o fato é que a maioria dos analistas sociais trabalha com a idéia de que o sucesso no processo de organização das ocupações e sua transição para o campo profissional estão diretamente ligados à forma como é estruturado o conhecimento que se deseja monopolizar. Os estudos na área das profissões tendem a destacar o caráter científico do conhecimento como principal recurso no processo de institucionalização da profissão, o elemento essencial para a aquisição de autoridade e inserção na hierarquia posicional vigente dentro do campo profissional.
De fato, é bastante pertinente frisar a importância que a estruturação do conhecimento com base na racionalidade científica exerce sobre o processo de consolidação do grupo profissional, pois sabe-se que nas sociedades modernas, a ciência tem funcionado como um dos recursos mais eficazes para a legitimação da autoridade. O problema aparece quando, nas análises, o conhecimento científico sobrepõe-se e relega a segundo plano – quando não exclui – uma série de outros recursos que têm peso qualitativo equivalente no processo de construção da profissão. Quando isto ocorre, é como se o conhecimento esgotasse em si todas as possíveis estratégias utilizadas pelos grupos ocupacionais, no sentido de se consolidarem como profissões. Ou seja, se o conhecimento específico não é estruturado em uma base científica, as possibilidades de transposição para o campo profissional ficam praticamente reduzidas a zero. Nas análises que seguem essa perspectiva, o que vemos com freqüência é uma sobrevalorização dos aspectos técnico-formais em detrimento da dinâmica social que impulsiona o movimento de transição em direção à profissionalização. Essa dinâmica social que emerge no grupo ocupacional é peça indispensável para entender o próprio processo de estruturação do seu saber específico, com base no modelo vigente na área de conhecimento no qual procuram inserir-se.
Para colocar em prática essa proposta analítica, escolhemos trabalhar com a astrologia, ocupação cujo conhecimento é considerado, pela comunidade “profissional-científica”, como algo que paira entre a “penumbra do misticismo” e a “fluidez da religião”. Para muitos, pode parecer estranho optar por um grupo ocupacional tão atípico e cujo conhecimento se distancia, em grande parte, do modelo vigente no campo profissional. Mas, como tentaremos mostrar, essa escolha, em princípio estranha, tem a vantagem de trazer a análise da dinâmica social para primeiro plano, uma vez que o conhecimento monopolizado por esse grupo, não sendo aceito como parte integrante do modelo de saber legitimado no campo profissional, não pode ser considerado o elemento explicativo central do processo de institucionalização e regulamentação da astrologia. Em vista da posição marginal atribuída ao saber astrológico, em função da sua distância em relação ao conhecimento científico, não há outra maneira de entender o processo de institucionalização e regulamentação da astrologia senão através da dinâmica social que se estabelece dentro desse grupo ocupacional.
Ao estudar o processo de institucionalização da astrologia, buscamos romper com o determinismo científico que vem predominando nas análises sobre profissões que, ao privilegiarem o caráter científico do conhecimento como fonte principal de aquisição de poder e autoridade, deixam em segundo plano a análise da dinâmica social que está por trás da construção do conhecimento estruturado e também a luta pela criação de uma nova profissão. É justamente essa dinâmica social que nos interessa, ou seja, a perspectiva propriamente sociológica do surgimento de uma nova profissão. Não há, portanto, uma tentativa de verificar o grau de cientificidade ou de abstração do conhecimento astrológico para “medir” seu potencial de inserção no campo profissional geral. O que se objetiva é estudar o movimento dos agentes no sentido de monopolizar recursos e traçar estratégias que permitam a criação e a delimitação da profissão, bem como a estruturação do seu conhecimento com base no modelo adotado pelo(s) campo(s) de conhecimento ao qual pretende(m) filiar-se.
É preciso deixar bem claro que não estamos negando a importância do conhecimento racional-científico enquanto recurso importante para a consolidação da profissão e sua inserção no sistema formal de ensino. O que estamos tentando fazer é demonstrar que o conhecimento racional-científico é algo que necessita, para sua consolidação e legitimação, de um trabalho de construção social que defina o que seja racional-científico. Esse processo de construção social aparece em dois momentos diferentes. No primeiro, os agentes trabalham para estabelecer os critérios que determinam o que é o conhecimento científico. Uma vez definidos esses critérios, os agentes devem tentar adaptá-lo de maneira tal a alcançar o maior grau de correspondência com os critérios já consolidados. Trata-se, portanto, de um processo isomórfico, em que o que está em jogo não é o conteúdo substantivo do conhecimento, mas sim o trabalho de transformação e adaptação deste à forma através da qual é estruturado o modelo de conhecimento legítimo no campo profissional.
Ao adotar essa perspectiva, ou seja, mais sociológica e menos cientificista, é necessário deslocar a análise da medida do grau “real” de cientificidade do conhecimento para o estudo da ação dos agentes, no sentido de potencializar o grau de correspondência entre seu conhecimento específico e o conhecimento legítimo no campo. Não é o caso de se tentar estabelecer uma hierarquia científica no campo, mas sim compreender de que maneira o conhecimento vem sendo adaptado de forma a incluir elementos inseridos no modelo vigente.
Estudar o processo de construção do modelo legítimo de conhecimento científico dentro do campo profissional não é o objetivo deste artigo. O que pretendo analisar são as estratégias utilizadas pelos astrólogos, especialmente aqueles com orientação mais voltada para o mercado, para convencer seus pares, o público consumidor potencial e a comunidade profissional de que a astrologia é uma ocupação apta a se inserir no campo profissional. Minha análise fixa-se principalmente naquelas estratégias que visam reestruturar o conhecimento astrológico, a fim de atender os critérios estabelecidos no campo profissional geral.
O Lugar do Conhecimento Científico nas Análises sobre Profissões
Parsons foi um dos primeiros teóricos a incluir em seus estudos uma análise mais sistematizada da gênese e importância dos grupos profissionais nas sociedades modernas. Tentando entender o aumento da influência das profissões na ordenação e hierarquização da estrutura de estratificação social nas sociedades modernas, esse autor chegou à conclusão de que o aumento da importância dos grupos profissionais deriva do seu sucesso em conseguir transformar os elementos mais valorizados do sistema cultural moderno (a competência técnica e a racionalidade científica) em uma base para a legitimação do status e da autoridade profissionais. Mas Parsons insiste na idéia de que as profissões são mais do que grupos de status que se valem dos elementos legítimos do sistema cultural. Na verdade, a própria estrutura a partir da qual estão organizados os grupos profissionais e a forma como se posicionam no espaço social explicam a importância estratégica que esses grupos assumiram nas sociedades modernas.
Os grupos profissionais podem ser descritos como os principais atores que realizam a ligação entre os sistemas cultural e social. Além de estarem integradas ao sistema cultural, as profissões desempenham, através dos papéis ocupacionais, funções específicas para o sistema social. É em decorrência dessa posição ocupada pelas profissões que Parsons direciona sua análise e tenta demonstrar como os valores sobre os quais se baseia o desempenho dos papéis ocupacionais estão integrados ao sistema cultural, e como esses papéis desempenham, no ato do exercício profissional, funções específicas que satisfazem as necessidades do sistema social. Ao fazerem a ponte entre esses dois sistemas e realizarem a mediação entre as necessidades individuais e funcionais, as profissões contribuem para um maior controle e equilíbrio do sistema.
A maneira como os princípios legítimos no sistema cultural são integrados à estrutura de organização das profissões, além da forma como é institucionalizada a relação entre os grupos profissionais e o sistema social, podem ser destacadas como elementos importantes para compreender a posição e a função das profissões. Primeiro, a incorporação da racionalidade científica e da competência técnica no treinamento profissional legitima a autoridade profissional e garante o status da profissão, diferenciando-a dos demais grupos ocupacionais. Segundo, a vinculação das profissões com a universidade estabelece uma distinção entre os grupos profissionais, as empresas capitalistas e as organizações burocráticas. Dentro dessas instituições, as profissões apresentam-se como grupos solidários desligados do mercado e dissociados da idéia de busca pelo lucro. A ideologia moderna do serviço profissional (cuja competência técnica é validada por instituições legítimas e a funcionalidade medida pelo grau de satisfação com que resolvem os problemas demandados pela sociedade) cria distinção entre os grupos profissionais e os outros grupos ocupacionais que negociam no mercado. Da mesma forma, ao propagarem a idéia do trabalho em prol do bem comum, as profissões permitem a compatibilização entre o ideal altruísta e o interesse privado (em especial a busca pelo status e a recompensa econômica).
Em toda a teoria parsoniana, a organização do conhecimento com base na racionalidade científica aparece como principal elemento estruturador das profissões, aquele que determina a posição dos diversos grupos profissionais dentro do complexo profissional consolidado e distingue este do complexo ocupacional geral. Aqui, toda a análise é montada para verificar de que maneira os grupos profissionais são capazes de adaptar seu conhecimento científico específico para atender aos problemas demandados pela sociedade. Dois pressupostos ficam explícitos: primeiro, se o conhecimento específico não está organizado a partir do modelo racional-científico, o grupo ocupacional tem chances mínimas de se transformar em grupo profissional; segundo, o grupo profissional cujo conhecimento científico não atende às demandas mais valorizadas socialmente ocupa posição de pouco destaque na sociedade. Em função da sobrevalorização atribuída aos aspectos técnico-formais da constituição das profissões, Parsons inicia sua análise a partir de uma etapa do processo de institucionalização profissional em que só se chega depois de um longo trabalho de construção social. Ou seja, ele desconsidera todo o movimento social anterior à organização do conhecimento científico, movimento este que é indispensável para entender o processo isomórfico que ocorre dentro do campo profissional.
Seguindo a mesma linha da análise parsoniana, Abbott privilegia o conhecimento como base de legitimação da autoridade profissional. Mas, ao contrário de Parsons, Abbott acredita que o estudo da emergência e consolidação da autoridade profissional passa pela análise do que ele identifica como um componente fundamental da vida profissional – a competição interprofissional, descrita como o processo através do qual os diversos grupos lutam pelo controle de uma jurisdição profissional. Ao examinar o fenômeno da competição interprofissional e desenvolver o conceito de jurisdições profissionais, Abbott dá um salto em relação à análise parsoniana. Isto porque, na perspectiva analítica utilizada por Abbott, o controle jurisdicional, ou seja, o domínio de determinado grupo sobre uma área específica do saber, não é um processo natural que prescinde da ação orientada e motivada dos membros profissionais, mas sim um processo social de luta entre os diversos agentes pela construção e legitimação do controle sobre o saber que a profissão reivindica como seu.
Mas, se Abbott avança ao introduzir em sua análise o conceito de jurisdição profissional, ele repete a mesma lógica parsoniana ao atribuir ao conhecimento o status de elemento central na luta pelo controle jurisdicional. Para esse autor, é o tipo de conhecimento monopolizado pelas profissões que possibilita a distinção entre a competição interprofissional e a competição que se estabelece entre os grupos ocupacionais. E é esse conhecimento, ou melhor, o grau de abstração do conhecimento, que permite a sobrevivência das profissões no sistema de competição interprofissional e determina o lugar ocupado por elas, se de maior ou menor prestígio, nesse sistema. Assim, mesmo que haja luta pelo controle de determinada área do conhecimento, é o conteúdo do conhecimento monopolizado pelo grupo que disputa esse controle que determina seu sucesso ou fracasso.
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A Influência da Teoria Weberiana na Sociologia das Profissões
Incluídos no núcleo mais substancialista da análise weberiana estão Freidson e Larson. Eliminando de suas análises as discussões sobre o papel funcional do conhecimento, estes dois autores vão trabalhar com questões que dizem respeito ao processo de monopolização e aquisição de poder pelos grupos profissionais nas sociedades modernas. Mas, mesmo abordando o aspecto mais sociológico da formação e consolidação das profissões, ambos concentram seus estudos na dimensão cognitiva como base para entender o diferencial de poder gerado dentro do grupo profissional, ou a formação de hierarquia de poder entre as profissões. Nos estudos de Freidson, a problemática central é compreender como o conhecimento profissional (que é identificado como um conhecimento formal caracterizado pela sua vinculação ao sistema de ensino superior, sua organização dentro de disciplinas e sua sujeição ao processo de racionalização) pode ser transformado em um recurso para a aquisição de poder. O ponto de partida é a análise do processo de institucionalização do conhecimento que, segundo o autor, foi capaz de criar divisões internas nos grupos profissionais, das quais emergiram subgrupos profissionais que se diferenciam quanto ao grau e tipo de poder.
A análise do sistema credencial torna-se, portanto, um recurso indispensável para se compreender as condições institucionais que favoreceram a transformação do conhecimento em poder. Nessa perspectiva, que é também compartilhada por Collins, o sistema credencial é um importante sinalizador de mercado, a instância que legitima as diferenças de status entre os grupos profissionais e as ocupações, e determina as variações de poder entre os diversos segmentos em que se dividem os grupos profissionais.
Se Freidson explica as divisões internas de poder mediante a análise do processo de institucionalização do conhecimento, Larson focaliza a dimensão cognitiva para demonstrar que o conhecimento é o elemento principal que explica as diferenças entre as profissões no espaço social geral. Para essa autora, o principal desafio dos grupos profissionais que pretendem se consolidar é criar áreas específicas de atuação no mercado e acumular recursos que lhes possibilitem ter controle e autonomia sobre essas áreas. Para que ambas as tarefas se concretizem, os profissionais dependem do conteúdo do conhecimento pertencente às suas profissões. Na análise de Barbosa, mais uma vez é o conhecimento, ou melhor, o conteúdo desse conhecimento que, no caso das profissões modernas, se caracteriza por sua vinculação com o conhecimento racional científico, que define o sucesso de um grupo profissional no processo de monopolização de áreas de atuação no mercado.
Podemos concluir, portanto, que o que há de comum entre essas diferentes abordagens sobre as profissões é que, em ambas, o conhecimento ganha status de principal instrumento estruturador dos grupos ocupacionais. Seja ele expresso em termos de competência técnica funcional, de grau de abstração ou de potencial de formalização, o fato é que o conteúdo do saber profissional e sua base de fundamentação racional-científica explicam o sucesso dos vários grupos ocupacionais na luta por sua consolidação enquanto subcampo profissional. Mesmo que a dinâmica social em torno da definição dos critérios de configuração da profissão seja incluída na análise, o conhecimento é o principal elemento que explica as divisões internas do campo profissional e a posição ocupada pelas profissões no espaço social mais geral.
A análise que se segue, e que tem como objeto a astrologia, trata justamente da fase anterior ao processo de consolidação de um grupo profissional. Ela se fixa, essencialmente, nas estratégias prévias de organização de um conhecimento específico e na tentativa de adaptação deste ao modelo de conhecimento vigente no campo profissional.
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A Astrologia como Campo Profissional em Formação
Partindo do pressuposto de que a astrologia não se configura como um subcampo profissional autônomo e formalmente regulamentado, acredito que a compreensão das formas de organização dessa ocupação bem como as estratégias utilizadas para sua inserção no campo profissional passam pelo estudo da gênese do processo de construção dos princípios de ordenamento que irão configurar o campo em formação. Vista sob esse ângulo, a análise do processo de formação do campo profissional da astrologia foi direcionada no sentido de apreender qual ou quais grupos estariam atuando como agentes definidores desse processo, e quais as estratégias criadas para tentar legitimar as novas formas de organização da astrologia. Em especial, estarei tentando verificar até que ponto os princípios internos em torno dos quais vem se organizando essa ocupação são capazes de estabelecer “homologias estruturais” com o campo profissional geral que possibilitem à astrologia tornar-se candidata potencial à posição de subcampo profissional autônomo.
Paul Starr e Pierre Bourdieu foram os principais autores a fornecer suporte teórico e analítico para nosso estudo do processo de institucionalização da astrologia. Seguindo ainda o modelo de análise weberiano, Paul Starr incorpora, em seu estudo sobre a constituição da profissão médica americana, questões relativas ao processo de aquisição de autoridade, à monopolização do mercado e de áreas específicas do saber, e às relações de poder que se estabelecem intra e interprofissões. Ao contrário dos autores mais substancialistas, como Freidson e Larson, que concentram o foco de sua análise sobre a dimensão cognitiva das profissões, Starr procura entender o fenômeno profissional a partir de uma perspectiva diferenciada: o processo de formação das organizações profissionais e sua influência (junto com as demais instituições que estão direta ou indiretamente ligadas às profissões) sobre a própria profissão, o saber reivindicado como seu, e as relações que os grupos profissionais estabelecem com o público consumidor e com outras instâncias do mundo social. Indo de encontro às correntes funcionalistas, que concebem a profissionalização como um processo natural no qual podem ser identificadas as principais etapas, e onde o conhecimento de base racional-científica é o elemento central de constituição da profissão, Starr analisa o processo de organização das profissões a partir da dimensão social, ou seja, da luta entre os diversos agentes para monopolizar e/ou transformar um saber e controlar o mercado onde esse saber será negociado. Para este autor, não é somente a dimensão cognitiva, o caráter racional-científico ou a funcionalidade do conhecimento profissional que garantem às profissões posições privilegiadas no espaço social. Na verdade, o poder das profissões advém do sucesso dos agentes em conseguir transformar, na luta entre os diversos grupos sociais pela imposição de suas idéias e concepções sobre o mundo, suas visões particulares em realidades legitimamente aceitas. A partir dessa perspectiva, o autor amplia seu campo analítico para além da dimensão cognitiva e passa a incluir na análise o estudo da dimensão social, da sua dinâmica característica e das formas organizacionais que dali emergem.
Segundo Starr, a compreensão das origens do poder das profissões passa necessariamente pelo entendimento do processo de aquisição da autoridade cultural e de sua transformação em controle do mercado, das organizações profissionais e das políticas governamentais. O estudo das origens da autoridade constitui, portanto, um dos tópicos centrais da análise de Starr sobre a soberania da profissão.
É preciso deixar claro que a autoridade profissional possui uma base distinta de legitimidade. Essa autoridade não repousa no indivíduo, mas sim na sua condição de membro de uma comunidade que é capaz de validar objetivamente a competência profissional. Nas profissões modernas, o exercício da atividade profissional não é baseado em representações particulares, mas em um conjunto de normas compartilhadas pelo grupo, que tem como fundamento a indagação racional e a evidência empírica. Além da dimensão cognitiva, que vincula a profissão ao sistema de saber dominante, a legitimidade da autoridade profissional está ancorada em uma série de atributos morais e valorativos que dizem respeito à orientação dos serviços profissionais e suas éticas específicas e ao diferencial de autonomia e prestígio em relação às outras ocupações. Todas essas características, em conjunto, facilitam a consolidação da autoridade tanto no campo profissional quanto no espaço social geral.
As definições mais comuns sobre profissões enfatizam alguns elementos distintivos dos grupos profissionais: inclusão no sistema universitário, o caráter especializado e técnico de sua disciplina e sua orientação pelo serviço, consagrada através dos códigos de ética profissionais. Segundo Starr, esses elementos podem ser vistos como recursos importantes para a construção da autoridade profissional. Contudo, ele nos alerta que o “grau” de desenvolvimento da estrutura organizacional com a qual os grupos profissionais estão direta ou indiretamente ligados não indica sua posição de status no campo profissional. A criação de associações, de códigos profissionais, entre outros, são recursos utilizados pelos grupos profissionais para legitimar sua autoridade profissional, mas não são indicativos da sua “posição” no processo de profissionalização. Da mesma forma, Starr afirma que, mesmo que o saber seja um dos elementos essenciais para a existência do grupo profissional, não é a funcionalidade ou a substância desse saber que vai determinar o prestígio e a posição das profissões. O êxito das ocupações que pretendem o monopólio da autoridade profissional vai depender da forma como os recursos institucionais e as mudanças no contexto cultural mais amplo irão favorecer a luta pelo controle do saber e pela aquisição de autoridade.
O êxito de uma ocupação na luta pela monopolização de áreas específicas do saber e do mercado está, portanto, diretamente ligado ao crescimento de sua autoridade. Starr ressalta, contudo, que o acúmulo de autoridade depende fundamentalmente da resolução de dois problemas distintos, mas que estão intrinsecamente ligados: o problema externo da legitimação e o problema interno do consenso. De um lado, trata-se de criar um consenso interno que facilite “a articulação de interesses comuns e a mobilização do esforço do grupo”. De outro, é preciso criar estratégias de legitimação que possibilitem a consolidação da autoridade profissional no espaço social mais geral e sua distinção das demais ocupações. Em ambos os casos, a institucionalização dos grupos profissionais é de extrema importância. Por seu intermédio, é possível eliminar as barreiras sociais que anteriormente fundamentavam a divisão interna entre os profissionais (tanto em relação ao treinamento quanto à prática e os interesses) e criar mecanismos institucionais que legitimem a autoridade profissional dentro e fora do campo profissional. Aqui, não é o conteúdo do conhecimento que determina a estrutura da profissão, mas sim a luta pela monopolização do saber, ou seja, uma luta pela fixação de tipos específicos de recursos institucionais que serão utilizados para consolidar a autoridade profissional.
O principal avanço na análise de Starr em relação aos estudos desenvolvidos pelos funcionalistas e pelos teóricos weberianos pertencentes ao núcleo substancialista é que este autor, ao desnaturalizar o processo de construção da profissão, traz à tona a dimensão social de luta entre os diversos agentes pela consolidação, dentro e fora do campo profissional, da autoridade profissional. É esta dimensão social que vai delimitar as fronteiras da profissão, estabelecer sua configuração interna e a posição dos agentes intra e extracampo. A dimensão cognitiva, que em outras análises aparece como o elemento central de explicação para a posição e o poder das profissões no espaço social mais geral, não seria o único componente estruturador dos grupos profissionais, e tampouco o fator determinante de sua posição privilegiada. De fato, a produção do conhecimento profissional é, em certa medida, direcionada pelo processo de monopolização do saber e do mercado. Nesses termos, não é a substância do saber, seu grau de abstração e sua funcionalidade que determinam o sucesso na consolidação da autoridade profissional, mas sim a capacidade dos grupos profissionais para tornar esse conhecimento, cujo conteúdo e metodologia podem variar de acordo com os recursos e as estratégias utilizadas por esses grupos, parte constitutiva do sistema cognitivo dominante no campo profissional.
O estudo do processo de instituição de um subcampo profissional pressupõe, portanto, a compreensão das lutas sociais que se efetivam no espaço em formação, do jogo de forças entre os concorrentes pela imposição das formas de conceber o mundo e pela transformação destas em realidades legitimamente aceitas. Contudo, é preciso não perder de vista que a construção e a legitimação de “realidades” dependem não apenas do jogo de forças entre os concorrentes. Elas resultam também das relações objetivas estabelecidas entre o campo em formação e os campos de poder e social.
Tendo como referência essas várias dimensões do social que influenciam e são influenciadas pela constituição dos grupos (sejam eles profissionais ou de outra natureza) podemos afirmar que, se Starr avança ao direcionar sua análise para o estudo do trabalho social de instituição dos grupos profissionais, Bourdieu é o autor que analisa de forma mais sistematizada e abrangente os fundamentos e conseqüências desse processo de instituição em todas as instâncias do mundo social. Abandonando pressupostos teóricos que atribuem relações causais a priori, Bourdieu adota uma perspectiva analítica em que o exame dos fenômenos sociais se dá a partir do estudo das relações objetivas estabelecidas entre os agentes na sua interação com as várias dimensões do mundo social. Sua análise procura desvendar as múltiplas determinações do real, ou seja, toda a espécie de padrões e regras estabelecidas no espaço social, regras estas que emergiram em uma situação de luta social pela dominação, e que contribuem em conjunto para a configuração e consolidação do campo em formação.
Orientada pelo pensamento de Bourdieu e pela proposta analítica de Starr procuro, neste artigo, não me ater ao estudo do conteúdo substantivo do conhecimento astrológico, e tampouco do grau “real” de abstração ou cientificidade desse conhecimento, enquanto possível elemento explicativo da transposição da astrologia para o campo profissional. O objeto central de análise é a dinâmica social impulsionada pelos agentes quando estes trabalham no sentido de criar estratégias e mobilizar recursos para a transformação da astrologia em profissão. Dentre essas estratégias utilizadas, estarei destacando aquelas que tentam estabelecer o maior grau de correspondência entre o conhecimento específico da astrologia e o modelo de conhecimento científico que é legitimado no campo profissional.
Em face desse recorte analítico, o trabalho de pesquisa foi realizado com os grupos de astrólogos que lutam pelo poder para definir os critérios de formação do campo profissional da astrologia. O trabalho de campo foi feito nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro e incluiu, além de entrevistas dirigidas, a participação em congressos e seminários de astrologia, a fim de obter maiores informações sobre as transformações que vêm ocorrendo nessa ocupação. Das 45 entrevistas realizadas, apenas duas foram feitas com astrólogos que exercem outra atividade (um engenheiro e um arquiteto); as restantes foram realizadas com “astrólogos profissionais”, ou seja, indivíduos que se dedicam exclusivamente à astrologia e fazem dela sua principal fonte de renda. A seleção dos astrólogos foi feita, inicialmente, através de anúncios em jornais especializados e também através de propagandas distribuídas em feiras esotéricas. Foram essas primeiras entrevistas que apontaram a complexidade do modelo de organização interna da astrologia (a existência de associações, sindicatos e escolas de formação) e possibilitaram um mapeamento, mesmo que incipiente, dos principais grupos que lutam pela reorganização da astrologia e seu reconhecimento enquanto profissão. Feito o mapeamento inicial, adotou-se o modelo de amostra intencional. Foram entrevistados presidentes e ex-presidentes de sindicatos (Sindicato do Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco), representantes de sindicatos, presidentes de Associações de Astrologia e representantes dos três grupos analisados. Todas as entrevistas seguiram um roteiro construído a partir do referencial teórico da sociologia das profissões.
A análise será constituída de três partes distintas, porém, relacionadas. A primeira apresentará os principais grupos dentro da astrologia, suas características mais marcantes e a visão dos indivíduos sobre o processo de regulamentação da astrologia. A segunda enfocará os recursos organizacionais (como a criação de escolas e sindicatos) utilizados para implementar um novo modelo de organização dentro da astrologia. Na terceira parte, serão feitas as considerações sobre o modelo de profissionalização aqui apresentado.
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Principais Grupos dentro da Astrologia
Um dos principais elementos que norteiam a divisão e organização dos grupos dentro da astrologia é a percepção que os indivíduos têm acerca da aproximação do conhecimento astrológico com os modelos de conhecimento vigentes no espaço social. Basicamente, predominam três formas distintas de conceber o saber astrológico. Cada uma delas atribui à astrologia filiação a campos de conhecimento já consolidados. Na primeira forma, o conhecimento astrológico é tido como resultado da união de um conjunto de disciplinas específicas fundamentadas essencialmente na racionalidade científica. Aqui, o discurso é proferido no sentido de ressaltar a complexidade teórico-metodológica e a base racional-científica a partir da qual se estrutura o saber astrológico. Termos como “estruturação teórica”, “alcance teórico”, “comprovação empírica” e “verificação” são comumente utilizados para descrever o conhecimento astrológico. Para um astrólogo do grupo moderno a astrologia é assim definida:
“A astrologia é uma ciência do mundo físico; quando você usa astrologia você está usando fatores que não podem ser alterados. Por exemplo, o horizonte ideal, o movimento da terra e dos planetas, os ângulos que os planetas formam entre si. Você não pode alterar isto. Então, a astrologia é uma ciência segura, estável, do mundo real, do mundo material.”
É justamente a crença no caráter científico do conhecimento que tem mobilizado os indivíduos para a tentativa de formalização de mecanismos institucionais (como a padronização do treinamento e controle do mercado) que possibilitem a inserção definitiva da astrologia no campo profissional e a consolidação da imagem do astrólogo como profissional especializado.
Na segunda forma, o saber astrológico é concebido como arte, uma “linguagem simbólica” não passível de tradução para o modelo racional-científico dominante. Para os indivíduos que compartilham essa visão, o conhecimento astrológico é descrito como multidisciplinar, e, por isso, não tem uma localização fixa, podendo transitar entre o campo da religião, da arte, da filosofia e da ciência tradicional. Para elucidar a definição podemos destacar um trecho de entrevista:
“A astrologia é uma linguagem, ela é uma arte, tem uma sintaxe própria e compreende várias áreas de conhecimento (a ciência tradicional, a mitologia, a filosofia, a psicanálise). Ela não existe sozinha, como ela nunca existiu sozinha. Ela está ligada ao campo simbólico, por isso a formação tem que ser ampla e demorada.”
Aqui, resgata-se a idéia do homem sábio, cuja distinção profissional reside justamente no domínio de várias “ciências”.
Na terceira forma, que é, de fato, aquela institucionalizada, a astrologia é apontada como um saber religioso que sofre influência das mais variadas “tradições religiosas e esotéricas”. Para os indivíduos desse grupo, o astrólogo assemelha-se a um conselheiro espiritual:
 “A astrologia é esotérica, está ligada aos conhecimentos místicos e à intuição. Todo mapa na verdade é um mapa cármico, por isso o serviço é de orientação espiritual”.
Mas uma pergunta fica no ar: como grupos com referenciais tão distintos podem ter uma identidade ocupacional comum? O elemento que une é o instrumental de trabalho, ou seja, o mapa astral. Ele é o ponto de partida para o serviço astrológico nos três grupos. Mas, se o processo de construção do mapa astral (a partir da data, hora e local de nascimento) é compartilhado, a maneira de interpretá-lo demarca a distinção entre os grupos. No momento da análise do mapa, em que o saber astrológico se transforma em fazer astrológico, fica evidente a preferência do astrólogo por um dos campos de conhecimento (religioso, tradicional ou científico).
Para aqueles que não estão familiarizados com a organização interna da astrologia, uma maneira de diferenciar previamente esses grupos é observar a maneira como os serviços são oferecidos ao público. Os astrólogos práticos, na maioria das vezes, vendem seus serviços em parceria com ocupações ligadas à esoteria. Anunciados em jornais esotéricos ou na mídia não especializada, os anúncios sempre têm, no cabeçalho, algum indicativo que os liga ao esoterismo. Os astrólogos modernos e de elite, ao contrário, dificilmente anunciam em jornais. Em geral eles utilizam o cartão (no modelo das profissões liberais) definindo as áreas específicas de competência (astrologia financeira, astrologia política, mapa astral individual, etc.). Nesses dois grupos não há nenhuma vinculação entre o serviço astrológico e o esoterismo.
O preço da consulta é outro fator que permite distinguir os práticos dos modernos e de elite. Para os astrólogos práticos o preço é calculado com base nos gastos com a manutenção do consultório e no poder aquisitivo da “população brasileira”. Nos grupos moderno e de elite os preços são bem mais elevados. O tempo de formação do astrólogo (citado como sendo entre cinco e dez anos) acrescido da experiência pessoal são os principais referenciais para a construção do preço. Também é comum nesses dois grupos a utilização da consulta médica como base comparativa.
Essas três formas de conceber o conhecimento astrológico correspondem a três grupos distintos cujas especificidades residem, essencialmente, no tipo de projeto proposto para a astrologia, e na forma como são acumulados os recursos para a efetivação do mesmo. Quando falamos de projeto estamos tratando, especificamente, dos critérios e normas a partir dos quais os diferentes grupos pretendem fundamentar, ou já fundamentaram, o processo de institucionalização da astrologia.
O primeiro dos três grupos a ser caracterizado será classificado como grupo moderno: aquele conjunto de indivíduos que compartilha a idéia de que o conhecimento astrológico é fundamentado na racionalidade científica. Principal grupo que luta pela transformação da astrologia em profissão, aos astrólogos modernos tem sido reservada a tarefa de reestruturar a organização da astrologia de forma a corresponder ao modelo adotado pelos grupos profissionais institucionalizados. As tentativas de padronização do treinamento, de exclusão de leigos do mercado e de criação de uma mercadoria distinta têm se configurado como as principais estratégias utilizadas pelos indivíduos desse grupo, com o objetivo de inserir a astrologia no campo profissional. Chamamosgrupo de elite àqueles indivíduos que se agrupam em torno da idéia de que o fazer astrológico é uma arte e o saber astrológico “uma linguagem simbólica intraduzível”. Esse grupo é contra qualquer tipo de mecanismo institucional “formal” que interfira no processo de treinamento dos praticantes da astrologia ou no exercício da sua atividade. Por fim, denominamos grupo de práticos aquele cuja concepção sobre o saber e o fazer astrológicos tem influenciado mais diretamente na construção da imagem da astrologia junto ao público consumidor e à mídia. A forma como os indivíduos são iniciados no conhecimento, bem como a maneira como seus serviços são oferecidos no mercado (sob o rótulo de saber esotérico), têm predominado dentro da astrologia e colaborado para consolidar sua filiação ao campo de conhecimento “religioso-esotérico”.
Por ser de interesse específico deste artigo estudar o processo de reorganização da astrologia de forma a se adaptar ao modelo adotado pelas profissões já institucionalizadas, concentro minha análise no grupo moderno, embora procure apresentar uma caracterização mais detalhada dos três grupos.
O Grupo Moderno
Em contraste com o grupo de elite que, como veremos, é composto essencialmente por indivíduos pertencentes às camadas mais altas da sociedade e com alto nível de educação formal, o grupo moderno caracteriza-se pela heterogeneidade de sua formação. Seus membros têm origens sociais diversas e o acesso à educação formal varia entre o primeiro grau completo e a conclusão do curso superior. Indo de encontro ao modelo de profissão adotado pelo grupo de elite, os astrólogos do grupo moderno manifestam grande preocupação com a criação de critérios universalmente válidos de treinamento e socialização profissional, capazes de controlar e garantir a competência de seus membros e limitar a atuação de leigos no mercado. Visto que esses indivíduos atuam em um mercado bem mais amplo e competitivo do que aquele no qual está inserido o grupo de elite, a necessidade de se criarem critérios de delimitação e exclusão manifesta-se constantemente. Assim, a unificação e padronização do conhecimento profissional, efetivada através da formalização das instituições de ensino já existentes, é tida como o caminho mais eficiente para delimitar áreas específicas de atuação no mercado, eliminar concorrentes não qualificados e consolidar a posição e a autoridade da astrologia dentro do campo profissional.
A padronização do conhecimento astrológico, o treinamento formal e a regulamentação de instituições de ensino aparecem como pontos fundamentais para a resolução do problema da atuação, no mercado, de profissionais com formação “distorcida”. Segundo opinião dos membros desse grupo, o principal problema a ser enfrentado pela astrologia é a falta de controle sobre a atuação e inserção de profissionais no mercado, decorrente da não formalização do treinamento profissional. Isto tem gerado dois obstáculos para a astrologia: internamente, dificulta a definição do serviço astrológico como atividade especializada e, externamente, enfraquece a credibilidade do astrólogo junto ao público consumidor. A ex-presidente do Sindicato dos Astrólogos do Rio de Janeiro foi categórica quanto “à importância de uma base de formação sólida para o astrólogo”. Citando a relevância do trabalho desse sindicato no sentido de unificar os currículos das escolas de astrologia ela diz:
“Ao longo do tempo nós temos observado que os astrólogos trabalham muito bem sem nenhuma formação profissional, sem nenhuma escola. Mas eu acho que o apuro técnico é muito importante (…). As pessoas que entram na universidade (e este é o nível em que ela acredita que a astrologia deva ser inserida) adquirem ferramentas para trabalhar a sociedade de uma forma muito mais eficaz (…). Se o astrólogo tiver formação técnica profissional ele vai fazer melhor o seu trabalho (…) por isso (falta de controle sobre a competência) a astrologia tem uma dificuldade muito grande em crescer sob o ponto de vista profissional, porque qualquer um que leia um tratado de astrologia pode falar de astrologia. Qualquer um pode falar de medicina sem estudar medicina, mas para ser médico tem que ter o certificado, e o astrólogo não tem (…). Com as grandes escolas de astrólogos, nós acreditamos que esses profissionais estão vindo com mais gabarito, mais formação ética”.
O aumento na oferta de serviços de tele-astrologia e o crescente número de astrólogos que tende a associar a prática astrológica com a prática “esotérica” foram apontados como dois dos principais problemas ocasionados pela falta de controle sobre a qualificação profissional. O que, para alguns, pode ser considerado como um ganho em termos de projeção do serviço prestado pela astrologia junto ao público consumidor potencial aparece, para os membros do grupo moderno, como um problema a mais a ser enfrentado nesse processo de construção da imagem do profissional da astrologia.
O problema gerado pelo aumento da oferta dos serviços de tele-astrologia relaciona-se, essencialmente, com a construção da imagem externa da astrologia. Isto decorre de três fatores inerentes a esse tipo de serviço. Primeiro, a tele-astrologia banaliza o serviço astrológico. Para os membros do grupo moderno, no serviço prestado pelo telefone, é praticamente impossível cumprir certas regras que são indispensáveis para a qualidade do serviço astrológico. Tempo disponível para a construção do mapa astral e para a análise do seu conteúdo, bem como uma maior interação com o cliente são algumas dessas regras, cuja observância torna-se impossível em um serviço telefônico. Segundo, esse tipo de serviço “massificado” compromete a ética profissional e tende a associar a astrologia com outras ocupações que se caracterizam, essencialmente, pela busca do lucro. Aqui, o ideal profissional, comprometido com a melhoria da qualidade de vida através do serviço prestado, cede espaço à idéia de ganho financeiro. Terceiro, o fato de algumas empresas de tele-astrologia anunciarem seus serviços associados a atividades como tarô, I Ching, búzios etc. produz uma espécie de associação entre a astrologia e outros tipos de ocupação, cuja base de conhecimento não é científica. Essa situação só reforça a relação comumente estabelecida, pelo público consumidor, entre a astrologia e as ocupações esotéricas, fato este que impede a fixação da imagem da astrologia como uma ciência portadora de um conhecimento técnico e científico específico.
Entre os membros do grupo moderno, é unânime a opinião de que a atuação no mercado de profissionais com formação “distorcida” — ou seja, que tendem a introduzir fundamentos das chamadas disciplinas “esotérico-religiosas” na análise do mapa astral — repercute negativamente para a consolidação da imagem da astrologia como profissão científica. Em primeiro lugar porque confunde o público consumidor sobre qual o verdadeiro serviço da astrologia, criando uma expectativa falsa quanto ao resultado do trabalho astrológico. Muitos foram os casos citados em que o astrólogo se deparou com clientes que vieram buscar, na astrologia, respostas que não eram pertinentes a essa disciplina, mas sim às ocupações “divinatórias”. E nesse ponto, a maioria dos astrólogos modernos concorda: “astrologia é uma coisa, adivinhação é outra completamente diferente”.Em segundo lugar porque coloca no mesmo patamar a ciência astrológica — que possui uma técnica e um sistema simbólico e lógico próprios — e as ocupações sem fundamento científico. Em terceiro lugar porque induz a entrada no mercado de indivíduos cuja formação não se concentra na área astrológica, o que compromete a qualidade do trabalho e põe em xeque a competência profissional. Um astrólogo mineiro revela sua preocupação com o crescimento dos disk0900:
“Agora começou essa coisa de 0900, e um fulano foi apresentado como o maior astrólogo do mundo e falando um monte de besteiras (…) isso é péssimo para a nossa imagem (…) eles colocam um monte de astrólogos desempregados para atender ao telefone e não dão as mínimas condições de trabalho (…) a filosofia é só o lucro não tem ética, não desenvolve um trabalho astrológico verdadeiro (…). Então eu acho que a única maneira de controlar é regulamentar. Sem a regulamentação como é que vai controlar os picaretas?”
Atuando em um mercado mais amplo e competitivo, os indivíduos do grupo moderno acreditam que o controle sobre a atuação e inserção profissionais no mercado, feito através das associações profissionais e das instituições de ensino regulamentadas, é a maneira mais eficiente de garantir o status profissional e o monopólio sobre certa fatia do mercado de serviços. Afirmando a autonomia do saber astrológico e sua base científico-racional, tentam desvincular a astrologia das “ocupações esotéricas”, delimitar áreas de atuação específicas e garantir os recursos necessários para sua inserção no campo profissional geral. A preocupação com a criação de critérios de controle sobre a atuação e competência profissionais pode ser verificada através do grande número de astrólogos desse grupo que são donos de escolas de astrologia. Baseada no modelo curricular adotado pelas universidades, a maioria das escolas de astrologia que pertencem a indivíduos desse grupo possui currículo básico, carga horária e disciplinas optativas, muitas delas chegando a exigir freqüência mínima e adotando mecanismos como provas, trabalhos etc., para medir o nível de aprendizado do aluno. Em geral, essas escolas primam pelo ensino teórico e metodológico na área da astrologia, não introduzindo em seus currículos disciplinas como filosofia, história das religiões, psicanálise e outras apontadas pelo grupo de elite como fundamentais para a formação do astrólogo. Na verdade, os professores e donos de escolas acreditam que cabe a essas instituições de ensino o papel de orientar a formação dos astrólogos dentro da sua disciplina, não sendo possível exigir que o aluno domine as chamadas disciplinas complementares, mesmo porque a oferta dessas disciplinas implicaria a contratação de professores licenciados. No caso, o conhecimento de disciplinas como história, filosofia etc. ficaria a cargo do aluno que estudaria por conta própria ou em instituições de ensino formalizadas.
Deve-se ressaltar que, como não há regulamentação do ensino nessa área, as escolas de astrologia adotam currículos e carga horária diferentes, cujas montagens podem vir da própria experiência do(s) fundador(es), de um apanhado e seleção de currículos já existentes ou do modelo curricular praticado pelas escolas tradicionais de astrologia. Da mesma forma, ainda não foram definidos os critérios a serem adotados para a seleção dos candidatos que desejam ingressar nessa atividade. Todavia, os donos de escolas afirmam que, devido ao alto grau de reflexão teórica e metodológica exigido nessa fase de aprendizado da astrologia, dificilmente alunos sem o segundo grau completo concluem o curso. Para eles, alguns fatores têm contribuído para a melhoria dos profissionais no mercado, destacando-se o crescimento do número de escolas mais bem estruturadas e a elevação da qualidade do ensino por elas ofertado. Contudo, eles são unânimes em afirmar que sem a padronização do ensino e a formalização dessas instituições não é possível garantir a exclusão definitiva de profissionais não qualificados do mercado.
Ao lado da padronização do ensino e treinamento, o estabelecimento de critérios valorativos e éticos inspirados naqueles já legitimados pelas profissões institucionalizadas, é também apontado pelos membros do grupo moderno como um dos requisitos essenciais para o sucesso do novo modelo de organização proposto para a astrologia. Aqui, os sindicatos e as associações profissionais têm obtido um destaque maior do que as escolas. Foi por intermédio dessas instituições, em especial dos sindicatos, que surgiram os códigos de ética da profissão e estão sendo dados os primeiros passos no sentido de controlar a atuação do profissional no mercado. Obviamente, não estamos falando aqui em um controle do tipo que é exercido pelas associações profissionais pertencentes às profissões já institucionalizadas. A ação dos sindicatos tem se resumido ao envio de advertências aos astrólogos – caso o sindicato receba algum tipo de denúncia, seja de cliente ou de colega – e ao esclarecimento junto ao profissionais de astrologia e ao público consumidor, sobre o tipo de serviço prestado pela astrologia e a importância do investimento na formação do astrólogo.
Ao contrário do grupo de elite que se encontra menos formalmente organizado, os indivíduos do grupo moderno tendem a criar instituições – sejam representativas ou de ensino – que têm como objetivo se consolidar como espaços legítimos de socialização dentro da astrologia. Com orientação essencialmente voltada para o mercado de serviços, os membros participantes do grupo moderno acreditam que essas instituições, que contribuem para demarcar a especificidade do seu produto e seu caráter especializado, são fundamentais para a delimitação de áreas de atuação específicas no mercado e exclusão dos não qualificados. Sendo considerado pelos astrólogos do grupo moderno como um mercado de atuação pouco explorado (pois a maior parte do público potencial consumidor ainda não conhece as vantagens do serviço astrológico concebido na forma como é pretendida por esse grupo), o risco da atuação de concorrentes não qualificados, especialmente aqueles que trabalham com esoterismo, é um dos principais problemas a ser enfrentado.
A padronização do conhecimento e a regulamentação do ensino de astrologia são vistas, assim, como condição indispensável para o estabelecimento de critérios de definição do serviço no mercado, para a construção de princípios unificados de competência profissional e para a consolidação da credibilidade do profissional diante do público. Não é por acaso que uma das estratégias desse grupo é tentar unificar o currículo básico das escolas de astrologia que estão atuando no mercado. Esta tentativa visa construir um modelo de organização profissional baseado em princípios universais e autônomos, que possam ser prescritos sem a interferência direta dos membros participantes e legitimados pelo sistema cognitivo dominante. Nesse sentido, a criação de bases comuns de competência profissional aparece, para esse grupo, como um recurso importante no processo de institucionalização e delimitação do campo e sua inserção no campo profissional geral. Isto porque ela é capaz de padronizar o conhecimento, definir o serviço oferecido e, ao mesmo tempo, excluir do mercado os competidores cujo treinamento não é controlado pelas instituições de ensino – que formalizadas, seriam legitimamente aceitas.
O Grupo de Elite
Na definição de Weber, grupos estamentais ou de status seriam aqueles cuja distinção e privilégios sociais são baseados no modo de vida, na educação formal e no prestígio derivado da descendência e/ou da profissão ou, como acontece em muitos casos, de ambos. Comunidades de status seriam, portanto, “coletividades que gozam de um estilo de vida semelhante, de um único sistema moral, de uma linguagem ou culturas comuns.” O compartilhamento dessas características culturais produz, assim, “comunidades separadas e solidárias, organizadas para protegerem ou desenvolverem sua fruição de benefícios e privilégios culturais e sociais.” Turner, ao fazer uma revisão da teoria weberiana sobre grupos estamentais, diz que em comparação com as classes econômicas, os grupos de status são “coletividades sociais de natureza comunal que requerem a reprodução de um estilo de vida e herança cultural típicos”, sendo mais integrados e conscientes comunalmente. Com acesso privilegiado a recursos escassos, principalmente os que demandam atributos morais, culturais ou simbólicos, os grupos de status possuem uma honra social específica e desfrutam de certos privilégios sociais acessíveis apenas aos indivíduos que ocupam posições dominantes no espaço social.
O chamado grupo de elite pode ser descrito como uma espécie de “grupo estamental” ou “grupo de status” dentro da astrologia. As diferenças quanto à forma de socialização e treinamento, o tipo de clientela e quanto à própria definição do ideal profissional e formato “organizacional” demonstram como, de fato, o grupo de elite pode ser considerado um grupo de status dentro da astrologia. Composto essencialmente por indivíduos que ocupam posições privilegiadas no espaço social, os membros desse grupo acumulam alto volume de capital econômico e cultural (este último adquirido mediante o acesso ao sistema de educação formal). Tendo como referência um saber mais elitizado, que inclui o domínio da cultura clássica e geral, a maneira como os indivíduos constroem o modelo de saber astrológico bem como as formas de treinamento e práticas astrológicas definem previamente o perfil dos indivíduos aptos a ingressar nesse grupo, limitando o acesso das camadas mais baixas da estrutura social.
O saber astrológico é considerado uma “linguagem simbólica intraduzível”, que tem “uma gramática e sintaxe próprias” e, por isso, está mais próximo do campo da arte e da filosofia do que do campo profissional onde predomina o modelo de conhecimento racional-científico. Não é por acaso que o tipo de treinamento ideal concebido por esse grupo é aquele que une ao corpo de conhecimento teórico e técnico específico da astrologia conhecimentos na área de filosofia, história antiga e moderna, mitologia, história do pensamento religioso, psicanálise, enfim, uma série de outras disciplinas que requerem certo “esforço e maturidade intelectuais” para sua compreensão. Para os membros desse grupo, o saber astrológico é de tal modo específico, abrangente e multidisciplinar que seria indesejável, se não impossível, tentar encaixá-lo no modelo de padronização e treinamento formal característico das profissões já institucionalizadas. Daí decorre a concepção de que a astrologia se ajusta melhor à idéia de profissão de fé, um trabalho onde a experiência pessoal acumulada pelo astrólogo e o conhecimento geral por ele adquirido seriam as principais ferramentas para a prática profissional.
A tentativa de adotar o modelo de treinamento técnico-científico como estratégia para retornar à academia e como meio para se fazer o reconhecimento externo do valor da astrologia é, segundo os integrantes desse grupo, uma maneira de comprometer a qualidade da formação do astrólogo e tornar a astrologia um subproduto da sociedade de mercado, onde a lei da oferta e da procura se sobrepõe aos princípios morais e éticos que devem orientar o ideal profissional. Uma astróloga paulista fala sobre o modelo de escola que tem predominado no mercado:
“O problema é o tipo de escola que se cria. Porque tem escolas e escolas. (No modelo que tem predominado no mercado) você tem escolas que dão um monte de técnicas de procedimentos, mas é a casca. Quando você vai conversar com pessoas dessa orientação (mais científica) você vê a batida contínua nos aspectos de rigor matemático, rigor trigonométrico, estatística (…). Porque não existe essa coisa de astrologia por si só. Ela precisa de um campo de intertradução simbólica. Eu acho a formação do astrólogo uma coisa muito demorada. O ideal seria escolas que dão embasamento filosófico e te ensinam como aplicar as técnicas.”
Essa maneira de conceber o ideal profissional e as formas de treinamento e socialização dentro do grupo se reflete diretamente no tipo de organização ali presente. Não existem associações ou organizações profissionais formalmente estruturadas que tenham um projeto profissional coletivista claramente definido e direcionado para a inserção da astrologia no campo profissional. Da mesma forma, o número de escolas de treinamento e aprendizado que adotam o modelo de ensino defendido por esse grupo é bem menor e menos formalmente organizado do que as escolas com modelo de formação mais especializado. Dentro do grupo de elite, o que se vê é a formação de pequenos grupos de estudo fechados, onde são discutidas questões substantivas que visam a troca de experiência e o aperfeiçoamento do conhecimento astrológico.
Contrários a qualquer forma de controle institucional formal e padronização do treinamento baseado em disciplinas técnicas e específicas, os membros do grupo de elite acreditam que o modelo de formação profissional mais adequado para a astrologia seria aquele em que caberia às escolas e associações o papel “restrito” de orientar a formação do astrólogo recém-ingresso na ocupação. Igualmente caberia a essas instituições informar ao público potencial o perfil mais adequado do “bom profissional”. Assim como, no modelo de aprendizado adotado pelas corporações de ofício, não caberia às escolas a função de formalizar critérios fechados e eminentemente técnicos de qualificação profissional, mas sim de introduzir os indivíduos na arte do ofício.
É preciso ressaltar que, mesmo não havendo uma instância específica que defina de forma clara os objetivos e estratégias do grupo, no sentido de reorganizar a astrologia de acordo com sua forma de conceber o treinamento e a prática dentro da astrologia, o grupo é bastante coeso. A inexistência de associações representativas formalizadas internamente, ou de estabelecimentos de ensino em via de institucionalização, não impede que sejam trocadas informalmente impressões e opiniões sobre a formação profissional mais adequada, e sobre a forma de conceber o ideal profissional. Existe uma rede unificada de produção do pensamento e do comportamento, que tem como base a origem social comum dos seus membros, que garante certa homogeneidade no pensar a prática e o ideal profissional da astrologia, bem como seu lugar no espaço social geral.
À semelhança dos grupos de status, podemos dizer que, mais do que um saber astrológico específico, o grupo de elite formado dentro da astrologia compartilha uma maneira de viver, uma visão de mundo e da astrologia, que é definida a partir de um sistema referencial que se localiza extracampo profissional, ou seja, através de um habitusque é resultado do seu processo de socialização e da sua posição no espaço social mais geral. O discurso contra a regulamentação da profissão e a padronização do conhecimento astrológico, nos moldes das profissões já institucionalizadas, pode ser explicado pela preocupação que os membros desse grupo manifestam com a “profissionalização da astrologia”, ou melhor, a sua transformação em um “subproduto da sociedade de mercado”.
Quando analisamos o grupo de elite como sendo um modelo próximo aos grupos de status dentro da astrologia, podemos dizer que essa preocupação com a “profissionalização” traduz, em certa medida, o que Turner qualifica como “pânico de status”.Este pânico ocorre sempre que grupos sociais de destaque enfrentam situações de mudança que possam repercutir, de forma negativa, na sua posição em um determinado espaço social, e ameaçar privilégios advindos dessa posição. Assim, a idéia de organizar a astrologia a partir de elementos não valorizados simbólica e culturalmente por esse grupo gera, em seus membros, uma espécie de ansiedade, pois organizar a astrologia nesses moldes é colocar em xeque a posição estamental que esses indivíduos têm dentro do grupo, e ameaçar o privilégio do monopólio sobre o mercado das elites. É também retirar desse grupo o papel de porta-voz da astrologia – que se cumpre principalmente graças à facilidade de acesso de seus membros aos meios de comunicação de elite e às camadas mais altas da estrutura social – e de enunciador e representante legítimo do que acreditam ser o verdadeiro saber astrológico.
The astrolabe back includes the zodiac
O Grupo de Práticos
O grupo prático é aquele cujo ideal concebido para o exercício da prática astrológica é o mais tradicional dentro da astrologia, e o mais consolidado no imaginário do público consumidor. Misturando ao saber astrológico fundamentos de ocupações esotéricas, os indivíduos desse grupo acreditam que a qualidade do serviço astrológico (o aconselhamento espiritual) só é garantida quando o astrólogo utiliza como apoio outros saberes religiosos. Daí ser prática comum entre eles oferecer a leitura do mapa astral em associação com o jogo de búzios, tarô e quiromancia ou terapias alternativas como cristais, cromoterapia e florais.
Aqui, dois subgrupos se destacam: os astrólogos esotéricos, que têm como principal referencial para a interpretação do mapa o conhecimento pertencente ao campo religioso-esotérico, e os astrólogos psicólogos, que misturam ao conhecimento religioso o conhecimento da “psicologia humana”. No primeiro grupo, a condição essencial para realizar um bom trabalho não reside no treinamento, mas sim na prática cotidiana associada ao desenvolvimento de “certas qualidades sensitivas”, descritas por alguns como mediúnicas. No segundo grupo, a base de interpretação do mapa é construída, unindo o conhecimento religioso à “teoria” psicológica, teoria esta cujo aprendizado decorre da prática profissional e do estudo não sistematizado de autores da psicologia.
As diferenças entre os dois grupos são bastante tênues. Todavia, podemos dizer que os astrólogos esotéricos definem seus serviços como um tipo de “aconselhamento espiritual”. Os anúncios em jornais (especializados ou não) sempre oferecem a leitura do mapa associada com terapias alternativas ou esotéricas. Já os astrólogos psicólogos, que também utilizam esse tipo de propaganda, oferecem a leitura do mapa astral como um substituto das terapias psicológicas convencionais. A análise de traumas, medos, fracassos, feita a partir do mapa cármico (o mapa de vidas passadas), é prática comum entre esses astrólogos.
Esses dois subgrupos, estando os esotéricos em maior número, são na verdade ramificações de um grupo maior, os práticos, que se caracterizam pela estreita vinculação com o campo religioso-esotérico e a quase inexistência de treinamento “formal” nas escolas de astrologia.
Os locais de trabalho traduzem essa mescla da astrologia com o esoterismo. Adornados com objetos místicos, como cristais, incenso, imagens de anjos, santos etc., os consultórios deixam transparecer uma certa aura de magia que se faz refletir na própria fala e gestos do astrólogo. Segundo depoimento de um astrólogo membro desse grupo, em muitos casos, além da crença pessoal do astrólogo, a “teatralização” do espaço de trabalho se dá em função da expectativa do cliente. Ou seja, a vestimenta e os objetos utilizados para decorar o local de atendimento constituem, na verdade, peças para se montar um cenário que, segundo se diz, corresponde àquele esperado e definido pelo imaginário do público consumidor. Decorar a si e ao consultório com objetos místicos e se portar, na fala e nos gestos, como um esotérico típico, é uma estratégia de fixação no mercado, uma jogada comercial que visa atrair o público consumidor específico desses serviços. A relação com a mídia obedece ao mesmo padrão:
“Eles (os jornalistas) perguntam coisas que às vezes os astrólogos, se fossem tremendamente éticos, não responderiam. Mas o que acontece, a profissão depende de uma divulgação na imprensa, depende de divulgação na mídia, depende desse espaço que o astrólogo não pode comprar. Então o que acontece, às vezes você se dispõe a falar sobre coisas que você não sabe e você fala, faz o lado do “circo” da profissão. E isso pode ser uma coisa que a gente poderia considerar não ético, mas ao mesmo tempo é uma questão de sobrevivência no mercado.”
Grupo formado em sua maioria por indivíduos pertencentes às classes sociais mais baixas, os auto-intitulados astrólogos espiritualistas ou esotéricos afirmam que a astrologia é uma escolha interessante para aqueles que não tiveram acesso ao sistema de educação formal, mas desejam trabalhar em uma “profissão” com status social reconhecido e retorno financeiro satisfatório. Em muitos casos, o interesse pela astrologia enquanto possível ocupação é despertado indiretamente, ou seja, através das chamadas ocupações esotéricas toma-se o primeiro contato com o conhecimento astrológico. Isto explica por que, dentro do grupo, predomina a visão da astrologia enquanto ocupação ligada ao campo religioso. Composto essencialmente por autodidatas, não é comum encontrar nesse grupo indivíduos cuja iniciação na astrologia tenha sida feita através das escolas de astrologia. Em geral, o processo de aprendizado é descrito como um trabalho solitário em que cabe ao próprio iniciado conduzir sua jornada pelos caminhos do conhecimento astrológico. As poucas escolas de astrologia especializadas em astrologia esotérica têm uma estrutura bastante precária. Na verdade, não são escolas, mas sim cursos rápidos, geralmente conduzidos por um professor, onde o estudo da astrologia é envolto em uma aura de misticismo peculiar às ocupações esotéricas. Algumas opiniões sobre as escolas de formação deixam claras essas posições:
“Eu sou autodidata e muitos astrólogos que eu conheço também são. Aqui mesmo no Shopping Esotérico não tem nenhum astrólogo que fez escola. E todos nós trabalhamos bem, os consulentes gostam, não reclamam.”
“Eu acho totalmente errado isso (a regulamentação das escolas de astrologia). Tem que ser astrólogo aquele que escolheu por si mesmo ser astrólogo. Porque ele pode ser um péssimo astrólogo, pode ser um astrólogo médio, um excelente astrólogo, mas ele é um astrólogo. Não tem que preencher uma quantidade de conhecimento para ser astrólogo não.”
Entre os membros desse grupo, é praticamente desconhecido o trabalho que vem sendo feito pelo grupo moderno no sentido de regulamentar a astrologia e transformá-la em profissão. Aqueles que sabem da existência do sindicato têm uma percepção equivocada do trabalho realizado, chegando até mesmo a fazer uma associação entre o sindicato dos astrólogos e o grupo de esotéricos. Apenas um entrevistado percebeu a tentativa do sindicato de estabelecer novos padrões de organização que excluam do mercado os chamados “picaretas”:
“Essa tendência de que só é astrólogo quem formou nessas e nessas bases, isto é puramente poder (…). A astrologia científica é uma parte da coisa, não a totalidade (…). Toda pessoa deve rejeitar tudo que é feito no sentido de manipular e ter o poder de dizer quem é ou não astrólogo. Principalmente no sentido de que a tendência a profissionalizar, a tornar a profissão de astrólogo oficial, é de elitizar. E esse elitizar tira muitos astrólogos do páreo. Muitos astrólogos que estão ameaçados porque não fazem parte de uma elite no sentido tanto da astrologia quanto no sentido de pertencer à classe média e tudo mais (…). Esse negócio de charlatão é uma palavra que fica muito bem para aqueles que são elitistas. Os elitistas dizem que não são charlatões, mas, sim, que existem charlatões.”
Quadro Comparativo
O Papel das Escolas de Astrologia e dos Sindicatos na Construção da Autoridade Profissional e Delimitação do Campo Profissional da Astrologia
As escolas de astrologia e os sindicatos de astrólogos têm, cada vez mais, se tornado instâncias produtoras de princípios referenciais de conduta e ação dos astrólogos. Ligadas essencialmente aos membros do grupo moderno, essas instâncias têm exercido um papel de grande destaque na consolidação da imagem da astrologia como disciplina científica, que acumula todas as características necessárias para sua inserção no campo profissional mais geral. Vejamos, a seguir, quais as contribuições dadas pelas escolas e sindicatos no processo de institucionalização do campo profissional da astrologia.
As Escolas de Astrologia
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Foi durante a década de 80 que começou a funcionar grande parte das escolas de astrologia que estão atuando, ainda hoje, no mercado. A onda de “esoterismo” que caracterizou os anos 80, e mobilizou o interesse do mercado editorial e da mídia nessa área, foi apontada como uma das principais causas do aumento do número de escolas de astrologia durante esse período. Para os entrevistados, o número crescente de publicações na área – revistas especializadas, livros etc. – e o destaque dado pelas redes de televisão e rádio aos astrólogos, tarólogos e profissionais esotéricos aumentaram a procura do público pelo serviço da astrologia, e potencializaram seu interesse pela astrologia enquanto possível profissão. Contudo, muitas escolas que surgiram na década de 80 não conseguiram permanecer no mercado. Aquelas que foram organizadas exclusivamente para atender à crescente demanda do público por cursos na área de astrologia não conseguiram sobreviver à recessão do final dos 80 e início dos 90. Isto porque, a crise econômica vivida nessa época diminuiu tanto o número de matrículas nas escolas quanto o número de atendimentos individuais para a análise do mapa astral. Assim, as escolas pouco estruturadas, com baixa qualidade de ensino e quadro de professores não qualificados, não conseguiram resistir à competição e à crise econômica que retirou do mercado indivíduos que tinham um interesse “momentâneo e pouco fundamentado” pela astrologia. Passado o fervor pela busca dos cursos dessa especialidade, permaneceu no mercado um tipo de aluno cujo perfil era totalmente diferenciado daquele que buscava o curso de astrologia, “muitas vezes influenciado pela onda de esoterismo”. O aluno remanescente é definido como “muito mais exigente, mais crítico e melhor informado. Ele não gosta de perder tempo nem dinheiro e sabe o que quer, ou seja, intenciona ter a astrologia como sua profissão, exercer essa atividade e retirar o seu sustento da análise do mapa astral”.
As escolas que conseguiram sobreviver à retração do mercado têm hoje uma estrutura bastante interessante. Elas podem ser divididas em escolas de grande, médio e pequeno porte, sendo que muitas delas estão organizadas e adotam o modelo curricular típico dos cursos já inseridos no sistema de ensino superior. As escolas de grande porte caracterizam-se por funcionar em mais de um turno, por ter capacidade para receber um volume maior de matrículas e possuir um quadro maior (quatro ou mais) e mais diversificado de professores, em termos do conteúdo substantivo das disciplinas. As de médio porte geralmente são estruturadas a partir de um quadro de professores menor (entre dois e quatro) e, tendo em vista sua própria estrutura física, o quadro docente tem menor capacidade de atendimento ao público. Já as escolas de pequeno porte são aquelas com estrutura menos formalizada, onde o dono é, em geral, o único professor. Juntamente com as escolas mais antigas, mais tradicionais, essas instituições de formação de astrólogos, especialmente as de médio e grande porte, vêm se afirmando como espaços legítimos de socialização e inserção na astrologia.
Vejamos sua estrutura.
A maioria das escolas de grande porte, às quais tivemos acesso, oferece cursos de astrologia em três níveis: para iniciantes, de formação júnior ou semiprofissional e de especialização, onde são formados os astrólogos profissionais. Com duração que pode variar, de acordo com o nível, de três meses a quatro anos, os cursos são estruturados sob a forma de disciplinas, muitas vezes acompanhando modelo adotado pelas universidades, em termos de exigência de carga horária e fixação de número mínimo de créditos. A construção da grade curricular não obedece a nenhum critério rígido. Algumas escolas criaram seu currículo com base na prática e experiência de seu dono e/ou de seus professores. Este é o caso típico, por exemplo, das escolas que estão atuando a mais tempo no mercado. Uma segunda forma descrita de criar o currículo é mediante um apanhado e seleção de currículos já montados por outras escolas. Este caso inclui as escolas mais recentes onde, na maioria das vezes, o dono foi aluno ou professor de uma ou mais dessas instituições.
Quaisquer que sejam as fontes de orientação para a estruturação do currículo, o fato é que ele se diferencia de acordo com o nível do curso. Os cursos de formação profissional são os mais longos e incluem, além das disciplinas básicas, ou seja, aquelas indispensáveis ao currículo, disciplinas optativas, cuja montagem da grade se dá em função do interesse do aluno ou da linha de concentração que ele escolheu seguir. Os cursos são montados de forma que o aluno tenha contato, inicialmente, com matérias mais básicas que forneçam as noções gerais de astrologia, sendo que apenas em um estágio mais avançado, que pode variar de um a dois anos, de acordo com a estrutura curricular da escola, ele cursará disciplinas que exigem um nível maior de reflexão teórica e metodológica. Além do quadro de disciplinas, essas escolas oferecem atividades extracurriculares que incluem palestras, círculos de debate, cursos promovidos por professores convidados, dentre outras. As escolas maiores, que comportam um número maior de alunos e têm um quadro de professores mais diversificado, são as instituições que tipicamente adotam esse modelo.
Toda essa estrutura curricular e de montagem do curso é prescrita, contudo, sob a forma de sugestão curricular. Como a astrologia ainda não foi regulamentada e as escolas não são reconhecidas pelo Ministério da Educação e Desporto – MEC, é praticamente impossível, segundo os donos de escola, obrigar o aluno a seguir o currículo exatamente como ele é organizado. O que é possível é apresentar o currículo sob a forma de sugestão, alegando que ele é totalmente organizado e pensado para facilitar o aprendizado e potencializar o aproveitamento do aluno. A emissão do certificado que qualifica o indivíduo como astrólogo profissional tem sido um recurso importante utilizado por algumas escolas nesse processo de “convencimento”. Em geral, o aluno iniciante (ou seja, que nunca trabalhou com astrologia, que nunca fez um mapa astral, mas está interessado em atuar na área e obter o certificado de astrólogo profissional) segue à risca a sugestão das escolas. Já o aluno que tem alguma prática no exercício dessa ocupação é bem mais resistente. Não existe nenhum dado ou pesquisa que corrobore esta afirmativa. O que temos, de fato, são algumas avaliações de donos de escola que afirmam que os alunos com alguma prática na astrologia – ou seja, que já trabalham com leitura de mapa astral – tendem a abandonar mais facilmente os cursos mais organizados, aumentando, assim, os “índices de evasão” que, à semelhança do sistema de ensino formal, também podem ser observados nessas escolas.
Esse quadro de “evasão escolar”, que é acompanhado também por um fenômeno de mudança constante de escola, pode explicar por que muitas delas, que tencionam ser reconhecidas pelo MEC, não adotam instrumentos mais eficientes de controle sobre a formação e aprendizado nessa área. Na verdade, são poucas as escolas de astrologia que exigem do aluno o cumprimento mínimo de uma carga horária e que têm definidos instrumentos de avaliação, tais como provas, trabalhos etc., que permitam, inclusive, a reprovação do aluno. A pouca rigidez nos critérios de avaliação dessas instituições é ainda maior quando as escolas são menos formalmente organizadas, como é o caso das escolas de pequeno porte. Os donos de escola, principalmente das pequenas, justificam essa situação afirmando que o modelo de avaliação tal como é concebido hoje e adotado, por exemplo, pelas universidades, é questionável. Para eles, a astrologia não quer e não deve se enquadrar nesse modelo, que é tido como decadente, autoritário e muitas vezes ineficiente; ela precisa encontrar seu próprio caminho, ou seja, formas alternativas de organizar o processo de treinamento e capacitação dos profissionais da astrologia.
Ao que tudo indica, é a concorrência entre as escolas e a falta de padronização do currículo que têm impedido a criação de mecanismos de avaliação mais eficientes. Alguns exemplos podem ajudar a elucidar melhor esta afirmativa. Foi mencionado anteriormente que a rotatividade dos alunos entre as diversas escolas é muito grande. Hoje, atuam no mercado escolas com estruturas muito diversificadas. É possível que a elevação nos níveis de exigência, especificamente em relação ao aproveitamento das disciplinas, provoque um deslocamento dos alunos para escolas cujo nível de exigência é menor. Como não há regulamentação do ensino, as primeiras instituições que adotarem critérios mais rígidos de avaliação, ou até mesmo diversificarem muito seu currículo ou fizerem modificações na sua carga horária, correm o risco de sofrer uma queda brusca nas matrículas.
Em função da emergência desses padrões não formalizados de avaliação, está sendo consolidada dentro da astrologia uma hierarquia entre as escolas, hierarquia esta que, mesmo não podendo ser formalmente reconhecida, tem grande potencial de se tornar legítima. Assim, à semelhança do sistema credencial dominante analisado por Collins e Freidson, vão surgindo escolas cujo padrão organizacional e curricular serve de base para outras que pretendam se fixar no mercado. Aquelas capazes de legitimar certos princípios de organização do treinamento e capacitação profissional se transformam em escolas “típicas” ou “modelos”, dentro do mercado, e acabam por exercer uma força isomórfica sobre as demais instituições inseridas naquele espaço. Mas, além de funcionarem como referenciais para esse “mercado educacional interno”, as escolas que ocupam posição dominante dentro do sistema de treinamento da astrologia sinalizam, informalmente, para o público consumidor, qual modelo de treinamento é mais adequado e legítimo.
É preciso também ressaltar que a eficácia dos recursos usados para a inserção no campo profissional depende da posição da sua base de conhecimentos no sistema cognitivo dominante. Assim, quanto mais próximo do tipo de conhecimento reconhecido como legítimo no campo profissional geral, maior a probabilidade de esse conhecimento ser reconhecido como legítimo pelos membros participantes que desejam a institucionalização da sua ocupação nos moldes das profissões dominantes. Se, no processo de consolidação das profissões já fixadas no campo profissional, a tendência foi substituir os estudos clássicos por uma instrução mais especializada, mais voltada para o mercado e o “mundo real”, com a astrologia não tem acontecido de modo diferente. Os atuais cursos de formação de astrólogos têm privilegiado as disciplinas técnicas e teóricas na área da astrologia, não apresentando em sua grade curricular as matérias que, segundo membros do grupo de elite, seriam fundamentais para a formação de um bom astrólogo. O modelo curricular predominante é aquele que prima pelo ensino de disciplinas específicas da astrologia (regências, técnicas de interpretação, etc.). Isto não significa que haja um padrão curricular totalmente fechado em disciplinas especializadas, mesmo porque muitas escolas tidas como conceituadas incluem dentro do curso de astrologia disciplinas como economia, filosofia, psicologia etc. Mas a tendência mais marcante aponta para a especialização. Não é por acaso que a maioria dos astrólogos entrevistados, que estão atuando no mercado há menos de cinco anos e que têm “diploma de astrologia”, tem um perfil de formação muito mais técnico do que filosófico, ao contrário do que propõem os membros do grupo de elite.
Os Sindicatos de Astrólogos
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Os sindicatos unem-se às escolas de astrologia na tentativa de consolidar um novo modelo de organização desta especialidade. Se algumas escolas têm conseguido se fixar como espaços importantes de socialização e criação de critérios mínimos de padronização do conhecimento e treinamento, os sindicatos funcionam como espaços institucionais formalizados, que corroboram o modelo de treinamento adotado e a sua posição no sistema de hierarquia escolar que se vem consolidando dentro da astrologia.
Ao todo, existem cinco sindicatos localizados nos Estados de São Paulo, Pernambuco, Rio de Janeiro, Paraná e Goiás, sendo que apenas nos dois primeiros eles são oficializados. Merecem destaque as estratégias utilizadas por esses órgãos no sentido de tentar eliminar do mercado concorrentes não qualificados. Tais estratégias são específicas no processo de admissão de novos membros. Mantendo uma estreita ligação com as escolas e com as associações de astrólogos, os sindicatos têm definido critérios de seleção para os candidatos que desejam filiar-se. Com variações em relação à especificação dos pré-requisitos para admissão, esses sindicatos consideram astrólogos profissionais e aptos a se filiarem, aqueles indivíduos que estudaram em escolas reconhecidas ou, caso não estejam de posse do diploma, tenham sua competência profissional avaliada, através de prova, pelo próprio órgão.
Tanto o Sindicato dos Astrólogos do Estado de São Paulo SAESP quanto o Sindicato dos Astrólogos do Estado de Pernambuco Sinaspe e o Sindicato dos Astrólogos do Estado do Rio de Janeiro Sinarj têm regras próprias para definir quais escolas estariam aptas a formar astrólogos profissionais. No caso dos dois primeiros, o estatuto deixa claro que a idoneidade da instituição de ensino é auferida pelo seu currículo. Para o SAESP, por exemplo, as escolas reconhecidas são aquelas filiadas à Associação Brasileira de Astrologia ABA, órgão que, em São Paulo, tem sido reconhecido por muitas escolas. Para aqueles candidatos à admissão no SAESP que não tenham estudado em escolas filiadas à ABA, o estatuto do órgão estabelece os critérios básicos para a avaliação curricular, bem como os níveis de hierarquia previstos.
Ao contrário dos sindicatos de São Paulo e Pernambuco, o do Rio de Janeiro ainda não foi oficializado, mas já tem definidos os seus critérios de admissão. Para este órgão, serão candidatos aptos a se filiarem ao Sinarj aqueles astrólogos profissionais com formação em escolas cujos dirigentes forem profissionais sindicalizados, reconhecidos no meio astrológico e com competência para a formação de astrólogos. O currículo de formação dessas escolas deverá ser compatível com os requisitos internos do órgão. Assim como nos sindicatos oficializados, a admissão de astrólogos profissionais – caso não tenham sido formados por uma escola reconhecida – é feita através de uma prova que mede a competência profissional do candidato. Segundo entrevistas, o Sinarj é o órgão que tem promovido, nos últimos anos, o maior número de congressos e simpósios em âmbito nacional, fato que repercute positivamente para sua imagem e favorece o fortalecimento de canais de socialização profissional. Juntamente com esses congressos, o Sinarj tem se destacado pelos seus esforços no sentido de criar um currículo básico padrão para as escolas de astrologia. A idéia é fazer um amálgama dos currículos já existentes, aproveitando o currículo básico adotado pela Faculdade de Astrologia da Universidade Estácio de Sá.
O SAESP é o órgão que, através do seu estatuto, tem melhor definidos os pré-requisitos para admissão ao sindicato, possuindo os mais consolidados critérios de avaliação profissional. O Sinarj, atualmente, tem se destacado por promover um maior número de congressos nacionais, o que de certa forma contribui para a divulgação de novos trabalhos, fixação da idéia de quais seriam os melhores profissionais, enfim, para a unificação do campo profissional. Já o sindicato de Pernambuco é o que tem, segundo informações dos astrólogos entrevistados, maior legitimidade junto à comunidade astrológica pernambucana e ao público consumidor. Assim como nos outros dois casos, ele possui critérios definidos para a admissão dos candidatos, sendo que estes, ao se candidatarem, devem indicar a categoria a que querem pertencer. Os membros do sindicato são divididos em dois grupos que variam conforme a formação do astrólogo e sua atuação no mercado. Agrupadas na categoria de astrólogo simpatizante estão as pessoas que pesquisam astrologia, mas não querem atuar profissionalmente; já na categoria profissional estão aquelas que trabalham na área. Estas últimas têm sua filiação condicionada à avaliação curricular ou ao resultado da prova de qualificação.
O trabalho desenvolvido pelo Sinaspe no sentido de fixar sua autoridade, bem como tirar do mercado indivíduos não qualificados, merece destaque especial. Promovendo eventos que incluem a participação de astrólogos sindicalizados e do público consumidor, o Sinaspe tem conseguido, segundo depoimento de um astrólogo pernambucano, consolidar-se como um órgão legítimo de representação dos astrólogos e de avaliação da competência profissional dos mesmos. O presidente fundador do Sinaspe afirma que o grande volume de eventos, direcionados tanto para a comunidade geral como para os profissionais da astrologia, tem proporcionado um maior consenso, entre os astrólogos sindicalizados, sobre matérias específicas da astrologia, e tem ajudado a conscientizar o público consumidor sobre a importância de se contratar serviços de profissionais filiados ao órgão.
As estratégias utilizadas pelo Sinaspe têm conseguido repercutir junto ao público consumidor, consolidando, dentro do meio astrológico, sua autoridade como órgão de avaliação de competência na astrologia. Enquanto o sindicato de Pernambuco vem conseguindo demarcar de forma mais clara, especialmente para o público consumidor, os critérios de distinção entre profissionais qualificados e não qualificados que estão atuando no mercado, o SAESP e o Sinarj vêm tentando criar estratégias que possibilitem sua maior penetração e legitimação entre os astrólogos e o público consumidor. Através de jornais de astrologia, TV, rádio, ou até mesmo na imprensa escrita não especializada, os sindicatos buscam esclarecer a população sobre o serviço de astrologia e a importância de uma formação sólida para o exercício do mesmo.
Além dos trabalhos voltados para o público consumidor que visam tanto esclarecer sobre os serviços quanto demarcar áreas específicas de atuação, esses três órgãos criaram códigos de ética profissional, além de mecanismos internos (mas informais), que visam controlar a atuação dos astrólogos sindicalizados que estão trabalhando no mercado. Como não têm poder de fiscalização mais efetivo (poder este que caberia ao conselho profissional), os sindicatos adotaram as chamadas “cartas de advertência” direcionadas aos astrólogos filiados que foram alvo de alguma denúncia, infringiram o código de ética ou vêm, comprovadamente, “denegrindo a imagem da astrologia perante o grande público”. No Sinaspe, por exemplo, primeiro é feita uma advertência oral, em seguida uma advertência escrita e, dependendo da gravidade do caso, o astrólogo é suspenso ou desligado do sindicato o que, pelo menos no caso de Pernambuco, pode funcionar como uma cassação de licença.
A criação de códigos de ética, de mecanismos de advertência e o estabelecimento de critérios de avaliação de competência profissional podem, assim, ser descritos como estratégias de exclusão de profissionais não qualificados do mercado. Juntamente com as escolas de astrologia, os sindicatos têm assumido um papel importante na definição da autoridade profissional dentro do campo em formação. Essa aliança entre os sindicatos e as escolas, cujos certificados emitidos são avaliados e corroborados pelos sindicatos, tem sido uma estratégia importante para o grupo moderno que quer consolidar o seu modelo profissional como o modelo legítimo dentro da astrologia. Dada a tentativa de aproximação (mesmo que não seja admitida como intencional) com o tipo de treinamento e socialização adotado pelo campo profissional geral, e a definição do serviço astrológico como um serviço especializado, cujo conhecimento é baseado no modelo racional científico, essas instituições têm sido canais importantes de divulgação do novo modelo de organização da astrologia, modelo este que pode tornar essa ocupação candidata apta a se elevar ao status de profissão, título que, aliás, foi reconhecido recentemente, pois a astrologia está inscrita no catálogo nacional de profissões.
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Conclusão
No estado atual em que se encontra o processo de institucionalização da astrologia, a tentativa de consolidação de parâmetros normativos que estabeleçam um modelo de organização universal tem se dado em dois níveis: intra e intergrupos. Assim, as lutas travadas entre os diferentes grupos objetivam definir o lugar da astrologia (a que campo deve filiar-se) e institucionalizar um sistema estável de regras e valores, capaz de orientar a ação e interação dos indivíduos e demarcar as diferentes posições naquele espaço. Definidos internamente, os critérios de organização funcionariam como recursos, de maior ou menor eficácia, na luta intergrupos pelo controle dos padrões de conduta gerais do campo em formação.
O processo de institucionalização da astrologia, com regras estáveis e universais de organização, depende, sobretudo, da emergência de um sistema referencial interno acessível e compartilhado por todos os membros, que padronize as regras e os princípios de visão e divisão dentro do campo. Mas, se quisermos pensar a astrologia como uma ocupação em processo de profissionalização, não podemos esquecer que isto ocorre em um ambiente onde instituições similares já estão consolidadas e os recursos institucionais para a inserção já estão definidos. Não é por acaso que a adequação aos padrões legítimos de conformação, instituídos no campo profissional, tem sido um dos principais recursos utilizados pelos membros do grupo moderno para aumentar o potencial de legitimação da astrologia e consolidar sua autoridade profissional. A existência de um sistema credencial informal e a busca pela implementação de critérios de padronização do treinamento e socialização indicam que os astrólogos do grupo moderno vêm tentando reestruturar a astrologia com base nos critérios já consolidados no campo profissional.
Se o saber que se pretende monopolizar é fundamentado, realmente, na racionalidade científica, é algo que importa muito pouco neste momento. Aqui, o mais importante não é o caráter científico em si, mas sim, a forma como os indivíduos e os grupos trabalham no sentido de tornar real o potencial de inserção desse conhecimento específico no campo profissional institucionalizado.
(Recebido para publicação em agosto de 1999)
(Versão definitiva em novembro de 1999)
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